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ago 11

CAMINHOS DA PATRÍSTICA: O CONCÍLIO DE NICEIA – PARTE I

CONCÍLIO DE NICEIA

O CONCÍLIO DE NICEIA - 

PARTE I – PRIMEIRAS HERESIAS –

 *Por Luiz Antonio de Moura –

             Deonísio da Silva – Doutor em Letras pela USP – no seu “De onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, ensina que a palavra concílio, ou concelho, deriva do latim Concilium, que designa reunião, assembleia ou, ainda, como nos dias de hoje, divisão política e administrativa em Portugal. Ensina que “Ali eram feitos conciliábulos, conciliações e reconciliações, tal como hoje nos parlamentos. Nossa Senhora de Fátima tem este nome porque apareceu na vila de Fátima, no Concelho de Ourém, num lugarzinho muito pobre, conhecido como Cova de Iria[1]”.

            A celebração de grandes assembleias conciliares constitui uma marca em toda a história cristã, ao longo dos séculos não raro, de forma ecumênica. A ecumenicidade  do concílio indica a extensão universal da representatividade de uma assembleia e, consequentemente, a extensão da normatividade canônica das suas decisões[2].

            Hoje, e sem esgotar o tema, vamos tratar do primeiro concílio ecumênico da história da Igreja: o Concilio de Niceia, realizado no ano de 325, na cidade que lhe dá o nome. Esse concílio foi marcado por algumas especificidades interessantes: convocado por um imperador romano – Constantino, depois do fracasso de dois Sínodos; teve como missão debelar o incêndio doutrinário aceso com o surgimento de diversas heresias, cujo ápice foi a heresia defendida por Ário; causou enormes divisões no seio da Igreja, com excomunhão e exílios de bispos, inclusive de Eusébio de Cesareia, que, inicialmente, acolheu e apoiou as teses de Ário; formulou o credo niceno (Cremos num só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis).

              Não obstante, foi a primeira experiência de um grande debate teológico e doutrinário a partir do qual a Igreja perdeu o medo de enfrentar os desafios interna corporis, fazendo o que hoje conhecemos como “cortar na própria carne”. O período imediatamente anterior ao Concílio de Niceia foi pródigo na disseminação de teorias heréticas, na grande maioria, de natureza judaizante que não aceitava a divindade de Jesus e que queria a todo custo preservar a Shemá: “Ouve, ó Israel, O Senhor nosso Deus é o único Senhor(...)” (Dt 6, 4).

               A essência de todo o Antigo Testamento está fundamentada no monoteísmo – o Deus único e verdadeiro, criador de todas as coisas. Assim, o nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus Revelado; o Verbo de Deus encarnado trouxe ao mundo pós-ressurreição um intenso debate teológico, embora ainda sem esta conotação, com o objetivo de mostrar que Deus é um só e que Jesus, sob diversos enfoques, não é Deus.

               Com essa obsessão, diversas heresias foram tomando corpo, ou, em alguns casos, foram nascendo umas das outras.

              Não conseguiremos, aqui, enumerá-las todas, porém, vamos expor algumas das mais importantes verificadas no período pré-niceno, até chegarmos à teoria de Ário que, inevitavelmente, vai, então, desaguar em Niceia, com todo o aparato império-eclesial.

            A primeira heresia a ser enumerada é o docetismo: seus defensores afirmavam que Jesus tinha apenas a aparência humana, mas que, na verdade, era como se fosse um fantasma, não existia. Tudo não passava de uma aparência, ou seja, negavam a corporeidade de Jesus.

            O docetismo era uma corrente de pensamento bastante influenciada pelo gnosticismo para quem “a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação. Mais ainda: a matéria é radicalmente oposta ao espírito. São realidades contraditórias. Por isso, Deus, o espírito perfeitíssimo, transcendente, imutável e impassível, não pode, por nenhuma razão, assumir qualquer parcela de matéria. Em outras palavras, é impossível conceber a encarnação de Deus na matéria[3]”. Os gnósticos acreditavam ter atingido um elevado grau de conhecimento, acima do comum, que fazia com seus adeptos fossem tidos como avançados no conhecimento da divindade.

       Consideravam-se tão portadores de sublime conhecimento, que desprezavam a fé dos mais simples e humildes. Segundo os gnósticos, que, como dissemos influenciaram os docetistas, a salvação podia ser alcançada sem a fé no homem Jesus que, se era Deus, seu corpo real era o de um ser astral, celeste. Ou seja, seu corpo humano só podia ser aparente: Jesus, nada mais era do que um homem celeste, um fantasma.

           Em seguida, teremos os ebionismo:  Para estes, Jesus não era Deus, mas, sim, uma pessoa comum. Os ebionitas negavam a divindade de Jesus, porém, reconheciam-No como o Messias anunciado pela Lei e pelos profetas. Irineu de Lião torna-se o primeiro a enquadrar os ebionitas como heréticos, na obra Contra as Heresias, incluindo-os entre os gnósticos, devido às ligações deles (ebionitas), com Cerinto e Carpócrates, utilizando somente o Evangelho de Mateus e rejeitando o apóstolo Paulo, a quem acusavam de apostasia a respeito da Lei.  “Mesmo aqueles entre eles que aceitavam tivesse Jesus nascido de uma Virgem por obra do Espírito Santo, negavam sua preexistência como Verbo de Deus. Jesus seria homem predestinado por Deus que, no batismo, recebera o Filho de Deus, o Verbo-Sabedoria de Deus Pai[4]”.  

        Depois, vamos encontrar o adocionismo: Teódoto de Bizâncio, conhecido como “O Curtidor”, foi o primeiro a sistematizar e a defender o adocionismo, que assim estava fundamentado: Jesus era apenas um homem, puramente humano, nascido de uma Virgem e que, no momento do batismo, recebera uma força especial. O Papa Vitor excomungou Teódoto, mas ele continuou arregimentando adeptos, principalmente, dentre os judeus convertidos, haja vista a dificuldade que estes tinham para reconhecer e aceitar a divindade de Jesus. Para os adocionistas, Jesus era um homem dotado de extraordinária virtude e de quem Deus se servia para a implantação do seu Reino. Para eles, então, Jesus era um “homem de Deus” profundamente inspirado, possuído e conduzido pelo Espírito Santo.

              Não nos parece conveniente prolongar muito este texto, o que seria cansativo para os leitores. Assim, em breve, voltaremos e daremos continuidade às questões envolvendo o Concílio de Niceia que, de tão importante e significativo, ainda hoje, tantos séculos depois, exerce forte influência sobre o caminhar da Igreja. Por ora, é bom que os leitores atentem para que está sendo exposto.

                  Em breve estaremos retomando a marcha.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] SILVA, Deonísio da, De onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa - 17ª edição revista e atualizada, da Lexikon – Rio de Janeiro – 2014, pág. 116. [2] ALBERIGO, Giuseppe – História dos Concílios Ecumênicos – Paulus – São Paulo – 2012 – pág. 8. [3] FRANGIOTTI, Roque – História das Heresias – Conflitos Ideológicos Dentro do Cristianismo – São Paulo – 6ª reimpressão – 2013 pág. 27. [4] Idem, pág. 20.

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