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ago 11

CÍCERO: O ETERNO ORADOR ROMANO

MARCO TÚLIO CÍCERO

MARCO TÚLIO CÍCERO: UM PERSONAGEM ETERNIZADO PELA HISTÓRIA –

 *Por Luiz Antonio de Moura –

A maioria absoluta dos homens nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. Esta é a lógica da vida para a quase totalidade dos seres humanos. Entretanto, alguns homens, além desta lógica, são eternizados pela história e deles se pode dizer que, apesar do seu desaparecimento físico, seus feitos circulam entre nós todos os dias das nossas vidas, no meio intelectual, artístico ou mesmo espiritual.

O personagem de hoje, a figurar em qualquer galeria da história que se preze é ninguém menos que Marco Túlio Cícero, nascido em Arpino – alpestre burgo da Campânia – que teve uma infância até certo ponto nostálgica, tamanha a tranquilidade daqueles montes pátrios por onde corria ao lado de outros meninos, sem deixar transparecer o gigante que se tornaria mais tarde, quando da sua pena, da sua boca e do seu intelecto brotariam discursos inflamados e riachos de retórica, de filosofia, de religião, de ética, de gramática, de jurisprudência e de política, a inundar o Senado romano e a incomodar aqueles que exerciam o poder em proveito próprio.

Cicero viveu em uma Roma que dependia essencialmente da palavra e ele, como ninguém, dela se valia tanto para construir pontes, quanto para destruir montanhas de malfeitores. Versado nas ciências jurídicas, o advogado Cícero bem cedo tornou-se um homem de bem e um homem da lei, não pactuando com o crime e nem tendo conluio com os criminosos. Idealista, pensava que para os Romanos, como para si próprio, a liberdade importava em condição essencial da vida, levando-o a enfrentar o intrépido Marco Antonio por acreditar piamente que a instauração da República seria o fim de todos os males sintetizados pela ditadura, ficando registrado para posteridade o belo discurso de exortação: “Volta os teus olhos para a República – exorta ele a Marco António – congraça-te com ela e faze de mim o que te aprouver... Moço a defendi: na velhice não desertarei a sua causa. Afrontei os punhais de Catilina, não recuarei diante dos teus. De bom grado me sacrificarei, se a minha morte apressar a restauração da liberdade... Depois de tantas lutas e de tantas honras, padres conscritos, uma só coisa devo desejar: é que, à hora do meu último alento, desfrute o povo romano de sua plena liberdade; e será a maior mercê que me possam conceder os deuses imortais[1]”. 

Defendendo a ascensão de Octávio, em quem deposita todas as suas esperanças, por confiar absolutamente nos propósitos e nas afirmativas do sobrinho e sucessor de César, Cícero se faz fiador de sua conduta perante o Senado, assim se pronunciando: “Octávio – adjura ele – fez à pátria o sacrifício de todas as suas inimizades. Ela é o árbitro único de seus interesses, a conselheira de todas as suas ações. Se ele tomou nas mãos o timão do governo foi para sustenta-la e nunca para subvertê-la. Tenho conhecimento pessoal dos pensamentos desse moço, para quem nada há mais caro do que a república; mais respeitável do que a vossa autoridade; mais precioso do que a estima dos homens de bem; mais agradável do que a verdadeira glória; mais imperioso do que a salvação de Roma. Nisso empenho a minha palavra, padres conscritos, a vós, ao povo romano, à República. Prometo, protesto e garanto, Senadores, que Octávio será de futuro tão bom cidadão quanto o é hoje, quanto todos desejamos e esperamos que ele seja amanhã e sempre[2]”.

A inimizade construída com Marco António, vai custar a vida do orador inigualável, perseguido e afinal assassinado, nas cercanias de Fórnia, aos 64 anos de idade, emudecendo para sempre a grande voz do patriotismo vigilante. A cabeça e as mãos decepadas do tronco, assim como a língua traspassada por um grampo dos cabelos de Fúlvia, a bela e vingativa esposa de Marco António, foram conduzidas para Roma, para terror dos vencidos e escarmento dos recalcitrantes. Sobre a vida frutuosa de Cícero nunca se esgotam os dados e os arquivos construídos e protegidos pelo manto da história o que, como é óbvio, jamais poderíamos pretender.

Entretanto, e para o saboreio do leitor ávido por ouvir os ecos da história, exporemos aqui nesse limitado espaço, uma das orações mais famosas escrita e proferida por Marco Túlio Cícero, contra Lúcio Sérgio Catilina, descendente de família patrícia de Roma, que foi pretor e governador da província da África. De Catilina se pode dizer que pretendeu várias vezes o cargo de cônsul, sendo-lhe sempre negado, em razão dos insultos cometidos contra a República, rebelando-se contra Roma em várias oportunidades, insurgindo-se diretamente contra Cícero, que era cônsul naquele ano.

Chegando ao Senado Romano, para manifestar sua repulsa contra seus membros e, diretamente, contra o cônsul, foi enfrentado por Cícero que, de público, proferiu a seguinte oração:

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? Onde vai dar consigo tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as noturnas do Palatino, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bons, nem este seguríssimo lugar do Senado, nem a presença e o semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? Não vês a todos estes inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste? Oh tempos! Oh costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cônsul as vê, e ainda assim vive semelhante homem! (...) Portanto, Catilina, que podes mais esperar, se nem a noite com suas trevas pode encobrir teus iníquos congressos, nem a casa mais retirada conter com suas paredes a voz da tua conjuração? Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a público? Crê-me o que te digo: muda de projeto, esquece-te de mortandades e incêndios; por qualquer parte te haveremos às mãos. Todos os teus desígnios são para nós mais claros que a luz, o que bem é reconheças comigo. Não te lembras do que eu disse no Senado em vinte e um de outubro, que Mânlio, ministro e sócio das tuas maldades, havia estar armado em certo dia, cujo dia havia ser o vinte e seis do mês? Escapou-me pois, Catilina, não só uma coisa tão atroz e incrível, mas nem ainda o dia? Eu mesmo disse que tu deputaras o dia vinte e seis de outubro para a mortandade dos nobres; e então foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poderás porventura negar-me que naquele próprio dia, por estares rodeado de minhas guardas e das minhas diligências, te não pudeste mover contra a República, quando, retirando-se os mais, disseste que te contentavas com a minha morte? E quando esperavas tomar a Preneste por assalto de noite, no primeiro de Novembro, não achaste aquela colônia municionada com minhas ordens, e com meus presídios, guardas e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu não só ouça, mas veja e penetre claramente. (...) Sendo tudo isto assim, Catilina, prossegue o que principiaste, vai-te enfim da cidade, abertas estão as portas, anda; muito há te desejam por general aqueles teus arraiais de Mânlio; leva contigo todos os teus, ou ao menos muitos deles, alimpa-nos esta corte; de grande temor me livrarás, quando entre mim e ti estiver o muro da cidade; já não podemos mais viver contigo, nem eu posso sofrer, tolerar, consentir. Infinitas graças devo dar aos deuses imortais, e a este mesmo Júpiter Stator, antiquíssimo protetor desta cidade, de ter tantas vezes escapado a esta tão horrível, torpe e prejudicial peste da República. Não convém que por causa de um homem perigue muitas vezes a República. Enquanto me armas traições, Catilina, sendo eu cônsul destinado, não me defendi com guardas públicas, mas com diligências particulares; quando nos próximos comícios consulares me quiseste matar, reprimi teus perversos intentos com o socorro dos amigos e soldadesca, sem tumulto algum; enfim todas as vezes que me acometeste, pessoalmente te resisti, posto que visse andar a minha ruína emparelhada com grande calamidade da República; agora já acometes abertamente toda a República, os templos dos deuses eternos, as casas de Roma, as vidas dos cidadãos, e em uma palavra, tocas a arruinar e destruir toda a Itália.(...) E que vida é ao presente essa tua? Falarei agora contigo, não como agastado com a ira que devo, mas movido da compaixão que não mereces. Há pouco chegaste ao Senado; em um tão grande Congresso, qual de teus amigos ou parentes te saldou? (...) Com estes prognósticos e sumo proveito da República parte já, Catilina, em essa tua pestilencial quadrilha de protervos, que se te agregaram com todo o gênero de maldades e parricídios para essa ímpia e execranda guerra. Então, Júpiter Stator, que aqui foste colocado por Rómulo com os mesmos auspícios com que fundou esta cidade, e a quem com verdade chamamos Stator desta corte e Império, o apartarás e a seus sócios de teus altares e templos, dos edifícios da cidade e seus muros, das vidas e bens dos cidadãos, e a todos os inimigos dos bons, a todos os adversários da pátria, a todos os ladrões da Itália, juntos entre si com o vínculo de seus delitos e abominável sociedade, vivos e mortos os castigarás com eternos suplícios[3].”

Em outro tempo, e num momento mais propício, destacaremos outras partes da oração dirigida a Catilina, que é composta por cinco partes. Por ora é o que basta para incitar no leitor o desejo de entrar na biblioteca mais próxima e buscar por mais orações e discursos escritos e proferidos por Marco Túlio Cícero.

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 *Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] ORAÇÕES – Clássicos Jackson – Volume II – Rio de Janeiro – 1948, pág. XVI [2] Ob. Cit. pág. XVI. [3] Ob. Cit. págs. 215-226.

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