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jun 26

CONCÍLIO VATICANO II

   CONCÍLIO VATICANO II

GAUDIUM ET SPES – SOBRE A IGREJA NO MUNDO DE HOJE – PARTE II 

                  Hoje, estamos prosseguindo com a publicação dos principais trechos daquela que é considerada como o pilar de todo o Concílio Vaticano II – a Constituição Pastoral Gaudium et Spes – cuja principal abordagem é a condição do homem, e, portanto, da Igreja, no mundo de hoje. Vimos as partes mais importantes da introdução, por meio da qual SS. o Papa Paulo VI, revelando a preocupação da Igreja, não apenas com o destino final do homem, mas, e sobretudo, com sua estada no mundo presente, e demonstra todo o zelo e preocupação da Igreja de Roma. Agora, entramos na primeira parte propriamente dita, iniciando pelo capítulo que tratada da:

PRIMEIRA PARTE

A IGREJA E A VOCAÇÃO DO HOMEM

O povo de Deus, levado pela fé com que acre­dita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, o qual en­che o universo, esforça-se por discernir nos aconteci­mentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os ver­dadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus. Porque a fé ilumina todas as coisas com uma luz no­va, e faz conhecer o desígnio divino acerca da voca­ção integral do homem e, dessa forma, orienta o es­pírito para soluções plenamente humanas.

0 Concilio propõe-se, antes de mais, julgar a esta luz os valores que hoje são mais apreciados e pô-los em relação com a sua fonte divina. Tais valores, com efei­to, na medida em que são fruto do engenho que Deus concedeu aos homens, são excelentes, mas, por causa da corrupção do coração humano, não raro são desviados da sua reta ordenação e precisam ser purificados.

Que pensa a Igreja acerca do homem? Que reco­mendações parecem dever fazer-se, em ordem à cons­trução da sociedade atual? Qual é o significado último da atividade humana no universo? Espera-se uma res­posta para estas perguntas. Aparecerá então mais cla­ramente que o povo de Deus e o gênero humano, no qual aquele está inserido, se prestam mútuo serviço; manifestar-se-á assim o caráter religioso e, por isso mes­mo, profundamente humano da missão da Igreja.

CAPÍTULO I

A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

Tudo quanto existe sobre a terra deve ser or­denado em função do homem, ccmo seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não crentes.

Mas, que é o homem? Ele próprio já formulou, e continua a formular, acerca de si mesmo, inúmeras opi­niões, diferentes entre si e até contraditórias. Segun­do estas, muitas vezes se exalta até se constituir nor­ma absoluta, outras se abate até ao desespero. Daí as suas dúvidas e angústias. A Igreja sente profundamen­te estas dificuldades e, instruída pela revelação de Deus, pode dar-lhes uma resposta que defina a verdadeira condição do homem, explique as suas fraquezas, ao mesmo tempo que permita conhecer com exatidão a sua dignidade e vocação.

A Sagrada Escritura ensina que o homem foi cria­do “à imagem de Deus”, capaz de conhecer e amar o seu criador, e por este constituído senhor de todas as criaturas terrenas,1 para as dominar e delas se servir, dando glória a Deus.2 “Que é pois o homem, para que dele te lembres? ou o filho do homem, para que te preocupes com ele? Fizeste dele pouco menos que um anjo, coroando-o de glória e de explendor. Estabeleceste-o sobre a obra de tuas mãos, tudo puseste sob os seus pés” (SI 8,5-7).

Dgus, porém, não criou o homem sozinho: desde o princípio criou-os “varão e mulher” (Gn 1,27); e a sua união constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. Pois o homem, por sua própria natureza, é um ser social, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros.

Como também lemos na Sagrada Escritura, Deus viu “todas as coisas que fizera, e eram excelentes” (Gn 1,31).

Estabelecido por Deus num estado de santi­dade, o homem, seduzido pelo maligno, logo no come­ço da sua história abusou da própria liberdade, levan- tando-se contra Deus e desejando alcançar o seu fim fora dele. Tendo conhecido a Deus, não lhe prestou a glória a ele devida, mas obscureceu-se o seu coração insensato e serviu à criatura, preferi,ndo-a ao criador.3

E isto que a revelação divina nos dá a conhecer, concorda com os dados da experiência. Quando o ho­mem olha para dentro do próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal, e imerso em muitos ma­les, que não podem provir de seu Criador, que é bom. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como seu prin­cípio, perturba também a devida orientação para o fim último e, ao mesmo tempo, toda a sua ordenação para si mesmo e para os demais homens.

0 homem encontra-se, pois, dividido em si mesmo, E assim, toda a vida humana, quer singular quer cole­tiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mais: o homem descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias. Mas o Senhor em pessoa veio, para li­bertar e fortalecer o homem, renovando-o interiormen­te e lançando fora o príncipe deste mundo (cf. Jo 12, 31), que o mantinha na servidão do pecado.4 Porque o pecado diminui o homem, impedindo-o de atingir a sua plena realização.

A sublime vocação e a profunda miséria que os homens em si mesmos experimentam, encontram a sua explicação última à luz desta revelação.

0 homem, ser uno, composto de corpo e alma, sintetiza em si mesmo, pela sua natureza corporal os elementos do mundo material, os quais, por meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livre­mente o Criador.5 Não pode, portanto, desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há de ressuscitar no último dia. Todavia, ferido pelo pecado, experimenta as revoltas do corpo. É, pois, a própria dignidade humana que exige que o homem glorifique a Deus no seu corpo,6 não deixando que este se escravize às más inclinações do próprio coração.

Não se engana o homem, quando se reconhece por superior às coisas materiais e se considera como algo mais do que simples parcela da natureza ou anônimo elemento da cidade dos homens. Pela sua interioridade, transcende o universo das coisas: tal é o conhe­cimento profundo que ele alcança quando reentra no seu interior, onde Deus, que perscruta os corações7 o espera, e onde ele, sob o olhar do Senhor, decide da própria sorte. Ao reconhecer, pois, em si uma alma es­piritual e imortal, não se ilude com uma enganosa cria­ção imaginativa, mero resultado de condições físicas e sociais; atinge, pelo contrário, a verdade profunda das coisas.

                        Na próxima edição daremos prosseguimento ao trabalho, com a publicação de alguns dos trechos mais importantes da Constituição em referência, a fim de que todos os cristãos possam ter pleno conhecimento sobre este que é considerado como o documento mais importante da Igreja editado em todo o século XX.

___________________________________________ 1 Cf. Gn 1,26; Sb 2,23. 2 Cf. Ecl 17,3-10. 3 Cf. Rm. 1,21-25. 4 Cf. Jo 8,34. 5 Cf. Dn 3,57-90. 6 Cf. ICor 6,13-20. 7 Cf. lRs 16,7; Jr 17,10.

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