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abr 25

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – PARTE II

A BÍBLIA COMO MENSAGEM

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CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – GÊNESIS 1, 1-2 –

PARTE II –

*Por L. A. de Moura – 

Inicialmente, é importante destacar que a composição de todo o Pentateuco – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – assim como grande parte do AT, decorre da narrativa de Tradições muito diferentes e distantes do tempo umas das outras. Dentre estas tradições, podemos destacar: a Javista, a Eloísta e a Sacerdotal. A primeira e a segunda são assim denominadas, por ser a forma como Deus era conhecido – Javé e/ou Eloim. A sacerdotal é uma tradição proveniente de toda uma linhagem de sacerdotes, normalmente de forma hereditária que, ao longo dos séculos, foi se consolidando na narrativa, por meio da escrituração, de fatos mais antigos.

Daí decorrem narrativas diferentes sobre um mesmo fato; vamos encontrar narrativas de um mesmo fato em Livros distintos e assim sucessivamente. Não devemos nos impressionar com estas diferenças, pois, conforme já destacamos, existe uma mensagem fundamental a ser transmitida. E é esta mensagem que interessa ao leitor médio da Bíblia. Leitor médio é aquele que lê para adquirir algum conhecimento e para fortalecer a fé, individual ou comunitária. Existem, é claro, os leitores estudiosos e pesquisadores da Bíblia que, necessariamente, vão aprofundando seus estudos da forma mais científica possível, até o ponto de debater o significado das palavras tanto na escrita original – hebraico ou aramaico – como no grego ou no latim.

O caso, porém, aqui, é apenas de aquisição de um conhecimento mediano, de modo a facilitar a familiarização com os textos e suas mais explícitas mensagens.

Dito isto, pensemos em Gn 1 e 2: Ao ler o capítulo 2, você certamente percebe que ele relata novamente, e com outros argumentos, toda a Criação dando, no entanto, maiores detalhes sobre a criação do homem e da mulher.

Bem, não se surpreenda ao saber que a primeira versão da Criação – Gn 1 – é posterior à segunda versão, descrita no Cap. 2. Pois aí mesmo vamos encontrar narrativas de duas Tradições diferentes: a primeira, é Sacerdotal. Esta tradição já detém alguns conhecimentos gregos sobre os astros e sobre o cosmos. Fala-se sobre uma divisão cósmica: céu e terra; fala-se sobre um abismo; sobre o firmamento; sobre o dia e a noite; sobre luzeiros e estrelas no firmamento; sobre os mares, com água em abundância. Depois, são criados animais, peixes, aves e, por fim, o primeiro casal: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”; “E criou-os varão e fêmea”.

Esta narrativa decorre da visão que os autores tinham acerca de toda a estrutura do mundo então conhecido já pelos gregos que, da terra, olhavam para o céu – firmamento – e observavam as estrelas e os dois grandes luzeiros – o Sol e a Lua. Além de observarem, também, a vida de todas as espécies sobre a terra. O contexto desta narrativa é o cenário no qual parte da humanidade, então conhecida, tinha os olhos voltados para o paganismo da Mesopotâmia, onde eram cultuados diversos deuses: prestavam culto ao deus Sol; à deusa Lua; ao deus dos mares; aos deuses e deusas da fertilidade etc. Os autores da Tradição Sacerdotal, portanto, inspirados por Deus, narram dentro de uma certa ordem e de uma lógica, a Criação de todas as coisas. Para estes autores, não se tratava de um deus Sol. O Sol é criação do Deus único; não existia deus da fertilidade: o Deus único criou o homem e a mulher e deu-lhes o poder de procriar etc. Todos os demais seres, independentemente de deuses próprios, foram criados por um único e mesmo Deus, Senhor da vida.

Percebem? A narrativa é escrita em um contexto no qual são combatidos os cultos aos deuses mesopotâmicos e, futuramente, babilônicos. É dirigida a um povo que ainda oscilava entre o Deus único e os deuses pagãos, em razão das reverenciadas maravilhas que realizavam. A mensagem é clara: revelar que tudo o que existe foi criado por um único e verdadeiro Deus. Então, de posse dos conhecimentos que detinham, os autores sagrados elaboram a narrativa do Gênesis, Cap. 1.

O texto do Gênesis, capítulo 2, é uma narrativa, cujos versículos de 1-4a, ou, como em alguma Bíblias, de 1-3, pode ser compreendida, também, como procedente da tradição sacerdotal. Residindo aí, talvez, a razão de o capítulo iniciar falando que “Assim foram acabados o céu e a terra, e todos os seus ornatos”, permitindo concluir que se trata de uma continuidade do capítulo 1. Parece haver aqui, neste inicio, uma mescla de tradições. O que, no momento, não é relevante para nós.

A partir do versículo 4b, ou simplesmente 4, a narrativa é mais antiga e provém da Tradição Javista. É uma tradição que, provavelmente, não se debruça sobre conhecimentos de outros povos, mas, atribui tudo a Javé, o Deus que conhecem e sobre o qual já ouviram muitas histórias.

Observe-se que, enquanto em Gn 1 existe verdadeira abundância de água, aqui, em Gn 2, não existe água. Apenas uma fonte que saía da terra. Toda a água necessária para dar vida às ervas e às árvores, provinha da chuva, da água caída do céu. Assim, afirma o autor do Gn 2: “o Senhor Deus não tinha (ainda) feito chover sobre a terra”.

Observe-se que, se em Gn 1 a narrativa afirma ter dito Deus “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, criando-os macho e fêmea, aqui, em Gn 2 o autor sagrado trata de esboçar um modelo de criação para o homem: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente”.

É narrada a criação de “um paraíso de delícias”, com todas as árvores frutíferas imagináveis, sendo duas especialmente identificadas pelo autor sagrado: a árvore da ciência do bem e do mal e a árvore da vida.

Esclarece, também, o autor sagrado que Deus formou da terra “todos os animais terrestres”, para apresentá-los ao primeiro homem, para ver se ele identificava algum que lhe pudesse servir de companhia.

Por último, então, não encontrado o homem nenhum animal que lhe pudesse servir de companhia, é narrado todo um procedimento para explicar como teria acontecido a criação da mulher. Vejam: em Gn 1, um autor sagrado portador de maiores conhecimentos, afirma, simplesmente, que Deus criou-os “varão e fêmea”, enquanto o autor mais antigo, mais primitivo, elabora todo um processo para tentar explicar a mensagem que queria transmitir.

No versículo 19, do cap. 2, o autor sagrado vai nos contar que Deus tira da terra, também, e não apenas o ser humano, mas os animais terrestres e todas as aves do céu para apresentá-los ao homem.

Ora, vejamos bem: Deus cria o homem e todos os animais e todas as aves. No entanto, apenas ao homem ele permite que escolha a sua companheira dentre todos os animais. Aqui, podemos verificar que Deus põe à prova a razão, o raciocínio com que dotara o homem. É óbvio que dentre todos os animais e dentre todas as aves, não havia qualquer um que se ajustasse ao homem, enquanto espécie. Mas, Deus queria ouvir isto da boca do próprio homem. E, então, ele afirma não ter encontrado nenhum animal que a ele se ajustasse. Deus, então, cria a mulher. Um ser da mesma espécie do homem: ambos são humanos.

Após estes pequenos comentários, o que podemos afirmar com segurança, é que Deus é o autor da vida. Tirar do barro da terra, pode ser uma imagem que nos diga que a matéria está aí, em todos os cantos, inclusive, na terra, e por excelência, mas, a vida não. A vida provém de Deus. Único que pode doá-la. E assim foi feito, desde o princípio.

Bem, como pode ser visto, tanto o capítulo 1, quanto o capítulo 2, são narrativas sobre um mesmo evento: a Criação de todas as coisas e de todos os seres por Deus.

Você verificou, pois, tratarem-se de narrativas diferentes, dirigidas ao povo de Deus, um povo mais antigo e outro bem mais moderno. Em contextos absolutamente distintos tendo, no entanto, uma única mensagem a ser transmitida: Deus é o autor da Criação. Todas as coisas, a partir do ponto comum VIDA, foram criadas por Deus.

Nada de deuses A, B, C ou D. Nada de cultos a deuses estranhos ou mesmo oferta de sacrifícios, porque, Deus é único.

Acredito que você, a partir desta pequena e humilde análise, tenha percebido o que ocorre em toda a Bíblia. Por trás de um enorme pano de fundo, existe uma MENSAGEM DIVINA. E é esta mensagem que os autores sagrados, sempre, querem passar para os seus leitores, da época e, por fim, de todas as épocas.

Ao ler a Bíblia você poderá compreender rapidamente as palavras sem, no entanto, compreender, com exatidão a mensagem transmitida. Aí é que entra a leitura permanente, o estudo sob a orientação de um Padre, de um Pastor bem formado, de um Teólogo ou de um biblista. Pessoas habilitadas a ajudarem você a uma melhor compreensão. Mas, no fundo, no fundo, é só o Espírito de Deus quem pode plantar no seu espírito e na sua alma a verdadeira compreensão de tudo o que está escrito. Reflita sobre tudo isto e, nunca se esqueça: sozinho(a) nesta tarefa, você não conseguirá vencer todos os desafios, porque são muito grandes e complexos. Porém, com persistência, paciência, boa vontade, constância e auxílio, você conseguirá. Seja feliz, e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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