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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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mai 06

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – PARTE IV (VD5)

CAIM MATA ABEL

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ACESSE: https://youtu.be/2DQUxyzlgxg

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – GÊNESIS 1, 4 –

PARTE IV –

*Por L. A. de Moura –

O que podemos falar sobre o Capítulo 4, do Livro do Gênesis? Há muito o que falar. Inicialmente, é bom recordarmos que, nos capítulos anteriores, tivemos a oportunidade de examinar detidamente a Criação. A Terra, o firmamento, ás águas, os luzeiros, o Sol e a Lua, as Estrelas. Vimos que Deus cuidou de povoar a Terra com aves e animais terrestres. Os mares com os peixes de todas as espécies. Preocupou-se em criar a humanidade, na figura de Adão e Eva, à sua imagem e semelhança. Colocou este ser humano em jardim de delícias. Deu-lhe plenas condições para uma vida permanente e absolutamente digna.

No entanto, veio o inimigo e tratou de tirar o ser humano do seu conforto primordial, e leva-o a ser expulso daquela terra de jardins e de pomares. Falamos, também, sobre a estrutura mítica na qual o autor sagrado constrói seus escritos, a partir de narrativas de tradições distintas e distantes umas das outras no tempo e no espaço.

Ao final do Capítulo terceiro do Livro do Gênesis, Deus expulsa o ser humano do Jardim do Éden, lançando-o em um mundo hostil, cheio de dramas e de amarras, onde ele não encontra mais, nem a paz nem a tranquilidade para viver. Lugar onde ele, ser humano, passaria pelas experiências do sofrimento, das dores dos partos, da exposição à morte, da necessidade de trabalhar para comer o pão de cada dia. Enfim, a partir de então, o ser humano expõe-se à sujeição do bem e do mal que, para ele, não é desconhecido.

Tudo isto é fruto de narrativas construídas, ainda, no período do exílio, quando o ser humano é levado a se questionar fortemente sobre as razões verdadeiras que tiraram-no da sua terra, dos seus entes queridos, da sua vida plena e abundante, para ser lançado no trabalho forçado – produzir para o próprio sustento – longe do seu “paraíso inicial”.

Pois bem, o Capítulo 4 inicia com a notícia de que Adão conheceu sua mulher Eva, “a qual concebeu e deu à luz Caim, dizendo: possuí um homem por (auxílio de) Deus”. (Gn 4, 1). Depois, foi a vez de Abel vir à luz, também.

Observe-se que, já na primeira manifestação de Eva, no parto de Caim, ocorre uma espécie de sentimento de divindade por parte da mulher: “possuí um homem com o auxílio de Deus”, como se a vida tivesse origem nela, e não, no próprio Deus. Resquícios dos olhos abertos para o bem e para o mal, sentindo-se como deuses. As consequências desta espécie de prepotência virão depois, sobre Caim, que será motivo de dor e de angústia para o ser humano.

Observe-se, também, que, quando do nascimento de Abel, Eva já não falará da mesma forma. Já não se arvorará em afirmar ter possuído nenhum homem. O autor sagrado vai revelar que Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador. Um cuidava dos rebanhos, o outro, cultivava a terra. Duas culturas diferentes. Por meio do autor sagrado, tomamos conhecimento de que, tanto Abel, quanto seu irmão, Caim, ofereceram a Deus os frutos dos seus trabalhos. No entanto, Deus se agrada mais da oferta de Abel, do que da de Caim. Esta, a de Caim, o Senhor Deus rejeita. Não quer receber!

Novamente precisamos retornar ao final do Capítulo 3, para ouvir da boca de Deus que o homem terá que suar, no cultivo da terra, para conseguir o pão de cada dia. Portanto, Deus sabe que o fruto da terra é decorrência do trabalho pesado, sujeito às intempéries do tempo – muito sol, pouca chuva, ou vice-e-versa – e sabe, também, que cuidar do rebanho é trabalho mais ameno, mais suave, não depende das condições climáticas, não exige o suor do rosto, mas, apenas, um cajado e um caminhar. Deus sabe que o fruto da terra é produção que alimenta a família no dia-a-dia e que, a felicidade do lavrador, do agricultor, como Caim, é levar para a cabana, ou caverna, todos os dias, o fruto do seu trabalho. Por esta razão Deus rejeita a oferta de Caim.

Caim, no entanto, fica magoado, ofendido, triste, decepcionado. Sente-se enciumado. Deus percebe aquele estado de espírito acabrunhado e pergunta: “Por que estás irado? E por que está abatido o teu semblante?”. Ao mesmo tempo o Senhor procura consolar Caim, afirmando que se ele trabalhar bem, receberá o prêmio pela luta suada; se, no entanto, trabalhar mal, receberá igualmente a paga, demonstrando a ele que, se a terra produziu e se ele pode colher é porque trabalhou bem e, como quem diz, “compreenda o que te digo e domina este teu temperamento”.

Veja você, prezado leitor, prezada leitora, como Deus é magnânimo: deixa de receber a oferta de Caim porque não quer deixá-lo à mingua, haja vista que sua produção é limitada, sofrida, demorada e necessária para o sustento da família. Seria o mesmo que um de nós recusasse receber o pão com manteiga do pobre mendigo, mas aceitasse o sanduíche de queijo do jovem rico. É claro e evidente, que ao deixarmos de receber o pão com manteiga doado pelo pobre, não o estamos desprezando, mas, protegendo seu único meio de sobrevivência, enquanto o outro, o jovem rico, tem infinitas possibilidades de se alimentar.

Mas Caim não enxerga sob este prisma e, sentindo-se infeliz e inútil, desprezível mesmo, chama o irmão para um passeio no campo e, ali, tira-lhe a vida, manchando a terra, pela primeira vez, com o sangue humano. A terra que produz é, também, a que sacrifica a vida. Tudo, fruto da incompreensão, da ignorância, da inveja e do sentimento de poder contra tudo e contra todos. Quando Deus o interpela, querendo saber sobre Abel, ouve de Caim uma resposta ríspida: “Não sei. Porventura sou eu o guarda de meu irmão?”.

O sangue mancha a terra e clama por Deus. Agora a terra será maldita, diz o Senhor. “Quando a cultivares, ela não te dará os seus frutos; serás vagabundo e fugitivo sobre a terra”. A terra, manchada pelo sangue do justo, assim como o paraíso maculado pelo pecado, já não sorri mais para o ser humano. Aí, neste ambiente, ele colherá, também, o sacrifício, o ódio e a vingança. Não é em vão que Caim fala para Deus: “Eis que hoje tu me expulsas desta terra, e eu me esconderei da tua face, e serei vagabundo e fugitivo na terra; portanto, todo o que me achar, me matará”. Não será assim, diz o Senhor, “mas, qualquer um que matar Caim será castigado sete vezes mais. E o Senhor pôs um sinal em Caim, para que não o matasse qualquer um que o encontrasse”

Nós, aqui, já estamos nos acostumando a buscar, na essência, a mensagem que o autor sagrado quer passar. Então, já compreendemos que ele quer mostrar, dentre outras coisas, o infinito amor de Deus para com o ser humano, mesmo quando marcado pelo pecado. Caim, tal qual seus pais, também é expulso da sua terra, do seu pequeno paraíso, para sair errante pelo mundo. Não, sem antes receber do Senhor uma proteção.

Adão e Eva representam a espécie humana. Quando o autor sagrado afirma que Deus criou o homem, na verdade está dizendo que “criou a humanidade”. Adão e Eva, apenas, representam o homem e a mulher. Nos primeiros versículos do Capítulo 5, vamos encontrar o autor sagrado recordando a criação do ser humano, afirmando que Deus, quando criou o homem “Criou-os macho e fêmea, e abençoou-os; e deu-lhes o nome de Adão no dia em que foram criados” (Gn 5, 2).

Isto explica a razão de o versículo 17, do Capítulo 4, afirmar que “Caim conheceu sua mulher, a qual concebeu e deu à luz Henoc. E edificou uma cidade”. Caim funda a cidade, com todos os seus percalços. Da cidade o triunfo das descobertas, do produzir armas e ferramentas em larga escala; da cidade, a competição com o campo. Em Caim, a origem da violência, da vocação para a disputa e para a competição. A partir da cidade, o Livro do Gênesis começa a traçar os caminhos das genealogias, das origens.

Por último, já no final deste mesmo capítulo 4, o autor sagrado afirma que Adão e Eva tiveram outro filho. Aqui, a mulher já não diz que “possuí um homem com o auxílio de Deus”, mas, “O Senhor deu-me outro filho em lugar de Abel, que Caim matou” e aí, segue-se uma extensa genealogia, sobre a qual falaremos na sequência.

Por ora, paramos por aqui, para não cansar demais o leitor e a leitora. Esperamos que esteja valendo à pena e que vocês estejam ao menos começando a compreender um pouco melhor as entranhas e as entrelinhas da Bíblia. É difícil, sim, no início, mas, depois, tudo será mais tranquilo. Até porque a sistemática é sempre a mesma: narrativas vindas de tradições diferentes e de diferentes épocas; sentido figurativo e simbologias míticas. Enfim, tudo sobre o que já comentamos. Não desista, vamos em frente. Em breve retomamos nossas conversas. Seja feliz, e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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