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fev 01

DEUS EXISTE?: DEBATE ENTRE UM TEÓLOGO CRISTÃO E UM FILÓSOFO ATEU

DEUS EXISTE

QUESTÃO POSTA NO CENTRO DA MESA: DEUS EXISTE?

Por mais estranha que a pergunta possa soar aos ouvidos, principalmente, daqueles que, de alguma forma, professam a fé e prestam o culto ao Deus único, ela foi objeto de intenso debate público entre o então Cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo e jornalista italiano, e ateu, Paolo Flores D’Arcais, ocorrido no teatro Quirino, em Roma, em 21 de fevereiro de 2000, com a mediação do judeu Gad Lerner.

Deste intenso debate, que durou cerca de duas horas e meia, com transmissão pública para a rua, por meio de amplificador improvisado, resultou o enfrentamento de temas polêmicos como o conflito entre a fé e a razão, os valores comuns entre cristãos e ateus, a derrota do comunismo, o papado de João Paulo II, dando origem ao livro editado sobre o tema central do debate – “Deus Existe?”[1].

Nesta oportunidade, e n’outras que se fizerem presentes, vamos publicar alguns trechos deste verdadeiro embate entre titãs, sabendo-se, de antemão que, do então Cardeal Ratzinger, ao menos, diz-se ser um maiores Teólogos do século XX.

O mediador – Gad Lerner – inicia seu mister enfatizando a inconveniência do título escolhido para um debate público que, no entanto, “se assemelha mais a certas disputas medievais – pela brutalidade da pergunta proposta – que a nossas conversas televisivas mais ou menos superficiais”.

Gad Lerner: E então, entre os dois interlocutores a quem cederei a palavra imediatamente, podemos logo apontar um traço em comum, que de alguma maneira transforma sua intransigência mútua em algo especular, se não em algo comum. Ou seja, por parte de ambos, o repúdio a uma religiosidade de compromisso, o repúdio a um Deus feito sob medida, construído sob nossa pró­pria medida por cada um de nós, para o cuidado de nosso próprio corpo e de nossa própria alma, sem pensar muito no alheio ou no transcendente, ou seja, sem considerarmos a fundo o pro­blema da verdade.

Essa religiosidade de compromisso está muito difundida, como vocês sabem. O rótulo que ostenta em nossas sociedades opu­lentas, na maioria das vezes, é o rótulo da new age e também de uma determinada ideia do budismo. O relativismo que a ani­ma foi fortemente criticado por meus interlocutores nos textos que ambos publicaram na MicroMega, e, portanto, neles há, acima de tudo, essa necessidade de adequar-se ao absoluto da verdade. Mas ao ceder-lhes a palavra para este debate, gostaria de perguntar-lhes, também: de onde nasce, então, partindo de pon­tos de vista tão distantes, a necessidade recíproca de se falar; onde se origina? Pergunto isso principalmente a Sua Eminên­cia o cardeal Ratzinger.

Joseph Ratzinger: Nasce do fato de que nós, os crentes, acre­ditamos que temos algo a dizer ao mundo, aos outros, que a questão de Deus não é uma questão privada, entre nós, de um clube que tem seus interesses e faz seu jogo. Pelo contrário, es­tamos convencidos de que o homem precisa conhecer Deus, estamos convencidos de que em Jesus surgiu a verdade, e a ver­dade não é a propriedade privada de alguém; deve ser compar­tilhada, deve ser conhecida. E, por isso, estamos convencidos de que justamente neste momento da história, de crise da reli­giosidade, neste momento de crise inclusive das grandes cultu­ras, é importante que nós não vivamos só no interior de nossas certezas e de nossas identidades, mas que nos exponhamos realmente às perguntas dos outros. E com essa disponibilida­de e essa franqueza, no encontro recíproco, tentamos explicar tudo o que a nós parece razoável, e mais ainda, necessário para o homem.

Gad Lerner: Sr. Paolo Flores d’Arcais: “razoável e necessário”. Isso é Deus, isso é a fé, para o homem, diz o cardeal Ratzin­ger, que também, em seu escrito publicado na MicroMega, insiste na racionalidade, se me permite assim dizer, do cris­tianismo.

Paolo Flores d Arcais: Em um debate com estas características há uma grande assimetria, porque o crente está interessado em converter o não crente - está interessado no sentido mais elevado do termo, obviamente. Por outro lado, o ateu não está interessado em absoluto em convencer o crente da ine­xistência de Deus, não tem nenhum interesse em conseguir que alguém perca a fé. E então, por que também um ateu está profundamente interessado na fé e, acima de tudo, no tipo de fé de quem a pratica? Porque ser ateu - palavra que alguns consideram de mau gosto - (mas por que não se deve dizer sobriamente o que se é?), ser ateu significa simplesmente con­siderar que tudo entra em jogo aqui, em nossa existência, finita e incerta. E, portanto, que são importantes os valores que se escolhem nesta existência, a coerência entre os valores que se es­colhem e a própria conduta. E justamente porque tudo entra em jogo aqui, no horizonte desta existência, sobre essa base é que se estabelecem as alianças, as solidariedades, os conflitos e os choques.

E então, do ponto de vista dos valores que se escolhem, e prin­cipalmente da possibilidade de uma convivência baseada na tolerância, ou seja, no respeito mútuo, o tipo de religião prati­cada por quem crê não é indiferente. Se a fé de um cristão é a das primeiras gerações, que se resume em uma frase que não se sabe quem realmente a pronunciou - embora seja atribuída a Tertuliano[2] mas que constitui o sentir comum das primei­ras gerações de cristãos - e o conceito está claríssimo também em São Paulo isto é: “credo quia absurdum”, ou seja, “a fé é escândalo para a razão”...

Se isso é a fé, não surge nenhum conflito com o não crente, porque uma fé com essas características não pretenderá se im­por, só pedirá que a respeitem.

Mas se a fé católica pretende ser o resumo e a culminância da razão, ser o resumo e a culminância de tudo aquilo que é mais característico do homem, ser a verdadeira summa da razão e da humanidade, então compreenderão que se a fé pretende ser isso é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor, inclusive mediante o braço secular do Estado. Porque quem estivesse em conflito com os ditames da fé, e acima de tudo com suas consequências morais, estaria também contra a razão e a humanidade.

Gad Lerner: Desculpe, sr. Flores, mas talvez estejamos nos ante­cipando no tempo se nos pusermos a falar do braço secular do Estado. O senhor levantou uma questão, acho que decisiva, que, por outro lado, levantou também em seu escrito, ou seja: por que vocês, os crentes, vocês os cristãos, vocês os homens de fé não renunciam à demonstração mundana da verdade - isso é o que o sr. Flores escreveu -, por que pretendem dar também uma aparência racional ao que é evidentemente absurdo? Se vo­cês aceitassem, diz o sr. Flores - atribuindo essa posição tam­bém ao cristianismo das origens, e não sei se o senhor [dirigindo-se a Ratzinger] estará de acordo; provavelmente contestará essa tese do sr. Flores -, se vocês aceitassem a ideia do absurdo da fé, bem, nós nos conformaríamos, nós os deixaríamos crer; nós os deixaríamos crer porque são livres para isso, mas, ao fim e ao cabo, estaríamos satisfeitos pelo fato de se saber, de ficar registrado o absurdo dessa fé.

Joseph Ratzinger: Na realidade, tenho certeza de que as primei­ras gerações do cristianismo não pensavam na fé como um ab­surdo. É verdade que Paulo fala do “escândalo” da fé, e vemos que o escândalo existe em todas as gerações - até mesmo hoje -, mas, ao mesmo tempo, Paulo prega no Areópago, ou seja, no centro da cultura antiga, da filosofia antiga, em discussão com os filósofos, e cita também os filósofos. E, em geral, o início da pregação cristã se dirigia aos denominados phoboumenoi theon, ou seja, grupos de pessoas que haviam se congregado em volta da sinagoga.[3]

O judaísmo teve uma função e uma posição muito importan­tes no mundo antigo, porquanto aquela fé em um único Deus criado se apresentava justamente como a religião racional, que era buscada no momento da crise dos deuses. E, portanto, essa religião se oferecia como uma religião verdadeira e autêntica, não inventada pelos filósofos, mas realmente nascida do coração do homem e da luz de Deus, mas, ao mesmo tempo, em correspondência profunda com as convicções racionais da­quele período. E, portanto, as pessoas, digamos, “iluminadas” daquele período, em busca de Deus, que já não estavam satis­feitas com as religiões oficiais, as pessoas que buscavam não só uma construção filosófica, mas uma religião autêntica, que porém, correspondesse à razão...

Essas pessoas haviam criado um círculo em torno da sinagoga, e aquele era o mundo em que Paulo podia pregar. E sua inten­ção e sua convicção foi justamente o Deus único que falou com Abraão, que falou no Antigo Testamento, e que se manifesta e se faz acessível por meio de Jesus aos povos do mundo. [Paulo] sabia bem que, por um lado, oferecia escândalo no Areópago; sabemos que o anúncio da ressurreição gera escândalo. Mas também tinha certeza de que não estava anunciando algo ab­surdo, capaz de satisfazer só a alguns, e sim algo que levava consigo uma mensagem capaz de apelar à razão dos homens e dizer-lhes: todos nós buscamos - neste momento de crise - a Deus, buscamos uma religião que não seja inventada, e sim au­têntica, e que, ao mesmo tempo, seja acorde com nossa razão.

E São Pedro, na primeira carta, diz explicitamente: devereis es­tar sempre dispostos a “dar razão” de vossa esperança, sempre deveis apologein, dar conta do logos. Ou seja: [os cristãos] têm de estar dispostos a demonstrar o logos, isto é, o sentido pro­fundamente racional de suas convicções.

Evidentemente, sobre esse ponto estou de acordo com o pro­fessor Flores d’Arcais; não se deve impor tudo isso. É preci­so apelar à consciência e à razão. Essa é a única instância que pode decidir. Porque realmente constitui um pecado pensar: se logo a razão não estiver disponível, deveremos “ajudá-la” com o poder do Estado. Isso é um grave erro. Portanto, não há de se impor com o poder - isso é um grande pecado e um grande erro -, e sim oferecer-se à evidencia da razão e do coração.

Paolo Flores d’Arcais: Naturalmente, o cristianismo consegue se impor em um horizonte de crise das religiões tradicionais, e...”[4]

 CONTINUA EM BREVE

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[1] RATZINGER, Joseph e D’ARCAIS, Paulo Flores – DEUS EXISTE? – São Paulo. Planeta: 2009. 125 páginas.
[2] A afirmação "credo quica absurdum” foi atribuída a Tertuliano porque no escrito intitulado De carne Christi declara expressamente que a crucificação e morte de Cristo é “crível porque inconcebível”, e sua ressurreição é “segura, porque impossível”. Reproduzimos o parágrafo integralmente: Natus est Dei Filius; non pudet, quia pudendum est: et mortuus est Dei Filius; prorsus credibile est, quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile.
[3] Os “tementes a Deus” eram gentios, não circuncidados, que iam à sinagoga para conhecer o mesmo Deus que os judeus e rezar para ele. Segundo muitos historiadores, terão uma importância relevante na acolhida da pregação de São Paulo.
[4] Op. Cit. págs. 25-32

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