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jun 01

É PRECISO CAMINHAR AO LADO DO FRACO E DO OPRIMIDO

O BOM SAMARITANO - 2

DE ALGUMA FORMA, É PRECISO SOCORRER O FRACO, O OPRIMIDO E O INJUSTIÇADO - 

*Por Luiz Antonio de Moura - 

Quando ouvimos falar em "fracos e oprimidos", logo fazemos uma associação mental com "indigentes", com aqueles e aquelas que vivem na mais completa pobreza,  escondendo-se sob as marquises dos edifícios ou sob pontes e elevados,  revirando lixeiras atrás de restos de tudo: de roupas, de calçados, de alimentos e de tudo o mais que esteja disponível ou que ainda possa ter a mínima possibilidade de uso ou de aproveitamento. Quase sempre, quando ouvimos a expressão "fracos e oprimidos", essa é a primeira imagem que vem à nossa mente.

Entretanto, há que se fazer, aqui, uma sutil distinção entre o fraco, oprimido e sofrido e o despojado de força física e subjugado ao poder de quem o explora, domina, oprime e castiga sempre, de forma injusta, cruel e desumana e, não raro, despojando-o do pouco que tem.

É exatamente sobre estes que estamos nos referindo no presente texto.  Sobre eles e sobre o modo como devemos nos comportar diante do mal que cai sobre seus corpos e espíritos. No mundo em que vivemos, amplamente dominado pelo egoísmo e pelo individualismo litúrgico, somos, quase que de forma inconsciente, empurrados para bem longe de tais pessoas e situações, como se quiséssemos deixar bem claro que não as conhecemos e que pouco, ou nada, nos importa o destino que têm ou vivem. E, infelizmente,  dessa lógica nefasta não escapam muitos daqueles que vivem alardeando o nome de Deus aos quatro ventos, pregando sobre a importância da fé, da misericórdia e do amor ao próximo.

A questão primeira da nossa análise diz respeito àqueles que sofrem perseguições,  injustiças ou violência mesmo, à nossa frente, diante dos nossos olhos ou que, no mínimo,  apresentam-se diante de nós, esperando por uma defesa expressa,  vigorosa e contundente da nossa parte. Dentro desse contexto,  chama a atenção o fato de dois homens estarem em combate físico, em plena luz do dia e em espaço público, em que um deles, demonstrando ser mais forte, agride violentamente o outro, visivelmente mais fraco, ou subjugado pela bebida ou por outro componente químico qualquer. Uma outra situação corriqueira, principalmente nos grandes centros urbanos,  é a de um menino, ou de uma menina, sendo perseguido e preso por populares, depois da tentativa frustrada de um furto, onde algumas pessoas principiam um linchamento público. E, uma terceira situação diz respeito àquela pessoa caída num canto de rua,  revelando alguns ferimentos e, aparentemente, envolvimento com o uso de bebidas ou de drogas.

É bastante forte a nossa tendência de não envolvimento direto e, ao mesmo tempo, comprometido com tais situações. Existem, no entanto,  quatro histórias narradas na Bíblia, duas envolvendo Moisés,  e duas Jesus,  que podem ajudar-nos a sairmos da nossa nave individual todas as vezes em que, diante de nós,  ocorrer alguma cena de violência, de injustiça ou de abandono de algum irmão ou irmã que tenha sido vítima  de tais ocorrências.

Vamos começar com o fato que inseriu Moisés na história da libertação do povo de Israel do jugo da escravidão. Moisés  vivia na corte do Faraó onde, e por quem, era muito estimado e amado.  Sua vida era, até então,  a de um verdadeiro príncipe, com direito a todas as regalias usufruídas pelo próprio filho do Faraó. Havia mesmo, da parte do rei, interesse real em fazer de Moisés o seu sucessor, tamanho o amor e o prestígio que ele conquistara. Com a criação que teve, Moisés cresceu forte, bonito, saudável, cheio de vida e de coragem, revelando-se um excelente guerreiro, além de ser dono de uma inteligência aguçada. Ou seja, cresceu e viveu em meio a tudo o que de melhor existia naquele mundo.

O relato bíblico conta que, num dia qualquer, Moisés resolveu sair do mundo da realeza e decidiu caminhar em meio ao povo hebreu. Talvez, e humanamente falando, interessado em conhecer de perto a vida dos escravos. Diz-se assim, porque a saída de Moisés para o cenário da escravidão já representa a ação direta de Deus, cujos planos são insondáveis. Pois bem. Ao circular em meio a toda a agitação de escravos e soldados da corte, Moisés ficou sensibilizado com o sofrimento imposto aos hebreus: homens, mulheres, crianças, jovens e até anciãos sendo forçados ao trabalho penoso e pesado. Senão tivesse saído da sua zona de conforto Moisés jamais teria tomado conhecimento do custo humano da construção de todas aquelas suntuosas obras.

Pois bem. O relato está em Êxodo 2, 11-12: “Naqueles dias, sendo Moisés já grande, saiu a visitar seus irmãos; e viu a sua aflição, e um homem egípcio que maltratava um dos hebreus seus irmãos. Tendo olhado para uma e outra parte, e vendo que não estava ali ninguém, matando o egípcio, escondeu-o na areia”. Temos aí, um Moisés que caminha na linha divisória entre o poder, no meio do qual crescera, e o povo hebreu, de onde proviera. De um lado, o aspecto gritante do poder em suas veias, ao enfrentar bravamente o egípcio, do qual os hebreus tinham medo, e, de outro, a força do sangue hebreu que, simultaneamente, circulava em suas artérias coronarianas.

Moisés, no entanto, não se deu por satisfeito e, no dia seguinte, saiu novamente a caminhar no meio do povo e das edificações e, desta vez, depara-se com uma rixa entre dois hebreus, percebendo que um injuriava o outro de maneira ríspida. Possivelmente, um hebreu mais forte e mais saudável dentre todos, ainda que vivendo na mesma escravidão e no mesmo sofrimento que o outro, resolveu mostrar toda a sua indignação, não contra o opressor egípcio, mas, contra um irmão de sofrimento, como acontece, ainda, nos dias de hoje. Moisés, não se conformando com a injustiça que desfilava diante de seus olhos, pergunta ao agressor: Por que feres o teu próximo? E, desta vez, ele próprio é enfrentado pelo escravo arrogante: “Quem te constituiu príncipe e juiz sobre nós? Acaso queres tu matar-me, como mataste o egípcio?" (Ex 2, 13-14).

O fato que nos chama a atenção, nos dois episódios, é a intervenção do justo em defesa do injustiçado, do sofrido, do agredido, sem qualquer distinção. Feriram o sentimento de Moisés, tanto a agressão do egípcio a um hebreu, quanto à de um hebreu contra um semelhante seu, em tudo. Não se discute os meios de defesa utilizados, mas, e sobretudo, a decisão de sair em defesa do outro, pouco importando de que lado ele esteja. 

Caminhando na linha do tempo, e sempre para a frente, chegamos em Jerusalém, no tempo em que por lá vivia o homem conhecido pelo nome de Jesus de Nazaré. O Evangelista João é quem conta que, numa certa manhã, ao retornar do Monte das Oliveiras, e, enquanto ensinava no templo, Jesus foi surpreendido com a chegada de escribas e fariseus que traziam presa uma mulher que, segundo eles, fora descoberta na prática do adultério, o que, nos termos da Lei, era punível com o apedrejamento. Queriam saber a opinião de Jesus. Afinal, a Lei era, ou não era para ser cumprida? A Lei procede de Deus, então, se não cumprida, desafia o próprio Deus. Se, por outro lado, é cumprida, nesse caso, destrói a tese de Jesus que bendisse os misericordiosos (Mt 5, 7). “Que dizes tu, pois?, perguntaram a Jesus. Todos sabemos o que disse Jesus naquele momento, porém, é gostoso repetir: diante daquele alvoroço todo, com os homens inflamados em seu desejo de sangue, com a mulher lançada ao chão, em lágrimas e vendo a morte espreitá-la e com todo o povo boquiaberto, aguardando uma solução justa e em conformidade com os preceitos da Lei, Jesus olha profundamente nos olhos daqueles algozes, penetrando-lhes no íntimo de suas almas e diz: “O que de vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra” e, serenamente, abaixou-se e pôs-se a escrever na terra seca. Rapidamente o motim se desfez e um a um daqueles homens foi colocando suas pedras no chão e saindo mansamente, como se alguém lhes tivesse posto o dedo na mais profunda de suas feridas. Jesus, erguendo-se e constatando a retirada dos agressores, libera a mulher, conclamando-a a não voltar a pecar. 

D’outra feita Jesus, para ensinar a prática da caridade, da misericórdia e do amor ao próximo, conta a história de um homem que descia de Jerusalém para Jericó e que, depois de ser despojado de seus pertences e agredido covardemente por ladrões, é socorrido por um samaritano que cuida de suas feridas e, transportando-o no lombo de um de seus animais, entrega-o aos cuidados de um estalajadeiro, entregando-lhe certa quantia em dinheiro para os gastos necessários, comprometendo-se a voltar e a pagar qualquer acréscimo que fosse feito. 

De cada um dos fatos narrados, ainda que de forma bastante sucinta, o que pode ser extraído é a capacidade de atuar em defesa do pobre, do fraco, do oprimido e do injustiçado sem que, para tanto, seja preciso revidar a agressão. Ou seja, agir em defesa, aqui, não significa ser mais forte e mais ágil do que o agressor, mas, sim, ser solícito para com a vítima. 

Ainda hoje somos convidados a sair em defesa das vítimas que se apresentam diante dos nossos olhos: vítimas da opressão, da injustiça, do abandono, do discurso fácil e mentiroso dos poderosos, da violência diária. Enfim... o campo é vasto. Precisamos fazer como Moisés: sair do nosso esconderijo super protegido e caminhar no meio dos povos, seja fisicamente, seja pelos meios virtuais dos quais dispomos, vendo como estão sendo tratados nossos irmãos e irmãs mundo afora e sair em defesa deles e delas mansa, pacífica e serenamente, como Jesus, porém, de maneira enfática, direta e contundente como fez Moisés, ao questionar o hebreu que insultava seu semelhante – Por que feres o teu próximo?

O que não devemos fazer, é presenciar todo tipo de maldade, de opressão e de injustiça e ficarmos calados, com medo de sermos tidos como “inimigos do rei”. Que rei? Nós só temos um Rei e servimos a um único Reino. E é com esse Rei e com esse Reino que devemos ter compromisso e o nosso compromisso com esse Rei e com esse Reino importa em compromisso com os nossos semelhantes, principalmente, quando vítimas contumazes da violência, da maldade, da opressão de todo tipo e da injustiça pessoal, institucional e social, sem discriminação de cor, de raça, de sexo ou de status social. É o que eu penso!

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 *Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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