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nov 11

EDITORIAL DA SEMANA: A LIBERDADE COMO O BEM MAIOR

ATRÁS DAS GRADES

ENTRE O CONDE DE MONTE CRISTO E FIÓDOR DOSTOIÉVSKI –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Existe um paralelo que pode ser traçado entre as histórias de Edmond Dantès (O Conde de Monte Cristo) e a de Fiódor M. Dostoiévski, sabendo-se que a do primeiro é obra de ficção, fruto da genialidade de Alexandre Dumas, enquanto a segunda é parte da vida real do fabuloso escritor russo do século XIX.

Edmond Dantès, na trama do autor francês, é vítima de uma armadilha engendrada por “amigos” invejosos e, com o respaldo do procurador do rei, Gérard de Villefort, é acusado de ser bonapartista, crime de alta traição à Pátria, na França dos anos iniciais do séc. XIX. A questão principal da trama contra Dantès deve ser vista e analisada como um chicote de duas pontas afiadas: a primeira, formada por quem deseja ardentemente o lugar de comando da embarcação de cargas (Pharaon), de propriedade do velho e experiente sr. Morrel, que confia no trabalho, no caráter e na lealdade do jovem Edmond, então com dezenove anos de idade. Na outra ponta, o substituto do procurador do rei que, aos vinte e sete anos de idade, e agindo em nome e escudado pela lei, visava proteger, além dos interesses pessoais, o próprio pai, e pavimentar o caminho para a fama, o topo do poder na magistratura e a glória naquela sociedade “renovada”, pós-Napoleão. É justamente este “guardião” da lei e da moral, que aceita como verdadeiras as falsas acusações lançadas contra o jovem Edmond Dantès, cujo desejo maior era, de forma simples e humilde, prestar um bom trabalho ao velho armador, casar-se com a bela Mercedes e cuidar do pai, já idoso e adoentado. O sórdido Villefort, não apenas acolhe a denúncia que lhe chega às mãos como, também, manobra para que o pobre e humilde trabalhador seja eficientemente afastado do convívio da comunidade e da família, onde era tão querido e cortejado como exemplo de cidadão e de trabalhador.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, nascido no ano de 1821, é objeto de uma extensa biografia (5 longos volumes), escrita por Joseph Frank que, por mais de vinte anos, estudou e pesquisou sobre a vida do maior de todos os escritores russos. A referida biografia, editada pela EDUSP, a partir de 2008, é obra de peso literário e de grande utilidade para quem queira conhecer, na verdade dos fatos, quem foi o escritor tão citado por teólogos, psicólogos, sociólogos, humanistas e por personalidades marcantes e influentes ao longo de todo o século XX.

Pois bem, Dostoiévski, em dado momento da vida (1847), quando já era bastante conhecido e famoso por seus escritos, e tendo sido convidado para participar de reuniões literárias, cujo fundo era eminentemente político, é acusado de “conspirar” e de tramar contra o Czar, justamente por integrar um grupo denominado “Círculo de Petrachévski”, nome do ideólogo dos encontros.

Mikhail Petrachévski, na época, um jovem de 26 anos de idade, apenas seis meses mais velho que Fiódor Dostoiévski, mas, que tinha formação em economia política e tendências socialistas bastante acentuadas para o período, é descrito pelos amigos como sendo um sujeito excêntrico e cheio de “esquisitices”. Dostoiévski, no entanto, longe das tendências revolucionárias de Petrachévski, tinha grande interesse e preocupação com tudo o que se passava na Rússia de então e com os gravíssimos problemas vividos naquela sociedade czarista, notadamente, com as inúmeras injustiças sociais e com a acentuada pobreza advindas, principalmente, da servidão institucionalizada, equivalente à escravidão no Ocidente.

Enfim, denunciado o grupo do “Circulo de Petrachévski”, como foco de conspiração e de rebelião contra o Czar Fiódor, juntamente com outros companheiros, é preso e, incialmente, condenado ao fuzilamento, pena comutada no último instante pelo próprio imperador, para prisão na Sibéria, onde fica trancafiado durante seis anos sendo, depois, transferido para uma unidade militar onde é obrigado a seguir carreira, mesmo contra a vontade. Ao fim e ao cabo, e já adoentado, Dostoiévski só retornará à plena liberdade a exatos dez anos após a prisão ocorrida em 1849, quando pede aposentadoria no serviço militar, por motivo de grave enfermidade.

Edmond Dantès, diante de um procurador escolado, capaz de extrair dele toda a verdade dos fatos ocorridos durante a última viagem no comando emergencial do Pharaon, tem a nítida sensação de que será plenamente inocentado e absolvido das terríveis acusações lançadas contra ele. Acusações que, para a época, eram gravíssimas porque iam de encontro a tudo o que a “nova ordem política” representava, ou pretendia representar, para o período pós-napoleônico.

Entretanto, o sr. de Villefort, ao ouvir acusadores e acusado, logo percebe a real inocência de Dantès, mas, percebe, também, a existência de um documento, uma carta, na verdade, capaz de incriminar o próprio pai, razão pela qual decide, no recanto da sua consciência suja, determinar o encaminhamento de Edmond para a masmorra em que fora transformado o Castelo de If, lugar inexpugnável. Levado para aquele lugar sombrio, sem poder, sequer, avisar ou se despedir da noiva ou do pai que, com o passar do tempo, têm-no por completamente desaparecido, Dantès ficará ali, entre a depressão, a ameaça de loucura, a extrema solidão e a sensação de nunca mais poder ver e sentir a luz e os raios do sol.

Entretanto, graças à morte do Abade Faria, vizinho de cela no infortúnio, homem sábio e detentor de riqueza imensurável, Edmond Dantès consegue fazer-se passar pelo defunto e, camuflado no saco mortuário, é atirado nas profundezas do oceano, de onde consegue escapar e voltar à liberdade, na figura do enigmático, riquíssimo e vingador Conde de Monte de Cristo que, no entanto, jamais conseguirá mudar o passado no qual foi vítima escolhida a dedo.

Eu sou absolutamente suspeito para falar sobre Fiódor M. Dostoiévski e sobre o Conde de Monte Cristo, porque li com paixão a história de ambos, sendo que a do Conde, por ser um pouco menor (2 volumes apenas), já li duas vezes e, certamente, lerei mais uma ou duas ainda.

O que chamou a minha atenção, e eis aqui a razão deste texto, é que ambos, embora um seja personagem real e o outro fictício, foram vítimas de tramas, de mentiras, de falsas acusações, de calúnias, de condenações impostas por quem detinha o poder de julgar, do cumprimento de penas odiosas e, por fim, da reconquista da liberdade.

Ora, a liberdade para quem sai de uma prisão, principalmente, quando tem plena consciência da própria inocência, é algo de significado inominável e que, ao mesmo tempo, desperta sentimentos diversos. Se, para Fiódor Dostoiévski, ficar livre da cela, significou a possibilidade de cuidar da família e de retomar, com toda a força, a carreira de escritor e de pensador, para Edmond Dantès, agora na pele do Conde de Monte Cristo, significou impor derrota implacável a todos aqueles que, no passado, levaram-no para os fundos insalubres da masmorra.

A lição que fica de ambas as histórias é que, por mais que alguém possa dizer o contrário, e sejam lá quais forem os argumentos utilizados, jamais devemos nos alinhar com aqueles que se valem da mentira, da cilada, da calúnia e, por fim, da injustiça, para afastar da sociedade pessoas "incômodas". Devemos sempre ter em mente que, quando alguém alardeia estar combatendo crime e criminosos, denunciando, julgando e condenando de forma implacável, levantando bandeiras legalistas, moralistas e moralizantes, deve passar por séria análise psicológica e psiquiátrica porque, das duas uma, ou está acobertando interesses e pessoas muito próximas, ou preparando o terreno para perseguições, vinganças ou promoções pessoais de sorte que, de acordo com as conveniências, o truque é tirar de cena pessoas que podem servir como pedras no caminho, conforme ocorreu, tanto com Edmond Dantès, quanto com Fiódor Dostoiévski.

No caso dos personagens citados, tanto um quanto o outro, por fim, terminaram bem suas carreiras e seus algozes foram devidamente sepultados pela história. No drama do Conde de Monte Cristo, o sr. de Villefort, falso, mentiroso e promíscuo procurador, acabou relegado ao chiqueiro da trama e dele ninguém se recorda, a não ser quando relê a história. No caso de Dostoiévski, nenhum dos seus julgadores é, sequer, conhecido, ao passo que o escritor, entrou para a história e dela, certamente, jamais sairá porque, a história é, abaixo de Deus, a única e verdadeira Magistrada, sob cuja toga ficam ocultos para sempre os falsários, os mentirosos, os hipócritas e os traidores, lançando fachos de luz sobre todos os injustiçados e vítimas da mentira, da calúnia e da sordidez contra eles praticadas.

Caso seja do interesse do leitor ou da leitora, sugiro ler tanto o Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, pela Editora Zahar, quanto a biografia de Dostoiévski, pela Edusp. Leituras que, certamente, são bastante empolgantes e indutoras para a análise de inúmeros episódios vividos e conhecidos por homens e por mulheres de todos os tempos. Se for o caso, desejo uma excelente leitura. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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