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fev 03

EDITORIAL DA SEMANA: A PRUDÊNCIA E A SIMPLICIDADE NO DESEMPENHO DA MISSÃO

A POMBA E SUA SIMPLICIDADE

AS SERPENTES E AS POMBAS: UMA LIÇÃO ENSINADA POR JESUS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

No Evangelho segundo Mateus, encontramos a narrativa das instruções passadas por Jesus para seus discípulos, na caminhada e no desempenho da missão, em um mundo absolutamente hostil, perigoso e traiçoeiro. Afirma o Mestre de Nazaré: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como serpentes e simples como pombas” (Mt 10, 16).

Uma leitura mais acurada das Sagradas Escrituras, certamente, vai possibilitar ao leitor e à leitora chegarem facilmente à conclusão de que, no contexto bíblico, a serpente sempre é descrita como símbolo do que é mal, perverso, ardiloso, traiçoeiro e indicativo de perdição para as almas. Não precisamos de exemplo mais significativo que não o da narrativa da cena que se passa no Jardim do Éden, onde a serpente seduz a mulher à desobediência ao Criador, com tal ferocidade que, não apenas ela, mulher, sede à tentação, mas, e, sobretudo, leva o homem junto consigo.

Portanto, é lícito que, ao lermos as instruções passadas por Jesus aos discípulos, fiquemos, ao menos momentaneamente, chocados e até mesmo assustados. Por que razão Jesus teria recomendado que se imitasse as serpentes, no quesito prudência? Será que apenas as serpentes, em todo o reino animal, é que são prudentes, a ponto de serem apontadas como exemplo justamente por Aquele que veio para corrigir todo o mal causado pela víbora paradisíaca?

Vale refletir! Primeiro, é importante constatar que serpentes não fazem questão nenhuma de serem vistas. Ou seja, não almejam fama nem glória. A missão daqueles que levam a Boa Nova trazida por Jesus deve ser desempenhada sem qualquer pretensão e sem qualquer esnobação. Deve ocorrer de modo singelo, eficiente, astuto e eficaz.

As serpentes deslizam por entre folhas, galhos, troncos e pedras sem chamarem a atenção e, por fim, chegam exatamente aonde querem. Outra característica da serpente é, dificilmente, ser pega de surpresa porque, sempre atenta a tudo o que se passa no seu entorno, é capaz de esconder-se do perigo máximo ou, de acordo com as circunstâncias, armar seu prodigioso sistema defensivo.

As motivações de Jesus são, evidentemente, estas: preparar os discípulos para a caminhada perante um mundo extremamente ameaçador, vingativo e capaz de criar diversas armadilhas para a vida de quem não está devidamente atento e preparado. Daí o ensinamento: “sede prudentes como serpentes”. É bom observar que a tônica da lição de Jesus, no que se refere às serpentes, não é a imitação, pura e simples, dos referidos répteis, mas, apenas, naquilo que se refere à prudência, à astúcia para uma caminhada atenta, segura e capaz de conduzir ao destino projetado, detectando e se esquivando das ciladas arquitetadas por todos os adversários, visíveis ou não.

Cabeça erguida, olhar atento. Capacidade para detectar o perigo iminente e para, se for o caso, esconder-se antes de ser apanhada! E esta astúcia que Jesus recomenda ser observada por seus pobres e humildes discípulos, cuja vida e missão, a serem desenvolvidas da forma ensinada, exigem acima de tudo, prudência e sabedoria.

No que se refere às pombas, a lição chega a ser surpreendente porque, como se sabe, não são aves de rapina, cuja astúcia assemelha-se, de alguma forma, à das serpentes, mas, tratam-se de aves bastante dóceis, amigas e que, independentemente do tratamento que recebem, são incapazes de planejar qualquer ação, defensiva ou não, contra qualquer outro ser vivo. É muito comum, em uma praça, observarmos a presença destas aves no solo, bicando aqui e ali e que, mesmo sendo enxotadas por humanos ou por outros animais, apenas, dão pequenos voos rasantes, como se percebessem o incômodo causado, porém, sem maldade de qualquer espécie, agem como se o incômodo fosse pura e simplesmente espacial, mera disputa por território. Assim, voam daqui para ali e, mansamente, continuam sua permanente busca por alimentação.

A citação da pomba na Bíblia, ao contrário do que ocorre com a serpente, é sempre para representar a mansidão, o conhecimento, a sabedoria, a pureza e a proximidade com Deus. A título de exemplos, o texto do Gênesis que narra o fim do dilúvio (Gn 8, 6-11)  e, já nos evangelhos, a descrição do que ocorre quando do batismo de Jesus, por João Batista (Lc 3, 21-22).

É esta mensagem que Jesus quer passar para os vocacionados à evangelização e à militância no caminho do bem: saírem a campo, total e absolutamente, desprovidos de qualquer maldade ou malícia, cumprindo a missão, independentemente, de serem bem aceitos ou não. Apenas, cumprir a missão. Ser tocado, expulso, enxotado para mais adiante, não deve ser motivo de desânimo, de rebeldia ou de reciprocidade de tratamento.

As pombas, as serpentes e, de resto, a imensa maioria dos animais (com a rara exceção o pavão), não se fazem preceder de trombetas, não ostentam galhardia alguma e nem fazem questão de serem notadas. Simplesmente vivem e convivem com os demais seres vivos revelando mansidão e acanho, no caso das pombas, e astúcia e sagacidade, no caso das víboras.

A partir de uma simples análise como esta, que não tem a pretensão de propor qualquer interpretação mais sofisticada do conselho de Jesus, é possível compreender a razão pela qual é sugerido aos discípulos que observem e prudência e a simplicidade na caminhada rumo à evangelização e, de resto, ao destino próprio de cada um de nós. Não escapa aos nossos olhos que, no mesmo livro de Mateus, e no mesmo capítulo 10, Jesus instrui estes mesmos discípulos a saírem a campo sem levarem consigo ouro, prata, dinheiro “nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão: porque o operário é digno do seu alimento” (Mt 10, 9-10).

Infelizmente, muitos dos discípulos de hoje não se espelham nas serpentes e menos ainda nas pombas, no quesito prudência e simplicidade, mas, no pavão, preferindo o colorido, a elegância e o luxo da plumagem, fazendo dos títulos auferidos na carreira eclesial os cartões de visitas capazes de preparem todas as trombetas a precederem uma chegada marcada pela galhardia e pela ostentação. Seria bom que relessem as instruções de Jesus e que tomassem para si o aconselhamento proposto.

Que os nossos leitores e leitoras abram suas Bíblias no Evangelho de Mateus, capítulo 10, leiam-no pausada e detidamente e, na sequência, façam profunda reflexão na companhia deste humilde texto, cujo objetivo é, apenas e tão somente, realçar o aconselhamento de Jesus, chamando a atenção de todos e de todas para a insondável sabedoria do eterno Mestre de todos nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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