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abr 30

EDITORIAL DA SEMANA: A SABEDORIA DO SILÊNCIO

A SABEDORIA DO SILÊNCIO

NO SILÊNCIO, JESUS DISSE TUDO. PRECISAMOS OUVIR E COMPREENDER –

*Por Luiz Antonio de Moura –

            Jesus, como sabemos, não deixou nenhum texto escrito e, tampouco, ordenou que alguém escrevesse qualquer coisa sobre Ele. A única referência acerca do uso da escrita por Jesus é o episódio da mulher pecadora, que escribas e fariseus queriam apedrejar. Ali, o Evangelista João narra que Jesus, enquanto os acusadores da mulher bradavam em alta voz, escrevia alguma coisa na terra (Jo 8, 6-8).

          Em matéria literária, portanto, Jesus emudeceu! Certamente avaliou que, já àquela altura da história, havia muita coisa escrita. O que faltava era, com certeza, o cumprimento de tudo o que rezavam a lei e os profetas.

        Entretanto, Jesus diante do Sinédrio, de Herodes e de Pilatos fez silêncio perturbador e que, ainda hoje, deve ocupar nossa mente em profunda reflexão.

        O Evangelista Marcos narra que Jesus, diante do Sinédrio ouviu diversas acusações e testemunhos inflamados contra Ele e contra tudo o que disse e que fez. Nem uma palavra, nenhum gesto. Em nenhum momento pediu a palavra para se defender. Em dado momento, o sumo sacerdote, irritado, pergunta a Jesus: “Não respondes nada? O que é isto que dizem contra ti?” Mas Jesus permaneceu calado. Calado num momento e perante um cenário propício ao discurso, no qual Ele poderia, por exemplo, ter aberto a boca e jogado por terra todos os pecados, as transgressões, as corrupções, as traições, os adultérios, os desvios financeiros e todos os pecados de cada um dos presentes, a começar pelo sumo pontífice. Depois, olhando nos olhos de cada uma das falsas testemunhas, fazer o mesmo. Poderia, ainda, propor questões impossíveis de serem resolvidas por aqueles senhores ilustres, deixando-os totalmente desconcertados e desacreditados perante o povo. Mas, não! Jesus preferiu o silêncio. Ouviu tudo calado e só abriu a boca para questionar um ato de violência gratuito cometido por um dos guardas, após, gentilmente, ter respondido a uma pergunta feita pelo chefe supremo (Jo 18, 23). Jesus, preferindo o silêncio para se defender, não deixou de responder à pergunta direta sobre seus discípulos e sua doutrina!

            Diante de Herodes, a mesma postura. Silêncio! Em meio a diversas acusações, zombarias e chacotas, humilhações e provocações, o Evangelista Lucas afirma que Jesus nada respondeu (Lc 23, 9).

            Na presença de Pilatos Jesus manteve-se íntegro e em silêncio. Agora é Mateus quem narra que Pilatos, intrigado com a postura de Jesus, indaga: “Não ouves de quantas coisas te acusam? Mas não lhe respondeu palavra alguma, de modo que o governador ficou em extremo admirado” (Mt 27, 13-14). Em dado momento, na narrativa do Evangelista João, Pilatos fica irritado com Jesus porque, não querendo condená-lo injustamente, não conseguia desvencilhar-se da pressão dos judeus enraivecidos. Então Pilatos olha para Jesus e pergunta sobre sua origem e, diante do silêncio, brada com Jesus: “Não respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar, e também para te crucificar?” (Jo 19, 10).

        Nos três episódios envolvendo acusadores e autoridades, Jesus optou pelo silêncio. Podia ter falado! Podia ter feito milagres e prodígios estonteantes. Mas, não. Apenas o silêncio. Por que? É a pergunta que fazemos. Por que ficou em silêncio Aquele que tantas vezes havia maravilhado as multidões com o seu discurso salvífico e com suas maravilhosas parábolas? Por que o silêncio quando, com apenas palavras, poderia ter derrotado todos e cada um dos seus algozes? Sem armas, sem espadas, sem o uso da força, sem sangue derramado. Apenas umas poucas e sábias palavras! Silêncio. (faça silêncio no seu coração neste instante).

            Jesus conhecia perfeitamente todos aqueles espíritos, sabia de onde procediam e que interesses defendiam e, portanto, sabia que nada que dissesse teria qualquer valor. A decisão dos acusadores fora tomada de cabeça fria, bem planejada, bem combinada, bem arquitetada e fruto de investigação de cada passo, de cada milagre e de cada palavra produzidos por Jesus, tudo, com o auxílio de traidores, dentre os quais apenas Judas Iscariotes ganhou destaque histórico. Jesus não apenas evitou dar maiores explicações, mas, também, deixou claro, ao menos para nós, que estava bastante consciente do como procedia, ao dizer para os interrogadores: “Eu falei publicamente ao mundo; ensinei sempre na sinagoga e no templo, onde concorrem todos os judeus, e nada disse em segredo. Por que me interrogas? Interroga aqueles que ouviram o que eu disse; eles sabem o que eu tenho feito” (Jo 18, 20-21). Ao fazer essas afirmações Jesus respondia a todas as perguntas. Nada mais deveria ser dito. Nada mais faria sentido. Ou seja, “vocês têm todas as respostas ou pelo menos sabem onde buscá-las, por que, então, fazerem perguntas inúteis a mim?” O silêncio de Jesus dizia tudo: qualquer coisa a mais que Ele dissesse só teria o efeito de inflamar, ainda mais, os horrores daquele julgamento. Jesus viu, ouviu, avaliou e, ainda que em silêncio, agiu!

            Esse é o ponto essencial para a nossa vida: quantas vezes perdemos-nos com discursos e com falatórios inúteis, que só servirão para incendiar ainda mais o ambiente e a situação? Quantas vezes abandonamos o silêncio, para dizer e repetir tudo o que os nossos algozes já sabem com sobra? Por que insistimos em ficar dando explicações a quem já assinou a nossa sentença de condenação? Sentença de culpa e de condenação à morte social e comunitária, à pobreza, à solidão, à exclusão, ao desprezo, à exploração, à humilhação, ao anonimato. Se nossos acusadores e nossos algozes fizessem conforme sugerido por Jesus, se perguntassem a quem nos conhece a fundo, a quem nos ouviu e a quem recebeu de nós algo de bom. Se perguntassem aos nossos amigos, familiares e a todos os que já receberam algo de positivo da nossa parte, jamais nos condenariam. Se investigassem sobre o esforço e o sacrifício com que vivemos e sobrevivemos, se sondassem a respeito do nosso proceder sincero, honesto e cheio de bons propósitos, jamais assinariam a sentença com a nossa condenação. No entanto, “eles” nada querem saber. Querem apenas nos condenar e pronto. Diante destes furiosos acusadores e impiedosos algozes, falar mais o quê? No silêncio, Jesus disse tudo. E nós, devemos aprender a lição. Falar? Somente o necessário, útil e saudável. Certa vez Jesus advertiu seus seguidores dizendo: “Seja o vosso falar: sim, sim; não, não. Tudo o que disto passa, procede do maligno” (Mt 5, 37).

            Precisamos, portanto, ouvir em profundidade o significado do silêncio de Jesus e aprendermos a agir da mesma forma, para não acabarmos jogando pérolas aos porcos (Mt 7, 6), permitindo que pessoas, instituições e estruturas comprometidas com o mal e que defendem interesses obscuros pisem e magoem o tesouro secreto e protegido que cada um de nós carrega na alma e no coração, tesouro concedido por Deus desde toda a eternidade e para toda a eternidade. Reflita sobre este texto (em silêncio). Boa sorte, e seja feliz!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante e um cultor do silêncio.

2 comentários

  1. Joao Bunga

    Meu caro colega e amigo. Seu texto esta muito bem elaborado. E cada vez mais interessante o nosso site. Parabens

    1. lisaac

      Agradeço imensamente pelo comentário e por visitar nossa página. Assim, vamos crescendo lenta e progressivamente. Grande abraço.

      http://www.lisaac@blog.br

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