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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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dez 09

EDITORIAL DA SEMANA: APESAR DE TUDO, CAMINHAR É PRECISO

ARREPENDIMENTO

AMORES, ALEGRIAS E ARREPENDIMENTOS: CONSEQUÊNCIAS DA VIDA – 

*Por Luiz Antonio de Moura –

A vida é mesmo, como dizem muitos, bastante engraçada. Durante o seu curso, acontecem inúmeras coisas que, no momento em que ocorrem, não prestamos a devida atenção, mas, depois, com o passar dos anos, e repassando o filme do tempo, conseguimos enxergar minuciosamente muitos detalhes do que se passou.

Não falo sobre mim, propriamente, mas, sobre um amigo de longa data que, recentemente, convidou-me para uma conversa de bar, durante a qual decidiu desabafar dramas e angústias familiares. Logo percebi que o desabafo não decorria da bebida lentamente saboreada, mas, do esvaziamento de uma alma atordoada por uma lementável realidade, por imagens, recordações e arrependimentos, destes que levamos conosco para o túmulo, por estarem relacionados a fatos absolutamente cobertos pela densa poeira do tempo.

Casado, talvez, com a primeira namorada que teve, ele começa a conversa narrando a paixão que sentia por aquela pessoa, no início de tudo. Fala com brilho nos olhos sobre a beleza que ela exibia de forma bastante natural, fato que mexeu profundamente com a estrutura dele que, então, era apenas um acadêmico universitário, ainda, encantado com a vida e cheio de sonhos. Daquela paixão inicial, ele insiste em destacar que só existia do lado dele, deixando claro que ela, se sentia alguma coisa, era coisa de pequena monta, nada parecido com paixão e, sequer, com amor. Era, no dizer dele, um leve interesse por alguém que tinha planos, sonhos, vontade e disposição para lutar e, certamente, para vencer na vida. Ele diz que dela não queria abrir mão e que, depois de muitas idas e vindas, conseguiu firmar um namoro que, contra a sua vontade, levou anos para ser transformado no atual casamento.

Bem, conversa que envolve amores e dissabores conjugais, se a gente deixar, não acaba nunca. Pergunto como estão as coisas atualmente, e ele responde com um palavrão. Dá pra perceber que a coisa é feia, muito feia. Mas, e aquela paixão inicial? Eu questiono. Ele diz: aquilo (sic!) cresceu, engordou, morreu, apodreceu e hoje exala um odor tóxico. Fico admirado, porque eu os conheço bem, e ela parece ser uma pessoa maravilhosa: sempre solícita, de bom humor, de bem com a vida, pronta para ajudar a qualquer um que precise de alguma coisa. Enfim, aparências, penso comigo. Dele não ouso falar porque, amigo, sei o quão trabalhador, dedicado e honesto é. Sei, também, que, dele, parte todo o conforto do qual desfruta a família.

Bem, diante do amigo cabisbaixo e lastimoso, tento falar algo que possa reanimar e relembro a condição de pai que, até onde sei, sempre exerceu com muito orgulho, alegria e satisfação. Mas, parece que até aí as coisas estão terrivelmente abaladas. Começa recordando as ações e os gestos carinhosos e amorosos que, como pai, sempre se dispôs a demonstrar. Conta tudo o que, como pai zeloso e até fanático, fez ano após ano brincando, presenteando, ensinando, dando exemplos de vida e mostrando as ciladas e as armadilhas da vida. Fala com orgulho e com brilho nos olhos sobre os anos de ouro de convivência e de amizade, nos quais ser pai era simplesmente o máximo. No entanto, conta ele, com o passar dos anos, obviamente chegam as idades e com elas, tudo escorre pelos dedos, restando, apenas, mãos secas e palavras ásperas. Reclama da falta do respeito, da consideração, da atenção, da gratidão, do  amor e do carinho e do saudoso companheirismo e, o pior momento: começa a desvelar um rosário de arrependimentos.

Mas, pergunto eu, arrepender-se de ter sido tão bom? Arrepender-se de ter feito tudo, aparentemente, certo? E aí vem a lição: o amigo entende que ao contrário do que eu penso, ele fez tudo de forma errada e o que eu chamo de “tão bom” foi, no fundo, no fundo, muito ruim. Deixo-o falar porque, primeiro, fico curioso para conhecer seus argumentos, depois, é ele quem precisa desabafar. Começa a contar o quão errado é agir de forma a assegurar aos filhos uma vida, digamos, “diferente” daquela que tivemos. Demonstrando bastante convicção, ele afirma que, quando dizemos a frase “meu filho não passará pelo que eu passei”, na verdade, estamos reduzindo, ou até mesmo destruindo, todas as possibilidades de crescimento, de desenvolvimento e de aprimoramento dos nossos rebentos. Com estes argumentos, ele diz que os pais só chegam ao ponto aonde chegaram, só alcançam o sucesso profissional, financeiro e social que alcançaram, justamente porque penaram bastante, passaram por diversas e sofridas experiências e, assim, aprenderam, passo a passo, o quão difícil e dura é a vida. Aprenderam a valorizar cada centavo ganho com o trabalho; aprenderam que, sem trabalho e sem estudo, o fracasso está garantido e, desta forma, partiram para a luta sem medir esforços e maiores sacrifícios.

Ele diz que, quando o pai pensa que os filhos não devem seguir a mesma trilha que ele percorreu, com todos os percalços enfrentados, ele os está colocando no paraíso dos contos de fadas, onde tudo é fácil, bonito e rápido, bastando o estalar de dedos! Assim, completa ele, os filhos acreditam em contos mirabolantes e em narrativas de livros de autoajuda e planejam vencer na vida da forma mais inteligente possível o que, normalmente, rechaça a ideia do trabalho árduo das primeiras décadas da vida profissional, com todas as experiências daí decorrentes, bem como do necessário e desgastante período universitário, de onde, se quiserem, os iniciantes podem sair com alguma bagagem para, não apenas minorar os traumas laborais, mas, e, sobretudo, assegurar-lhes boas possibilidades de um futuro muito melhor e muito mais promissor. 

Na opinião deste cansado e desgastado amigo, este foi um dos seus grandes erros e, consequentemente, razão de um dos seus maiores arrependimentos. Na sequência, continua ele, errei ao proporcionar todo tipo de conforto e de bem estar, em uma casa na qual jamais deixei faltar quaisquer das coisas capazes de causarem alegria, sensação de completude e satisfação a todos, desde o mobiliário, até a sofisticada e rica alimentação. Tudo a tempo e na hora!

Ouvindo aquele longo desabafo, no qual foram contadas muitas outras coisas e muitas outras particularidades familiares, senti pena daquele homem. E, sentindo pena dele, acabei por sentir pena de mim mesmo, haja vista que, sob muitos aspectos, eu também vivenciei, e ainda vivencio, muitos dos seus dissabores. Mas, o que me causou maior perplexidade, espanto e tristeza, foi perceber o infortúnio do arrependimento. Não de um arrependimento qualquer, mas, de um arrependimento por tudo o que, aparentemente, fez de bom e para o bem. Pensei comigo: quando alguém chega a se arrepender do bem que pratica, deve mesmo estar em situação emocional e espiritual bastante dramática. A conversa, para o meu espanto, guardava coisas piores para serem reveladas: às vezes, me disse ele, tenho muita vontade de morrer! Peço a Deus com muita frequência, para que inclua o meu nome da próxima lista. Mas, diz com um leve sorriso nos lábios, Deus parece não querer me dar ouvidos.

Para qualquer pessoa que tomar conhecimento desta narrativa, poderá parecer estar diante de um ser humano fraco, doente e carente de tratamento psiquiátrico ou psicológico. No entanto, nada do que aqui está escrito, principalmente da forma como está escrito, é capaz de revelar a realidade e a dramaticidade do sofrimento deste meu amigo. Somente quando a gente ouve um relato destes, pessoalmente, como foi o caso, é que conseguimos alcançar a verdadeira dimensão da vida de cada um de nós que, no geral, não difere muito da deste meu caro amigo. Cada um de nós, certamente, tem contabilizados as alegrias, os amores e os arrependimentos que traz na alma. Faz parte da vida, do pulsar da vida. São, na verdade, consequências da própria vida. Entretanto, em alguns de nós, um ou outro destes fatores aflora com maior intensidade em relação aos demais.

Com a alma perturbada diante daquele intenso e longo desabafo, confesso que tive preocupação acerca da possibilidade, momentaneamente passada por minha cabeça, sobre o amigo procurar meios para encurtar a própria vida. Depois de contar uma piada adequada ao momento, para distensionar os ânimos, e de algumas risadas, fiz a pergunta de sempre: e o resto, no mais, está tudo bem? Ele, ainda, meio sem graça afirmou que sim e, imediatamente, como se estivesse se recompondo, começou a falar sobre projetos de trabalho e de estudo, viagens que está pretendendo fazer a fim de se reencontrar espiritualmente e, por fim, terminamos a conversa debatendo um pouco sobre a política nacional e sobre as expectativas para o futuro da Nação.

Eu, semanalmente, procuro apresentar um texto apto para a reflexão pessoal de cada leitor e de cada leitora. Desta feita, no entanto, decidi retratar um pouco da história de uma vida que, não posso afirmar ser igual a de todas ou a de algumas pessoas apenas, podendo, sim, afirmar com segurança, tratar-se de história típica de seres humanos que, com seus problemas, suas alegrias, seus amores e dissabores, passam por esta vida e que, em dado momento, precisam de um canal para compartilhar e para desabafar suas mágoas, seus dramas, sofrimentos, alegrias e, porque não dizer, seus arrependimentos.

Que cada leitor e cada leitora possa compreender que nem só de palavras sábias e bonitas vivemos nós, mas, da realidade dura, nua e crua a que, de um modo geral, somos submetidos no dia-a-dia da nossa existência, e que os mais fortes possam compartilhar conforto, força, consolo e esperança com o semelhante que, nem sempre dispõe de todos estes atributos juntos. De qualquer forma, leia e reflita, talvez, a experiência do amigo possa auxiliar no planejamento da vida de cada um, de modo a evitar futuros dissabores e arrependimentos nefastos para a alma e perversos para o espírito. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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