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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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jun 29

EDITORIAL DA SEMANA: CONSCIENTIZA-TE SOBRE QUEM TU ÉS E QUAL É A TUA MISSÃO NO MUNDO

LUZ DO MUNDO E SAL DA TERRA

VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO E O SAL DA TERRA –

*Por L. A. de Moura –

A frase que, segundo o evangelista São Mateus, teria sido dita por Jesus (Mt 5, 13-14), na sequência do Sermão da Montanha, parece vir resolver uma antiga proposição da filosofia grega, ancorada, ao mesmo tempo, em um gigantesco desafio para o ser humano: o famoso “conhece-te a ti mesmo”. Trata-se, como muitos já o sabem, de um aforismo encontrado no pórtico de entrada do templo do deus Apolo, na cidade de Delfos. Atribui-se a Sócrates, não o aforismo em si, mas, a sua continuidade: “Conhece-te a ti mesmo e conheceras o universo e os deuses”.

Bem, neste exato ponto, eu faço um convite a você para, juntos, percorrermos uma pequena trilha teológico-filosófica que, ao final, poderá abrir para nós, eu e você, um pouco mais do denso véu por trás do qual a amiga sabedoria encontra seu eterno assento, porém, não menos dinâmico do que se poderia imaginar.

Vejamos, de início, até aonde podemos caminhar com o dito “Conhece-te a ti mesmo”, exposto em Delfos. Na mitologia, Apolo era filho de Zeus e Leto e, segundo a lenda, nasceu de sete meses mas, bem alimentado com néctar e ambrosia, já no quarto dia de vida teria pedido um arco e flecha para, em seguida, subir o monte Parnaso e enfrentar, ferir, perseguir e matar a serpente Píton, justamente na cidade de Delfos.

Píton era protegida de Zeus que, ao tomar conhecimento do crime cometido por Apolo, aplicou-lhe severa punição: primeiro, ir a Tempe purificar-se do seu nefasto feito e, em seguida, presidir os jogos píticos, instituídos em homenagem à serpente famosa. Não vamos continuar falando sobre Apolo, porque não é o caso. Do que está dito, importa-nos saber que Apolo, ao que tudo indica, e desde muito cedo em sua vida, teve pleno conhecimento sobre suas origens, potencialidades e, digamos, seu destino deísta. Desta forma, está justificada a aposição do aforismo no Pórtico do Templo dedicado ao deus do Sol, haja vista que, depois de outra severa punição infringida por Zeus, Apolo passou a defender a moderação em todas as coisas. Se você não conhece Apolo, procure conhecer, é bem legal.

Bem, a questão da moderação pode ser entendida como de vital importância para a pacificação do ser. E, neste sentido, conhecer a si mesmo é um bom início para agir com sapiência e, portanto, com maior possibilidade de acertos.

Conhecer a si mesmo para, segundo Sócrates, “conhecer o universo e os deuses”. O que poderia isto significar, senão, alcançar o inalcançável? Sim, porque, para o ser humano é, ao menos em tese, impossível conhecer, em toda a sua plenitude, tanto o Universo, quanto a, digamos, lógica, dos próprios deuses. Conhecer a si mesmo teria, então, como significado, tornar-se apto a transitar com maior desenvoltura entre o Céu e a Terra, principalmente, no convívio com seus semelhantes. Absolutamente semelhantes, e com toda a Criação!

Pensando bem, conviver com o outro só se torna plenamente possível e auspicioso se, e somente se, nós o conhecermos muito bem. Mas, você poderia indagar, como conhecer perfeitamente bem o outro se, para tanto, precisaria invadir todo o seu íntimo para investigar suas profundezas e profundidades? Ora, a resposta parece clara: conhecendo-me a mim mesmo, como espécie, conheço outro exemplar desta mesma espécie. E, observe-se que o “conhecer”, aqui, significa tomar conhecimento das fragilidades, capacidades e potencialidades do ser.

Daí que, quando Jesus declara, “vós sois a luz do mundo”, nada mais está fazendo do que colocando o ser humano em um avançado estágio de potencialidade, haja vista que o papel fundamental da luz é dissipar toda a ignorância, todas as trevas e todas as barreiras para, em seguida, tornar absolutamente transparente a forma de vida de toda uma espécie. Mas, para Jesus, isso não representou o auge, faltava algo: “vós sois o sal da terra”, Ele teria dito, ao que, ainda, acrescentou: “porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens”. É claro que, a lógica do Evangelho é no sentido inverso: primeiro é declarada a força do sal para, em seguida, falar acerca da luz.

No entanto, para o nosso intento, nenhuma alteração é imposta pela inversão, pois, o que desejamos é evidenciar que, quando o homem toma conhecimento de que é a luz do mundo e de que carrega em si a força suficiente para temperar as relações de vida e de convivência com todos os seus semelhantes e com o Todo da Criação ele, necessariamente, passa a conhecer-se a si mesmo e, consequentemente, torna-se apto a, nas palavras atribuídas a Sócrates, “conhecer o Universo e os deuses”.

Ora, talvez você queira trazer uma questão tangencial, perguntando se Jesus teria invalidado, ou tornado sem efeito a proposição filosófica que, durante séculos tem impulsionado e desafiado os homens de todos os tempos? Não, Jesus nem invalidou nem tornou sem efeito o desafio filosófico. Apenas facilitou o trabalho dos homens! O ser humano não tem mais a necessidade de ficar tentando buscar um conhecimento que a ele é concedido, gratuitamente, por Jesus. Não cabe mais ao homem, ficar perquirindo acerca do que, realmente, ele é ou sobre qual é o seu papel no mundo. Isso já o foi revelado pelo Mestre de Nazaré: “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo” (na versão original)

Entretanto, cabe sim, ao homem, adentrar no íntimo do seu ser, para investigar se tem, de fato, cumprido este papel ou se, ao contrário, tem perambulado pela vida, passando anos e anos neste plano terreno, sem ao menos compreender o verdadeiro significado da sua existência. Desta forma, o “conhece-te a ti mesmo”, hoje, soa muito mais como um “conscientiza-te de quem és”, não mais para conhecer o universo e os deuses, mas, para viver a vida em toda a sua plenitude e para conviver de forma harmônica e pacífica com todos os seus semelhantes e, por fim, com toda a Criação.

Nossa! Você poderá ficar estupefato com esta mensagem. Vamos concordar que, se os desafios são gigantescos, Jesus resolveu a parte mais complexa, dizendo-nos, exatamente quem e o que somos. Daí para a frente, cabe a cada um de nós, apenas, e, tão somente, tomar consciência desta revelação e passarmos a agir de forma absolutamente coerente e condizente com ela.

Surge, ainda, mas não por último, uma questão bastante latente e complementar a tudo isso: o Apóstolo Paulo, homem com sabidos vínculos com a cultura helênica (grega, portanto), vai chamar a atenção dos Coríntios (da cidade de Corinto, na Grécia), para alertá-los da seguinte forma: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá. Com efeito, é santo o templo de Deus, que sois vós” (1Cor 3, 16-17).

Ora, como é importante o alerta feito pelo Apóstolo! De forma complementar, somos “o sal da terra, a luz do mundo e o templo sagrado de Deus”. É o caso, então, de questionarmo-nos, para sabermos o que está faltando aos homens para viverem, já a partir de agora, a plenitude da vida com toda a harmonia e a paz tão necessárias e almejadas? Penso ser necessário repetir o que dissemos acima: é preciso tomar consciência, apenas, sobre o que já foi declarado que somos e sobre o papel que devemos desempenhar.

A luz está ofuscada, o sal deixado de lado e o templo fechado! Não estamos mais sendo desafiados a conhecer quem ou o que somos, isso já nos foi revelado. Estamos sendo desafiados, apenas, a uma singela visita ao nosso interior para, de forma absolutamente livre e consciente, desobstruirmos a luz, reabilitarmos a potência e o vigor do sal e, decididamente, abrirmos as portas do templo. E, vejam: abrir as portas do templo não para que Deus retorne a ele, mas, para que Deus saia da prisão na qual nós o encerramos. Abrir as portas do templo para que Deus se revele ao mundo através de cada um de nós, por meio das nossas atitudes e dos nossos comportamentos. É o que me parece estar, realmente, faltando aos seres humanos destes tempos tão obscuros e temerosos.

Por tais razões, acredito ser o nosso papel dar os primeiros passos na direção desta conscientização íntima e pessoal para, na sequência, disseminarmos a ideia para todas as pessoas que nos cercam, incitando-as a fazerem o mesmo, em uma interminável corrente humana. O aforismo aposto no Pórtico do Templo de Apolo, em Delfos, não pode ser apenas uma frase histórica a ser repetida de geração em geração, sem nenhum efeito prático. Da mesma forma, as declarações de Jesus e do Apóstolo Paulo, não podem ser apenas palavras ecoadas nos templos e nas igrejas, como meras lembranças de dizeres sagrados e consagrados pelo tempo.

Mais do que nunca, na história da civilização, os seres humanos precisam ter coragem para um profundo mergulho interior, para resgatarem a força e a potência da luz e do sal e para, destrancando as portas do templo, viabilizarem a ação de Deus em nós e em tudo o que cerca cada um de nós, inclusive, o próprio Planeta. Sem este procedimento, o caos e a confusão só farão aumentar a cada dia, a cada ano e a cada geração.

Este texto, na linha de todos os demais que escrevo e publico, é apenas um convite à reflexão. Você, que é sábio(a) pode, a partir dele, se entender viável, cabível e oportuno, ampliar todos os horizontes e, decididamente, contribuir para que a vida seja vivida com mais intensidade, com mais sabedoria e com maior perfeição. Reflita e, se for o caso, faça a sua parte. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura, é estudioso da teologia e, iniciante no estudo da filosofia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

2 comentários

  1. daniela

    Maravilhoso texto!

    1. lisaac

      Obrigado por sua manifestação. Obrigado pela atenção e saiba que nosso objetivo é, mais do que publicar, envolver as pessoas em uma nova e ao mesmo tempo tão antiga, visão sobre o mundo. O mundo que foi criado, não para mim ou para você, mas, para todos nós. Não importa o que a maioria das pessoas possa pensar sobre o mundo. Importa, sim, que alguém como eu, você e muitos outros, saibamos amar o mundo do jeito que ele é, porque quem o fez, fê-lo para todos nós. Obrigado por você, também, existir e por fazer parte deste tão antigo, mas, também, tão novo e tão maravilhoso mundo.
      http://www.sementesdapalavra.com.br

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