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mai 13

EDITORIAL DA SEMANA: DECIDIR, NEM SEMPRE É TRANQUILO COMO PARECE

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A ANGUSTIA TE ACOMPANHARÁ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Recentemente precisei fazer um trabalho, do qual resultou a apresentação de uma palestra sobre a Ética Social e Profissional e, por conta disso, tive que fazer alguns estudos e algumas pesquisas pontuais. De tudo o que li, vi e ouvi, uma frase do filósofo e professor de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), Clóvis de Barros Filho, não só chamou a minha atenção, como, também, ficou gravada na minha mente e, em muito pouco tempo pude sentir, na própria pele, a veracidade da mesma: “A angustia te acompanhará”, diz o professor Clóvis, quase como se recitasse um mantra.

O contexto, certamente, é mais do que conhecido por todos e por cada um de nós, pois ganha vida todas as vezes em que estamos diante do dilema da escolha. Escolha que, necessariamente, temos de fazer a cada esquina, a cada nova situação surgida, a cada desafio a ser enfrentado, nos quais somos colocados diante de possibilidades tais que, em muitos casos, preferiríamos não ter liberdade. E aí, vem uma questão maior: a liberdade para fazer escolhas. É justamente esta liberdade, que nos empareda e nos angustia todas as vezes que precisamos fazer escolhas.

É claro, pois parece óbvio, que para fazê-las, precisamos atribuir valores a cada uma das possibilidades apresentadas e, para tanto, temos de adotar certos, e certeiros, critérios, pois, sem eles, ficamos sem os necessários e imprescindíveis parâmetros, a começar por uma inevitável hierarquização de todos os valores envolvidos na trama. Dentre os critérios a serem adotados, está o de contextualizar o problema: por exemplo, existem situações nas quais o valor maior é o sigilo, e não, a transparência – como ocorre nos negócios relacionados com o mercado. Em outras oportunidades, o valor mais relevante, é o silêncio, e não, a euforia de uma escola de samba (dá para imaginar um silêncio total na avenida do samba, em pleno domingo de carnaval?); n’outras situações o valor maior é a disciplina e o respeito; em outras, é a qualidade a qualquer preço; ou, ainda, a necessidade de determinado bem, e por aí vai.

De repente, na sua vida, você deve escolher entre a compra um carro novo, ainda que pagando à vista e com um bom desconto, ou usar o dinheiro para dar entrada na aquisição de um imóvel próprio, ainda que se envolvendo em um financiamento prolongado. Mas, o que tem maior valor quando você não possui a sua casa própria? Então, você olha para aquele carro dos seus sonhos, na cor e com o design sempre buscado, com todos os acessórios que você sempre idealizou, o preço é bom, o vendedor apresenta proposta irrecusável e, pior, aquela quantia, está absolutamente livre e disponível na sua conta corrente. No entanto, surge a proposta para a compra de um imóvel e, com aquela importância depositada na sua conta corrente, você pode dar uma boa entrada, como sinal, para a aquisição de um apartamento amplo, bem situado e do jeito que você e sua família precisam, pois, conforme dito, vocês não possuem casa própria! Seu coração bate mais forte. Sua mulher e seus filhos quase imploram para que você compre o carro. E você fica diante de um dilema angustiante. Nesta hora, você certamente se lembrará do filósofo: “a angustia te acompanhará”.

No entanto, o dilema entre o carro ou o imóvel é apenas um exemplo. Quantas e quantas vezes você, eu e todos nós, somos colocados diante de dilemas bastante semelhantes? Dilemas advindos, justamente, da liberdade que temos para fazer escolhas. Mas, ninguém pode fazê-las por nós porque, se abrirmos mão de escolher, estamos abrindo mão, também, da nossa liberdade. E aí, conseguimos enxergar pela primeira vez na vida, o preço da liberdade que apenas nós, humanos, temos.

Os animais são felizes por esta razão: não precisam fazer escolhas. Vivem do jeito que vivem, porque é a única forma de têm para viver desde sempre. Este tipo de liberdade, para eles, é absolutamente irrelevante. Por esta razão, não têm dilemas e, por conseguinte, não passam pelas angústias pelas quais nós, humanos, sempre passamos.

Nossa liberdade, no entanto, vem casada com a preocupação, com o desgaste, com o medo, com a angustia, com as perdas e com os ganhos e demanda, acima de tudo, a aquisição de um verdadeiro arsenal de estratégias, das quais nos valemos para, a cada situação, termos condições de, mesmo em meio a todos os custos, fazermos escolhas que podem ser acertadas, ou não.

Trata-se de processo que, à primeira vista, parece simples. Afinal, a toda hora a gente está fazendo escolhas diversas, e ninguém fica angustiado a todo instante por causa disso. A má notícia, porém, não são as escolhas miúdas que fazemos no dia-a-dia, as escolhas do varejo. A má notícia, é que precisamos sempre, e inevitavelmente, fazer um destes três tipos de escolhas: a escolha entre o bom e o bom; a escolha entre o bom e o ruim; e, a pior de todas, a escolha entre o ruim e o ruim.

A primeira escolha é mamão com mel: na escolha entre o bom e o bom, você vai escolher um bom e vai descartar o outro. A segunda escolha, aparentemente, também é tranquila: você ficará com o bom e descartará o ruim. Digo aparentemente porque, dependendo das circunstâncias, você é levado, com o coração sangrando, a optar pelo inverso, escolhendo o ruim e jogando o bom na lata de lixo. A terceira escolha, no entanto, é a mais dramática entre todas porque, aqui, você ficará entre dois ruins e, ao descartar um, obviamente, ficará com o outro, que é ruim também. Percebe o dilema? Percebe a angustia na hora de tomar uma decisão séria na sua vida?

E o mais chocante é que o professor Clóvis de Barros Filho traz o problema, e ele próprio diz com todas as letras não poder te ajudar, afirmando categoricamente que: “este abacaxi é você quem tem que descascar, não eu!”

O que não deixa de ser verdade. São os abacaxis da vida, que somos obrigados a descascar todos os dias querendo ou não, gostando ou não, sabendo ou não.

Daí resulta a importância de abastecermos os nossos espíritos com valores supra materiais, tais como a serenidade, a sabedoria, o discernimento, a fé, o equilíbrio, a capacidade, enfim, de fazer escolhas acertadas para a nossa vida. Escolhas que, não raro, afetam diretamente as pessoas que conosco convivem ou que dependem de nós para continuarem suas caminhadas.

A angustia te acompanhará! Este parece ser um mantra cuja veracidade pode ser comprovada dia-a-dia, durante toda a nossa existência ativa. Merece uma reflexão. Uma reflexão que provoca um sentimento, não de impotência, mas, de igualdade, na medida em que atinge a todos os seres humanos, de forma indiscriminada. Então, reflita e relembre dos diversos momentos nos quais você passou pela angustia de precisar tomar decisões difíceis, em razão das possibilidades que tinha diante de si. Alguns te aconselharam a refletir melhor; outros deram algumas opiniões que você, ao final, acabou descartando. Outros, ainda, sugeriram que você desistisse de tudo ou que recuasse e adiasse a decisão. Porém, no final de todas as contas, coube a você decidir, angustiado ou não. Mas, faz parte deste interessante jogo da vida, cuja próxima jogada será feita por você. Eu já fiz a minha. Escolha a peça a ser movida. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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