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jul 27

EDITORIAL DA SEMANA: ÉS MESMO FIEL ÀS TUAS PROMESSAS?

Logo da novela Eu prometo

CONVERSANDO SOBRE A FIDELIDADE –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente nós temos conversado sobre assuntos diversos, durante alguns trechos da nossa permanente caminhada. São questões que envolvem o dia-a-dia, nosso e de grande parte dos seres humanos e, se por um lado, respondem a algumas das tuas questões pessoais, por outro, com certeza, respondem às de muitas outras pessoas que, eventualmente, possam estar, também, com questionamentos semelhantes na alma.

Hoje tu me convidas a falar um pouco sobre a fidelidade, questionando-me sobre o seu alcance, ou seja, até onde cabe falar sobre ela?

As indagações que colocas acerca do tema são, deveras, muito apropriadas e pertinentes e, penso eu, devem ser dissecadas minuciosamente, a fim de podermos, realmente, adquirir uma compreensão mais próxima possível da perfeição. Só assim, e desta forma, seremos capazes de vivenciar a fidelidade em toda a sua extensão e complexidade.

Por primeiro, é oportuno definir, etimologicamente, o termo “fidelidade”: na lição de Deonísio da Silva, o termo procede do latim – fidelitate – declinando para fidelitas, fidelitatis, fidelidade[1]. A palavra tem a ver, também, com o termo latino “fides”, donde derivam a fé, a “fidúcia”, ou, ainda, a confiança. Percebes? Estamos a tratar de um termo que envolve confiança, fé ou, no linguajar mais adequado à nossa conversa, “credibilidade”.

Bem, agora que já dominas o significado do termo, podemos aprofundar um pouco mais na conversa pela qual tanto esperas. Seria legítimo se, eventualmente, quisesses saber, então, o que significa ser fiel, haja vista a tua pretensão de adequar o termo – fidelidade – à tua vida cotidiana.

Sabendo o significado de fidelidade, não seria difícil, para ti, deduzir de imediato que, ser fiel, é manter intactos todos os compromissos por ti assumidos ao longo da tua caminhada. Quais compromissos? Todos! Tudo o que tu disseste ontem, para seres fiel, deves confirmá-lo hoje. Aí, poderias fazer pequena confusão com outro termo bastante utilizado todos os dias: a coerência. Muitos de nós cobra coerência entre o discurso e a prática. No entanto, perceba, ser coerente não é ser fiel, no sentido estrito da palavra. Ser coerente é agir em conformidade com um ponto de vista expresso. Ser fiel, é diferente. Ser fiel, é agir em absoluto cumprimento com o compromisso assumido perante terceiros.

Ora, poderias, ainda, objetar: mas, se não assumir qualquer compromisso, não preciso ser fiel, nem me preocupar com qualquer forma de fidelidade. Terias alguma razão, caso fosse possível passar pela vida sem, de fato, assumir qualquer forma de compromisso. Só que não é. Não é possível viver sem assumir compromissos. E sabes por quê? Porque o compromisso é expresso pela palavra, cuja expressão pode ser, simplesmente, clicar nas teclas “concordo”, ou, “aceito”, depois de concluir uma compra banal pela internet. Ao acionar qualquer uma das referidas teclas, já assumiste um compromisso, qual seja, o de efetuar a aquisição do produto pelo qual, de alguma forma, terás de dar uma contrapartida. E se não deres a contrapartida combinada, e aceita por ti, serás banido daquele site, por não seres considerada pessoa de... confiança!

O mesmo ocorre, quando pedes alguma coisa emprestada a alguém, comprometendo-te a devolver em determinado prazo e sob a condição de manter intacto o estado da coisa, ou assumir a responsabilidade pelo reparo em caso de algum dano fortuito. Caso assim não procedas, estarás deixando de cumprir o que, por livre e espontânea vontade, assumiste com o outro.

A partir desta compreensão, perceberás nitidamente que, todo e qualquer compromisso assumido por ti, perante terceiros, no pretérito, obrigar-te-á no futuro e, caso venhas a mudar de ideia ou mesmo deixar de cumprir rigorosamente o compromisso assumido, cairás, inevitavelmente, no descrédito.

No tempo dos nossos avós, diziam eles, a palavra de uma pessoa possuía valor inestimável e insubstituível. Dada a palavra, um “fio da barba”, consagrava o ato e o sujeito, de forma alguma, deixava de cumprir o compromisso assumido, sob pena de, em muitos casos, pagar com a própria vida.

Hoje em dia, a palavra de uma pessoa não possui qualquer valor. Aliás, o sujeito nem precisa falar. Tem que assinar papéis e apresentar todas as credenciais materiais exigidas porque, caso descumpra o prometido, arcará inexoravelmente com as penalidades duríssimas impostas, contratual ou legalmente, aos infiéis, mal pagadores, trambiqueiros, ou, chame lá como quiser.

Entretanto, os seres humanos deste tempo de mudanças, e de pandemia, acreditam piamente que, no caso do matrimônio e da religião, por exemplo, não há que se falar em fidelidade. Nega-se hoje o compromisso assumido ontem, desde que situação mais interessante ou mais vantajosa surja no caminho do promitente. A desculpa esfarrapada da “liberdade” sem limites, justifica qualquer mudança de atitude. O ser livre é a senha necessária para permitir que, o que se ajusta hoje, seja impiedosamente, descumprido amanhã. Assim, em quem confiar?

Embora este seja o pensar de muitos e muitos seres humanos, o preço por qualquer infidelidade é sempre o mesmo: o descrédito e a desconfiança. Aquele que deixa de cumprir um compromisso assumido torna-se pessoa “não confiável” e, com tais tipos de pessoas, nem eu e nem tu queremos manter qualquer tipo de negócio, simplesmente, porque não queremos ser bobos de ninguém e, quem é infiel uma vez, pode sê-lo duas, três ou para o resto da vida.

Dirás tu, em compaixão para com o infiel: mas, todos merecem uma segunda chance. É verdade. No entanto, manter a fidelidade exige uma constância comportamental. Basta ser fiel uma ou duas vezes para adquirir-se a confiança alheia. Porém, para desconfigurar a infidelidade, o sujeito terá que manter uma constância de fidelidade muito maior porque, dir-se-á a respeito dele (infiel), já mentiu uma vez, pode mentir de novo; já traiu uma vez, pode trair de novo; já negligenciou uma vez, pode agir do mesmo modo outra e outras vezes. Então, para o infiel, o prazo de recomposição do crédito e da confiança será sempre muito maior, e qualquer escorregão é mais do que suficiente para lançá-lo, novamente, no fundo do poço.

Por esta razão, é de se aconselhar aos jovens, que estão dando os primeiros passos para a vida adulta: assumam compromissos com seriedade e, uma vez, assumidos, cumpra-os rigorosamente, mesmo que, ao final, contabilizem algum prejuízo material. Será sempre muito melhor sofrer algum prejuízo material do que um quase insuperável prejuízo moral. Deixa este ônus para os que contigo contratarem. Se toda uma geração passar a agir desta forma, e a assim ensinar aos seus descendentes, pode ser que, algum dia, por mais distante que possa estar no futuro, a palavra volte a ter o valor que os infiéis de todos os tempos, com seus comportamentos falhos e inescrupulosos, corromperam.

Penso que, agora, em teu coração, não pairam muitas dúvidas acerca da fidelidade e das suas implicações. Exemplos, certamente, virão às centenas diante de ti. Basta refletir um pouco.

Em todo caso, espero ter contribuído, por pouco que tenha sido, para o teu crescimento pessoal e espiritual. Reflita sobre tudo o que está dito e, caso julgues oportuno e conveniente, compartilha com teus semelhantes. Vai que a tua versão seja mais bem sucedida do que a minha. Afinal, é nosso dever levar, sempre e sempre, boas e saudáveis ideias a todos os nossos semelhantes. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________________ [1] SILVA, Deonísio da. De onde vêm as palavras. Origens e Curiosidades da Língua Portuguesa. 17ª ed. Rio de Janeiro. Lexicon, 2014. p. 201. __________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, pensador espiritualista, caminhante e cultor do silêncio.

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