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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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dez 16

EDITORIAL DA SEMANA: FIM DA ESCRAVIDÃO, ALVÍSSARAS À LIBERDADE!

DJANGO LIVRE

O ESCRAVO SE DESPEDE DO SENHOR: VIVA A LIBERDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A data entraria para a história quando, poucos dias depois de assinada a Lei Áurea, um escravo recebe a notícia da liberdade que se aproxima. Primeiro, como era de se esperar, chora copiosamente, emocionado que fica ao saber que, doravante, estará livre dos grilhões e do açoite. Livre das ordens descabidas e mal engendradas e dos sacrifícios insanos aos quais fora submetido durante tantas décadas. Enfim, algo grita dentro dele: é a tal da liberdade sobre a qual tantos falam e pregam!

Tudo confirmado, o pobre escravo decide atender ao último comando vindo do interior da Casa Grande: participar de uma grande solenidade para a despedida entre os demais sofredores e os senhores aos quais estiveram submetidos, desde o menor até o maior e mais graduado. Mas o velho escravo é renitente e resistente à ideia da tal solenidade. Ele não faz questão destas coisinhas de gente branca e metida. O que ele mais quer, agora, é sair do cativeiro e ir em busca daquilo que nunca pode ter: sonhos. Alguém poderá argumentar que, sempre, é possível sonhar. Mas, como sonhar com o que, sem a perspectiva da liberdade, jamais se poderá realizar?

Aquele homem jamais pudera, sequer, alimentar qualquer espécie de sonho, porque tudo o que, eventualmente, pudesse querer para si e para a própria vida, passava, necessariamente, por uma, até então impensável, liberdade. Agora, pensava ele lá com os seus botões, tudo será diferente. Sem correntes, sem ordens tresloucadas, sem açoites e sem perseguições injustas, sem mentiras e sem inventação de moda, seria capaz de fazer a única coisa que jamais pode: viver.

O senhor maior da Casa Grande, com toda a pompa que lhe era peculiar, chama o velho escravo e pede para que pense com calma sobre a saída tão rapidamente decidida, tentando mostrar a ele os riscos, os perigos e os inconvenientes a que estaria sujeito fora dos grilhões. “Dinheiro”, diz o esnobado senhor, “é pura ilusão”. “Nunca dá pra nada. E, sem dinheiro, você vai precisar voltar e, se isso acontecer, só te aceito de volta se for para o trabalho forçado. Porém, querendo permanecer, posso te arrumar um trabalho mais manso e mais suave. Um bom prato de comida, um café com broa de fubá, um banho diário e uma cama com colchão de capim. Você terá uma vida de rei, se decidir permanecer na Casa”.

Enquanto o imponente senhor discursa, na tentativa de manter junto de si aquele, agora, ex-escravo, o velho negro medita e pesa cada uma das palavras pronunciadas porque, coisa que aprendera desce muito cedo, foi ouvir em silêncio todas as ordens e os insultos regularmente recebidos. Nada do que estava sendo dito era fixado na sua mente, na qual apenas a sensação de liberdade e de total desprendimento tinha lugar de excelência.

O poderoso senhor olhando para o retirante, e vendo-o de cabeça baixa e em silêncio como outrora, por um instante, sente verdadeiro ódio dele. Queria vê-lo falar à vontade, como se estivesse, realmente, encarnado a nova condição assegurada pela Princesa Isabel. Queria vê-lo arrogante como qualquer dos brancos com quem mantinha laços de amizade. Não suportava ver o velho negro submetido à sua pessoa, como se ainda estivesse sob o seu domínio absoluto.  Então, depois de uma pequena fração de segundos, ele alteia a voz e exclama: “você pensa que eu não tenho mais a importância de antes? Pensa que eu não mereço ouvir a sua voz de homem livre? Acha que daqui por diante só falará com quem quiser?” O silêncio do ex-escravo era por demais constrangedor. Ele, na verdade, estava tremendo, sem saber o que dizer, pois, até então, suas únicas e poucas palavras tinham sido: “Sim senhor! ou Não senhor!”

O poderoso senhor não era capaz de compreender que aquele pobre coitado, a partir de então, estava sendo parido para um mundo absolutamente desconhecido por ele. Não tinha a capacidade de avaliar o quão confusa estavam a mente e o coração daquele que jamais soubera o real significado da palavra liberdade. No seu íntimo, o velho liberto só sabia de uma coisa: era chegada hora de se despedir. Nada do que o senhor lhe havia dito tivera qualquer importância para ele. Não pensava em dinheiro, até porque, desconhecia o potencial daquilo que chamavam de “moeda”. Muitas vezes, ouvira falar sobre o ouro, mas, sabia que ouro era a única coisa que jamais receberia das mãos de qualquer um para quem viesse a trabalhar. Morada? Qualquer uma estaria de bom tamanho. Poderia dormir até mesmo ao relento, olhando para o céu cravejado de estrelas e habitado por uma lua que, agora, olhava para ele de modo diferente. No coração, sinais e sentimentos de gratidão eterna por aquela a quem jamais poderia agradecer pessoalmente. Aquela que, por vezes, parecia-lhe ter ouvido todas as suas sofridas preces, clamando para que o Senhor do Céu e da Terra o deixasse partir para a eternidade. No peito daquele homem batia um coração agradecido a tudo e a todos. Por esta razão, nada do que o antigo senhor acabara de dizer tinha qualquer importância ou significado para ele.

Mas, o antigo dominador quer uma resposta e insiste na pergunta: “E então, negro, você fica comigo ou vai atrás das ilusões?” E chega a gritar:  “Você está me ouvindo?”

Sim meu senhor, disse o pobre liberto. Sim, estou ouvindo e sou agradecido por tudo o que vossa majestade fez por mim, mas, preciso partir. “Para onde?” Grita o exaltado senhor. “Para onde você pensa em partir? Você não tem nada: casa, dinheiro, emprego, comida, roupas, calçados. Nada, ouviu? Você não tem nada. E ainda assim, acha que pode partir daqui desse jeito?”

Peço ao meu senhor, diz o retirante, que me deixe partir em paz. Nada do que o meu senhor acaba de dizer tem importância para mim. Como um homem livre, posso comer capim com os cavalos; posso tomar banho nos riachos; posso dormir nas cavernas que existem no alto das montanhas; posso vestir e calçar peles de animais; posso dividir com as aves do céu os frutos das florestas. E, se algum outro homem, seja ele quem for, levantar a mão contra mim, posso me defender da forma mais prática que estiver ao meu alcance.

Peço ao meu senhor que me compreenda: nada deste mundo poderá substituir a liberdade que nossa Princesa assegurou para nós. Sou um humilde negro. Não sei escrever muito e minha leitura é bem fraca, mas, no meu peito bate um coração igual ao do meu senhor. E, dentro deste coração, existe amor, gratidão e, devo confessar, muita alegria por poder ter chegado até este dia. Quero me despedir do meu senhor repetindo o gesto que os brancos mais costumam fazer. E, naquele momento, estende a mão direita para o senhor que, olhando-o com terrível desdém, aponta para a porta e grita: “Saia já daqui. Saia e nunca mais volte, porque, se voltar, encontrará a sepultura aqui, neste lugar. Saia!”

O pobre negro, e agora ex-escravo, vestido e calçado de forma bastante humilde, como o fora durante toda a sua vida, com um velho e surrado chapéu de couro curtido entre as mãos, abaixa a cabeça pela última vez diante daquele imponente senhor e, lentamente, vai saindo em direção ao terreirão. Vai andando calma e lentamente, esboçando um leve, mas, consistente sorriso. A senhora, os filhos maiores, assim como os menores, ficam olhando aquela partida, enquanto os demais ex-escravos, sem a mesma coragem, decidem permanecer na Casa Grande, para darem continuidade aos trabalhos de antes.

O velho e ainda forte negro, ao ultrapassar os limites da porteira, coloca o surrado chapéu sobre a cabeça e vai aumentando a velocidade dos passos, murmurando e, por fim, gritando: sou livre; sou livre! Eu sou livre! E começa a correr por aquela empoeirada estrada de terra batida onde, logo, logo encontra outros libertos, iniciando ali uma nova etapa em suas vidas. Uma jornada durante a qual não estariam isentos das lutas, dos trabalhos e dos sofrimentos, mas, estariam libertos para sempre dos grilhões, dos açoites e dos castigos sofridos, simplesmente pelo fato de serem negros e de serem vistos como propriedades de alguém.

Na despedida do ex-escravo todas as palavras foram inúteis, porque, o que realmente interessava, era a liberdade conquistada. A liberdade que não tem preço. A liberdade inegociável. Por ela, e em nome dela, todo e qualquer sacrifício é pequeno, porque, diante dela, quanto mais se tem, mais escravo se é. Ser livre, estar livre de todos os grilhões, reais ou imaginários; de todos os açoites físicos, psicológicos e devastadores é, depois da vida, o bem maior a ser resgatado e resguardado para sempre.

Este texto é escrito no momento em que estou prestes a me aposentar e, de uma certa forma, identifico-me com o velho negro e ex-escravo e, doravante, assim como ele, pretendo estar liberto de todos os grilhões e de todos os açoites aos quais me submeti durante mais de quatro décadas de trabalho. Sou livre, sou livre! Eu sou livre! Repito com o velho homem novo que atravessa a porteira para, por ela, nunca mais entrar! Leia, reflita e busque a sua liberdade, onde quer que ela esteja. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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