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set 14

EDITORIAL DA SEMANA: JESUS E SUA GENTE POBRE E HUMILDE

JESUS E SUA GENTE

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: NO CAMINHO DE CRISTO E DO EVANGELHO –

*Por L. A. de Moura –

Hoje eu vou abordar um tema sobre o qual, talvez, você possa se surpreender ou, quem sabe, achá-lo, simplesmente, fora da moda. Respeito qualquer que seja a sua postura. Mas, acredito ser preciso, como sempre o foi, falar sobre a Teologia e, mais especificamente, sobre a Teologia da Libertação. Você poderia até mesmo objetar que, nos tempos atuais, das redes sociais, da globalização, do imediatismo dos fatos e das notícias em ritmo full time, nunca se passou por período de tamanha liberdade e, consequentemente, libertação.

Bem, não sei se você está compreendendo sobre o que eu quero falar hoje. Mas, tudo bem, vou procurar informá-lo sobre tudo. Não vamos, aqui, neste espaço limitado, ficar discutindo a estupenda evolução tecnológica pela qual tem passado toda a humanidade. Não é esta a meta. O que pretendo trazer para você é uma ínfima parte daquilo que convencionou-se denominar como “Teologia da Libertação” a partir de Jesus Cristo e do seu Evangelho. É disto que se trata.

Para iniciar a conversa, e sempre evitando me alongar em demasia, devo destacar nomes de teólogos como o do peruano Gustavo Gutierrez, do suíço Huns Küng e do brasileiro Leonardo Boff, que estão entre os pioneiros de uma visão teológica que, entre os fins da década de 1960 até meados da de 1980, do século passado, abalaram grandes estruturas da Igreja de Roma, resultando em severas punições para, inclusive, o brasileiro.

Os mais antigos devem se recordar de tais episódios. Os mais jovens, por óbvio, não vivenciaram aqueles tempos bastante difíceis. Por esta razão, é recomendável que pesquisem acerca do tema e da história, caso tenham algum interesse.

Deixando conceituações e formulações teológico-filosóficas de lado, vamos direto ao assunto: a Teologia da Libertação, além de significar um grito de permanente alerta à Igreja Cristã trata, também, e em síntese, de aplicar no chão da terra os ensinamentos e os exemplos de Jesus, por muitos denominados como “o Jesus histórico”, ou seja, aquele Jesus sobre o qual o cristianismo se encarregou de acumular dados e fatos que envolveram a sua rápida passagem por este mundo.

É importante destacar que Jesus pode ser visto, e assim o é por muitos cristãos e muitas cristãs, apenas como o da fé, ou seja, aquele homem absolutamente santo, Filho do Altíssimo, alto, bonito, com vestes limpas e bem alinhadas, Mestre judeu das Sagradas Escrituras, que ensinava a verdade, elencava os pecados a que estão sujeitos todos os mortais, condenava os ricos e mostrava o inevitável caminho do Hades, o fogo da geena, para os pecadores não redimidos. Este mesmo Jesus não hesitava em passar noites inteiras em profundos diálogos com o Pai; praticava o jejum, curava cegos, surdos, mudos e enfermos, ressuscitava mortos, perdoava os pecados, mas, alertava os pecadores para não mais pecarem e, por fim, vítima exemplarmente obediente, caminhou sob chibatas até o calvário, onde encontrou a morte na cruz. Um Jesus, enfim, fatídico!

Um outro Jesus, tão amado quanto o primeiro, é aquele que alguns julgam ter passado a juventude entre os Essênios, estudando as Sagradas Escrituras e as estruturas do judaísmo. Um Jesus absolutamente pobre. Mal vestido, mal calçado, morando mal e comendo mal, junto com todos os pobres do seu tempo. Este Jesus, sob este prisma, é complacente com a gente pobre e sofrida que o cerca. Senta-se em meio a todos eles, sem se preocupar se são, ou não, pecadores, cobradores de impostos ou prostitutas. A Ele não interessa saber se aquela gente simples e humilde tem, ou não, uma religião: apenas ensina o respeito à casa do Pai e o caminho do Reino. Para Ele não importa se o homem deve comer carne ou peixe, se deve beber água ou vinho. Ele procura estar sempre com o seu povo, com a sua gente. E, vivendo e convivendo desta forma, Ele vê diante dos olhos a pobreza absoluta, a falta de tudo, a doença, a injustiça, a privação dos órgãos essenciais aos sentidos. Ele sente na própria pele, como se fosse com ele mesmo, a exploração do povo, a perseguição à qual estavam sujeitos, a exclusão social dos leprosos. Ele sofre. Ele chora com os amigos e familiares do amigo Lázaro, que jaz no túmulo.

Este mesmo Jesus, não suportando assistir calado a tantos horrores pelos quais seus amigos, irmãos, vizinhos e conterrâneos estavam sendo massacrados, sobe ao monte e clama as bem-aventuranças; não se conformando com o egoísmo, Ele leva a multidão a repartir pães e peixes; com piedade de Pedro e de seus amigos, Ele possibilita a pesca milagrosa. Para mostrar o poder e a necessidade da transformação dos seres humanos, Ele faz a água se transformar em vinho de primeira qualidade, demonstrando que o último estágio pode ser muito superior ao primeiro. Querendo revelar que nós podemos fazer muito mais do que aparentamos ou acreditamos, Ele afirma, e comprova por meio de Pedro que, quem tiver fé, caminhará sobre as águas; se observar seus ensinamentos, fará as mesmas obras que Ele, e outras ainda maiores, sem qualquer forma ou resquício de exclusivismo. Ele ensina que o Pai ama todos os seus filhos e filhas e que, ao final, quer mesmo é justiça para todos.

Enfim, um Jesus popular, um homem nascido, crescido, vivido e experimentado em meio ao seu sofrido povo, dos quais nunca se afastou.

Jesus era um leigo que, conhecedor da vontade de Deus, declara-se como sendo o próprio caminho, a verdade e a vida. Não satisfeito, chama a si todos os cansados, aflitos e oprimidos, prometendo que a todos aliviará dos seus fardos e pesos. Um pregador que não tinha igreja, frequentava a Sinagoga (casa de oração) e, com a mesma desenvoltura, foi ao Templo de Jerusalém.

Admirado com a fé de Pedro, Ele afirma ser sobre aquela fé, forte como uma rocha, que pretende ver construída a sua Igreja – uma verdadeira assembleia de filhos e filhas de Deus, vivendo e convivendo em absoluta comunhão. Neste sentido Ele, de antemão, assegura que, onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ali, também, estará Ele. Na proximidade da sua condenação, Ele declara: “não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18).

É este Jesus que, preferindo não desafiar Roma, manda pagar o imposto devido a César, não, sem antes, deixar claro que o que pertence a Deus, deve ser dado a Deus. Um Jesus que olha para o sábado, dia sagrado para os religiosos da época, e afirma que este dia foi feito para o homem, e não, o contrário. Um Jesus, enfim, intrigante!

Pois foi justamente olhando para este Jesus, que os chamados teólogos da libertação, ao confrontarem épocas e contextos, além de fazerem certas comparações entre o judaísmo do tempo de Jesus e certos setores do cristianismo contemporâneo, compreenderam ter chegado o tempo de, realmente, conclamar toda a Igreja Cristã a se comprometer de fato e com coragem com a causa do pobre, do oprimido e do injustiçado e a promover a verdadeira imitação de Cristo, postando-se ao lado da gente pobre, sofrida, perseguida, injustiçada, humilhada, explorada, combatida e excluída. Gente da mesma estirpe daquela que convivia com o Mestre de Nazaré. Mesmo estando muitos séculos distantes de Jesus, os teólogos da libertação viveram seus momentos de calvário. Alguns foram crucificados pelas canetas que assinaram suas sentenças de condenação. Outros, de fato, perderam suas vidas ao defenderem sua gente e seus povos, sem se importarem se eram índios, brancos, negros, mulheres, homossexuais,  prostitutas, camponeses ou operários da urbe. Era imperioso viver, na prática do chão da terra e da fábrica, o Evangelho libertador trazido por Jesus sem, jamais, esquecer ou desconsiderar a plenitude da vida eterna, da vida em abundância prometida pelo Jesus da fé.

Muitos homens e mulheres nascidos e criados no seio da Igreja, obcecados com a ideia de entrarem no Reino de Deus por seus próprios méritos, criticando e condenando irmãos e irmãs que adotam outras posturas, condenaram, e ainda condenam, a Teologia da Libertação enxergando nela um simulacro do marxismo ou do comunismo trotskiano. Com esta visão, e pintados na cor branca por fora, muitos cristãos católicos, inclusive, apontaram o dedo contra a Teologia da Libertação e dos seus defensores, tachando-os, simplesmente, de revolucionários comunistas, desobedientes da Igreja, maus exemplos e coisas do gênero, preferindo o silêncio complacente à fala indignada em defesa da gente pobre, sofrida, injustiçada e humilhada de todas as formas.

Talvez, estes cristãos e cristãs, de tão obcecados, tenham esquecido de algumas das palavras mais importantes ditas por Jesus como, por exemplo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais e iniquidade” (Mt 7, 22-23). Talvez, ainda, estes cristãos e cristãs terão mesmo necessidade de ouvir esta sentença a ser proferida pela boca do próprio Jesus, para poderem compreender que a vontade do Pai e do Filho é que todos os homens sejam tratados com justiça, nem mais e nem menos. Deus não combate a riqueza. Os Patriarcas, no Velho Testamento, eram todos muito ricos e abençoados por Deus, porque eram fiéis e, também, comprometidos com a justiça. No entanto, com a chegada da monarquia, com seus luxos, com suas trapaças, mentiras, idolatrias, corrupções, luxúrias, explorações, humilhações, perseguições, políticas belicistas e mortes, Deus envia profetas altamente indignados como Isaías e Amós, por exemplo, para gritarem contra esta afronta feita ao povo e ao Criador e para clamarem por justiça ao órfão e à viúva.

Quem olha para o mundo de hoje, para o Brasil, inclusive, e acha que está tudo bem, tudo do jeito que só poderia estar; que o pobre nasceu assim, e que assim viverá até morrer; quem acredita que o capitalismo, selvagem como é, é o sistema abençoado e abençoante dos ricos, e que os pobres devem lutar para superar suas dificuldades do dia-a-dia, comendo quando for possível, sem que nada seja feito, não pode se autointitular seguidor de Jesus. Simplesmente porque Jesus não era, não vivia e não agia assim. Quem poderá imitar alguém que não era do jeito que está sendo imitado? Jesus bradou em alto e bom som contra a opressão do seu tempo; Jesus teve coragem para enfrentar, não o império romano propriamente, mas, e, sobretudo, o judaísmo farisaico daquele tempo. Um sistema religioso estruturado, hierarquizado, convicto de que era o senhor absoluto e o guardião da verdade e das bençãos de Deus. Um sistema conivente com o Império, em troca de bem-estar, de conforto, de manutenção dos seus feudos religiosos e, quem sabe, de isenção de impostos.

Quem olha para o Brasil de hoje, e percebe que os povos indígenas estão sendo massacrados, largados à própria sorte; percebe que o campo está inflamado pela política armamentista; que os cárceres estão apinhados de seres humanos que, a cada dia, ganham formas mais e mais monstruosas; que vê direitos trabalhistas, como o simples pagamento do salário, serem aviltados; quem a tudo isto vê, e acredita que está tudo normal, carrega dentro si algum espírito absolutamente desumano, animalesco mesmo. Quem vê o que está sendo feito com as nossas matas e florestas, com os nossos rios e nascentes, com grandes companhias faturando bilhões em cima do fornecimento de uma água de qualidade altamente duvidosa; um saneamento básico que, de básico, não tem nada. Quem a tudo isto vê e mantém-se inerte e em silêncio, não pode acreditar que entrará no Reino de Deus, preparado apenas e tão somente para os pobres e para os justos.

Quem assiste um ministro preocupado, descabelado com a disparada do dólar, com a situação da bolsa de valores e da economia, sem qualquer preocupação com os trabalhadores e com as trabalhadoras do país que, de fato e de direito, são os verdadeiros produtores de toda a riqueza; quem vê este sujeito agindo desta forma, sem demonstrar qualquer preocupação ou mesmo sem propor qualquer política voltada para o emprego, para uma correção justa dos salários, para uma efetiva justiça social, para a saúde ou para a educação das massas, não pode acreditar, sinceramente, ser esta a vontade de Jesus. Neste cenário, deveriam sentir-se envergonhados de se autoproclamarem cristãos, seguidores de Jesus. Seguidores de um Jesus que, simplesmente, desconhecem totalmente, apenas, ouviram falar.

Cinco anos após a publicação, pelo Papa Francisco, da Carta Encíclica Laudato Sí' e trinta dias após o falecimento de Dom Pedro Casaldáliga, a Teologia da Libertação, assim como seus árduos defensores, não pode perder a sua pujança. Pelo contrário, precisamos alimentá-la cada vez mais, como o cozinheiro alimenta o fogão com a lenha seca, a fim de que o fogo do Espírito permaneça sempre aceso em nossos corações. Não podemos assistir calados, omissos e coniventes a tudo o que se passa ao nosso redor, simplesmente, indo à igreja ou ao templo nos dias determinados, depositando um dinheirinho da sacolinha do padre ou do pastor, sob pena de, naquele dia, ouvirmos um sonoro: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim todos vós que praticais a iniquidade.

Esta é apenas uma pequena parte acerca da Teologia da Libertação, suas preocupações, seus olhares e seus objetivos. Acredito que você, se ainda não refletiu profundamente, deverá fazê-lo a partir de agora. Se ainda não compreendeu que o Papa Francisco está aí para abraçar o Evangelho e o modo de viver ensinado, e de conviver adotado, por Jesus, procure se enquadrar enquanto é tempo, pois, a vida é fluida e, quando menos esperamos, eis que é chegada a hora da última travessia. Você poderá até fazer a travessia em um vagão forrado com ouro, porém, nunca se sabe de que forma chegará do outro lado, até porque o seu vagão fica aqui, encaixado numa estreita vaga de concreto. Pense sobre tudo isto e avalie se está imitando o Jesus verdadeiro ou aquele que pintaram para você ou que você mesmo(a) decidiu pintar para si. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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