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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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ago 31

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO DESISTA DA PERMANENTE BUSCA PELA SABEDORIA

A BUSCA PELO SABER

A BUSCA PELO CONHECIMENTO E PELA SABEDORIA EXIGE NEUTRALIDADE E IMPARCIALIDADE –

*Por L. A. de Moura –

Hoje você traz um assunto formidável para que, sobre ele, possamos abrir algumas portas que, no final de todas as contas, serão convertidas em acesso para o livre pesquisador, estudioso e pensador poderem adentrar no fantástico mundo do conhecimento.

Sem muita complacência para com este escriba, você questiona, de início, a motivação de certas pessoas para, em decorrência das crenças, religiosas ou não, afastarem-se dos diversos campos do conhecimento. Segundo seus argumentos, muitas pessoas preferem acorrentar-se à ignorância, para manter suas convicções, a lançarem-se livremente no universo do saber, da busca pelo conhecimento, em todos os níveis possíveis, e da própria verdade sobre todas as coisas. E, ainda, de acordo com a sua tese, crenças e convicções ortodoxas funcionam como verdadeiros muros de concreto, a impedirem o avanço de boa parte da humanidade que, para piorar ainda mais o cenário, prefere desacreditar os buscadores de novos caminhos e de novos conhecimentos, a dar-lhes seguimento e subsídios em seus trabalhos.

Para você, conforme posso deduzir pela sua indignação, trata-se de situação aviltante à qual o ser humano, em escala crescente e progressiva, está estacionado, proporcionando um endurecimento absurdo da alma, alimentando o egoísmo e a prepotência e impedindo a própria evolução espiritual, tão necessária para a vida pós-túmulo.

Como tem feito ultimamente, você passa para mim a árdua tarefa de tomar uma posição diante do tema, acreditando que, talvez, eu consiga encontrar uma porta de saída para impasse de tal magnitude. Não tenho tal pretensão. No entanto, algumas palavras posso acrescentar ao seu repertório de observações e de conclusões.

Veja, é fato concreto, e neste sentido você está coberto de razão, que uma parte significativa da humanidade vive, atualmente, entre a cruz da ignorância e a espada das próprias convicções. Pregada na cruz da ignorância, esta larga parcela de seres humanos, com pregos cravados no próprio cérebro, não consegue, sequer, imaginar a possibilidade de sair livre da condenação. Ao mesmo tempo que, com a espada das crenças e das convicções apontada para a jugular, esta mesma parcela é incapaz de ousar qualquer movimento na direção do vértice, ou seja, na direção do Conhecimento e da Verdade. Deste modo, temos aquilo do que somos testemunhas oculares.

Bem, você poderia então, e de uma forma bastante legítima, perguntar: o que dizer deste cenário caótico? Como sair deste impasse? É certo que, quase sempre, temos respostas prontas para muitas coisas. Porém, para outro tanto de questões não as temos, assim, de imediato.

Não posso deixar de admitir que esta tem sido uma das questões que mais ocupam a minha mente de pensador, procurando compreender a falta de interesse e, podemos mesmo dizer, de vontade, das pessoas para buscarem de modo constante o aperfeiçoamento do conhecimento e da sabedoria. No afã de encontrar respostas minimamente aceitáveis e, ao mesmo tempo, eficientes, venho meditando sobre tudo isto há muito tempo. Não encontrei nada de muito satisfatório. Ainda assim, consegui contabilizar algumas possibilidades que, caso adotadas possam, talvez, alterar este estado, como você afirma, “caótico”.

No mundo das ideias, que é basicamente o nosso, crenças e convicções chegam até nós por meio de dados, informações, pregações e certezas trazidas por pessoas e/ou instituições que, para tanto, valem-se de diversos instrumentos – livros, vídeos, textos antigos ou recentes, interpretações de códigos, de leis, de manuais e de ensinamentos muito antigos, doutrinas e dogmas – que surgem, justamente, com o objetivo de criar em cada um de nós uma espécie de carcaça, presumidamente protetora contra as chamadas intempéries da vida. Para os que trazem tudo isto para nós, é imperativo que acolhamos tudo com bastante aguerrimento, certeza e fidelidade, de nada abrindo mão, ou por nada substituindo, para que estejamos, digamos, sempre protegidos contra os falsos mestres e, por fim, contra a caminhada rumo a todo um mundo de fenômenos, de conhecimentos e de saberes ainda desconhecidos pela maioria de nós, mal explicados ou mesmo mal esclarecidos.

Ora, uma das grandes virtudes que o ser humano pode ostentar, quando possui, é a do discernimento. É saber distinguir uma coisa da outra com a maior exatidão e perfeição possíveis. Esta virtude faz parte do cabedal de sabedoria que o ser humano deve almejar e que deve, portanto, lutar diuturnamente para alcançar. O Apóstolo Tiago, na sua Epístola às doze tribos, afirma que: “Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á concedida. Mas peça-a com fé, sem nada hesitar, porque aquele que hesita é semelhante à onda do mar, que é agitada e levada de uma parte para a outra pelo vento.” (Tg 1, 5-6). Assim, é de suma importância que o ser humano seja virtuoso na arte de discernir entre o bem e o mal, entre o falso e o verdadeiro, entre o certo e o errado e, por fim, entre todos os dualismos existentes e conhecidos.

Portador da virtude do discernimento, tal qual o homem que, amarrado ao mastro do navio, pode ir à ilha das sereias, sem ser capturado e devorado, o ser humano pode, e deve, caminhar, sempre, em busca de novos conhecimentos acerca de tudo o que o cerca, sem medo e sem titubear, ou seja, sem hesitar, conforme exorta o Apóstolo na carta acima mencionada.

Em outras e conclusivas palavras: aquele que sai em busca do conhecimento e da sabedoria deve portar-se de forma absolutamente neutra e imparcial, de modo a impedir que pré-conceitos possam servir como obstáculos para o crescimento, humano e espiritual. Dotado com a virtude do discernimento, o ser humano sempre reconhecerá a verdadeira sabedoria, assim como o sábio e correto ensinamento, deixando de ser escravo das verdades e dos ensinamentos prontos que, normalmente, são-lhe entregues por mestres que nem sempre acreditam ou praticam o que pregam e ensinam.

O contexto no qual estamos inseridos atualmente exige, diante dos inúmeros fatos por todos presenciados e testemunhados, que desçamos da cruz da ignorância e que nos afastemos da espada das convicções que, de certa forma, nos foram impostas de cima para baixo, para irmos em busca de conhecimentos mais sólidos e mais profundos, ainda que para, apenas, confirmar o que já sabemos de antemão. É necessário que, de forma neutra e imparcial, possamos nos lançar no mar em busca de outros peixes. Neste sentido, gosto sempre de recordar a perícope do Evangelho de Lucas, quando Jesus ordena a Pedro para ir mais adiante, no mar, para lançar suas redes. Ora, Pedro havia passado a noite toda ali, naquele mesmo mar, lançando as suas redes, sem nenhum sucesso. Nada de peixes! Ele fala isso com Jesus sem, no entanto, deixar de acrescentar: “Mestre, tendo trabalhado toda a noite, não apanhamos nada; porém, em respeito à tua palavra, lançarei a rede.” (Lc 5, 1-9). Pedro, um velho e exímio pescador, conhecedor das artimanhas do mar, cheio de sabedoria e de convicções, ouve a voz Daquele que nunca tinha fisgado um único peixe na vida. Abre-se para o próximo, abre-se para o conhecimento do outro. Leia o capítulo indicado acima e veja o que aconteceu com a superação das velhas e impactantes convicções do velho pescador.

Não fomos criados para vivermos na limitação. O Criador espera que cresçamos na fé, no Conhecimento e na Sabedoria. E, já que citei Jesus, volto a Ele para recordar suas sábias palavras, ao afirmar que: “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Observe que o Mestre de Nazaré não se contenta com o fazermos as mesmas obras que Ele fez, mas, sugere que façamos “outras ainda maiores”. Portanto, não devemos permanecer amarrados ao mastro do navio quando ao nosso redor, sequer, inexistem sereias devoradoras. Não devemos ter medo do conhecimento e da sabedoria. Ao contrário, devemos ir ao seu encontro a fim de crescermos, principalmente, no âmbito espiritual que, no fundo, deveria ser o nosso único interesse nesta vida e neste mundo.

Por último, para reforçar minha concordância com a sua legítima preocupação, quero citar, ainda, a parábola dos talentos, contada por Jesus, mas que, aqui, vou resumir: um homem que estava para sair em viagem pelo exterior, chamou seus três empregados e entregou-lhes parte da sua fortuna. Ao primeiro entregou cinco talentos; ao segundo, dois talentos e, ao terceiro, um talento. O homem que recebeu cinco talentos, investiu tudo aquilo e, ao final, dobrou o capital do patrão; o segundo empregado fez o mesmo e obteve o mesmo resultado, colheu o dobro do que investiu. O terceiro empregado, porém, com medo do que pudesse acontecer, e sabendo que o patrão era homem bastante rigoroso e severo, preferiu cavar um buraco no chão e enterrar o único talento que recebera. Quando o patrão retornou da viagem e pediu a prestação de contas do dinheiro entregue aos três empregados, cobriu os dois primeiros de elogios e reprovou a atitude, e o medo, do terceiro empregado, chamando-o de “servo mau e preguiçoso”, determinando que fosse-lhe retirado tudo o que estava sob a sua administração (Mt 25, 14-30).

Portanto, aquilo que recebemos das mãos do Senhor, devemos investir, de modo a multiplicar tudo o que nos foi confiado, inclusive, e, principalmente, o conhecimento e a sabedoria, sob pena de, em algum momento da nossa trajetória, sermos por Ele tachados de “servos maus e preguiçosos”, vindo a perder até mesmo o pouco que havíamos recebido anteriormente. Munido com a virtude do discernimento, lança-te na caça por mais e mais conhecimento; atira-te na busca por mais saber; adentra no mar do crescimento espiritual e lança as tuas redes. Abandona o medo e a covardia, símbolos máximos da falta de fé, de coragem e de fidelidade e prova inequívoca de falta de respeito para com a palavra do Mestre maior, Jesus, a quem o pescador Simão Pedro não ousou desobedecer ou mesmo desconfiar do seu saber, apesar de ainda não conhecê-Lo tão perfeitamente como viria a fazê-lo bem mais tarde. Liberta-te da cruz e da espada que te impedem de prosperar espiritualmente. Foge da sombra do conhecimento e do saber servidos, prontos e acabados, na bandeja dos sábios de plantão que, quase sempre, estão por trás de escândalos financeiros, sexuais e morais.

Desta forma, meu amigo de caminhada, espero ter acrescentado algo mais à sua já tão expandida sabedoria. Você, certamente, dotado de saber e de discernimento que é, saberá agregar o que for bom e útil e, ao mesmo tempo, desvencilhar-se do que for inútil, desnecessário ou redundante.

Que nossos leitores e nossas leitoras compreendam bem o nosso propósito e que, munidos do espírito da imparcialidade, da neutralidade, da boa vontade e da virtude do discernimento, possam fazer bom proveito deste texto que, como sempre gostamos de destacar, não é verdade pronta e acabada para ninguém, nem para nós mesmos. É apenas um ponto de partida. Um ponto que dá acesso a inúmeros outros pontos. Sejam felizes, e que gozem da boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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