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mar 04

EDITORIAL DA SEMANA: NO CARNAVAL, TODOS FOGEM DE ALGUMA COISA

CARNAVAL

EDITORIAL DA SEMANA: CARNAVAL, DIAS DE FUGA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

            Chegamos a mais um carnaval! Muita festa, muita alegria, muita música e, enfim, muito de tudo o que faz a vida parecer um estágio de felicidade permanente, sem os assombros dos problemas, das dores, dos dissabores, das angústias, das surpresas negativas, dos roubos, dos mal feitos em todas as esferas de poder, das injustiças e de tudo o que, realmente, traz a infelicidade para milhões de pessoas.

            Mas, existe o carnaval! Este momento mágico que, no curso de alguns dias, apaga tudo o que é feio e pinta um quadro generoso e cobiçado. De sexta-feira de uma semana até o domingo da outra semana, para falar a verdade, o samba, com todos os seus adereços, é o senhor absoluto de todas as razões. É o anestesista que sara todas as dores e que congela todos os sentimentos de humanidade e de humanização.

            No entanto, nem todos permitem a anestesia da alma: jovens, pelo país afora, estão reclusos rezando, cantando louvores a Deus, fazendo novas amizades e assumindo compromissos com a ética, com a moral, com os bons costumes e com as boas práticas. Jovens que seguem as mais diversas denominações religiosas. Jovens que, acima de tudo, acreditam que existe algo de mais valioso do que a folia amnésica que invade o País levando multidões para os braços de uma alegria cara e desproporcional à realidade de suas vidas.

            Homens e mulheres, pais e mães, chefes de família, também estão reclusos em oração pelo mundo, pelo País, pelas famílias e pela solução de todo um manancial de problemas que tanto têm afligido a nossa sociedade e que, passados os dias mágicos do esquecimento e da fuga, certamente, retornarão com a mesma força de sempre.

            Muitos outros cidadãos e cidadãs, ainda que contra a vontade, estão trabalhando normalmente, para tentarem manter o bem estar de uma maioria comprometida com a fuga dos problemas, da dura realidade do dia-a-dia e, principalmente, com o bem estar dos turistas que, também, estão em busca do que nós temos de melhor, além do enriquecimento de tantos outros que, nestes dias, amealham verdadeiras fortunas às custas de quem reúne os últimos reais, para fazer a festa dos outros, fingindo estar feliz!

            Não se deve condenar as festas populares. Pelo contrário, devemos incentivá-las e, na medida do possível, delas participar com vigor, alegria e satisfação. Deus quer ver o seu povo feliz e festivo. O que devemos condenar é o silêncio daqueles que, nestes dias, mantêm-se calados diante da fome, do desemprego, das lotações nos hospitais públicos, da alta disfarçada nos preços dos alimentos, das passagens e dos remédios; calam-se diante dos mal feitos de todas as espécies, dos homicídios e das agressões, dos fanfarrões da política que estão esbanjando o dinheiro do povo, diante do povo e aplaudidos pelo povo, sem que ninguém os fotografe, filme ou grave, como se nestes dias, existisse uma espécie de alforria para tudo o que está acontecendo de mal na sociedade.

            O que devemos condenar com veemência é o incentivo dado por Administradores públicos aos promotores do samba e da folia tresloucada, sob a falsa alegação de que atraem e alegram os turistas, como se turista pagasse os salários atrasados de servidores públicos estaduais, que há muito estão vivendo em penúria nunca, jamais, vista em nossas terras. Passados os dias da alegria virtual, vem a tristeza real: falta dinheiro para a segurança pública, falta dinheiro para a saúde, volta à ribalta o decrépito rombo nas contas públicas e, principalmente, da Previdência, com brados de que só uma reforma dantesca no sistema previdenciário poderá salvar o País. Surgem novos e detestáveis aumentos de passagens de ônibus, metrôs e barcas, já estão preparando, inclusive, os consumidores para o aumento nas tarifas de luz, sem que ninguém, absolutamente ninguém, fale em incentivo ao pobre, ao trabalhador, ao doente, ao estudante, ao órfão, à viúva e ao indigente. A partir do fim da festa milagrosa, nenhum Administrador público tem dinheiro para incentivar mais nada. Incentivos? Só para o samba e para os grandes foliões, gente de fama e prestígio, porque o retorno é certo. Retorno para quem caras-pálidas?

            O carnaval seria muito mais bem vindo se viesse, todos os anos, para celebrar as vitórias e as conquistas do povo, com a sua promoção a uma vida mais digna, com remédios e alimentos mais baratos, atendimento médico de qualidade e imediato, educação de melhor qualidade, formando verdadeiros cidadãos para o País e para o mundo. Aí sim, deveríamos saudar o carnaval como a festa das festas e não, como temos vivido neste País, quando o carnaval nada mais é do que um período de fuga, no qual os sofredores fogem da sua realidade, os fanfarrões, mal feitores e irresponsáveis fogem dos holofotes e das câmeras que, nestes dias, sequer são direcionados para o lado oposto, dando continuidade ao noticiário perverso que, diariamente, invade nossos lares com as mais escabrosas notícias, quando são divulgadas coisas apavorantes que estão acontecendo no País e no mundo.

            Nestes dias, porém, parece que nada de mal, de sério ou de grave existe, tudo é belo, tudo é alegria e festa. O mundo mal e perverso acabou, todo o mal foi extirpado e só ficou um povo feliz e realizado que, como ninguém, sabe colocar seus blocos na rua, esbanjando alegria e liberdade para, inclusive, cortar a própria pele e deixar o fígado ou os pulmões à vista de todos, para o deleite dos sádicos, já que nada mais em seus corpos tem para esconder.

            Entretanto, o povo tem a palavra final. E, se o povo está se sentindo feliz, quem poderá contradizê-lo? Sorte dos palhaços, dos padeiros e dos cervejeiros, porque enquanto existirem circo, pão e cerveja, a alegria será geral e irrestrita, pelo menos até próxima distração pública. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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