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fev 03

EDITORIAL DA SEMANA: NOSSA POBRE E SOFRIDA GENTE

GENTE POBRE E SOFRIDA

OLHAI, SENHOR, POR ESTE TEU POVO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Um estimado e querido amigo sugere que eu escreva um texto sobre este pobre povo pátrio. Gente tão boa, afirma ele, mas, também, tão sofrida. Tão marcada pelas dores do dia-a-dia, advindas de uma história e de uma tradição que já tem séculos de existência.

Mas, como falar sobre uma gente tão sofrida, se nosso olhar for direcionado, apenas, para as regiões mais nobres do país? Se deixarmos nossas mentes e cérebros acalentarem, apenas, e, tão somente, os mimos das classes mais abastadas, médias ou não, residentes nas ricas zonas suis das grandes capitais? E, o mais intrigante: o que seria dos “intelectuais”, da direita ou da esquerda, se esta gente tão penalizada não existisse? Que discurso teriam eles? Com que argumentos desejariam manejar os dinheiros públicos, caso não pudessem falar em nome dos pobres, dos fracos e dos oprimidos?

É por meio desta lógica perversa que a política nacional caminha, desde que o primeiro Cabral chegou por aqui. Assim, o pobre, o carente, o oprimido, o sofrido e o excluído de tudo, é peça central de um jogo no qual ele sempre perde, mas que, também, sem ele, o jogo simplesmente deixaria de existir.

Pois bem, é bom deixarmos a jogatina de lado e, seguindo os passos de gente como Ariano Suassuna, penetrarmos nos rincões da pobreza e da miséria, para lá, sim, encontrarmos nossa brava gente. Gente que sabe como ninguém o que é, não, passar fome, mas, tapear a fome dia após dia, noite após noite, ano após ano, geração após geração, tomando sempre aquele caldo mais ralo que a própria água, apenas ligeiramente temperado com um pouco de sal, com o acréscimo de ponta ou outra de algum “legume” tirado da secura do solo ou de alguns poucos grãos quebrados e defeituosos, chamados de "feijão". E, na hora de beber a água propriamente dita, olhar para a talha de barro e perceber que já está praticamente vazia.

Olhar para aquela gente, da qual nossos sertões estão tão cheios, é olhar para uma realidade que, certamente, fere os olhos, a mente e a intelectualidade dos nossos abastados que, não obstante, e nas palavras do próprio Suassuna, não podem passar um ano, sequer, sem irem a Disney. É coisa feia de se ver, o pobre menino, ou mesmo a pobrezinha menina, com os pés descalços e as perninhas marcadas pelas inúmeras feridas de diversas origens, cicatrizadas ou não, a caminharem pelas ruas empoeiradas, à cata de qualquer lixo que possa ser convertido em “bem material”. Uma simples caixa de papelão que, partida ao meio, pode servir como forro para o chão de terra, no qual um outro pobre coitado possa passar uma noite de descanso, usando apenas o braço como travesseiro.

Sem água e sem qualquer previsão alimentar, estas inúmeras pessoas, com seus cãezinhos macérrimos, vão passando pela vida, escondidas das grandes mídias e das TVs sensacionalistas, largadas à própria sorte a espera do dia em que ganham importância nas estatísticas nacionais: o dia do voto. Pois é quando são contadas entre as que, pela condição em que estão encarceradas, podem alçar ao ápice do poder aqueles que em seus nomes falam a espumarem pelos cantos das bocas, em busca das verdadeiras “bocas”, aninhadas nos escaninhos do poder.

Pobre gente, esta que ninguém conhece! Esta gente que só existe porque Deus assim permite, porque são tidas e vistas como sério problema, até para o meio ambiente, segundo o discurso de gente graúda da República. E pode-se peregrinar de norte a sul do país, de leste a oeste, que, nas profundezas interioranas, é ela que vamos encontrar. No entanto, é uma gente sábia porque, como ninguém, conhece os sinais do tempo, os avisos dos ventos, os recados das aves, a voz das águas, os segredos dos pássaros. É uma gente de fé porque, morando onde, sequer, existe porta dos fundos, sabe como ninguém, que com Deus não se brinca e Dele não se zomba, consciente que é da total dependência da misericórdia que nenhum conterrâneo, por mais abastado que seja, consegue demonstrar. É, acima de tudo, gente de bem. Gente do bem. Gente como a gente, embora muita gente não goste de ser comparada com esta gente, acreditando que, se existe um céu, não é para aquela gente mas, para quem conhece o mundo da Disney e suas periferias.

No entanto, não devemos ficar detidos apenas nas profundezas do vasto interior do país. É preciso caminhar rumo às médias e grandes cidades, passando, sem sombra de dúvidas, pelas capitais, onde talvez seja possível para alguém, imaginar estar imune à visão aterrorizante da miséria, da  pobreza absoluta, da doença, das moscas, dos ratos e, dos tais cãezinhos macérrimos. Pois não está! Na periferia das grandes cidades, a pobreza, a doença, o desemprego, a miséria do crime e da exploração humana, de todas as formas possíveis e imagináveis, sempre está a espreitar cada um dos que, fugindo dos rincões sertanistas, acredita que na cidade grande será chamado de doutor. Não será! Pelo contrário, deixará atrás de si a possibilidade de tomar o velho e conhecido caldo salgado, mais ralo que água da bica, para remexer os lixos dos exageradamente ricos que, após pequena mordida no hambúrguer ou no hot dog, deles desiste para saborear algo mais a gosto. Assim, de lixo em lixo, de restos em restos, a pobre criatura vai sobrevivendo aos trancos e barrancos até que, não encontrando saída mais honrosa e honrada, escolhe as calçadas como endereço para receber os amigos e parentes que acreditam na mágica da “grande metrópole”. Lá, no novo endereço, receberá todo tipo de manifestação, da simples moedinha de cinco centavos, à quentinha de sobra de almoço de algum bacana; de um simples resto de refrigerante à alcunha de “vagabundo”. É o preço a ser pago para morar no centro, bem no coração da cidade! Entretanto, as noites e as madrugadas escondem perigos indizíveis e, muitas vezes, inimagináveis. O risco e a morte sempre espreitam os que sobrevivem à fome e à sede do dia.

Morando nas ruas, nas comunidades abandonadas pelo poder público ou nos albergues populares, estas pessoas também têm o seu tempo de glória, tempo de televisão, de jornais e de estatísticas: o tempo das eleições, quando tornam-se peças de muita relevância porque, votantes, podem levar ao topo gente das classes mais abastadas que, falando em nome da gente miúda, jura lutar pelo pobre, pelo desvalido, pelo oprimido e pelo excluído. Neste verdadeiro tempo de glória, no qual os restos são trocados por alimento sólido e saudável, bebida cristalina e até mesmo roupas e calçados disponibilizados, esta gente sofrida abre o sorriso de canto a outro da boca, sem esconder que a saúde bucal, também, é precária. Mas até isso os grandes interessados, e interesseiros, prometem resolver, depois. Depois, depois e depois. Sempre depois quando, talvez, um sepultamento na indigência coloque um fim na cobrança das juras passadas.

Para não assustar o leitor ou a leitora, deixa-se de mencionar, aqui, as ruas cheias de buracos, de lixo e de maus tratos. Deixa-se de igual modo, de falar sobre a precarização no trato dos esgotos e das águas pluviais, bem como daquelas a serem servidas, e sorvidas, pelas grandes massas populacionais. Omite-se, de propósito, o precaríssimo sistema de saúde pública; as terríveis falhas no sistema de segurança pública e o esculachado sistema de transporte coletivo, com seus riscos, preços e atrasos. Tudo, para poupar os leitores de maiores assombros, permitindo que os esbanjadores, de todas as classes, possam continuar fazendo par com o Pateta ou com o Mickey, sem peso nas suas tão bem tratadas consciências.

Tamanhos sofrimento e opressão, impostos à pobre gente da parte de baixo da linha divisória das classes trazem, ainda, agregadas, as discriminações diretas, a intolerância, o racismo e as diversas formas de fobias, a rejeitar na raiz pessoas humanas tidas como estranhas aos padrões ditos "normais". Padrões que, como não poderia deixar de ser, são forjados e alimentados por pretensos formadores de opinião que, não por coincidência, fazem parte das elites dominantes. Que país! Que luta! Que gente forte!

Como afirma o amigo, é uma gente boa sim. Boa e bondosa, cheia de boa vontade e de fé. Uma gente em nome da qual Deus ainda mantém a vida no planeta porque, assim como a nossa, existe gente da mesma espécie em todos os continentes. É uma gente por meio qual o Criador é aclamado, louvado e glorificado todos os dias porque, não tendo nada de valor neste mundo, acredita piamente que no Reino dos Céus seu lugar está assegurado. E está mesmo. Sobre esta pobre gente Jesus se referiu ao contar a pequena história do pobre Lázaro e do rico “que se vestia de púrpura e de linho fino, e que todos os dias se banqueteava esplendidamente” (Lc 16, 19-31).

Não sei se consegui atender plenamente a sugestão do meu querido amigo, ao falar um pouquinho sobre nossa gente pobre, sofrida, abandonada e marginalizada. No entanto, ninguém que venha a ler este texto poderá apontar exagero. Talvez, ao contrário, existam mesmo muitos esquecimentos e omissões. A coisa pode ser muito pior do que o que está  sendo exposto.

Por fim, e para lacrar o ataúde de todas as misérias, não se pode deixar de mencionar a maior de todas: a desventura da educação. Sem ela, a submissão política; sem ela, a dor do desemprego; sem ela, a total desesperança de um futuro melhor; sem ela, enfim, a continuidade no alargamento do fosso que separa nossa gente, dando a uns a ideia de tudo e aos outros, a certeza do nada. Leia, reflita e tire suas próprias conclusões. Seja feliz e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia, um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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