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jun 01

EDITORIAL DA SEMANA: O QUE SABEM OS SÁBIOS DE HOJE?

SABER E SABEDORIA

O QUE OS SÁBIOS SABIAM, QUE HOJE POUCOS SABEM –

*Por L. A de Moura – 

Pode ser que você, preocupado(a) ou mesmo desanimado(a), questione-se sobre o porquê de vivermos em meio a tão pouca sabedoria, quando o século presente, talvez, seja o mais prodigioso de toda a história da humanidade, principalmente, se for levado em conta a extrema rapidez com que os seres humanos resolvem seus dilemas, os mais complexos possíveis, envolvendo, quase sempre, uma extraordinária tecnologia de ponta.

Eu penso que você deve estar se esquecendo de que, nem sempre, a sabedoria é expressada em forma de bens materialmente produzidos, ou em algo visivelmente presente diante dos olhos de qualquer analista. Não dá para chamar, necessariamente, de “sábio” aquele ou aquela que resolve “dilemas”, equações ou problemas complexos. O sábio, com certeza, é muito mais do que isto. O sábio, a bem da verdade, não resolve problema algum, ele, simplesmente, tem o poder de impedi-lo de se fazer presente em dado momento da vida.

Sábia, na verdade, é a criatura humana que, ao lançar o seu olhar, compreende rápida e instintivamente o exato ponto para onde deve direcioná-lo, de modo a antecipar-se, em muitos casos, em décadas ou mesmo em séculos, àquilo que poderia, um dia, tornar-se um verdadeiro problema ou mesmo um dilema.

Quando lançamos um olhar para todo o nosso entorno, nos dias atuais, sentimos um verdadeiro pavor, mais ou menos semelhante ao que, por certo, sentirão os passageiros de um voo, ao descobrirem que o combustível do avião chegou ao fim, ou coisa do gênero. Não se trata, evidentemente, de superdimensionar a questão. De fato, os dias que correm causam verdadeiro pânico quando, facilmente, podemos perceber, que a nave na qual bilhões de seres humanos estão à bordo, está sem comando, ou pior: está sendo comandada por quem é altamente preparado para a guerra, para o conflito, para o combate e para a morte, ou seja, para infringir danos irreparáveis aos seus semelhantes. Tudo, menos o preparo para a condução segura, sábia e responsável de uma aeronave repleta de vidas que necessitam chegar sãs e salvas ao final da viagem.

Bem, você poderia, então, admirar-se da ideia de que o sábio é aquele que, apesar de não resolver problema algum, antecipa-lhe de modo tal que, simplesmente, impede que ele venha a ocorrer. Mas, como assim? Quem poderia ter tamanha capacidade, visão ou instinto? Eu posso responder: o sábio!

O sábio, porque somente ele é capaz de compreender a necessidade de direcionar o seu olhar, não, para o futuro nem, tampouco, para o presente, mas, somente para o passado. Isto pode te parecer estranho, para dizer o mínimo. Mas, com pouca reflexão entenderá o mecanismo da coisa. É no passado mais remoto, mais distante da espécie humana, que é possível de serem encontradas as verdadeiras origens de tudo o que existe, seja em que campo for. E é lá, nas profundezas deste passado, que poderemos encontrar, não apenas os problemas e os desafios enfrentados, mas, também, e, principalmente, as fórmulas adotadas para a solução de tudo, simplesmente porque, lá, os seres humanos sabiam fazer o que os de hoje não sabem: raciocinar, refletir.

Ora, você ficará intrigado: como podemos retornar ao passado para solucionar problemas absolutamente diferentes? É claro que tudo é infinitamente diferente. Você tem razão, mas, esquece-se de pequeno detalhe: os seres humanos daqueles tempos foram criando métodos e mecanismos suficientemente capazes de solucionar, não apenas aqueles problemas e desafios, mas, capazes, inclusive, de evitar a repetição ou o agravamento e, no futuro, todas as vezes que algo parecido se aproximava da humanidade, aquelas soluções primitivas eram reestudadas e, por óbvio, formuladas em bases atualizadas, de modo que tudo ia sendo resolvido a seu tempo, porque existia enorme sabedoria.

Aqueles seres humanos, não olhavam para o smartfone nem consultavam o Mr. Google. Sabiam, portanto, fazer o que os homens de hoje, simplesmente, não sabem, ou, abriram mão de fazer: refletir sobre tudo e sobre todas as coisas. Conheciam um princípio fundamental para a aquisição da sabedoria: o raciocínio. Exerciam o direito de raciocinar. Coisa que os seres humanos deste século XXI, simplesmente, deixam de lado, para seguir os "formadores de opinião" que, no fundo, no fundo, só possuem mesmo ela, a opinião. Não raciocinam mais. Preferem dar ouvidos às notícias veiculadas em abundância em toda a mídia. Preferem seguir as pesquisas de opinião e, mansamente, aderir ao pensamento de uma maioria, em tudo, duvidosa. Os seres humanos antigos, não. Eles raciocinavam; eles refletiam; eles eram capazes de criar métodos e sistemas muito sofisticados e extremamente eficazes. Tão sofisticados e tão eficazes que, até os dias de hoje, muitos deles ainda não foram totalmente compreendidos e, portanto, ainda são objetos de profundos estudos.

Os exemplos estão aí às dezenas, para você pesquisar. Pode, para início de conversa, fazer pequena pesquisa sobre as normas que regiam a sociedade antiga. Posso antecipar para você, a título de exemplo, que, na década de 1864, um historiador francês chamado Numa Denis Fustel de Coulanges escreveu “A Cidade Antiga”, focada nas cidades de Atenas, de Esparta e de Roma. É ali, naquele pequeno livrinho, de 413 páginas, que ele conta, por exemplo, a origem, a força e a influência da religião. Não de qualquer religião, mas, da religião do lar. Antes de você torcer o nariz, deixa eu te contar mais uma coisa: esta antiga religião foi o nascedouro, por exemplo, da formação e da organização da família, com toda uma compreensão sobre a composição e a legitimidade do parentesco, do direito de propriedade, do direito de adoção e do direito de sucessão, além de traçar os limites da autoridade no interior de cada família. Era nestas sociedades antigas, com esta baliza religiosa, que os seres humanos que viviam nas cidades mais evoluídas e mais prósperas do mundo de então, conviviam, sobreviviam e mantinham suas relações sociais, cultuais e negociais, sem maiores entreveros e com absoluto respeito às normas vigentes.

Você pode não se dar por satisfeito(a) e desejar mais. Então, sugiro a leitura dos artífices das cidades-estados da Grécia, com os filósofos e tudo, com Sócrates, Platão e Aristóteles e tudo, com a República e seu fabuloso mito da caverna e tudo o mais. E, se quiser ir mais longe um pouco, estude a genial mitologia, onde humanos e deuses conviviam de tal forma que, um estudo mais aprofundado, permitirá compreender que retratavam, justamente, a vida e as relações sociais de uma Esparta ou de uma Roma, em um tempo em que não eram permitidas e nem toleradas críticas abertas aos seus respectivos sistemas administrativos e governamentais. A mitologia não foi inventada para entreter o povo, nem para enriquecer dramaturgos sem oportunidades de trabalho na TV. Ela teve um propósito e uma finalidade muito importantes na vida dos povos antigos, especialmente, na dos gregos e na dos romanos.

E, se mesmo assim, ainda não te convenci, então, sugiro a leitura da Bíblia que, também, traz narrativas de tempos muito antigos. Histórias, todas, fundamentadas na religiosidade, no culto, e em um fantástico arcabouço jurídico e social (basta ler, não concordar ou aceitar, mas, ler, os Livros do Levítico e do Deuteronômio).

O grande problema enfrentado nos dias atuais é, em primeiro lugar, a prepotência de um ser humano que, não entendo bem em que bases ou fundamentos, acredita ser mais sábio do que aqueles grandes homens do passado. E, conjugada com a prepotência, a ausência de humildade, revelada pela convicção de ser o único ser capaz de compreender, de forma perfeita, os dilemas, os transtornos e os desafios da atualidade. Parece meio evidente a necessidade de retornar às origens para uma boa compreensão, principalmente, sobre as razões que nos permitiram chegar até aqui. O conhecimento sobre o que, de fato, sabiam e conheciam os antigos acerca do ser antropológico tão estudado em épocas passadas. Sobre as culturas da terra, sem a praga do agrotóxico, sem o envenenado uso dos transgênicos. Quanto mal tudo isto tem trazido para a humanidade. Quantas doenças e quantas mortes!

Por não estudarem sobre o passado, não ouvindo o que os sábios antigos diziam, os seres humanos de hoje esqueceram os valores da República (res publica), da democracia, da liberdade, do Espirito das Leis, dos Poderes inerentes ao Estado, e por aí vai. Os homens de hoje, não encontrando nada de mais sábio e de mais inteligente para fazerem, decidiram questionar a necessidade de a roda ser redonda, por que não quadrada? Perguntam os imbecis da hora! Outros, acéfalos, quiçá, vítimas do Zica vírus, discutem a necessidade e a urgência de cuidar com zelo do ambiente natural no qual estamos, todos, inseridos. Por que, questionam, precisamos cuidar dos rios, dos mares, das florestas, dos parques, dos lagos, das baleias, dos índios, do solo? Eles simplesmente não conseguem compreender. Tem horas que a gente até chega a pensar que alienígenas vieram procurar vida por aqui e, ao descobrirem esta forma de vida acéfala, retornaram para os seus mundos de origem, sem deixar rastros.

E, para piorar ainda mais o cenário atual, vez por outra temos ouvido por aí, o questionamento acerca da esfericidade da Terra. Alguns apostam que ela é plana! Com estes “sábios” que temos, como é que ainda temos coragem de falar sobre sabedoria? Parece justa, e verídica, a afirmação daquele homem simples do campo, que dizia para quem lhe perguntava: onde estão os sábios de hoje? E ele respondia, sem pestanejar: “no cemitério”. Talvez tenha razão, pelo menos, penso eu, quem está nos cemitérios não abre mais a boca. Não fala mais nenhuma asneira.

Você, então, talvez compreenda que os sábios antigos consultavam os antepassados, liam as famosas tabuinhas de cerâmica, depois, os pergaminhos. Perscrutavam o universo, a natureza, os corações, os sentimentos e, por fim, os deuses. Mas, no fim, sempre acabavam acertando e sobrevivendo. Nós, infelizmente, estamos quase destruindo tudo, inclusive, a nossa própria espécie, porque nem investigar o passado sabemos. No entanto, queremos prever e antecipar o futuro. Infelizmente, não dá para imprimir risadas. O papel ainda não aceita este tipo de imposição. Senão, seria o caso de colocar, aqui, muitas gargalhadas, que é o que estamos, todos, a merecer.

Reflita sobre este texto e não acredite em nada do que está escrito nele. Apenas exerça o seu direito de raciocinar e, depois, investigue um pouco sobre os grandes sábios do passado. Eles e tudo o que deixaram para nós que, graças à “educação” que recebemos, estamos dando conta de destruir peça por peça. Após exercer o seu inalienável direito de raciocinar, descubra onde estão as portas para a sabedoria de que tanto necessitamos. E, por fim, compartilhe tudo o que nascer da sua reflexão, com outros seres humanos. De boca em boca, talvez, consigamos melhorar este nosso fatídico destino. Seja feliz e, mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio

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