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jul 08

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE MORA A VERDADEIRA FELICIDADE

AJUDAR O NECESSITADO

ONDE MORA A VERDADEIRA FELICIDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Ela é perseguida por milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo. O desejo mais ambicioso da esmagadora maioria dos seres humanos é a felicidade. Buscada sob os mais diversos e diversificados argumentos, a felicidade supera qualquer outro desejo que o ser humano pode ter na face da terra. Muitos, querem-na na profissão; outros, no amor conjugal e familiar; outros, ainda, nos negócios e nas atividades financeiras. Existem os que desejam ser felizes, trabalhando direto, sem parar, feito máquinas de produção em série. Mas, tem, também, os que pretendem a felicidade longe dos meios de produção, numa situação de menos estresse e de mais convívio com a natureza. Outros tantos acreditam que a felicidade está no meio acadêmico e nas grandes descobertas da ciência. Enquanto alguns outros pensam que a felicidade está na vida estritamente religiosa, atrelada aos ritos e aos dogmas.

Enfim, sob a ótica de cada indivíduo, a felicidade deve ser buscada e encontrada em caminhos, e por caminhos, absolutamente diferentes, como se existissem várias formas de alcançá-la, ou, o que é mais provável, como se ela pudesse ser múltipla, onde cada um seria feliz à sua maneira. Assim, cada ser humano poderia ter sua própria experiência com a felicidade.

Entretanto, a felicidade não pode ser confundida com momentos felizes, ou mesmo com momentos de profunda alegria ou satisfação pessoal, profissional, negocial ou científica. Nem com momentos de plena realização de sonhos, objetivos e projetos. A felicidade é um estado no qual, uma vez alcançado, torna-se conquista de toda, e para toda, uma existência e, olhando sob este prisma, torna-se mais difícil de ser conquistada, porque, nesta vida, nada é para sempre. Daí que, se a tese for verdadeira, a felicidade, então, é algo quase inalcançável para o ser humano.

Porém, parecem existir duas espécies de felicidade que, uma vez alcançadas, duram para sempre: a primeira, e a campeã delas, é a felicidade de estar e de viver em perfeita harmonia e comunhão com Deus. Viver Nele, com Ele, por Ele e para Ele, é capaz de incorporar à vida da pessoa uma permanente sensação de felicidade e de realização sem igual. Uma felicidade de tal magnitude que, ancorada no dom da fé, nada pode destruir ou corromper.

A segunda espécie é a que é relacionada com a capacidade que muitos possuem, de fazer outras pessoas felizes, ainda que momentaneamente. É uma capacidade e, ao mesmo tempo, um dom. Fazer o outro feliz, para os assim dotados, é a única forma de se sentir, realmente feliz, daí decorrendo uma sensação indizível. Quanto mais pessoas são felizes por uma ação minha, mais feliz eu me sinto e mais felizes eu quero fazer outros seres. Trata-se de um verdadeiro círculo virtuoso, praticamente sem fim.

Parece óbvio, agora, que a felicidade buscada pela esmagadora maioria dos seres humanos, conforme dito no início deste texto, é apenas a busca pela realização de sonhos, objetivos e projetos pessoais que, uma vez alcançados, podem saciar muito, durante muito tempo, mas, não duram para sempre, enquanto que a vida em Deus, com Deus e por Deus, com a dedicação exclusiva de todas as coisas a Ele, traz uma sensação de felicidade cada vez maior, inclusive, porque, todo o resto perde muito da razão de ser, ou, pelo menos, perde o vigor com que é tratado por aqueles que vivem ávidos na busca por uma felicidade, apenas, terrena.

Da mesma forma, a felicidade encontrada por meio da realização do “outro”. Levar ao pobre, ao carente, ao necessitado, ao excluído e ao desamparado, aquilo de que ele mais precisa ou deseja ver realizado na sua vida, tirando do seu rosto o sinal marcante da tristeza, do sofrimento, da decepção, do abandono e do desprezo, fazendo-o sentir-se pessoa amada e querida, tendo os seus sonhos e desejos compartilhados e conquistados, é um sentimento que traz, acima de tudo, muita felicidade para aquele(a) que assim procede. E esta forma de felicidade é simplesmente duradoura porque sempre temos diante de nós e ao nosso lado, no nosso convívio diário, pessoas altamente necessitadas das mais diversas formas de auxílio. Necessidades que vão desde a realização de um sonho, desejo, objetivo ou projeto, mesmo, até o simples ato de encontrar um amigo ou uma amiga com quem possa desabafar suas mais íntimas cruéis dores e angústias. O choro de alegria daquele ou daquela que, ainda que de forma momentânea, sente-se realizado de alguma forma, é motivo de uma felicidade que a gente só deseja ver multiplicada cada vez mais. Assim, passa-se a vida sendo bastante feliz e, ao mesmo tempo, reservando uma felicidade ainda maior quando da chegada na vida eterna.

É bastante difundida a história do discípulo budista que pergunta ao mestre o que é o céu e o que é o inferno. O mestre leva o pupilo a um lugar distante e, lá longe, mostra-lhe dois homens famintos, diante de uma montanha de arroz. Apesar de estarem diante daquela montanha de arroz cozido, eles estão quase mortos de fome, porque cada um deles tem diante de si uma enorme colher, cujo cabo tem mais de dois metros de comprimento, o que inviabiliza pegar o arroz e levar à própria boca. Isto é o inferno, diz o mestre, para um discípulo admirado com a cena. Bem mais adiante, o mestre leva o aprendiz diante de uma cena muito semelhante à primeira: uma montanha de arroz cozido, dois homens com colheres com dois metros de comprimento mas, que, inversamente, levam o alimento até a boca um do outro, de modo a saciarem a fome reciprocamente. Isto é o Céu, declara o mestre, fazendo com que o discípulo compreenda bem a diferença entre o querer só para si e o querer para o outro, também.

O que temos diante dos nossos olhos, em larga escala, são verdadeiras multidões buscando a felicidade de forma individualista e egoísta, sem se preocuparem com a felicidade ou mesmo com a realização do outro. Alguns, mais afoitos, até fazem uso do brocardo: “eu cuido de mim, e cada um cuide de si”. Ou ainda, “quem quiser como eu quis, que faça como eu fiz”. São frases de efeito, mas que não asseguram nenhuma durabilidade à “felicidade” alcançada.

A felicidade, na verdade, é um estado querido por Deus para todos nós, criaturas suas. Ele não nos fez para a dor, para o sofrimento nem para a infelicidade. Entretanto, a felicidade querida por Deus para as suas criaturas é muito mais do que a mera realização pessoal, em qualquer área da vida. A felicidade desejada pelo Criador para todas as suas criaturas é aquela que é, simplesmente, duradoura, eterna, por assim dizer. E, neste aspecto, as formas de “felicidade” buscadas por muitos e muitos seres humanos não possuem a capacidade de avançarem pela eternidade.

A verdadeira, plena e duradoura felicidade está em Deus e com Deus e, por meio Dele, podemos alcançá-la, também, elevando os nossos semelhantes às realizações por eles desejadas, mas, que, em razão das diversas circunstâncias da vida, não conseguem alcançar sem um auxílio solidário, amigo e compartilhado. Ao tomarmos para nós, os desafios vividos pelo outro, ajudando-o a superá-los, caminhamos em comunhão com o mandamento do Senhor: “ama a Deus sobre todas coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Fazer pelo outro é, acima de tudo, amá-lo e, agindo assim, é amar a Deus em primeiro lugar. Aí reside a verdadeira e duradoura felicidade. Uma felicidade que não acaba jamais.

No mais, aquilo que normalmente denominamos como “felicidade” faz parte, apenas, e, tão somente, de projetos individuais, que não levam em conta nem Deus, nem o outro e que, portanto, é finita e sem raízes.

Numa última palavra: ser feliz é ver o outro feliz e, assim, saber que Deus, também está feliz. O que daí passar, pode trazer muitos momentos de alegria, mas, não, a verdadeira, querida e desejada felicidade. Reflita sobre isso. Seja verdadeiramente feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

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