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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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mai 18

EDITORIAL DA SEMANA: OS CRISTÃOS ESTÃO CONFUSOS

A PARTILHA DO PÃO

NÓS TAMBÉM NÃO RECONHECEMOS JESUS –

*Por L. A. de Moura –

É o Evangelista Lucas quem vai nos trazer a história de dois discípulos que, no dia da Ressurreição de Jesus, voltavam para a aldeia de Emaús, distante de Jerusalém uns onze quilômetros. À pé, esses dois discípulos retornavam para casa e, no caminho iam comentando tudo o que sucedera naquele final de semana em Jerusalém. Possivelmente tratava-se do casal Cléofas e Maria, já que estavam indo para a casa comum. Lucas identifica apenas Cléofas. No entanto, ao narrar tudo o que se passa com eles ao chegarem em casa, dá para perceber que se trata, realmente, do referido casal, uma vez que no Evangelho de João está dito que, junto à cruz, estavam a mãe de Jesus e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, além de Maria Madalena (Jo 19, 25).

Bem, iam os dois conversando quando, de repente, percebem a presença de mais um companheiro para a caminhada que, embora desconhecido, manifesta interesse em saber sobre o que estavam conversando aqueles dois. Ora, qual assunto era o mais comentado naqueles dias em Jerusalém? Ambos ficam espantados, entreolham-se meio descrentes e perguntam ao acompanhante: “Tu és, por acaso, um estrangeiro, um forasteiro que está de passagem por estas bandas? Então ignoras tudo o que se passou em Jerusalém por estes dias?”

O homem faz-se de desentendido e diz: “não sei não, o que se passou por aqui de tão importante?” “Então não sabes, mesmo”, disseram eles, “o que se passou com Jesus, o Nazareno, que foi profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e diante de todo o povo?” Pelo visto tu não tens conhecimento da infeliz decisão tomada pelos nossos príncipes dos sacerdotes e pelos nossos magistrados, que entregaram o profeta para ser condenado à morte e que, por fim, foi mesmo crucificado e morto.

O homem que os acompanhava ouvia tudo atentamente, demonstrando bastante curiosidade. Eles prosseguiram dizendo:. “Nós esperávamos que ele tivesse vindo para redimir todo o povo de Israel. Achávamos que o Nazareno tinha vindo, realmente, para nos libertar do jugo estrangeiro e nos resgatar de modo glorioso e majestoso, talvez como o fizera Moisés há tanto tempo. Mas não, nada disso aconteceu e hoje faz três dias que o nosso tão festejado profeta morreu. Três dias que tudo isso se passou por aqui. É verdade que hoje, mais cedo, algumas mulheres que pertencem ao nosso grupo, disseram ter ido diante do túmulo em que haviam colocado o corpo de Jesus e, chegando lá, perceberam o vazio do túmulo. Disseram, também, que, quando retornavam para casa, encontraram uns anjos que afirmaram que o profeta está vivo. Outros dentre os nossos foram ao túmulo e verificaram que, realmente, estava vazio, porém, não encontraram nenhum vestígio de Jesus. Ninguém sabe o que pode ter acontecido”.

O homem, embora demonstrasse desconhecer totalmente o ocorrido com Jesus, chama-lhes a atenção para tudo o que já havia sido anunciado pelos profetas: “Não era preciso” questiona ele, “que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse na sua glória?” e, começando por Moisés, vai passando por todos os Profetas, interpretando cada um deles, a partir de tudo o que, nas Escrituras, falavam sobre o Cristo. Tudo o que cada um dos Profetas havia anunciado acerca da vida e da trajetória de Jesus aquele homem, até então desconhecido, falava com aqueles dois angustiados discípulos.

Durante a caminhada, onze quilômetros à pé, eles ouviram muitas coisas e logo, logo, perceberam que, se aquele estranho demonstrava nada saber sobre os fatos recentes ocorridos em Jerusalém, conhecia as Escrituras em profundidade, pois, ia dando verdadeira aula para eles. Estavam gostando da conversa quando, de repente, já estavam às portas da sua aldeia. O estranho ameaça a despedida, mas eles, no entanto, insistem para que ele fique por ali, pois já era final de tarde e o dia já estava a terminar. O homem aceita o convite e entra na casa com eles.

Mesa colocada, todos sentados em volta dela, eis que o estranho toma o pão em suas mãos, abençoa-o, parte-o e entrega a cada um deles o seu bocado. Neste momento, os dois discípulos têm os olhos abertos e percebem que o estranho, na verdade, é o próprio Jesus. O mesmo Jesus sobre o qual eles haviam lamentado tanto a morte e a ausência. Sim, era de fato Jesus! Naquele instante eles percebem que o companheiro tão versado nas Escrituras, como que por encanto, desaparece da presença deles. Olham-se mutuamente e dizem: “Não é verdade que o nosso coração ardia quando, durante a caminhada, ele nos falava sobre as Escrituras?” (Lc 24, 13-32).

Lucas afirma que os dois discípulos, na mesma hora, levantaram-se de seus bancos e retornaram para Jerusalém para, junto aos demais discípulos, darem o testemunho de tudo o que presenciaram. Da boca dos discípulos, que estavam reunidos, ouviram: “É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!”

O que Lucas não conta, mas podemos deduzir facilmente e sem risco de erro, é que, naquele momento de reunião de todos eles, todos aqueles corações ardiam de felicidade porque, tudo o que mais temiam ter acontecido, mostrava-se absolutamente equivocado: Jesus não havia sido uma desilusão; não havia morrido para sempre; estava vivo. Estava de volta à vida!

A leitura desta parte do Evangelho de Lucas faz-nos questionar sobre quantas vezes nós, também, não nos mostramos desiludidos, acreditando e lamentando que Aquele em quem havíamos depositado tantas esperanças, partiu em definitivo para bem longe de nós. Não nos ouve mais. Não está mais presente ao nosso lado, para contar-nos sobre as Escrituras e para demonstrar seu poder em obras e em palavras.

Por quantas e quantas vezes, no curso desta longa caminhada para a nossa Emaús pessoal e particular, não temos a companhia de um “forasteiro”, um desconhecido, que tanto revela conhecer sobre as Escrituras e as palavras dos Profetas, e nem assim, somos capazes de perceber que, aquele que nos fala, pode ser o próprio Cristo? Afinal, não foi Ele mesmo que disse que quem acolher a um destes mais pequeninos irmãos, é a Ele próprio que acolhe? Precisamos ver a partilha do Pão para percebermos a presença Daquele de quem afirmamos ser fieis seguidores?

O mundo está passando, nestes turbulentos anos 2020, dias e meses de muita aflição, de muitos medos, muitas incertezas, muitas suspeitas, muitas intrigas de todas as formas e, infelizmente, nossa angústia não decorre da ausência de Jesus, pois, Dele, sequer fazemos menção. Dele, apenas, e, tão somente, esperávamos que viesse para nos “libertar do jugo do mal”, já que não veio até agora, precisamos nos unir em torno de um ideal comum, precisamos reformular nossos projetos e nossos objetivos. Precisamos, enfim, traçar novas estratégias para o pós-qualquer coisa. Tudo, menos “precisamos caminhar com este estranho que fala conosco sobre as Escrituras e sobre os Profetas”, quem sabe, não se trata do próprio Jesus que está caminhando do nosso lado, enquanto planejamos a abertura de novos túmulos, sem nos darmos conta de que o verdadeiro túmulo já está vazio há muito tempo?

Este é apenas um convite à reflexão. Os discípulos de Emaús tinham muitas dúvidas, muitas incertezas também, mas, por causa da hospitalidade e da receptividade em sua casa, convidando e acolhendo Aquele estranho bem falante, tiveram a graça de terem à mesa a companhia do Salvador.

Nossos corações estão precisando arder também, diante das palavras que o Senhor profere todos os dias nas proximidades dos nossos ouvidos e diante dos nossos olhos. Pena que, além de não reconhecermos o Jesus que caminha conosco, sequer, conseguimos enxergá-lo, além de não ouvirmos nada do Ele nos fala!

Peçamos ao Senhor para que traga a cura, não apenas do “novo” coronavírus, mas, e, principalmente, para as nossas profundas deficiências sensitivas, auditivas e visuais. Porque, caso contrário, ficaremos livres do vírus incômodo, porém, libertos do isolamento, caminharemos livres para o abismo logo ali na frente.

Deixemos que o Senhor parta, diante de nós, o verdadeiro Pão da Vida. Assim teremos, também, abertos os nossos olhos e ouvidos e, como aqueles dois discípulos de Emaús, poderemos sair alegres e felizes para darmos o verdadeiro testemunho da vida, de uma vida que jamais se extingue. Faça as suas reflexões. Seja feliz, e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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