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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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out 28

EDITORIAL DA SEMANA: OS SERES HUMANOS ESTÃO EM PERIGO!

O HOMEM EM GUERRA

O PERIGO RONDA O SER HUMANO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Antigamente eu acreditava que só as pessoas mais velhas é que tinham coisas ruins para contar. Falavam de crises, de mortes, de roubos, de violência, de perseguições, de discriminações, de intrigas e de tudo o mais que se possa imaginar de ruim. Ficar perto de pessoas mais velhas era pedir para ouvir narrativas cercadas de trevas. Meus amigos sempre me diziam que, em casa, seus pais agiam da mesma forma!

Para não ficarmos a mercê daquelas conversas chatas e medonhas, o melhor que podíamos fazer era ficar isolados em nossas ilhas da fantasia, nas quais tudo era cercado de amor, de paixões, de seduções, de alegrias e de muitas expectativas para o futuro. Definitivamente, aqueles eram os nossos sonhos, projetos e ambições. O resto, ah, o resto era coisa de velhos!

Hoje, no entanto, é verdade que já estamos velhos, eu e minha geração, mas, as conversas sobre coisas ruins vêm de todos os lados. Jovens relatam perseguições, discriminações, violência, mortes e todo tipo de maldade. Adultos contam os filhos, os pais, os irmãos e os amigos que foram perdidos para a violência nos estádios de futebol, nas ruas e vielas, nas saídas de shows e de festas, nos metrôs ou até mesmo, imagina, na porta da própria casa. O perigo real está a nos rondar onde quer que estejamos. Já não importa mais se estamos à mesa de refeições, numa sala de cinema, na rua, no bar, no motel, sentados em um banco da praça em frente de casa ou até mesmo em uma igreja. Não bastassem as ações de pessoas malvadas, até as balas perdidas nos localizam e dizimam nossas vidas.

Não são mais os velhos de antigamente que estão espalhando o medo e o pânico. É a própria realidade vivida por crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, que está confeccionando um retrato falado que, infelizmente, somos obrigados a aceitar. Não temos mais as nossas “ilhas de fantasias”; não temos mais a chance de pensar no amor, seja lá da forma que for; não podemos mais acreditar que um simples adolescente ou que um homem de cabelos brancos são incapazes de fazer grande mal a nós ou a qualquer um dos nossos entes queridos.

Como costuma dizer uma autoridade pública: “dias difíceis”. Precisamos parar um pouco para pensar sobre tudo o que está se passando ao nosso redor, no país ou no mundo; no bairro, na cidade ou no estado; em família ou nas escolas. Enfim, precisamos olhar para todo este cenário e tentarmos responder, ainda que seja apenas para nós mesmos: como chegamos a este ponto?

Por que uma simples discussão no trânsito, acaba em morte(s)? por que, uma separação conjugal põe fim, também, a uma ou mais vidas? Por que o anúncio de um aumento de simples 0,17 centavos no preço de um bilhete de metrô (como no Chile destes dias) se transforma em estopim para uma rebelião popular com consequências desastrosas, causando mortes e prisões violentas? O que as gerações passadas sabiam fazer tão bem, que as de hoje não conseguem fazer? Enfim, repitamos a pergunta: por que chegamos a este ponto?

O mar continua calmo e sereno na maior parte do mundo; os pássaros continuam o seu lindo canto; o sol ainda brilha no alto das colinas e das copas das árvores; a abóbada celeste permanece toda iluminada nas noites de lua cheia; as cascatas continuam jorrando bilhões e bilhões de litros de água por minuto; os peixes ainda se divertem no fundo dos oceanos, apesar da poluição; os bebês continuam encantando a todos nós; o vento e a brisa permanecem suavizando o calor excessivo que por vezes sentimos nos invadir. A natureza, apesar de todo o mal que nós lhe causamos, permanece bela, serena, harmônica, pacífica e não revela ser nossa inimiga. Pelo contrário, continua nos presenteando a cada dia com as suas dádivas.

Mas nós, seres humanos, quem éramos e quem somos hoje? Quando assistíamos filmes envolvendo as grandes guerras épicas, com milhares de homens enfrentando-se e se auto dizimando com espadas e lanças em pleno céu aberto, nós os chamávamos de imbecis, de idiotas e de ignorantes diante de tamanha violência praticada uns contra os outros. Não é que estamos, em pleno século XXI, agindo da mesma forma, apesar de usarmos armas diferentes? E ainda existe quem acredita piamente que a solução é dar mais armas para o povo. Quanto mais armado, mais o povo poderá se defender. Que país é este? Que mundo é este? Para onde estamos caminhando?

Eu não gostaria de escrever sobre tema tão obscuro, tão cercado de trevas e de desesperança, mas, a realidade obriga a gente a parar para pensar e, sem saber as respostas, a compartilhar nossos sentimentos e preocupações com nossos semelhantes. É por esta razão que escrevo este texto, para compartilhar com você estas angústias e incertezas, na esperança de que diga que estou redondamente enganado, e que eu falo sobre estas coisas porque, tal qual os idosos do meu tempo de menino, eu também estou velho e não tenho coisa melhor para falar. Por favor, diga que é isto! Gostaria de acreditar que estou velho e que só consigo enxergar o lado feio da vida.

Mas, infelizmente, penso que você me dará razão e que concordará comigo que a situação pede cautela, diálogo, oração, meditação, controle emocional, desapego. Pede mais amor, mais harmonia, mais tolerância de uns para com os outros. Acredito que você, que não é desprovido(a) dos sentidos da audição, da visão e de um mínimo de racionalidade, concorda que estamos vivendo “tempos bastante difíceis” e que precisamos dizer não ao ódio, ao desejo de vingança, a todas as formas de intolerância, de racismo e de fobias para então, e somente então, passarmos a ter assuntos mais divertidos para contar. Passarmos a viver, todos, não em nossas ilhas da fantasia, como ainda fazem alguns, que preferem fazer de conta que nada demais está acontecendo, mas, em uma realidade melhor, mais humana e mais humanizada.

Nós, seres humanos, merecemos algo melhor do que isto com o que estamos nos “presenteando”. Merecemos algo muito melhor, porque quem nos deu a vida, deu-nos, também, tudo o mais de que precisamos para sermos realmente felizes. Reflita um pouco sobre tudo isto. Reflita e faça seus próprios questionamentos e, caso encontre respostas satisfatórias, compartilhe-as comigo. E, se ainda assim for possível, seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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