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nov 04

EDITORIAL DA SEMANA : POSSUIR TANTO, SEM POSSUIR A SI PRÓPRIO

RIQUEZAS

QUEM TANTO POSSUI, POSSUI A SI MESMO?

*Por Luiz Antonio de Moura – 

Não constitui mais qualquer novidade a luta incansável de muitas pessoas, com o foco absoluto voltado para a aquisição de bens de todos os níveis e valores. Dentre as frases mais ouvidas nas ruas e nos meios sociais, em geral, figuram estas: “este carro é meu”; “aquela casa é minha”; “tenho conta no banco tal”; estou adquirindo mais isso ou mais aquilo”. As pessoas não se dão conta, mas, falam abertamente: “este é o meu marido”; “aquela é a minha mulher”; “veja, são os meus filhos”, e por aí vai, numa sucessão de pronomes possessivos que não tem fim ou limite.

Os seres humanos gostam de serem tratados como detentores de posses, não importa sobre o que, mas, precisam sentirem-se “donos”, “possuidores”. Diante de tantas posses e de tantos bens, muitos chegam a afirmar, categoricamente, que, “é meu, eu decido o que fazer com isso”, demonstrando que, além da posse, “possui” total domínio sobre tudo o que ousa chamar de “seu”, inclusive, sobre o próprio corpo.

No entanto, surge uma questão interessante: quem possui tantos bens e tantas coisas, possui a si mesmo? Tem domínio sobre si próprio(a)? É capaz de acrescentar um dia a mais na sua existência? Tem capacidade para controlar o seu estado de nervos, quase sempre alterado? É capaz de modificar atitudes que perturbam a paz das pessoas ao seu redor? Quem possui tanta coisa, e com autoridade, tem autoridade sobre seus próprios atos, adequando-os à civilidade, à fraternidade, à solidariedade e a todas as demais virtudes que prega?

Parece que estas respostas, na imensa maioria das vezes, são negativas. Se o meu veículo apresenta qualquer defeito, logo, logo eu trato de enviá-lo ao mecânico, aciono o seguro e busco resolver o problema o mais breve possível. Entretanto, se sinto uma fisgadinha no fígado, por mais que alguém recomende, eu não encontro tempo para, de forma imediata, rápida e eficaz, buscar a resolução do problema. Se, em casa ou em família, alguém passa por dificuldades, eu vou me esquivando o máximo que posso, postergando qualquer auxílio. Mas, se a porta da minha garagem apresenta um pequeno defeito, por mínimo que seja, desde que dificulte a abertura, chego mais tarde no trabalho, ou saio mais cedo dele, para ir em busca de um técnico para fazer o imediato conserto.

Todas estas são realidades que parecem envolver todos nós, seres humanos. Quem, nunca passou por algo parecido? Porém, o que deve chamar nossa atenção é a rapidez com a qual nos dedicamos a cuidar das nossas posses e a lerdeza com a qual cuidamos de nós mesmos. O carro, a casa, o barco, a bicicleta ou a moto são bens passageiros, sim, sabemos disso. Mas, a eles dedicamos nossa atenção especial, enquanto a nós mesmos, ao nosso espírito e a tudo o mais, que não é efêmero, dedicamos tão pouca atenção.

Pare e pense, quando foi a última vez que admirou o seu carro novo, ou qualquer um dos seus bens? Quando foi a última vez que agradeceu a Deus por todos os bens que já conseguiu amealhar? Tenho certeza de que tudo isso ocorre com bastante frequência na sua vida.

Entretanto, quando foi a última vez que ligou para um dos “seus” amigos, simplesmente, para saber como está vivendo, como tem passado ou como está se sentindo no dia-a-dia da vida? Quando foi a última vez que procurou saber, de forma absolutamente desinteressada, como tem passado aquele amigo ou aquela amiga que se aposentou há tanto tempo? Quando foi a última vez que você se lembrou de dobrar os joelhos e, orando, pedir saúde, paz e bem para “seus” vizinhos, “seus” colegas de trabalho; “seus” devedores e “seus” credores”? Tudo é seu, sem dúvida, mas você só se lembra dos “seus” bens, da “sua conta bancária”, do “seu” cargo, dos “seus” compromissos corporativos.

Se você possui um carro que comporta apenas cinco passageiros, dificilmente, permitirá a presença de um sexto passageiro, para não expor o veículo ao peso excessivo. Se alguém pedir para transportar um peso mais elevado no seu automóvel de luxo, certamente, você se recusará. No entanto, quantas vezes você aumenta, sem dó nem piedade, a carga de trabalho que despeja sobre quem trabalha para você? Quantas vezes você acha que o peso carregado pelo outro não é tanto assim? Quantas vezes você não incentiva o outro a ter coragem e a caminhar mais um pouco, quando já está claro que ele não aguenta mais? Assim, mesmo que possua tantos bens materiais, talvez não possua nenhum dos verdadeiros bens essenciais para a vida do espírito.

São estas, dentre outras, coisas que chamam a nossa atenção e que nos levam a pensar como somos contraditórios, incoerentes, hipócritas e falsos, quando queremos possuir o mundo todo, mas, não conseguimos ter a simples posse de nós mesmos. Não conseguimos dar uma direção sensata, justa e coerente com tudo o que pregamos, à vida que levamos e, diante de pessoas que conosco convivem, fazemos até mesmo papel de bobos, acreditando que ninguém está observando o caminhar da nossa carruagem. Não se deixe enganar jamais: sempre estamos sendo observados por alguém. Não passamos despercebidos. Alguém sempre nos observa, de muito perto, ou mesmo à distância.

Já não somos mais convocados a mudar o mundo, como pensávamos outrora, nos tempos da nossa juventude, mas, a mudarmos a nós mesmos e isso importa demonstrar posse e domínio sobre o próprio ser, o próprio espírito e a própria vida. Afinal, de que vale dominar bens e valores materiais, se não conseguimos dominar o bem maior, que é a nossa própria vida?

Reflita sobre isso, no cantinho da sua alma e veja se realmente está na posse e no domínio de si mesmo(a), ou se está assim apenas em relação aos bens amealhados à custa do dinheiro, “seu bem maior”, aquele pelo qual você lutou a vida toda. Apenas reflita. Não se culpe porque, no final de todas as contas, o ser humano tem dessas coisas mesmo e nós, eu e você, não somos muito diferentes. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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