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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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out 07

EDITORIAL DA SEMANA: PROCESSOS DE DESCONSTRUÇÃO DA PAZ

GUERRA TOTAL

CAMINHOS QUE LEVAM À DESCONSTRUÇÃO DA PAZ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas acerca do fato de que um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade, é a constante e permanente ameaça à paz. E aqui, não falamos apenas da paz cujo oposto leva aos campos de batalhas, nos quais são encontrados todos os tipos de armas de fogo e de explosivos, capazes de dizimarem populações inteiras. Não. Falamos, também, da paz entre as nações, da paz política, social, comunitária e, até mesmo, da paz em família. Falamos da paz, como estado desejado para que os seres humanos possam viver e desenvolver seus projetos, sem serem fustigados ou ameaçados pela fúria de adversários e de inimigos vorazes. Adversários e inimigos que amam e que prestigiam todo tipo de conflito. Existindo qualquer potencial para a morte da paz, lá estão eles prontos para a ação! Parece invenção, mas, não é não. Existem pessoas que detestam a paz. Não sabem conviver com ela, desconhecem-na na prática ou odeiam aquela que a maioria das pessoas tanto amam e perseguem: A PAZ!

Alguém poderá objetar, até com certa dose de razão, que a humanidade jamais conheceu período de paz integral, haja vista que, desde que o homem existe, conflitos,  embates e combates fazem parte da relação constante com seus congêneres. De fato, cem por cento de paz, atualmente, nem nos cemitérios!

Entretanto, é preciso admitir, a civilização nunca enfrentou tantas linhas de batalhas e de combates tão intensos, violentos e destruidores, como tem enfrentado de meados do século XX para cá. São combates e embates de cunhos bélicos, religiosos, sociais, políticos, ideológicos, filosóficos, intelectuais e até mesmo de costumes e de tradições. Neste emaranhado de motivos, até o ambiente familiar passou a servir como campo de severas batalhas, quando são seladas grandes inimizades em decorrência dos danos causados, mutuamente, por membros de um mesmo grupo.

Ora, sem encontrar refúgio seguro, e diante da iminência de ataques vindos de todas as direções, o homem moderno comporta-se como quem está sempre pronto para o combate, seja ele da natureza que for. Não importa de onde partam os ataques, é preciso enfrentá-los à altura e, o pior, revidá-los com precisão e rigor. Assim, temos o cenário que vemos todos os dias, por onde quer que andemos: as nações, a sociedade, a comunidade, o ambiente familiar, o de trabalho também, o político, o religioso e o acadêmico, todos, divididos em pequenos, médios ou grandes grupos, devidamente alinhados, preparados e dispostos a tudo para fazerem valer ideias e projetos, muitos dos quais de cunho meramente pessoal e todos, vale dizer, de natureza absolutamente efêmera.

Bem, por trás deste verdadeiro barril de pólvora, e de tanta preparação e disposição para a guerra, que nem sempre termina com sangue, mas, com sérios prejuízos psicológicos, sociológicos, políticos, financeiros, sanitários e existenciais, existe todo um processo de desconstrução da paz. Ninguém vai, loucamente, para o campo de batalha, disposto a “matar” ou a “morrer” sem que, antes, tenha tomado conhecimento sobre causas e efeitos, sobre o inimigo e sobre as condições do próprio arsenal. E é aí que tudo tem início.

Existem alguns detalhes que antecedem o ambiente belicoso, ocorra onde ocorrer, tenha a forma que tiver. Um destes “detalhes”, que podemos denominar como pavios, é justamente a existência dos chamados “boatos”. Os boatos que, na maioria das vezes, distorcem, ou até mesmo falseiam, a verdade, possuem um poder de alastramento incrível. Saem de uma boca ou de uma rede social qualquer e partem feito rastilho de pólvora chegando, impreterivelmente, nos endereços certos: naqueles que são os verdadeiros promotores da guerra. A partir daí, esses promotores da guerra, tratam de, apenas, direcionar os boatos recebidos. Pronto! Está preparado o cenário. Pessoas sentem-se ofendidas e magoadas; outras, traídas e apunhaladas pelas costas; outras, desiludidas e decepcionadas e outras, ainda, severamente excluídas e/ou discriminadas. Enfim, os boatos possuem força incrível para a desconstrução da paz. E com eles, obviamente, a mentira.

Outro detalhe antecedente, e não menos instigante de conflitos, de embates e de batalhas, é a divulgação permanente, seja por meio da palavra escrita ou mesmo oralmente transmitida, do apoio irrestrito à tese de que “a melhor defesa é sempre o ataque”. Ou seja, tão logo a pessoa perceba, ainda que apenas de forma aparente, a possibilidade de iminência de um ataque, deve partir, imediatamente, para o contra-ataque, no exercício de uma defesa que nem precisa ser própria. Pode ser em favor de terceiros. Vale tudo, para quem não tem qualquer compromisso com a paz. Tudo motiva. Tudo justifica.

Tem, ainda, a defesa que muitos fazem do uso de armas letais, como fórmula perfeita e eficaz para combater os “inimigos da paz”. Ou seja, para defender a paz, pega-se em armas e extermina-se o suposto inimigo. Inimigo da paz! Para os defensores deste “detalhe”, o perigo vem sempre do outro. É o outro que representa o mal, o adversário a ser combatido. Aquele que ameaça, verdadeiramente, a paz. Ao lado destes, marcham significativas parcelas da sociedade. Marcham em defesa da guerra, contra os adversários da paz, que são sempre os outros!

Por fim, e sem, absolutamente, exaurir a lista de detalhes antecedentes, encontramos os apologistas da vingança. Para estes, o mal precisa ser combatido com a mesma intensidade com que praticado. Porque, para eles, se o mal não for combatido com intenso rigor, tende a se propagar ainda mais. Quando, por todas as formas “legais” e conhecidas, não puderem promover a vingança desejada, partem para a vingança financeira. Qual seja: o dano moral. Impor ao outro uma pena financeira grave, para estes apologistas, pode ter efeito pedagógico muito importante além de, evidentemente, fazer inchar bolsos e contas bancárias.

Bem, todos estes – poucos, é bom que se diga – detalhes elencados, na verdade, possuem, acima de tudo, a capacidade para a desconstrução da paz. Seja da paz em campo aberto, entre as nações, na política, na sociedade, na comunidade de trabalho, acadêmica ou religiosa, ou na própria família.

Se pararmos de dar ouvidos aos inúmeros boatos que chegam até nós; se deixarmos de abraçar teses e métodos, supostamente, defensivos; se abandonarmos o apreço pelas armas letais e se, principalmente, deixarmos de fomentar a vingança, tenha a forma que tiver, certamente, estaremos contribuindo para a manutenção da paz. Ou, na pior das hipóteses, estaremos cooperando com o atraso no início da guerra.

Se não conseguirmos abraçar as fórmulas acima expostas, para a manutenção da paz, que sejamos, pelo menos, promotores do diálogo, da conciliação, da tolerância e do perdão, como formas eficazes de resolução de quaisquer conflitos. Uma inimizade, um corpo no chão ou um dinheiro a mais não são capazes de reconstruir a paz. Quando muito, ajudam a disseminar o ódio, o medo e, o pior, mais desejo de vingança.

Como sempre, o objetivo aqui é incentivar a reflexão que, caso seja feita, poderá auxiliar na melhor compreensão acerca do estado a que chegamos, com todo o progresso tecnológico e com toda a civilidade que julgamos possuir. Se for possível para você, reflita. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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