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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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ago 24

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM É VOCÊ DE VERDADE?

QUEM SOU EU

O QUE DIZER, QUANDO ALGUÉM DESEJA SABER QUEM SOU EU –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente algumas questões bastante interessantes têm percorrido o nosso diálogo semanal. São questões que, na maioria das vezes, você traz para que eu possa, após ouvir as suas ponderações, emitir algumas opiniões, independentemente de estarem, ou não, em conformidade com o seu pensamento. De fato, você tem me instigado, diria mesmo, provocado, a refletir sobre temas do nosso cotidiano. Temas que, realmente, estão na pauta das nossas relações diárias e pelos quais passamos, muitas vezes, sem nos darmos conta da importância que possuem para o nosso progresso, enquanto seres humanos. Desde o início, gostei da sugestão e aprovei os critérios para que, a partir destas trocas de experiências, pudéssemos levar aos leitores e às leitoras alguns subsídios favoráveis, e até mesmo incentivadores, para regulares reflexões.

Hoje você apresenta algo inusitado para refletirmos durante a nossa já costumeira caminhada. Trata-se da forma como eu, você e cada um de nós, devemos nos apresentar para as pessoas que, de algum modo, demonstram interesse em conhecer quem, de fato, nós somos. Inicialmente, você afirma que seria lógico que, ao me apresentar para a outra pessoa, eu expusesse minhas características físicas. Ora, estas características, isso me parece óbvio demais, não interessam a ninguém. Até porque, basta olhar para mim para, imediatamente, saberem quem eu sou sob esta perspectiva.

Você, no entanto, acredita que, ao descrever todas as minhas características físicas, eu estaria demonstrando, e até certo ponto aceitando, certas, digamos, disparidades em relação a outros corpos mais perfeitos e/ou ajustados aos padrões de beleza aceitos ou impostos pela sociedade. Assim, se ostento certa deficiência facial, por exemplo, e deixo de descrevê-la abertamente seria, na sua opinião, uma forma de fugir de uma realidade que, no fundo, estaria a me incomodar. Se, ainda, sou de estatura menos elevada, ostento uma calvície e revelo uma barriguinha um pouco saliente, o fato de deixar de mencioná-las seria, no seu entender, um modo que eu adotaria para acreditar que, ficando em silêncio quanto a tais fatos, faria com que o outro deixasse de dar tanta atenção. Não penso exatamente deste modo. Porém, respeito todas as suas colocações neste sentido. Afinal de contas, você, na minha opinião, tem alguma razão quanto à necessidade que tenho de enfrentar todos os meus, digamos, dilemas estéticos. De fato, existem pessoas, e eu conheço algumas, que não se aceitam como são ou como estão. E, por esta razão, vivem em função de alterar todas as suas incômodas características, por acreditarem padecerem de certas “deficiências” físicas. Não concordo, porém, respeito!

Na minha opinião, quando alguém deseja saber quem, de fato, eu sou, está interessado em conhecer justamente tudo aquilo que o corpo não revela. Vale dizer: quer conhecer o máximo possível a respeito da minha formação espiritual, ética, moral e, porque não dizer, da minha personalidade. É isto que interessa às outras pessoas e ao mundo que me cerca.

Conte-me mais sobre você, costumam pedir as pessoas quando se relacionam conosco pela primeira vez. E aí está a chave de tudo. Porque, na medida em que expomos o que somos, o que pensamos e, principalmente, a forma como estamos acostumados a agir, é que o nosso interlocutor terá elementos suficientes para, dali por diante, testar a veracidade de tudo o que dissemos. Afinal, é preciso responder a estas perguntas: o que me faz bem, o que me traz alegria, como vejo o outro, sob diversos aspectos, que princípios e valores eu cultivo? Todas estas questões estão ali, diante de nós, fervilhando no mar da curiosidade alheia

Não preciso te lembrar que, quanto mais interesse a outra pessoa demonstra em ouvir sobre mim, mais vontade de falar eu tenho. Assim, não é raro que, nestas circunstâncias, a gente fale coisas mirabolantes. Coisas que, na verdade, são mais lendas do que realidades. E será, no dia-a-dia daquele relacionamento que se inicia, que vou ser chamado a comprovar tudo o que falei sobre mim. E com o tempo a pessoa saberá perfeitamente, quem eu sou de verdade.

Se me apresento, por exemplo, como uma pessoa de trato fácil, de temperamento sereno, tranquilo e compreensivo, passo para o meu interlocutor a imagem de uma pessoa bacana, amiga, simpática. Pessoa com a qual, jamais, se tem qualquer problema de convivência. No entanto, se na primeira situação adversa em que estivermos juntos, eu perder a serenidade, a tranquilidade e a compreensão, ainda que eu caia em mim, imediatamente, e me lembre dos detalhes da minha apresentação e peça mil desculpas, a pessoa certamente ficará com a “pulga atrás da orelha”, pois, perceberá que aquela pessoa é diferente da que se apresentou a ela. Mas, em nome da tolerância e da compreensão, meu interlocutor passará uma borracha sobre o acontecido e, vida que segue.

Mesmo sendo tolerante, paciente e compreensivo, aquela(a) a quem me apresentei, sempre estará a observar a minha conduta diante das outras pessoas e/ou de situações adversas. E, com toda certeza, terá ocasião para comprovar quem, realmente, eu sou em termos de temperamento.

Bem, cada um de nós tem o seu próprio temperamento e, por mais que queira parecer agradável, em certos momentos e circunstâncias, é inclinado a agir de forma bastante severa, ou até mesmo ríspida. Coisas do ser humano! Com um pouco de jeito a gente até compreende bem.

Se a outra pessoa fosse você, por exemplo, que é inteligente e dotado de boas intenções, compreenderia tudo o que eu disse acerca do temperamento, e procuraria me observar sob outros prismas. Haveria de se interessar, talvez, por comprovar o respeito que eu tenho pelos valores e princípios que sustentei, lá na primeira conversa, como sendo fundamentais para a minha vida. E aí, também, pode acontecer de sofrer algumas decepções, pois verá que eu, diante de certas circunstâncias, e dependendo do contexto, prefiro auferir todas as vantagens possíveis em uma relação, sem demonstrar qualquer forma de amizade, de solidariedade, de compaixão ou mesmo de fraternidade para com outras pessoas. Aquele sujeito que se apresentou a você, como amigo, humanista, fraterno e solidário, agora, na prática, revela-se absolutamente outro. E isto te assusta!

Bem, você poderá questionar: o que mais esperar de um sujeito destes? Um sujeito que se apresentou de um jeito, mas que na prática, tem se revelado outro. Pois eu te digo que pode esperar muitas outras novidades... negativas, porque uma pessoa destas trai a confiança de todos e de qualquer um que dela se aproxima.

Por esta razão, é que eu sustento que, quando alguém vai se apresentar a outra pessoa, deve falar sobre seus valores, princípios, conceitos, personalidade e outras virtudes espirituais. E deve, é óbvio, ser coerente com tudo aquilo que está dizendo sobre si. E, ainda, caso não se sinta celeiro de algumas virtudes, deve assumir isto de imediato, sem se preocupar com a reação do outro, porque trata-se de revelar, quem ela é de verdade. Não deve mentir ou omitir nada, na tentativa de passar uma imagem, digamos, agradável e adequada ao pensamento dominante. Pois, efetivamente, será cobrada por isto em futuro próximo.

Eu, por exemplo, defendo a ideia de que não preciso me preocupar em ser agradável a ninguém. O que, de fato, deve ser objeto das minhas preocupações, é se tenho sido coerente com a minha personalidade, com o meu caráter, com os meus princípios e valores, morais e éticos. Desta forma, ser sincero diante dos outros é uma das minhas grandes virtudes. Quando eu elogio alguém, a pessoa pode ter certeza de que não a estou bajulando; quando a critico, da mesma forma, não a estou ofendendo. Em quaisquer circunstâncias, estou sendo honesto para com o outro. Coisa que muita gente se recusa a fazer, sob a desculpa de não querer ou poder ser desagradável. É melhor passar por desagradável do que por mentiroso, falso, hipócrita e fraudador da própria personalidade, como conheço e conheci muitos durante a minha caminhada.

Na realidade, os outros sempre esperam que sejamos coerentes com aquilo que dizemos ser. Não podemos afirmar que somos uma coisa, se agimos de forma absolutamente oposta, sob pena de perdermos um prêmio fantástico, que é a credibilidade. Uma das melhores coisas que podemos perder é, justamente, a credibilidade, a confiança alheia. Esta perda é de difícil recuperação. E eu conheço muita gente, e você deve conhecer também, que vive se apresentando de um modo e agindo de outro, diametralmente, oposto. Estas pessoas não se tocam, porém, já são mais do que conhecidas e, podemos dizer, manjadas. Ninguém mais, que com elas convivem, nelas depositam confiança ou crédito. Em muitos casos, as pessoas convivem com este tipo de gente por absoluta necessidade, não, por sentirem estima, confiança e/ou amizade verdadeiras.

Penso ser muito triste e, de certo modo, decepcionante, saber que alguém convive comigo por obrigação, necessidade ou imposição das circunstâncias, simplesmente porque me apresento de um jeito e me comporto de outro completamente diferente, incoerente, falso, mesquinho etc. Muitas são as oportunidades em que as pessoas são aceitas, apenas, em razão do cargo ou da função que ocupam. Não fosse por isto, poucos seriam próximos de verdade e em verdade.

Espero que você, particularmente, não se sinta triste comigo, ante meus argumentos. São apenas os meus argumentos. No fundo, no fundo, podem não ser coincidentes com os seus. Mas, pelo menos, estamos sendo absolutamente sinceros um com o outro.

E que os nossos leitores e leitoras possam aproveitar nossas formulações para refletirem sobre suas próprias vidas e possam, também, promover um sério exame de consciência, a fim de verificarem como estão se comportando diante dos seus semelhantes. De que forma estão se apresentando a quem os deseja conhecer e se estão, de fato, sendo coerentes com a figura humana que usam para descreverem-se a si mesmos. Tomara, ajam desta forma. Assim, o mundo poderá ser um pouco melhor para todos nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso de teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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