Lisaac

Sementes da Palavra, É tempo de semear

«

»

dez 23

EDITORIAL DA SEMANA: DECLARAR-SE COMO FILHO DE DEUS, SIGNIFICA SER DESPREZADO E ESQUECIDO NA FILA

FILHOS E FILHAS DE DEUS

SER FILHO DE DEUS, NUNCA FOI SINAL DE PRESTÍGIO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Jesus veio ao mundo, em primeiro lugar, como o Deus encarnado, dada a sua natureza eminentemente divina. Em segundo lugar, como o Filho do Deus vivo, na condição de segunda pessoa da Trindade e, por último, como verdadeiro homem, em razão da sua natureza, também, eminentemente humana. Aqui, porém, entre nós, Jesus nunca fez questão de dar qualquer relevo à natureza divina, mas, sim, e, acima de tudo, à condição de Filho de Deus ou, como preferia em muitas situações, a de Filho do Homem.

Entretanto, a leitura dos Evangelhos não deixa qualquer dúvida sobre o fato de que Jesus, na condição de filho de Deus, antes de angariar para si qualquer prestígio, fama ou glória, atraiu, sim, o ódio, a inveja, o despeito, a perseguição e, por último, a prisão, a condenação e a infame morte na cruz. Em uma sociedade judaica, que presava pelo zelo à Torá e ao culto exclusivo ao Deus de Israel, parece incrível, mas, é preciso admitir que, mesmo diante do Filho de Deus e de todas as obras que Ele operou, preferiu prendê-lo, condená-lo e matá-lo, antes de a Ele acolher com extremo amor, carinho e, por que não dizer, gratidão, ante o prêmio divino aos homens de todos os tempos e, especialmente, àqueles aos quais foi permitido ver, ouvir, falar e tocar no Mestre divino.

Ou seja, apresentar-se como filho do Altíssimo não tem significado algum perante os homens. Ora, se alguém pensa que hoje seria diferente, está redondamente enganado, porque, assim como nos dias de Pôncio Pilatos e de Caifás, respectivamente, governador da Judeia e sumo sacerdote, ainda hoje, apresentar-se como filho ou filha de Deus não tem qualquer relevância. Se, no caso de Jesus, ser filho de Deus levou-O à cruz, nos dias atuais, costuma levar à total indiferença, ao absoluto desprezo ou mesmo ao manicômio, porque, se a pessoa insistir muito na afirmação de que é, sim, filha de Deus, acabará passando por fanática religiosa, extremista, alienada e, por fim, por louca mesmo.

Não se cometa a insanidade de acreditar que as referidas exclusões denunciadas acima, são cometidas pelo povo em geral. Aquele povo que, no fundo, no fundo, desconhece até mesmo as Sagradas Escrituras. Não, não é assim! As exclusões a que nos referimos, direcionadas aos assim autoproclamados “filhos de Deus”, partem, da mesma forma como ocorrida no tempo de Jesus, de autoridades civis, eclesiásticas e pastorais. Da mesma forma como Caifás sentiu-se desprestigiado diante de um Jesus que afirmava ser o Filho do Altíssimo, inúmeros pregadores de hoje, ficam arrepiados ao ouvirem da boca do interlocutor a mesma afirmação feita por Jesus. Não se deverá aqui, declinar nomes, até porque, apesar da crucifixão já ter sido abolida entre nós, existem meios para punir severamente os que ousam apontar o dedo para os Pilatos e para os Caifás de hoje. Mas o fato é que eu, pessoalmente, conheço, por experiência própria, alguns destes Pilatos e Caifás.

Ora, se levarmos em consideração os preparativos regiamente organizados todos os anos, para celebrar o nascimento de Jesus, como o “Filho de Deus, que veio habitar no meio de nós”, entrando em casas, mentes e corações, assim como todas as pregações para que nós, de forma fraternal e solidária, nos aproximemos Daquele que veio trazer-nos a face do próprio Deus, com a afirmação de que somos irmãos do Menino Jesus, então, temos, todos, o mesmo privilégio e, como tais, deveríamos ser tratados com o maior respeito.

Não é, porém, o que acontece! Jesus mesmo, sobre os que matam a fome, a sede, a doença, vestem e visitam qualquer um dos necessitados,  declarou que “todas as vezes em que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), deixando evidenciado que, se somos seus irmãos, é porque somos, também, filhos do mesmo Pai, embora, por adoção. Mas nem assim! Hoje em dia, ao menos no Brasil, o instituto da adoção é rigidamente respeitado até para o caso dos animais! Porém, os filhos adotivos de Deus, não têm qualquer reconhecimento. São, mesmo, considerados loucos, fanáticos, alienados e desprezíveis, dentre outros adjetivos.

Bem, se é assim, somente a uma conclusão somos levados: os discursos do Natal, nada mais são do que palavras vazias e desprovidas de sentido! Porque, se no dia 26 de dezembro, alguém precisar de socorro, material ou mesmo espiritual, apresentando-se à autoridade civil ou religiosa como filho ou filha de Deus e, portanto, irmão do Jesus que acabara de nascer, será impreterivelmente ignorado ou ignorada.

O prezado leitor e a prezada leitora não precisam levar este texto a sério, nele acreditando no primeiro momento. É fundamental que, a título de experiência, observe todos os ambientes e todas as situações que passarão diante de si, no curso do Ano Novo que está chegando. Apresente-se para uma audiência com uma alta autoridade eclesiástica, por exemplo, e faça constar sua condição de filho ou de filha de Deus, para ver se a referida autoridade te concederá qualquer preferência ou maior atenção do que concederia a um grande capitalista desejoso de fazer uma significativa doação financeira. Posso te assegurar que o capitalista passará a sua frente e que você, muito provavelmente, ficará durante meses aguardando para ser chamado(a) para a tal audiência. Isto só não ocorrerá, se você for amigo ou amiga da referida autoridade, ou mesmo se se valer da intervenção de pessoa altamente conceituada pela mesma. Caso contrário, meu amigo, minha amiga, você terá a triste confirmação de que apresentar-se como filho ou filha do Altíssimo, será motivo de desprezo ainda maior, e sabe por que?

Porque Caifás pensava que ele, na condição de Sumo Sacerdote, era o interlocutor por excelência do Deus de Israel. E o mesmo acontece nos dias de hoje: muitas autoridades, civis e, principalmente, religiosas e eclesiásticas, muitos pregadores dominicais, assim como inúmeros líderes de movimentos igrejeiros, acreditam piamente que, em razão da sua proeminência mundana, serão preferidos por Deus, em detrimento daqueles a quem Jesus chama de “meus irmãos mais pequeninos”.

Entretanto, e apesar de tudo o que está dito acima, é bom manter acesa no coração a certeza de que, se somos chamados de “irmãos” por Jesus, é porque somos, realmente, filhos e filhas de Deus que, como Pai bondoso e misericordioso que é, jamais deixará de nos receber, de nos ouvir e de nos atender em todas as nossas aflições, porque, para Deus, não importa quem somos, mas, sim, o que somos: seus filhos e filhas muito amados. Se, para os homens, o fato de sermos filhos e filhas de Deus não tem qualquer importância, relevância ou significado, para o Altíssimo não é assim. Tanto que, na completude do tempo, enviou ao mundo o seu Unigênito para que, todo o que Nele crer seja salvo.

Acredite nisto, meu irmão, minha irmã no Cristo Jesus. Acredite nisto e saiba que, todos nós que cremos, independentemente de quem quer que possamos ser, fazemos ou pensamos, somos, acima de tudo, filhos e filhas do mesmo Pai que, como tal, está sempre atento e pronto para nos acolher, nos perdoar e para nos possibilitar uma vida sempre renovada e muito melhor.

Que neste Natal, mais do que qualquer outra coisa, consigamos voltar nosso coração e nosso espírito para a manjedoura, olhando aquele pequenino ser, como nosso grande irmão. O irmão que nos salva e nos dá coragem. O irmão que, sendo o Unigênito, sempre nos leva à presença do Pai, que olha para cada um de nós com extrema afeição, carinho e amor. Pense sobre isto, reflita e, diante do seu presépio, real ou imaginário, converse com o seu, o meu, o nosso Pai. Que o seu Natal seja grandioso e repleto de consolos e de felicidades, porque o Menino que acaba de nascer é nosso irmão, e veio para nos levar direto ao Pai, ao nosso Pai! Seja feliz, e boa sorte!

________________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: