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jun 10

EDITORIAL DA SEMANA: SEU MELHOR AMIGO É O SEU PRÓPRIO EU, CONVERSE COM ELE

EU e EU - 2019

EU e EU: UMA RELAÇÃO CONTURBADA, MAS VERDADEIRA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Pode parecer loucura, mas não é não. Eu sempre ando com o meu Eu, que é aquele que sempre me revela as coisas como elas são de verdade, ainda que eu não goste muito ou não fique tão satisfeito o quanto poderia ficar. Por exemplo, quando paro em frente ao espelho eu me acho perfeitamente bem: bonito, elegante, esteticamente arrumado, alto, enfim, pronto para todas as lutas. Mas, o meu EU, logo, logo, trata de apequenar minhas pretensões, mostrando algumas ruguinhas, uma gordurinha aqui e outra ali, uma calvície mais avançada do que eu havia admitido, uma estatura pouco abaixo da mediana, algumas impropriedades no modo de ser e de agir e, se eu digo que não estou tão mal assim, o meu EU logo me diz que estou querendo me enganar, e procura aumentar o grau da minha visão, para que eu consiga enxergar tudo direitinho.

Essa relação do eu com o próprio EU, sempre, é muito conturbada porque, de um lado está um eu, repleto de imagens, de crenças, de vaidades e de pretensões; do outro lado, está o EU que, de fato, é quem detém a coragem, a disciplina, a honestidade e, por que não dizer, a própria sabedoria para mostrar o quão enganado está aquele eu que, na maioria das vezes tenta se iludir de verdade, na pretensão de viver e de ser um pouco mais feliz, ainda que de forma fantasiosa.

Alguém poderá dizer que isso é, mesmo, coisa de maluco. Mas, não é não. Pare para pensar em quantas vezes você já se deparou com este diálogo, entre os dois EUS, diante das mais diversas situações. Quantas vezes você quis fazer uma coisa e o seu EU disse para não fazer? Quantas vezes você pensou uma coisa acerca de si e o seu EU, honesto, sincero e verdadeiro como é, mostrou outra realidade bem diferente?

De certa forma, podemos dizer que nunca estamos sozinhos. Somos sempre dois. Um eu visível que ama e que prestigia as aparências, e outro invisível, para quem tudo é muito claro, mas, que teima em estar sempre junto, falando, cochichando, chamando a atenção, criticando, falando muitas coisas que não gostaríamos de ouvir, perturbando mesmo.

Embora pareça ser uma relação bastante conturbada, o fato é que ela é, também, bastante saudável porque, com o passar do tempo acabamos nos acostumando com a presença onipresente do nosso EU e, em estágios mais avançados, existe mesmo um diálogo aberto e franco entre ambos. É o que muitos chamam de “falar sozinho”. Na verdade não existe esta hipótese de falar sozinho. Quem fala, sempre fala com alguém, mesmo que seja absolutamente invisível para o mundo externo.

Falar com o EU, quando o compreendemos perfeitamente bem, é medida muito   salutar, proveitosa e engrandecedora, porque, como disse, quando bem o compreendemos, percebemos o quanto de nós, e sobre nós, é revelado de forma tão simples e tão verdadeira. Revelação que, no fundo, apenas nos torna pessoas muito melhores, porque lança para fora de nós aquela pretensão de sermos e de estarmos, sempre, em situação excelente e até superior às demais criaturas. Revelação que faz de nós pessoas mais comedidas, mais humildes, mais simples, mais realistas e, portanto, mais fáceis na convivência com os nossos semelhantes, aos quais julgamos até poder criticar, pois vemos neles, de forma bastante clara, todos os defeitos que existiam em nós e que, com a ajuda do nosso EU, aprendemos a corrigir lenta e progressivamente.

A relação do EU com o EU pode assumir uma condição de permanente e acalorada discussão, a ponto de a pessoa não suportar a si mesma, porque está sempre sendo confrontada com uma realidade que teima em não aceitar como verdadeira. Odeiam e repudiam a solidão absoluta, porque sentem medo do Eu interior. Daí conhecermos pessoas que parecem estar sempre de mal com a vida, sempre de mal humor. De péssimo humor! Estas pessoas, por onde quer que passem, e o que quer que façam, são criticadas pelo próprio EU que, de tanto agir, faz com que a pessoa se torne insegura demais e viva perguntando aos semelhantes coisas do tipo: como você me vê? Você acha que sou feia(ao)? Acha que estou muito gordo(a)? enxerga muitas rugas em mim? O que está achando do meu cabelo? Vivem elaborando perguntas sem pé nem cabeça, próprias de quem já ouviu as respostas, vindas do próprio EU, mas que insistem em não acreditar, e aí, uma resposta politicamente correta de uma outra pessoa, pode ajudar a inflamar ainda mais o duelo entre os dois EUS.

Entretanto, quando a relação entre eles é boa. Quando o primeiro eu aceita pacificamente todas as observações, críticas e sugestões do segundo EU, e procura se adequar às posturas e às sugestões propostas, a vida parece ganhar mais sentido e a pessoa passa a viver de forma mais feliz. Visivelmente feliz! É quando vemos a pessoa sempre de bom humor; sempre animada para tudo e disponível para todos, a qualquer momento. Pessoas que são capazes de enfrentar seus desafios com bastante naturalidade, porque sabem que, na hora “H”, farão uma breve consulta ao seu EU interior e, juntos, encontrarão respostas até então impensáveis. Acredito ter sido este o caminho escolhido e trilhado pelos grandes gênios da história. Depois de muitas batalhas interiores, a genialidade aflora e produz resultados espetaculares.

Porém, para que esta relação seja assim, boa, amistosa e feliz, é necessário ouvir a sábia voz do Eu interior, porque ele, melhor do que ninguém, é capaz de dizer as coisas mais espantosas sobre nós. Coisas que ninguém, ou quase ninguém, é capaz de nos dizer franca e abertamente. Coisas difíceis, sim, mas, verdadeiras e honestas porque, o que o nosso EU mais deseja é que sejamos felizes do jeito que somos e no meio no qual estamos inseridos. Por esta razão, ele joga na cara, fala de forma escancarada, critica sem meias palavras mas, também, apresenta as mais sábias e pertinentes soluções. É preciso ouvir o nosso EU, se quisermos viver de verdade e em verdade, porque, apenas nas aparências, uma hora a máscara cai, e aí, a decepção poderá ser grande demais para que consigamos sobreviver sem sérias sequelas. Aí estão as depressões e os suicídios a confirmarem  tese.

Minha relação com o meu Eu é tão boa e tão profícua que, há muito tempo eu o promovi à condição de Anjo porque, além de me alertar constantemente sobre o perigo das minhas inconstâncias, incoerências, insanidades, desregramentos, indisciplinas, explosões e rebeldias ele sempre me sugere caminhos sábios, seguros e promissores. Com o tempo, aprendi a respeitá-lo e a ouvi-lo com bastante frequência. Melhorei muito a partir de quando isso aconteceu porque, ao contrário do que eu acreditava, comecei a aprender muito mais sobre mim mesmo, evitando surpresas e ira ao ouvir a opinião de terceiros, e assim, pude corrigir muitos caminhos, jeitos, mal jeitos e trejeitos que estavam incrustados na minha vida e na forma como eu via, tudo e todos à minha volta, travando e obscurecendo a visão do que seja, realmente, uma existência verdadeiramente  feliz.

Ainda que este texto te pareça coisa de maluco, sugiro que reflita sobre ele e veja como andam as suas relações com o seu próprio EU. Veja se não está  fazendo ouvidos de mercador, quando ele fala tudo o que você precisa, mas não gostaria, de ouvir. Saiba que, do aperfeiçoamento desta relação entre os dois EUS, quem sai fortalecido é o “amor próprio”, cuja condição necessária para o crescimento e o fortalecimento é a confiança mútua. E, para que esta confiança se faça sempre presente, é preciso que você ouça a voz do seu EU, acredite nele e siga todas as suas intuições. Assim, você poderá ser muito mais feliz, porque aprenderá a se amar de tal forma, que assumirá quem, realmente, você é, e aceitará fazer profundas mudanças no jeito de ser e de viver, para que todos os que convivem próximos a você possam te amar também, fazendo com que a vida seja vivida em plenitude e com alegria.

Não brigue com o seu EU, porque ninguém é mais fiel, mais leal, mais amigo e mais honesto com você do que ele. Separar-se dele é optar por um terrível e angustiante abandono de si mesmo(a) porque, pode ser que ninguém te suporte tanto quanto ele, e que ninguém consiga te fazer tão feliz, também, quanto ele. Pense sobre isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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