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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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fev 02

EDITORIAL DO MÊS: NA LIBERTAÇÃO, A FELICIDADE ALMEJADA

VINDE A MIM TODOS VÓS

TEOLOGIA MORAL: A CHAVE PARA UMA VIDA MAIS COMPLETA E MAIS FELIZ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Uma das maiores e mais persistentes preocupações de carrego comigo a vida toda está relacionada com a disseminação do conhecimento. Nunca me conformei com a dificuldade de acesso ao conhecimento e, principalmente, quando esta dificuldade ocorre de forma premeditada por aqueles que, detentores do saber, fazem-se de bobos ou de desentendidos, deixando incontável número de pessoas presas, e até certo ponto acorrentadas, à ignorância. Isso, em relação a todos as áreas do conhecimento.

Muito do que aprendi, e do que ainda aprendo, no meio acadêmico, seja na área do direito, minha primeira graduação, ou mesmo na da teologia, minha paixão eterna, procuro divulgar sugestões e opiniões para as pessoas, a fim de que elas possam ter, ao menos, uma pequena noção sobre assuntos cuja ignorância traz, não raro, sofrimentos, prejuízos e, posso dizer, até um certo esmagamento espiritual, em virtude, principalmente, dos sentimentos de culpa e de arrependimento que, ainda que bem camuflados no mais profundo do ser, trazem angústias imensuráveis a todos nós seres humanos.

Por estas razões, resolvi abordar aqui e agora o tema que, para mim, é o do momento: a teologia moral! É claro que não pretendo, neste curto espaço, dar aula sobre o assunto, o que demandaria a escrituração e o detalhamento de enormes e espessos volumes, mas, quero, apenas e tão somente, comentar certos aspectos de um ramo da teologia ao qual venho me dedicando com mais afinco a cada dia, justamente, por entendê-lo portador de enorme potencial libertário, por envolver, para nós cristãos fieis e fervorosos, temas como pecado, culpa, arrependimento e possibilidades de reconciliação.

Sejam quais forem os melhores e mais apropriados conceitos destacados para cada um dos temas indicados – pecado, culpa, arrependimento e reconciliação – o fato é que caminhamos por uma estrada na qual somos espremidos, de um lado, pelos mandamentos compilados na Lei de Moisés, sobre os quais Jesus disse ter vindo para, além de cumpri-los, também, aperfeiçoá-los e, por outro lado, com as exigências impostas pelas religiões e seus dotes fundamentalistas, além das concepções trazidas pelo século presente que, vítima do mal do relativismo, apregoa justamente a inexistência ou a não importância dos temas em destaque. Ou seja, para o mundo pós-moderno, questões como pecado e culpa, por exemplo, estão superadas pelo tempo. Arrependimento é ato personalíssimo que, portanto, só aprisiona os mais antigos e ultraconservadores. Reconciliação, então, nem se fala. Diversos setores eclesiásticos, por seu turno, impõem verdadeiras e pesadas correntes sobre os que ousam levar-lhes seus pesares com a vida ou mostrar-lhes os insuportáveis fardos que carregam na alma.

Em meio a toda esta barafunda, o verdadeiro cristão, aquele que procura seguir de perto as pegadas do Mestre Jesus, caminha com bastante dificuldade, porque, ora é oprimido por deixar de fazer ou de praticar atos que acredita fazerem-no um pouco mais feliz, ora sente-se esmagado pelo sentimento de culpa ou mesmo pelo arrependimento que, neste caso, pode ser pela ação ou pela omissão.

A teologia moral não vem derrubar muralhas, nem abrir fronteiras inimagináveis, mas, vem trazer alento aos corações e aos espíritos cansados e aflitos, aos quais Jesus se dirige dizendo: “vinde a mim todos vós que estais cansados e aflitos, e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28-30). E a teologia moral traz esse alento, justamente, por estar solidamente fundamentada na pessoa, na ação, nos gestos e nas palavras de Jesus que, se de um lado afirma ter vindo para, além de cumprir a lei, aperfeiçoá-la, também declara querer misericórdia e não, sacrifícios, chamando para si todos os cansados e fatigados, para o necessário e refrescante bálsamo do carinhoso acolhimento, para a oitiva da palavra suave, mansa e curadora e para a descoberta, principalmente, do perdão, com possibilidades de seguir adiante, em paz e de forma serena.

É com base nestas fórmulas evangélicas, e não em simples achismos, que autores moralistas consagrados, como  Bernhard Haering, Marciano Vidal, Josef Fuchs, Klaus Demmer, Antonio Moser, Bernardino Leers e Eduardo López Azpitarte, por exemplo (existem muitos outros) tratam de questões como o pecado, nas mais diversas formas, como a sexualidade e a homossexualidade, com todos os seus desdobramentos, e como a culpa, o arrependimento e a reconciliação. São teólogos como estes, sem esquecer José Maria Castillo, Paula Fredriksen e Tereza Rodrigues Vieira, que vão traçar para todos nós o caminho seguro e sem curvas que leva direto para Jesus que, verdadeiramente, é Aquele que tem o poder de libertar todas as criaturas dos inúmeros pesares que carregam em si e consigo.

A narrativa do Livro do Gênesis, sobre o fato de Adão, depois do pecado da desobediência, ter procurado ocultar-se da presença de Deus (Gn 3, 8), ainda se faz presente em nós e em nossas vidas, sempre que sentimos o manto sombrio do fato, do ato ou da omissão aproximarem-se do nosso ser, trazendo o terrível odor do sentimento de culpa ou de remorso. Em tais momentos e circunstâncias, é normal que busquemos o afastamento, e o consequente isolamento, dos oráculos do Senhor, em virtude da noção que temos, ainda que inconfessável, sobre o certo e o errado.

Assim, é no estudo e na pesquisa que envolvem a teologia moral que vamos encontrar as respostas adequadas para as nossas inquietações físicas, sociais, psicológicas e espirituais simplesmente porque ela responde a uma pergunta fundamental, que todo cristão deveria fazer-se o tempo todo: “o que Jesus faria em tal situação ou diante de tal problema ou dilema?”. Ao deixarmos de nos questionar a respeito da nossa adequação à imagem e ao agir de Jesus, na tentativa de, verdadeiramente, libertarmo-nos de todos os males, afundamos. E, afundados, nem sempre conseguimos emergir ou nos reerguer com a facilidade outrora imaginada. Daí, o caminho do vício, da depressão, da discórdia, do mal humor e, não raro, do suicídio aparecer como “tábua de salvação” para quem já se considera irremediavelmente perdido.

A teologia moral, à luz das Escrituras, da doutrina e, também, do Magistério da Igreja, não deixa de enfrentar temas como a sexualidade, o celibato, a masturbação, a homossexualidade, a homoafetividade, com todos os seus desdobramentos, o matrimônio com os efeitos da conjugalidade e da procriação responsável, o divórcio e a situação dos recasados, o aborto e a eutanásia, além de questões sociais como a ética – social, moral e antropológica – e outras mais, decorrentes que são da natureza humana.

São aspectos que, uma vez conhecidos, trazem luz aonde impera, muitas vezes, as trevas dos sentimentos que nos afastam do Deus cujos braços sempre estão abertos em toda a sua infinita extensão para nos receber com o maior carinho, compreensão, perdão e renovadas chances de reconciliação social, eclesial, física, psicológica e espiritual, vale dizer: a nossa própria reconstrução.

Mais adiante, vou listar os autores acima citados, com as respectivas obras, para que todos que tenham interesse possam adquiri-las para ampliarem o grau da necessária visão libertadora. A função primeira da teologia é sempre libertadora porque, conforme disse o Senhor: “Conhecereis a verdade, e ela vos tornará livres” (Jo 8, 32). Outra não é a intenção dos diversos autores indicados, senão levar para leitores, estudiosos e pesquisadores, no âmbito da teologia moral, diversos conhecimentos, entendimentos e interpretações, porém, somente um caminho: Jesus e sua inquestionável misericórdia.

Este texto, além de proposto para efeito de reflexão é, também, indutivo para a busca de novos conhecimentos acerca da fé e da forma pela qual temo-la vivido, se opressora ou libertadora. Portanto, considero estar cumprindo papel relevante ao incentivar as pessoas a buscarem, na leitura de autores consagrados, alguns dos quais já estão ao lado do Pai, uma maior e melhor compreensão da realidade humana. Realidade da qual nenhum de nós consegue fugir, porque é intrínseca a nossa própria natureza. Faça as leituras que puder, reflita, tire suas próprias conclusões e liberte-se de uma vez por todas. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________________________ BIBLIOGRAFIA SUGERIDA: AZPITARTE, Eduardo López – Culpa e Pecado – Responsabilidade e Conversão. Petrópolis. Vozes: 2005. 200 páginas. ____________Ética da Sexualidade e do Matrimônio. São Paulo. Paulus: 1997. 462 p. CASTILLO, José Maria – A Humanidade de Jesus. 1ª Reimp. Petrópolis. Vozes: 2018. 130 páginas. ____________A Ética de Cristo. 2ª Reimp. São Paulo. Loyola: 2016. 213 páginas. DEMMER, Klaus – Introdução à Teologia Moral – 2ª Ed. São Paulo. Loyola: 2007. 120 páginas. FREDRIKSEN, Paula – Pecado – A História Primitiva de Uma Ideia. Petrópolis. Vozes: 2014. 245 páginas. FUCHS, Josef – Existe uma Moral Cristã? – São Paulo. Paulinas: 1972. 242 páginas. HAERING, Bernhard – Livres e Fieis em Cristo. 3 volumes. São Paulo. Paulinas: 1979. LEERS, Bernardino – O Mistério da Reconciliação – Uma Ética Profissional Para Confessores. Petrópolis. Vozes: 1988. 216 páginas. MOSER, Antonio – Casado ou Solteiro – Você pode ser feliz. 2ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2007. 280 páginas. _____________O Pecado – Do Descrédito ao Aprofundamento. 5ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2012. 203 páginas. RODRIGUES VIEIRA, Tereza (ORG.) – Bioética e Sexualidade. São Paulo. Jurídica Brasileira: 2004. 196 páginas. VIDAL, Marciano – Nova Moral Fundamental – O Lar teológico da Ética. Aparecida-SP. Paulinas e Santuário: 2003. 912 páginas. _____________Moral Cristã em tempos de relativismos e fundamentalismos. São Paulo. Santuário: 2014. 189 páginas. ____________________________________________________________ *Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.      

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