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set 07

EDITORIAL SEMANAL: A ÉTICA COMO VIRTUDE

SÓCRATES -2020

SOMOS ÉTICOS POR CONVICÇÃO OU POR CAUSA DA COERÇÃO LEGAL OU SOCIAL –

*Por L. A. de Moura –

O tema que hoje apresentas para o nosso costumeiro debate, é por demais instigante, haja vista estar entranhado no cotidiano de todas as pessoas, diríamos, de bem: a ética. E, como sempre, mantendo o teu estilo provocativo, questionas se pretendemos elevar a ética em decorrência de uma convicção própria, ou se, por outro lado, fazemo-lo em razão de certa “coerção” advinda da sociedade, de forma contratual ou mesmo legal. Eu me assusto com este teu estilo. Falo assim, porque, certamente, não encontraremos muito eco diante daqueles que, porventura, venham tomar conhecimento deste nosso diálogo.

No entanto, confiando na nossa capacidade para deslizar por entre as linhas e as entrelinhas, sem causar maiores incidentes, vamos em frente. Na tua opinião, da qual não ouso discordar, é razoável comparar o que é ético com o que é, também, justo, uma vez que uma coisa não sobrevive dissociada da outra. Partindo desta hipótese, pensas que tal como ocorre com a justiça, a prática da ética decorre muito mais de uma imposição vinda do exterior, do que, propriamente, do interior dos seres humanos. Em outras palavras: a teu juízo, o indivíduo só procura ser ético diante do público quando, em segredo, no silêncio da sua alma e, caso eventualmente consultado por si mesmo, manifestaria outro desejo de ser, de viver e de agir.

Destas tuas conclusões, penso ser coerente a dúvida inicial: o indivíduo é ético por convicção ou por coerção? Haveria, por assim dizer, um caminho do meio, no qual um intrépido qualquer pudesse esconder suas verdadeiras características, sem cair diante de um lado ou de outro do abismo? Penso que não!

É claro que não podemos, aqui, neste espaço bastante limitado, pretender efetuar uma exploração sobre a conduta humana no decorrer de toda a história da civilização, sob pena de descermos às profundezas das origens, sem fôlego para o imediato retorno. Desta forma, buscando amparo na análise sobre o humano do nosso tempo que, certamente, é o mesmo de sempre, poderemos encontrar evidentes semelhanças entre os mais diversos exemplares, haja vista pertencermos, todos, à mesma espécie.

Bem, no tempo atual, parece não existirem dúvidas quanto ao fato de que a força dos atos e das opiniões que praticamos ou que externamos, encontra forte balizamento no que a chamada “maioria” pratica ou declara pensar. Assim, praticamos as ações que, segundo a “maioria” dos nossos congêneres, são as mais corretas, as mais justas, as mais equilibradas, as mais coerentes e as mais virtuosas. Na mesma direção, as opiniões que externamos. Devem, para não serem cruelmente apedrejadas, estar em absoluta conformidade com a opinião dos que, inclusive, são denominados “formadores de opinião”. Com um pouco de reflexão, parece não haver muita dúvida quanto a isto.

Ora, se pudermos assumir como verdadeiras as proposições acima, então chegaremos facilmente à conclusão de que os seres humanos contemporâneos agem muito mais, movidos pelo que lhes é imposto pela sociedade, que se fecha em copas, do que propriamente pela sua genuína natureza. Donde podermos afirmar, então, que os indivíduos falam sobre a ética, defendendo-a com unhas e dentes, apenas, e, tão somente, diante das câmeras ou dos inúmeros olhares que lhes são dirigidos por uma plateia ávida por ouvir, justamente, aquilo que se espera que seja dito, até porque, é o reflexo de determinado pensamento dominante. Fora destas circunstâncias e destes contextos, tais indivíduos tendem a conflitar com seus próprios pendores internos.

Seria o caso, e até bastante oportuno, de recordar o famoso exemplo do pastor de ovelhas chamado Giges, usado por Platão, na sua “A República”. Para quem não conhece o caso, aqui vai uma palhinha bem resumida, a partir do diálogo entre Gláucon e Sócrates, quando o primeiro apresenta Giges como um sujeito cumpridor dos seus deveres, mas que, em razão de circunstâncias climáticas, encontra, no corpo de um cadáver, um anel de ouro. Dada a localização do cadáver (é bom ler no original), Giges apodera-se do anel e, em pouco tempo, descobre que ao movimentar a parte superior do anel na direção da palma da sua mão, torna-se invisível para as demais pessoas. Voltando o anel à posição inicial, volta a ser visto por qualquer um. Ora, Giges rapidamente torna-se um sujeito perigoso, uma vez que, possuidor de tais poderes, é capaz de, na invisibilidade agora possível, praticar os atos mais absurdos que se possa imaginar. Sugiro que os leitores leiam a história na íntegra (Segundo Livro de A República – Platão). Para o leitor atento da historinha de Giges, o próprio fato de apoderar-se do anel, em um ambiente fora da vista das pessoas, já soa como algo bastante sugestivo acerca da real personalidade do pastor de ovelhas que, naquele justo momento, encontrava-se a sós com o cadáver, longe de olhares outros.

Imaginem os leitores e as leitoras, por exemplo, o caso de dois estudantes que decidam efetuar matrícula em mesma instituição universitária, sendo que, em dado momento, um deles, sejam lá quais forem as suas razões, decide não mais caminhar junto com o outro, desistindo do ingresso no campus universitário. Obviamente, cada um segue o caminho que se lhe afigura como o melhor. No entanto, o que desistiu de seguir a caminhada universitária, pede ao outro para, na medida em que o curso for evoluindo, vá passando para ele todas as apostilas que recebe da instituição, pelo simples fato de estar regularmente matriculado. Assume, diante do amigo, o interesse em aprender tudo o que puder sobre aquela cadeira, apenas, e, tão somente, não querendo assumir compromissos com o estudo regular nem com as regras impostas pela instituição.

O caso pode parecer estranho ao tema aqui desenvolvido. No entanto, é preciso olhar com um pouco mais de atenção para podermos enxergar a quebra da ética, principalmente, por parte do estudante regularmente matriculado, caso resolva atender o pedido feito pelo amigo. É que, parece bastante claro que, no caso, só tem direito de receber as tais apostilas, aquele que está inscrito naquela instituição para cursar aquela disciplina específica. Para tanto, a instituição cobra um determinado valor mensal, e o estudante paga com a devida regularidade. Enquanto o outro, por ter desistido de frequentar o mesmo curso, ficou isento de efetuar qualquer pagamento àquela instituição ficando, também, sem direito de receber dela, de forma direta ou indireta, qualquer material didático.

Ora, para os que ainda possam guardar alguma insegurança relativamente ao fato, basta perguntar-se a si próprio se, no caso, o estudante que resolvesse atender aos clamores do amigo, seria bem avaliado, e até mesmo aplaudido pela direção da Universidade se, em dado momento, toda a trama viesse a público. Será que o gesto de amizade, passando por cima dos autores do projeto de estudo dirigido, desconsiderando todo o trabalho de pesquisa, além do custo do material utilizado e da força de trabalho despendida, seria visto com bons olhos pelo Reitor da Universidade ou pelo Diretor daquela disciplina? Pode ser que não!

Trata-se de um exemplo muito simples. Bastante simples, mas, que, ocorre com muita frequência no mundo acadêmico. Ora, mas isto não é nada grave, poderiam objetar os leitores e as leitoras. Parece não ser grave mesmo. No entanto, quem é capaz de praticar um ato minimamente antiético, de posse de uma justificativa até plausível, será capaz de praticar muitos outros, para os quais, certamente, encontrará as justificativas cabíveis e, possivelmente, admissíveis, desde que – e isto é importante – não sejam atingidos interesses maiores, caso venha a ser descoberto.

Portanto, exemplos não faltam no dia-a-dia das nossas vidas. É preciso, e até certo ponto útil, que cada um de nós faça uma avaliação rigorosa diante de cada ato a ser praticado, para saber se está agindo por força da coerção ou de uma sólida convicção própria. Agiria desta forma, independentemente da publicidade do ato, ou, por outro lado, diante da plateia, tomaria outro rumo?

Há a alguns anos eu adquiri, pela internet, um programa nutricional, seguido de um livro de receitas de culinária, elaborados por uma equipe cujo chefe era um médico gastroenterologista, com foco em pessoas portadoras de diabetes. Adquirir, aqui, significa, comprar mesmo. Comprar e pagar. Bem, seria natural que, comprando e pagando, eu me entendesse como “dono” daquele material, podendo repassá-lo para qualquer outra pessoa das minhas relações. Até mesmo para ajudar alguém a se alimentar de forma mais adequada. Muito justo, diriam alguns. No entanto, no ato da compra, tive que declarar estar ciente de que, qualquer forma de transferência daquele material, no qual vinham estampados o meu nome e o número do meu CPF, constituiria fraude, em razão do direito da autoria, do qual o médico assinante é detentor. Não bastasse a referida adesão ao compromisso, assim como a minha identificação para fins fiscais, verifiquei, posteriormente que, qualquer simples cópia, exibia, também, o endereço eletrônico do médico, na forma de marca d’água, significando que, mesmo que eu quisesse burlar o compromisso assumido, estaria muito claro para qualquer pessoa, que aquele era um material cujo autor deve ser respeitado. Valendo dizer: quem quiser adquiri-lo, deve comprá-lo!

Quer um outro exemplo prático? A Folha de São Paulo até permite que sejam feitas cópias das matérias que publica. No entanto, o copiador, ao teclar o Ctrl+v, recebe apenas o endereço eletrônico da referida página do jornal que, por sua vez, só pode ser acessado por assinantes. O que isto significa? Significa que, se eu, que sou assinante, enviar cópia do endereço eletrônico para uma pessoa que não o seja, ela não conseguirá o acesso desejado. E por quê? Seria de se perguntar: por se tratar de material de cunho comercial, que possui valor econômico para quem o produz. Desta forma, se qualquer pessoa pudesse obter acesso àquele material, a empresa iria à falência.

Observem que, em ambos os exemplos, a "ética", aqui, ocorre em função das precauções tomadas pelas respectivas instituições, o que parece não ocorrer no caso do estudante cujo amigo pediu cópia do material disponibilizado somente para os regularmente matriculados naquela disciplina específica. Portanto, neste último caso, é possível que o nosso prezado estudante mandaria a ética às favas e, para agradar ao amigo, cederia facilmente todo o material solicitado. Tiraria, também, se fossem pedidas, fotos das professoras mais sensuais, assim como das estudantes mais bonitas etc., sem qualquer constrangimento. Tudo isto porque, para ele, ética tem a ver com a liberdade de agir, e esta, não encontra limites a não ser na lei e na punição.

O grande problema, é que o ser humano não se esmera em ser honesto, em respeitar o direito alheio. Pelo contrário, procura sempre esmerar-se em superar quaisquer obstáculos relativos à ética, de modo que, da forma mais discreta, e secreta, possível, possa invadir o espaço do outro sem ser descoberto e sem, evidentemente, perder a auréola de “pessoa ética”.

Finalizando este nosso colóquio, julgo ser necessário dizer que precisamos inverter esta lógica, porque ela tem destruído uma das coisas mais importantes da vida de todos nós: a confiança mútua. Precisamos acreditar que nossas relações, sejam comerciais ou não, carecem do sentimento, e da própria convicção, da justeza, do equilíbrio e da equidade. É, pois, possível, uma melhor convivência. Só depende de todos e de cada um de nós.

Em razão do meu atual momento acadêmico, penso ser importante discriminar aqui o Óctuplo do Nobre Caminho, extraído do Dhammapada, que traz as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda, para a superação e a libertação da dor e do sofrimento: a) a reta compreensão; b) o reto pensamento; c) a reta palavra; d) a reta ação; e) o reto modo de vida; f) o reto esforço; g) a reta atenção; h) a reta concentração.

O sentido de “reto”, aqui, é o daquilo que é “justo”. Portanto, precisamos conhecer e, ao mesmo tempo, praticar, estas virtudes, para podermos disseminar o caminho do bem que tanto almejamos para as nossas vidas, assim como para as de todos os nossos semelhantes. A pergunta não é: É possível ter um mundo melhor? Mas, sim: Eu consigo ser melhor do que sou para encontrar um lugar no mundo que almejo como melhor? Porque, se a resposta a esta segunda pergunta for afirmativa, a primeira questão estará, igualmente, resolvida.

Espero que tenhas ficado satisfeito com estas minhas ponderações e que os nossos leitores e leitoras possam, também, tirar algum proveito de tudo isto, apesar de, como sempre, reafirmar que tudo não passa de opiniões e de convicções de natureza pessoal, frutos da vivência e da própria experiência de vida. Que cada um faça as suas íntimas e saudáveis reflexões e que, a partir daí, possa tirar as conclusões capazes de mudar caminhos e caminhadas, oferecendo exemplos e opções para outros caminhantes. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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