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jan 31

FAMÍLIA: CAMINHOS E DESAFIOS

FAMÍLIA - O QUE É

O QUE É FAMÍLIA? 

*Por Pastor Elton Pothin

         No último parágrafo da reflexão anterior, escrevi que “a família passou de um período de autoritarismo masculino para o extremo do liberalismo desenfreado.” 

         Neste sentido, gostaria de refletir com você, leitor, sobre a pergunta: o que é família? 

         Nos tempos de nossos bisavós, o núcleo familiar consistia num homem e uma mulher casados no civil e na Igreja com seus filhos. O pai é quem tinha autoridade total – mandava em tudo e em todos. Era também o provedor, sustentava a família financeiramente. A mãe era a dona de casa e mãe dos filhos. Submissa ao marido. Os filhos eram também submissos ao pai – desobedecer, questionar como se faz hoje, nem pensar! Era uma surra bem dada na certa! Lembramos ainda que filhos tidos fora do casamento não tinham direito – eram os chamados “bastardos”. 

         O divórcio não era permitido. Somente em 1977 foi promulgada a Emenda Constitucional nº 09 que criou o divórcio, permitindo que houvesse a extinção dos vínculos de um casamento e autorizando a pessoa divorciada a contrair novo matrimônio. 

         Lembramos que, até o ano de 1977, quem casava permanecia com um vínculo jurídico para o resto da vida. Caso a convivência fosse insuportável, poderia ser pedido o 'desquite', que interrompia com os deveres matrimoniais e terminava com a sociedade conjugal. Significa que os bens eram partilhados, acabava a convivência sob mesmo teto, mas nenhum dos dois poderia recomeçar sua vida ao lado de outra pessoa cercado da proteção jurídica do casamento. 

         Além disso, a mulher que pedia divórcio era mal vista na sua própria família, na sociedade, na Igreja. 

         As mudanças foram acontecendo. Com a economia liberal de mercado, a principal mudança foi a entrada da mulher no campo de trabalho. Assim, ela já não está mais na dependência financeira do marido como provedor. E isso muda tudo! Além disso, a revolução sexual ocorrida entre os anos de 1960 e 1970 é um fator determinante. Assim, a mulher já não precisa mais suportar desmandos e violência do marido. Com isso, há um número maior de divórcios. 

         Muitos falam que hoje as pessoas não sabem mais ceder, que, por qualquer coisa, se divorciam. Creio que não seja bem assim. O que acontecia é que, antes da lei do divórcio e antes de entrar no campo de trabalho, a mulher sofria calada. Não tinha outra alternativa! Com o homem como provedor, não tinha como se sustentar. Para onde ela poderia ir, se todos desprezavam uma divorciada ou desquitada? Iria sofrer a rejeição da família, perderia os amigos, teria a rejeição social e a condenação da Igreja! 

         Hoje, é preciso que haja diálogo, entendimento, equilíbrio, decisões conjuntas no matrimônio! E, muitas vezes, o marido ainda acha que está no século passado, onde pode mandar e desmandar. E apela até para a violência. Com isso, é claro que o número de divórcios aumentou – mas não por leviandade, mas porque ainda não houve o devido avanço na maturidade das pessoas para a nova realidade do matrimônio – principalmente dos homens. 

         Com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também entram em cena os direitos da criança. Assim, também a relação pais/mães e filhos mudou (como vimos em artigos anteriores, para um lado não muito positivo, também por falta de maturidade dos adultos na nova realidade). 

         A lei que define a família também mudou. A lei 11.340, de agosto de 2006, define a família como “a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa.” (artigo 5º, II) Há também a nova lei que regulamenta a uniões que não são regularizadas pela lei civil (aquela que definimos como “juntar os trapos” – daqueles que simplesmente “foram morar juntos”) – a nova lei 13.135, da união estável, de 17 de junho de 2015. 

         Com isso, ampliou-se a concepção do que seja o núcleo familiar – não se restringindo mais a homem e mulher legalmente casados com seus filhos. Com essa nova lei, a uniões estáveis sem formalização, as uniões homossexuais, os núcleos monoparentais (avó, mãe e filha, por exemplo) e grupos de irmãos são, legitimamente, famílias. 

“A família nuclear tradicional está cedendo lugar à família ampliada ou extensa, isto é, aquela formada por diferentes tipos de membros e gerações. “Sintetizando, a nova família, que antes era definida pela obrigação, é hoje definida pelo afeto, ou seja, relações de consanguinidade sendo substituídas pela relações afetivas e amorosas.”” (Revista Novo Olhar, nº 35, p. 12) 

         A família mudou! Mas não é uma instituição em crise! O que entrou em crise foi o modelo de família patriarcal que descrevemos no início deste artigo.

         No próximo mês, iremos refletir um pouco mais sobre o novo modelo de família em nossa sociedade.

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PASTOR ELTON POTHIN*Pastor Elton Pothin, é natural de Arroio do Tigre-RS, formou-se em Teologia pela Faculdade de Teologia da Escola Superior de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil em São Leopoldo/RS, em julho de 1993. Atuou como Pastor nas Comunidades de Teutônia/RS; Martin Luther (Joinville/SC) e, ultimamente, está à frente da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Petrópolis-RJ. Mensalmente, envia-nos reflexão  sobre a família, seus caminhos e seus desafios.

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