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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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jun 01

JESUS CALOU OS SADUCEUS

JESUS E OS SADUCEUS

OS SADUCEUS E A RESSURREIÇÃO –

(Mc 12, 18-27)  –

*Por Luiz Antonio de Moura –

            O encontro entre Jesus e os saduceus é um dos mais combativos que encontramos no Novo Testamento. Isto porque os saduceus formavam uma facção no seio do judaísmo, ligados à aristocracia sacerdotal e, portanto, mais próximos de uma facção religiosa do que propriamente política. Suas crenças eram bem diferentes das dos fariseus que, por exemplo, acreditavam na ressurreição dos mortos. Os saduceus não acreditavam! E é daqui que surge para eles uma oportunidade de interpelação a Jesus, com o objetivo até meio sarcástico, querendo expor Jesus ao ridículo.

            Para atingirem tal finalidade, eles propõem a Jesus a seguinte hipótese: “Havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência. Então, o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, a qual deles pertencerá a mulher? (Mc 12, 20-23).

            Os saduceus, como de resto a maioria dos judeus, eram versados na Lei de Moisés e, portanto, conheciam muito bem os meandros das instituições criadas e mantidas ao longo dos séculos. Primeiro, valem-se do número “sete” que aparece com muita frequência em toda a Bíblia, tendo como um dos seus significados a ideia de totalidade, de completude. No questionamento a Jesus o “sete” aparece no sentido de: “no final de tudo”, “na completude dos tempos” que eles, espertamente, denominam como sendo a ressurreição, na qual não acreditam. Depois, a proposição vem embasada na própria Lei ou, como se queira, no levirato, onde a mulher é vista e tratada como mero objeto. Daí a pergunta “Na ressurreição, a qual deles pertencerá a mulher?”, evidenciando que, como objeto, ela será entregue a alguém. Por fim, a questão da herança. A Lei prescrevia que os filhos, homens, primogênitos, tinham preferência na repartição da herança, tendo estes o direito a uma porção dupla em relação aos demais (cf. Dt 21, 15-17). De acordo com o entendimento desta Lei, Abraão é digno de condenação por ter expulsado Agar e seu primogênito Ismael, após o nascimento de Isaac. A mulher, na condição de objeto, era vista como fonte de serviço e de procriação. Afinal, dela nasciam os filhos primogênitos que dariam prosseguimento à linhagem do pai. Daí que, se uma mulher se casasse com um homem e este viesse a morrer sem deixar filhos, a viúva deveria velar para que os bens deixados pelo finado fossem repassados a alguém da mesma linhagem, o que possibilitava, e até recomendava, que ela voltasse a se casar com um irmão do falecido, e de outro, e de outro, até o nascimento do tal primogênito.

            Na lógica da proposição apresentada a Jesus, os saduceus lembram-se de tudo isso que, não obstante, era do profundo conhecimento de Jesus. Eles, então, sugerem a Jesus que, de sete maridos falecidos sem deixar herdeiros, na ressurreição haveria conflito, pois, “a qual deles pertencerá a mulher?”.

            Observe-se que a questão tratada pela lei era o direito de sucessão e de herança, mas, os saduceus, querendo colocar Jesus em situação difícil, criam uma hipótese que foge totalmente da questão legal, partindo para aquilo que Jesus vinha pregando como a nova visão sobre a morte e sobre o fim último do homem. Visão esta que não era, de forma alguma, acolhida pelos saduceus que, como já o dissemos, não criam na ressurreição.

            Jesus, sem repreendê-los de pronto, taxa-os de ignorantes acerca da compreensão da Lei, afirmando: “Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mc 12, 24). Na verdade, os saduceus compreendiam muito bem as Escrituras, mas queriam testar o quanto Jesus conhecia acerca da Lei de Moisés. Ele, no entanto, ao dizer que eles não tinham a exata compreensão das Escrituras, nem do poder de Deus, chama-os, nas entrelinhas, de ignorantes o que, certamente, foi motivo de zombaria dos populares presentes. Querendo parecer muito sábios, são enfrentados por Jesus, com sabedoria e astúcia.

            Jesus começa a desfazer a armadilha proposta pelos saduceus, afastando a noção da mulher como propriedade. Na tradução da Bíblia Ave-Maria, Jesus afirma que: “Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres (tomarão) maridos, mas serão como os anjos nos céus”. Na tradução dada pela Bíblia de Jerusalém Jesus declara que: “quando ressuscitarem dos mortos, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento, mas serão como anjos nos céus”. Vê-se, portanto, que Jesus afasta o conceito de posse da mulher pelo homem, tratando o matrimônio como o ato onde homem e mulher entregam-se mutuamente, para a vida em comum. Este é um aspecto bastante interessante e deveras importante até os nossos dias.

            Pois bem, vencidos os saduceus na sua ânsia de expor Jesus ao ridículo, Jesus esclarece que na ressurreição seremos, e viveremos, como anjos que, sem tratar da questão da sexualidade ou da assexualidade, vivem e reinam para sempre no entorno de Deus e do Seu Trono. Com esse procedimento, Jesus remete seus interlocutores ao aprofundamento do estudo das Escrituras, instigando-os a tomarem conhecimento acerca de textos que tratam da angeologia a fim de que, por meio de Tb 12,6ss e Henoc 15,7; 51,4, descubram que os anjos não comem, não bebem e não tomam esposas, ou seja, não casam entre si (cf. Mazzarolo[1]).

            Por fim, Jesus esclarece que Deus não é dos mortos, mas, dos vivos. Tomando por exemplo a identificação do próprio Deus feita a Moisés, na sarça ardente: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Ex 3,6). Ora, se Deus é Deus dos vivos, citando Abraão, Isaac e Jacó, como descrer da ressurreição e, ao mesmo tempo, dizer acreditar em Deus, que não é Deus dos mortos? Com este ensinamento, Jesus consolida a ressurreição como o fim último do homem que, no tempo oportuno, será chamado à vida eterna.

            O que Jesus evidencia perante os saduceus é que, na condição de Filho de Deus, sendo Ele próprio Deus, pois Ele e o Pai são o mesmo, é Senhor da história e do próprio homem, no início, no meio e no fim e que, para Deus, nada importam as leis feitas pelo homem. Leis que tratam do direito de sucessão, herança e de propriedade. Na fala de Jesus ficam destruídos esquemas judaicos relativos aos direitos patriarcais de casamento, propriedade e dependência da mulher, do pobre, da viúva e do estrangeiro em relação aos padrões existentes (cf. Mazzarolo – op. cit.).

            Com certeza, os saduceus saíram dali perplexos e, agora sim, cheios de dúvidas, porquanto foram testar Jesus e, no entanto, foram seriamente testados naquilo que pensavam conhecer de forma ampla. Precisavam, a partir de então, entender melhor a questão relativa a Deus, se dos vivos ou dos mortos; como viviam os anjos, que deles não eram desconhecidos; e da transmutação da leis humanas para as leis celestiais. Enfim, a partir daquilo que tinha um caráter zombeteiro, nasce uma questão por demais séria para aqueles saduceus e seus aliados, que descriam da ressurreição e que desconheciam o Deus dos seus ancestrais.

            Também nós, com esta reflexão, somos convidados ao estudo e ao constante aprofundamento acerca da Palavra de Deus, para não imitarmos os saduceus, tentando fazer zombarias com aquilo sobre o quê, não temos pleno conhecimento. Pense, reflita, divulgue.

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*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.
 ___________________________________________________ [1] MAZZAROLO, Izidoro. Evangelho de Marcos – Estar ou não com Jesus. Rio de Janeiro. Mazzarolo editor: 2004. P. 253.          

6 comentários

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  1. FABIANO ARAÚJO

    Excelente composição Luiz Antonio. É exatamente o que eu estava procurando. Seu site/Blog entra para minha coleção..

    1. lisaac

      Agradecemos sua manifestação e colocamo-nos à disposição. Continue visitando nosso site e prestigiando nossas publicações, inclusive, os EDITORIAIS DA SEMANA. Abs.

      http://www.sementesdapalavra.com.br

  2. João Barbosa

    Ótimo esse assunto para mim, parabéns Dr Luiz Antônio de Moura.

    1. lisaac

      Agradeço pela mensagem. Visite sempre nossas publicações.

  3. Gervasio Gurgel Bastos

    L. A. de Moura,
    Tenho formação em Matemática. Mas minha fé em Deus e em NSJC transcendem a simples lógica aristotélica. É que, durante o percurso de minha vida já um tanto alongado — não sei se por necessidade ou querer iluminar mesmo por um pouco meu intelecto — fui a pouco e pouco sentindo e vendo a existência, para além das três ou quatro dimensões físicas, de uma muito pouco considerada; a saber, o Eixo Espiritual!
    Motivado pelo evangelho de hoje me pergunto: Qual a semelhança entre a vida escatológica, onde o ser humano vive como os Anjos do Céu, e aqueloutra da Criação no Jardim do Eden? Termino dizendo: O MAIS IMPORTANTE É VIVERMOS ESTA VIDA FAZENDO TUDO O QUE DEUS NOS POSSIBILITA PARA ALCANÇARMOS A VIDA ETERNA, Quando Cristo ressuscitou no terceiro dia, nos deu o penhor de nossa salvação. A utopia de uma vida eterna, com o nosso Mestre pleno de amor, o Verbo encarnado, se transforma entãoem algo completamente realizável. Mas esse magnífico edifício só se sustenta com a colocação de nosso modesto tijololinho por nós mesmos. Poderíamos talvez intitular este breve ensaio O EIXO DA FELICIDADE PLENA?
    Louvado seja NSJC!
    Atenciosamente,
    G.G.Bastos

    1. lisaac

      Em primeiro lugar, agradeço a mensagem. Seja sempre bem-vindo ao nosso ambiente. Em segundo lugar, e não menos importante, agradeço a opinião acerca da transcendência da fé em Deus Pai e em Deus Filho, presumindo o mesmo sentimento em relação ao Deus Espírito Santo. Não costumo aproveitar comentários para enviar outros. No entanto, sinto-me convidado a umas poucas palavras sobre sua questão “Qual a semelhança entre a vida escatológica, onde o ser humano vive como os Anjos do Céu, e aqueloutra da Criação no Jardim do Éden?”
      Bem, de fato, você tem toda razão quando aproxima uma vida da outra. A saber: a vida escatológica daquela, inicial, lá no Jardim de Delícias preparado por Deus para o ser humano. O destino do ser humano, na visão do Frei Carlos Mesters – e aqui sugiro a leitura do Livro “Paraíso Terrestre – Saudade ou Esperança” – seria justamente o caminho inverso ao presumido pela humanidade. Ou seja, não saímos de um Paraíso e voltaremos para outro. Pelo contrário, aquele Jardim descrito no Livro do Gênesis é, na verdade, o nosso destino último, sonhado e preparado por Deus desde toda a eternidade. Sob esta ótica, o texto do Gênesis revela, apenas, e, tão-somente, o que, finalmente, seremos e como viveremos na eternidade.
      É uma concepção bastante alvissareira! Entretanto, nossa caminhada por este plano terreno sugere que, principalmente nas últimas décadas, estamos bastante desviados da Estrada Real, aquela que poderia levar-nos àquele Paraíso. Digo isto porque, para tanto, seria necessário que estivéssemos, todos, engajados, cada qual a seu modo, em uma firme jornada espiritual e espiritualizada. Não é o que vemos. O materialismo, com tudo o que vem com ele, está lançando o ser humano para muito além desta perspectiva. O materialismo, repito, assim como uma fantástica opção do homem pela adesão religiosa, e não a Deus diretamente, tem mostrado ao ser humano que, o que realmente vale, é a vida que aqui levamos. O importante é o aqui e o agora. Depois, é simplesmente depois.
      Daí, penso eu, é imperioso que cada um de nós busque o seu próprio caminho neste mundo, de modo a, valendo-nos da bússola incrustrada nos Evangelhos, com a adição das experiências espirituais de homens como Buda, como Francisco de Assis, como João de Deus, como Gandhi e outros da mesma estirpe, podermos chegar ao Paraíso Celeste, no qual nossos espíritos, feito gotas d’água, estarão profunda e eternamente inseridos no Oceano Divino. E não pense que é egoísmo não. Não é. A questão é que os homens de hoje estão tão desviados do caminho espiritual, que nada que se lhes possa dizer é bastante para convencê-los do contrário. Preferem mesmo atacar, de todas as forma possíveis, àquele ou àqueles que deles se aproximam com ideias outras.
      Abraço, amigo. Obrigado pela partilha.

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