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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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jun 01

JESUS ENSINA PERDOAR, E NÓS, O QUE FAZEMOS?

A MULHER ADÚLTERA - 3

NA LIÇÃO DE JESUS: PERDOAR É SEMPRE UM ENORME DESAFIO –

*Por L. A. de Moura –

Quem pode curar sem conhecer, em profundidade, a doença? E quem a conhece tão bem senão aquele que, de algum modo, foi por ela afligido? Qualquer especialista, em qualquer área da ciência médica, só adquire plena capacidade de clinicar com sucesso se, antes, passar por grandes e profundas experiências, ainda que somente a nível laboratorial, com os males aos quais dispõe-se a enfrentar. Daí que, para ofertar a cura, deve-se conhecer bem o mal a ser curado.

Em sua Primeira Carta o Apóstolo Pedro chama a nossa atenção para o fato de que, “pelas chagas do Pastor, as ovelhas foram curadas”, referindo-se às chagas de Cristo, por meio das quais obtivemos a cura para todos os males das nossas almas. Assim diz o Apóstolo, na referida Carta: “ele levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; “por suas chagas fostes sarados” (1Pd 2,24).

Na verdade, a tradição petrina nada mais faz do que reproduzir exatamente as palavras do segundo Isaías, quando afirma: “Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas, ele mesmo carregou com as nossas dores; nós o reputamos como um leproso, como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa das nossas iniquidades, foi despedaçado por causa dos nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas pisaduras” (Is 53, 4-5).

Diante disto, é notável a necessidade de estarmos intimamente ligados aos sofrimentos passados por todos os nossos semelhantes, a fim de que consigamos compreender de forma plena e satisfatória, o que realmente aflige o outro.  Fora daí, torna-se muito fácil a defesa do castigo para qualquer errante; a busca pela justiça a qualquer preço para delinquentes de menor expressão; a exclusão daqueles que não rezam pela mesma cartilha que nós. Torna-se extremamente fácil julgar o outro por tudo o que faz ou deixa de fazer.

É preciso ter a exata noção do sofrimento para, diante do que se passa com o alheio, podermos compreendê-lo, atendê-lo, socorrê-lo e guiá-lo diante de tudo o que sofre na carne ou no espírito. Não é exatamente isto o que temos visto ultimamente no mundo, especialmente no Brasil, onde a sede por vingança e por ajuste de contas parece não ter fim. Qualquer evento negativo que ocorre, pessoas e instituições logo, logo, bradam por justiça acima de qualquer coisa e, com frequência assustadora, por reparação financeira que, entre nós, recebe o sugestivo título de “dano moral”.

Apesar de já estarmos no curso da terceira década do século XXI, parece que a Lei de Talião, a cada dia, ganha mais e mais força no embate milenar com a lei de Cristo, que ensina o perdão das ofensas, assim como somos perdoados por nossas ofensas, pelo Pai que está nos Céus. Ou, pelo perdão que vivemos a Ele implorando!

A luta pela sobrevivência é árdua e implacável, e muitas pessoas, sequer, têm o tempo necessário e suficiente para uma reflexão acerca do que é certo e do que é errado e, por vezes, acabam praticando determinados atos que não são ilegais, mas, que, por fim, acabam magoando, ofendendo ou causando desgostos e aborrecimentos às demais pessoas. Pois até por causa destes atos, a justiça é implacavelmente clamada, mesmo que apenas uma justiça de natureza econômico-financeira, com os evidentes objetivos de fustigar o errante e de promover ganho para o bolso da suposta vítima. Em muitas situações, o crime advém da palavra mal colocada, da fala impensada ou, por vezes, maliciosamente interpretada.

O mundo está do jeito que está porque nós, seres humanos, temo-lo feito assim. Somos nós que, de um modo geral, encaminhamos as petições ao poder público e incitamo-lo a buscar nos calhamaços das milhares de leis pátrias um dispositivo apropriado para punir exemplarmente, no nosso linguajar, o faltante clamando pelo castigo que entendemos ser merecido.

No entanto, se somos realmente cristãos e se professamos com fidelidade a fé em Cristo e nos seus ensinamentos, precisamos rever os nossos procedimentos em relação aos nossos semelhantes. É por demais conhecida a passagem do Novo Testamento, na qual a Jesus é apresentada uma mulher acusada de adultério. Seus acusadores, assim como os de hoje, amparam-se na Lei de Moisés para buscar em Jesus a sentença de morte para aquela pecadora.

Jesus conhecia muito bem a lei e sabia que, de fato,  a prescrição legal era o apedrejamento em praça pública. No entanto Ele quer deixar claro para todos que, acima da lei escrita está a lei da misericórdia e do perdão, sem a qual não seremos, jamais, imagem e semelhança do Criador. Mas Jesus, também, não poderia incitar o descumprimento da lei que Ele mesmo já havia declarado ter vindo para cumprir. Olha para aqueles acusadores sedentos e, simplesmente, sugere que, aquele que estivesse sem faltas, atirasse a primeira pedra (Jo 8, 3-11).

Como sabemos, foi o suficiente para que, um a um daqueles implacáveis acusadores, fossem embora sem conseguirem impor à mulher a pena prescrita na lei. Jesus, como bom, fiel e honesto Juiz, concede o perdão àquela que, na forma da lei, já deveria estar morta em pleno solo arenoso.

Na visão de Jesus, perdoar é sempre um enorme desafio para o ser humano porque, acima de tudo, importa em abandonar a hipócrita retórica do “necessário cumprimento à lei”, para abraçar a lógica do Reino de Deus, no qual, somente os misericordiosos alcançarão misericórdia e, apenas, receberão o perdão os que, verdadeiramente souberam, em vida, perdoar seus semelhantes.

É isto que muitos e muitos pseudocristãos não conseguem compreender e, tampouco, colocar em prática no dia-a-dia das suas vidas. Lutam desesperadamente por uma reparação financeira ou pelo lançamento do infrator nas profundezas sujas da masmorra, sob o argumento de que, assim, o delinquente, não molestará outras vítimas. Nada tem mais poder de trazer o arrependimento do que o perdão expresso para o errante. Pessoas que, diante de um júri popular, em outros países é claro, perdoaram seus algozes, conseguiram o que nenhuma lei é capaz de conseguir: o profundo arrependimento do infrator, levando-o, em muitos casos, às lágrimas sinceras e restauradoras, bem como a um novo modo de vida.

Infelizmente, em nosso meio, ganha força a cada dia a retórica de que é preciso punir severamente para, “de forma didática”, coibir novos malfeitos.

É claro e evidente que, quando sofremos alguma agressão, seja por atos ou por palavras, no momento do sofrimento manifestamos o desejo de ver a punição mais dura possível para o infrator. No entanto, quem está de fora, se for verdadeiramente cristão ou cristã, deve trazer para nós, nas referidas oportunidades, o conforto, o consolo e a Palavra de Jesus para que, serenados os ânimos, retornemos à razão e saibamos decidir o que fazer buscando, em Cristo, e não na lei dos homens, a orientação apta ao momento.

Esta deve ser a posição do verdadeiro cristão, da verdadeira cristã. Não, o que temos visto por aí: pessoas incitando a vingança legal ou a justiça pelas próprias mãos, a imposição do severo e mais contundente castigo, como se isso fosse capaz de restaurar o status quo ante. Se queremos um mundo melhor, temos de ser melhores. Se queremos um mundo mais justo, temos de ser mais justos. Se queremos o perdão para os nossos atos e palavras que, muitas vezes, consideramos sem potencial maligno ou maléfico, temos de saber, também, perdoar os nossos ofensores.

Muitos dirão: falar é fácil. Mas, para Jesus, falar também foi fácil. Tão fácil, que surtiu grande efeito. Precisamos rever os nossos procedimentos, se realmente queremos um mundo melhor porque, se ele está do jeito que está, vale repetir, é porque nós colaboramos para que seja assim. Tudo o que é plantado, é colhido no devido tempo. Não se sinta ofendido ou magoado com este texto. Trata-se, apenas, de um convite à reflexão. Se considerá-lo errado ou contrário ao seu entendimento, já antecipo o pedido de perdão. Apenas reflita, tire suas próprias conclusões e, se for o caso, reveja seus conceitos e procedimentos. Não se esqueça de que, assim como esperamos muito do mundo, o mundo, também, espera muito de nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

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