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ago 11

JOSEFINA BAKHITA: SANTA DE TODOS OS TEMPOS

SANTA BAKHITA

SANTA JOSEFINA BAKHITA - 

                         Falar sobre Josefina Bakhita é mergulhar na vida simples e humilde daquele africano escondido do mundo, que sobrevive graças à Deus e à sua autodeterminação, tamanhas as dificuldades encontradas. É pensar naquele africano, pobre, negro, trabalhador que mora, alimenta-se e veste-se da forma mais precária possível, tentando vencer as doenças, a desnutrição e a miséria no sentido mais amplo possível.

                        Pois, mesmo em um cenário como este, ainda é possível ter que viver escondendo-se das guerrilhas cruéis e assassinas que, com viés político-militaresco, grassam por toda a região menos desenvolvida do imenso continente.

                   Em um ambiente como este, vamos encontrar uma família sudanesa em especial – marido, mulher e filhos – vivendo e sobrevivendo como Deus permite, porém, com a felicidade de manterem-se unidos em todas as adversidades. Até que um dia, mercadores humanos roubam daquela família a menina mais velha, que tinha em torno de oito para nove anos de idade. Pegam aquela pobre menina esquálida, inocente e indefesa para quê? Para vendê-la como escrava. Para lucrarem com a carne humana. Ninguém viu, ninguém filmou, ninguém testemunhou. Quem contou a história foi Madre Josefina Bakhita, à Madre Superiora da Congregação das Filhas da Caridade, de Madalena de Canossa.

                      Irmã Bakhita contou algumas das muitas recordações daquela fatídica manhã, em que estava sentada com uma amiguinha de doze ou treze anos de idade, à beira de um córrego, conversando e atirando pedras na água, quando, de repente, apareceram-lhes dois homens armados. Um deles, conta Bakhita, mandou embora a amiguinha de doze ou treze anos e ordenou que Josefina caminhasse um pouco à frente, para buscar pequeno embrulho escondido entre os arbustos. A menina, amedrontada, tratou de cumprir rapidamente a ordem que recebera, achando que, em seguida, seria mandada de volta para casa. Ledo engano! Afastada a amiguinha, Josefina é seguida pelos homens que, agarrando-a pelos braços magros, transformam-na em prisioneira e, como tal, obrigam-na a caminhar durante todo aquele dia e a noite que o seguia. Preocupada com os pais, que nunca mais veria, sofrida com os maus tratos recebidos, pés descalços, feridos e sangrando, a menina segue aqueles dois contrabandistas de seres humanos, que não demonstravam qualquer sentimento de piedade.

              Exausta da longa caminhada, ferida, suada, suja e faminta a menina é atirada numa espécie de esconderijo, recebendo um pedaço de pão e a ordem para ficar ali, quieta, até que decidissem o seu destino. Ali ela permaneceu por mais de um mês:

“Um pequeno furo no alto era a minha janela. A porta se abria por breves instantes para me darem alimento magro. O que sofri naquele lugar, não é possível descrever em palavras. Lembro-me ainda daquelas horas de angústia quando, cansada de chorar, caía quase desmaiada no chão em ligeiro torpor, enquanto a fantasia me levava para junto dos meus queridos lá longe, tão longe...”[1]

                        Depois de tanto tempo de angústia, lamento e sofrimento finalmente Bakhita compreende o destino que está reservado para si: ser vendida como escrava. Assim, ela conta que certa manhã foi entregue pelo patrão a um mercador de escravos que, depois de efetuar a compra, coloca-a junto com outros escravos, dentre os quais uma menina um pouco maior.

                      A longa caminhada fez com que aquela menina pobre, simples, humilde, inocente e indefesa enfrentasse dores que tiveram o dramático efeito de matar para sempre a sua infância, antecipando nela a chegada de uma mentalidade adulta, onde teria que aprender, a duras penas, como conviver, e mais, como sobreviver, num mundo cercado pelo dinheiro, pelo poder e pela servidão absoluta. Um mundo totalmente diferente daquele em que fora criada por seus pais, naquela humilde aldeia do Sudão.

                        Depois da primeira, Bakhita seria vendida, ainda, mais duas ou três vezes, sendo por fim, dada de presente a uma família nobre, de cuja filha Bakhita torna-se babá.

                        A partir desta doação e desta função como babá, a mão de Deus começa a se fazer visível.

                        Já estando longe da África, e sem esperança e sem vontade alguma de para lá retornar, Bakhita aproveita o longo período em que fica, com a filha pequena da senhora, sob os cuidados das irmãs da Congregação da Caridade de Veneza. As irmãs canossianas, responsáveis pelo Catecumenato, apresentaram Jesus Cristo a Josefina Bakhita. Falaram-lhe sobre o projeto de Deus para a Salvação dos homens; sobre o nascimento, a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ensinaram-lhe sobre o mistério da transubstanciação do pão e do vinho, em corpo e sangue de Cristo. Enfim, abriram para Bakhita as portas do céu, ainda em vida.

                        Quando, nove meses depois de estar ali, na Congregação, a senhora retorna para buscar Bakhita e a filha pequena, para um retorno à África, encontra uma resistência que não imaginara: Bakhita já estava com a alma totalmente entregue ao Senhor, e luta para permanecer na Congregação. É ela própria quem conta:

“Eu me recusei a segui-la para a África, porque não me sentia instruída para o batismo. Pensava também que, depois de batizada, não poderia professar a nova religião, e que por isso me era mais conveniente ficar com as irmãs. Ela ficou furiosa, tachando-me de ingrata ao deixá-la partir sozinha, depois de ela ter feito tanto bem a mim. Eu, porém, firma em meu pensamento. [...] Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque Ele queria tornar-me toda sua. Que bondade!”[2]

                        Finalmente, em 09 de janeiro de 1890, Bakhita recebe o batismo e, também, o novo nome – Josefina Margarida e Fortunata que, em árabe, quer dizer BAKHITA e, em 07 de dezembro de 1893 entrava para o noviciado pronunciando os santos votos em 08 de dezembro de 1896.

                        Quase um século depois, em 17 de maio de 1992, ocorre a beatificação, durante o pontificado de João Paulo II que, oito anos depois, em outubro de 2000 encerrava o processo de canonização de Santa Bakhita.

                        Durante o discurso de beatificação o Papa afirmou que: “Em nosso tempo, quando a corrida desenfreada pelo poder, pelo dinheiro e pelo prazer produz tanta desconfiança, violência e solidão, Bakhita nos é doada pelo Senhor como ‘Irmã universal’, para que nos revele o segredo da felicidade mais verdadeira: as bem-aventuranças”[3].

                        A Igreja Católica, em diversas oportunidades é acusada de promover a ascensão de santos e santas de forma indiscriminada, como se fosse uma verdadeira indústria de celebridades. Ocorre, no entanto, que os santos estão aqui, caminhando dia-após-dia ao nosso lado, convivendo conosco, falando conosco, estendendo as mãos para nós que, de forma insensível, insistimos em desconsiderá-los e em desprezá-los.

                        Quando morrem, alguém se interessa por suas histórias de vida, de dedicação, de sofrimento, de doação e de abnegação totais e tão intensas que a única forma de reparar nosso erro, engano ou maldade, é reconhecê-los como seres tão superiores a nós e tão próximos de Deus, que realmente merecem o título de “Santos”.

                        A história de Santa Josefina Bakhita é uma dessas histórias que, a princípio, não interessa a ninguém. Quantos meninos e meninas são sequestrados todos os dias, não apenas na África, mas em diversos pontos do planeta, sem que ninguém se interesse por suas histórias de vida? Quantos, porém, escapam da escravidão e da servidão humana para, tornarem-se servos e servas de Deus, não mais servindo aos senhores do mundo, mas, diretamente aos filhos e às filhas do Deus único e verdadeiro, cuja face nos é revelada por Jesus Cristo?

                        A Igreja cumpre papel exclusivo nesse mister! Trazendo até nós aqueles e aquelas que, por suas histórias de vida e de santidade, reconhecidamente fazem parte do séquito divino, convidando-nos a imitá-los sempre e sempre, na busca por idêntica posição.

                      Essa é a nossa homenagem a Santa Josefina Bakhita, mulher, negra, pobre, humilde, escrava e aprisionada pelos homens, mas que, liberta pelas mãos poderosas do Senhor, tornou-se para nós, ícone de santidade, de doação, de dedicação e de abnegação por amor ao Filho de Deus.

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Para saber mais:

LIVRO: ZANINI, Roberto Ítalo. JOSEFINA BAKHITA. O CORAÇÃO NOS MARTELAVA NO PEITO – DIÁRIO DE UMA ESCRAVA QUE SE TORNOU SANTA. São Paulo. Paulus: 2014. 94 páginas.

DVD: BAKHITA – Uma história Maravilhosa. Santa Josefina Bakhita. Paulinas. 2006. 74 minutos de duração, dublado.

[1] ZANINI, Roberto Ítalo (Org.). JOSEFINA BAKHITA – O Coração nos Martelava no Peito – Diário de uma escrava que se tornou santa. São Paulo. Paulus: 2014. 94 páginas. [2] Op. cit. pág 31. [3] Op. cit. pág. 53.

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