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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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jun 01

LUZES SOBRE A PATRÍSTICA

farol de alexandria - 2– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE -

Estamos dando ênfase a algumas matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo pequena parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.

Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

Sobre Orígenes, Eusébio de Cesareia destaca que:

“1. Quem tentar transmitir longamente por escrito sua vida terá muito a dizer e a narração completa exigiria uma obra particular. No entanto, no momento, resumiremos a maioria dos fatos tão brevemente quanto possível e o pouco que dissermos, nós o explanaremos segundo as cartas e o relato de seus familiares sobreviventes entre nós.

2. No tocante a Orígenes, por assim dizer, é digno de memória, a meu ver, mesmo o tempo em que esteve envolvido em faixas. Era no décimo ano do reinado de Severo; Laeto governava Alexandria e o restante do Egito; Demétrio, por sua vez, tinha recentemente obtido, após Juliano, o episcopado das comunidades deste país.

3. O incêndio da perseguição se propagava então, e milhares de fiéis haviam cingido a coroa do martírio. Tal paixão pelo martírio se apossou da alma de Orígenes, ainda menino, que era para ele prazer ir ao encontro dos perigos, saltar e lançar-se à luta.

4. Pouco faltou para que perdesse a vida, mas a divina e celeste Providência, para o bem da maioria dos fiéis, pôs obstáculos a seu ardor, por meio da mãe.

5. Esta suplicou primeiro por palavras, exortando-o a se compadecer de seu amor materno; mas vendo-o ainda mais impetuosamente inclinado ao martírio, ao ter conhecimento da prisão e encarceramento do pai, e completamente tomado do desejo do martírio, escondeu todas as suas vestes, obrigando-o a ficar em casa.

6. Ele, porém, nada mais podendo fazer, e como o desejo intensificado, bem acima de sua idade, não o deixava ficar inativo, enviou ao pai uma carta cheia de exortações ao martírio, na qual o encorajava, dizendo textualmente: “Cuida de não mudar de opinião por nossa causa”. Seja isto anotado por escrito como primeira prova da vivacidade de espírito de Orígenes, ainda menino, e de sua adesão segura à religião.

7. Entretanto, ele já havia lançado sólidos fundamentos no conhecimento da fé, exercitando-se desde a infância nas divinas Escrituras. A estas se aplicara diligentemente, em medida extraordinária, pois seu pai, não contente de fazer com que passasse pelo ciclo dos estudos, não havia considerado supérflua a solicitude pelas Escrituras.

8. Acima de tudo, portanto, antes de se dedicar às disciplinas helênicas, ele o havia levado a exercitar-se nos estudos sagrados, exigindo diariamente dele recitações e prestação de contas.

9. E isto não desagradava ao menino, que, ao contrário, trabalhava com zelo excessivo, de tal sorte que não lhe bastava conhecer o sentido simples e óbvio das Escrituras Sagradas, mas já procurava, desde aquela ocasião, algo mais, querendo descobrir uma visão mais profunda. Chegava mesmo a deixar o pai embaraçado, fazendo-lhe perguntas sobre o que queria indicar a Escritura divinamente inspirada.

10. Este, exteriormente, fingia repreendê-lo, exortando-o a não procurar saber o que estava acima de sua idade ou além do sentido óbvio. Mas, interiormente, sentia intensa alegria, dando muitas graças a Deus, causa de todos os bens, por ter merecido ser pai de tal filho.

11. Diz-se que parava muitas vezes junto do filho adormecido, descobria-lhe o peito, íntima habitação do Espírito divino, beijava-o respeitosamente, considerando-se feliz pela ótima prole que possuía. Conta-se sobre a infância de Orígenes estas e muitas outras coisas análogas.

12. Quando o pai consumou o martírio, ficou sozinho com a mãe e seis irmãos menores. Não tinha mais do que dezessete anos.

13. Como a fortuna paterna fora confiscada pelos agentes do tesouro imperial, ele encontrou-se com os seus na carência das coisas necessárias à subsistência. Mas dignou-se a providência divina cuidar dele. Encontrou acolhimento, bem como tranquilidade junto de uma senhora riquíssima de recursos materiais e muito ilustre, mas que tratava com grande consideração um homem famoso entre os hereges que então viviam em Alexandria. Era antioqueno de nascença; ela o tinha na conta de filho adotivo, cercando-o inteiramente de cuidados.

14. Mas Orígenes, que forçosamente tinha de conviver com ele, desde então deu provas brilhantes de fé ortodoxa. Enquanto Paulo (assim ele se chamava), aparentando eloquência, reunia junto de si uma inumerável turba, não apenas de hereges, mas ainda dos nossos, Orígenes jamais consentiu em unir-se a ele para a oração, mantendo desde a infância a norma da Igreja e tinha horror, segundo sua própria expressão, das doutrinas heréticas.

15. Iniciado pelo pai nas disciplinas helênicas, após a morte deste último, ele se entregou com maior ardor e inteiramente ao exercício das letras, de sorte que veio a possuir pouco tempo após a morte do pai, uma preparação suficiente nos conhecimentos gramaticais e consagrando-se a eles, acumulou, ao menos para sua idade, a base necessária.

Ainda jovem, ensinava a doutrina de Cristo

1. Enquanto ele estava ocupado no ensino, conforme ele próprio relata em alguma parte por escrito, ninguém se dedicava em Alexandria à catequese, mas todos de lá haviam fugido pela ameaça da perseguição; alguns pagãos, contudo, procuraram-no para ouvir a palavra de Deus.

2. Denota que o primeiro dentre eles foi Plutarco, que, após uma vida louvável, foi ornado com o martírio divino; o segundo, Héraclas, irmão de Plutarco que, também, deu depois dele grande exemplo de vida filosófica e ascética e que, em seguida a Demétrio, foi considerado digno do episcopado em Alexandria.

3. Orígenes tinha dezoito anos ao começar a dirigir a escola de catequese; progrediu muito na ocasião das perseguições sob Áquila, governador de Alexandria, e seu nome tornou-se extremamente célebre, junto de todos aqueles cuja fé ele estimulava, por causa do acolhimento e zelo por ele manifestados para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos.

4. Pois, não os assistia apenas na prisão, nem só quando interrogados e condenados, mas ainda depois da sentença final, com a maior audácia e expondo-se ao perigo, ficava junto deles ao serem os santos mártires levados para a morte. Assim, quando ele avançava corajosamente e com grande ousadia saudava os mártires com um beijo, acontecia frequentemente que o povo pagão que os cercava se enfurecia e estava a ponto de se precipitar sobre ele, mas estendia-se a mão de Deus para socorrê-lo e fazer com que milagrosamente escapasse. A mesma graça divina e celeste o protegeu em milhares de circunstâncias e é impossível dizer quantas vezes, quando ele se expunha às ciladas por seu ardor e ousadia excessivos em prol da doutrina de Cristo. E tão grande era a guerra que os infiéis lhe faziam, que se reuniam e punham guardas em volta da casa onde ele estava por causa da multidão daqueles aos quais ensinava as questões pertinentes à sagrada fé.”

Ainda, por meio de Eusébio de Cesareia, temos muito a relatar sobre a vida, a doutrina e a obra de Orígenes, isso, sem mencionar os outros autores aos quais já nos referimos no topo da página que, certamente, serão trazidos para apresentarem seus conhecimentos sobre a trajetória desse personagem tão rico, tão sábio, tão santo e que tantos exemplos deixou para as gerações que lhe sucederam, chegando até nós.

Em breve faremos outras publicações relativas ao período patrístico, a fim de melhor informar nossos leitores sobre a importância que os Pais da Igreja tiveram, para que a Igreja de Cristo saísse dos séculos sombrios e chegasse ao século XXI, apesar de todos os desafios impostos na atualidade.

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