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set 12

MARIA MARTINS: MULHER INIGUALÁVEL DA NOSSA HISTÓRIA RECENTE

MARIA MARTINS

MARIA MARTINS – UMA MULHER QUE SOUBE SUPERAR OS OBSTÁCULOS DO SEU TEMPO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

É muito provável que, à primeira vista, o nome seja absolutamente desconhecido da grande maioria das pessoas glamourosas, destas que dizem conhecer o andar de cima e que adoram demonstrar seus dotes intelectuais. Mas, merecem a devida escusa, porque Maria Martins é, por demais, um nome bastante comum e sem qualquer charme aparente. Entretanto, sobre ela tomei conhecimento e fiquei muito empolgado com sua excepcional trajetória como brasileira, como artista e, principalmente, como mulher absolutamente singular. Mulher que, nascida em fins do século XIX, saboreia a fase adulta e madura de sua vida lá pelas décadas de 1920/1930, quando era absolutamente impensável tanta liberdade e tanta liberalidade para uma pessoa do sexo feminino.

Da minha parte, tudo começou quando, fazendo alguns estudos e pesquisas sobre a sabedoria chinesa e seus principais expoentes, me deparei com o livro velho e amarelado de Maria Martins, sob o título “Ásia Maior – O Planeta China”. Trata-se de um livro editado em 1958, com Prefácio de Oswaldo Aranha, com 330 páginas, por meio do qual a autora discorre sobre seu périplo pelo continente asiático, visitando, principalmente, a China de Mao Tse Tung, por quem é recebida com a máxima elegância, atenção e honra e com quem consegue fazer longa entrevista, devidamente registrada na obra.

No livro, Maria conta um pouco da história mais recente (para a época) da China feudal e do período pré-revolucionário, realçando suas impressões sobre o que lhe parecia ser a medida certa do líder Chinês que protagonizou o que ela denomina como a “Epopeia da Grande Marcha”, donde “afirmaram-se as qualidades de político e de chefe de Mao Tse Tung”[1].

Pois bem, sobre o livro, apesar do conteúdo, não interessa falar porque, para mim, e até então, retrata período histórico bastante controverso, cujos resultados todos conhecemos muito bem.

Porém, em dado momento, como sempre faço, decidi pesquisar um pouco sobre a autora, apesar da antiguidade da obra, já sabendo, de antemão, tratar-se de embaixatriz, casada com o Embaixador Carlos Martins Pereira e Souza.

De início fiquei maravilhado ao tomar conhecimento de que Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza foi, além de escritora, escultora, desenhista, gravurista, pintora e musicista. Atividades que exerceu com igual maestria, principalmente, no exterior, onde angariou fama e amores.

Pesquisando mais um pouco sobre ela, descobri que a Jornalista Ana Arruda Callado por ela encantou-se ao visitar uma mostra sobre surrealismo, no CCBB do Rio de Janeiro, em 2001, na qual estavam expostas dezoito esculturas de Maria Martins. Do encanto de Ana, nasce “Maria Martins – Uma Biografia”[2], editado em 2004, pela Gryphus. Obra que, imediatamente, tratei de adquirir, até para poder melhor escrever sobre esta mulher verdadeiramente fantástica. E digo fantástica, nem tanto pelos dotes artísticos, mas, e, sobretudo, pela capacidade de se impor como mulher num mundo, absolutamente machista e extremamente diferente do que hoje alguns têm prazer em alegar. O século XXI não sabe nada sobre machismo!.

Não dá para descrever, aqui, os detalhes sobre Maria que, desde o nascimento, fruto do segundo casamento de pai enviuvado, conta já com a honra, para muitos de nós, de ter como testemunha de seu nascimento, registrado em cartório, ninguém menos do que Euclides da Cunha, amigo de longa data do Pai de Maria, cujo nome, João Luiz Alves, é nome de Avenida no bairro carioca da Urca.

Maria seria a primeira de três outras filhas, tendo por primeiro o nome de Maria – Maria de Lourdes, Maria Victória e Maria Evangelina. Nascida no Município de Campanha – Estado das Minas Gerais – vem, depois com a família, para o Rio de Janeiro, de onde é encaminhada, com as outras irmãs, para o Colégio Notre Dame de Sion, em Petrópolis, onde até na hora do recreio o idioma falado é o francês!

Em abril de 1915, quando o pai já é Senador da República, casa-se pela primeira vez, com Octávio Tarquínio de Souza, então administrador dos Correios. Mas, este casamento não limitará os passos de Maria de Lourdes que, mais tarde decide se separar do marido enquanto estava com as duas filhas na Europa onde, na França, é obrigada a sepultar a caçula, Maise que, consumida pela meningite, acaba falecendo, longe do pai e dos avós.

Se a ideia da separação, em si, já se revela um tremendo escândalo para a família, imagine-se o que não terá sido tomarem conhecimento de que Maria já estava envolvida, ao menos sentimentalmente, com Carlos Martins, então Diplomata brasileiro bastante renomado, interna e externamente.

Em 1924 Maria viaja com o marido Octávio para Roma, quando é selada a separação. Na Capital italiana Benito Mussolini, então Primeiro Ministro e prestes a se tornar o ditador absoluto, “encanta-se com a bela e irrequieta brasileira e um caso amoroso se inicia entre os dois”[3].

Apenas para registro, João Luiz Alves, em janeiro de 1925 é nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, vindo a falecer em novembro daquele mesmo ano.

Segundo a biógrafa, Maria e Carlos Martins casaram-se em Paris, em 1926 e, muito tempo depois, em fevereiro de 1960, casam-se, também, no Brasil, após o falecimento do primeiro marido.

Maria tornou-se amiga muito próxima de Getúlio Vargas, de Pablo Picasso, de Max Ernst, de Gustavo Capanema, de Gilberto Chateaubriand, de Piet Mondrian,  renomado pintor holandês, de Juscelino Kubitschek, de Ivo Pitanguy e de Clarice Lispector, dentre outros tantos. Encantou-se com o Dalai Lama e com o Primeiro-Ministro da Índia Jawardal Nehru. Esteve face a face com Mao Tse Tung, entrevistando-o sobre assuntos de Estado, da política internacional e da nova China que se esboçava naquele momento histórico. A visita à República Popular da China se dá em atenção ao convite que recebera do Ministro e recente amigo Chou En-Lai. Maria viajou e conheceu o mundo todo. Encantou-se com a China de então, mas, também, revoltou-se com a pobreza na Índia onde, na Província de Massour, homens e mulheres viviam nus e chegavam a disputar alimentos com feras, também, famintas.

Fez de Nova York o palco privilegiado para suas inúmeras obras de arte onde, na primavera de 1943 participa de uma exposição dupla “Maria: New Sculptures e Mondrian: New Paintings”, onde conhece e inicia longa amizade com Piet Mondrian, o pintor holandês acima referido.

Sobre Marcel Duchamp, um de seus ardorosos amores, Maria viria a dizer mais tarde que “Marcel era um belo normando; parecia um cruzado. Toda mulher, em Paris, queria dormir com ele”[4].

Infelizmente, aqui, neste espaço contido, não dá para detalhar a vida bastante intensa de Maria Martins, como mulher, como brasileira, como artista, como escritora (publicou alguns livros), como cidadã do mundo, como mãe e como quem soube de forma inacreditável para a época, percorrer caminhos até então impensáveis para qualquer representante do sexo feminino, ainda que figurante do topo da elite.

De tudo o que li sobre Maria, intensamente Maria, fiquei encantadíssimo com a narrativa de Ana Callado (a biógrafa) sobre o cenário do velório de Maria Martins, em março de 1973, aos 78 anos de idade:

“Seu corpo foi velado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – uma inovação memorável. Esculturas suas rodeavam o caixão, criando um ambiente de beleza e mistério. Ela estava vestida com uma roupa de gala, descalça, com um véu sobre o rosto, e aos muitos amigos que compareceram ao original velório foi servido uísque. Exigência prévia dela, que também havia escolhido o vestido, puxado para o dourado, assim como a nudez dos pés e o véu, e recomendado que o uísque fosse “do bom”. Maria Martins, nascida Maria de Lourdes Faria Alves, havia vivido intensamente a vida. E, como em toda a sua trajetória estivera sempre no comando, dera ordens para depois de sua morte”[5].  

Relativamente a toda organização e ornamentação do velório, Juscelino Kubitschek teria pedido a Heloísa Lustosa, filha de Pedro Aleixo, ex-vice-Presidente da República, que lhe organizasse algo semelhante, dizendo: “Isto aqui está tão correto! Quero lhe pedir para fazer meu velório também aqui”[6]    

Sobre o falecimento de Maria, Ana Callado destaca, ainda, os dizeres noticiados pelo que denomina como o “mais tradicional jornal do país”, o Estado de São Paulo, no dia 28 de março de 1973:

“Foi sepultada ontem, às 17 horas, a escultora e embaixatriz Maria Martins, viúva do embaixador Carlos Martins Pereira e Souza. Ligada por laços de amizade a personalidades internacionalmente destacadas como o rei Leopoldo, da Bélgica, o presidente Franklin Roosevelt, Harry Truman, De Gaulle e Mao Tse Tung, ela sempre dedicou grande parte do seu tempo ao convívio com as artes plásticas. Existem esculturas de Maria Martins em coleções particulares de diversas cidades da América do Norte e da Europa, assim como no Egito e na Austrália” (Além de esquecer as obras de Maria nos museus, a frase “ela sempre dedicou grande parte do seu tempo ao convívio com as artes plásticas” faz da obra da escultora menos que um hobby)”[7].       

Maria Martins soube abrir todos os caminhos que desejou, e soube caminhar por todos eles com a maior desenvoltura possível sendo, em tudo, senhora do seu destino. Liberal e liberta de todas as amarras que, com certeza, impediram outras mulheres de seguirem caminhos semelhantes, tendo como escusa um machismo que, em maior ou em menor grau, sempre existiu. Maria Martins passou batida, sem se preocupar e sem dar bolas para o seu entorno. Foi o que foi, como foi e do jeito que foi. Grande Maria! Inigualável. Inimitável.

Lendo a biografia proposta por Ana Arruda Callado, a gente tem uma visão muito mais ampla de tudo o que se passa nas altas esferas de Estado. Relações de amizades e de amores; de compadrio e de revanchismo; de poder, de gasto, de exibicionismo, onde nem sempre o nome do País é exposto e enaltecido, como o foi na época de Maria Martins, nascida Maria de Lourdes Faria Alves. Sugiro que, a quem se interessar, adquirir o exemplar da referida biografia (imagem abaixo) pela internet e faça uma boa leitura. Em todo o caso, acabará por conhecer a vida e a obra de uma mulher, acima de tudo, fascinante e encantadora por sua arte, sua coragem, sua formação intelectual e sua capacidade para deixar o que poucos deixam, HISTÓRIA.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] MARTINS, Maria. Ásia Maior – O Planeta China. Rio de Janeiro. Ed. Civilização Brasileira. 1958. Pág. 134. [2] CALLADO, Ana Arruda. Maria Martins – Uma biografia. Rio de Janeiro. Gryphus: 2004. 189 páginas. [3] Op. Cit. pág. 79 [4] Idem. pág. 53 [5] Idem. pág. 2. [6] Idem. pág. 93 [7] Idem. pág. 94.

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