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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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O CINISMO DE CADA DIA

MENTIRA E CINISMO

A ERA DO CINISMO E DOS SEUS INCONFUNDÍVEIS ADEPTOS –

*Por L. A. de Moura –

Imagine que você, eu e muitos outros, todos os dias, assistimos e lemos nos meios de comunicação, diversos por sinal, as chamadas dos maiores bancos do país, oferecendo os melhores serviços presenciais, em tempo recorde, com gerentes, caixas e demais funcionários aptos e prontos para o imediato e eficiente atendimento. Nós, que viemos de outro Planeta, acreditamos e, já no dia seguinte, caminhamos em direção de um destes prestigiados bancos, na esperança de que, tal qual é dito na propaganda, seremos, realmente, atendidos da forma mais respeitosa e eficiente desejada. Até porque, o narrador da proposta televisiva, no caso, diz com todas as letras: “estamos aqui para fazer o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós”.

Ocorre que, quando adentramos na primeira agência daquele estabelecimento bancário, eufóricos e, certamente, necessitados, até porque ninguém vai ao banco passear, procuramos por um atendente que esteja pronto para nos direcionar. Então, para a nossa primeira surpresa, nos deparamos com uma mocinha bonita, mas, que, olhando para a nossa cara e, certamente, não gostando muito do que vê, demonstra certa antipatia. Mas, como estão lhe pagando para executar o trabalho, resolve dizer apenas: “precisa pegar uma senha, senhor. Pega a senha e aguarda ser chamado”.

Ora, já neste momento, eu ou você, percebemos que o tal “fazemos o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós” é meio fantasioso, porque, o que queremos, e até esperávamos, era que o atendimento fosse, realmente, rápido.

Mas, não, não é assim. Pegamos a tal senha e, não nos enquadrando em nenhum dos casos preferenciais (você conhece todos de cor), sentamos em uma espécie de auditório e ali ficamos. Existe lei impondo o tempo máximo de espera, mas, o tal banco, com certeza, finge desconhecer. A gente olha para as mesas dos atendentes que, normalmente, são designados como “gerentes”, e vemos que, para uma pequena multidão de vinte pessoas, existem apenas três destes ilustres gerentes que, pelo que demonstram, não têm a menor pressa no atendimento que estão fazendo. Até aí tudo bem. Cada cliente merece a máxima atenção. Mas, o caso é outro. O caso é que, cada cliente traz um problema mais complexo do que o outro. Complexo, no sentido de “mais trabalhoso”. Então, o tal gerente sente uma espécie de prazer em ficar retido com o cliente do momento o máximo que puder.

E a gente fica esperando. Liga o celular (graças a Deus inventaram o celular que, com a bendita internet, permite sofrer calado e distraído). O tempo vai passando e, depois de uns vinte minutos, com a fila de sentados andando bem lentamente, aparece um rapazinho simpático e começa a perguntar a um por um o que, afinal, deseja resolver com os prestativos “gerentes”. Neste momento a fila começa a diminuir drasticamente, porque cada pessoa vai sendo redirecionada para um outro setor do banco, quando não recebe a triste notícia de que aquele banco não executa a operação desejada. Este triturador de filas chega até você, ou diante de mim e, ao repetir a pergunta, descobre, e informa-nos com alegria, que o caso exige a apresentação de uma série de cópias de documentos, cuja lista pode ser pedida no segundo andar, para onde somos direcionados e, novamente, enfrentamos o relógio.

O resto não precisa ser dito, porque nós conhecemos perfeitamente onde vai desaguar. O fato é que, aquela propaganda feita na televisão e repetida com fotos nítidas e caprichadas nas revistas e jornais de livre circulação, revela-se absolutamente mentirosa, enganosa. Ou seja, eu e você acabamos concluindo que o que impera no campo da propaganda é o cinismo. Ou seja, apresenta-se o produto como se fosse a quintessência da qualidade e da grandeza quando, na verdade, nada do que é informado sobre ele corresponde com a verdade. Tudo é detalhadamente planejado para nos conduzir até o estabelecimento bancário na esperança de que, no fundo, nós não tenhamos nenhum problema para resolver, mas, dinheiro para aplicar em abundância. Obviamente que, quando é este o caso, o sujeito não fica em fila alguma. Já chega falando grosso e logo, logo, deixa claro que o bolso está pesado. Neste caso, e apenas neste caso, a propaganda revela ser verdadeira. Rapidez no atendimento. Cafezinho, puro ou com leite. Biscoitinhos salgados e doces. Gerente, homem ou mulher, simpático, atencioso e disposto a tudo para que seja deixado ali o melhor que o sujeito tem para oferecer; o dinheiro!

Idêntico raciocínio vale para o supermercado, para a drogaria, para a padaria, para o restaurante etc. É cinismo atrás de cinismo e a gente pensa: será que é tudo assim? Será assim na política, nas universidades, nos cursinhos de idiomas, nas igrejas, nas instituições públicas abrilhantadas pelos famosos brasões?

Meu amigo, minha amiga, não quero ser cínico com você, nem tentar te iludir para evitar sua tristeza: é tudo assim, deste jeito. E não tem jeito.

Há pouco tempo fui a um banco público (famoso por sua alardeada “excelência” no atendimento e na prestação de serviços) e, já conhecido da mocinha simpática, pedi a famosa senha. Deu-me a senha nº 1 e, sorrindo, me disse: “olha, que sorte, o senhor será o primeiro a ser atendido”, que bom, disse eu. Subi as escadinhas que conduzem ao primeiro andar. Quando cheguei, percebi que existiam apenas funcionários do banco naquele ambiente. Cada um na sua mesinha, completamente envolvidos com a tela do computador. Por trás de uma baia de vidro martelado, dava para perceber a presença de um “gerente”, com o seu querido e saboroso jornal aberto de ponta a ponta. Sentei-me e pensei: Talvez, assim como eu o percebo do outro lado, ele, também, consiga perceber que, do lado de cá, existe alguém aguardando para ser atendido.

Ledo engano. Fiquei ali por longos quinze minutos até que, de repente, chega uma pessoa conhecida, com pressa, e perguntou para mim: “tem alguém atendendo?” Eu disse que não e que já estava ali por uns quinze minutos. Com a cabeça, mostrei-lhe que tinha alguém do outro lado lendo jornal. Minha conhecida, então, aguardou por mais uns cinco minutos e, não suportando esperar, levantou-se e perguntou ao sujeito a que horas começaria o atendimento, ao que ele retrucou: “já vou chamar, aguarda um instante por favor”. Passados mais uns cinco minutos, chamou o primeiro que, por acaso, era eu. O resto, deixa pra lá.

Este grande banco público não sai de cena. Figura em quase todos os canais de televisão oferecendo mundos e fundos, patrocina atletas de diversas modalidades de esportes. Enfim, é tudo mentira! O cinismo impera entre nós.

Poderia falar, ainda, do cinismo na política, mas, penso comigo: será necessário? Acho que você sabe muito bem o que se passa do Arroio ao Chuí, do Leste ao Oeste do País, sem exceção!

Com o comércio, em geral, não vale à pena perder tempo. O que dizer, ainda, sobre as incontáveis religiões? Vai, sem se preocupar com o dia ou com a hora, em qualquer templo ou igreja e procura lá pelo pregador, para resolver um problema pessoal ou familiar. Faz isso pra ver se será atendido ou atendida prontamente. Agora, como aquele sujeito do banco, cheio de dinheiro, faz a mesma procura no âmbito religioso, para doar uma significativa quantia, para ver se o atendimento precisa ser agendado ou se existem dias previamente determinados para esta modalidade de atendimento.

Talvez o problema seja apenas comigo, pode ser, mas, recentemente, precisei aguardar por mais de seis meses para ter um pedido analisado por uma autoridade eclesiástica, que administra uma universidade religiosa. E mesmo assim, só obtive uma resposta porque enviei-lhe uma carta (pelo correio mesmo, registrada e tudo!), identificando-me como seu “irmão”, alegando sermos, eu e ele, filhos do mesmo Pai do Céu e, por fim, reiterando a fala de Jesus em Mateus 7, 12 (“tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas”). Mesmo sem me receber, conforme havia solicitado, parece que ele se tocou e, sentindo-se, talvez, meio emparedado, mandou uma secretária me ligar para dizer o famoso óbvio: “Ele pediu para dizer que, infelizmente, não podemos fazer nada pelo senhor”. Eu procurei agendar uma conversa, porque pretendia, pessoalmente, frente a frente, expor uma situação fática e tratar acerca de um projeto de estudo e de pesquisa em andamento. Falhou! Não deu. Eu não tinha nada para oferecer, apenas, para pedir. E para tal, a propaganda não faz qualquer previsão. Fica ao alvedrio de quem está no comando. Seja o que Deus quiser. Alea jacta est!

Portanto, meu caro, minha cara, não tenha ilusões diante das mais diversificadas propagandas, profanas ou religiosas, quase tudo está envolto na ilusão e no cinismo. Dizem, propagam e advogam uma coisa quando, na verdade, revelam uma realidade muito, absolutamente, totalmente diferente do que é propagandeado aos quatro ventos. Porém, como cristão que sou, sempre repito Jesus: “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas” (Mt 7, 12). Reflita, não se desespere e siga em frente. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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