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fev 01

O JULGAMENTO DE JESUS: PROCESSO LEGAL OU POLÍTICO-RELIGIOSO?

JESUS PERANTE O SINÉDRIO

JESUS: UM JUDEU CONDENADO E EXECUTADO PELOS ROMANOS SOB PRESSÃO DO SINÉDRIO –

Uma das histórias mais conhecidas pela humanidade é a que relata a prisão, condenação e morte de Jesus Cristo, dito Filho de Deus que, por esta razão, encontra forte resistência entre seus os contemporâneos, de tal monta que, ao fim e ao cabo, prendem-No e levam-No à presença do governador Pilatos para ser condenado à morte, e morte na cruz.

Entretanto, é de se supor que, mesmo para aqueles tempos, alguns procedimentos “legais” tiveram que ser seguidos, ao menos para deixar para a história a sensação de ter se tratado de prisão, condenação e execução absolutamente legais.

Paul Winter, no livro “Sobre o processo de Jesus”, faz profunda análise dos evangelhos canônicos, a fim de deles extrair informações mais aprofundadas sobre “os métodos romanos e judaicos de execução da pena capital, sede oficial do Sinédrio e o relato sobre uma sessão noturna de seus membros na residência do sumo sacerdote, o papel de Pilatos na história e na tradição cristã, a identidade do sumo sacerdote em exercício na época do julgamento de Jesus, o caso Barrabás e outros”[1], com o claro objetivo de lançar mais luzes sobre tudo o que culminou com os últimos dias de vida do Filho de Deus encarnado, sobre a terra.

Para início de conversa, Paul Winter indica como fontes primárias para qualquer investigação, os evangelhos. Porém, já na introdução, ele afirma que “Nem os primeiros pregadores nem os evangelistas que os sucederam interessavam-se pelos eventos no que concerne à realidade histórica. O interesse deles se voltava para outros aspectos. O que os evangelhos nos contam sobre a vida de Jesus, e mais especificamente sobre seu julgamento, não é um relato histórico do que realmente aconteceu, mas sim uma representação da maneira pela qual a Paixão do Senhor foi interpretada em certos meios cristãos primitivos”[2].

Vamos, a partir desta edição, trazer para nossos leitores e leitoras, alguns aspectos do trabalho desenvolvido por Paul Winter, cuja obra foi revista e organizada por T. A. Burkill, professor de Teologia da Universidade de Salisbury (Rodésia), e por G. Vermes, lente de Estudos Judaicos da Universidade de Oxford, amigos que Paul fez em seus últimos anos de vida.

“A Sede do Sinédrio e a Sessão Noturna Descrita por Marcos

No tempo de Jesus, o Grande Sinédrio desempenhava suas funções oficiais num edifício especialmente destinado a esse fim — como convém à mais elevada instituição legislativa, administrativa e judiciária de uma nação razoavelmente populosa. Os membros do Conselho Supremo reuniam-se num local citado nas fontes disponíveis sob diversas formas: [texto em grego] [o Conselho, a sala do Conselho, o Sinédrio = a Casa do Conselho, ou Câmara do Conselho. Devido a diferenças entre as fontes, os especialistas modernos divergem muito quanto à localização do prédio. Não cabe aqui uma investigação sobre o problema topográfico; basta termos em mente que nossas fontes, com as exceções de Marcos e Mateus, concordam em que o Sinédrio conduzia suas reuniões num edifício especialmente destinado a esse fim.

Os evangelhos afirmam que Jesus foi levado do local de sua prisão até a casa do sumo sacerdote (Mc 14,53a; Mt 26,27; Lc 22,54;Jo 18,13.24). Essa unanimidade com relação a este ponto cresce em interesse frente ao fato de que eles divergem em suas descrições dos acontecimentos seguintes.

Segundo Mc 14,53b (Mt 26,27), o Senado judaico reuniu-se na residên­cia do sumo sacerdote, à noite, imediatamente depois da prisão de Jesus. Isso entra em choque com todas as informações disponíveis acerca dos procedimentos da assembléia senatorial. Josefo e o Talmude cobrem sécu­los a fio da história judaica; estão lá os dados relativos aos negócios públicos na Palestina do século I com os quais devem ser confrontadas as narrativas evangélicas sempre que seu caráter histórico for posto em questão. Em nenhuma parte dos escritos de Josefo e tampouco em toda a literatura rabínica' encontramos qualquer referência a reuniões do Sinédrio na residência do sumo sacerdote. A passagem de Marcos não contrasta apenas com as informações derivadas da obra de Josefo, da Mishná, da Tosefta e do Talmude, mas também com outras evidências fornecidas pelo próprio Novo Testamento. O trecho de Lucas 22,26, (texto em grego) [e o conduziram] (a lição [conduziram] é pressuposta na Antiga Versão Siríaca) (texto em grego) = e levaram-no até sua câmara do conselho, implica que a (texto em grego) [assembléia dos anciãos do povo] não se reuniu no local onde Jesus ficou sob custódia depois de preso. A sessão do Sinédrio, de acordo com o terceiro evangelho, realizou-se na Casa do Conselho oficial.

Evidentemente, Lc 22,66 não corresponde a Mc 14,53b, mas a Mc 15,1a. Nesta última passagem, somos informados de que o Sinédrio reuniu-se pela manhã — sem menção prévia, contudo, à realização de uma sessão anterior, noturna (Mc 14,53b.55-64). A afirmação em Mc 15,1a poderia ser entendi­da no sentido de que a reunião matutina teria sido realizada em local diverso daquele onde se passa a narrativa de Mc 14,53-72, a saber, onde Lc 22,66 a situa. Mas como Mc 15,1 não demonstra o conhecimento de qualquer reunião anterior, nada podemos inferir daí acerca da intenção do segundo evangelista quanto à relação topográfica entre Mc 15,1a e Mc 14,53b. O terceiro evangelho é explícito: a localização da reunião do Conselho, em Lc 22,66, é diferente daquela das cenas descritas em Lc 22,54-65. O terceiro evangelista não poderia ter citado a informação de que Jesus foi levado da casa do sumo sacerdote para ser confrontado com a (texto em grego) [assembléia dos anciãos do povo] de Marcos — com toda probabilidade, Lc 22,66 baseia-se num registro não-marquense’.

[...]

O relato marquense do julgamento de Jesus pelo Sinédrio é interca­lado com a história das negações de Pedro. Ambos os episódios são contados de modo a dar a impressão de que ocorreram simultaneamente em diferentes partes da residência do sumo sacerdote. E como naquela velha técnica cinematográfica em que a tela é dividida ao meio e duas cenas distintas se desenrolam diante do espectador, para mantê-lo a par de uma relação decisiva entre dois acontecimentos em curso. Intercalações desse tipo não são incomuns no segundo evangelho. E a combina­ção, a confrontação das duas séries de acontecimentos, o que contém “a moral da história” e fornece a chave para entendermos as intenções do autor. Somos chamados a entender que, enquanto Pedro era abordado pelas criadas de algum personagem influente, sucumbindo diante de perguntas hostis, Jesus conservava a fé e mantinha a compostura diante da mais elevada autoridade do país, sem se importar com as consequências. O evangelista não está preocupado com meras considerações cro­nológicas, dado o fato de que o diálogo de Pedro com seus questionadores poderia ser facilmente acomodado no lapso de meia hora, enquanto uma complexa ação legal teria durado muito mais que isso. As testemunhas são interrogadas; as provas que oferecem se mos­tram insuficientes e são rejeitadas; os procedimentos se voltam para uma nova acusação; o acusado é cuidadosamente interrogado; o veredicto é pronunciado; a sentença é aprovada por uma corte de 71 membros; os senadores transigem no escárnio contra o homem que acabaram de condenar à morte. A discrepância entre os requisitos cronológicos dos dois episódios deixa claro que o motivo da intercalação na Narrativa do Julgamento, em Marcos, não é de caráter histórico". As razões para tanto são de natureza provavelmente complexa. O principal fator, contudo, está no confronto entre uma demonstração de fraqueza da parte de um membro da Igreja questionado por inimigos e o relato da firmeza imperturbável exemplificada por aquele a quem a Igreja se devotava. A justaposição testemunha a existência de motivos exortativos, por parte do autor da narração, facilmente compreensíveis no tempo em que o segundo evangelho foi escrito, quando a confissão da fé cristã poderia ter consequências terríveis para o devoto. O evangelista, nessa passagem, exorta os leitores a seguirem o exemplo de Jesus, e não o de Pedro. Se a resistência lhe traz o sofrimento, também lhe traz a glória'.”[3]

CONTINUA EM BREVE

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[1] WINTER, Paul. SOBRE O PROCESSO DE JESUS. Rio de Janeiro. Imago: 1998. 300 páginas.

[2] Op. Cit. pág. 31

[3] Op. Cit. págs. 59/66.

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