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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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mar 06

O MAIOR DENTRE TODOS OS ESCRITORES

DOSTOIÉVISK

A ESTRELA DE SÃO PETERSBURGO

Nosso personagem de hoje é Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, um dos mais importantes escritores russos, senão o mais importante, de todos os tempos. Filho do médico Mikhail Andréievitch Dostoiévski e Maria Fiódorovna, Fiódor Dostoiévski nasceu em Moscou, em 03 de outubro de 1821, numa Rússia marcada pela Insurreição Decabrista, levante popular com oito horas de duração, ocorrido logo após a morte repentina de Alexandre I e a coroação de Nicolau I, em decorrência da calamidade social vivida por causa do comportamento dilatório de Alexandre e do desejo dos círculos mais brilhantes e cultos da oficialidade russa, de transformar a Rússia segundo o modelo das ideias liberais e democráticas do Ocidente.

A vida de Dostoiévski é muito intensa e marcada por fatos e dramas pessoais que fizeram dele o escritor predileto dos meios intelectualizados nascidos a partir de meados do século XIX. O primeiro drama pessoal vivido por ele foi a morte de Maria Fiódorovna cumulada com a decisão do pai e enviá-lo, juntamente com o irmão Mikhail para a Academia de Engenharia Militar.

Aquele que talvez tenha sido o último biógrafo de Dostoiévski – Joseph Frank – conta que “O conflito entre o desejo de partir e as expectativas de um futuro sombrio explica provavelmente a persistência de misteriosa doença que o atacou às vésperas da viagem. Repentinamente e sem qualquer causa aparente, Fiódor perdeu a voz, parecendo ter contraído uma afecção da garganta ou dos pulmões de diagnóstico indefinido. A moléstia não cedia aos tratamentos e, por isso, a viagem para São Petersburgo teve de ser adiada até que o doente se recuperasse. Por fim, os médicos aconselharam o Dr. Dostoiévski a iniciar a viagem de qualquer maneira, na esperança de que a mudança de ambiente surtisse efeitos benéficos sobre o paciente. Andrei (irmão caçula) afirma que, desde então, a voz do irmão adquiriu um certo timbre gutural e nunca mais pareceu normal.”[1]   

Outro drama na vida de Dostoiévski foi o seu envolvimento com o chamado Círculo de Petrachévski, cujo nome deriva do seu mentor, Mikhail Butachévitch-Petrachévski, cuja finalidade era reunir jovens dos círculos intelectuais para debater ideias socialistas. Frank esclarece que “Dostoiévski, porém, não tinha nada a aprender sobre o socialismo com pessoas tão fanáticas quanto Petrachévski ou Daniliévski, nem era um discípulo devotado à propagação desse evangelho. Concordava de todo o coração com o impulso moral que inspirava os diverso sistemas socialistas, mas não estava convencido de que todas as suas panaceias pudessem ser postas em prática. [O socialismo oferece milhares de métodos para organizar a sociedade], observa, [e como todos esses livros são escritos com inteligência, eu os leio com curiosidade. Mas justamente porque não sou adepto de nenhum dos sistemas socialistas, estudei o socialismo em geral, todos os seus sistemas, e é por isso que (embora meus conhecimentos estejam longe de ser completos) enxergo erros em todos eles. Estou certo de que a aplicação de qualquer um deles acarretaria um inevitável desgraça, e não me refiro apenas ao nosso caso, mas até ao caso da França].”[2]

Por causa desta simples participação nas reuniões que, no final das contas eram bastante animadas, Dostoiévski foi detido na noite de 22 de abril de 1849, por ordem direta de Nicolau I, tão logo terminou de ler o relatório especialmente preparado para ele pelo conde A. I. Orlov, chefe da Terceira Seção da Chancelaria Imperial de Sua Majestade, mais conhecida como “Polícia Secreta”. Após algumas sessões de interrogatórios extremamente cansativos, e sofrendo com as condições da cela em que se encontrava, foi emitida a sentença de... morte, a ser executada por um pelotão de fuzilamento. No dia marcado para as execuções (de Dostoiévski e outros companheiros), todo um cenário foi na Praça Semenóvski : um tablado retangular foi construído, com cerca de nove metros de altura, coberto de cima embaixo por um pano negro, uma escadinha foi criteriosamente colocada no centro, mas, segundo o biógrafo de Dostoiévski, “o que mais chamou a atenção foi um grupo formado por seus antigos companheiros, reunidos na neve e trocando emocionados cumprimentos após sua longa separação.[3]” Tudo preparado para o triste espetáculo. Todos os condenados, incluindo Dostoiévski, já haviam passado pelos despedimentos com amigos e familiares. Encaminhados para o tablado, ouviram o ruído agudo e metálico dos soldados tomando posições. Todos receberam a ordem para colocarem-se a postos, com as cabeças descobertas, para ouvirem suas sentenças. O frio era cortante, o que levou muitos dos condenados e hesitarem um pouco ao receberem a ordem para descobrir a cabeça, no entanto, tendo atrás de si outra leva de soldados, tiveram seus capuzes arrancados a força. Em determinado momento, um funcionário do governo leu a confirmação da sentença de execução, nos seguintes termos: “A Corte Criminal condenou todos à morte por fuzilamento e, no dia 19 de dezembro, Sua Majestade, o Imperador, escreveu pessoalmente: ‘Confirmado’”[4]. Os presos, imediatamente deram-se conta de que o momento final se aproximava e Dostoiévski virando-se para um dos companheiros de infortúnio – Serguei Dúrov – disse meio que incrédulo: “Não é possível, eles vão nos executar[5], ao que o companheiro respondeu apontando para uma carga postada atrás do patíbulo, que parecia tratar-se de caixões empilhados e cobertos por uma espécie de esteira de palha. Um padre foi disponibilizado para, num último ato, conseguir a declaração de arrependimento dos condenados, sem obter sucesso. Em determinado momento três dos sentenciados foram seguros pelos braços, por soldados, sendo encaminhados para um dos lados do patíbulo, onde foram convenientemente amarrados num poste, com as mãos para trás. Frank narra que “Ordenaram que os três homens tirassem os gorros da cabeça, mas Petrachévski, numa atitude de desafio, jogou o seu para trás e olhou fixamente para o pelotão de fuzilamento, que tinha armas apontadas para eles, por ordem do comandante. Dostoiévski estava entre os três seguintes na fila da qual tinham escolhido o primeiro grupo, e estava absolutamente certo de que, dentro de minutos, chagaria a sua vez[6]”. Foram momentos de intensa tortura psicológica: os preparativos, o frio cortante, as armas apontadas, o medo e a certeza da morte iminente e uma espera secular. 

Tudo isso já seria suficiente para punir qualquer um de forma severa, muito mais a um inocente como era o caso de Dostoiévski que, não participara de qualquer organização revolucionária contra o Czar. Seu erro foi, em poucas palavras, envolver-se com intelectuais rebeldes que, não encontrando atividade mais promissora, decidiram debater uma forma de reformular toda a vida política e social da Rússia. Bem, vamos aos fatos. Em determinado momento, alguém se lembrou de que faltava acorrentar os condenados, e, imediatamente foram jogadas pesadas correntes no patíbulo, fazendo-o estremecer. Tudo pronto, rufaram os tambores, precedentes à ordem para atirar em todos. O biógrafo de Dostoiévski conta que “Nesse meio tempo, entrou em cena, a galope, um ajudante de ordens trazendo o perdão do czar e as verdadeiras sentenças. Os documentos foram lidos diante dos prisioneiros atônitos; uns receberam as notícias com alívio e alegria, outros com perplexidade e ressentimento[7].” A pena recebida por Dostoiévski foi o envio imediato para a Sibéria, onde passaria longos e terríveis dez anos.

A vida de Fiódor Dostoiévski, no entanto, não foi só drama, sofrimento e melancolia. Foi, também, a de um brilhante escritor, com obras memoráveis, como, apenas a título de exemplo, Gente Pobre, publicada em 1846, quando ele tinha apenas 26 anos de idade; Memórias do Subsolo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázov. Sua obra é vasta, com inúmeros outros títulos tão famosos quanto os já citados. Apenas para que o leitor desta coluna tenha uma ideia, a biografia de Fiódor Dostoiévski, escrita por Joseph Frank, é composta por CINCO longos volumes que, no total, contam com mais de três mil páginas, sendo que o 5º e último volume tem incríveis 932 páginas! Vale pena Ler, pois trata-se de uma vida cheia de lições literárias e humanísticas que todo pretenso intelectual tem que ter acesso. Dostoiévski faleceu em janeiro de 1880 depois de, no dia 26 ter se confessado e recebido a comunhão. Horas antes de sua passagem, pediu à mulher, Ana, para que lesse o Evangelho de São Mateus, capítulo 13, versículos 14-15, onde Jesus pede a João Batista que o batize. Morreu em paz, na sua casa e ao lado da mulher e dos filhos.

Procure: DOSTOIÉVSKI, Joseph Frank, Editora Edusp.

________________________________________________________________________ [1]FRANK, Joseph –   DOSTOIÉVSKI  – AS SEMENTES DA REVOLTA – VOL. I 1821 a 1849, Edusp, 2ª edição – 2008 pág.  105. [2] Idem, págs. 326/327. [3]FRANK, Joseph –   DOSTOIÉVSKI  – OS ANOS DE PROVAÇÃO – VOL. II 1850 a 1859, Edusp, 2ª edição – 2008 pág.  88. [4] Idem, pág. 89. [5] Idem, pág. 90. [6] Idem, pág. 92. [7] Idem, pág. 96.

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