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jul 04

PADRE QUINHA: MEMÓRIA ETERNIZADA PELA OBRA CONTINUADA

PADRE QUINHA

A OBRA ETERNIZA O HOMEM E SUA HISTÓRIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Para nós, crentes, não é muito satisfatória a ideia de uma eternidade não compartilhada com nossos amigos, parentes, admiradores e todo um universo de entes queridos. Pessoas com quem convivemos e com quem passamos a maior parte da nossa existência terrena. Talvez, para quem sai deste plano terreno, e diante da realidade celestial, não tenha qualquer relevância a memória do tempo vivido. Mas, para os que ficam, quanto maior a proximidade com aquele que partiu; quanto mais memórias dele ou dela restarem, mais consolo, mais alegrias e mais felicidade. Esta é a fórmula da eternidade conhecida e vivida por nós, que ainda estamos do lado de cá do Reino de Deus.

E esta fórmula pode ser aplicada na história de diversos irmãos que partiram deste mundo, uns muito cedo, outros, nem tanto, mas, que deixaram muita saudade, em razão do que foram, do que fizeram, do que pretendiam, ainda, fazer e de todo um verdadeiro carisma, religioso ou não, que teimamos em não deixar morrer de forma alguma porque, como deuses, é a forma de temos de mantê-los eternamente ao nosso lado.

É claro que, neste momento, vêm à mente rostos de muitos amigos, parentes e entes queridos que, de uma forma ou de outra, marcaram nossas vidas para sempre. Mas, apenas, e, tão somente, as nossas vidas íntimas e pessoais, raramente, as vidas da coletividade e/ou da comunidade mais próximas. Daí que, quando nós, também, ultrapassarmos a linha divisória entre o mundo e o Reino, nada mais restará destas memórias pessoais.

No entanto, quando, ao contrário, quem parte deixa uma obra, concluída ou em constante e dinâmico progresso, exigindo de quem fica, e de forma sucessiva e hereditária, o constante zelo e aperfeiçoamento, pode-se afirmar com segurança, que ele ou ela conseguiu eternizar-se, também, no mundo.

Em minha mente, assim como na sua, surgem inúmeros nomes. No entanto, nestes dias de Julho, um nome em especial marca a minha memória. Um nome que, na minha pequena cidade de Petrópolis, ficou marcado, consagrado e respeitado, por tudo o que ele simboliza, embora muita coisa tenha sido apenas iniciada. Falo do Padre José Carlos Medeiros Nunes, mais conhecido como Padre Quinha. Um homem cuja história é muito maior do que ele e que, espera-se, um dia, venha a ser contada em livro a homenageá-lo para sempre.

Padre Quinha, além de vocacionado para o sacerdócio era, também, vocacionado para fazer o bem. Não o bem fundado na esmola; na doação de bens materiais capazes de assegurar, por pouco que fosse, uma sobrevivência mais digna. Não! O bem que fazia do Padre Quinha um verdadeiro vocacionado era mais profundo, era vinculado à dignidade do próprio ser humano. Sua preocupação maior, não era com o dinheirinho para o pobre e necessitado, a roupa surrada ou o calçado para os pés, ou, ainda, o simples e indispensável prato de comida. A maior preocupação da vida dele, e pelo que lutou a vida toda, era a reconstrução da dignidade do ser humano. Por esta razão ele, tal qual um treinado mergulhador, atirou-se de corpo e alma no mar sombrio e tenebroso em cujo fundo estão acorrentados ao vício muitos ex-bons profissionais; ex-bons chefes de família e, no geral, filhos amados e queridos de Deus. Homens que, pelo vício, seja o da bebida, o das drogas ou outro qualquer, foram atirados, ou deixaram-se atirar, em um abismo degradante que, primeiramente, afasta-os da família e do meio social. Depois, retira-lhes a dignidade e a respeitabilidade e, por fim, a saúde e a própria vida.

Padre Quinha teve visão. Enxergou este estado de degradação e, assim como o bom pastor, foi em busca da ovelha perdida, sem se preocupar se era dia de sábado. Iniciou um trabalho de acolhimento, de tratamento físico e espiritual, de reconstrução e de recuperação da dignidade, da respeitabilidade e da reinclusão destes homens no seio da família, da religião e da sociedade.

Infelizmente, muito cedo, e sem poder ver concluída uma obra tão especial, ele foi chamado às pressas por Deus. Assim, quando ninguém esperava, Padre Quinha falece no dia 18/01/2013. Na época, o portal G1 assim noticiou:

“Padre Quinha foi um dos religiosos mais respeitados do município. Ele fazia um trabalho filantrópico e de evangelização em vários bairros da cidade e foi o fundador da Associação Oficina de Jesus, em 1997, entidade que presta assistência espiritual, psicológica, médica e social aos dependentes químicos em Petrópolis.” (http://g1.globo.com/rj/serra-lagos-norte/noticia/2013/01/morre-padre-quinha-conhecido-pelo-trabalho-filantropico-em-petropolis-rj.html).

Pois bem, passados mais de seis anos que Padre Quinha recebeu a senha para entrar no Reino de Deus, a obra por ele iniciada, assim como o carisma que ele deixou, está caminhando de forma resoluta e imponente, pronta para eternizá-lo na cidade que ele escolheu para iniciar o plano-piloto de um projeto que poderia ser estadual, nacional, ou, mundial, quem sabe?

Obras não caminham sozinhas. São muitas as pessoas envolvidas no avivamento do que hoje é conhecido como “Oficina de Jesus”. Não se deve declinar nomes, porque podem ser esquecidos alguns, sendo que todos, absolutamente todos, têm igual importância, pois, conforme ensinado pelo Apóstolo Paulo “uma mesma coisa é o que planta e o que rega. E cada um receberá a sua recompensa segundo o seu trabalho. Efetivamente, nós somos cooperadores de Deus; vós sois cultura de Deus, sois edifício de Deus” (ICor 3, 8-9).

A atual, e muito competente, administração da Oficina de Jesus, cuja sede fica situada na Estrada do Brejal, em Petrópolis, onde são recebidos acolhidos de diversas origens, não cessa de reinventar o projeto do Padre Quinha, com o objetivo claro de ampliar o espectro de vai do simples acolhimento até a reinserção do homem, totalmente reconfigurado, no seio da família, da comunidade e da sociedade.

São promovidas festas, jantares, shows de prêmios, bazares, campanhas e mais campanhas. Tudo, com a finalidade de consolidar uma obra que, além de cumprir uma missão extremamente evangélica – resgatar os excluídos do Reino – faz com que a presença do Padre Quinha seja percebida cada dia com mais força, no rosto e nas vidas daqueles que, depois de algum tempo, voltam a sorrir, livres que se sentem da escravidão que, no início, trouxe-os cabisbaixos, envergonhados, excluídos mesmo do seio da sociedade.

Neste mês de Julho, em cujo primeiro dia recorda-se o nascimento do Padre Quinha, é promovido o já famoso JULHO VERDE – O MÊS DA ESPERANÇA que, neste ano, tem a seguinte configuração:

JULHO VERDINHO

Não restam dúvidas de que a memória do Padre Quinha, por meio da obra por ele iniciada e continuada por toda uma coletividade comprometida e determinada, está sendo preservada para a história. Uma história na qual o principal personagem é o excluído que, agora, está reinserido no ambiente saudável da família, na comunidade de oração e na sociedade. Parabéns Padre Quinha pelo aniversário que, entre nós, seus irmãos e irmãs em Cristo, será comemorado por muitas e muitas décadas ainda.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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