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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

dez 02

EDITORIAL DA SEMANA: A IMENSA MAIORIA RESULTA DA SOMA DE TODAS AS MINORIAS

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DA SOMA DE TODAS AS MINORIAS, RESULTA A GRANDE  MAIORIA

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é novidade para ninguém que, nos dias de hoje, as coisas estão bastante complicadas em todos os aspectos. Se passarmos os olhos pela situação política no mundo, nem se fala apenas do Brasil, vamos ficar estarrecidos; o mesmo olhar na direção da religiosidade e dos seus desdobramentos, causará assombro; se, na busca por coisa melhor, dermos uma espiadinha na questão relacionada com o (meio) ambiente, certamente, haverá pânico. E, quando decididos, passarmos a analisar apenas a situação sanitária na qual estão mergulhadas milhões e milhões de pessoas, no mundo todo, então, baterá um gigantesco desalento, levando-nos a pensar na saúde e na educação, principalmente, em terras verde-amarelas.

Em absolutamente todas estas questões, vamos encontrar uma esmagadora maioria sendo massacrada pela lógica do gigantismo mercantilista, pela ambição desmedida dos gigantes do capitalismo e pela conivência invencível de políticos de todos os espectros e de todas as vertentes ideológicas que, atendidos os seus pleitos individuais, pouco se lixam de verdade para o resto.

Entretanto, existe uma minoria que, nos bastidores da vida, prega o bom senso, clama por justiça de forma indiscriminada, trabalha sincera e honestamente pela paz, zela pela transparência no trato com o dinheiro público, apresenta sugestões inovadoras nas mais diversas áreas do conhecimento e se propõe a trabalhar em prol de uma humanidade mais civilizada e mais humanizada, menos robotizada, menos midiática, menos virtual e materialista, menos alienada e mais voltada para os verdadeiros valores que compõem o valor maior, que é a própria vida. Mas, tudo isso, apenas, nos bastidores!

Certamente que esta minoria, em um primeiro estágio, parece não ter vez e nem voz no mundo atual, graças à fabulosa força de uma mídia globalizada, cujo único objetivo é ocupar e negociar espaços publicitários e mercadológicos. Mas, esta minoria existe e, mesmo que à boca pequena, continua criticando, protestando e chamando a atenção para os descalabros que são praticados dia-a-dia em quase todo o cenário planetário.

Existe uma minoria formada por profissionais altamente qualificados, públicos e privados, que fazem da atividade profissional, não apenas a fonte principal para a sobrevivência, própria e familiar, mas, também, parte da força motriz que faz girar, de maneira digna, honesta e eficaz, a máquina civilizatória. Uma minoria composta por homens, mulheres e outros gêneros, que, de forma também digna, honesta e atuante, propõe novas regras de civilidade, de respeito e de cidadania, capazes de transformar ambientes altamente tensionados, em outros francamente harmônicos entre si e propícios à manutenção da paz e da justiça social.

Não se há de esquecer de uma outra minoria, na qual estão agregados diversos líderes religiosos, cada um com a sua profissão de fé própria, dispostos a pregar o verdadeiro Evangelho da Salvação, que é o do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, combatendo toda e qualquer forma de discriminação e de exclusão.

Enfim, há que ser lembrado, também, de um considerável grupo formado por jovens, estudantes de todos os níveis que, no dia-a-dia de suas vidas, lutam para sobressaírem nos estudos, nas artes, na música ou na prática das mais diversas modalidades de esportes, de modo a revelarem para o mundo que, os seres humanos, de qualquer condição social, credo religioso, raça, sexo ou nacionalidade são parte indivisível de uma única e distinta espécie: a humana.

Não será difícil perceber, que o conjunto de todas estas, aqui denominadas, “minorias” forma uma imensa maioria que, uma vez unida e unificada, terá força e poder para mudar toda a dinâmica da vida atualmente vivida em sociedade, deixando patente que o estado de coisas vivido pela imensa maioria das pessoas no mundo, é resultado direto do silêncio dos inocentes e da ousadia dos culpados e usurpadores, mas, que não deve permanecer assim.

É preciso lutar para que todas as minorias silenciadas e acabrunhadas tomem consciência do valor que possuem no mundo e, de forma urgente, passem a interagir umas com as outras, no sentido de formarem novos, promissores e valorosos partidos políticos, com representatividade parlamentar e congressual, a fim de mudarem, de forma absolutamente democrática, e pelo voto direto e aberto, todo este ineficiente e injusto arcabouço jurídico existente em praticamente todas as Nações.

Não deve ser esquecido o exemplo milenar dado pelo cristianismo que, a partir da determinação, do trabalho e do destemor de um pequeno grupo de homens, chamados de Apóstolos ou Discípulos, mesmo com a perda física do seu Líder Maior, chegou até as barras do todo-poderoso império romano, lá fincando sua sede, e, a partir de lá, levando ao mundo todo a Boa Nova do Evangelho, sobrevivendo há mais de dois mil anos a todas as formas de enfrentamento e de desafios, internos e externos.

Nunca, antes, na história da humanidade, foi tão urgente que a massa de todas chamadas “minorias” se debruce sobre os clássicos cristãos, políticos e filosóficos para, deles extraírem o conhecimento e a força capazes de promoverem a unificação de todos os homens, mulheres e outros gêneros, em torno de propostas fundamentadas no amor a Deus e ao próximo, no respeito mútuo, na fraternidade, na igualdade, na justiça, na tolerância, na paz, na inclusão total de todos os seres humanos em todos os aspectos da vida, combatendo todo o mal que cai sobre nossas cabeças nos dias que correm.

O que está faltando é união! Os bons, honestos, sábios, competentes, trabalhadores e cheios de todas as virtudes, estão calados e afastados do grande palco da vida, deixando voluntariamente aos demais, que não são dignos de qualquer adjetivação, a possibilidade de ditarem os rumos da história, montados em seus ricos e exuberantes cavalos brancos, manuseando o chicote da lei, dos tribunais e das prisões por eles mesmos criados e usados para todos os fins que, no fim, só atendem aos interesses patriarcais e hereditários.

Precisamos acreditar que somos capazes de, juntos, elaborar propostas sociais, políticas, econômicas, educacionais e culturais mais justas e mais igualitárias, permitindo que o rico mantenha o seu patrimônio, mas, que o pobre possa construir o seu também, sem ser excluído e afastado de todo o cenário civilizado, em razão da pobreza que ostenta, da nacionalidade de origem, da religião que professa, da raça a que pertence ou da condição sexual que assumiu. E tudo isso deve ser feito a partir da união e da unificação dos saberes, dos conhecimentos e das virtudes entranhadas em todo o tecido social. No meio deste joio existe trigo.

Enquanto não houver uma compreensão em torno destas distâncias que, na verdade, são ínfimas, continuaremos sendo regidos por maestros que pouco ou nada entendem de partituras, mas, que, em razão da esperteza, da fama, do prestígio, da riqueza que ostentam e da capacidade para a mentira e para o engodo, acabam por receberem de mão beijada a varinha mágica, com a qual darão início a uma sinfonia que, para todos os especialistas da plateia, está totalmente equivocada.

No caso, os especialistas da plateia, cada um com sua experiência no instrumento escolhido, ficam assombrados com o que veem e com o que ouvem, porém, ninguém se arvora em questionar os diversos maestros que, pouco a pouco, vão se sucedendo diante dos músicos igualmente atordoados. O silêncio dos sábios e dos verdadeiros profissionais chega a ser conivente com o assassinato das notas musicais apresentadas o que, ao final de tudo, permite que se ouça, lá do fundo do auditório, gritos de “bis, bis, bis”. Ou seja: chegaram, gostaram e querem continuar!

Este texto é um convite à reflexão para todos nós. Precisamos refletir sobre o papel que temos desempenhado na sociedade na qual, apesar de todos os “maestros”, estamos inseridos e, se possível, começarmos a dialogar com outras minorias a fim de que, em determinado momento, possamos vislumbrar um mundo total e absolutamente melhor, mais justo, mais igualitário, mais humano e mais inclusivo, onde as culturas do ódio, da intolerância, da vingança e da morte não tenham mais tanto destaque e prestígio como vemos em todos os continentes. Pense sobre tudo isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio (meditativo).

   

nov 25

EDITORIAL DA SEMANA: A VIRTUDE DA TOLERÂNCIA

SOMOS TODOS IGUAIS

TOLERÂNCIA: A VIRTUDE QUE ESTÁ FALTANDO NO MUNDO DE HOJE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Pequena consulta ao dicionário eletrônico Houaiss, revela que o termo “virtude” significa, dentre outras, a “qualidade do que se conforma com o considerado correto e desejável”, seja do ponto de vista da moral, da religião ou do comportamento social. Para os cristãos existem as assim denominadas virtudes teologais, a saber: a fé, a esperança e a caridade. Virtudes estas que possuem a capacidade de conduzirem o ser humano aos domínios celestiais. Independentemente da profissão de fé de onde partem, estamos falando de virtudes necessárias a todos nós, seres humanos, haja vista o cenário no qual estamos inseridos, com todos os seus aspectos, circunstâncias e consequências.

Entretanto, parece estarmos deixando de lado uma virtude que se adequa, à perfeição, com a descrição dicionária daquilo que pode, e que deve, ser “considerado correto e desejável”, principalmente, na seara do comportamento humano: a tolerância, cuja ausência está destruindo famílias, relações profissionais e religiosas e, inclusive, diversas Nações mundo afora, além de estar produzindo séria ameaça à convivência pacífica de um povo tão alegre e tão amigo, como é o brasileiro.

A falta da tolerância, ou melhor dizendo, a intolerância, está corroendo por dentro tudo o que o ser humano tem de melhor em sua alma, porque está inviabilizando o convívio entre iguais que, de alguma forma, estão sendo induzidos e se verem de maneira absolutamente diferente. E, o pior, existe uma forte indução nos meios sociais, políticos, religiosos e midiáticos para que nós, seres absoluta e incontestavelmente humanos, passemos a olhar para o outro como sendo um potencial adversário. Tudo, em decorrência da raça, da religião, do sexo ou da opção sexual, da ideologia política e, também, da condição social.

Ora, basta um simples olhar de cima para baixo, como se estivéssemos sentados nas nuvens, para visualizarmos milhares, milhões de pontinhos pretos significando todas as cabeças humanas que se movimentam por ruas e praças, num frenético vai e vem, a demonstrar que, independentemente de quaisquer outros critérios, estamos observando seres humanos caminhando entre si, cada qual com seus próprios universos, problemas e soluções sem que, além das cores das roupas e dos acessórios e da estética física, possam ser observadas quaisquer outras diferenças essenciais à espécie.

A cor da pele ou dos cabelos, a nacionalidade, o formato do nariz ou a cor dos olhos, o tamanho ou a coloração das unhas, o sexo definido pela natureza ou pela opção sexual de cada um, a barba longa ou raspada, o uso ou não do bigode, a calvície ou a longa cabeleira, a religião professada, o time do coração ou a simpatia por esta ou por aquela agremiação política de cada cidadão ou de cada cidadã, deve ser objeto de profundo e ostensivo respeito.

Quando falamos em democracia, precisamos incluir entre todos os seus atributos o respeito e a consideração devidos a cada pessoa humana, independentemente das suas pessoais e íntimas características. Aceitar o outro exatamente como ele é e com o que possui ou representa, é dever de todos nós, sem qualquer exceção. Deste dever absoluto não estão, e jamais devem estar, excluídas autoridades ou personalidades de relevo no contexto social, eclesial ou político, sob pena de estar-se, assim, compactuando com a hipocrisia que, de tão presente entre nós, consagrou-se como o reverso do que entendemos por virtude.

Não podemos mais aceitar, como normais, as cenas diariamente mostradas nas telinhas das TVs, que dispensam maiores detalhamentos aqui, porque são deprimentes, não apenas para nós brasileiros, mas, para nós, seres humanos!

Alguns governantes temem rebeliões em presídios, temem manifestações populares nas ruas e nas praças do país, temem perder as eleições, mas, não temem ser coniventes com todo tipo de intolerância, muitas das quais até incentivam, com seus atos e discursos excludentes, sem se darem conta de que, no ápice das consequências, serão levados de roldão.

No entanto, não nascemos pela Graça dos governos, não viemos deles e não retornaremos para eles, razão pela qual precisamos, de forma individual ou coletiva, lutar para sermos cada dia mais tolerantes uns com os outros, e com os governos também, sob pena de, muito em breve, entrarmos em uma guerra universal induzida, unicamente, pela intolerância, que alcançará um nível absolutamente inaceitável entre todos os homens e mulheres deste nosso Planeta, já tão sofrido e tão combalido.

Ser tolerante, e cultuar esta virtude com toda a sacralidade que merece, talvez, não nos leve para o reino celestial, mas, certamente, permitirá que vivamos aqui na terra, em paz e em perfeita harmonia, a fim de que possamos enfrentar os incontáveis desafios aos quais somos expostos e submetidos diuturnamente. Unidos por um vínculo “terrivelmente fraterno”, seremos capazes de legar às futuras gerações exemplos e riquezas imensuráveis.

Reflita sobre este texto e sobre tudo o que você conhece acerca da “intolerância”, seja a que nível for e, se possível, faça algo de positivo para, ao menos tentar, modificar o ambiente à sua volta. Daí, para modificar o resto do mundo será apenas uma questão de tempo. E, ainda temos algum tempo para isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

nov 18

EDITORIAL DA SEMANA: ITINERÁRIO PARA ENTRAR NO CÉU

ESPÍRITOS DE LUZ

DEGRAUS QUE CONDUZEM AO REINO DOS CÉUS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A Igreja Católica defende a existência de um “purgatório”, para onde as almas, quando saem do corpo, após a morte, são direcionadas para serem submetidas a um processo de “purificação”, caminho preliminar à entrada no Reino dos Céus. Embora o local descrito possa mesmo ser objeto de questionamentos e de, até mesmo, rejeição por parte de alguns fiéis, o fato é que não é razoável acreditar, chegando mesmo a ser ilógico, que a alma de um inveterado pecador, saindo do corpo, seja imediatamente conduzida ao Céu, só porque a criatura, em vida, usou a boca para, além dos inúmeros impropérios, enganos, fraudes, mentiras e falsos testemunhos proferidos, andar dizendo que “Jesus Cristo é o Senhor” ou “Eu aceito Jesus como meu Salvador”, e coisas do gênero, sem qualquer vestígio real de seguimento dos passos do Mestre de Nazaré.

Fosse assim, o céu estaria assegurado para toda e qualquer criatura que, mesmo sem convicção, proferisse os mantras acima descritos e muitos outros semelhantes. Deve ficar bem claro, antes de qualquer outra coisa que, quando Jesus declara que “todo aquele que crer será salvo” Ele está se referindo àquele(a) que cumpre os seus ensinamentos, porque Ele sempre soube que “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto; as doutrinas que ensinam são preceitos humanos” (Mt 15, 8-9).

Bem, o Novo Testamento está repleto de palavras de Jesus que, examinadas com atenção, revelam que não basta, apenas, ficar bradando o nome do Senhor em público, para alcançar a salvação, conforme pensam muitos cristãos que andam por aí com o Livro Sagrado embaixo do braço. Também não basta exercer função ou “missão” eclesial, nesta ou naquela religião, conforme acreditam piamente muitos que assumem tais compromissos, mas, deixam de lado o amor a Deus SOBRE TODAS AS COISAS e AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO. Amam-se acima e mais do que a todas as coisas, de forma narcisista, e o próximo serve apenas como instrumento para exploração em diversos sentidos e oportunidades.

De toda sorte, até para os fiéis mais zelosos com a fé, a conduta pecaminosa (do simples pensar até o agir) faz parte da vida de cada um e, ao final da estrada, a alma já carrega uma carga bastante acentuada, apesar da fé e da esperança na misericórdia final do Criador e do Salvador. O que não parece significar a entrada automática no Reino dos Céus.

É possível acreditar, sim, na existência, não de um espaço físico denominado  “purgatório”, mas, em algumas etapas a serem percorridas pela alma para, então, e somente então, poder se aconchegar nas Terras do Rei, do seu Filho e de todos os eleitos.

Podemos imaginar, por exemplo, que, em um primeiro momento, a alma é conduzida para um lugar no qual ouve a voz do Anjo de Deus declamando todos os mandamentos e todos os preceitos divinos que, durante a vida, ela não seguiu ou para os quais, simplesmente, virou as costas por não acreditar em nada, ou, ainda, por ter preferido dar ouvidos aos pregadores de plantão, com seus ensinamentos meramente humanos. Ali, sem direito a réplicas ou a tréplicas, pedirá que alguém fale em seu nome e em sua defesa, o que, certamente, será concedido. Chegará, então, o próprio Jesus que, na condição de Supremo Advogado, confirmará àquela alma a lista dos seus “deslizes” e, digamos, “malfeitos”, dando à ela duas opções: aceitar, humildemente suas culpas e, com extrema sinceridade, arrepender-se e submeter-se à purificação, ou, na pior das hipóteses, rebelar-se contra tudo o que está sendo dito, alegando aquele montão de desculpas que nós, humanos, já conhecemos muito bem.

A alma que aceitar seus erros e culpas e demonstrar verdadeiro arrependimento e desejo de submeter-se à purificação, o que será verificado pelo próprio Jesus, será encaminhada para uma segunda etapa (ou degrau), no qual ela, juntamente com outras incontáveis almas, terá contabilizadas suas possíveis boas obras praticadas ainda em vida e clamará pelo perdão divino por período compatível com a multidão dos pecados cometidos e assumidos de forma humilde e serena. Caso em vida ela jamais tenha se preocupado com arrependimentos nem em fazer penitência, jejum ou quaisquer outras boas ações, ficará ali, clamando sem cessar e sem qualquer noção de tempo. Receberá, constante e periodicamente, as visitas de Jesus, de sua santa Mãe, dos Anjos e dos santos, que lhe darão imenso consolo e esperança do perdão final que, por fim, chegará.

Vencida esta etapa, ela é encaminhada para um terceiro patamar, no qual deverá conviver de forma harmônica, serena e santa com a comunidade das almas que, com ela, passaram do segundo para o terceiro degrau. Nesta etapa, a alma vai demonstrar a compreensão e a assimilação de forma perfeita, do que realmente significa estar em plena e profunda comunhão com os filhos de Deus, na magnitude dos verdadeiros amor e fraternidade.

Por fim, todas aquelas almas absolutamente purificadas, e em perfeitíssima comunhão entre si, e que agora estão no terceiro patamar vão sendo, lenta e progressivamente, encaminhadas para o Reino dos Céus onde, finalmente, terão a oportunidade de serem integradas, para sempre, com todos os eleitos e com os verdadeiramente salvos. Ali, não terá importância a religião humana que cada uma seguiu; não terão importância as filosofias apreendidas ou disseminadas, os conhecimentos adquiridos durante a vida terrena. De nada valerão as palavras bonitas ou messiânicas que proferiram. De nada valerão os cargos ocupados, os títulos recebidos ou o patrimônio adquirido e acumulado durante a estada terrena. Tudo passou, tudo acabou para sempre! O que realmente terá valor naquele ambiente de paz, de luz, de santidade e de eterna comunhão será a pureza adquirida após a santificação porque, conforme ensinado por Jesus: “Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 8-9).

Pureza de coração é olhar para o outro e nele enxergar o próprio Cristo, independentemente de quem ele seja ou de tudo o que tenha praticado, ou ainda pratique porque Deus, o Pai, olha para cada um de nós como filhos e filhas muito amados, apesar de sermos quem somos e de praticarmos tudo o que praticamos.

Penso que muitas pessoas, ao lerem este texto dele discordarão de forma veemente, porque trazem consigo suas próprias crenças e convicções (limitadas e limitantes), às quais caminharão agarradas até o momento final. Entretanto, a partir do momento final, será possível compreender que nada é da forma que imaginaram porque, primeiro, quem entra no Céu quer ver Deus e, para poder vê-Lo é preciso estar e ser puro de coração; segundo, porque muitos dos nossos atos, palavras e pensamentos não são tidos ou reconhecidos por nós como pecaminosos. Afinal, temos justificativas para tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. Ao mesmo tempo, temos argumentos fortíssimos para condenar as ações, as palavras e as omissões dos nossos semelhantes.

Assim, será preciso passar por uma espécie de “pente-fino”, quando a autoridade divina mostrará diante de nós todo o mal que praticamos enquanto viventes. Coisas que, muitos de nós, sequer imagina serem tidas como pecado mas que, por contrariarem principalmente o mandamento do “ama o teu próximo como a ti mesmo”; ou o mandamento do perdão das injúrias recebidas; ou, ainda, da misericórdia para com absolutamente todos os homens e mulheres, independentemente de quem possam ser ou do que possam ter praticado. Tudo isso será lançado diante de todos e de cada um de nós, inclusive, dos que acreditam que basta invocar o nome de Jesus, para já estarem com vagas asseguradas no Reino dos Céus.

Para quem afirma crer, é importante não esquecer do que o próprio Jesus disse: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7, 22-23). Mas, este julgamento, só Ele pode fazer. Estas palavras só poderão ser ditas por Ele. Não, como vemos por aí, muitos irmãos julgando e selecionando quem é bom e quem não é; quem já estaria salvo e quem  está irremediavelmente “perdido”, como se fossem prepostos do Pai ou do Filho.

É bom que, concordando ou não com os degraus para alcançar o Reino dos Céus, cada um de nós faça rigoroso exame de consciência à luz da Palavra de Deus e das inspirações vindas do Espírito Santo, a fim de podermos, ainda aqui neste mundo, tratarmos de buscar a correção, a penitência e a prática permanente das boas ações, inclusive, em favor daqueles que, vítimas dos diversos padrões humanos, estão à margem da sociedade e de tudo de bom que o Criador disponibilizou para, absolutamente, TODAS as suas criaturas.

Infelizmente, muitos cristãos acreditam estarem cumprindo os mandamentos de Deus, quando fazem o bem a um pobre e necessitado, deixando de fora aqueles que eles consideram extremamente pecadores, julgando-os não merecedores de ajuda, de piedade ou de misericórdia. Isso vale para a prostituta, para o viciado, para o alcoólatra e para uma infinidade de pessoas combatidas no meio da sociedade, sob fundamentos morais e religiosos e, até, em nome de Deus.

Antes de mais nada lembre-se: é apenas um texto, fruto de inspiração literária. Nada mais! Um texto que, independentemente de poder ser plausível ou não, pretende convidar o leitor e a leitora para uma profunda reflexão sobre o que ainda está por vir ao final da nossa vida, sabendo-se, de antemão que, duas verdades são incontestáveis: todos nós, um dia, partiremos desta vida rumo às Terras do Grande Rei e, também, seremos submetidos ao ajuste de contas. Daí por diante, só o próprio Deus conhece os mistérios que envolverão a possível, graças a Jesus, Salvação de todos e de cada um de nós. Vale, ao menos, refletir. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

nov 11

EDITORIAL DA SEMANA: A LIBERDADE COMO O BEM MAIOR

ATRÁS DAS GRADES

ENTRE O CONDE DE MONTE CRISTO E FIÓDOR DOSTOIÉVSKI –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Existe um paralelo que pode ser traçado entre as histórias de Edmond Dantès (O Conde de Monte Cristo) e a de Fiódor M. Dostoiévski, sabendo-se que a do primeiro é obra de ficção, fruto da genialidade de Alexandre Dumas, enquanto a segunda é parte da vida real do fabuloso escritor russo do século XIX.

Edmond Dantès, na trama do autor francês, é vítima de uma armadilha engendrada por “amigos” invejosos e, com o respaldo do procurador do rei, Gérard de Villefort, é acusado de ser bonapartista, crime de alta traição à Pátria, na França dos anos iniciais do séc. XIX. A questão principal da trama contra Dantès deve ser vista e analisada como um chicote de duas pontas afiadas: a primeira, formada por quem deseja ardentemente o lugar de comando da embarcação de cargas (Pharaon), de propriedade do velho e experiente sr. Morrel, que confia no trabalho, no caráter e na lealdade do jovem Edmond, então com dezenove anos de idade. Na outra ponta, o substituto do procurador do rei que, aos vinte e sete anos de idade, e agindo em nome e escudado pela lei, visava proteger, além dos interesses pessoais, o próprio pai, e pavimentar o caminho para a fama, o topo do poder na magistratura e a glória naquela sociedade “renovada”, pós-Napoleão. É justamente este “guardião” da lei e da moral, que aceita como verdadeiras as falsas acusações lançadas contra o jovem Edmond Dantès, cujo desejo maior era, de forma simples e humilde, prestar um bom trabalho ao velho armador, casar-se com a bela Mercedes e cuidar do pai, já idoso e adoentado. O sórdido Villefort, não apenas acolhe a denúncia que lhe chega às mãos como, também, manobra para que o pobre e humilde trabalhador seja eficientemente afastado do convívio da comunidade e da família, onde era tão querido e cortejado como exemplo de cidadão e de trabalhador.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, nascido no ano de 1821, é objeto de uma extensa biografia (5 longos volumes), escrita por Joseph Frank que, por mais de vinte anos, estudou e pesquisou sobre a vida do maior de todos os escritores russos. A referida biografia, editada pela EDUSP, a partir de 2008, é obra de peso literário e de grande utilidade para quem queira conhecer, na verdade dos fatos, quem foi o escritor tão citado por teólogos, psicólogos, sociólogos, humanistas e por personalidades marcantes e influentes ao longo de todo o século XX.

Pois bem, Dostoiévski, em dado momento da vida (1847), quando já era bastante conhecido e famoso por seus escritos, e tendo sido convidado para participar de reuniões literárias, cujo fundo era eminentemente político, é acusado de “conspirar” e de tramar contra o Czar, justamente por integrar um grupo denominado “Círculo de Petrachévski”, nome do ideólogo dos encontros.

Mikhail Petrachévski, na época, um jovem de 26 anos de idade, apenas seis meses mais velho que Fiódor Dostoiévski, mas, que tinha formação em economia política e tendências socialistas bastante acentuadas para o período, é descrito pelos amigos como sendo um sujeito excêntrico e cheio de “esquisitices”. Dostoiévski, no entanto, longe das tendências revolucionárias de Petrachévski, tinha grande interesse e preocupação com tudo o que se passava na Rússia de então e com os gravíssimos problemas vividos naquela sociedade czarista, notadamente, com as inúmeras injustiças sociais e com a acentuada pobreza advindas, principalmente, da servidão institucionalizada, equivalente à escravidão no Ocidente.

Enfim, denunciado o grupo do “Circulo de Petrachévski”, como foco de conspiração e de rebelião contra o Czar Fiódor, juntamente com outros companheiros, é preso e, incialmente, condenado ao fuzilamento, pena comutada no último instante pelo próprio imperador, para prisão na Sibéria, onde fica trancafiado durante seis anos sendo, depois, transferido para uma unidade militar onde é obrigado a seguir carreira, mesmo contra a vontade. Ao fim e ao cabo, e já adoentado, Dostoiévski só retornará à plena liberdade a exatos dez anos após a prisão ocorrida em 1849, quando pede aposentadoria no serviço militar, por motivo de grave enfermidade.

Edmond Dantès, diante de um procurador escolado, capaz de extrair dele toda a verdade dos fatos ocorridos durante a última viagem no comando emergencial do Pharaon, tem a nítida sensação de que será plenamente inocentado e absolvido das terríveis acusações lançadas contra ele. Acusações que, para a época, eram gravíssimas porque iam de encontro a tudo o que a “nova ordem política” representava, ou pretendia representar, para o período pós-napoleônico.

Entretanto, o sr. de Villefort, ao ouvir acusadores e acusado, logo percebe a real inocência de Dantès, mas, percebe, também, a existência de um documento, uma carta, na verdade, capaz de incriminar o próprio pai, razão pela qual decide, no recanto da sua consciência suja, determinar o encaminhamento de Edmond para a masmorra em que fora transformado o Castelo de If, lugar inexpugnável. Levado para aquele lugar sombrio, sem poder, sequer, avisar ou se despedir da noiva ou do pai que, com o passar do tempo, têm-no por completamente desaparecido, Dantès ficará ali, entre a depressão, a ameaça de loucura, a extrema solidão e a sensação de nunca mais poder ver e sentir a luz e os raios do sol.

Entretanto, graças à morte do Abade Faria, vizinho de cela no infortúnio, homem sábio e detentor de riqueza imensurável, Edmond Dantès consegue fazer-se passar pelo defunto e, camuflado no saco mortuário, é atirado nas profundezas do oceano, de onde consegue escapar e voltar à liberdade, na figura do enigmático, riquíssimo e vingador Conde de Monte de Cristo que, no entanto, jamais conseguirá mudar o passado no qual foi vítima escolhida a dedo.

Eu sou absolutamente suspeito para falar sobre Fiódor M. Dostoiévski e sobre o Conde de Monte Cristo, porque li com paixão a história de ambos, sendo que a do Conde, por ser um pouco menor (2 volumes apenas), já li duas vezes e, certamente, lerei mais uma ou duas ainda.

O que chamou a minha atenção, e eis aqui a razão deste texto, é que ambos, embora um seja personagem real e o outro fictício, foram vítimas de tramas, de mentiras, de falsas acusações, de calúnias, de condenações impostas por quem detinha o poder de julgar, do cumprimento de penas odiosas e, por fim, da reconquista da liberdade.

Ora, a liberdade para quem sai de uma prisão, principalmente, quando tem plena consciência da própria inocência, é algo de significado inominável e que, ao mesmo tempo, desperta sentimentos diversos. Se, para Fiódor Dostoiévski, ficar livre da cela, significou a possibilidade de cuidar da família e de retomar, com toda a força, a carreira de escritor e de pensador, para Edmond Dantès, agora na pele do Conde de Monte Cristo, significou impor derrota implacável a todos aqueles que, no passado, levaram-no para os fundos insalubres da masmorra.

A lição que fica de ambas as histórias é que, por mais que alguém possa dizer o contrário, e sejam lá quais forem os argumentos utilizados, jamais devemos nos alinhar com aqueles que se valem da mentira, da cilada, da calúnia e, por fim, da injustiça, para afastar da sociedade pessoas "incômodas". Devemos sempre ter em mente que, quando alguém alardeia estar combatendo crime e criminosos, denunciando, julgando e condenando de forma implacável, levantando bandeiras legalistas, moralistas e moralizantes, deve passar por séria análise psicológica e psiquiátrica porque, das duas uma, ou está acobertando interesses e pessoas muito próximas, ou preparando o terreno para perseguições, vinganças ou promoções pessoais de sorte que, de acordo com as conveniências, o truque é tirar de cena pessoas que podem servir como pedras no caminho, conforme ocorreu, tanto com Edmond Dantès, quanto com Fiódor Dostoiévski.

No caso dos personagens citados, tanto um quanto o outro, por fim, terminaram bem suas carreiras e seus algozes foram devidamente sepultados pela história. No drama do Conde de Monte Cristo, o sr. de Villefort, falso, mentiroso e promíscuo procurador, acabou relegado ao chiqueiro da trama e dele ninguém se recorda, a não ser quando relê a história. No caso de Dostoiévski, nenhum dos seus julgadores é, sequer, conhecido, ao passo que o escritor, entrou para a história e dela, certamente, jamais sairá porque, a história é, abaixo de Deus, a única e verdadeira Magistrada, sob cuja toga ficam ocultos para sempre os falsários, os mentirosos, os hipócritas e os traidores, lançando fachos de luz sobre todos os injustiçados e vítimas da mentira, da calúnia e da sordidez contra eles praticadas.

Caso seja do interesse do leitor ou da leitora, sugiro ler tanto o Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, pela Editora Zahar, quanto a biografia de Dostoiévski, pela Edusp. Leituras que, certamente, são bastante empolgantes e indutoras para a análise de inúmeros episódios vividos e conhecidos por homens e por mulheres de todos os tempos. Se for o caso, desejo uma excelente leitura. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 04

EDITORIAL DA SEMANA : POSSUIR TANTO, SEM POSSUIR A SI PRÓPRIO

RIQUEZAS

QUEM TANTO POSSUI, POSSUI A SI MESMO?

*Por Luiz Antonio de Moura – 

Não constitui mais qualquer novidade a luta incansável de muitas pessoas, com o foco absoluto voltado para a aquisição de bens de todos os níveis e valores. Dentre as frases mais ouvidas nas ruas e nos meios sociais, em geral, figuram estas: “este carro é meu”; “aquela casa é minha”; “tenho conta no banco tal”; estou adquirindo mais isso ou mais aquilo”. As pessoas não se dão conta, mas, falam abertamente: “este é o meu marido”; “aquela é a minha mulher”; “veja, são os meus filhos”, e por aí vai, numa sucessão de pronomes possessivos que não tem fim ou limite.

Os seres humanos gostam de serem tratados como detentores de posses, não importa sobre o que, mas, precisam sentirem-se “donos”, “possuidores”. Diante de tantas posses e de tantos bens, muitos chegam a afirmar, categoricamente, que, “é meu, eu decido o que fazer com isso”, demonstrando que, além da posse, “possui” total domínio sobre tudo o que ousa chamar de “seu”, inclusive, sobre o próprio corpo.

No entanto, surge uma questão interessante: quem possui tantos bens e tantas coisas, possui a si mesmo? Tem domínio sobre si próprio(a)? É capaz de acrescentar um dia a mais na sua existência? Tem capacidade para controlar o seu estado de nervos, quase sempre alterado? É capaz de modificar atitudes que perturbam a paz das pessoas ao seu redor? Quem possui tanta coisa, e com autoridade, tem autoridade sobre seus próprios atos, adequando-os à civilidade, à fraternidade, à solidariedade e a todas as demais virtudes que prega?

Parece que estas respostas, na imensa maioria das vezes, são negativas. Se o meu veículo apresenta qualquer defeito, logo, logo eu trato de enviá-lo ao mecânico, aciono o seguro e busco resolver o problema o mais breve possível. Entretanto, se sinto uma fisgadinha no fígado, por mais que alguém recomende, eu não encontro tempo para, de forma imediata, rápida e eficaz, buscar a resolução do problema. Se, em casa ou em família, alguém passa por dificuldades, eu vou me esquivando o máximo que posso, postergando qualquer auxílio. Mas, se a porta da minha garagem apresenta um pequeno defeito, por mínimo que seja, desde que dificulte a abertura, chego mais tarde no trabalho, ou saio mais cedo dele, para ir em busca de um técnico para fazer o imediato conserto.

Todas estas são realidades que parecem envolver todos nós, seres humanos. Quem, nunca passou por algo parecido? Porém, o que deve chamar nossa atenção é a rapidez com a qual nos dedicamos a cuidar das nossas posses e a lerdeza com a qual cuidamos de nós mesmos. O carro, a casa, o barco, a bicicleta ou a moto são bens passageiros, sim, sabemos disso. Mas, a eles dedicamos nossa atenção especial, enquanto a nós mesmos, ao nosso espírito e a tudo o mais, que não é efêmero, dedicamos tão pouca atenção.

Pare e pense, quando foi a última vez que admirou o seu carro novo, ou qualquer um dos seus bens? Quando foi a última vez que agradeceu a Deus por todos os bens que já conseguiu amealhar? Tenho certeza de que tudo isso ocorre com bastante frequência na sua vida.

Entretanto, quando foi a última vez que ligou para um dos “seus” amigos, simplesmente, para saber como está vivendo, como tem passado ou como está se sentindo no dia-a-dia da vida? Quando foi a última vez que procurou saber, de forma absolutamente desinteressada, como tem passado aquele amigo ou aquela amiga que se aposentou há tanto tempo? Quando foi a última vez que você se lembrou de dobrar os joelhos e, orando, pedir saúde, paz e bem para “seus” vizinhos, “seus” colegas de trabalho; “seus” devedores e “seus” credores”? Tudo é seu, sem dúvida, mas você só se lembra dos “seus” bens, da “sua conta bancária”, do “seu” cargo, dos “seus” compromissos corporativos.

Se você possui um carro que comporta apenas cinco passageiros, dificilmente, permitirá a presença de um sexto passageiro, para não expor o veículo ao peso excessivo. Se alguém pedir para transportar um peso mais elevado no seu automóvel de luxo, certamente, você se recusará. No entanto, quantas vezes você aumenta, sem dó nem piedade, a carga de trabalho que despeja sobre quem trabalha para você? Quantas vezes você acha que o peso carregado pelo outro não é tanto assim? Quantas vezes você não incentiva o outro a ter coragem e a caminhar mais um pouco, quando já está claro que ele não aguenta mais? Assim, mesmo que possua tantos bens materiais, talvez não possua nenhum dos verdadeiros bens essenciais para a vida do espírito.

São estas, dentre outras, coisas que chamam a nossa atenção e que nos levam a pensar como somos contraditórios, incoerentes, hipócritas e falsos, quando queremos possuir o mundo todo, mas, não conseguimos ter a simples posse de nós mesmos. Não conseguimos dar uma direção sensata, justa e coerente com tudo o que pregamos, à vida que levamos e, diante de pessoas que conosco convivem, fazemos até mesmo papel de bobos, acreditando que ninguém está observando o caminhar da nossa carruagem. Não se deixe enganar jamais: sempre estamos sendo observados por alguém. Não passamos despercebidos. Alguém sempre nos observa, de muito perto, ou mesmo à distância.

Já não somos mais convocados a mudar o mundo, como pensávamos outrora, nos tempos da nossa juventude, mas, a mudarmos a nós mesmos e isso importa demonstrar posse e domínio sobre o próprio ser, o próprio espírito e a própria vida. Afinal, de que vale dominar bens e valores materiais, se não conseguimos dominar o bem maior, que é a nossa própria vida?

Reflita sobre isso, no cantinho da sua alma e veja se realmente está na posse e no domínio de si mesmo(a), ou se está assim apenas em relação aos bens amealhados à custa do dinheiro, “seu bem maior”, aquele pelo qual você lutou a vida toda. Apenas reflita. Não se culpe porque, no final de todas as contas, o ser humano tem dessas coisas mesmo e nós, eu e você, não somos muito diferentes. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 28

EDITORIAL DA SEMANA: OS SERES HUMANOS ESTÃO EM PERIGO!

O HOMEM EM GUERRA

O PERIGO RONDA O SER HUMANO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Antigamente eu acreditava que só as pessoas mais velhas é que tinham coisas ruins para contar. Falavam de crises, de mortes, de roubos, de violência, de perseguições, de discriminações, de intrigas e de tudo o mais que se possa imaginar de ruim. Ficar perto de pessoas mais velhas era pedir para ouvir narrativas cercadas de trevas. Meus amigos sempre me diziam que, em casa, seus pais agiam da mesma forma!

Para não ficarmos a mercê daquelas conversas chatas e medonhas, o melhor que podíamos fazer era ficar isolados em nossas ilhas da fantasia, nas quais tudo era cercado de amor, de paixões, de seduções, de alegrias e de muitas expectativas para o futuro. Definitivamente, aqueles eram os nossos sonhos, projetos e ambições. O resto, ah, o resto era coisa de velhos!

Hoje, no entanto, é verdade que já estamos velhos, eu e minha geração, mas, as conversas sobre coisas ruins vêm de todos os lados. Jovens relatam perseguições, discriminações, violência, mortes e todo tipo de maldade. Adultos contam os filhos, os pais, os irmãos e os amigos que foram perdidos para a violência nos estádios de futebol, nas ruas e vielas, nas saídas de shows e de festas, nos metrôs ou até mesmo, imagina, na porta da própria casa. O perigo real está a nos rondar onde quer que estejamos. Já não importa mais se estamos à mesa de refeições, numa sala de cinema, na rua, no bar, no motel, sentados em um banco da praça em frente de casa ou até mesmo em uma igreja. Não bastassem as ações de pessoas malvadas, até as balas perdidas nos localizam e dizimam nossas vidas.

Não são mais os velhos de antigamente que estão espalhando o medo e o pânico. É a própria realidade vivida por crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, que está confeccionando um retrato falado que, infelizmente, somos obrigados a aceitar. Não temos mais as nossas “ilhas de fantasias”; não temos mais a chance de pensar no amor, seja lá da forma que for; não podemos mais acreditar que um simples adolescente ou que um homem de cabelos brancos são incapazes de fazer grande mal a nós ou a qualquer um dos nossos entes queridos.

Como costuma dizer uma autoridade pública: “dias difíceis”. Precisamos parar um pouco para pensar sobre tudo o que está se passando ao nosso redor, no país ou no mundo; no bairro, na cidade ou no estado; em família ou nas escolas. Enfim, precisamos olhar para todo este cenário e tentarmos responder, ainda que seja apenas para nós mesmos: como chegamos a este ponto?

Por que uma simples discussão no trânsito, acaba em morte(s)? por que, uma separação conjugal põe fim, também, a uma ou mais vidas? Por que o anúncio de um aumento de simples 0,17 centavos no preço de um bilhete de metrô (como no Chile destes dias) se transforma em estopim para uma rebelião popular com consequências desastrosas, causando mortes e prisões violentas? O que as gerações passadas sabiam fazer tão bem, que as de hoje não conseguem fazer? Enfim, repitamos a pergunta: por que chegamos a este ponto?

O mar continua calmo e sereno na maior parte do mundo; os pássaros continuam o seu lindo canto; o sol ainda brilha no alto das colinas e das copas das árvores; a abóbada celeste permanece toda iluminada nas noites de lua cheia; as cascatas continuam jorrando bilhões e bilhões de litros de água por minuto; os peixes ainda se divertem no fundo dos oceanos, apesar da poluição; os bebês continuam encantando a todos nós; o vento e a brisa permanecem suavizando o calor excessivo que por vezes sentimos nos invadir. A natureza, apesar de todo o mal que nós lhe causamos, permanece bela, serena, harmônica, pacífica e não revela ser nossa inimiga. Pelo contrário, continua nos presenteando a cada dia com as suas dádivas.

Mas nós, seres humanos, quem éramos e quem somos hoje? Quando assistíamos filmes envolvendo as grandes guerras épicas, com milhares de homens enfrentando-se e se auto dizimando com espadas e lanças em pleno céu aberto, nós os chamávamos de imbecis, de idiotas e de ignorantes diante de tamanha violência praticada uns contra os outros. Não é que estamos, em pleno século XXI, agindo da mesma forma, apesar de usarmos armas diferentes? E ainda existe quem acredita piamente que a solução é dar mais armas para o povo. Quanto mais armado, mais o povo poderá se defender. Que país é este? Que mundo é este? Para onde estamos caminhando?

Eu não gostaria de escrever sobre tema tão obscuro, tão cercado de trevas e de desesperança, mas, a realidade obriga a gente a parar para pensar e, sem saber as respostas, a compartilhar nossos sentimentos e preocupações com nossos semelhantes. É por esta razão que escrevo este texto, para compartilhar com você estas angústias e incertezas, na esperança de que diga que estou redondamente enganado, e que eu falo sobre estas coisas porque, tal qual os idosos do meu tempo de menino, eu também estou velho e não tenho coisa melhor para falar. Por favor, diga que é isto! Gostaria de acreditar que estou velho e que só consigo enxergar o lado feio da vida.

Mas, infelizmente, penso que você me dará razão e que concordará comigo que a situação pede cautela, diálogo, oração, meditação, controle emocional, desapego. Pede mais amor, mais harmonia, mais tolerância de uns para com os outros. Acredito que você, que não é desprovido(a) dos sentidos da audição, da visão e de um mínimo de racionalidade, concorda que estamos vivendo “tempos bastante difíceis” e que precisamos dizer não ao ódio, ao desejo de vingança, a todas as formas de intolerância, de racismo e de fobias para então, e somente então, passarmos a ter assuntos mais divertidos para contar. Passarmos a viver, todos, não em nossas ilhas da fantasia, como ainda fazem alguns, que preferem fazer de conta que nada demais está acontecendo, mas, em uma realidade melhor, mais humana e mais humanizada.

Nós, seres humanos, merecemos algo melhor do que isto com o que estamos nos “presenteando”. Merecemos algo muito melhor, porque quem nos deu a vida, deu-nos, também, tudo o mais de que precisamos para sermos realmente felizes. Reflita um pouco sobre tudo isto. Reflita e faça seus próprios questionamentos e, caso encontre respostas satisfatórias, compartilhe-as comigo. E, se ainda assim for possível, seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

out 21

EDITORIAL DA SEMANA: OS CICLOS DA VIDA

CICLOS DA VIDA - 2019

OS CICLOS DA VIDA: É PRECISO ENXERGÁ-LOS, COMPREENDÊ-LOS E ACEITÁ-LOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Seria muito bom se as pessoas, a certa altura da vida, tentassem olhar para trás, principalmente, para as suas próprias realidades, e conseguissem identificar cada uma das etapas pelas quais passaram, desde a mais tenra idade até o momento atual. Seria bom e bastante útil.

A regra do nascer, crescer, reproduzir e morrer, não diz muito daquilo que realmente enfrentamos ao longo da vida. Porque nascer, todos que aqui estamos nascemos, crescer e reproduzir, nem sempre é fato consumado e, morrer, parece ser mais certo do que até mesmo nascer porque alguns, nem isso conseguem!

Entretanto, para os que conseguem, mais ou menos, seguir a regrinha acima, o olhar para trás, certamente vai revelar toda uma caminhada percorrida. Tempos, lutas, desafios, vitórias, derrotas. Tempos ou ciclos iniciaram e findaram sem que, nos exatos momentos muitos de nós tenhamos nos dado conta. Mas, aconteceu: foram diversos ciclos e, se bem analisados, revelam o quanto crescemos a partir de cada um deles. Aí, a regra do crescer começa a fazer algum sentido, porque já não se fala em estatura física, mas, sim, em estrutura  intelectual, mental, espiritual e emocional. Envolvemos-nos com pessoas, com instituições e com projetos, muitos dos quais entraram e saíram das nossas vidas deixando profundos cortes que, no entanto, cicatrizaram e tornaram-se como imagens opacas.

Cada um destes ciclos teve a sua importância, a sua relevância e, de algum modo trouxe ganhos imensuráveis. No entanto, nós, com a nossa afoiteza, embrenhamos-nos em meio aos dentes da engrenagem e fomos deixando o tempo passar como labareda de fogo, queimando tudo o que, pessoalmente, era nosso: sonhos, projetos, possibilidades, potencialidades para, no fim, deixar-nos esmigalhados pelo cansaço, pela idade e, em muitos casos, pela doença visível ou ainda por se revelar.

É preciso caminhar, porque faz parte dos grandes segredos da vida, porém, examinando e identificando cada um dos ciclos vividos, deles extraindo  sabedoria, conhecimento, experiência, mas, também, o desapego e a humildade, para aceitar que, ao final de cada um, sempre tem outro ciclo já engatilhado, sabendo ser preciso não fazer “jogo duro” nem “cara feia” para a vida, mas, simplesmente, sair de um ciclo e, pronta e naturalmente, deixar-se levar pelo seguinte sem traumas, sem dramas e sem lágrimas.

Nada nesta vida é permanente. Tudo é efêmero, justamente, para que possamos desfrutar de tudo. Por esta razão, enganam-se os que amarram-se a si próprios a determinados ciclos da vida, e deles rejeitam sair, sob a singela e torpe desculpa de que estão satisfeitos ou realizados naquele patamar. Podem até estar desta forma, mas, a vida não está assim com eles. A vida quer que cada um de nós viva ciclo por ciclo, tirando o máximo de proveito que cada um pode oferecer sem, no entanto, a nenhum deles se apegar com afinco ou obsessão.

É preciso enxergar e compreender cada um dos ciclos, vividos e ainda por viver, para não impedir o livre curso da bela história humana. É necessário termos a exata medida de todas as coisas para, deixando certos apegos de lado, estarmos sempre prontos para a próxima fase do jogo. Este é o grande lance! Esta é a grande jogada. Eis aí a verdadeira demonstração de coragem e, até certo ponto, de sabedoria, pois, revela-se fraco e medíocre aquele que se permite apegar a este ou àquele ciclo, inviabilizando totalmente o curso natural da história. Da sua própria história.

Examinar a caminhada, refazendo mentalmente cada um dos ciclos vividos e vislumbrando expectativas sobre o que ainda está por vir nos seguintes, é que dá o verdadeiro sabor para a vida e que faz de nós, de cada um de nós, um competidor de verdade. Theodore Roosevelt ensinava que “É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota”.

Conheci estes dizeres quando ainda era bem jovem, na casa dos meus dezenove ou vinte anos e, de lá para cá, sempre recorro a eles para turbinar a passagem de cada um dos ciclos da minha vida, saindo de um e seguindo para outro sem oferecer qualquer resistência ou demonstrar qualquer espécie de apego. Uma coisa é discorrer, em tese, acerca da caminhada sobre um cabo de aço a trezentos metros do solo. Outra, bem diferente é, efetiva e concretamente, fazer o percurso. Óbvio que a realidade é sempre mais instigante e provocativa e desperta na gente a potência máxima para o desafio.

Ora, ficar estacionado em determinado ciclo, deixando de se expor às intempéries e, também, à vitória, é bastante cômodo quando, na verdade, com isso, revelamo-nos apegados, apequenados, medrosos, acovardados e, o pior de tudo, crentes de que somos impotentes para novos e saborosos desafios.

Ciclos são sinônimos de tempo e, portanto, têm início e fim e nós, se quisermos ser lembrados e imitados pelos que estão chegando na ribalta, devemos obedecer a lógica da natureza e, com sabedoria, desapego, coragem e humildade, fazermos, de forma serena e prazerosa, a passagem de um ciclo para o outro sabendo que, assim, somos mais, somos história, somos vencedores, porque teremos decidido, como ensinava Roosevelt, encarar a próxima etapa que, quem sabe, poderá ser, também, a última.

Que este texto não te assuste nem te cause medo, pavor ou pânico, mas, que, ao contrário, sirva para incentivá-lo a sair desta mesmice em que vive, acreditando que estar estacionado no ciclo atual é o seu destino final. Não é, a vida tem muito mais para te oferecer e, no próximo ciclo, espera muito mais de você, simplesmente porque, a vida não é o que se vê ou o que se imagina ser, ela é, para nós, infinita e, assim, tem muita coisa boa pela frente. Prossiga com a sua caminhada enxergando e compreendendo cada um dos ciclos, vividos e ainda por viver. Assim, estará apto para continuar vivendo, porque viver, ah, viver é uma arte que poucos artistas dominam com precisão e com habilidade. Pense sobre isto e prestigie a dinâmica dos ciclos, os ciclos da vida. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 14

EDITORIAL DA SEMANA: POTENCIALIDADES DA MENTE HUMANA

BRUCE LEE

 A FORÇA E O PODER DA MENTE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O ano de 2023 marcará o cinquentenário da morte de Lee Jun-fan, um cidadão nascido em San Francisco, no estado da Califórnia, que, apesar de ser filho de uma família originária de Hong Kong, passa boa parte da vida nos Estados Unidos, cursando a faculdade de filosofia e, mais tarde, ensinando artes marciais, já com o nome de Bruce Lee, com o qual fica mundialmente famoso, tanto como mestre imbatível do Kung-Fu como, também, como excelente ator, cujos filmes ameaçam seriamente a supremacia de Hollywood, no início da década de 1970. 

Bem, a história de Bruce Lee é bastante interessante sob diversos aspectos. Tantos, que merece um livro dedicado àquele que, há mais de cinquenta anos, conseguiu enxergar o que muitos sábios de hoje começam a compreender com alguma dificuldade. Não pretendo, aqui, neste espaço restrito, discorrer de forma alongada sobre a vida, a carreira e a obra do Grande Mestre, cuja morte prematura, aos 32 anos de idade, sepultou para sempre um projeto de vida e de carreira que, certamente, teriam muita influência no modo de vida ocidental. Permanecem, no entanto, as ideias e os exemplos deixados que merecem destaques e que, por muitos e muitos anos, ainda, serão, para todos nós, amantes ou não das artes marciais, motivo de interesse, de estudo e de divulgação.

Bruce Lee não se tornou um mestre das artes marciais da noite para o dia: passou por diversos e severos treinamentos, tanto nos EUA, quanto na China e mesmo em Hong Kong, onde aprendeu o Kung-Fu, uma arte marcial tradicional, e muito antiga,  cuja essência é formada por movimentos físicos suaves e harmônicos entre si, voltados para o conhecimento e para o pleno domínio do corpo e da mente e, eventualmente, para a defesa pessoal, contra o ataque de  inimigos ferozes e perversos. Ensinado e treinado por bons e sábios mestres orientais, e sendo extremamente disciplinado no aprendizado e nos treinamentos individuais, Bruce Lee aprendeu diversas técnicas, ligadas a outros estilos do próprio Kung-Fu e, também, de outras artes marciais. Foi discípulo, inclusive, do lendário Mestre Yp Man, com quem aprendeu a essência do wing chun, uma modalidade mais técnica e mais sofisticada de arte marcial.

Mas, Bruce Lee, que tinha enorme apreço, também, pela filosofia, não se contentou com o pleno domínio que adquiriu do conjunto de todas as artes marciais praticadas de forma ostensiva. Em dado momento, ele cria um estilo próprio de luta, o "Jeet Kune do" (a arte do punho que intercepta), revelando-se a mais científica de todas as artes marciais. Entretanto, o próprio Bruce vai compreender, um pouco mais tarde, que estilos de lutas, por mais sofisticados que possam ser, jamais serão suficientes para derrotar inimigos cada vez mais treinados e preparados para o combate. Ele, então, e aí está a sua grande genialidade, vai firmar o seguinte convencimento: “não usar nenhum modo, como modo. Não ter nenhuma limitação, como limitação”. Ou seja, trabalhando a junção entre as diversas técnicas de artes marciais, e mesmo do "jeet kune do", com princípios tanto da filosofia como da psicologia, Bruce Lee chega à conclusão de que, o que o bom praticante de arte marcial precisa ter, é a capacidade para dar respostas imediatas a qualquer forma de ataque, deixando para trás tudo o que até então fora ensinado, na base da previsibilidade: “se meu adversário agir desta forma, eu devo responder desta outra”, com a utilização de mecanismos que, simplesmente, robotizam o ser humano, fazendo dele um mero repetidor de gestos, violentos ou não, previamente treinados. Em determinado momento da carreira, Bruce Lee vai afirmar que, para ser verdadeiramente completa, e, até certo ponto, imbatível, a pessoa precisaria de quatro braços e quatro pernas, tendo em vista a alta qualificação dos adversários e o elevado grau dos desafios a serem enfrentados.

Ao chegar a esta conclusão, Bruce vai afirmar que: “hoje eu já não acredito mais em nenhum estilo, como superior aos demais”. Para ele, o segredo está na mente humana que, sabiamente manipulada por cada um de nós, tem força e poder de superação incríveis. Olhar nos olhos dos adversários e enxergar o ponto fraco, o medo escondido e, de forma sábia e sofisticada, dar respostas superiores ao que está sendo exigido por tais adversários, levando-os à dúvida e à insegurança quanto aos métodos empregados, a partir de quando serão, seguramente, derrotados.

Durante a sua caminhada em busca do conhecimento, e enquanto se recuperava de uma lesão na coluna vertebral, em decorrência da qual ficou de cama por seis meses, Bruce Lee dedicou dias e mais dias ao estudo, tanto das técnicas de artes marciais orientais e ocidentais, milenares ou mais recentes como, também, da filosofia, lendo inúmeros livros, dentre os quais, deteve-se no pensador indiano Jiddu Krisknamurti, que ensinava que não devemos buscar a luz em nenhum mestre, guru, livro, seita, religião ou em qualquer diretor ou condutor espiritual, mas, dentro de nós mesmos e que, o ser humano precisa, acima de tudo, livrar-se dos condicionamentos em que vive, a tudo aceitando e com tudo concordando, sem oposição, sem reflexão e sem os imprescindíveis questionamentos e aperfeiçoamentos.

Para Krishnamurti, o ser humano precisa libertar-se de todas as formas de condicionamentos, a fim de que então, e somente então, possa liberar força, energia e direção próprias, de acordo com os desafios de cada momento e de cada época, livrando-se dos fantasmas do passado e não se preocupando com os lances do futuro. Bruce Lee apega-se a esta reflexão do pensador indiano, para transformar a arte marcial, que de forma alguma prescinde da dedicação, da disciplina e do treinamento, em verdadeira máquina de guerra humana, donde jamais ter sido vencido em combate. Ele que, inclusive, muito além dos treinos no tatame, era versado nas lutas de rua, em Hong Kong, enfrentando, na juventude, adversários reais, muitas vezes, munidos com facas e com correntes, razão pela qual o pai, temendo pela vida do filho, envia-o para os EUA.

Talvez os praticantes de MMA, de UFC ou de tantas outras modalidades de artes marciais, ainda não tenham, apesar de passados quase cinquenta anos da morte de Bruce Lee, compreendido exatamente que a força maior para derrotar os adversários não está no físico avantajado, nos músculos esteticamente trabalhados, nem na repetição ostensiva de sequências de ataques e de defesas previsíveis, mas, simplesmente, no interior de cada um que, conhecendo-se a si mesmo, pode dar respostas simples, e até então impensáveis, para desafios, também, impensáveis. A cerca da simplicidade, o lendário Mestre Yp Man, já ensinava pelo final dos anos de 1969 que “a simplicidade é a forma mais perfeita da sofisticação”, deixando claro que a nossa essência é muito simples e, com ela e por meio dela, podemos derrotar todos os nossos inimigos e adversários sem mover, sequer, um dedo. Ou seja, é a arte de vencer a luta sem lutar, valendo-se, apenas, do potencial intelectivo e sapiencial.

É justamente a arte de vencer a luta, qualquer luta, sem lutar, que está fazendo muita falta aos seres humanos que, atualmente, povoam este imenso planeta. Precisamos compreender que, de dentro de nós, de cada um de nós, jorram rios de sabedoria, de força e de poder capazes de, todos juntos, mudarem para sempre as nossas histórias, pessoais e coletivas. Enquanto acreditarmos na força física e no poder do dinheiro e das armas, continuaremos a vencer e a perder batalhas sem, no entanto, nunca, jamais, conseguirmos vencer a guerra. Incontáveis almas já partiram deste mundo, sem terem saboreado o gosto da vitória final, simplesmente porque conseguiram vencer pequenas batalhas, mas, a guerra mesmo, não. Saíram todos derrotados e, até certo ponto, frustrados!

É importante perceber que o conhecimento acerca das potencialidades da máquina humana assemelha-se ao do mecânico que, ao ouvir o simples barulho do motor do carro, consegue identificar o problema e, imediatamente, sabe perfeitamente o que deve ser feito para vencer o desafio daquele momento. Este simples mecânico não passa vida toda treinando os ouvidos em barulhos de motores, mas ele, como ninguém, é capaz de, ouvindo-os, saber exatamente onde atacar para derrotar, o problema apresentado.

Talvez, a grande lição deixada por Bruce Lee tenha sido esta: o segredo para a vitória, em qualquer circunstância, é o pleno domínio da mente, de modo a surpreender qualquer adversário que, sem muita técnica, conhecimento ou sabedoria, apresenta-se diante de nós pronto para nos impor severa derrota. Mesmo sem muita técnica, conhecimento ou sabedoria, nossos adversários sempre acreditam saber o tipo de resposta que daremos. Porém, jamais pensam no imponderável, no inimaginável, no efeito surpresa que, somente os verdadeiramente sábios conseguem colocar em prática nos momentos mais dramáticos de suas vidas porque, além de conhecerem com precisão o funcionamento da máquina humana, a partir do conhecimento de si próprios, sabem como tirar proveito da distração, da desatenção, da falta de foco e da falta de conhecimento, próprio e alheio, dos adversários a serem enfrentados.

E aqui, já não se fala mais em artes marciais ou em lutas de rua ou de qualquer outro cenário. Fala-se, também, e mais especificamente, sobre todas as lutas para as quais somos desafiados no dia-a-dia da vida, seja na rua, no trabalho, no meio acadêmico, na família, na comunidade, seja, enfim, aonde for. Em cada uma destas lutas, precisamos ativar o centro operacional interno, de onde emanam  respostas, suficientemente aptas para assegurarem a nossa vitória sobre adversários que, muitas vezes, movidos apenas pelo instinto animalesco e por sentimentos maldosos ou mesmo negativos, atacam-nos de modo violento, sem saberem que, mesmo sem lutar, somos capazes de derrotá-los, porque agimos com simplicidade, com sabedoria e porque, também, temos conhecimentos acerca dos extremos humanos.

Este texto, além de reativar recordações sobre Bruce Lee é, também, para reacender em cada leitor, e em cada leitora, a certeza de que existem luz, ouro, paz, sabedoria, força e poder no seu interior. Só depende de você tomar posse de todo este patrimônio que, devido à sua inércia, está parado e cheio de poeira, enquanto você vive dando murros em ponta de faca e sendo derrotado(a) por adversários que nem sempre possuem tanto preparo assim, mas, apenas, são hábeis na arte de assustar e de amedrontar todos os seus alvos. Pare para refletir e, valendo-se do tesouro mental, para agir. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

out 07

EDITORIAL DA SEMANA: PROCESSOS DE DESCONSTRUÇÃO DA PAZ

GUERRA TOTAL

CAMINHOS QUE LEVAM À DESCONSTRUÇÃO DA PAZ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas acerca do fato de que um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade, é a constante e permanente ameaça à paz. E aqui, não falamos apenas da paz cujo oposto leva aos campos de batalhas, nos quais são encontrados todos os tipos de armas de fogo e de explosivos, capazes de dizimarem populações inteiras. Não. Falamos, também, da paz entre as nações, da paz política, social, comunitária e, até mesmo, da paz em família. Falamos da paz, como estado desejado para que os seres humanos possam viver e desenvolver seus projetos, sem serem fustigados ou ameaçados pela fúria de adversários e de inimigos vorazes. Adversários e inimigos que amam e que prestigiam todo tipo de conflito. Existindo qualquer potencial para a morte da paz, lá estão eles prontos para a ação! Parece invenção, mas, não é não. Existem pessoas que detestam a paz. Não sabem conviver com ela, desconhecem-na na prática ou odeiam aquela que a maioria das pessoas tanto amam e perseguem: A PAZ!

Alguém poderá objetar, até com certa dose de razão, que a humanidade jamais conheceu período de paz integral, haja vista que, desde que o homem existe, conflitos,  embates e combates fazem parte da relação constante com seus congêneres. De fato, cem por cento de paz, atualmente, nem nos cemitérios!

Entretanto, é preciso admitir, a civilização nunca enfrentou tantas linhas de batalhas e de combates tão intensos, violentos e destruidores, como tem enfrentado de meados do século XX para cá. São combates e embates de cunhos bélicos, religiosos, sociais, políticos, ideológicos, filosóficos, intelectuais e até mesmo de costumes e de tradições. Neste emaranhado de motivos, até o ambiente familiar passou a servir como campo de severas batalhas, quando são seladas grandes inimizades em decorrência dos danos causados, mutuamente, por membros de um mesmo grupo.

Ora, sem encontrar refúgio seguro, e diante da iminência de ataques vindos de todas as direções, o homem moderno comporta-se como quem está sempre pronto para o combate, seja ele da natureza que for. Não importa de onde partam os ataques, é preciso enfrentá-los à altura e, o pior, revidá-los com precisão e rigor. Assim, temos o cenário que vemos todos os dias, por onde quer que andemos: as nações, a sociedade, a comunidade, o ambiente familiar, o de trabalho também, o político, o religioso e o acadêmico, todos, divididos em pequenos, médios ou grandes grupos, devidamente alinhados, preparados e dispostos a tudo para fazerem valer ideias e projetos, muitos dos quais de cunho meramente pessoal e todos, vale dizer, de natureza absolutamente efêmera.

Bem, por trás deste verdadeiro barril de pólvora, e de tanta preparação e disposição para a guerra, que nem sempre termina com sangue, mas, com sérios prejuízos psicológicos, sociológicos, políticos, financeiros, sanitários e existenciais, existe todo um processo de desconstrução da paz. Ninguém vai, loucamente, para o campo de batalha, disposto a “matar” ou a “morrer” sem que, antes, tenha tomado conhecimento sobre causas e efeitos, sobre o inimigo e sobre as condições do próprio arsenal. E é aí que tudo tem início.

Existem alguns detalhes que antecedem o ambiente belicoso, ocorra onde ocorrer, tenha a forma que tiver. Um destes “detalhes”, que podemos denominar como pavios, é justamente a existência dos chamados “boatos”. Os boatos que, na maioria das vezes, distorcem, ou até mesmo falseiam, a verdade, possuem um poder de alastramento incrível. Saem de uma boca ou de uma rede social qualquer e partem feito rastilho de pólvora chegando, impreterivelmente, nos endereços certos: naqueles que são os verdadeiros promotores da guerra. A partir daí, esses promotores da guerra, tratam de, apenas, direcionar os boatos recebidos. Pronto! Está preparado o cenário. Pessoas sentem-se ofendidas e magoadas; outras, traídas e apunhaladas pelas costas; outras, desiludidas e decepcionadas e outras, ainda, severamente excluídas e/ou discriminadas. Enfim, os boatos possuem força incrível para a desconstrução da paz. E com eles, obviamente, a mentira.

Outro detalhe antecedente, e não menos instigante de conflitos, de embates e de batalhas, é a divulgação permanente, seja por meio da palavra escrita ou mesmo oralmente transmitida, do apoio irrestrito à tese de que “a melhor defesa é sempre o ataque”. Ou seja, tão logo a pessoa perceba, ainda que apenas de forma aparente, a possibilidade de iminência de um ataque, deve partir, imediatamente, para o contra-ataque, no exercício de uma defesa que nem precisa ser própria. Pode ser em favor de terceiros. Vale tudo, para quem não tem qualquer compromisso com a paz. Tudo motiva. Tudo justifica.

Tem, ainda, a defesa que muitos fazem do uso de armas letais, como fórmula perfeita e eficaz para combater os “inimigos da paz”. Ou seja, para defender a paz, pega-se em armas e extermina-se o suposto inimigo. Inimigo da paz! Para os defensores deste “detalhe”, o perigo vem sempre do outro. É o outro que representa o mal, o adversário a ser combatido. Aquele que ameaça, verdadeiramente, a paz. Ao lado destes, marcham significativas parcelas da sociedade. Marcham em defesa da guerra, contra os adversários da paz, que são sempre os outros!

Por fim, e sem, absolutamente, exaurir a lista de detalhes antecedentes, encontramos os apologistas da vingança. Para estes, o mal precisa ser combatido com a mesma intensidade com que praticado. Porque, para eles, se o mal não for combatido com intenso rigor, tende a se propagar ainda mais. Quando, por todas as formas “legais” e conhecidas, não puderem promover a vingança desejada, partem para a vingança financeira. Qual seja: o dano moral. Impor ao outro uma pena financeira grave, para estes apologistas, pode ter efeito pedagógico muito importante além de, evidentemente, fazer inchar bolsos e contas bancárias.

Bem, todos estes – poucos, é bom que se diga – detalhes elencados, na verdade, possuem, acima de tudo, a capacidade para a desconstrução da paz. Seja da paz em campo aberto, entre as nações, na política, na sociedade, na comunidade de trabalho, acadêmica ou religiosa, ou na própria família.

Se pararmos de dar ouvidos aos inúmeros boatos que chegam até nós; se deixarmos de abraçar teses e métodos, supostamente, defensivos; se abandonarmos o apreço pelas armas letais e se, principalmente, deixarmos de fomentar a vingança, tenha a forma que tiver, certamente, estaremos contribuindo para a manutenção da paz. Ou, na pior das hipóteses, estaremos cooperando com o atraso no início da guerra.

Se não conseguirmos abraçar as fórmulas acima expostas, para a manutenção da paz, que sejamos, pelo menos, promotores do diálogo, da conciliação, da tolerância e do perdão, como formas eficazes de resolução de quaisquer conflitos. Uma inimizade, um corpo no chão ou um dinheiro a mais não são capazes de reconstruir a paz. Quando muito, ajudam a disseminar o ódio, o medo e, o pior, mais desejo de vingança.

Como sempre, o objetivo aqui é incentivar a reflexão que, caso seja feita, poderá auxiliar na melhor compreensão acerca do estado a que chegamos, com todo o progresso tecnológico e com toda a civilidade que julgamos possuir. Se for possível para você, reflita. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

set 30

EDITORIAL DA SEMANA: CRENÇAS E PENSAMENTOS LIMITANTES

PENSAMENTOS LIMITANTES

CRENÇAS E PENSAMENTOS LIMITANTES: É PRECISO ABANDONÁ-LOS, PARA PODER AVANÇAR –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém, e nem deve assustar a ninguém, a constatação de que nós, seres humanos, estamos encurralados no avançar da civilização. Chegamos até aqui, porém, não estamos agindo com a sabedoria e com a perspicácia necessárias para continuarmos avançando no processo cognitivo, que poderia nos transformar em pessoas mais dignas, superiores e cada vez melhores.

O mundo atual, com todas as estruturas dominantes, e cada vez mais ortodoxas, tem nos levado, não apenas ao isolamento individual, mas, e, sobretudo, ao isolamento coletivo. Cada vez mais somos empurrados para guetos religiosos, políticos, filosóficos, ideológicos, todos, fundados em crenças, em pensamentos, em convicções e em “certezas”, que só fazem limitar a nossa capacidade de avançar na compreensão do homem, enquanto espécie, e da natureza, enquanto berço e leito destinados ao acolhimento e à própria sobrevivência de todos os seres vivos.

Guiados por uma espécie de bússola construída por grupos ideológicos fortemente politizados, por sólidas instituições religiosas e acadêmicas, por pensadores que se dizem modernos, mas, que, no fundo estão atrelados à era glacial, e por um conceito de Estado cada vez mais elaborado e difundido por elites que nem sempre têm compromisso com a evolução e com o progresso de homens e de Nações, vemos muitos dos nossos contemporâneos se apequenarem, fazendo seus, crenças e pensamentos estanques, que defendem com unhas e dentes, ou seja, a tudo aceitam como verdade absoluta, em nada oferecendo resistência ou contestação impossibilitando, assim, a caminhada investigativa, que é o nascedouro do conhecimento na forma mais pura e mais genuína.

Muitos homens e mulheres deste nosso tempo têm se deixado levar por estes, que podemos denominar como “pensamentos e crenças limitantes”, simplesmente, abandonando a capacidade de crescimento intelectual e de, o que é mais importante, servirem de exemplo e de incentivo para as gerações que vêm logo atrás. Acreditam, muitos destes homens e muitas destas mulheres, já serem detentores de todo o conhecimento necessário, seja em que aspecto for, e que, portanto, agora, é só se trancarem nos seus guetos individuais e egoístas, blindando suas mentes e seus corações contra forasteiros, para assegurarem todo o bem de que necessitam.

A partir destas convicções e certezas, que adotam como verdades absolutas, isolam-se do mundo, e no mundo, e, simplesmente, param de evoluir, vivendo apenas de resquícios de um passado que vai ficando cada vez mais distante; de frases construídas há tempos; e das famosas “opiniões formadas sobre tudo”, como apregoa o cancioneiro popular. Este tipo de pessoa, cujas características são encontradas em todos os estratos sociais, terminam por venderem “verdades” e conhecimentos que só cabem nas próprias cabeças, haja vista não resistirem mais, a nenhuma investigação mais detalhada e aprofundada.

São, portanto, os pensamentos e as crenças limitantes, que estão impedindo os homens e as mulheres deste nosso tempo de trevas e de obscurantismo intelectual, os responsáveis pelo embotamento da raça humana, posto que, quem assim não se adequa e aceita viver, passa a ser objeto de exclusão e, com bastante frequência, de perseguição mesmo.

Assim, temos visto, e de certa forma enfrentado, situações das mais grotescas, considerado todo o progresso que a humanidade experimentou nos dois últimos séculos e, particularmente, nas últimas cinco ou seis décadas. Todo o avanço da ciência e da tecnologia não tem encontrado paralelo no avanço cognitivo de boa parte da humanidade que, sem saber muito o bem o que fazer, prefere andar em bandos, em busca de gurus, de mestres, de líderes religiosos, de profetas do apocalipse, de guias espirituais e de todo tipo de condutores, destes cujos livros estão apinhados nas livrarias, físicas ou virtuais, espalhadas pelo mundo afora.

Os seres humanos deste tempo, ao invés de buscarem dentro de si mesmos a luz, as respostas e as soluções para seus inúmeros conflitos, assim como para os da própria espécie, preferem dar ouvidos aos pregadores separatistas, que trabalham a soldo de suas escolas políticas e filosóficas, de suas seitas e religiões e afirmam conhecer perfeitamente, tanto o verdadeiro caminho, quanto o caminho da verdade. E, sem se darem ao trabalho de estudar, de pesquisar e de investigar todas as informações que recebem, as massas assimilam tudo aquilo que ouvem e saem divulgando por todos os meios possíveis e imagináveis e, o pior, alimentando conflitos uns com os outros, em razão dos guias e condutores aos quais servem, e seguem, a pretexto de professarem esta ou aquela ideologia, ou mesmo convicção filosófico-religiosa.

Ora, há milhares de anos os homens daqueles tempos remotos faziam a mesma coisa: ouviam longos discursos, formavam filas para serem abençoados por seus gurus e mestres, cultuavam deuses, apresentavam oferendas e ofereciam sacrifícios e, do mesmo modo que hoje, combatiam uns aos outros, em nome da crença e das ideias predominantes. Mas eles ainda tinham muito a avançar!

E hoje, o que temos, o que vemos? Temos pessoas que estão abrindo mão do direito de pensar. Vemos pessoas vendendo pensamentos, por meio de livros e de palestras, e enriquecendo às custas de verdadeiras massas humanas que, ao final de tudo, andam por aí dando prestígio, fama e dinheiro para os grandes, não sábios, mas, sabichões, mestres e acumuladores de fortunas.

É preciso que os homens e que as mulheres deste nosso tempo usem o cérebro, a mente e a consciência para descobrirem novas e promissoras formas de vida, aqui mesmo, neste Planeta maravilhoso, chamado Terra. Já passa da hora de buscarem dentro de si mesmos, a luz que já brilha em abundância, e deixarem de andar iluminados por fagulhas que escapam daqueles que sabem negociar, no mercado humano, o fruto das suas baterias internas.

É preciso abandonar as crenças e os pensamentos limitantes e, até certo ponto, alienantes, para que se possa retomar o caminho da evolução cognitiva, para o qual fomos criados e do qual estamos desviados, saindo do nosso isolamento e dos guetos nos quais fizemos nossa morada, onde já habitamos por muitas e muitas gerações.

Não podemos continuar sendo deste ou daquele País, desta ou daquela religião, defensores desta ou daquela linha de pensamento. Somos todos de uma mesma e única espécie: a humana. Precisamos abandonar todas as divisões e formas de separatismos, pois, é de onde vêm os conflitos, os embates e as guerras. Precisamos refletir juntos e, juntos, buscarmos o “ser humano renovado” que habita nas cavernas internas que trazemos em cada um de nós, desde sempre. Reflita, pesquise, investigue sobre tudo isto e, fundamentalmente, rejeite conclusões, porque elas significam o fim da linha. Quando concluímos alguma coisa, importa dizer, chegamos ao final daquela jornada, e a nossa jornada jamais tem um fim. Somos, apenas, substituídos pelos que vão chegando pouco a pouco durante, ou mesmo após, a nossa partida.

Porém, não abra mão do direito de ter seus próprios pensamentos e seu próprio conhecimento, frutos da sua vivência, da sua convivência, das suas pesquisas e das suas investigações. Pare de andar sob a tutela de mestres, de gurus e de condutores de ocasião, que vendem livros igual água e se dizem conhecedores do verdadeiro caminho para a felicidade. Não acredite nisto, nem gaste o seu precioso dinheiro.

Seja senhor, senhora, do seu próprio destino e comece por questionar tudo o que está por trás de todos os discursos que ouve; das pregações, dos “ensinamentos” e dos pseudoconhecimentos que são passados por aqueles que, no dia-a-dia, revelam não saberem viver, e não vivem, o que ensinam nem o que pregam dos púlpitos e das bancadas. Passe a refletir sobre todas as coisas, antes de formar o seu próprio pensamento e a sua convicção cronológica. Assim, você estará caminhando, evoluindo, construindo, renovando e servindo de exemplo paras as novas gerações que estão aí e para as que já estão a caminho.

Reflita e investigue sobre o papel que você tem desempenhado: se tem sido o de pensador, de investigador, de pesquisador, de inovador, de construtor, ou, simples e confortavelmente, o de seguidor de líderes nos quais prefere acreditar cegamente, só porque reproduzem, eles também, livros e palavras antigas, frutos do pensamento e da investigação daqueles que, no seu devido tempo, foram mais eficientes do que nós, na arte de pensar. Se acredita que só eles eram bons, você também é vítima das crenças e dos pensamentos limitantes que, iguais ao prego, estão te fixando na madeira dura do tempo e da história, impedindo que explore todo o seu verdadeiro potencial, deixando de colaborar com o projeto expansionista da vida, seja do ponto de vista da Evolução, ou mesmo da Criação. Fuja deste cenário, enquanto é tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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