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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

ago 19

EDITORIAL DA SEMANA: AS CHAVES E AS PORTAS ESTÃO DIANTE DE NÓS – PRIMEIRA PARTE

PORTAS ABERTAS - 2

CHAVES E PORTAS: CAMINHOS LIBERADOS –

PARTE I –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A visão realista do mundo permite a transparência de cenários que, em muitas ocasiões, e situações, impõem limites diante de nós. Alguns desses limites instigam nossa vocação para a superação e, logo, logo, conseguimos vencê-los. Entretanto, existem outros limites que, simplesmente, revelam-se intransponíveis, em razão das inomináveis altura e espessura.

No primeiro caso, mesmo diante das nossas fraquezas e incertezas, recebemos alguns incentivos e estímulos, porque tais limites podem, de fato, ser transpostos. No segundo caso, no entanto, ninguém ousa nos instigar, porque a impossibilidade é reconhecida por todos. Então, o que fazer? Recuar, desistir?

Não, não devemos recuar nem desistir, porque, se existe um mundo visível que apresenta limites intransponíveis diante de nós, existe, também, um mundo invisível que, simplesmente, abre portas diante de nós, facilitando a nossa passagem para lados, mundos, situações e oportunidades que, até então, pareciam impossíveis e inexistentes. Não são portas imaginárias, virtuais, mágicas ou coisas mirabolantes, daquelas que só vemos em filmes de alta ficção científica. São portas reais, plausíveis e sensíveis. Portas que são abertas por meio de chaves que nos são fornecidas por forças superiores.

O segredo não está nas portas, mas, na obtenção e no manuseio das chaves! Em nossas mãos, normalmente, existem cinco dedos. Para cada dedo, um desafio a ser vencido. Cinco desafios que, uma vez vencidos, abrem o caminho para o predomínio do espírito sobre a matéria: o orgulho, a prepotência, a ambição, a inveja e a ira. A derrota destes cinco adversários permite que consigamos destravar algumas portas e, assim, ter acesso a caminhos até então tidos como inexistentes e até mesmo impossíveis de serem trilhados.

O orgulho é, geralmente, o primeiro desafio que nos empareda e nos atinge com força. Diante dele sentimo-nos frágeis e submissos, a ele nos entregando com facilidade e com docilidade, servindo-o de todas as formas por ele exigidas, porque, de nós, ele apenas exige o assassinato da humildade. Matando a humildade, sentimo-nos senhores absolutos do nosso EU e do caminho que temos à disposição.

A prepotência é irmã gêmea do orgulho. Quando acreditamos sermos senhores absolutos do nosso EU e de estarmos no pleno domínio do caminho que temos à disposição, sem qualquer dependência do “outro”, cremos firmemente sermos insuperáveis e, portanto, invencíveis. Ninguém é capaz de deter nossos passos e avanços e, consequentemente, a nossa caminhada. A prepotência forja o extremado amor próprio. Com o orgulho e a prepotência, esmurramos com força bestial os limites intransponíveis impostos pelo mundo visível, dando-nos a nítida certeza de que, se não vencemos, ninguém é capaz de vencer também.

A ambição é a principal responsável pela cegueira espiritual. Na medida em que sucumbimos diante dela, ficamos cada vez mais cegos para a realidade que nos cerca. Daí, não conseguirmos enxergar quando, diante de nós, existe uma muralha intransponível e, da mesma forma, não conseguimos ver as portas que já estão, ou que podem ser facilmente, abertas à nossa frente.

A inveja é a rainha do retrocesso e do descaminho. É ela quem nos obriga a abandonar o nosso caminho natural para seguirmos, e perseguirmos, o caminho trilhado pelo “outro”. Caminho que é próprio de cada um. Construído para cada um, de forma absolutamente individualizada. A inveja, aliada inseparável da ambição, faz com que acreditemos convictamente que um único caminho pode ser trilhado com sucesso por dois seres diferentes. Assim, o que é do outro, pode ser meu também. O que o outro tem, eu posso ter igual ou até mesmo superior.

A ira, por fim, não bastassem os outros entraves, corrompe os nossos tímpanos e trava a nossa mente, impedindo o curso natural da razão. Acometidos com a ira, somos incapazes de pensar de modo racional. Somos incapazes de agir de forma sensata. Portanto, tornamo-nos imprudentes, insensíveis, insensatos e insanos. Movidos pela ira, perdemos a sensibilidade e o tato necessários para a percepção das diversas portas existentes, algumas das quais já estão abertas diante de nós.

Vencer estes cinco desafios pode parecer, à primeira vista, um grande obstáculo intransponível e, aí, voltaríamos à questão inicial. Entretanto, cada um de nós, acreditando ou não, possui um espírito que, por sua vez, traduz-se em um imenso e poderoso templo, no interior do qual muitos e muitos mistérios são desvendados. Forças ocultas são dissipadas; obstáculos são removidos; segredos são revelados e novas forças são concedidas.

Ao desviarmos a nossa atenção, e a nossa atuação, para o templo que carregamos em nosso interior, administrado e gerenciado por um Espírito Maior, capaz de vencer até mesmo o que, para nós, parece ser impossível, adquirimos não apenas uma renovada vida, mas, sabedoria suficiente para vencermos e superarmos todos os entraves, e mais: capacidade para, abertos os olhos, ouvidos e mente, enxergarmos com toda a clareza necessária, todas as portas que estão abertas, desde sempre, à nossa frente.

Mas, é preciso repetir: os cinco desafios devem ser superados. Imagine-se diante de um cofre contendo a solução para todos os seus problemas. Trancado a sete chaves, você não consegue abri-lo, senão, penetrando no interior de uma profunda caverna, ao fundo da qual existe um altar de pedra em cujo tampo estão as sete chaves que abrem o tal cofre. Você precisa, apenas, perceber que, indo na direção da caverna terá rápido acesso às chaves que te darão acesso a todas as soluções perseguidas.

É justamente o que deve ser feito para que as diversas portas existentes, que já podem ser  abertas por você, sejam percebidas, também, por todos aqueles que julgam estar diante de problemas intransponíveis. As soluções existem e estão diante de cada um de nós. Não percebê-las ou não saber como acessá-las, depende do destravamento dos olhos, dos ouvidos e da mente espirituais, o que só pode ser feito após a derrota dos cinco maiores adversários do ser humano. Sozinhos, não podemos vencê-los, mas, com o auxílio do Espírito de Deus, tudo se faz possível porque Ele faz novas todas as coisas e, assim, pode transformar-nos em pessoas absolutamente novas, imunes ao impossível.

Não se trata de magia ou de ilusionismo. Trata-se, na verdade, de crença. Jesus disse que “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Portanto, com fé e pela fé, obstáculos podem ser superados, adversários  derrotados, muralhas derrubadas, portas abertas e caminhos revelados. No entanto, não basta dizer que crê. É preciso renunciar a si mesmo e entregar-se de corpo e de alma, vencendo todos os inimigos do espírito. Então, e somente então, haverá serenidade, sabedoria, santidade e capacidade para superar todos os limites impostos por este mundo que, ao contrário do que muitos creem, não é real, mas, totalmente ilusório.

Reflita profundamente. Faça uma visita ao seu templo interior e, confiando no Espírito que lá está, derrote seus cinco inimigos e, após, esbanjando alegria e felicidade, escolha as portas que melhor atendem aos seus anseios e necessidades. Faça isso já, não perca mais tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 12

EDITORIAL DA SEMANA: A PERGUNTA QUE SE REPETE DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

O DIABO E SEU FILHO

QUEM É O TEU PAI?

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quem assistiu o filme “Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson, deve recordar bem da imagem marcante do personagem assombrador, um misto de homem e de mulher que, no Horto das Oliveiras, com um olhar penetrante e diabólico, afirma para um Jesus sofrido e angustiado: "Ninguém pode carregar este fardo, eu te asseguro. É pesado demais". Afirma isto para, em seguida, com a voz pausada e insinuante, perguntar: “Quem é o teu pai?”

Aquela figura nefasta, simbolizando o sarcasmo, a mentira, a indolência, a hipocrisia, a falsidade e uma aparência tenebrosa, ousa aproximar-se do terrivelmente angustiado e sofrido Jesus, para importuná-Lo com a pergunta que é feita a muitos de nós, ainda hoje: “Quem é o teu pai?”.

Além da pergunta, ele é o mesmo que sempre repete para nós a afirmação: "Ninguém pode carregar este fardo, eu te asseguro. É pesado demais", levando muitos de nós à convicção de que estamos sendo massacrados e destruídos, à espera de um Pai que, sequer, sabemos quem é.

Jesus, como bem demonstrado no filme, cai em profunda oração e ignora a figura satânica, desprezando-a com simples olhares, reveladores de uma força interna inabalável e invencível. Muitos de nós, no entanto, quando ouvimos a mesma pergunta, cochichada aos nossos ouvidos espirituais, ficamos atônitos e, não raro, repetimos para nós mesmos: “Quem é o nosso pai?”. Quem é o Pai que coloca sobre os nossos ombros um fardo tão pesado?

Mas, a pergunta de Satanás, no filme, e em certo momento, é feita de modo audaciosamente ilustrativa. É quando ele, diante de um Jesus às portas da morte no Calvário, passa por entre a multidão acariciando um horrendo e monstruoso filho, carregado em seus braços, como a demonstrar que ele, sim, Satanás, é um pai zeloso, que jamais abandona aqueles que a ele prestam o verdadeiro culto. Um pai que não impõe fardos pesados para serem, angustiantemente, carregados por seus filhos.

Nos dias atuais, estamos vivendo situações bastante parecidas com aquelas sinistras cenas do filme: estamos sofrendo e vendo o sofrimento cair sobre nossas cabeças, famílias e filhos e, quantas vezes, ouvimos e repetimos a mesma pergunta: “Quem é o nosso Pai?”. Ao mesmo tempo, em que somos confrontados com as figuras sinistras deste mundo, abraçadas aos seus filhos, igualmente tenebrosos e horrendos, mas, que demonstram terem quem se preocupa com eles e com suas vidas, enquanto praticam todo tipo de maldade, de crueldade, de impiedade, de loucura e de insanidade, assim como tudo o que provém do mal.

No dia-a-dia estamos assistindo cenas de um filme que não é dirigido por Mel Gibson, mas, cujos atores nós conhecemos muito bem, ainda que somente apenas por meio do noticiário. São atores que representam de modo perfeito o papel de pais ardorosos, carinhosos e zelosos, que abraçam, prestigiam e acariciam os seus protegidos, de todos os matizes e de todas as classes sociais, como a insinuarem para nós a má escolha que fizemos, ao entregarmos as nossas vidas e os nossos espíritos ao mesmo Pai de Jesus.

Os pais e os filhos deste mundo, revelados e operantes, refestelam-se com o produto da sua maldade e da sua perversidade, e nada, absolutamente nada, acontece com eles. São autoridades, autorizados e autoritários; armam-se com o favor dos poderes constituídos e com as altas somas de dinheiro e de ouro que manipulam, administram e dividem entre si, enquanto milhares de Jesus estão sendo açoitados, torturados sob o escárnio impiedoso, insolente e indolente e encaminhados para a cruz, para um final de vida solitário e infame, sem qualquer socorro.

Entretanto, é sempre valiosa, também, a recordação de que, quem assiste o filme até o último instante, presencia aquele mesmo Jesus sair do túmulo, intacto, vivo e revivido. Numa palavra: Ressuscitado! Satanás e seus filhos jamais passaram pela experiência da morte, porque seriam derrotados para sempre, haja vista que o Único que venceu verdadeiramente a morte foi Jesus Cristo, o Filho amado e Unigênito de Deus.

A queda, a desolação, o embaraço e a perdição é o que é de se esperar que aconteça, ao final de todas as contas, com os filhotes de Satanás que perambulam por este mundo, exibindo-se e sendo acariciados por seus falsos pais. Pais que nada podem oferecer, a não ser os péssimos exemplos e o caminho do mal, sempre trilhado, que culminam com o fim de suas vidas e de suas próprias histórias. Pais, que acariciam e prestigiam seus rebentos pelo mal que fazem uns aos outros e aos filhos de Deus, mas, que, ao final de tudo, deixam-nos no abandono e na podridão de um mundo que tudo lhes oferece, menos a vida.

Precisamos aprender a responder à pergunta feita pelo adversário de Deus, e pelos seus imitadores neste mundo, oferecendo o mesmo olhar silencioso e desprezivo que Jesus oferece no filme. Trata-se de um filme, é verdade, mas, que carrega uma forte carga de plausibilidade, principalmente, quando recordamos a leitura dos Evangelhos, nas quais o mesmo Satanás, lá no deserto, já atormentava Jesus, com a insinuação: “se és mesmo filho de Deus...”.

Não podemos, olhando para os pais malditos que acariciam seus filhos, apesar de todo o mal que produzem e que praticam neste mundo, nos deixar levar pela insinuação satânica de que o nosso Pai celeste não se incomoda conosco, nem com os sofrimentos que nos cercam e nos atormentam. Ele sempre se incomoda, sim. Sofre conosco, caminha ao nosso lado e vem em nosso auxílio. Apenas, e somente apenas, Ele permite que possamos ouvir a pergunta feita por Satanás aos nossos ouvidos: “Quem é o teu pai?”, para ver se cederemos à tentação, ou se nos manteremos firmes, resistentes e fieis até o fim. Para esta firmeza, resistência e fidelidade, nosso Pai faz uma promessa: “o que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24, 13). A confiança, a fidelidade, a obediência e a oração de Jesus são os verdadeiros e grandes exemplos a serem seguidos.

Portanto, a sugestão é para que, quem não assistiu o filme, apesar de já ser um pouco antigo, assista e preste bastante atenção nas referidas cenas. Compare-as com as investidas do maligno sobre nós, todos os dias, e convença-se de que o melhor a fazer é, simplesmente, ignorar a pergunta incômoda e maligna, porque nós, que pretendemos ser fieis até o fim, sabemos quem é, e onde está, o nosso Pai, assim como temos certeza de que nenhum pai deste mundo é comparável a Ele, porque somente Ele pode assegurar uma vida plena e abundantemente feliz a todos e a cada um dos seus filhos: a vida eterna! Reflita e, orando como Jesus, resista e sobreviva. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

ago 05

EDITORIAL DA SEMANA: APESAR DOS HIPÓCRITAS, É PRECISO SER FIEL ATÉ O FIM

FARISEUS E ESCRIBAS HIPOCRITAS

JESUS E OS HIPÓCRITAS DE ONTEM E DE HOJE

 *Por Luiz Antonio de Moura –

             O dicionário Houaiss afirma que “hipocrisia” é o ato de fingir ou dissimular os verdadeiros sentimentos. Ou seja, o hipócrita é aquele que diz uma coisa e, no fundo, pensa e age de forma absolutamente diferente. Dependendo do cenário ou do público, ele declara certos princípios, mas, no palco da vida, demonstra ser adepto de outros, totalmente opostos.

            No Novo Testamento vamos encontrar Jesus diante de diversos hipócritas. Alguns, Ele deixa de lado para não criar maiores atritos. Outros, no entanto, nem Ele consegue ter paciência, e acaba demostrando sua inteira contrariedade. Exemplo disso, pode ser encontrado no Capítulo 23 do Livro de Mateus, onde o Mestre de Nazaré, em uma sequência de “ais”, identifica em muitos fariseus e escribas da época, a inconfundível figura do hipócrita.

            Jesus, como sabemos, era um judeu leigo que tinha profundo conhecimento da Torá, o Livro da Lei. Um leigo que, diante da sabedoria e do poder de argumentação que demonstrava, tinha trânsito livre para pregar a Boa Nova do Reino nas Sinagogas e no próprio Templo, lugares onde Ele não se fazia de rogado. Não agia de forma politicamente correta; não se preocupava em afagar os ouvidos e os corações das autoridades, constituídas ou não; não aliviava, sequer, o poder eclesiástico que, tal como hoje, gostava de aparecer em público como os “escolhidos” e os “chamados” por Deus.

            No Capítulo referido, Jesus afirma “ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Que fechais o reino dos céus aos homens, pois nem vós entrais, nem deixais que entrem os que estão para entrar” (Mt 23, 13). Não admitiam a entrada de nenhum dos que realmente pretendiam entrar, enquanto eles, fariseus e escribas, faziam-se de doutores da Lei, achando-se na posição de barrar todos os “pecadores”, sob o discurso do zelo pela Casa do Senhor. Para eles, o reino dos céus era restrito aos que cumpriam rigorosamente cada um dos mandamentos da Lei, a começar pelo respeito ao próprio sábado.

            “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Que devorais as casas das viúvas, a pretexto de longas orações; por isso sereis julgados com maior severidade” (Mt 23, 14). A quantos que vivem em nossos dias estas palavras não caberiam como luvas perfeitamente amoldadas?

            “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Que rodeais o mar e a terra para fazerdes um prosélito; e, depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho da geena do que vós” (Mt 23, 15). Quantos e quantos batem de porta em porta pregando a Palavra do Senhor, com palavras e gestos tão delicados e, fora dali, são lobos vorazes e víboras assustadoras?

            “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e desprezastes os pontos mais graves da lei: A justiça, a misericórdia e a fidelidade. São estas coisas que era preciso praticar, sem omitir as outras” (Mt 23, 23). A salvação dos homens não está no pagar ou deixar de pagar o dízimo, mas, na prática da justiça, da misericórdia e da fidelidade, a Deus e aos irmãos.

            A todos estes “hipócritas”, assim como a todos os que aqui não estão listados, Jesus chama de “condutores cegos”, que querem ensinar o que não sabem; querem impor o que não são capazes de praticar; querem julgar e condenar, sem perceberem o quanto são, também, condenáveis em suas práticas de vida.

            Seria muito bom e muito útil se os homens e as mulheres deste século de ódio, de intolerância, de mentira, de exclusão e de todas as formas de hipocrisia parassem um pouco que fosse, e fizessem uma leitura acurada de todo o Capítulo 23, do Livro de Mateus. Jesus vai aconselhar o povo a fazer tudo o que for ensinado pelos escribas e pelos fariseus, ressalvando: “mas não imiteis as suas ações, porque dizem e não fazem. Atam cargas pesadas e impossíveis de levar, e as põem sobre os ombros dos homens, mas nem com um dedo as conseguem mover. Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens” (Mt 23, 4-5).

            Não devemos pensar, nem acreditar, que aqueles hipócritas eram diferentes dos que conhecemos hoje em dia. Não, não eram. Tanto aqueles quanto os de hoje, agem da mesma forma. Apresentam-se com os mesmos títulos. Impõem pesados fardos para serem carregados pelos mais pobres, mais fracos e mais humildes, a pretexto de agirem na salvaguarda da Palavra de Deus ou mesmo da Igreja do Senhor. Vestem-se com a mesma púrpura e paramentam-se com o mesmo luxo, para parecerem santos e imaculados diante do povo sofrido e carente de um consolo, de uma palavra de vida e de um acolhimento.

            Exigem o dízimo até dos mais desafortunados e, com a parte que entendem lhes caber, refestelam-se com tudo do bom e do melhor. Possuem e acumulam bens, estudam de graça nas mais belas, nobres e prestigiadas Universidades do mundo contemporâneo, acreditando-se credores de todos os favores e sacrifícios feitos por homens e por mulheres que vivem em busca do verdadeiro Reino de Deus.

            Ministram aulas, palestras e cultos, ensinando tudo o que deve ser feito para a entrada no Reino dos Céus. Fazem longas orações, discursos inflamados, e contam historinhas bonitinhas e engraçadinhas, entretanto, quando deles precisamos de alguma palavra, aconselhamento, direção ou ajuda, simplesmente não podem nos receber, ajudar ou acolher, porque não têm tempo nem disponibilidade para tanto. Seu tempo e sua disponibilidade são, e estão, reservados para os grandes deste mundo, para aqueles ao lado de quem gostam de aparecer e de permanecer, em razão de interesses diversos e variados!

            Na prática dos seus dias, porém, assemelham-se aos fariseus e aos escribas do tempo de Jesus. Ostentam títulos, funções, responsabilidades e missões. Alardeiam suas vocações e apresentam-se como convidados pelos céus, mas, no convívio familiar, profissional, missionário e comunitário, agem da mesma forma e com as mesmas características daqueles a quem afirmam estarem resgatando, e salvando, para o Reino de Deus. Comparados com aqueles contra os quais Jesus desfere seus terríveis “ais”, são verdadeiramente hipócritas! Hoje, tanto quanto ontem, podemos ouvir o mesmo conselho de Jesus: “Observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem; mas não imiteis as suas ações, porque dizem e não fazem” (Mt 23, 3).

            Ao mesmo tempo que, facilmente, os identificamos no meio de nós, do alto das suas pregações e dos seus ensinamentos, devemos tomar cuidado para não imitá-los, nas suas práticas diárias, porque pregam uma coisa e fazem outra muito diferente. Ensinam um caminho, mas percorrem outros absolutamente diversos e, até mesmo contrários, aos do Cristo Jesus, a quem afirmam seguir e servir cegamente.

            Apesar de tudo isso, devemos manter acesa a chama da fé com a qual fomos, e somos, premiados por Deus. Não podemos, e nem devemos, abandonar as nossas crenças e convicções por causa destes dissimuladores da verdade. Caso contrário, estaremos prestigiando justamente aqueles contra os quais o Senhor levantou a voz, chamando-os em alto e bom som, de hipócritas. A voz de Jesus ecoa, ainda, nos dias de hoje, porque os hipócritas sempre foram, e continuarão sendo, sucedidos, de geração em geração. Passam seus bastões aos sempre presentes herdeiros da hipocrisia, bajuladores e bem treinados praticantes do mal. 

            Este é mais um convite à reflexão. Não tem por finalidade contrapor irmãos contra irmãos, nem doutos contra ignorantes, mas, sim, incentivar todos os que verdadeiramente são de Deus a, acima de tudo, praticarem o bem, a misericórdia e a justiça, permanecendo firmes e fieis até a morte, porque esta é a promessa feita pelo Senhor: “o que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24, 13). Quanto aos hipócritas, o Senhor os conhece muito bem e, certamente, deles cuidará no momento apropriado. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jul 29

EDITORIAL DA SEMANA: O FUTURO DO MATRIMÔNIO E DA FAMÍLIA

PROJETO FAMÍLIA - 2019

O MATRIMÔNIO E A FAMÍLIA: INSTITUIÇÕES SAGRADAS E CONSAGRADAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O Livro do Gênesis não deixa dúvidas de que o Criador, ao observar as condições vividas pelo primeiro homem, decidiu não ser bom que ele estivesse só, “façamos-lhe uma auxiliar que lhe corresponda, disse o Senhor. Com tal intento, o Criador fez comparecer diante de Adão todos os animais, feras e aves para que ele pudesse apreciá-los e a cada um dar o nome adequado. Entretanto, diz o autor sagrado,  Adão “não encontrou a auxiliar que lhe correspondesse” (Gn 2, 18-20). A partir de então, o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono, dele tomando uma das costelas, a fim de modelar a mulher que, em seguida, foi apresentada ao até então solitário homem. Ao vê-la diante de si, Adão exclama: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem”. Assim, segundo a mesma narrativa, “o homem deixa seu pai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne”.

A partir do versículo 11 do Capítulo 1 do Livro do Gênesis, Deus cria todos os seres vivos, concedendo-lhes a possibilidade da procriação e da preservação das espécies, em uma regra da qual, ninguém, nem o ser humano, é excluído. Donde é possível observar que raízes, galhos, sementes e frutos, como que em sucessivas descendências, estão ligados para todo o sempre.

No caso dos seres humanos, e justamente por causa da racionalidade, a descendência é fortemente ligada ao sentimento de parentesco, ou, de família. Assim, da união entre o homem e a mulher decorre, pela própria natureza humana, a possibilidade da procriação e o consequente elo familiar. Não é difícil vislumbrar e compreender esta lógica.

Entretanto, os seres humanos rapidamente são envolvidos pela curiosidade, que alguns chamam “tentação”, e decidem fazer experimentos de todos os matizes e de todas as formas. Misturam-se espécies, sementes e sêmens, e, daí vão surgindo novas formas de vida, porque a vida pulsa em todos os seres vivos. A ciência agarra-se ao espaço que lhe é próprio e, por meio de experimentos cada vez mais sofisticados, consegue demonstrar que a vida pode ser abundantemente expansiva e expandida, quase que sem limites. Hoje, a questão ética ainda é debatida de forma ampla, apesar da pouca força que demonstra ter diante de um mundo cada vez mais descrente, autoritário, decidido, ousado e desafiador.

Bem, não podemos, aqui, discutir todos os aspectos que envolvem a totalidade dos seres vivos. Então, atenhamo-nos aos seres humanos, apenas.

De todos os povos da terra, Deus escolhe para si, aquele que é denominado “o povo de Deus”, com o qual passa a ter uma relação de proximidade e de afetividade, com a finalidade de reservar para si a parte sadia da Criação. Com este povo Deus faz alianças, promessas e, logicamente, cobranças porque Ele diz: “eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus”. Da descendência de Abraão, mais numerosa que a areia da praia e que as estrelas do céu, o povo de Israel. Deste Israel, a Lei e os Profetas que permeiam todo o Antigo Testamento. É justamente desta sociedade teocrática, e no seio dela, que instituições como o matrimônio e a família vão adquirir status ritualísticos e sociais e passam a ser os dois pilares centrais de um modelo de civilização desejado pelo Criador.

O arqueólogo e biblista francês Roland de Vaux, na obra “Instituições de Israel no Antigo Testamento”, traça o perfil organizacional de um povo que, ao longo dos séculos, sai da condição de nômade para fixar-se como o núcleo central da história da criação e, posteriormente, da própria salvação. Na referida obra, de Vaux vai trazer para nós um conceito israelita de família que, na sociedade pós-moderna,  vem se deteriorando dia-após-dia: o abrangente conceito da família em Israel. “A família”, afirma ele, “compõe-se daqueles elementos unidos ao mesmo tempo pela comunidade de sangue e pela comunidade de habitação. A “família” é uma “casa”, e “fundar uma família” se diz “edificar uma casa”. A unidade social que constitui a família se manifesta também no plano religioso. Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e proteção”.[1]

Relativamente ao matrimônio, de Vaux destaca o valor da monogamia, afirmando que “A presença de várias esposas não contribuía para a paz no lar”, dando lugar para um indesejado ambiente de inimizade entre as mulheres, principalmente, quando o marido demonstrava preferência por uma delas. O modelo era ditado pela cultura patriarcal, fortemente arraigada nos ditames estabelecidos em todo o Pentateuco (conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia). Os casamentos entre primos, ou entre parentes, eram absolutamente normais, pois tudo, de uma forma ou de outra, convergia para a questão hereditária – a posse da terra e dos frutos.

No tocante à prole, o autor afirma que “No antigo Israel, ter filhos, muitos filhos, era também uma honra desejada e nesse sentido faziam-se votos por ocasião do casamento”.[2]

A obra em questão é bastante vasta, pois, trata da vida de toda uma comunidade moldada nos ensinamentos e nos preceitos divinos, razão pela qual não se pode, aqui, iniciar qualquer espécie de aprofundamento.

O que se quer, na verdade, é evidenciar que, tanto o matrimônio quanto a formação da família é algo tão sagrado quanto antigo na história do “povo de Deus”. Observe-se que o termo “povo de Deus” denota, obviamente, a existência de outros povos. Povos com tradições, culturas, leis, instituições e práticas muito distantes e diferentes de tudo aquilo que Deus quis para o “seu povo”. É fácil localizar na Bíblia Sagrada diversas passagens nas quais o povo é exortado a não seguir os caminhos e as práticas dos povos estrangeiros, muitas delas fazendo referências expressas aos povos da Mesopotâmia e da Babilônia, lugares onde tudo era abundantemente permitido, porque abençoado pelos inúmeros deuses.

Porém, não é esse o cenário querido pelo Deus único de Israel. Em todo o Antigo Testamento, assim como em parte do Novo Testamento também, vamos encontrar narrativas que dão conta da qualidade, da especificidade e da função precípua do matrimônio e da família. Jesus, por exemplo, vai realizar o primeiro milagre, justamente em um cenário familiar, no qual estão sendo celebradas as núpcias, as famosas “bodas de Caná”.

Dentre as prescrições dadas por Deus ao povo de Israel, e de forma insistente, está a que combate severamente a idolatria, causa, inclusive, do exílio durante setenta anos. Uma das razões da contrariedade com a idolatria, largamente praticada pelos babilônios e pelos mesopotâmios, era justamente o fato de que, diante de uma pluralidade de deuses, tudo podia ser praticado, desde que oferecidos os sacrifícios exigidos por cada um deles. Assim, contemplando o deus certo com sacrifícios e oferendas adequadas, o povo podia arvorar-se nas práticas mais condenadas pelo Deus único e verdadeiro de Israel. Casamentos mistos, abortos, poligamia, divórcio, sodomia, luxúria, idolatria etc., podiam ser livremente praticados, sem qualquer influência de ordem religiosa, ética ou moral. Por esta razão, Deus previne o povo contra tais costumes e tais práticas, dizendo: “Não faças pacto com os homens daqueles países”. Ou seja, viver e conviver sem se envolver, para não se contaminar.

Nos dias que correm, são muito raros os cultos a outros deuses, até porque os deuses da Babilônia e da Mesopotâmia não existem mais. Entretanto, se naquele passado remoto tudo era permitido pela simples oferenda de sacrifícios aos deuses de então, hoje, a humanidade elaborou um mantra para justificar todas as atitudes possíveis e imagináveis, tanto no tocante à família, quanto no que se refere ao matrimônio. Tudo, também hoje, é largamente permitido sob a égide do slogan “Deus é amor”. A partir da entonação deste verdadeiro mantra, pareceu à maioria dos seres humanos que o próprio Deus se fez vários: um Deus do Antigo Testamento, um outro, do Novo Testamento e um terceiro do século em curso.

Se o primeiro Deus era severo, rígido e exigente, o segundo revelou-se compreensivo e amoroso para com todos os seres humanos, ao passo que o terceiro e atual Deus é absolutamente conivente com todas as práticas que os seres humanos adotam para suas vidas, sem qualquer exceção. Basta ancorar-se ou recitar o mantra: “Deus é amor”, para que tudo seja permitido. Nada mais é proibido ou disciplinado pela Palavra de Deus. A Bíblia tornou-se um simples livro de histórias, deixando para cada leitor a possibilidade absolutamente viável e aceita de interpretá-la e de adequá-la à sua vida e ao seu bel prazer.

Daí decorre uma realidade inegável: o matrimônio e a família instituídos pelo e para o “povo de Deus”, como agradáveis aos olhos do Criador, estão em pleno declínio, ameaçando duramente a paz, o convívio e o futuro de uma humanidade seriamente marcada pela violência, de todas as formas, e dividida pelo ódio, pelo sectarismo e por todo tipo de intolerância. Pode-se mesmo afirmar que estas instituições foram, e continuam sendo, tão adulteradas que, muito em breve, alguém defenderá abertamente o casamento entre humanos e animais, com a instituição de um único modelo familiar, composto por todos os seres do mundo animal, racionais e irracionais. Tudo, fundamentado no novo e atualizado mantra: “Deus é amor e criador de todos os seres vivos”, passando a imagem de que, assim como no começo, todos podem e devem viver juntos naquele espaço que, certamente, será denominado como “O novo paraíso”. É para este cenário que os “povos estrangeiros” estão caminhando.

Entretanto, para o verdadeiro “povo de Deus”, cujas sementes resistem ao tempo e aos adversários, ainda estão em pleno vigor todas as exortações divinas, porque, para este “povo” o Deus de hoje é o mesmo Deus de ontem e continuará sendo o mesmo de amanhã. Nada, aqui, induz a práticas religiosas. Nada, aqui, impõe filiações ideológicas. O que se quer, de fato, destacar, é a necessidade de uma total reavaliação dos modelos de matrimônio e de família que estão sendo importados de mentes e de corações que, apesar de os tempos serem outros, continuam criando deuses e praticando a idolatria, servindo aos seus deuses para que deles possam receber as bençãos que julgam necessárias para as suas práticas buscando, a partir daí, a aceitação majoritária de uma sociedade absolutamente embotada e fascinada pelo poder do dinheiro e de um incompreendido livre arbítrio, que permite, inclusive, escolher a própria forma de morrer.

Os caminhos trilhados pelo povo de Israel, o “povo de Deus”, são diametralmente opostos a tudo o quanto vemos atualmente. E, por se tratar de caminhos forjados na Palavra, nos ensinamentos e nas exortações divinas, não devem ser abandonados ou substituídos por alternativas absolutamente contrárias ao Deus-Criador e Salvador. É sempre bom recordar a Palavra de Jesus sobre a Lei: “Não vim para abolir a Lei ou os profetas, mas, para os cumprir” (Mt 5, 17).

Este é apenas um chamamento à reflexão. Que cada um possa ler e tirar as conclusões que pelo Espírito de Deus forem permitidas. Jesus, em tais circunstâncias, diria: "quem tem ouvidos para ouvir, ouça". Seja feliz, e boa sorte!

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[1] DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo. Vida Nova: 2014. Págs.42-43.

[2] Idem, p.64.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio. 

jul 22

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM ESTÁ POR TRÁS DO “SISTEMA”?

POR TRÁS DO SISTEMA

POR TRÁS DO SISTEMA SEMPRE EXISTE ALGUÉM –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é raro ouvirmos pessoas dizerem que “a culpa é do sistema” ou, “o sistema exige que seja feito desta forma”, ou, ainda, outras referências menos recomendáveis ao dito “sistema”, como se se tratasse de uma caixa preta inalcançável e inatingível, cheia de perversidades, de armadilhas, de truques e de golpes dos mais tenebrosos. Uma caixa com olhos e ouvidos capazes de interceptar conversas, reclamações, planos e sabotagens e de, imediatamente, colocar em prática todas as defesas possíveis e imagináveis, para punir severamente aqueles que ousam enfrentar o “sistema”.

Parece coisa diabólica. Quando alguém se refere ao sistema, em alguns casos e momentos, chega mesmo a baixar o tom da voz. Todos, de uma forma ou de outra, temem o “sistema”, como se fosse um dragão indomável e carnívoro por natureza.

Entretanto, é preciso raciocinar e entender que “sistema” é apenas o nome designado para um conjunto de exigências, projetos e planos impostos às pessoas. Um conjunto inventado e alimentado dia e noite por seres humanos que carregam consigo a fúria, a ganância, a soberba, a imponência, o desejo de poder absoluto e, principalmente, a sede de punir severamente todos aqueles que ousam discordar ou agir de forma diferente do planejado e do exigido.

Assim, todos, inclusive, os manipuladores do sistema, colocam a culpa em um ente invisível, como se ele existisse de verdade e mais, como se fosse capaz de ditar ordens das mais escabrosas possíveis, punindo severamente e sem piedade. No cesto das maldades, estão as demissões injustas, as perdas de cargos e de funções, públicas e/ou privadas, acusações falsas e mentirosas, difamações, mortes violentas e anônimas, mais uma infinidade de atos praticados contra pessoas, físicas e jurídicas, sempre para reparar a falta de respeito ou mesmo de compromisso para com o “sistema”.

Mas, uma investigação simples e cautelosa, certamente, sempre vai revelar que, por trás do tal do “sistema”, existem pessoas de carne e osso manipulando todo o conjunto de exigências, de maldades e de punições aplicadas, em muitos casos até de forma desumana, na tentativa de deixar sempre claro que o “sistema” é mesmo desumano, perigoso, invisível e imprevisível, como se cada um de nós, por desconhecê-lo pessoalmente, devêssemos viver com medo e agir com o máximo de cuidado possível, porque, a qualquer momento, o “sistema” pode nos encurralar em uma encruzilhada, e ali, vingar-se da forma mais cruel possível, forma que só ele conhece bem e detalhadamente.

No entanto, em cada setor da sociedade, em cada instituição, pública ou privada, sempre existem pessoas que estão no comando geral e, como tais, estão sempre instaladas nos últimos andares da escala organizacional. São sempre as mais graduadas, as mais endinheiradas e, portanto, as mais poderosas, até porque, muitas delas possuem, também, arsenal bélico próprio da guerra. São estas pessoas que, normalmente fazendo-se de invisíveis, comandam cadeias de outras pessoas imediatamente abaixo de si e que, também desejosas de alcançarem a ascensão piramidal no negócio, sujeitam-se aos de cima, e esfolam os de baixo. Dessa forma, o secundo escalão tem abaixo de si outros escalões que lhes são diretamente subordinados e que, portanto, recebem e repassam ordens, das mais tresloucadas possíveis e imagináveis. E, quem está na base, sofre de todos os lados, sem saber, na verdade, quem é o real mandatário de tantas aberrações. Quando ousam questionar o superior imediatamente acima, ouvem sempre a mesma resposta: “a culpa é do sistema”. Ou “o sistema é duro e exigente, ele não perdoa ninguém”.

Desta forma, os que estão no topo da pirâmide, os que realmente mandam e desmandam, quase nunca são descobertos, porque têm abaixo de si verdadeiras legiões de fieis escudeiros que, por medo ou por ambição desmedida, acolhem de bom grado as ordens recebidas e, imediatamente, repassam-nas para o escalão inferior que, por fim, segue a mesma rota.

O “sistema”, portanto, é o título pomposo e assustador que acoberta os verdadeiros carrascos de pessoas que, total e absolutamente desvinculadas dos núcleos de poder e de comando, vivem e atuam da forma mais ingênua possível, acreditando que tudo deve ser feito para contentar aquele ente invisível que, de uma hora para outra, pode ficar irritado e tomar atitudes canibalescas.

Ora, a dica é a seguinte: onde quer que esteja atuando, procure identificar quem, de fato e de direito, está no comando geral. Depois, identifique todas as cadeias de comando abaixo do topo da pirâmide. Assim, você entenderá que, naquele setor ou naquela instituição, pública, privada ou de qualquer outra configuração, existem ordens, exigências, cobranças e punições dadas por pessoas de carne e de osso, como você, e não, por um ente invisível, imprevisível e desumano, chamado “sistema”. Desse jeito, ficará mais fácil para você, porque, antes que o “sistema” possa identificá-lo, você poderá, se quiser, fugir do alcance dele, ou, simples e ardilosamente, enfrentá-lo com métodos idênticos. Este último, sem dúvida, é o pior dos caminhos, porque, ao enfrentá-lo, e em caso de sucesso, você, mais cedo ou mais tarde, estará no topo da pirâmide, fazendo a mesma coisa, de cima para baixo.

São reflexões que devemos fazer sempre, para não cairmos na esparrela de que somos escravizados, conduzidos e punidos por um ente absolutamente invisível que, por conta da sua total imaterialidade, faz acontecer as maiores tragédias nas vidas das pessoas e das famílias, sem qualquer possibilidade de revanche. Não, não acredite nisso. São seres humanos como eu e como você que, ardilosa e maliciosamente, atuam na sociedade, secreta ou não, mas que podem ser identificados, saindo definitivamente das trevas, do anonimato e dos logaritmos, para as câmeras da TV, da internet e das magníficas redes sociais, a partir de quando terão reveladas as suas verdadeiras identidades, desonerando o “sistema”, que nem sempre é tão mágico e tão cruel o quanto dizem.

Pense sobre isso. Reflita e tire suas próprias conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mar 18

EDITORIAL DA SEMANA: TODA ESCOLHA TRAZ CONSEQUÊNCIAS

FAZER ESCOLHAS

OS FRUTOS QUE COLHEMOS NASCEM DAS ESCOLHAS QUE FAZEMOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quantos prantos e lamentos  chegam a todo instante aos ouvidos de Deus, com súplicas e clamores por socorro, além das previsíveis blasfêmias e heresias. Tudo, em decorrência das dores e dos dissabores enfrentados por todos e por cada um de nós no longo curso da vida. Abre-se aqui um parêntesis para falar sobre esta questão do ”longo curso da vida”. Só se valem desta expressão os que sofrem e que esperam a vinda do Senhor, como a solução final para todos os problemas, a cura para todas as formas de enfermidades e a justiça para todos, acima de tudo. Os que que vivem no prazer, na felicidade mundana e no regozijo das benesses de tudo de bom e de melhor que o mundo pode oferecer a um vivente, sempre acham que a vida é curta demais e que deveria haver um acréscimo, todas as vezes que o fim estivesse próximo.

Bem, fechado o parêntesis, aos ouvidos da divindade chegam todos os nossos clamores, em face de tudo o que sofremos aqui neste plano terreno. Obviamente que Deus não pode ser responsabilizado por nada de mal que ocorre debaixo do sol, haja vista ser impossível para Deus praticar o mal e que, por Ele, nós estaríamos no paraíso, usufruindo de tudo e, inclusive, da vida plena e sem fim. Entretanto, como espécie, o que fizemos? Fizemos uma simples escolha.

Escolha. Eis a palavra que define tudo sobre nós. Sempre, depois que nascemos, fazemos escolhas. É o sinal mais evidente e identificador do livre arbítrio com o qual somos dotados por Deus que, apesar de tudo o que nos ensina, sempre conhece o lado para o qual pendemos. Não em vão, já no Paraíso Deus não diz que “se” o homem comer da árvore proibida morrerá, mas, afirma categoricamente que “O dia em que dela comerdes, certamente morrereis”, porque Ele já sabia o final daquela novela. Pois bem, escolha é sempre a opção que fazemos, ou até mesmo deixamos de fazer, diante das diversas possibilidades que nos são apresentadas. É preciso saber, no entanto, que as escolhas trazem embutidas, de forma inevitável, consequências, e é aí que reside o nó górdio da questão. As escolhas que fazemos nem sempre se nos apresentam de forma completa e transparente, ou seja, praticamente nunca as escolhas revelam as contraindicações, como nas bulas dos remédios, que avisam sobre os riscos e os perigos que podem ser enfrentados pelos pacientes,  depois da ingestão daquele produto.

A vida não tem bula, e justamente por esta razão, nossas escolhas são feitas, normalmente, em razão dos impulsos que nos movem: compramos porque queremos; vendemos porque julgamos ser bom; mudamos de emprego porque achamos mais oportuno e vantajoso; trocamos de profissão porque estamos convictos de termos encontrado a verdadeira vocação; divorciamo-nos porque encontramos alguém que vai nos fazer mais felizes, ou simplesmente porque estamos cansados do outro. Enfim, são inúmeras as possibilidades de escolhas às quais somos convidados a fazer todos os dias, ao longo da nossa existência.

Entretanto, todas e cada uma das escolhas que fazemos trazem, a curtíssimo, curto, médio e longo prazos consequências para as quais quase nunca fomos ou estamos preparados. Daí as decepções, os arrependimentos, os sofrimentos, as angústias e as amarguras que caem sobre as nossas cabeças como se fossem bolas de ferro que, de tão pesadas, fazem com que passemos a sentir o chão afundando sob os nossos pés. Aí, nestas horas, bradamos a Deus! choramos, oramos, erguemos os braços na direção do céu falamos impropérios, sentimo-nos totalmente abandonados à própria sorte, outros até acham que estão sendo colocados à prova por Deus e tem, ainda, os que acreditam estarem sendo severamente castigados por algum mal feito no passado.

Dificilmente, no entanto, alguém admite estar sofrendo as consequências decorrentes de escolhas que foram feitas em dado momento. Escolhas que, na ocasião, pareciam acertadas e cheias de promessas sedutoras. Escolhas que propiciavam certas vantagens ou lucros acima do normal, mas que a pessoa, naquele instante, sentia-se premiada pelos céus com aquilo que lhes parecia verdadeira dádiva. O que ontem parecia verdadeira benção e premiação, hoje parece maldição e castigo!

E tais escolhas são feitas de forma individual ou coletiva. Individual, quando os beneficiários diretos somos nós mesmos; coletiva, quando escolhemos algo ou alguém para atuar, direta ou indiretamente, sobre toda a sociedade como, por exemplo, na eleição de um governante ou de um parlamentar. Muita gente acredita não ser culpada por nada de mal que ocorre na sociedade como um todo, mas, o engano é abissal, haja vista que a escolha direta ou mesmo a omissão na hora de escolher, faz de nós participantes ativos de tudo o que está em jogo porque, sempre somos convidados a fazer escolhas e, se fazemos más ou boas escolhas, ou mesmo se preferimos a omissão, estamos vinculados aos resultados e às consequências que daí advirão. Enfim, não tem muito jeito, agiu ou se omitiu, tem responsabilidade sobre as consequências.

Isso tudo para, no fim, afirmar-se que o modelo de família adotado pela ampla maioria da sociedade ocidental está, deveras, equivocado, porque parte do pressuposto de que somos absolutamente livres para decidir o que fazer com nossas vidas. Livres e imunes a uma ética e a uma moral para as quais muitos, e já há muito tempo, decidiram virar as costas por entendê-las objetos de manobras das religiões. Trata-se de escolha legitimamente feita por parcela considerável da sociedade humana mas que, como já o afirmamos, traz embutidas todas as consequências que, todos os dias, a mídia estampa diante dos nossos olhos, à exaustão, como a jogar no rosto de cada um de nós a culpa pelos resultados, agora, colhidos.

A extrema violência demonstrada por delinquentes de todos os matizes, o desamor e o desrespeito para com tudo e todos, a falta de apreço pelas instituições, de um modo geral, e pelos templos sagrados e religiosos, de modo especial, assim como o ódio racial e homofóbico, o desprezo aos mais velhos e desamparados, tudo isso é fruto direto da árvore plantada sob um modelo de família absolutamente adulterado e corrompido. Um modelo que, em nome da ampla liberdade de escolha foi, e ainda está sendo, alimentado por um tipo de adubo que, traz prazer, realização e até satisfação momentâneos, mas que, também, enrijece o coração e o espírito, gerando embriões que, quando crescem, são capazes de coisas inacreditáveis, como as que temos visto no noticiário do país e do mundo.

Nossos avós falavam sobre Deus; nossos pais falavam sobre Deus; nós quase não falamos sobre Deus. Nossos jovens, e mesmo muitos adultos, não sabem quem é Deus! E quando não se conhece Deus, de onde provém toda forma de vida, de onde provém um modo de vida condizente com a santidade e com a perfeição, perde-se a noção dos princípios e dos valores que moldam, justamente, a vida pacífica em sociedade. Resultado: tudo o que o noticiário nacional e internacional têm disponibilizado para nós, todos os dias e todas as noite.

Portanto, não devemos permanecer nesta profunda ignorância, acreditando ou querendo acreditar que o mal que cai sobre nós e sobre esta geração, decorre de provação, de castigo, do abandono à própria sorte ou, ainda, da chegada do final dos tempos, como muitos gostam de afirmar, mas, que decorre, sim, diretamente das escolhas que temos feito ou apoiado, ou, ainda, das nossas omissões porque, até o ato de permanecer inerte é uma escolha que tem suas consequências.

Devemos reservar alguns instantes da nossa tumultuada e agitada vida para refletir sobre as escolhas que temos, ou não, feito, avaliando acerca de cada uma, as consequências visíveis e mesmo as previsíveis e então, e somente então, haveremos de fazer o necessário mea culpa, livrando Deus de uma responsabilidade que Ele, definitivamente, não possui.

A proposta, como sempre, é para uma profunda reflexão e tirada de conclusões. Conclusões que podem mudar o curso de algumas vidas e, quiçá, de toda uma coletividade. Faça isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritual, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 11

EDITORIAL DA SEMANA: DIGA NÃO À HOMOFOBIA E À TRANSFOBIA

HOMOFOBIA - CRIMINALIZAR OU NÃO

HOMOFOBIA: UM CRIME CONTRA A PESSOA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém a tramitação, no Supremo Tribunal Federal, da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26, mediante a qual a Corte Suprema do País é provocada a decidir acerca da criminalização, ou não, da homofobia, caracterizada pelo preconceito contra a comunidade LGBT (Gays, Lésbicas, e Transgêneros).

A ADO decorre do fato de o Congresso Nacional ainda não ter legislado sobre a matéria, no sentido de criar norma penal protetiva de parcela significativa da sociedade, o que causa surpresa e certo espanto, haja vista a proteção legal de que gozam outras minorias.

O julgamento está suspenso, até designação de nova sessão pelo Presidente da Corte tendo, no entanto, sido proferidos quatro votos favoráveis à criminalização do ato homofóbico. Votos da lavra dos eminentes Ministros Celso de Mello, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, sendo os dois primeiros relatores da ADO 26 e do Mandado de Injunção 4733, respectivamente.

Dentre os que acompanham os votos do relatores, merece destaque o seguinte trecho do voto do Ministro Alexandre de Moraes, ao afirmar que: “Passados 30 anos da Constituição Federal, todas as determinações constitucionais específicas para proteção de grupos considerados vulneráveis foram regulamentadas com a criação de tipos penais específicos. No entanto, apesar de dezenas de projetos de lei, só a discriminação homofóbica e transfóbica permanece sem nenhum tipo de aprovação. O único caso em que o próprio Congresso não seguiu o seu padrão”[1].

A questão, certamente, será ainda objeto de acirrado debate no Plenário do STF, até porque existem, inacreditavelmente, vozes graúdas que defendem totalmente o oposto do que já decidiram os quatro primeiros Ministros. Diz-se “inacreditavelmente”, porque é de causar espanto e temor que agentes públicos graduados na República defendam abertamente que a homofobia e/ou a transfobia não merece qualquer especial atenção por parte do legislador que, por sinal, não está nem aí, mesmo, para o fato real, tanto, que é preciso que a Corte Suprema chame à responsabilidade aqueles cuja única competência é justamente a de legislar.

Parece ser impensável, nos dias de hoje, que atos praticados contra pessoas e grupos minoritários, possam ser admitidos no âmbito da normalidade, como se fossem decorrência ou mesmo consequência de uma condição de vida que a pessoa, de forma livre a autônoma, assume perante o corpo social. Atos praticados, sempre de forma rude e covarde, contra afrodescendentes, contra idosos, contra crianças e adolescentes e/ou contra deficientes físicos, que já contam com uma legislação penalmente impositiva, não podem ser dissociados das mesmas manifestações praticadas contra o amplo espectro da homossexualidade. Vale dizer: atos que importem em qualquer forma de discriminação, com exclusão ou mesmo com o uso da violência, em razão da opção de vida da pessoa, não podem, de forma alguma, passar imunes perante a dureza da lei. Afinal, o que é a lei senão a forma encontrada para normatizar e equilibrar a vida em sociedade? Que tipo de sociedade teremos se, como pretendem alguns, certas formas de discriminação ou de desapreço público passarem a ser aceitas, em decorrência de ideologias camufladas por uma moralidade altamente questionável?

Toda a sociedade pátria deve se posicionar neste momento! Inexistem quaisquer justificativas, sejam de natureza moral, religiosa ou mesmo ideológica, que possam servir de porto seguro para aquele que pratica qualquer forma de discriminação contra um cidadão ou uma cidadã cujos direitos são assegurados por uma mesma Constituição. Afinal de contas, vale repetir o que já tem sido repetido à exaustão: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (Artigo 5º, caput, da Constituição da República). Assim, a mesma mão legal que pesa sobre quem pratica o crime de racismo, deve pesar, também, sobre quem pratica atos de homofobia. Não existe diferença objetiva entre pessoas. Até pela própria lei natural, todos nós somos iguais: nascemos, crescemos, vivemos e, reproduzindo ou não, inevitavelmente, morremos. Desta sina nenhum ser vivente escapa. Então, por que uns devem ser tratados no rigor da lei, enquanto outros podem agir segundo suas próprias convicções, ainda que em prejuízo físico, moral ou psicológico do outro?

A democracia está assentada na estrutura tripartite do poder, onde a competência de cada um dos poderes constituídos é delimitada na Constituição e, quando algum deles deixa de exercer a competência que lhe é atribuída, cabe ao Poder Judiciário entrar em ação. É o caso!

Espera-se, sinceramente, apesar das vozes em contrário, que a Suprema Corte coloque os pingos nos “is” e reconheça, sim, como crime comparável ao do racismo, qualquer ato de homofobia praticado contra qualquer cidadão ou cidadã em território nacional, passível de punição severa e exemplar, concedendo o mandado de injunção postulado, na forma do inciso LXXI, do artigo 5º da Constituição da República, de modo a que a lei puna, de fato, “qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais” (Art. 5º, XLI da CR).

O que não podemos admitir é que pessoas e grupos, valendo-se dos slogans que julgam úteis e necessários para o exercício das suas atividades, pressionem os legisladores para promoverem o encurtamento dos direitos de determinados cidadãos e cidadãs, em função da opção de vida que cada qual, livremente, pode fazer e escolher.

Além do mais, a questão é, também, humanitária. Não podemos ficar calados diante de manifestações grotescas contra quem decidiu dar à vida um rumo diferente daquele dado pela maioria da sociedade. Do mesmo modo, não é de ser aceito que vieses radicais e fundamentalistas, originados na política ou na religião, sirvam de base para o acobertamento de atos nefastos de homofobia.

Este texto é apenas um convite à reflexão. Que cada leitor e cada leitora, na intimidade do seu espírito, na nobreza do seu coração e na liberdade de suas convicções possa tirar suas próprias conclusões e, julgando útil e oportuno, consiga um canal para externá-las de forma limpa e democrática, sim, mas, sempre em prol do outro. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=404076

fev 25

EDITORIAL DA SEMANA: TODA MISSÃO TEM UM FIM!

FRUTOS DA VIDA - 2

MISSÃO CUMPRIDA, É HORA DE OBSERVAR OS RESULTADOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Muitos de nós acreditamos ser portadores de missões que, atribuídas por Deus, pela Lei, pela Cultura ou pela Moral, devem ser cumpridas à risca, fazendo desta, em muitos casos, a razão de ser da nossa existência. Não é pequeno o número de pessoas que só conseguem enxergar a vida sob a ótica da tal “missão” que, não raro, e para estas pessoas, dura por toda a vida.

Da minha parte, não enxergo a coisa exatamente desta forma. Penso que cada um de nós tem diversas missões para serem cumpridas no curso da vida e que, como tais, vão se sucedendo umas às outras, em uma saga contínua e permanente, cujo fim coincide com o término desta existência. Algumas missões são mais prolongadas do que outras; mais espinhosas; mais dolorosas; mais aguerridas; mais cansativas, mas, a todas é reservado um limite, um termo final. Um momento no qual dão-se por esgotadas e, portanto, encerradas, independentemente do resultado produzido. Daí por diante, parte-se para outra missão.

Exemplo que me parece bastante oportuno, principalmente, sob a ótica do momento atual da minha trajetória, é o relacionado com a missão a ser desempenhada com o foco totalmente voltado para os filhos. Trata-se de missão difícil, espinhosa e complicada, sim, mas, que tem tempo para findar. Não é missão de toda uma vida, porque, cumpre a cada pai e a cada mãe, acolher aquele serzinho que chega ao mundo para integrar a família, com todo o amor e com toda a dedicação possível e inimaginável. Chega da forma como todos nós sabemos e conhecemos muito bem: indefeso, inocente e carente de todo tipo de cuidado. Sem nada, completamente nu e absolutamente sozinho. De tudo e em tudo dependente de alguém! É a sina de todos nós, seres humanos: ao nascermos e ao morrermos, dependemos de alguém para nos levar de um lado para o outro!

Àquele pequeno ser que chega ao mundo, a mãe ensina por primeiro o caminho do bico do seio, levando-o à boca, para a primeira alimentação, seiva de continuidade de uma vida gestada em um ambiente propício, no qual nada faltava e tudo chegava da forma mais natural possível. Agora não! Agora ele depende da mãe para iniciar o processo da alimentação, com todos os suplementos e complementos necessários para que aquela vidinha ganhe mais tônus a cada dia, e  em todos os sentidos. Ele ou ela depende de alguém, normalmente, da mãe, para colher-lhe as primeiras (e muitas outras) fezes, trocando-lhe as fraudas e zelando pela manutenção e higiene daquele frágil corpo.

Depois, pouco mais tarde, vem o ensino de inúmeras outras atividades necessárias para o progresso daquele ser que, agora, já sabe pedir o famoso “papá”; já chora, quando não quer alguma coisa; já dá de mãos, com certa irritação, quando se sente objeto de abuso dos adultos corujões. Mas, ainda falta aprender a engatinhar para, em seguida, dar o primeiro grande avanço para a liberdade: os primeiros passos! Todos, na família, aguardam o momento deste pequeno astronauta fazer sua primeira caminhada que, para nós, serão apenas alguns passos, mas, para ele ou para ela, será uma grande caminhada rumo à independência. Daí por diante, ele/ela vai de vento em popa, mas, a missão do pai e da mãe ainda está longe de ser completada.

Vem o momento dramático da escola, dos primeiros contatos sociais com outros pequenos seres tão simples e inocentes quanto o nosso rebento. Mas, novamente estamos lá, ao lado dele ou dela, torcendo, dando força, incentivando e, não raro, também chorando pela insegurança de deixar aquela mudinha de árvore aos cuidados de jardineiros estranhos. Jardineiros e jardineiras que são, obviamente, bem preparados e muito bem treinados, mas, não somos nós! E acreditamos, sinceramente, que ninguém é capaz de fazer por ele ou por ela nada do que somente nós sabemos fazer.

A fase estudantil é uma das mais longas, mais complexas e mais delicadas porque pega nossos filhinhos com dois ou três anos de idade e acompanha-os até a entrada na Universidade. E nós, destemidos que somos, estamos ali firmes, fortes e resistentes. Resistentes às dificuldades por eles encontradas nos primeiros anos; resistentes em relação ao convívio com outros seres iguais que, vindos de outras raízes, possuem perfis, às vezes, bastante diferentes e complexos, assim como os modos de proceder em relação a tudo e a todos à volta. Resistentes às rebeldias da adolescência; resistentes ao ímpeto da juventude e, por fim, e já cansados, resistentes aos enfrentamentos abertos, resultantes do normalíssimo conflito de gerações.

Aqui, neste estágio, e na minha opinião, a missão paterna e materna caminha para o encerramento, porque, a partir do conflito gerado pela visão e consequente compreensão do mundo, quando o filho ou a filha enxerga o mundo e suas dependências com olhar próprio, muitas das vezes, bastante diferente do nosso olhar já treinado, experimentado e, porque não assumir, já viciado, acreditam já serem senhores absolutos dos próprios destinos, dispensando maiores comentários, evitando os diálogos mais aprofundados ou mesmo a necessária e saudável troca de experiências, para a verdadeira transmissão da vida e das suas vicissitudes. O que nós sabemos, ou achamos que sabemos, já não lhes interessa mais. Para eles, passamos a ser seres estranhos e já a caminho da obsolescência, seres de um outro mundo, de uma outra época, com outros valores e portadores de um “conhecimento” que a modernidade, sob muitos aspectos, já não reconhece mais como válido. É, quando acredito, a missão do pai e da mãe está encerrada”. Tudo foi feito, dito e ensinado. Experiências mil foram transmitidas. O que normalmente denominamos por "conselhos", foram distribuídos aos montões. Centenas de exemplos foram tomados como referências e indicativos para o bom e para o mau caminho. Enfim, aquele filho ou filha está preparado para a ação! E, de tão preparados, eles acreditam poder deixar de lado tudo o que receberam, e partir para suas aventuras e experiências próprias.

Dali por diante, é verdade, sempre estaremos prontos para o filho ou para a filha, mas, apenas para o acolhimento, o consolo e, não raro, para o socorro! E, quase sempre, o trunfo vitorioso é o da concordância ou o do silêncio.

É com esta visão e com este sentimento que vejo meu filho chegar aos vinte e um anos de idade! É preciso reconhecer, também, ser esta a primeira experiência pela qual estou passando. Mas ainda sou um menino, um menino que carrega no peito dúvidas, medos e inseguranças. Um menino que, infelizmente, não encontra outro menino para trocar ideias e experiências válidas para ambos, um mais velho, o outro, mais jovem. Tão jovem que, em razão da idade que chega e faz desabrochar toda a impetuosidade da vida, não percebe o valor absoluto, e a importância, do diálogo constante e permanente com este menino que ele já considera velho demais e fora de moda. Ambos são meninos, porém, cada qual refletindo o seu próprio tempo.

Um dia eu também tive vinte e um anos de idade, e como eu sonhei poder ser tratado pelo meu pai como um adulto, um adulto capaz de ter ideias e opiniões próprias e interessantes; um adulto capaz de principiar e de prolongar um diálogo forte, saudável e frutuoso para ambos quando eu, certamente, teria a vantagem de aprender muito mais. No entanto, meu pai, vindo de uma realidade na qual não conheceu o carinho, o acolhimento, o amor, o consolo ou mesmo o socorro de um pai ou de uma mãe, rechaçava, como evita até hoje, o diálogo aberto, franco e sincero com os filhos, por se achar, ele próprio, o senhor absoluto de todas as razões e de todas as verdades.

Do alto destes meus quase sessenta anos olho para os vinte e um anos passados como um raio, e percebo ter cumprido minha missão o que, para mim, é motivo de orgulho, satisfação e consolo pessoal e espiritual muito grande. Cumpri, sim, a missão que me competia como pai. Agora, resta-me apenas sentar na varanda e, tal qual o ancião que tem os olhos perdidos no horizonte, aguardar para apreciar os resultados do extenso plantio que fiz no decorrer destes últimos vinte e um anos esperando, ainda, para ver o que revelarão os anos vindouros.

Aos pais e mães mais jovens, não sirvo de modelo, porque ousei agir bem adiante no tempo, acreditando estar construindo pontes e viadutos pelos quais muitas cargas positivas seriam transportadas de forma permanente, espontânea e inteiramente gratuita. Entretanto, qual não tem sido minha surpresa, quando vejo que, tudo construído e desobstruído para gerar integração plena, assim como a produção de esplêndidos resultados, existe um pedágio a ser pago, instalado pelas artimanhas da vida. Um pedágio que dificulta o fluxo natural do transporte de projetos, planos e experiências, criando obstáculos onde não existem e obscurecendo a visão, impedindo a percepção e, evidentemente, afastando a possibilidade de se preparar, em larga escala, para as armadilhas que o futuro guarda para a totalidade dos seres humanos.

Não importa o quanto está sendo, ou o quanto ainda será, cobrado para a travessia das tais pontes e viadutos. O que realmente importa, para mim, e, talvez, até de forma egoísta, é a convicção de ter cumprido com o papel que me foi designado: o papel de pai! Cumpri-o com altivez e com determinação; cumpri-o com satisfação e com orgulho e, na condição daquele que planta uma árvore frutífera em terras alheias, ou mesmo nas próprias, espero que alguém recolha os frutos que, mais dia, menos dia, não tenho dúvidas, aparecerão. Afinal, o que é a vida, senão um plantar e um colher permanentes? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

   

fev 18

EDITORIAL DA SEMANA: TRABALHADORES DO BRASIL

TEMPOS MODERNOS - 2019

TEMPOS MODERNOS – O SÉCULO QUE VIVE NO PASSADO –

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quando falamos em “tempos modernos”, quase sempre vem à mente a lembrança do jovem Chaplin mergulhado no interior de uma fábrica de montagem de peças, apertando parafusos, em uma atividade tão frenética que,  já no intervalo para o almoço, mostrava as mãos trêmulas e vacilantes, repetindo o mesmo gesto, ainda que sem a chave na mão. Coisa de louco, diriam os jovens de hoje.

Diriam isto porque, muitos dos nossos jovens ainda não mergulharam no famigerado ambiente da produção em série de qualquer um dos objetos que consomem ou compram diariamente, pela internet ou mesmo nas lojas físicas. O trabalho de natureza repetitiva, manual ou intelectual que seja, ao invés de uma saudável prática e uma bem-vinda experiência, traz doenças físicas, mentais e espirituais, muitas das quais perseguem as pessoas pelo resto de suas vidas.

Parece incrível que tais ambientes ainda existam e que, por outra, ainda sejam comandados por pessoas que se revelam dotadas com a mesma mentalidade que vigorava no interior das fábricas das décadas de 1920/1930 do século passado. Porém, existem e estão cada vez mais presentes, tanto nos setores públicos, quanto nos privados. Tanto na produção em série, massificada, quanto no trabalho meramente burocrático e intelectual, dependente de relatórios e de decisões previamente elaboradas (os famigerados modelos), com a simples escusa de acelerar o trabalho, produzir mais e preservar pesquisas e coletas de dados já realizadas.

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador. Num primeiro momento, a simples e ingênua repetição de atos e de formas parece coisa simples, racional e saudável. Entretanto, o tempo se encarrega de mostrar que  chega a hora em que o trabalhador ou a trabalhadora passam a sofrer do vício do trabalho repetitivo, e ficam de tal modo vinculados ao sistema que, se for modificado o conteúdo central do trabalho, ele/ela passará batido e, olhando apenas para a peça e o instrumento ou para o título e para as primeiras linhas, dará o mesmo resultado para a questão posta diante de si, tamanha a lesão cognitiva que já tomou conta do seu precioso cérebro.

Aqui, volta a lembrança do trabalhador Chaplin embrenhado, e indefeso, em meio à multiplicidade de engrenagens, simbolizando muito bem tentáculos de um sistema que devora o ser humano de tal forma que, em pouco tempo, se sente como um verdadeiro dente da engrenagem. E mais: muitos, se veem como um dente muito importante na dinâmica que faz tudo girar ao seu redor. Tão importante que são capazes de tudo para se manterem atrelados ao sistema que, paradoxalmente, devora-os com prazer e satisfação e que, quando os consome totalmente, já tem outro, engrenado, para representar o mesmo papel, em um verdadeiro ciclo vicioso e ceifador de  saúdes e de vidas.

Ainda assim, desconhecendo ou fingindo desconhecer as severas consequências das regras impostas e alimentando todo o sistema, chefes intelectualizados, sindicalistas, trabalhadores e outros que se dizem do ramo, estão verdadeiramente assombrados com tudo o que vem sendo proposto (alguma coisa já foi, inclusive, implantada) no campo dos direitos trabalhistas sem, no entanto, mexerem um dedo sequer para questionar seriamente o condenável sistema produtivo, manual ou mesmo intelectual, no qual estão imersos até o pescoço milhões de trabalhadores, exigindo de subordinados, associados e comandados, apenas, e sempre, mais agilidade no processo produtivo, como que a bloquear ainda mais a capacidade intelectiva do cidadão ou da cidadã que, no dia-a-dia, produzem, de verdade, as grandes riquezas e mantêm, impreterivelmente, os ótimos bônus financeiros e os excelentes salários daqueles que, em posição de comando, estão no topo da cadeia produtiva.

O filme que relata a aflição e a descoloração pessoal daquele operário representado, de forma magistral, pelo jovem Charles Chaplin, não raro, é passado em palestras e em congressos, mundo afora, como modelo de produção a ser fortemente criticado e, de fato rejeitado pelos administradores modernos, haja vista o indizível mal que causa aos trabalhadores. Entretanto, ainda contaminados e, de certa forma embotados, pelo pensamento dominante naquelas já citadas décadas do século passado, todos eles  (líderes, chefes e administradores), com raríssimas exceções, mantêm o mesmo sistema de cobrança e de exigência de agilidade na produção de resultados em seus ambientes de trabalho, caçoando daqueles que afirmam estarem sofrendo e alegando não aguentarem mais o sistema viciante e viciado, ou, o que mais acontece, preparando a substituição do que denominam "maçãs podres".

Atualmente, em certas áreas do serviço público, adota-se o teletrabalho, como a joia da coroa. Diferentemente dos procedimentos similares adotados na iniciativa privada, nacional e estrangeira, líderes que representam estes setores públicos, além de não fornecerem equipamentos adequados e aptos à qualidade do trabalho, de não se responsabilizarem pelos efetivos custos operacionais e de não oferecerem um centavo a mais de incentivo para os trabalhadores, diferentemente do que ocorre no setor privado, ainda se acham no direito de exigir aumento expressivo da produtividade, no que contam, infelizmente, com a concordância dos trabalhadores e das trabalhadoras que, já embotados e incapazes de perceber o quanto estão sendo explorados, lutam para assegurar o que ainda acreditam ser um “privilégio”.

O teletrabalho, na forma em que foi pensado, planejado e executado com relativo sucesso por grandes grupos corporativos, grupos que, querendo ganhar cada vez mais, sabem o quanto é importante o bem estar dos seus empregados, tem por finalidade proporcionar aos trabalhadores e às trabalhadoras a possibilidade de executarem suas tarefas diárias no ambiente que lhes parece mais íntimo: a residência. E, justamente por respeitarem este ambiente íntimo, as grandes corporações fazem questão de encher estes trabalhadores de mimos, como jornada de trabalho inalterada, com respeito aos necessários intervalos regulares para a recomposição física, o fornecimento de equipamentos modernos, sofisticados e altamente eficientes, a manutenção periódica nos referidos equipamentos, serviço de help-desk funcionando de forma efetiva e eficaz, durante 24 horas por dia, além de um bônus salarial visando cobrir ou minimizar os custos de operacionalidade o que, incentiva e estimula tal modalidade de trabalho.

Isto sim, é respeitar o trabalhador e o seu íntimo ambiente residencial. Este sim, é o método que busca acrescentar ganhos pessoais, materiais e espirituais àqueles que asseguram os polpudos bônus financeiros aos sócios e acionistas ou os magníficos salários dos líderes, chefes e administradores. Aqui, sim, justifica que cada trabalhador ou trabalhadora lute com afinco para conseguir este que é um verdadeiro privilégio, totalmente oposto ao que tem sido oferecido aos trabalhadores brasileiros, principalmente, os de alguns setores públicos, cujos chefes e administradores acreditam, ou fingem acreditar, estarem na vanguarda do processo evolutivo do trabalho.

Penso ser chegado o momento de, mais do que direitos codificados, os trabalhadores buscarem formas de trabalho mais humanas e mais humanizadas, de modo que passem a ganhar algo que vale muito mais do que o dinheiro: o verdadeiro bem estar para a vida, com valorização e resguardo aos principais direitos da pessoa, onde quem comanda saiba respeitar o ambiente íntimo e pessoal daquele que lhe assegura os enormes ganhos e, por fim, a própria riqueza.

Caso contrário, o filme do velho-jovem Chaplin continuará a representar uma realidade que teima em não sair de cena. Uma realidade que tem transformado os nossos trabalhadores, ao longo do tempo, em bonecos robotizados, viciados na repetição de atos, de gestos e de comandos, que permanecem ativados e atuantes, mesmo fora do ambiente do trabalho, nas conversas de finais de semana com amigos e familiares, naquele papo que ninguém aguenta mais, mas que todos ouvem até por piedade daquele que se sente um importante dente da engrenagem produtiva na qual está inserido, pois todos percebem o prejuízo mental de que são portadores tais indivíduos. Reflita e, ainda que não concorde, veja se conhece realidade diferente e melhor. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

fev 11

EDITORIAL DA SEMANA: O TEMPO É ADVERSÁRIO DE QUEM NÃO O COMPREENDE

COMPREENDER O TEMPO

QUEM NÃO COMPREENDE O TEMPO, É DERROTADO POR ELE –

“Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito” (Ecl 3, 3). Portanto, é prudente, sensato e sábio compreender e respeitar o tempo e sua dinâmica, sem interferir, por qualquer modo, para acelerar o seu curso, permitindo que todas as coisas, ao final do termo próprio de cada uma, sejam reveladas e produzam os frutos desejados e esperados.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Um dos maiores desafios do estágio atual da civilização pós-moderna é conviver com o tempo, esse fenômeno que, mal compreendido, deixa as pessoas de cabelo em pé, diante da “urgência” com que tudo passou a ter que ser resolvido ou discutido, produzindo resultados da forma mais rápida e fulminante possível, de preferência, na velocidade do pensamento.

Esquecem-se, muitas pessoas, que tempo é o intervalo a ser percorrido entre aquilo que projetamos para o futuro e a efetiva concretização e que, fora das atividades meramente virtuais, no âmbito das efetivamente humanas, este intervalo necessita ser percorrido e esgotado completamente, para que, então, possamos contemplar aquilo que, lá atrás, queríamos ver realizado. No mundo virtual, na era de domínio do chip, tudo ocorre em tempo real, vapt-vupt. Basta dar um comando... e tudo aparece na tela mágica do aparelho eletrônico disponível.

Entretanto, fora deste cenário mágico do “tudo pra já”, proporcionado pela mais alta tecnologia virtual, não existe possibilidade de encurtar o tal espaço a ser percorrido entre o projeto e o resultado final de que falávamos acima. Alguns seres humanos, no entanto, teimam de forma insistente, e até meio ignorante, em fazer do tempo um instrumento a ser manejado ao bel prazer, pretendendo trazer para agora, já, os resultados (quantitativos e qualitativos) que só o regular transcurso do tempo pode proporcionar. Para tais pessoas, e eu conheço algumas, somos nós que manipulamos o tempo e, portanto, temos plenas condições de elastecê-lo ou de encurtá-lo, sem se aterem para o fato de que, qualquer adulteração promovida na natureza trará, inevitavelmente, consequências que, na esmagadora maioria das vezes, são indesejadas e até mesmo prejudiciais.

O processo de adulteração, seja em que campo for, desnaturaliza, consome além do possível, cria esgotamento, ocasiona tensões, prejudica o bem-estar geral e compromete seriamente a qualidade daquilo que, em condições normais, seria produzido com padrão de excelência.

Muitas pessoas, e, novamente, conheço algumas, não conseguem entender que aumentos no volume de projetos envolvem maiores prazos, porque, as distâncias a serem percorridas serão muito maiores e, portanto, consumirão mais tempo. Ou seja, trata-se de verdadeira insensatez, desprovida de inteligência e da própria prática do raciocínio, a fala daqueles que gostam de bradar “faremos mais com menos”, deixando de revelar que, aqui, o “menos” significa qualidade ou qualquer outra perda a ser imposta aos executores que agem em nome ou por pressão daquele que, por não compreender as vicissitudes do tempo, acredita deter em suas mãos o controle de um fenômeno que somente Deus domina plenamente, por ser o Senhor absoluto do passado, do presente e do futuro.

Não deve ser omitido, dos pretensos aceleradores dos ponteiros, que o tempo é o pior e mais cruel dos adversários daqueles que não conseguem compreendê-lo, porque, por não serem dotados da necessária compreensão, acabam sofrendo e impondo sofrimentos aos que os cercam que, não raro, são objetos de comando.

É preciso, não apenas compreender o tempo e sua dinâmica, como respeitá-lo profundamente e deixá-lo fluir da forma mais natural possível, agindo como se o hoje fosse hoje e o amanhã, amanhã. Não dá para viver sobrepondo-se às leis da natureza e, especialmente, ao tempo, na ânsia descontrolada de fazer tudo acontecer agora, já, como se o mundo estivesse marcado para terminar hoje e, ainda, assim, ter que deixar tudo prontinho, como se alguma valia tivesse para quem, eventualmente, sobrevivesse. Cada coisa, e, ao final, tudo, tem o seu tempo certo para acontecer. Não existe forma mágica para semear de manhã e colher à tarde, sob pena de, adulterando todas as lógicas e leis da natureza, colher-se algo terrivelmente descaracterizado e desconfigurado, capaz de investir contra a própria criatura. Os mais sábios, ou ao menos os mais providos de racionalidade, devem refletir sobre estas questões, a fim de servirem como verdadeiros exemplos, contribuindo para a formação de opiniões sadias e sensatas e não, como agem alguns, disseminando exemplos que levam-nos a recordar Jesus, que a respeito dos fariseus, dizia para os seus seguidores: “fazei tudo o que eles vos disserem; mas não imiteis as suas ações” (Mt 23, 3), tamanha a insensatez e a imprudência com que agiam aqueles que não arredavam o pé do templo, acreditando piamente, serem bons exemplos a serem seguidos, mas, que, na prática agiam de forma absolutamente contrária ao que ensinavam.

Relativamente ao tempo, ensina-nos o Eclesiastes: “Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito” (Ecl 3, 3). Portanto, é prudente, sensato e sábio compreender e respeitar o tempo e sua dinâmica, sem interferir, por qualquer modo, para acelerar o seu curso, permitindo que todas as coisas, ao final do termo próprio de cada uma, sejam reveladas e produzam os frutos desejados e esperados.

Por que é sábio, sensato e prudente agir assim, em relação ao tempo? porque é assim que o próprio Deus age. Leia-se a Bíblia: “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho, feito da mulher” (Gal 4,4). Ou seja, o próprio Deus esperou calmamente o decurso do tempo para, então, e somente então, enviar o Salvador de todos nós.

Que cada um procure curar sua ansiedade e seu desespero em relação ao tempo, pedindo socorro aos Céus, refletindo sobre o seu proceder e conscientizando-se de que, contra os fenômenos da natureza, o homem não deve investir, seja para prolongar, seja para acelerar, sob pena de arcar com as consequências daí decorrentes, mesmo que recaiam sobre os seus semelhantes como, não raro, acontece.

Este texto, assim como todos os demais até então escritos, pretende abrir espaço para uma profunda reflexão acerca do mal que fazemos a nós mesmos quando, mal compreendendo e até mesmo desrespeitando o dinamismo do tempo, permitimo-nos dominar pela ânsia, pela insensatez e pela imprudência e avançamos contra o seu transcurso, acreditando estarmos agindo bem e sendo bons exemplos quando, na verdade, é totalmente o inverso. Leia, reflita e tire suas conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

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