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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

abr 06

EDITORIAL DA SEMANA: O QUE A PANDEMIA ESTÁ REVELANDO PARA NÓS TODOS?

ROMA ABATIDA

POR QUE A HUMANIDADE ESTÁ ABATIDA?

*Por L. A. de Moura –

Agora, já em abril de 2020, não parece estar oculto de ninguém que o mundo todo está sendo atacado por um vírus cujo poder de letalidade é, simplesmente, assustador. Sistemas políticos e econômicos dos mais diversos, ideologias e crenças das mais ecléticas, estão sendo sacudidos por uma espécie de medo que vai da aparente indiferença, daqueles que fingem não acreditar no que estão vendo e ouvindo, até os que estão, realmente, apavorados, amedrontados e escondidos nas residências, como se a figura macabra da morte rondasse suas casas.

A verdade é que, de fato, a humanidade está sendo submetida a uma prova de proporções planetárias, numa época em que somamos no mundo mais de sete bilhões de habitantes que, até então, circulavam de um lado para o outro, comprando, vendendo, viajando, trabalhando, estudando, conversando, abraçando e sendo abraçados, cumprimentando e sendo cumprimentados de forma efusiva pelo mundo afora. Enfim, a vida fluía como que numa gigantesca cascata a rolar das mais ousadas altitudes, por entre todas as pedras sem que, aparentemente, nada pudesse frear aquele ímpeto humano. De repente, o estouro da boiada! Um estouro tão desenfreado e tão louco que, no momento, a melhor solução, é correr para dentro de casa e por lá permanecer até que a manada celerada passe, levando consigo o perigo da morte por arrastamento, cujo risco aumenta de forma exponencial a cada dia.

Para uns, o momento reclama profunda reflexão; para outros, é hora de repensar toda a estrutura do mundo e todas as estratégias para viver e sobreviver. Alguns falam em castigo de Deus e cumprimento de profecias bíblicas; outros acreditam tratar-se de um ciclo rebelde de toda a natureza, a emparedar os seres humanos para tomada de novos rumos. Há, ainda, os que acreditam em momento de oportunidade renascentista, vislumbrando o surgimento de uma nova e promissora humanidade. Na verdade, os fatos dão margem a todas estas especulações e, conscientemente, ninguém pode refutá-las sob a pecha de estarem contaminadas pelo erro. Assim, a cada um de nós é lícito e, portanto,  permitido, externar o resultado de suas reflexões, cabendo aos demais, e com o devido respeito, tomar conhecimento e, julgando oportuno e conveniente, aderir ou não às teses surgidas.

Particularmente, penso em duas razões que, para mim, revelam-se fundamentais, neste momento, para que estejamos, todos, e a um só tempo, passando por esta tempestade avassaladora. Em primeiro lugar, destaco o que, na minha opinião, é bastante evidente aos olhos de qualquer observador mais sistemático e atento: a escolha pelo afastamento de Deus e da sua Palavra, feita por largas parcelas da humanidade que, voluntariamente, optam pelo mundo com suas regras e atrações, seus bens e prazeres, suas sugestões e consumismos e, principalmente, por um desordenado convívio com a liberdade. Sempre em nome e em prestígio de um relativismo que a tudo permite, aceita, desculpa e justifica, como se decretada de vez, a morte do certo e do errado, do justo e do injusto e por aí vai, num dualismo quase infinito.

É claro que, quando se fala em “Palavra de Deus”, atrai-se o retorcido nariz de muitos que, ao ouvirem o termo, logo fazem uma ligação com o seguimento a esta ou àquela religião, haja vista que, de há muito, grandes parcelas da humanidade optaram por, digamos, caminhos próprios, embora insistam em declarar a fé em um Deus que, de tão bom que é, sempre está pronto para atendê-los, compreendê-los nas suas mais diversas razões, aceitá-los da forma que decidiram viver e, por fim, reservar-lhes um lugar alvissareiro numa espécie de paraíso no qual todas as delícias da terra serão elevadas à enésima potência. Um Deus, enfim, moldado ao gosto e altura de cada um dos seres humanos. Esse Deus, como sabemos, não existe! É apenas uma ficção elaborada por mentes e corações de seres humanos que, por precaução, e para não terem de  rejeitar a fé, decidem criar para si um deus imaginário, com fundamento em tudo o que representa gozo, prazer, felicidade, completude e, nas horas amargas, configure uma entidade a quem possam apelar, em busca de alento, socorro, proteção e livramento de todos os males que, inegavelmente, estão por aí, em todos os cantos e recantos do mundo.

O termo “Palavra de Deus”, que a tantos assusta e causa repulsa, por parecer vinculado ao seguimento religioso, na verdade, é o conjunto de mandamentos e de ensinamentos, compilados nas Sagradas Escrituras, transmitidos por Deus ao povo de Israel, por meio dos Profetas e, a todos os seres humanos, sem qualquer distinção, discriminação ou exceção, por meio de Jesus Cristo. O próprio Jesus vai afirmar não ter vindo para abolir a Lei, mas, antes, para cumpri-la e para aperfeiçoá-la (Mt 5, 17-18).

E aperfeiçoa mesmo quando, após citar cada um dos mandamentos contidos na Lei de Moisés, acrescenta o famoso “eu, porém, vos digo...”, sempre no sentido de acrescentar um pouquinho mais nas exigências já contidas na Lei (Mt 5, 21 e seguintes). Por fim, depois de tantos acréscimos que Ele faz à lei mosaica, vai fechar o círculo afirmando que “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” é o ápice de todos os mandamentos, donde depende toda a Lei e os profetas (Mt 22, 34-40).

Portanto, observar a Palavra de Deus, observar os mandamentos e os ensinamentos contidos nas Sagradas Escrituras, significa buscar uma vida em consonância com tudo o que Deus, por meio dos Profetas ou mesmo pela boca de Jesus Cristo, fez chegar ao nosso conhecimento. Virar as costas para estes ensinamentos e prescrições divinas, é o mesmo que virar as costas para Deus. Grandes nacos da humanidade vive de costas para a Palavra de Deus e, portanto, de costas para o próprio Deus. E o pior, acreditando que, tal qual ocorre com o mágico, num estalar de dedos, Deus vem correndo para livrá-los de todos os males, como se o Criador se transformasse em escravo da sua criatura. Eis aqui um primeiro ponto, sobre o qual é oportuno fazer uma boa e lúcida reflexão.

Em segundo lugar, destaco o verdadeiro desprezo que a imensa maioria das Nações dedica à saúde pública, ou melhor dizendo, à saúde dos seus cidadãos. É notório que a ameaça biológica que estamos enfrentando decorre, em grande parte, do despreparo das Nações para enfrentar casos como este de agora, no qual milhões de pessoas estão carentes de fazer um simples teste de confirmação da doença e, infelizmente, jazem em casa ou sabe Deus onde, à espera de quem chegar primeiro, a morte ou o teste.

A montagem emergencial de hospitais de campanha demonstra o quão desarrumado está o sistema mundial de saúde pública, haja vista que, deveria estar preparado para, em tais circunstâncias, atender imediatamente a um número razoável de seus cidadãos, sempre levando em conta as faixas etárias, os hábitos de vida, os riscos iminentes etc. Se um determinado País tem um elevado número de idosos, por exemplo, deve estar preparado para atendê-los de forma emergencial a qualquer momento, pois, a doença espreita os mais vulneráveis. Um sistema de saúde eficaz deveria trabalhar com estatísticas bem próximas da precisão.

Desse modo, e ressalvando a minha opinião pessoal, acredito que a humanidade está tendo sendo confrontada com duas deficiências dramáticas: a espiritual, por afastar-se voluntariamente de Deus, e a material, caracterizada por um, no mínimo, descaso de governos do mundo todo que, numa hora como estas, ficam atônitos, vendo seus cidadãos morrerem aos milhares, com a possibilidade de vê-los aos milhões, sem perceberem o que já deveriam ter feito há muito tempo.

O lado positivo de tudo isto, é que toda a espécie humana está tendo uma oportunidade ímpar para repensar modos de vida: filhos com seus pais; pais com seus filhos; esposos com esposas e vice-e-versa; trabalhadores, com seus patrões e vice-e-versa; governos, com seus cidadãos; cidadãos, com seus governantes e com as políticas por eles implantadas. Sem falar, é claro, nos sistemas educacional, cultural e artístico. Recordando, ainda, a necessidade de uma nova forma de evangelização do mundo, que deve sair dos púlpitos e altares dos templos e das igrejas para entrar diretamente nos corações de todos os homens, sem apegos a títulos, riquezas ou nomenclaturas devocionais e/ou institucionais.

A economia deve passar por uma reviravolta capaz de emparedar os economistas atuais que, por melhores que sejam, não conseguiram criar nada muito diferente do gênio de J. M. Keynes, A. Smith, M. Friedman e outros do passado. Agora, nossos nobres e excelentes economistas serão desafiados a arregaçarem as mangas, queimarem neurônios e sacarem fórmulas geniais para a superação do que está a caminho.

O lado positivo de tudo isto, é que a humanidade voltou a pronunciar o nome de Deus, com reverência e verdadeiro sentimento de devoção e de respeito, deixando de lado os vícios de linguagem caracterizados pelos famosos “Deus é grande”, “se Deus quiser” e “graças a Deus”, pronunciados de forma mecanizada em todas as circunstâncias que agradam ou interessam àqueles que os proferem dezenas de vezes por dia, como se fossem pílulas para emagrecimento.

A conversão para Deus será, certamente, a grande vacina, não apenas contra este, mas, contra todos os demais vírus e bactérias que estão por aí, na atmosfera, no ar que respiramos, nos alimentos que ingerimos e em todas as partes, prontos para nos jogar, como agora, na lona. Somente estando sempre, e em todos os momentos, lado a lado com Deus, é que podemos contar com a sua infalível proteção. Estar lado a lado com Deus, não apenas repetindo “mantras”, mas, e, sobretudo, observando sua vontade e todos os seus mandamentos para todos e para cada um de nós, a começar pelo sincero e verdadeiro amor para com Ele e para com o próximo.

E, por fim, uma verdadeira conversão econômico-política, exigindo daqueles que são eleitos pelo e para o povo, que cumpram com suas obrigações, a começar pela implantação e pela manutenção de um ágil, hábil e apto sistema de saúde pública, a evitar que, de uma hora para outra, sejamos submetidos a pandemias com a que enfrentamos neste momento.

Precisamos sair desta pandemia, realmente, muito maiores do que entramos. Caso contrário, devemos nos preparar para situações muito piores, em um futuro que, sequer, sabemos quando chegará. Reflita sobre este texto e, concordando ou não com ele, faça suas próprias reflexões e tire as conclusões possíveis. Depois, caso julgue oportuno, dê publicidade da melhor forma que encontrar para que, também nós, possamos ampliar nossos horizontes de reflexão. Seja feliz e, viva na fé!

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*L. A de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

       

mar 30

EDITORIAL DA SEMANA: A VIDA OU A ECONOMIA, O QUE VALE MAIS?

A VIDA VALE MAIS

A VIDA OU A ECONOMIA? QUESTÃO QUE TIRA O SONO DE ALGUNS DOS NOSSOS DOUTOS –

*Por L. A. de Moura –

Nestes dias de angústia, sofrimentos e apreensão mundial, nos quais a humanidade, na quase totalidade, está exposta aos efeitos de um vírus agressivo e letal, as Nações estão sendo convocadas pela realidade a darem respostas, as mais sábias, eficazes e urgentes possíveis, para minorar o máximo possível os efeitos de um mal, ainda, sem remédio para a cura ou para a prevenção.

A questão, em um primeiro momento, pode parecer simples, haja vista que, aparentemente, a quase totalidade dos seres humanos é vinculada a entidades estatais, são cidadãos desta ou daquela Pátria e, como sabemos, o Estado, como ente público por excelência é, acima de tudo, o maior arrecadador de tributos que existe. Razão pela qual, é de se supor, de forma lícita, tratar-se de ente que, apesar de não gerar riquezas, administra riquezas muitas vezes incalculáveis, verdadeiros tesouros, acima e abaixo dos espaços territoriais, quando não, extraterritoriais também.

Ora, em um momento de crise sanitária, intitulada pela OMS como “pandemia”, no qual uma das principais recomendações é o isolamento social e físico (dos contaminados), com indubitável afastamento das pessoas dos meios de produção, seja por motivo da doença propriamente dita, seja por motivo de prevenção quanto à possibilidade de um alastramento incontrolável, com consequências verdadeiramente incalculáveis, é de se supor, também, que os Estados nacionais, pelas mãos de seus governantes, direcionem parte das riquezas estatais para o imediato socorro dos cidadãos que, por décadas a fio, são religiosamente tributados, em nome do bem comum.

Pelo noticiário e pelas informações vindas de todo o mundo conhecido, diversos países estão agindo nesta direção, qual seja: estão zelando pelos seus cidadãos, lançando mão de verdadeiras fortunas para cuidar e prevenir. Cuidar das pessoas, tanto no aspecto sanitário, quanto no social e humano, permitindo que as consequências advindas da interrupção do fluxo econômico, não seja fator determinante da morte dos que escaparem da maldição do vírus devastador. Prevenir, ao mesmo tempo, para que os casos de contaminação que, em um primeiro momento, multiplicam-se de forma exponencial, sejam os mais baixos possíveis de modo a, também, preservar o maior número de todas as vidas humanas. Tudo isso, sem esquecer da questão alimentar que, também, é vital.

Esta parece ser a lógica de toda a estrutura que rege, atualmente, a vida em sociedade. Sem maiores detalhes ou aprofundamentos.

No entanto, e apesar de toda a gravidade do momento, que é passageiro, é bom que se diga, existem governos, gestores do dinheiro público, portanto, que, conduzidos por economistas caolhos e vesgos, posto que só enxergam cifras, nada mais, estão mais preocupados com os destinos da economia de suas Nações, do que com o cuidado, a prevenção e a preservação das vidas dos seus cidadãos. Aqueles mesmos cidadãos que, por décadas a fio, são vítimas preferenciais de todas as formas de tributação, em todas as esferas de governo.

Alguns, inclusive, chegam ao descaramento de questionar o que tem mais valor, a vida ou a economia? Ou, para disfarçar, defendem a tese de que ambas devem ser tratadas em pé de igualdade.

Bem, caminhamos para a terceira década deste século XXI, trazendo a tiracolo um monumental afastamento, pelos seres humanos, de Deus e das suas prescrições para uma vida longa e saudável de todas as criaturas sobre a Terra. Em momentos de desespero, de medo, de pânico, de insegurança e de incertezas, como o atual, é lógico, e esperado, que joelhos se dobrem aos céus, em busca de socorro, proteção e de toda forma de acolhimento.

Entretanto, seja como for, e incluindo até os que afirmam não crer em Deus, a vida é, e sempre será, o bem maior a ser preservado. Bem inalienável e protegido, tanto pela lei divina quanto pela lei humana, que, de uma forma ou de outra, impõem penas severas para os que atentam contra ela (vida), inclusive, para os que se omitem na sua defesa.

Não é possível que se possa aceitar de bom grado que algumas pessoas revelem profundo desprezo, tanto pela própria vida, quanto pela vida alheia, demonstrando, como temos visto e ouvido aqui e ali, maior cuidado com a geração de cifras e com a preservação de riquezas, do que com a prevenção e com a preservação de vidas humanas. Vidas que, inclusive, são as mesmas que mais adiante, logo ali na frente, vão restituir aos cofres estatais, com juros e correção monetária, tudo o que agora estiver sendo disponibilizado para o socorro material de todas elas, bem como as daqueles que delas dependem.

Portanto, parece ser tremendamente grosseira, para não dizer burra mesmo, a dúvida levantada em certos setores da sociedade acerca do que vale mais: a vida ou a economia? Do mesmo modo que é grosseiro, e burro, também, o raciocínio de que a preocupação deve ser com ambas: com a vida e com a economia, de forma simultânea. Ora qual é o pai que, estando a vida de seu filho ou filha por um fio, hesita em lançar mão de tudo o que conseguiu reunir em uma conta de poupança, para mantê-lo(a) vivo(a)? Qual é o pai que, de forma grosseira, desumana e burra, para tentar (!) salvar o filho ou a filha, aceita usar, apenas, parte do que tem depositado na tal poupança? Não irá ele, em primeiro lugar, vender a própria roupa do corpo, se for preciso, para salvar aquela vida, que também é sua?

Desta forma, no momento vivido por todos nós seres humanos, não dá para aceitar que os oportunistas de todos os gêneros e espécies consigam fazer vitoriosa a tese estapafúrdia de que, tanto a vida quanto a economia precisam ser preservadas conjuntamente, ainda que diante de uma pandemia de proporção planetária, como a que estamos vivendo.

A Palavra do Senhor assim é descrita: “Eis que ponho diante de vós o caminho da vida e o caminho da morte” (Jr 21, 8). E, neste sentido, o nosso Padre Zezinho, em memorável canção, eternizou a seguinte estrofe:

“Diante de ti ponho a vida e ponho a morte.

Mas tens que saber escolher.

Se escolhes matar, também morrerás.

Se deixas viver, também viverás.

Então vive e deixa viver!”

 (Pe. Zezinho, Em Prol da Vida).

É preciso saber escolher, diz a canção. Será demais pretender que as pessoas que gerenciam e administram as riquezas de uma Nação, ajam com sabedoria? Será muita pretensão imaginar que os homens públicos, eleitos ou não, sejam minimamente inteligentes e sábios diante dos percalços da vida? Ou devemos aceitar morrer por eles? Todas as respostas parecem, por demais, óbvias.

Portanto, façamos ouvidos de mercadores diante dos apóstolos e defensores da morte e deixemo-los à própria sorte. Cuidemos, pois, de todos os nossos irmãos e irmãs que, mundo afora, estão, assim como nós todos, sujeitos à pandemia do coronavírus, e oremos para que Deus, Senhor da vida e nosso Salvador, venha em nosso socorro neste momento difícil pelo qual estamos passando. Depois, e somente depois, assim como nos períodos de pós-guerra, todos juntos reconstruiremos a economia, se possível, em outros moldes, padrões e níveis, sempre a serviço da vida, e não mais, como tem sido, contra ela e contra a nossa mãe Terra. Reflita sobre isto. Preserve a vida, a sua e a dos outros. Recolha-se e mantenha-se em oração. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 23

EDITORIAL ESPECIAL: O VÍRUS DO MEDO É, TAMBÉM, O DA REFLEXÃO

CIDADE DESERTA

DIAS DE PÂNICO: TEMPO DE LUCIDEZ E DE REFLEXÃO –

*Por L. A. de Moura –

Como poderíamos imaginar, há pelo menos um ano, que, em março de 2020, estaríamos vivendo dias de tamanho assombro em todo o globo terrestre? Não há lembrança, também, acerca de algum vidente fazendo previsões neste sentido para o ano em curso. É óbvio que, quando se trata de ser humano, tudo pode ser esperado. No entanto, acredita-se que, se alguém sabia de tudo isto com tamanha antecedência, preferiu guardar para si.

Pois bem, o fato é que estamos diante de situação dramática, haja vista envolver todos os seres humanos, de todos os quadrantes da Terra, sem a ninguém poupar, excetuar ou, como gostam os poderosos, excluir. Todos lançados nos guetos do isolamento, cada qual a seu modo sem, no entanto, podermos estar, como sempre gostamos, lado a lado para, juntos, enfrentarmos “a peste” que atormenta a todos os povos e a todos os governos do mundo.

O fato de estarmos sendo conduzidos para o isolamento social, num primeiro momento parece coisa insuportável, haja vista existirem pessoas que não suportam o distanciamento das grandes concentrações populacionais. Pessoas que, parece, nasceram para estar no meio das multidões, onde, de fato, sentem-se à vontade e bastante felizes. D’outro lado, temos que pensar naqueles que, com a máxima razão, estão preocupados com os seus empregos e com a possibilidade, tremendamente cruel, da perda ou da redução drástica em seus salários que, no Brasil, nunca são suficientes para as necessidades básicas dos trabalhadores. Estas preocupações devem fazer parte de todos nós, trabalhadores, desempregados ou mesmo aposentados, por se tratar de condição de vida de milhares, milhões de irmãos e de irmãs que precisam ganhar o pão de cada dia para alimentar seus dependentes, sejam eles quem forem.

No entanto, e não havendo outra solução para o momento, há que se encontrar em meio a estes dias de pânico, de incertezas e de medo, momentos de lucidez para, no silêncio dos nossos dias prolongados pelo isolamento, fazermos boas reflexões sobre o que, de fato, tem sido a trajetória dos seres humanos, nós todos, portanto, sobre esta Terra. Sobre a forma como temos olhado para o mundo – nós e os nossos governantes – não como o nosso lar comum, mas, como um objeto a ser usado, abusado e descartado, sem a ele darmos um fio promissor de esperança, com os olhos voltados para as próximas gerações.

Seria muito bom, e bastante útil, se, depois destes dias tenebrosos, preocupantes e traumáticos, nós pudéssemos sair dos nossos cantos, estejam onde estiverem, e, ao primeiro contato com as ruas, com a natureza, com os animais, com as praças públicas, com os riachos, com os mares e, principalmente, com os nossos semelhantes, conseguíssemos perceber o quão bela e valiosa é a vida; o quão bela e saudável é a natureza com todas as demais criaturas interagindo de forma expressiva e concomitante; e, o quão importantes somos todos nós, uns para os outros.

Seria muito bom se, depois de tudo isto, resolvêssemos repensar os conceitos e os cuidados que dispensamos à saúde, particular ou coletiva; o carinho e o respeito aos profissionais, e às instituições, da área da saúde como um todo, sem exceções; se reavaliássemos o respeito que dedicamos, ou que deveríamos dedicar, aos cientistas, homens e mulheres abnegados, que passam a vida inteira isolados nos grandes centros de pesquisas pelo mundo afora, em busca da descoberta de medicamentos de cura e/ou de prevenção das mais diversas enfermidades que acometem a todos nós, pobres mortais. Enfim, seria de vital importância que compreendêssemos que o valor que atribuímos aos bens materiais, e ao dinheiro por excelência, é demasiadamente grande, ante o poder que eles demonstram ter quando somos assolados por calamidades sanitárias, pessoais ou coletivas, como a vivida no presente momento.

Para nós, principalmente, brasileiros, deve ser adicionada uma lição importante: precisamos perceber que, até num momento tão dramático como este, de comoção mundial, nem os países mais ricos e mais desenvolvidos do mundo conseguem dar aos seus cidadãos a felicidade e a completude que, em tempos normais e de paz, conseguem, não apenas dar, mas, demonstrar com altivez e sensacionalismo para o resto do mundo. China e EUA, as duas maiores economias do planeta, foram os primeiros a caírem de joelhos diante do vírus assustador. Países de uma Europa rica, desenvolvida, bela e culturalmente exibida, revelam medo e assombro diante da potência do chamado “novo” coronavírus.

E nós, aqui do Cone Sul, pobres e terceiro-mundistas, estamos em situação idêntica à das maiores e mais prósperas Nações do mundo. Assim, seria bom que, passada a tormenta, aprendêssemos a valorizar um pouco mais tudo o que temos e tudo o que somos, perdendo o hábito de estarmos sempre indo para lá, para valorizar o que é do outro. Um outro que, tal como nós, revela-se impotente diante de um mal maior e mundial.

Por fim, será de infinito valor se, passados estes dias de pânico e de assustamento nós, tal como já o sabiam os nossos pais e avós, descobrirmos que acima dos bens materiais, do dinheiro e das Nações ricas e prósperas, existe um Deus a quem, nas horas difíceis, todos se unem para pedir o socorro urgente. É preciso que todos nós aprendamos a usar mais o WhatsApp para levar mensagens de vida e de salvação a todos os nosso irmãos e irmãs, e deixemos de continuar sendo meros repassadores de notícias falsas, de fofocas e de mensagens que têm como efeito muito mais a divisão e o ódio, do que qualquer outra coisa.

Que nos dias seguintes a tudo isto nós possamos sair às ruas com largos e expressivos sorrisos, agradecendo a Deus pela vida, pela saúde e pela beleza da natureza. E que possamos contaminarmos-nos uns aos outros com a alegria, com a paz, com a fraternidade e com a satisfação de, talvez pela primeira vez em nossas vidas, compreendermos que o outro e nós somos um único e mesmo ser porque, nestes dias de solidão e de isolamento, estamos sentido mais falta dele – do outro – do que de qualquer outro objeto, situação ou evento. Afinal, que valor teria se apenas a um de nós fosse permitido ir ao estádio de futebol assistir a um clássico, ir ao teatro ou à praia, ou passear nos parques e praças, se outras pessoas, também, não pudessem estar lá? Sem o outro, sem os outros, nós somos pequenos e incompletos, somos vazios, somos pobres e inválidos, somos impotentes e incompetentes.

Nada como um dia após o outro, diz o adágio popular. Então, que enquanto durar este dia negro, nós tenhamos a lucidez para refletir sobre tudo isto e, quando ele terminar, que saibamos ser, realmente, felizes, com tudo o que temos e somos. E que a volta do aperto de mão e do abraço sincero, possa significar para cada um de nós tudo o que realmente sentimos uns pelos outros. Pense sobre tudo isto. Reflita e se prepare para o novo e promissor dia que está para chegar em breve. Afinal, não há bem que dure para sempre, nem mal que nunca tenha um fim. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mar 16

EDITORIAL DA SEMANA: O BOM SAMARITANO E OS FALSOS CRISTÃOS

O BOM SAMARITANO - 2020

A PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO NO BRASIL DOS ANOS 2020: UM CENÁRIO ASSUSTADOR  –

*Por L. A. de Moura –

A maioria dos cristãos, seja lá qual for a denominação religiosa a que pertençam, conhecem de cor a Parábola contada por Jesus, acerca do homem que, vítima de salteadores, ficou caído na estrada que descia de Jerusalém para Jericó (Lc 10, 30-37) e que, depois da passagem de um sacerdote e de um levita que nada fizeram por ele, acaba sendo socorrido, de forma humanizada, por um samaritano.

Sabe-se, também, que os samaritanos não eram as pessoas mais amadas daquele tempo de Jesus e que, talvez, por causa disto mesmo, o Mestre de Nazaré tenha contado a história da forma como contou, e com o final de teve.

Entretanto, é de se imaginar que, se o cenário da referida Parábola fosse reproduzido nos dias de hoje, e, principalmente, no Brasil destes turbulentos anos, nos quais os extremos estão se tocando de forma bastante agressiva, ofensiva e danosa para o convívio entre pessoas que, eventualmente, se autoproclamam cristãs, ouviríamos por primeiro alguns questionamentos, acerca da pessoa e da identidade da vítima e, na sequência, uma bateria de perguntas sobre a pessoa, a identidade, as origens e as ligações político-partidárias do "bom samaritano".

Por exemplo, certamente, alguém perguntaria acerca da sexualidade da vítima: homo ou heterossexual? Também seria imprescindível, para muitas pessoas destes nossos tenebrosos tempos, indagar acerca da raça do cidadão: negro, pardo, mulato, branco ou índio? Estaria tal homem ligado a algum partido político de esquerda? Seria ele um comunista? Teria o referido homem alguma ligação com pessoas progressistas? A qual religião, se é que teria, estaria ele vinculado? O tal homem, mesmo caído no solo, e bastante ferido, conforme descrito por Jesus, teria cometido algum crime no passado? Teria ele passado pelo sistema penitenciário em algum momento da vida? Será que, alguma vez recebeu ajuda social do governo, tipo bolsa família ou mesmo desfrutado de algum benefício da Lei Rouanet? Ou, quem sabe, estaria aquele homem vinculado a alguma ONG defensora do meio ambiente, com os olhos voltados para a Amazônia?

Estas questões, e talvez outras tantas do mesmo gênero, certamente, seriam colocadas, não, exclusivamente, em razão do pobre e moribundo homem, mas, para se poder apurar, também, a licitude, a moralidade e a conveniência política do ato praticado pelo tal “samaritano” que, a depender das respostas dadas acima, seria seriamente criticado por expressiva parcela da sociedade e, eventualmente, banido de muitos grupos de WhatsApp, além de ser rechaçado das demais redes sociais. O tal “samaritano”, no caso, não deveria prestar auxílio, por exemplo, a um cidadão que fora furtado, justamente, nos bens que ele mesmo acabara de furtar de outrem. Ou, ainda, o “samaritano” não poderia de forma alguma prestar socorro a um sujeito com ficha policial marcada por algumas práticas, digamos, ilícitas, no passado.

Dentro desta lógica, perfeitamente adequada ao Brasil destes marcantes últimos anos da segunda década do século XXI, seria de se condenar de forma veemente, alguém que prestasse qualquer socorro a um cidadão ligado a partidos ou a quaisquer outras agremiações ditas progressistas ou, como muitos preferem, esquerdistas. Como socorrer alguém que, no passado, recente ou não, teve ligações, por exemplo, com ONG’s defensoras da Amazônia ou dos povos indígenas?

Parcela significativa da sociedade, com bastante certeza, reprovaria um “samaritano” que ousasse prestar auxílio a um servidor público caído no solo, justamente por se tratar de pessoa tida como “parasita”, fonte de todas as mazelas de um Estado que sempre agiu de forma perdulária mas, que, de uma hora para a outra, decidiu reescrever toda a história nacional, de ponta-cabeça.

Ora, caso a vítima socorrida fosse um homossexual, teria de ser seriamente criticada, e até mesmo reprovada, a assistência prestada pelo nosso “bom samaritano”, porque, com tal atitude, estaria ferindo de morte certas moralidades supostamente cristãs, defendidas com unhas e dentes por quem tem ódio líquido correndo nas veias, ainda que na cor vermelha(!).

Pois bem, se o moribundo tivesse, então, em algum momento da vida, produzido algum trabalho cultural com suporte na Lei Rouanet, estaria mais do que evidenciado que o “bom samaritano” teria algum interesse camuflado na ajuda prestada. Mas, o mais importante, ainda, seria indagar se a hospedaria para onde o moribundo foi encaminhado, estava em dia com o Fisco federal, com o estadual e com o municipal. Seria, igualmente, vital saber se a tal hospedaria, financiou algum político, e de qual partido ou ideologia seria o beneficiado. E mais: importante seria averiguar, também, se o "bom samaritano" é ou teria sido sócio da tal hospedaria. Nada demais! Só para apurar-se alguma possibilidade de lavagem de dinheiro.

É claro que, dentro desta lógica, com a qual muitos não devem concordar com a possibilidade de ocorrência nestas paragens sub-equatorianas, o fato de o socorro ter sido, eventualmente, prestado a um índio, a um negro ou a uma mulher, talvez, fosse decisivo para condenar de vez o nosso “excelente samaritano”, cuja pena social poderia ser branda, com simples  críticas diárias e ameaças a ele e à própria família, até que decidisse exilar-se na Cochinchina, ou, no mais grave dos casos, ser banido das redes sociais e tornar-se, ele próprio, alvo preferencial dos seus algozes que, de posse de alguns dados fundamentais, investigariam a sua vida deste a concepção até o momento em que pagou o dono da hospedagem para cuidar do pobre moribundo caído na estrada, vítima que foi, de salteadores.

É lógico que esta proposição, tomando por base a Parábola do bom samaritano bíblico, pode, e deve, causar perplexidade no leitor ou na leitora. É natural que aconteça. Mas, é evidente e inegável que, nos dias de hoje, tudo isto seria bastante coerente com o cenário que temos vivido por aqui, onde até um simples abraço em um criminoso, condenado e em pleno cumprimento da pena, torna-se ato severamente reprovável e socialmente condenável, até por pessoas alojadas nos mais elevados patamares políticos.

É de se indagar, já que estamos em um interrogatório sem fim, sobre o tipo de cristãos que chegaram até este século XXI. Como podemos entender que sejam consideradas cristãs, pessoas que se comportam de forma absolutamente distanciada dos ensinamentos de Jesus Cristo? Logo Jesus, que mandou amar os inimigos; mandou perdoar sempre e sem qualquer limite; aconselhou a reconciliar com os adversários durante a caminhada; sugeriu entregar tudo para o que pedisse apenas uma parte. É difícil para qualquer um de nós compreender e, principalmente, explicar, como podem existir cristãos que vivem do lado do avesso. Ou seja, pessoas que fazem tudo de forma absolutamente inversa, mas que insistem em se autoproclamarem seguidoras Daquele que condenou todas estas práticas defendidas de forma descarada.

É preciso que as pessoas tenham o mínimo de entendimento racional, nem precisam ser muito inteligentes, para perceberem que “somos todos iguais, filhos de um mesmo Pai”, e que, inevitavelmente, todos, absolutamente todos, seremos moradores de um mesmo condomínio, chamado cemitério, ao final da nossa jornada. Lugar onde ninguém pode, ou poderá, escolher o vizinho mais próximo. E, o pior de toda esta história: depois desta vida estes julgadores, eles sim, poderão ser separados, atados em feixes, e lançados em um lugar de transtornos e de sofrimentos eternos. Quem se diz cristão, precisa repensar suas palavras e suas atitudes. Pensar, repensar e tomar novos rumos na vida, enquanto é tempo. Quem se autoproclama cristão não pode esquecer, nem fingir desconhecer, o célebre ensinamento de Jesus: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, segundo o juízo com que julgardes, sereis julgados; e com a mesma medida com que tiverdes medido, vos medirão também a vós” (Mt 7, 1-2).

Que os novos e bons samaritanos, que existem aos milhares entre nós, muitos dos quais nem cristãos são, antes de serem criticados, insultados e condenados nas redes sociais e nas praças públicas, sejam imitados em todos os seus atos de bondade, de generosidade e de acolhimento. É o que é esperado porque Aquele que doou a própria vida em favor de todos nós, transgressores contumazes das leis divinas e culpados por tantos dizeres, fazeres e desvios de conduta porque, conforme a Palavra conhecida por todos os cristãos “todos pecaram e estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente pela sua graça, por meio da redenção, que está em Jesus Cristo” (Rm 3, 23-24).

No mais, vale repetir o que sempre dizemos por aqui: que cada um de nós tome a decisão de imitar o bom samaritano, independentemente das críticas e do achincalhamento impostos por parcela significativa de uma sociedade totalmente seduzida pela falácia anticristã daqueles que, falsamente, afirmam serem cristãos. Precisamos imitar, sempre, o bom samaritano, levando em conta que,  ser acusado, injustiçado, açoitado, condenado e crucificado, também, faz parte do seguimento ao Cristo de Deus. Pense, reflita e mantenha-se firme e coerente nos seus propósitos. Antes de afirmar-se como cristão, repense seus atos, palavras e omissões, para verificar se existe coerência entre o que é dito e o que é demonstrado publicamente. No mais, deixa por conta de Deus que, como disse o Senhor, “faz nascer o Sol sobre bons e maus, e manda a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 45). Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

mar 09

EDITORIAL DA SEMANA: COM A TEOLOGIA, OS EFEITOS DE UM BIG BANG

BIG BANG - 2

A TEOLOGIA OPEROU NA MINHA VIDA OS EFEITOS DE UM BIG BANG –

*Por L. A. de Moura –

Segundo a teoria do Big Bang, todo o espaço cósmico originou-se de uma estupenda explosão, compreendida a partir da Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, tendo por efeito uma expansão, contínua e permanente, do Universo, datada de mais de 10 bilhões de anos, permitindo ao ser humano descobrir, e entender, como tudo realmente começou. Isto é assunto eminentemente científico e, como não é a minha praia, nele não vou prosseguir.

Apenas utilizo o termo “Big Bang”, para me referir aos efeitos – ainda sem possibilidades de verificação tanto da extensão quanto da totalidade – que causou em minha vida a fusão entre o átomo da vontade e o do evento “Teologia”, ciência que investiga primordialmente a relação entre Deus, sua essência e seus atributos, os seres humanos, a natureza e o próprio Universo, criando ondas de expansionismo cognitivo reveladoras de uma universalidade insondável e, ao mesmo tempo, inalcançável em sua totalidade.

Eu que, como já dito n’outras oportunidades, havia tido uma longa experiência no campo do Direito, fiquei maravilhado com o arco, aparentemente, imensurável do horizonte da Teologia. Um arco tão extenso quanto diversificado, envolvendo, temas e bibliografias, também aparentemente, inexploráveis de forma conclusiva  ao longo de uma única vida.

Em pouco tempo descobri, para a minha imensa alegria e felicidade, que a Bíblia é o Livro por excelência a ser lido, estudado, pesquisado, imitado, compartilhado e, ao mesmo tempo, libertário, graças às mensagens profundas que traz para os que ousam com ela se envolver.

Em pouco tempo, também, descobri estar matriculado em um Instituto de Teologia marcado pela excelência de professores, não apenas altamente qualificados, mas, e essencialmente, extremamente dedicados e dispostos à entrega total no âmbito das suas especialidades.

E, em curtíssimo tempo, descobri que o aparato bibliográfico a ser adquirido, pesquisado e abraçado é dos mais amplos sobre os quais havia tido notícia até então. Teologia, certamente, combina com a minha natureza. Teologia, certamente, faz parte do meu ideal de vida. Teologia, certamente, é a minha praia, e, quando você encontra o seu caminho, quando você encontra a razão da sua vida, quando você se depara com aquilo que sempre desejou, mas, que, parecia existir apenas em sonho, seja lá o que for, quando isso acontece na sua vida, você, realmente, se torna uma pessoa feliz. Assim eu me sinto diante da Teologia.

Não importam mais os obstáculos a serem enfrentados. Não importam mais os percalços, os incentivos ou não incentivos que a própria vida ou até mesmo as pessoas darão a você. Você, simplesmente, está no caminho da felicidade.

A Teologia abriu esta imensurável porta diante de mim e eu, por definição, me tornei uma pessoa feliz. Tão feliz que abri uma estrada ao lado da minha vida, por onde trafego sem identificar traumas, dramas, angústias ou sofrimentos, ao contrário do que é a vida diária de uma pessoa normal, que vive em e para a família; uma pessoa que teve de cumprir um período de trabalho que ultrapassou as quatro décadas, enfrentando todo tipo de problemas e de situações, das mais diversas e imagináveis possíveis.

A Teologia veio até mim, acredito piamente nisto, por mãos espirituais muito iluminadas. Mãos que vieram afagar a minha alma; mãos que vieram amansar todo o meu ser; mãos que trouxeram a arca sagrada com todos os grandes tesouros escondidos em seu interior. Diante desta arca e destes tesouros, eu me inclino e presto a máxima reverência, porque reconheço estar frente a frente com o Eterno, com o insondável, com o impenetrável, com o transcendente. Daí a minha euforia espiritual, a minha alegria indizível e inenarrável.

Deus, na suas infinitas glória e sabedoria, concedeu-me o dom especial para escrever. Gosto de escrever. Escrevo com paixão e faço rolar por entre as linhas de algumas páginas, pensamentos, opiniões, projetos e sentimentos que faço questão absoluta de extrair do interior da minha alma, para compartilhar com as pessoas. Pessoas que, na maioria das vezes, nunca vi e que, certamente, jamais verei. Pessoas que leem o que escrevo a partir da divulgação no site que mantenho com a finalidade de levar a Palavra de Deus, mas, que, também, utilizo para divulgar os textos que escrevo. Pessoas, cujo acesso aos meus escritos ocorre, também, por meio do whatsapp.

A partir deste dom, ao qual venho me dedicando dia-após-dia, levo para as pessoas, além de outros temas, um pouco de tudo o que tenho aprendido a partir do ano de 2014, quando assisti a primeira aula de Teologia na qual, de forma especialíssima, o professor iniciava seu trabalho apresentando os primórdios do cristianismo. Foi quando ouvi, e adquiri compreensão sobre, o termo “Patrística”! A partir dali, embora fazendo poucas matérias, em razão do trabalho profissional, ao qual ainda estava vinculado, nunca mais consegui, nem quis, me afastar dos temas teológicos. A partir daquela primeira aula, ministrada por quem cuidou de doutorar-se na matéria, eu fui desviando o meu olhar espiritual, cada vez mais, na direção de um oceano imensamente profundo.

Não tardou muito para que, lenta e progressivamente, e diante de tantas opções, eu passasse a frequentar as aulas de exegese bíblica, ministradas por alguém que, por meio de indiscutíveis competência, sabedoria e conhecimento, mostrou-se apto para abrir portas bem trancadas para um leigo como eu. O professor de exegese bíblica, além dos títulos acadêmicos que ostenta tem, ainda, a seu favor, a simplicidade no falar e no ensinar e as experiências, da vida e da pastoral. Com estes especiais atributos, aprendi com ele a escolher as chaves certas para, por meio de uma vasta bibliografia, ir destrancando muitas das inúmeras portas existentes no interior das Sagradas Escrituras. Portas que, quando não abertas e adentradas com coragem, firmeza e determinação, impedem a aquisição do conhecimento necessário para o progresso no coração da Teologia.

Hoje, aposentado, continuo frequentando as aulas, agora com mais rigor e dedicação, em função da ausência do compromisso profissional. Agora, e a partir de agora, estou como aquele oceanógrafo que, munido dos instrumentos aptos para o mergulho, vai descendo com a máxima cautela e curiosidade possíveis, rumo ao fundo do gigantesco e, para ele, inexplorado, mundo oceânico.

Não é a primeira vez, nem será com certeza a última, que escrevo sobre a Teologia propriamente dita. Faço questão de registrar, nestas humildes linhas, todo um universo de sentimentos e de emoções colhidos a partir de uma primeira explosão subatômica, que foi o encontro entre uma infinita vontade e a possibilidade de estudar Teologia. Desta explosão, comparável à do Big Bang, gigantescas ondas sacudiram toda a minha vida, a minha existência e – não tenho dúvidas quanto à afirmação – a minha própria vida após esta existência, cujos sentimentos, fé e esperança, deixo para descrever n’outra oportunidade.

Por ora, é o que eu desejo registrar. Peço ao leitor e à leitora para que não reparem se falo sobre tema, às vezes, tão estranho ao seu universo vital, social ou mesmo acadêmico, mas é que eu, como pretenso escritor, preciso dar vazão às ideias, assim como a vaca precisa que o leite seja retirado ou a galinha precisa que o ovo seja posto para fora. Perdoem a este pobre escriba, por trazer um tema alheio aos seus interesses imediatos. Porém, quero deixar registrada a mensagem final, a moral da história, como diríamos: você só consegue ser verdadeiramente feliz, quando encontra aquele que, para você, é o verdadeiro caminho. Eu encontrei o meu. E você? Pense sobre isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

mar 02

EDITORIAL DA SEMANA: OUÇAM O GRITO DOS PROFETAS, DE ONTEM E DE HOJE

JEREMIAS - O PROFETA

O GRITO DOS PROFETAS SÃO OUVIDOS ATÉ OS DIAS DE HOJE –

*Por L. A. de Moura –

Muitas pessoas, nos dias atuais, temem a leitura da Bíblia, sem a assistência de alguém versado nas Sagradas Letras, justamente, por não conseguirem compreender muito bem o, digamos, enredo, da peça bíblica. De fato, é necessário possuir o hábito da leitura, de um modo geral, para, ao menos, no tocante à Bíblia, conseguir destravar a compreensão de alguns textos vitais.

Dentre todos os Livros que compõem a Sagrada Escritura, faço menção especial aos proféticos, por meio dos quais podemos traçar uma linha mais ou menos reta entre os dizeres, os focos e os objetivos, além de, é claro, ficar bem claro para o leitor e para a leitora a manifestação direta de Deus que, como no caso do profeta Jeremias, intima o sujeito a fazer-se seu porta-voz (Jr 1, 4-10).

Menciono Jeremias por acaso. Afinal de contas, podemos perceber que todos os demais profetas, maiores ou menores, exerceram papéis fundamentais nas sociedades de seus tempos. Sem entrar pormenorizadamente na vida pessoal de cada um destes magníficos porta-vozes de Deus, é bom, e útil ao conhecimento, saber que, em primeiro lugar, as palavras, os termos e os exemplos utilizados por cada um dos profetas é típico da época em que eles atuavam. O foco principal é sempre, como ensinava o Teólogo Milton Schwantes, o Estado. Sempre o Estado é a razão de ser da profecia. Por que? Porque o profeta, acima de qualquer outra atividade religiosa ou cultual, é aquele que denuncia e ameaça o rei, representante máximo do Estado dos tempos bíblicos. É ele, o rei, quem oprime, explora, tributa a terra e tudo o que nela é produzido e, principalmente, pratica a injustiça e reprime a liberdade e obstaculiza a hospitalidade.

Ora, a libertação da opressão e da exploração do povo revela a primeira intervenção divina em favor dos hebreus quando, após mais de quatro séculos de escravidão no Estado egípcio, tem em Moisés o primeiro grande profeta. É Moisés quem, em nome Daquele que é (Ex 3, 14), vai perante o faraó postular a liberdade do povo para andar pelo deserto por três dias, para orar e prestar culto ao Senhor (Ex 5, 1-5). Mas esta questão para o faraó era por demais humilhante. Ele não se enxergava apenas como uma pessoa, mas, como uma entidade sagrada, um deus, um tudo. Ele que, de forma arrogante questiona Moisés: “Quem é o Senhor, para que eu obedeça a sua voz e deixe partir o povo?” (Ex 5, 2).

O desenrolar de toda a saga dos hebreus pode ser lido a partir do capítulo 3 do Livro do Êxodo. E vale à pena ler, para que se compreenda bem a palavra que afirma: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20, 2). O mesmo Senhor que conclama todo o povo a não prestar culto a outros deuses, dando origem à oração sagrada para os judeus até os dias de hoje, a Shemá: “Ouve ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e com toda a tua força.” (Dt 6, 4-5).

A instituição da monarquia, querida e postulada pelo povo, contra a vontade do profeta Samuel, trouxe, como uma de suas nefastas consequências, a prática, pela maioria dos reis, da idolatria, total e absolutamente condenada por Deus e, também, praticada de forma insistente até os dias de hoje, tanto por governantes, quanto pelos seres humanos que, mesmo quando são fidedignos observadores da Palavra de Deus, afirmando-O como o único Senhor, prestam culto e reverência ao deus dinheiro, a quem servem de bom grado, a ele atribuindo grande parte da felicidade que alegam usufruir. Mas isso é outra questão.

Pois bem, atendendo à vontade do povo, que exigia ser governado por um rei, a exemplo dos povos pagãos, o Senhor mandou Samuel instituir um rei sobre o povo, não, sem antes dar o seguinte aviso: “declara-lhes o direito do rei que reinar sobre eles. Este será o direito do rei que vos há de governar: tomará os vossos filhos e os porá nas suas carroças, fará deles moços de cavalo e correrão diante dos seus coches, os constituirá seus tribunos, seus centuriões, lavradores dos seus campos, segadores das suas messes, fabricantes das suas armas e carroças. Fará de vossas filhas suas perfumadeiras, cozinheiras e padeiras. Tomará também o melhor dos vossos campos, das vossas vinhas, dos vossos olivais e dá-los-á aos seus servos. Também tomará o dízimo dos vossos trigos e do rendimento das vinhas, para ter o que dar aos seus eunucos e servos. Tomará também os vossos servos e servas, os melhores jovens, os jumentos e os empregará no seu trabalho. Tomará também o dízimo dos vossos rebanhos e vós sereis seus servos. E naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós mesmos elegestes, e o Senhor não vos ouvirá, porque vós mesmos pedistes um rei.” (1Sm 8, 9 -18).

Deus faz ver ao povo que a partir do evento monarquia (Estado) viria a subjugação, a escravidão, a tributação, a opressão e, com toda a certeza, a injustiça.

A Palavra afirma que nem assim, diante de todos os avisos, o povo desistiu da ideia, antes declarando “há de haver um rei sobre nós, e seremos também como todas as demais nações” (1Sm 8, 19-20). É a partir daí que o povo entrega nas mãos do Estado (do rei) o direito de controle absoluto sobre seus passos e progressos. E, a depender do rei e da época, cada um foi, e tem sido, pouco melhor ou muito pior do que os antecessores, mas, sem, de modo algum, deixar de apertar as gargantas e os cintos de todos os povos nos milênios seguintes. E será contra este aperto de gargantas e de cintos, que os profetas vão se insurgir e bradar por longo tempo, sem deixarem, é claro, de condenar de forma incisiva e veemente as idolatrias do povo que, mesmo sofrendo, sempre procurou a âncora de outros pretensos deuses, para a resolução dos seus mais diversos males.

O profeta Samuel foi incansável na luta contra os desvios, desmandos, e idolatrias de Saul, o primeiro rei. O profeta Natan, não deu sossego ao rei Davi, por causa dos seus rompantes e da morte de Urias, para tomar-lhe a mulher. O profeta Aías viu o lamentável final do reinado de Salomão, assim como presenciou a divisão do reino em dois, conforme determinara o Senhor.

A trajetória de todos os reis após Salomão é descrita nos Livros I e II dos Reis e I e II das Crônicas, sem nenhuma alteração significativa quanto ao modo de operar “do Estado” propriamente dito, culminando com a desolação do exilio experimentado por reis, cortes, sacerdotes e povos, e descrita de forma tenaz  no Livro das Lamentações. Profetas como Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, assim como todos os demais, sempre atuaram na mesma linha e com o olhar voltado para os mesmos focos: a idolatria, a opressão e a exploração do povo, a tributação excessiva, sempre em defesa da justiça, feita à viúva e ao órfão, e da hospitalidade.

O profeta Amós vai censurar fortemente a opressão aos pobres, dizendo: “Ouvi isto, vós, que pisais os pobres e fazeis perecer os indigentes da terra” (Am 8, 4-9), desfiando todos os castigos que advirão do mal praticado.

Oséias, profeta, vai chamar a atenção para a ilusão do dinheiro e das riquezas, ao declarar “Não te alegres, Israel, não exultes como os povos, porque tu abandonaste o teu Deus, amaste o dinheiro vindo das eiras de trigo. A eira e o lagar não os sustentarão e o vinho vos enganará” (Os 9, 1-2).

O profeta Miquéias vai questionar duramente os “príncipes e Juízes da casa de Israel”, sustentando que “suas sentenças se dão por interesse e os seus profetas advinham por dinheiro”. Tudo em nome do Senhor, assim como é feito, também, nos dias atuais (Mi 3, 9-11).

O profeta Zacarias, por sua vez, vai dizer: "Assim fala o Senhor: Julgai segundo a verdadeira justiça e cada um de vós exerça com seu irmão obras de misericórdia e de compaixão. Não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre; nenhum forme no seu coração maus desígnios contra seu irmão" (Zc 7, 9-10).

Por fim, já no Novo Testamento, Jesus vai chamar de bem-aventurados os pobres, os que choram, os que têm sede e fome de justiça e os que são perseguidos por amor da justiça, afirmando ser deles o reino dos céus (Mt 5, 1-10).

Olhando para os dias atuais, o que temos pela frente? Um modelo de Estado organizado nas mesmas bases da monarquia daqueles tempos bíblicos, alta tributação de terras, de produção e de salários, exploração, injustiça, exclusão, perseguições aos que ousam questionar o rei e, onde estão os profetas atuais?

Os que eram para se colocar na defesa do povo e da monolatria, denunciando a injustiça, a cultura do ódio, da vingança e da morte, a falta de hospitalidade com os próprios nacionais, atirados nos guetos e nas praças públicas, sendo tachados de vagabundos, pestilentos e bandidos, em muitos casos, estão abraçados aos reis da época, defendendo-os e pactuando com tudo o que eles defendem e apregoam, apenas para assegurarem isenções tributárias e facilitações junto aos poderes constituídos.

Como exceções, e sem esquecer que existem muitas outras, devemos destacar, na atualidade, as figuras do Papa Francisco e da ativista Greta Thunberg que, remando contra a maré impetuosa dos tempos e dos reinos, ousam denunciar e defender todos os prejudicados do mundo, estejam onde estiverem, na defesa, inclusive, e principalmente, do próprio Planeta.

No mais, onde estão os profetas de hoje? Onde estão, ou estarão, aqueles que, por amor a Deus são capazes de perderem a própria vida, para gritarem contra tanta maldade, opressão, perseguição e injustiça praticadas contra o povo de Deus?

Que você leitor, você leitora, abra a sua Bíblia e leia de forma mais detida, e com bastante vagar, toda a saga do povo de Deus narrada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, e percebam que tudo o que está dito ali, naquelas páginas adequa-se, perfeitamente, aos dramas, angústias e sofrimentos dos povos de hoje em dia. Povos que, tais como os daqueles tempos, são diletos e amados pelo mesmo Senhor que, apesar dos tempos ultramodernos, continua sendo o único, para nós que Nele cremos.

Ao abrir as páginas das Sagradas Escrituras o pobre, o oprimido, o excluído, o perseguido e o injustiçado vão se identificar rapidamente com toda a história do povo de Deus. Uma história que não cessa de ser repetida em todas as dobras dos tempos, de geração em geração. Que o Senhor desperte nossos sonolentos profetas porque, tal como antes, eles existem e estão por aí. Precisamos encontrá-los, identificá-los, incentivá-los, apoiá-los e com eles caminhar para o bem do povo, cuja vida é a glória do Senhor. Leia e reflita. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

fev 24

EDITORIAL DA SEMANA: EIS QUE UM NOVO TEMPO ESTÁ A CAMINHO

UM NOVO TEMPO

UM TEMPO ANTES DE UM NOVO TEMPO –

*Por L. A. de Moura –

É chegado o momento de pararmos, no tempo e no espaço mentais, para uma singela olhada para o passado e para o presente. É preciso volver o olhar para o curso da história, para podermos verificar que, n’outras épocas, irmãos e irmãs nossos viveram momentos tão ou mais difíceis do que este que estamos vivendo atualmente. Também é necessário observarmos com atenção o que fizeram aqueles irmãos e irmãs, como procederam, para saírem da encruzilhada em que se encontravam e de que forma encaminharam o futuro que para nós é o atual presente.

Então, e somente então, seremos capazes de compreender que tudo o que estamos vivenciando, em todo o mundo, e de um modo geral, são apenas sinais de um tempo que precede a um outro tempo que está às portas, mas, que, quanto ao tempo deste tempo, somente nós é que poderemos decidir, porque, tudo o que precisamos fazer, deve ser feito o mais depressa possível posto que, quanto mais tempo levar para sairmos deste tempo, mais distante ficará o tempo que realmente desejamos ver chegar.

Olhar para o que estamos fazendo e defendendo; examinar cada um dos nossos pensamentos e das nossas convicções; analisar friamente o tipo de ação que estamos compartilhando e, pior, que tipo de ação estamos apoiando de forma incondicional. Precisamos verificar, com a máxima honestidade, se estamos, de fato, defendendo a vida, em quaisquer circunstâncias, ou, se estamos defendendo a morte, de alguma forma, para casos especiais. A vida não pode ser defendida pela metade. Ou defendemo-la por inteiro, ou negamo-la por completo.

Dar uma boa olhada ao nosso redor, como se tudo estivesse absolutamente paralisado no nosso entorno, e verificar como estamos procedendo em relação ao ambiente ecológico; como estamos agindo em relação aos nossos semelhantes. Imagine: tudo parado, e apenas eu ou você, caminhando por entre ruas, praças e avenidas, olhando e prestando atenção em cada detalhe, cada rosto, cada ser vivo, cada rio ou riacho, cada árvore ou jardim. Avaliando o semblante de cada uma das pessoas paralisadas no meio do nosso caminhar. Cada sorriso contido, cada lágrima estancada. Cada realidade momentaneamente estagnada. Cada corpo caído ou abandonado ao relento. Nós somos isto, somos partes integrantes de tudo isto. Como temos procedido? Ao que e a quem temos dado o nosso apoio incondicional?

Porque, se estamos defendendo ideias, ações e sentimentos que, no fundo, no fundo, não estamos conseguindo colocar em prática, porque, ao mesmo tempo, apoiamos quem diz e faz tudo ao contrário do que imaginamos, ou porque, no final de tudo, nós mesmos acabamos por agir de forma totalmente contraditória com o nosso discurso, então, precisamos, realmente, parar, refletir e dar meia volta na trajetória da nossa vida.

Enquanto não fizermos isto pra valer, enquanto não pararmos de ficar acreditando que, tanto o problema, quanto as soluções, estão com o “outro”, seja ele quem for; enquanto acreditarmos que o tempo que desejamos só chegará quando o governo for melhor ou quando a sociedade mudar o giro da roda, ou, ainda, quando o “outro”, sempre o “outro”, passar a agir de modo diferente, nada acontecerá. Continuaremos circulando em torno dos problemas, como o cão correndo atrás do próprio rabo.

Queremos um tempo melhor, queremos um tempo mais justo, mais equânime, mais humano, mais sensível às causas sociais e ambientais. Queremos mais felicidade, mais fidelidade, mais amizade e companheirismo. Queremos mais saúde, mais educação e cultura. Queremos ser mais respeitados, mais amados, mais compreendidos e aceitos, sempre colocados em primeiro plano. Queremos ser tratados como pessoas distintas. Queremos que confiem mais em nós, porque afirmamos ser honestos e pessoas de bem.

Ora, se queremos tudo isto, é preciso que cada um de nós faça a pergunta a si mesmo: tenho agido de forma condizente com tudo o que realmente desejo? E, de modo geral, temos sido, realmente, justos, solidários de verdade, igualitários, amigos, fieis, companheiros? Confiamos no outro, ou continuamos acreditando que apenas nós é que somos dignos de confiança? Olhamos para o meio ambiente de forma responsável, também, ou estamos sempre apontando o dedo para o outro, a quem acusamos por todos os males naturais que nos afligem? Temos, de fato, valorizado a vida de todos os seres vivos, absolutamente todos, ou temos entendido, e defendido, que uns ou outros devem, mesmo, morrer, por não serem merecedores da vida? Ou defendemos que alguns podem tirar a vida do outro, dependendo do caso e das circunstâncias? Vale lembrar: quem defende a vida, deve defendê-la por completo, e quem a nega, nega-a, também, por completo. Não existe mais ou menos vida, ou vida pela metade. A vida é uma só, íntegra e integral. Ou dela somos defensores, a qualquer preço e em qualquer circunstância, ou dela somos inimigos, não importando se estamos tratando da vida alheia ou da nossa própria.

Eis o tempo que antecede um novo tempo: depende apenas de nós, de cada um de nós, agirmos de modo a acelerar a chegada do tempo que desejamos. Ou, então, formaremos fila com aqueles que ousam dizer que: “o meu tempo passou” ou “não terei tempo para ver a chegada de um tempo melhor”.

É sempre bom repetir o que já dissemos à exaustão: as respostas que queremos não serão dadas pelo “outro”, não serão dadas por governos que, ao fim e ao cabo, não dão nada para ninguém, apenas tiram tudo o que podem. As respostas, assim como o tempo que queremos, só virão quando nós, cada um de nós, decidirmos repensar os nossos atos e as nossas convicções perante um mundo em constante e efusiva ebulição. Quando compreendermos que tudo ao nosso redor está umbilicalmente interligado, formando uma única massa que, por sua vez, integra-se de forma homogênea com a própria Terra, então, estaremos prontos para o novo tempo que se aproxima e que deseja chegar com força total.

Enquanto pensarmos, falarmos e agirmos do modo como temos feito, inclusive, apoiando todos os erráticos e desvairados, de todas as espécies, que semeiam a discórdia, o ódio e a cultura da vingança e da morte, que defendem e que aplaudem a discriminação e a exclusão de pessoas em decorrência da raça, do sexo, da origem social ou nacional, da religião, da ideologia política ou do simples modo de pensar, estaremos alimentando este tempo de sofrimentos e angústias do qual estamos, principalmente os mais pobres e desvalidos, sendo as vítimas preferenciais.

Antes de duvidar que tudo depende nós e das nossas atitudes, procure informar-se a respeito do “movimento das sardinhas” que, recentemente na Itália, e partindo da iniciativa de quatro ou cinco jovens universitários, detonou políticos da extrema direita, fortemente instalados no topo da pirâmide política daquela sociedade. Um movimento que, tal qual as verdadeiras sardinhas, uniu-se em consistentes cardumes e, assim, não apenas derrotou, como devorou tubarões extremamente carnívoros e altamente perigosos.

Acredite em mim, acredite em você, acredite em nós. Juntos, unidos e movidos pelos sagrados sentimentos e princípios cuja origem é o amor, o respeito a tudo e a todos, a começar pela vida, própria e alheia, poderemos vencer este tempo tenebroso e, assim, experimentarmos a chegada de um novo e promissor tempo, do qual somos merecedores. Reflita, tire suas próprias conclusões e, enquanto ainda é tempo, faça a sua parte, porque este é um tempo que antecede a chegada de um tempo novo e promissor, que está batendo às nossas portas. Um tempo, sem dúvida, muito melhor e muito mais alvissareiro. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

fev 17

EDITORIAL DA SEMANA: A PRÁTICA DO BEM INDEPENDE DE RELIGIÃO

FAZER O BEM - 2

QUAL É A RELIGIÃO DOS QUE PREGAM E PRATICAM O BEM ?

*Por L. A. de Moura –

Existe, com mais força ainda na atualidade, um forte debate em torno da questão envolvendo o que se poderia chamar de “religião perfeita”, ou seja, aquela que, por todas as suas virtudes, características e dogmas serviria como estrada linear para que os fieis seguidores pudessem alcançar, post-mortem, a vida eterna no Reino de Deus. No âmago deste debate que, em muitos casos, chega a ser duro e inflexível embate, estão camuflados entendimentos, conhecimentos teológicos, interpretação de livros sagrados e/ou doutrinários, liturgias, fórmulas penitenciais e de culto, além de interesses, muitas vezes, pessoais e financeiros. Enfim, toda uma gama de situações envolvendo pregadores, defensores, simpatizantes e fieis que, fanáticos ou não, agarram-se à denominação religiosa em questão, como se fosse o único, e o último, fio de esperança para uma terrível corrida rumo à entrada do Paraíso Celeste.

Não é preciso recordar que, dos debates e embates acima mencionados, não raro, resultam inimizades, trocas de ofensas, agressões físicas, mortes e, inclusive, violentas guerras e atos terroristas. Tudo em nome e para a “glória de Deus”. Qualquer racional, por mais modesto que seja, fica assustado com tudo isso, porque é inacreditável que, para salvar a sua alma, o ser humano decida  matar, principalmente, o amor ao próprio Deus e aos seus semelhantes, como se isso fosse o desejo último do Criador para a criatura projetada como Sua imagem e semelhança. Daí muitos, e muitos mesmo, chegarem à conclusão de que, para alcançar o Reino de Deus, o melhor a fazer é não se vincular a qualquer religião, sob pena de caírem na vala comum dos desesperados, dispostos a tudo para figurarem no topo dos altares celestiais.

Ora, apesar de tudo e de todas as circunstâncias e contextos, a maioria absoluta das religiões trazem, intrínseca ou extrinsecamente, uma semente de valor imensurável, uma necessidade sempre urgente, que é a prática do bem. É evidente que, em meio ao desespero para salvarem suas almas, muitos acabam-se esquecendo da tal semente e, até mesmo de modo involuntário, terminam por praticar o que é mal aos olhos da imensa maioria, e de Deus também. O que não é bom. E não é bom porque, sem sombra de dúvidas, evidencia o que temos visto de forma bastante clara no mundo de hoje: pessoas que não estão vinculadas a qualquer denominação religiosa, mas que, no fundo dos seus corações, creem firmemente em Deus e no seu projeto salvífico para a humanidade e praticam o bem de forma indiscriminada a todos os seres vivos, sem exceção de qualquer espécie!

Mas, como assim, isso não é bom? Isso não é bom porque o homem, ao não estar vinculado à religião, não importa a qual delas, deixa de viver a experiência comunitária, na qual uma enormidade de pessoas aglutinam-se para a busca e para o alcance de algo em comum, com vistas ao bem comum. A experiência da vida comunitária, e em comunhão, é por demais valiosa para o crescimento e o aperfeiçoamento espiritual de cada um e de todos nós. Sem falar, é claro, na beleza e na necessidade da vida sacramental, por meio da qual as portas interiores de cada um de nós são abertas para o divino. Por tais razões, não é bom que os seres humanos somente alcancem o ápice de todas as virtudes fora da vida eminentemente religiosa.

Ao mesmo tempo, é preciso admitir que a prática do bem, assim como a sua indubitável necessidade e urgência, não está vinculada diretamente a qualquer religião; não é monopólio exclusivo de nenhuma religião, institucionalizada ou não, mas, uma dádiva do Criador para os corações absolutamente comprometidos com a Criação, com o seu caminhar e com o seu progresso.

Deste modo, encontramos membros de determinadas denominações religiosas defendendo para as suas agremiações o monopólio exclusivo, e excludente, da salvação dos homens, praticando, sim, alguns atos de bondade, mas, praticando, também, formas terríveis de discriminação de todos os naipes e de exclusão de pessoas, em decorrência das suas crenças, particulares ou comunitárias, dos seus estados conjugais, das suas condições sexuais e, até mesmo, dos que vivem e sobrevivem mergulhados nas profundas, e muitas vezes humanamente insondáveis, questões de gênero.

D’outro lado, estamos sempre nos deparando com pessoas que não professam qualquer forma de religiosidade, muitas até ateias, mas que, ainda que de forma individualizada, acabam participando, involuntariamente, de grandes grupamentos humanos capazes de levarem o bem aos mais necessitados; acolhimento aos abandonados; conforto e consolo aos desesperados; alimento aos famintos; água fresca e cristalina aos sedentos; roupas e calçados aos nus e descalços; visita aos enfermos e aos injustamente encarcerados; encorajamento aos dependentes do álcool e/ou das drogas; palavras e gestos de amor e de solidariedade aos brutos e aos insensíveis. Tudo isto, e o que é mais incrível, sem se preocuparem com a situação conjugal, com a raça ou com o sexo, com a profissão de fé ou com quaisquer outras características íntimas e pessoais dos necessitados, de todas as espécies.

Seria fácil, então, concluir que a religião é um mal em si? Ou um mal necessário, e que para ser verdadeiramente perfeito, o melhor para o ser humano é não estar vinculado a nenhuma delas? Não ousamos responder afirmativamente a estas questões. No entanto, ousamos afirmar que a prática do bem não está vinculada a qualquer religião e que, portanto, no dia do Juízo final, muitos religiosos de carteirinha ficarão de fora do Reino de Deus, enquanto, muitos outros, sem qualquer vínculo, institucional ou não, com religiões, serão convidados a entrarem nos domínios do Grande Rei. Poderia causar espanto, desacordo e até mesmo certa repulsa por parte dos leitores e das leitoras, se tal ousadia partisse de entendimento próprio, talvez, destinado a falar contra os arautos da religiosidade, apesar de toda a pompa, circunstância e liturgia que defendem e praticam.

Entretanto, é o próprio Jesus quem, no Evangelho de Mateus, afirma que: “Quando pois vier o Filho do homem na sua majestade (...), dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era peregrino, e recolhestes-me; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estava na prisão, e fostes visitar-me. [...] Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 31-40).

Inversamente dirá a todos os demais: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos, porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era peregrino, e não me recolhestes; estive nu, e não me vestistes; enfermo e na prisão, e não me visitastes. [...] Na verdade vos digo: Todas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim deixastes de fazer” (Mt 25, 41-45).

Para entrar no Reino de Deus não importa estar vinculado a esta ou àquela religião, mas, e, sobretudo, em fazer o bem, acolher, visitar, vestir, amar, confortar e consolar, saciar a fome e a sede, material e espiritual, ou seja, importa ver no outro a pessoa do Cristo, sem indagar acerca de nada mais. Tudo o que daí passar, é puro argumento fajuto para fundamentar todas as formas de discriminação e de exclusão. E, quem discrimina e exclui os irmãos, seja a que título for, um dia, também, será excluído.

Por derradeiro, parece estar claro para nós que pregar e praticar o bem, sem olhar a quem, são atividades total e absolutamente desvinculadas de qualquer forma de prática religiosa e que, portanto, até os ateus devem ser imitados nas suas puras e desinteressadas práticas quando, olhando para o pobre, o necessitado, o indigente, o injustiçado, o perseguido, o excluído e o discriminado, saem em sua defesa, fazendo o que muita gente que anda pregando nos púlpitos, nos altares e nas praças públicas não consegue fazer, porque estão muito mais preocupados em avaliar e em julgar o próximo, do que, propriamente, em acudi-lo nas suas angústias, sofrimentos e necessidades.

Após a leitura deste texto, complementando-o com o mencionado Evangelho de Mateus (todo o capítulo 25), faça profunda reflexão acerca da sua vida religiosa e, honestamente, verifique se está praticando o bem de forma indiscriminada e inclusiva, ou se está seguindo orientações e exemplos que, no final de tudo, permitirão que você próprio(a) seja banido(a) do Reino de Deus para sempre. Se for o caso, mude o curso da sua vida enquanto ainda é tempo. Nunca se sabe como será o dia de amanhã. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

fev 10

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM PODE, DE FATO, SER FELIZ?

ÁRVORE COM FRUTOS

A VERDADEIRA FELICIDADE REALMENTE EXISTE?

*Por L. A. de Moura –

Existe o que se possa denominar como “verdadeira felicidade?”. Se olharmos para o contexto do mundo, com todas as circunstâncias e estruturas existentes e dominantes a resposta, talvez, possa ser negativa. No entanto, se olharmos para o que o ser humano, realmente, pode ser e fazer no curso da sua existência, então, podemos afirmar com segurança que “sim, a verdadeira felicidade existe” e está ao alcance de todas e de quaisquer pessoas.

Como assim? Aquele que não se deixou levar pelo conselho dos maus, praticando o mal no lugar do bem; aquele que não se permitiu ser seduzido pela sede de vingança e pela troca incessante do mal pelo mal, mas, que, ao contrário, pratica o bem independentemente de quem seja o receptor e sem esperar nada em troca. Enfim, aquele que está, e que é, sempre solidário e compassivo para com o outro e, acima de tudo, misericordioso, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, colocando-se com as mãos sempre abertas, mais para dar do que para receber. Este, de fato, encontra a felicidade sentada à sua porta ou por onde quer que caminhe, porque compraz-se em fazer a felicidade alheia, sem se preocupar com a sua própria que, no tempo certo, vem-lhe ao encontro.

Verdadeiramente feliz é, também, aquele que não se deteve no caminho da iniquidade, da perversidade, da incompreensão, do desamor, do egoísmo, da discórdia, da desunião, da maldade e da malícia, deixando-se conduzir pela efemeridade do poder, pela ambição, pelo orgulho, pela vaidade, pela avareza, pelo desvirtuamento e pela adulteração de todos os propósitos divinos para os seres humanos, mudando e reinterpretando tudo ao seu gosto e prazer.

A felicidade não chega até aquele que tomou assento na cadeira dos zombadores, daquele que escarnece do pobre, do sofrido, do indigente, do perseguido e excluído e do necessitado. Não alcança a felicidade aquele que desrespeita a divindade, o sagrado e as devoções alheias, ou faz troça da desgraça que cai sobre todos os infelizes.

Infinitamente feliz é aquele que coloca sua vida, vontade, rumos e caminhos na lei do Senhor e que, seja noite ou seja dia, vive a meditar sobre ela, tendo-a como verdadeiro norte para a sua existência. Porque, na Palavra do Senhor estão escondidos todos os mistérios, todos os segredos e todos os tesouros que, uma vez descobertos ou desvendados, são capazes que dar aos seres humanos a maior de todas as riquezas, sem qualquer comparação com a maior de todas que possa conquistar no mundo que, sempre, no final, premia cada um com uma sepultura, simples ou ornamentada.

Aquele que agir da forma acima prescrita, será como a árvore frondosa que, plantada à beira do riacho de águas cristalinas, donde recolhe toda a seiva necessária para a sua existência e crescimento, dará bons e belos frutos e suas folhas e flores, além de não caírem no solo, sempre renovarão a promessa de novas e ricas colheitas. E todas as coisas que ele fizer, serão marcadas pelo sucesso, pelo progresso e pela mais abundante prosperidade, porque tudo será infinitamente abençoado pelas mãos do Criador, e assim permanecerá de geração em geração, porque sua memória jamais cairá no esquecimento.

Assim não sucederá, porém, ao que é mau, ao que invoca o mal sobre si e sobre os outros; ao que explora, oprime, deprime, despreza, agride, violenta e ceifa vidas, inocentes ou não, porque a lei do Senhor é “Não matarás”, sem qualquer exceção. Os que assim procedem serão como a poeira mais fina espalhada por toda a superfície da terra, sem rumo, sem direção e sem destino. Jamais conhecerão a verdadeira paz de espírito. Jamais experimentarão a verdadeira felicidade, mas, viverão eternamente dominados, atormentados e punidos pelo mal, pela dor, pelo desassossego, pela inquietude, pela ansiedade e por todo tipo de perturbação, porque preferiram seguir as regras de um mundo cada vez mais decadente, do que os preceitos do Senhor; deram mais crédito às palavras vãs dos homens, do que à Sabedoria divina. Fizeram-se condutores de cegos e deixaram-se por eles ser conduzidos. Por esta razão, o precipício é o destino assegurado para todos estes.

E tudo assim acontece porque o Senhor conhece, perfeitamente, o caminho dos sábios e dos justos, sabe com precisão tudo o que passam e que sofrem neste mundo e, desta forma, sempre está ao lado de todos eles para que não tropecem n’alguma pedra e venham a cair estatelados no chão. Não assim com os maus, não assim. Mas, por causa das escolhas que fizeram e dos caminhos que seguiram por sua própria inclinação e vontade, rumarão para o abismo, donde, uma vez caídos, jamais ressurgirão para a vida.

Não veja neste simples e humilde texto nenhum resquício de fanatismo religioso ou de fundamentalismo exacerbado. Depois de lê-lo calmamente, caso dele venha discordar, por exagerado que possa parecer, leia o Salmo nº 1, e entenderá a razão de cada uma das palavras acima colocadas.

Se ainda assim, discordar de tudo, siga em frente na sua caminhada, pois, ainda que de modo involuntário, já terá feito a sua escolha e a sua opção de vida e para a vida. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mar 18

EDITORIAL DA SEMANA: TODA ESCOLHA TRAZ CONSEQUÊNCIAS

FAZER ESCOLHAS

OS FRUTOS QUE COLHEMOS NASCEM DAS ESCOLHAS QUE FAZEMOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quantos prantos e lamentos  chegam a todo instante aos ouvidos de Deus, com súplicas e clamores por socorro, além das previsíveis blasfêmias e heresias. Tudo, em decorrência das dores e dos dissabores enfrentados por todos e por cada um de nós no longo curso da vida. Abre-se aqui um parêntesis para falar sobre esta questão do ”longo curso da vida”. Só se valem desta expressão os que sofrem e que esperam a vinda do Senhor, como a solução final para todos os problemas, a cura para todas as formas de enfermidades e a justiça para todos, acima de tudo. Os que que vivem no prazer, na felicidade mundana e no regozijo das benesses de tudo de bom e de melhor que o mundo pode oferecer a um vivente, sempre acham que a vida é curta demais e que deveria haver um acréscimo, todas as vezes que o fim estivesse próximo.

Bem, fechado o parêntesis, aos ouvidos da divindade chegam todos os nossos clamores, em face de tudo o que sofremos aqui neste plano terreno. Obviamente que Deus não pode ser responsabilizado por nada de mal que ocorre debaixo do sol, haja vista ser impossível para Deus praticar o mal e que, por Ele, nós estaríamos no paraíso, usufruindo de tudo e, inclusive, da vida plena e sem fim. Entretanto, como espécie, o que fizemos? Fizemos uma simples escolha.

Escolha. Eis a palavra que define tudo sobre nós. Sempre, depois que nascemos, fazemos escolhas. É o sinal mais evidente e identificador do livre arbítrio com o qual somos dotados por Deus que, apesar de tudo o que nos ensina, sempre conhece o lado para o qual pendemos. Não em vão, já no Paraíso Deus não diz que “se” o homem comer da árvore proibida morrerá, mas, afirma categoricamente que “O dia em que dela comerdes, certamente morrereis”, porque Ele já sabia o final daquela novela. Pois bem, escolha é sempre a opção que fazemos, ou até mesmo deixamos de fazer, diante das diversas possibilidades que nos são apresentadas. É preciso saber, no entanto, que as escolhas trazem embutidas, de forma inevitável, consequências, e é aí que reside o nó górdio da questão. As escolhas que fazemos nem sempre se nos apresentam de forma completa e transparente, ou seja, praticamente nunca as escolhas revelam as contraindicações, como nas bulas dos remédios, que avisam sobre os riscos e os perigos que podem ser enfrentados pelos pacientes,  depois da ingestão daquele produto.

A vida não tem bula, e justamente por esta razão, nossas escolhas são feitas, normalmente, em razão dos impulsos que nos movem: compramos porque queremos; vendemos porque julgamos ser bom; mudamos de emprego porque achamos mais oportuno e vantajoso; trocamos de profissão porque estamos convictos de termos encontrado a verdadeira vocação; divorciamo-nos porque encontramos alguém que vai nos fazer mais felizes, ou simplesmente porque estamos cansados do outro. Enfim, são inúmeras as possibilidades de escolhas às quais somos convidados a fazer todos os dias, ao longo da nossa existência.

Entretanto, todas e cada uma das escolhas que fazemos trazem, a curtíssimo, curto, médio e longo prazos consequências para as quais quase nunca fomos ou estamos preparados. Daí as decepções, os arrependimentos, os sofrimentos, as angústias e as amarguras que caem sobre as nossas cabeças como se fossem bolas de ferro que, de tão pesadas, fazem com que passemos a sentir o chão afundando sob os nossos pés. Aí, nestas horas, bradamos a Deus! choramos, oramos, erguemos os braços na direção do céu falamos impropérios, sentimo-nos totalmente abandonados à própria sorte, outros até acham que estão sendo colocados à prova por Deus e tem, ainda, os que acreditam estarem sendo severamente castigados por algum mal feito no passado.

Dificilmente, no entanto, alguém admite estar sofrendo as consequências decorrentes de escolhas que foram feitas em dado momento. Escolhas que, na ocasião, pareciam acertadas e cheias de promessas sedutoras. Escolhas que propiciavam certas vantagens ou lucros acima do normal, mas que a pessoa, naquele instante, sentia-se premiada pelos céus com aquilo que lhes parecia verdadeira dádiva. O que ontem parecia verdadeira benção e premiação, hoje parece maldição e castigo!

E tais escolhas são feitas de forma individual ou coletiva. Individual, quando os beneficiários diretos somos nós mesmos; coletiva, quando escolhemos algo ou alguém para atuar, direta ou indiretamente, sobre toda a sociedade como, por exemplo, na eleição de um governante ou de um parlamentar. Muita gente acredita não ser culpada por nada de mal que ocorre na sociedade como um todo, mas, o engano é abissal, haja vista que a escolha direta ou mesmo a omissão na hora de escolher, faz de nós participantes ativos de tudo o que está em jogo porque, sempre somos convidados a fazer escolhas e, se fazemos más ou boas escolhas, ou mesmo se preferimos a omissão, estamos vinculados aos resultados e às consequências que daí advirão. Enfim, não tem muito jeito, agiu ou se omitiu, tem responsabilidade sobre as consequências.

Isso tudo para, no fim, afirmar-se que o modelo de família adotado pela ampla maioria da sociedade ocidental está, deveras, equivocado, porque parte do pressuposto de que somos absolutamente livres para decidir o que fazer com nossas vidas. Livres e imunes a uma ética e a uma moral para as quais muitos, e já há muito tempo, decidiram virar as costas por entendê-las objetos de manobras das religiões. Trata-se de escolha legitimamente feita por parcela considerável da sociedade humana mas que, como já o afirmamos, traz embutidas todas as consequências que, todos os dias, a mídia estampa diante dos nossos olhos, à exaustão, como a jogar no rosto de cada um de nós a culpa pelos resultados, agora, colhidos.

A extrema violência demonstrada por delinquentes de todos os matizes, o desamor e o desrespeito para com tudo e todos, a falta de apreço pelas instituições, de um modo geral, e pelos templos sagrados e religiosos, de modo especial, assim como o ódio racial e homofóbico, o desprezo aos mais velhos e desamparados, tudo isso é fruto direto da árvore plantada sob um modelo de família absolutamente adulterado e corrompido. Um modelo que, em nome da ampla liberdade de escolha foi, e ainda está sendo, alimentado por um tipo de adubo que, traz prazer, realização e até satisfação momentâneos, mas que, também, enrijece o coração e o espírito, gerando embriões que, quando crescem, são capazes de coisas inacreditáveis, como as que temos visto no noticiário do país e do mundo.

Nossos avós falavam sobre Deus; nossos pais falavam sobre Deus; nós quase não falamos sobre Deus. Nossos jovens, e mesmo muitos adultos, não sabem quem é Deus! E quando não se conhece Deus, de onde provém toda forma de vida, de onde provém um modo de vida condizente com a santidade e com a perfeição, perde-se a noção dos princípios e dos valores que moldam, justamente, a vida pacífica em sociedade. Resultado: tudo o que o noticiário nacional e internacional têm disponibilizado para nós, todos os dias e todas as noite.

Portanto, não devemos permanecer nesta profunda ignorância, acreditando ou querendo acreditar que o mal que cai sobre nós e sobre esta geração, decorre de provação, de castigo, do abandono à própria sorte ou, ainda, da chegada do final dos tempos, como muitos gostam de afirmar, mas, que decorre, sim, diretamente das escolhas que temos feito ou apoiado, ou, ainda, das nossas omissões porque, até o ato de permanecer inerte é uma escolha que tem suas consequências.

Devemos reservar alguns instantes da nossa tumultuada e agitada vida para refletir sobre as escolhas que temos, ou não, feito, avaliando acerca de cada uma, as consequências visíveis e mesmo as previsíveis e então, e somente então, haveremos de fazer o necessário mea culpa, livrando Deus de uma responsabilidade que Ele, definitivamente, não possui.

A proposta, como sempre, é para uma profunda reflexão e tirada de conclusões. Conclusões que podem mudar o curso de algumas vidas e, quiçá, de toda uma coletividade. Faça isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritual, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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