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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

abr 15

EDITORIAL DA SEMANA: SOMOS VERDADEIRAMENTE CRISTÃOS?

JESUS E A CRUZ

NA CRUZ, TODAS AS RESPOSTAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Estamos vivendo dias que demandam profunda reflexão. O cristão verdadeiro, ou o verdadeiro cristão, vive, ou deveria viver, constantemente em profunda reflexão, em razão da fé personificada que professa. Crer em Jesus Cristo, não é como crer em fatos ou contos que são narrados por outras pessoas aos nossos simpáticos ouvidos. Crer em Jesus Cristo é muito mais do que isso. É ligar-se a Ele de tal forma que, como afirma o Apóstolo Paulo “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). E, viver em lugar de outra pessoa, importa pensar e agir exatamente da forma que tal pessoa vive, viveu ou viveria. Age, agiu ou agiria. Quem não passa por esta experiência, não sabe o que é viver o papel que adora dizer que vive. Ou melhor, passa pela vida enganando-se e tentando enganar aos outros. Tentando, porque quem está de fora tudo vê, tudo percebe e tudo registra.

Esta semana, como sempre ocorre na vida de todos nós cristãos, principalmente, os católicos, recordamos os últimos dias, palavras e gestos de Jesus sobre a terra e, somos convidados a caminhar com Ele até as últimas consequências, inclusive, morrendo na cruz, de onde, ainda com Ele, somos levados ao túmulo para, ao final, com Ele ressurgirmos para a verdadeira vida. A vida em plenitude e em abundância, sobre a qual Ele tantas vezes falou. Nesta semana, mais do que nas demais semanas do ano, o Espírito Santo convida cada um de nós ao reexame de consciência. Para tanto, Ele nos sugere parar tudo o que estamos fazendo. Deixar de lado o vicio do trabalho, do jogo, da bebida e da mesmice, por pouco que seja, para vasculharmo-nos completamente por dentro, a fim de identificarmos em quais partes não estamos conseguindo imitar Jesus.

Jesus, acima de qualquer outra virtude, revela Deus aos homens. Ele não se cansa de afirmar que quem O vê, vê o Pai que está nos Céus. Nós também somos assim, revelamos Deus nas nossas ações, no nosso proceder diante dos homens e do mundo? Nossas atitudes para com os nossos semelhantes, sejam eles quem forem, assemelham-se às do Deus de bondade, de misericórdia, de amor a quem Jesus revela aos homens? Ou nós ainda somos daqueles e daquelas que insistem em afirmar que “cada um tem o seu Deus”“cada um segue o seu coração” ou coisas do gênero?

Jesus viveu e conviveu com os pobres, na real pobreza em que eles viviam. Quantos de nós não falamos sobre os pobres ou convivemos com a pobreza apenas à distância, por meio de patrocínio de ações, que funcionam mais como meros desencargos de consciência? Quantos de nós fazemo-nos de pobres junto com os pobres, no dia-a-dia das suas vidas? Ou, ao contrário, escolhemos um dia qualquer para, em nossos carrões de luxo, irmos almoçar com os pobres, só para demonstrar algum tipo de proximidade? Precisamos, nesta semana, vasculhar nosso interior em busca destas respostas, porque só elas é que poderão dizer, com segurança, se somos cristãos de verdade, cristãos verdadeiros, ou não. Só estas respostas é que têm o poder de nos tornar semelhantes Àquele Jesus ao qual dizemos amar e seguir.

Jesus buscou, amou, contemplou e trouxe para junto de si os excluídos do seu tempo, sem qualquer discriminação, não se importando se eram pecadores(as), cobradores de impostos, soldados de Roma ou leprosos. A todos, sem exceção, acolheu de forma integral, demonstrando muita felicidade por estar ao lado de todos eles, em público ou não. E nós, também agimos desta forma, buscamos, acolhemos, amamos e trazemos para junto de nós os excluídos do nosso tempo, sem nos importar com suas origens? Agimos desta maneira, sem qualquer forma de discriminação e sem escondermos o que estamos fazendo, sob o falso argumento de que boas ações devem ser feitas em segredo?

Jesus, de forma expressa, identifica-se com os famintos e sedentos (tive fome, destes-me de comer; sede, destes-me de beber), com os peregrinos, com os desnudos, enfermos e encarcerados, afirmando que todo o bem feito a qualquer um destes, é feito diretamente a Ele, da mesma forma que, todas vezes que deixamos de fazê-lo, é a Ele que negamos assistência. Quantas vezes, de coração sincero e sem fazermos pose para as câmeras, enxergamos nos pobres, desnudos, doentes e necessitados de todo tipo de ajuda, a figura ímpar de Jesus? Dividimos o pouco que temos, ou separamos algumas migalhas, juntando-as com as de outros tantos, para prestar algum socorro aos mais necessitados?

Quantas vezes, nas ruas da cidade, paramos para oferecer um copo com água, uma quentinha de comida ou mesmo uma palavra amiga àqueles que, muitas vezes são tidos por malandros e aproveitadores? Quantas vezes não olhamos com repugnância para famílias inteiras, sujas e maltrapilhas, amontoadas feito lixo embaixo das marquises dos prédios mais elegantes do centro da cidade?

Nos Evangelhos, em nenhuma parte está escrito que Jesus, ao final dos dias, sentava-se com os amigos, ao redor de mesa farta e sortida, para uma alimentação frugal e saudável, rica em proteínas e em carboidratos, sem se preocupar com os famintos do seu tempo. Ao contrário, Mateus narra que Jesus, ao cair da tarde de um dia de intensa pregação, além de curar muitos enfermos,  sentiu compaixão da multidão e, preocupado com a necessidade de alimento para tantos, ordena aos discípulos para que providenciem alimentos para todos, donde a primeira multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21).

Jesus, conforme cobra do jovem rico, não quer que doemos algumas das nossas coisas aos mais pobres. Ele quer que tenhamos disponibilidade para vender tudo o que temos e distribuir o produto aos pobres e, depois, segui-Lo (Mt 19, 16-22).

Jesus ensina que o perdão deve ser dado sempre, e a qualquer tempo, independentemente do número de vezes (setenta vezes sete, é a infinitude do número perfeito). Ensina que, em demanda com nosso adversário, devemos nos reconciliar com ele enquanto estamos a caminho, antes de chegarmos em juízo (Mt 5, 25). Também ensina que, quando estivermos para fazer alguma oferenda diante do altar, e lembrarmos de que nosso irmão tem alguma coisa contra nós, devemos, primeiro, buscar a reconciliação com ele para, depois, e só então, apresentarmos a nossa oferenda (Mt 5, 23-24). E muito mais: manda amar a quem nos odeia; orar pelos nossos inimigos; oferecer a outra face; mostra que de nada adianta acumular bens; fala para não nos julgarmos uns aos outros, para não sermos, também, julgados.

Enfim, durante esta semana, somos confrontados com o Jesus por quem temos tido a coragem de confessar amor e a quem afirmamos seguir de forma incondicional. Serão verdadeiras as nossas afirmações? Estamos Nele e com Ele para sempre, ou O negamos diária e permanentemente diante dos homens e dos fatos? Somos capazes de caminhar com Ele até o Calvário e aceitarmos ser pregados na cruz também, ou agiremos como Pilatos e como Judas Iscariotes, lavando as nossas mãos e traindo o único amigo verdadeiro que temos?

É uma semana que convida a estas e a muitas outras reflexões. Portanto, é útil, ao menos uma vez no ano, deixar de lado as manias que cultivamos, os ídolos e os mitos que reverenciamos, e aproximarmo-nos do Jesus caminhante, Daquele Jesus que, corajosa, serena e obedientemente, carrega sua cruz sem impor a ninguém o ônus que voluntariamente assumiu como sendo seu. Quantas vezes nós colocamos sobre os ombros alheios o peso de uma carga que é somente nossa, e ainda nos julgamos no direito de cobrar posturas e posições daqueles aos quais, de forma direta ou indireta, exploramos ou compactuamos com a exploração por toda uma vida?

É preciso refletir e, caso a conclusão seja a de que não conseguimos mesmo seguir Jesus, de verdade e com verdade, é melhor pararmos de fazer pose de santinhos ou de santinhas e buscarmos um lugar no meio dos pobres, doentes, inválidos, pecadores, blasfemadores e adúlteros, em busca da misericórdia deste Jesus que, desde sempre, soube ser igual ao Pai, razão pela qual Ele, também, é Deus.

Não deixe esta semana passar em branco, como apenas mais uma semana na sua vida. Leia a Bíblia, especialmente, o Novo Testamento, observe mais de perto a vida, os costumes, os métodos, os gestos, as ações e as palavras de Jesus, reflita e procure ajustar-se a Ele, que é o Senhor da Vida. O Senhor da nossa vida. Depois, já ao final da semana, busque o perdão e a reconciliação  consigo e com os irmãos, porque, no domingo as portas do Céu se abrem para todos e todas que, em verdade, amam e procuram seguir o Filho de Deus, que prometeu: “Aquele que retém os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei também, e me manifestarei a ele” (Jo 14, 21). Seja feliz, e tenha uma semana santa verdadeiramente fértil para a sua alma!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

abr 08

EDITORIAL DA SEMANA: A HISTÓRIA SEMPRE PROTEGE OS VERDADEIROS MITOS

ESTÁTUA DA LIBERDADE

ÍDOLOS, HERÓIS E MITOS HUMANOS: A HISTÓRIA SEMPRE SABERÁ RECONHECÊ-LOS E PRESERVÁ-LOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Tratando-se de seres humanos, ídolos são aqueles aos quais prestamos reverência, em razão da forma pela qual atuaram, in concreto ou in abstracto, no regular exercício das suas atividades. Heróis são aqueles que, de alguma forma, desempenharam atos de bravura ou de coragem, capazes de modificar, de fato, toda uma situação que, na ausência deles (heróis), poderia significar um verdadeiro caos, em prejuízo de alguns ou de toda uma coletividade. Mitos são aqueles que, no cômputo geral das suas vidas e histórias foram, de forma simultânea, ídolos e heróis. Quer-se com isso dizer que, os mitos, antes de o serem, já são reconhecidos pela história, porque deixam atrás de si lastros e rastros que falam por eles para sempre.

Atualmente, parece que a palavra “mito” se tornou um adjetivo bobo e inexpressivo, capaz de ser utilizado para identificar qualquer pessoa ou símbolo. Mas, não podemos nos permitir modificar a estrutura das palavras. O mito, ao adentrar no olimpo da História, carrega consigo uma bagagem factual que ninguém, jamais, poderá eliminar. Poderão até, ocorrer discordâncias pontuais, aqui e ali, mas, no geral, os feitos do mito estarão, para sempre, registrados na textura fina, dourada e inconfundível, da placa da História.

Vivemos dias bastante conturbados, não apenas no nível nacional, mas, no internacional também. Muitas questões antigas são trazidas à mesa na qual, examinadas por míopes, são identificadas como verdadeiras monstruosidades, e assim são repassadas para toda a sociedade que, sob muitos aspectos, e induzida por um sistema midiático feito sob encomenda, aprova e referenda tudo o que recebe, seja de forma oral, visual ou escrita. Daí, termos, às vezes, a  sensação (falsa ou não) de estarem ocorrendo mudanças drásticas nos sistemas antigos de liderança, de comando e de exercício do poder. Encontrar culpados, em um mundo como o nosso, é tão fácil quanto encontrar mosquitos em um estábulo bovino. Fabricar mitos na medida exata do desejado, tornou-se obra fundamental para artistas e artesãos de narrativas que dispensam a prova da veracidade.

Ídolos e heróis, geralmente, causam apenas inveja, mas, não possuem capacidade para impedir o aparecimento de substitutos. Os mitos, ao contrário, possuem uma capacidade terrível para impedir que sonhadores se  apresentem de mãos vazias, para ocuparem um espaço no panteão da História. Por esta razão, nos dias que seguem, vemos a luta desesperada de certos segmentos da sociedade, na tentativa de desconstrução da imagem de mitos, cujos nomes já estão gravados para sempre, a ferro e fogo, na irretocável e inatingível placa da História, assim como, também, é notável a pretensão desenfreada de outros segmentos, na escalada dos muros da fama e do prestígio, tão necessários que são, para o triunfo reservado apenas aos fora de série.

É fácil perceber-se o quão dolorosa e sofrida é a trajetória para alcançar o cume da pirâmide na qual os verdadeiros mitos, de punhos cerrados, fazem ecoar para sempre o imponente brado da vitória! Não é possível chegar até lá, apenas com discursos e bravatas ou retóricas desprovidas e desacompanhadas dos necessários atos. Para alcançar aquele ponto máximo, o mito inicia carreira como qualquer outro simples moral. Evolui, com o passar do tempo. Mostra-se capaz de atos heroicos para derrotar simples adversários e escantear terríveis inimigos. Cria lastros perante a História do seu tempo e, por fim, e, merecidamente, é alçado à condição de mito. É verdade que, na esmagadora maioria dos casos, os mitos só são reconhecidos tempos depois da contagem dos seus feitos. No entanto, existem mitos que os próprios inimigos tratam de colocá-los no pedestal da História, ainda em vida. Seja porque difamam a sua trajetória, atiçando e inflamando o humor de testemunhas oculares, seja porque forjam todos os meios necessários para tirá-los de uma cena na qual eles, sempre em ascensão, servem de tropeço para os que querem desrespeitar o ritual que encaminha os vitoriosos para a coroação final.

E aí, invariavelmente, surge um incrível paradoxo: os mitos mais indesejados, passam a ser justamente os que se fazem mais presentes, porque a História tem vida e caminhos próprios e, por ser assim, ela bate com força na porta dos que dela duvidam e a ela desrespeitam, para incomodar, perturbar e tirar o sono mesmo. Assim, aqueles mitos indesejados, que tantos queriam ver varridos do mapa da História para sempre, parecem ganhar mais envergadura ainda, saindo do prestígio meramente local, para alcançarem o topo do mundo, com consagração jamais prevista e imaginada pelos seus detratores.

A história recente da humanidade é rica no registro destes mitos, cuja história e nomes, certamente, dispensam qualquer transcrição, ante a fama e o prestígio que conquistaram. Sobre eles, pouco importa esmiuçar a origem ou o destino final. O que realmente é relevante, e, percebe-se ainda ser incômodo a muitos, é que, para os que estudam, pesquisam e analisam o tempo e os feitos de cada um destes mitos, a conclusão é sempre a de que, a muito custo, podem ser  imitados. Substituídos, jamais!

Há casos registrados na História, de personagens que, na verdade, fizeram-se mitos a si próprios, quando decidiram tirar a própria vida, levando ao conhecimento público toda uma narrativa que, sendo verdadeira ou não, fez com que a maioria da sociedade abraçasse suas causas com tal fervor e vigor, que seus nomes entraram imediatamente para a História.

Casos outros existem nos quais ídolos e heróis, aparentemente desmascarados e derrotados, foram transformados em mitos por aqueles que, não tendo a habilidade ou o carisma necessários para o título pretendido, simplesmente optaram pela tentativa ignóbil de apagar das mentes e dos corações dos seus contemporâneos, feitos que foram capazes de alterar o curso de muitas vidas e de muitas histórias pessoais, oferecendo, assim, e de mão beijada, um espaço no olimpo da História, àqueles aos quais desejavam ver atirados no submundo do tártaro. E, ainda que conseguissem seu intento, o deus Cronos, como na própria mitologia, faria do tempo o seu grande trunfo para o consagrado triunfo.

Este texto é apenas para uma pequena e significativa reflexão sobre personagens que adornam as nossas vidas. Até porque, qual de nós não teve ou tem, ídolos, não aplaudiu heróis ou contemplou mitos? E a História está aí, para dar ou tirar a razão sobre nossos “cultos”. História que, por mais que incomode a alguns, a muito custo também, só pode ser revertida no nível local, jamais, no universal.  As linhas e as entrelinhas convidam à leitura e à reflexão. Leia, reflita e tire as conclusões que entender serem possíveis, cabíveis, atuais e oportunas. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 01

EDITORIAL DA SEMANA: REVEJA OS VALORES DA SUA VIDA

VAIDADE DAS VAIDADES

O HOMEM E SEUS VALORES: TUDO É VAIDADE!

*Por Luiz Antonio de Moura –

É interessante, na posição privilegiada de observador, examinar a conduta humana diante dos diversos aspectos da vida! Nós, seres humanos somos bastante interessantes, quando o assunto é atribuição de valores a tudo o que existe no nosso entorno. Para uns, nada vale mais do que a condição social: possuir dinheiro e bens materiais, para não depender da ajuda de ninguém, é o que realmente tem valor. Então, passam a vida ajuntando cifras e bens!

Para outros, o importante é ter boas e duráveis amizades: fazem tudo o que podem para terem ao lado os amigos e todo um exército de pessoas, ainda que sejam apenas bajuladoras. Estarem rodeadas de amigos ou de “amigos” é o que realmente vale para tais pessoas. Outros, no entanto, valorizam a beleza física e a estética: vivem à cata de novidades e de mimos que, ao menos na aparência, possam assegurar-lhes certa beleza ou aparência física exuberante.

Outros, entendem que o verdadeiro valor está no acúmulo de conhecimento e de saber: passam a vida toda mergulhados nos meios acadêmicos e debruçados sobre os livros, na busca insaciável de um conhecimento que nunca, jamais, atinge o grau máximo, porque o topo está cada vez mais distante da condição humana.

Outros, ainda, acreditam que o verdadeiro valor está no trabalho: passam toda a vida trabalhando, como se escravos fossem e, o pior, acreditam piamente ser este o único valor a ser perseguido pelo ser humano, quase que obrigando todos ao seu redor a trabalharem como se fossem máquinas desenfreadas. Tais pessoas não possuem freios e, de modo frenético e ostensivo, não conseguem ver nada de valor da vida além do “estar fatigado”. Este sim, é o verdadeiro prêmio a ser conquistado.

Para outros, ainda, o que realmente tem valor é a vida levada como se diz, “à moda boi”: viver intensamente cada instante. Curtir pessoas, espaços, possibilidades, coisas. Nada de preocupação com o acúmulo de bens, ou com novos ou velhos amigos, com trabalho, com estudo, com religião, com política, com o mundo em si. O que vale é o agora. O resto? Fica para depois.

Cada um destes grupos de pessoas, acredito que existam outros mais, olha para a vida como se ela fosse um flash: surge do nada, sem razão de ser e sem qualquer perspectiva de continuidade. Mesmo os que se dizem crentes em um Deus ou em uma possível vida após a morte, amarram suas vidas a certos valores mundanos e por ali caminham até o momento da partida.

Conheço pessoas que juram amor e fidelidade a Deus e à religião que professam, mas que não conseguem se desvencilhar das amarras dos valores e, assim, vivem acorrentadas àquilo que entendem possuir real valor na vida. Pessoas com as quais não se logra muito sucesso em uma conversa esclarecedora, porque, de antemão, acreditam convictamente naquilo que afirmam. Bem, vivem do jeito que querem e, certamente, em algum momento de suas existências, ainda que seja na contagem final dos dias e das horas, vão compreender o quanto perderam e o quanto jogaram no lixo todas as oportunidades de uma vida realmente valorosa, que é a aquela dedicada, com exclusividade, a Deus e ao próximo. Mas, tais pessoas, na ânsia de convencerem as demais do seu acerto reflexivo, pregam que, ao cultuarem os valores nos quais acreditam, estão a serviço da divindade e dos irmãos. É evidente que fogem do espelho, porque o espelho é o equipamento mais genial forjado no intelecto humano: ele mostra o que, muitas vezes, não gostaríamos de ver. Mostra a realidade como ela, de fato, é.

O Livro do Eclesiastes, rejeitado por algumas denominações cristãs, traz a palavra de um sábio que se apresenta como filho de Davi, rei de Jerusalém. Neste Livro bíblico, o Eclesiastes, também conhecido como Cohelet (termo grego), fala acerca do mar das vaidades sobre o qual o ser humano passa a vida, de forma inútil, a navegar. Ele não é e não se faz de bobo. Conhece perfeitamente bem todas as artimanhas utilizadas pelos seres humanos para se agarrarem a esta vida, como se ela fosse única e infinita. Para emparedar o ser humano do seu tempo, que é igual ao de hoje em dia, o Cohelet enumera o colar de vaidades que o homem usa como ornamento da sua vida e, ainda, para feri-lo em profundidade, ensina que “tudo tem o seu tempo”.

É óbvio que o ser humano do nosso tempo, muito mais esperto e muito mais perspicaz, independentemente de profissão religiosa a que se vincula, não quer saber de Eclesiastes ou de Cohelet. Para este super humano (numa linguagem nietzscheana), nada supera o seu conhecimento ou sua capacidade racional. Então, ele permanece vivendo atrelado às suas mais renhidas convicções e aos valores que atribui como sendo os mais importantes para uma existência realmente compensadora.

Entretanto, e apesar deste “super humano”, sempre a martelar nossos ouvidos, consciências e corações vão estar as palavras de Jesus que, ao ser perguntado por um jovem, sobre o que deveria fazer para alcançar a vida eterna, depois de algumas sugestões, diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e depois vem e segue-me” (Mt 19, 16-24). Aí estão os verdadeiros valores da vida: o desapego a todo e a qualquer bem material e o seguimento reto e sincero a Deus.

Além de puras e inconsistentes vaidades, são desprovidos de verdade e de santidade todos os valores atribuídos pelos homens à vida, fora da Shemá judaica: “Ouve ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e com toda a tua força” (Dt 6, 4-8).

Não existem valores. Existe apenas um único valor: Deus. Aquele ou aquela que atribui ou atrela a sua vida a outros valores, por mais nobres que possam lhes parecer, está total e absolutamente fora do rumo de Deus. Engana-se a si mesmo e vive enganando a todos os demais seres humanos com quem convive. Ao final de tudo, prevalece a palavra de São Tiago: “As vossas riquezas apodreceram e os vossos vestidos foram comidos pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará as vossas carnes como um fogo” (Tg 5, 2-3).

Se acredita existirem valores a serem perseguidos nesta vida, prepare-se para a decepção, porque tempo virá em que tudo será revelado de forma plena e absoluta, e, então, terá a triste surpresa de ver o quão vã e inútil foi a tua existência. Viva em busca do único e verdadeiro valor: o amor, a fidelidade e o seguimento a Deus, sobre todas as coisas, do qual decorre, também, o serviço ao próximo, sem subterfúgios (trabalho pensando no próximo; vendo mercadorias úteis ao próximo, exerço minha profissão a serviço do próximo etc.). Nada que é feito por dinheiro, ou por ele remunerado, pode ser tido como meritório. Ainda aqui vale lembrar o Mestre Jesus: “Não há maior prova de amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13). Não se engane e pare de tentar enganar os que te cercam.

O verdadeiro valor desta vida é o amor a Deus e ao próximo, sem limites, sem mesquinharia, sem medida e sem condicionamentos. O que passar daí é obra humana sob a indução do adversário de Deus. Reflita e adéque sua vida enquanto é tempo, sem se esquecer de dois instrumentos muito úteis: o espelho e o relógio. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

     

mar 25

EDITORIAL DA SEMANA: ASPECTOS DA TEOLOGIA MORAL

VINDE A MIM TODOS VÓS

TEOLOGIA MORAL: A CHAVE PARA UMA VIDA MAIS COMPLETA E MAIS FELIZ –

*Por Luiz Antonio de Moura – 

Uma das maiores e mais persistentes preocupações de carrego comigo a vida toda está relacionada com a disseminação do conhecimento. Nunca me conformei com a dificuldade de acesso ao conhecimento e, principalmente, quando esta dificuldade ocorre de forma premeditada por aqueles que, detentores do saber, fazem-se de bobos ou de desentendidos, deixando incontável número de pessoas presas, e até certo ponto acorrentadas, à ignorância. Isso, em relação a todas as áreas do conhecimento.

Muito do que aprendi, e do que ainda aprendo, no meio acadêmico, seja na área do direito, minha primeira graduação, ou mesmo na da teologia, minha paixão eterna, procuro divulgar por meio de sugestões e de opiniões para as pessoas, a fim de que elas possam ter, ao menos, uma pequena noção sobre assuntos cuja ignorância traz, não raro, sofrimentos, prejuízos e, posso dizer, até um certo esmagamento espiritual, em virtude, principalmente, dos sentimentos de culpa e de arrependimento que, ainda que bem camuflados no mais profundo do ser, trazem angústias imensuráveis a todos nós seres humanos.

Por estas razões, resolvi abordar aqui e agora o tema que, para mim, é o do momento: a teologia moral! É claro que não pretendo, neste curto espaço, dar aula sobre o assunto, o que demandaria a escrituração e o detalhamento de enormes e espessos volumes, mas, quero, apenas e tão somente, comentar certos aspectos de um ramo da teologia ao qual venho me dedicando com mais afinco a cada dia, justamente, por entendê-lo portador de enorme potencial libertário, por envolver, para nós cristãos fieis e fervorosos, temas como pecado, culpa, arrependimento e possibilidades de reconciliação.

Sejam quais forem os melhores e mais apropriados conceitos destacados para cada um dos temas indicados – pecado, culpa, arrependimento e reconciliação – o fato é que caminhamos por uma estrada na qual somos espremidos, de um lado, pelos mandamentos compilados na Lei de Moisés, sobre os quais Jesus disse ter vindo para, além de cumpri-los, também, aperfeiçoá-los e, por outro lado, com as exigências impostas pelas religiões e seus dotes fundamentalistas, além das concepções trazidas pelo século presente que, vítima do mal do relativismo, apregoa justamente a inexistência ou a não importância dos temas em destaque. Ou seja, para o mundo pós-moderno, questões como pecado e culpa, por exemplo, estão superadas pelo tempo. Arrependimento é ato personalíssimo que, portanto, só aprisiona os mais antigos e ultraconservadores. Reconciliação, então, nem se fala. Diversos setores eclesiásticos, por seu turno, impõem verdadeiras e pesadas correntes sobre os que ousam levar-lhes seus pesares com a vida ou mostrar-lhes os insuportáveis fardos que carregam na alma.

Em meio a toda esta barafunda, o verdadeiro cristão, aquele que procura seguir de perto as pegadas do Mestre Jesus, caminha com bastante dificuldade, porque, ora é oprimido por deixar de fazer ou de praticar atos que acredita fazerem-no um pouco mais feliz, ora sente-se esmagado pelo sentimento de culpa ou mesmo pelo arrependimento que, neste caso, pode ser pela ação ou pela omissão.

A teologia moral não vem derrubar muralhas, nem abrir fronteiras inimagináveis, mas, vem trazer alento aos corações e aos espíritos cansados e aflitos, aos quais Jesus se dirige dizendo: “vinde a mim todos vós que estais cansados e aflitos, e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28-30). E a teologia moral traz esse alento, justamente, por estar solidamente fundamentada na pessoa, na ação, nos gestos e nas palavras de Jesus que, se de um lado afirma ter vindo para, além de cumprir a lei, aperfeiçoá-la, também declara querer misericórdia e não, sacrifícios, chamando para si todos os cansados e fatigados, para o necessário e refrescante bálsamo do carinhoso acolhimento, para a oitiva da palavra suave, mansa e curadora e para a (re)descoberta, principalmente, do perdão, com possibilidades de seguir adiante, em paz e de forma serena.

É com base nestas fórmulas evangélicas, e não em simples achismos, que autores moralistas consagrados, como  Bernhard Haering, Marciano Vidal, Josef Fuchs, Klaus Demmer, Antonio Moser, Bernardino Leers e Eduardo López Azpitarte, por exemplo (existem muitos outros) tratam de questões como o pecado, nas mais diversas formas, como a sexualidade e a homossexualidade, com todos os seus desdobramentos, e como a culpa, o arrependimento e a reconciliação. São teólogos como estes, sem esquecer José Maria Castillo, Paula Fredriksen e Tereza Rodrigues Vieira, que vão traçar para todos nós o caminho seguro e sem curvas que leva direto para Jesus que, verdadeiramente, é Aquele que tem o poder de libertar todas as criaturas dos inúmeros pesares que carregam em si e consigo.

A narrativa do Livro do Gênesis, sobre o fato de Adão, depois do pecado da desobediência, ter procurado ocultar-se da presença de Deus (Gn 3, 8), ainda se faz presente em nós e em nossas vidas, sempre que sentimos o manto sombrio do fato, do ato ou da omissão aproximarem-se do nosso ser, trazendo o terrível odor do sentimento de culpa ou de remorso. Em tais momentos e circunstâncias, é normal que busquemos o afastamento, e o consequente isolamento, dos oráculos do Senhor, em virtude da noção que temos, ainda que inconfessável, sobre o certo e o errado.

Assim, é no estudo e na pesquisa que envolvem a teologia moral que vamos encontrar as respostas adequadas para as nossas inquietações físicas, sociais, psicológicas e espirituais simplesmente porque ela responde a uma pergunta fundamental, que todo cristão deveria fazer-se o tempo todo: “o que Jesus faria em tal situação ou diante de tal problema ou dilema?”. Ao deixarmos de nos questionar a respeito da nossa adequação à imagem e ao agir de Jesus, na tentativa de, verdadeiramente, libertarmo-nos de todos os males, afundamos. E, afundados, nem sempre conseguimos emergir ou nos reerguer com a facilidade outrora imaginada. Daí, o caminho do vício, da depressão, da discórdia, do mal humor e, não raro, do suicídio aparecer como verdadeira “tábua de salvação” para quem já se considera irremediavelmente perdido.

A teologia moral, à luz das Escrituras, da doutrina e, também, do Magistério da Igreja, não deixa de enfrentar temas como a sexualidade, o celibato, a masturbação, a homossexualidade, a homoafetividade, com todos os seus desdobramentos, o matrimônio com os efeitos da conjugalidade e da procriação responsável, o divórcio e a situação dos recasados, o aborto e a eutanásia, além de questões sociais como a ética – social, moral e antropológica – e outras mais, decorrentes que são da natureza humana.

São aspectos que, uma vez conhecidos, trazem luz aonde imperam, muitas vezes, as trevas dos sentimentos que nos afastam do Deus cujos braços sempre estão abertos em toda a sua infinita extensão para nos receber com o maior carinho, compreensão, perdão e renovadas chances de reconciliação social, eclesial, física, psicológica e espiritual, vale dizer: a nossa própria reconstrução.

Mais adiante, vou listar os autores acima citados, com as respectivas obras, para que todos que tenham interesse possam adquiri-las para ampliarem o grau da necessária visão libertadora. A função primeira da teologia é sempre libertadora porque, conforme disse o Senhor: “Conhecereis a verdade, e ela vos tornará livres” (Jo 8, 32). Outra não é a intenção dos diversos autores indicados, senão levar para leitores, estudiosos e pesquisadores, no âmbito da teologia moral, diversos conhecimentos, entendimentos e interpretações, porém, somente um caminho: Jesus e sua inquestionável misericórdia.

Este texto, além de proposto para efeito de reflexão é, também, indutivo para a busca de novos conhecimentos acerca da fé e da forma pela qual temo-la vivido, se opressora ou libertadora. Portanto, considero estar cumprindo papel relevante ao incentivar as pessoas a buscarem, na leitura de autores consagrados, alguns dos quais já estão ao lado do Pai, uma maior e melhor compreensão da realidade humana. Realidade da qual nenhum de nós consegue fugir, porque é intrínseca à nossa própria natureza. Faça as leituras que puder, reflita, tire suas próprias conclusões e liberte-se de uma vez por todas. Seja feliz, e boa sorte!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

AZPITARTE, Eduardo López – Culpa e Pecado – Responsabilidade e Conversão. Petrópolis. Vozes: 2005. 200 páginas.

____________Ética da Sexualidade e do Matrimônio. São Paulo. Paulus: 1997. 462 p.

CASTILLO, José Maria – A Humanidade de Jesus. 1ª Reimp. Petrópolis. Vozes: 2018. 130 páginas.

____________A Ética de Cristo. 2ª Reimp. São Paulo. Loyola: 2016. 213 páginas.

DEMMER, Klaus – Introdução à Teologia Moral – 2ª Ed. São Paulo. Loyola: 2007. 120 páginas.

FREDRIKSEN, Paula – Pecado – A História Primitiva de Uma Ideia. Petrópolis. Vozes: 2014. 245 páginas.

FUCHS, Josef – Existe uma Moral Cristã? – São Paulo. Paulinas: 1972. 242 páginas.

HAERING, Bernhard – Livres e Fieis em Cristo. 3 volumes. São Paulo. Paulinas: 1979.

LEERS, Bernardino – O Mistério da Reconciliação – Uma Ética Profissional Para Confessores. Petrópolis. Vozes: 1988. 216 páginas.

MOSER, Antonio – Casado ou Solteiro – Você pode ser feliz. 2ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2007. 280 páginas.

_____________O Pecado – Do Descrédito ao Aprofundamento. 5ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2012. 203 páginas.

RODRIGUES VIEIRA, Tereza (ORG.) – Bioética e Sexualidade. São Paulo. Jurídica Brasileira: 2004. 196 páginas.

VIDAL, Marciano – Nova Moral Fundamental – O Lar teológico da Ética. Aparecida-SP. Paulinas e Santuário: 2003. 912 páginas.

_____________Moral Cristã em tempos de relativismos e fundamentalismos. São Paulo. Santuário: 2014. 189 páginas.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

   

mar 18

EDITORIAL DA SEMANA: TODA ESCOLHA TRAZ CONSEQUÊNCIAS

FAZER ESCOLHAS

OS FRUTOS QUE COLHEMOS NASCEM DAS ESCOLHAS QUE FAZEMOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quantos prantos e lamentos  chegam a todo instante aos ouvidos de Deus, com súplicas e clamores por socorro, além das previsíveis blasfêmias e heresias. Tudo, em decorrência das dores e dos dissabores enfrentados por todos e por cada um de nós no longo curso da vida. Abre-se aqui um parêntesis para falar sobre esta questão do ”longo curso da vida”. Só se valem desta expressão os que sofrem e que esperam a vinda do Senhor, como a solução final para todos os problemas, a cura para todas as formas de enfermidades e a justiça para todos, acima de tudo. Os que que vivem no prazer, na felicidade mundana e no regozijo das benesses de tudo de bom e de melhor que o mundo pode oferecer a um vivente, sempre acham que a vida é curta demais e que deveria haver um acréscimo, todas as vezes que o fim estivesse próximo.

Bem, fechado o parêntesis, aos ouvidos da divindade chegam todos os nossos clamores, em face de tudo o que sofremos aqui neste plano terreno. Obviamente que Deus não pode ser responsabilizado por nada de mal que ocorre debaixo do sol, haja vista ser impossível para Deus praticar o mal e que, por Ele, nós estaríamos no paraíso, usufruindo de tudo e, inclusive, da vida plena e sem fim. Entretanto, como espécie, o que fizemos? Fizemos uma simples escolha.

Escolha. Eis a palavra que define tudo sobre nós. Sempre, depois que nascemos, fazemos escolhas. É o sinal mais evidente e identificador do livre arbítrio com o qual somos dotados por Deus que, apesar de tudo o que nos ensina, sempre conhece o lado para o qual pendemos. Não em vão, já no Paraíso Deus não diz que “se” o homem comer da árvore proibida morrerá, mas, afirma categoricamente que “O dia em que dela comerdes, certamente morrereis”, porque Ele já sabia o final daquela novela. Pois bem, escolha é sempre a opção que fazemos, ou até mesmo deixamos de fazer, diante das diversas possibilidades que nos são apresentadas. É preciso saber, no entanto, que as escolhas trazem embutidas, de forma inevitável, consequências, e é aí que reside o nó górdio da questão. As escolhas que fazemos nem sempre se nos apresentam de forma completa e transparente, ou seja, praticamente nunca as escolhas revelam as contraindicações, como nas bulas dos remédios, que avisam sobre os riscos e os perigos que podem ser enfrentados pelos pacientes,  depois da ingestão daquele produto.

A vida não tem bula, e justamente por esta razão, nossas escolhas são feitas, normalmente, em razão dos impulsos que nos movem: compramos porque queremos; vendemos porque julgamos ser bom; mudamos de emprego porque achamos mais oportuno e vantajoso; trocamos de profissão porque estamos convictos de termos encontrado a verdadeira vocação; divorciamo-nos porque encontramos alguém que vai nos fazer mais felizes, ou simplesmente porque estamos cansados do outro. Enfim, são inúmeras as possibilidades de escolhas às quais somos convidados a fazer todos os dias, ao longo da nossa existência.

Entretanto, todas e cada uma das escolhas que fazemos trazem, a curtíssimo, curto, médio e longo prazos consequências para as quais quase nunca fomos ou estamos preparados. Daí as decepções, os arrependimentos, os sofrimentos, as angústias e as amarguras que caem sobre as nossas cabeças como se fossem bolas de ferro que, de tão pesadas, fazem com que passemos a sentir o chão afundando sob os nossos pés. Aí, nestas horas, bradamos a Deus! choramos, oramos, erguemos os braços na direção do céu falamos impropérios, sentimo-nos totalmente abandonados à própria sorte, outros até acham que estão sendo colocados à prova por Deus e tem, ainda, os que acreditam estarem sendo severamente castigados por algum mal feito no passado.

Dificilmente, no entanto, alguém admite estar sofrendo as consequências decorrentes de escolhas que foram feitas em dado momento. Escolhas que, na ocasião, pareciam acertadas e cheias de promessas sedutoras. Escolhas que propiciavam certas vantagens ou lucros acima do normal, mas que a pessoa, naquele instante, sentia-se premiada pelos céus com aquilo que lhes parecia verdadeira dádiva. O que ontem parecia verdadeira benção e premiação, hoje parece maldição e castigo!

E tais escolhas são feitas de forma individual ou coletiva. Individual, quando os beneficiários diretos somos nós mesmos; coletiva, quando escolhemos algo ou alguém para atuar, direta ou indiretamente, sobre toda a sociedade como, por exemplo, na eleição de um governante ou de um parlamentar. Muita gente acredita não ser culpada por nada de mal que ocorre na sociedade como um todo, mas, o engano é abissal, haja vista que a escolha direta ou mesmo a omissão na hora de escolher, faz de nós participantes ativos de tudo o que está em jogo porque, sempre somos convidados a fazer escolhas e, se fazemos más ou boas escolhas, ou mesmo se preferimos a omissão, estamos vinculados aos resultados e às consequências que daí advirão. Enfim, não tem muito jeito, agiu ou se omitiu, tem responsabilidade sobre as consequências.

Isso tudo para, no fim, afirmar-se que o modelo de família adotado pela ampla maioria da sociedade ocidental está, deveras, equivocado, porque parte do pressuposto de que somos absolutamente livres para decidir o que fazer com nossas vidas. Livres e imunes a uma ética e a uma moral para as quais muitos, e já há muito tempo, decidiram virar as costas por entendê-las objetos de manobras das religiões. Trata-se de escolha legitimamente feita por parcela considerável da sociedade humana mas que, como já o afirmamos, traz embutidas todas as consequências que, todos os dias, a mídia estampa diante dos nossos olhos, à exaustão, como a jogar no rosto de cada um de nós a culpa pelos resultados, agora, colhidos.

A extrema violência demonstrada por delinquentes de todos os matizes, o desamor e o desrespeito para com tudo e todos, a falta de apreço pelas instituições, de um modo geral, e pelos templos sagrados e religiosos, de modo especial, assim como o ódio racial e homofóbico, o desprezo aos mais velhos e desamparados, tudo isso é fruto direto da árvore plantada sob um modelo de família absolutamente adulterado e corrompido. Um modelo que, em nome da ampla liberdade de escolha foi, e ainda está sendo, alimentado por um tipo de adubo que, traz prazer, realização e até satisfação momentâneos, mas que, também, enrijece o coração e o espírito, gerando embriões que, quando crescem, são capazes de coisas inacreditáveis, como as que temos visto no noticiário do país e do mundo.

Nossos avós falavam sobre Deus; nossos pais falavam sobre Deus; nós quase não falamos sobre Deus. Nossos jovens, e mesmo muitos adultos, não sabem quem é Deus! E quando não se conhece Deus, de onde provém toda forma de vida, de onde provém um modo de vida condizente com a santidade e com a perfeição, perde-se a noção dos princípios e dos valores que moldam, justamente, a vida pacífica em sociedade. Resultado: tudo o que o noticiário nacional e internacional têm disponibilizado para nós, todos os dias e todas as noite.

Portanto, não devemos permanecer nesta profunda ignorância, acreditando ou querendo acreditar que o mal que cai sobre nós e sobre esta geração, decorre de provação, de castigo, do abandono à própria sorte ou, ainda, da chegada do final dos tempos, como muitos gostam de afirmar, mas, que decorre, sim, diretamente das escolhas que temos feito ou apoiado, ou, ainda, das nossas omissões porque, até o ato de permanecer inerte é uma escolha que tem suas consequências.

Devemos reservar alguns instantes da nossa tumultuada e agitada vida para refletir sobre as escolhas que temos, ou não, feito, avaliando acerca de cada uma, as consequências visíveis e mesmo as previsíveis e então, e somente então, haveremos de fazer o necessário mea culpa, livrando Deus de uma responsabilidade que Ele, definitivamente, não possui.

A proposta, como sempre, é para uma profunda reflexão e tirada de conclusões. Conclusões que podem mudar o curso de algumas vidas e, quiçá, de toda uma coletividade. Faça isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritual, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 11

EDITORIAL DA SEMANA: DIGA NÃO À HOMOFOBIA E À TRANSFOBIA

HOMOFOBIA - CRIMINALIZAR OU NÃO

HOMOFOBIA: UM CRIME CONTRA A PESSOA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém a tramitação, no Supremo Tribunal Federal, da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26, mediante a qual a Corte Suprema do País é provocada a decidir acerca da criminalização, ou não, da homofobia, caracterizada pelo preconceito contra a comunidade LGBT (Gays, Lésbicas, e Transgêneros).

A ADO decorre do fato de o Congresso Nacional ainda não ter legislado sobre a matéria, no sentido de criar norma penal protetiva de parcela significativa da sociedade, o que causa surpresa e certo espanto, haja vista a proteção legal de que gozam outras minorias.

O julgamento está suspenso, até designação de nova sessão pelo Presidente da Corte tendo, no entanto, sido proferidos quatro votos favoráveis à criminalização do ato homofóbico. Votos da lavra dos eminentes Ministros Celso de Mello, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, sendo os dois primeiros relatores da ADO 26 e do Mandado de Injunção 4733, respectivamente.

Dentre os que acompanham os votos do relatores, merece destaque o seguinte trecho do voto do Ministro Alexandre de Moraes, ao afirmar que: “Passados 30 anos da Constituição Federal, todas as determinações constitucionais específicas para proteção de grupos considerados vulneráveis foram regulamentadas com a criação de tipos penais específicos. No entanto, apesar de dezenas de projetos de lei, só a discriminação homofóbica e transfóbica permanece sem nenhum tipo de aprovação. O único caso em que o próprio Congresso não seguiu o seu padrão”[1].

A questão, certamente, será ainda objeto de acirrado debate no Plenário do STF, até porque existem, inacreditavelmente, vozes graúdas que defendem totalmente o oposto do que já decidiram os quatro primeiros Ministros. Diz-se “inacreditavelmente”, porque é de causar espanto e temor que agentes públicos graduados na República defendam abertamente que a homofobia e/ou a transfobia não merece qualquer especial atenção por parte do legislador que, por sinal, não está nem aí, mesmo, para o fato real, tanto, que é preciso que a Corte Suprema chame à responsabilidade aqueles cuja única competência é justamente a de legislar.

Parece ser impensável, nos dias de hoje, que atos praticados contra pessoas e grupos minoritários, possam ser admitidos no âmbito da normalidade, como se fossem decorrência ou mesmo consequência de uma condição de vida que a pessoa, de forma livre a autônoma, assume perante o corpo social. Atos praticados, sempre de forma rude e covarde, contra afrodescendentes, contra idosos, contra crianças e adolescentes e/ou contra deficientes físicos, que já contam com uma legislação penalmente impositiva, não podem ser dissociados das mesmas manifestações praticadas contra o amplo espectro da homossexualidade. Vale dizer: atos que importem em qualquer forma de discriminação, com exclusão ou mesmo com o uso da violência, em razão da opção de vida da pessoa, não podem, de forma alguma, passar imunes perante a dureza da lei. Afinal, o que é a lei senão a forma encontrada para normatizar e equilibrar a vida em sociedade? Que tipo de sociedade teremos se, como pretendem alguns, certas formas de discriminação ou de desapreço público passarem a ser aceitas, em decorrência de ideologias camufladas por uma moralidade altamente questionável?

Toda a sociedade pátria deve se posicionar neste momento! Inexistem quaisquer justificativas, sejam de natureza moral, religiosa ou mesmo ideológica, que possam servir de porto seguro para aquele que pratica qualquer forma de discriminação contra um cidadão ou uma cidadã cujos direitos são assegurados por uma mesma Constituição. Afinal de contas, vale repetir o que já tem sido repetido à exaustão: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (Artigo 5º, caput, da Constituição da República). Assim, a mesma mão legal que pesa sobre quem pratica o crime de racismo, deve pesar, também, sobre quem pratica atos de homofobia. Não existe diferença objetiva entre pessoas. Até pela própria lei natural, todos nós somos iguais: nascemos, crescemos, vivemos e, reproduzindo ou não, inevitavelmente, morremos. Desta sina nenhum ser vivente escapa. Então, por que uns devem ser tratados no rigor da lei, enquanto outros podem agir segundo suas próprias convicções, ainda que em prejuízo físico, moral ou psicológico do outro?

A democracia está assentada na estrutura tripartite do poder, onde a competência de cada um dos poderes constituídos é delimitada na Constituição e, quando algum deles deixa de exercer a competência que lhe é atribuída, cabe ao Poder Judiciário entrar em ação. É o caso!

Espera-se, sinceramente, apesar das vozes em contrário, que a Suprema Corte coloque os pingos nos “is” e reconheça, sim, como crime comparável ao do racismo, qualquer ato de homofobia praticado contra qualquer cidadão ou cidadã em território nacional, passível de punição severa e exemplar, concedendo o mandado de injunção postulado, na forma do inciso LXXI, do artigo 5º da Constituição da República, de modo a que a lei puna, de fato, “qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais” (Art. 5º, XLI da CR).

O que não podemos admitir é que pessoas e grupos, valendo-se dos slogans que julgam úteis e necessários para o exercício das suas atividades, pressionem os legisladores para promoverem o encurtamento dos direitos de determinados cidadãos e cidadãs, em função da opção de vida que cada qual, livremente, pode fazer e escolher.

Além do mais, a questão é, também, humanitária. Não podemos ficar calados diante de manifestações grotescas contra quem decidiu dar à vida um rumo diferente daquele dado pela maioria da sociedade. Do mesmo modo, não é de ser aceito que vieses radicais e fundamentalistas, originados na política ou na religião, sirvam de base para o acobertamento de atos nefastos de homofobia.

Este texto é apenas um convite à reflexão. Que cada leitor e cada leitora, na intimidade do seu espírito, na nobreza do seu coração e na liberdade de suas convicções possa tirar suas próprias conclusões e, julgando útil e oportuno, consiga um canal para externá-las de forma limpa e democrática, sim, mas, sempre em prol do outro. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=404076

fev 25

EDITORIAL DA SEMANA: TODA MISSÃO TEM UM FIM!

FRUTOS DA VIDA - 2

MISSÃO CUMPRIDA, É HORA DE OBSERVAR OS RESULTADOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Muitos de nós acreditamos ser portadores de missões que, atribuídas por Deus, pela Lei, pela Cultura ou pela Moral, devem ser cumpridas à risca, fazendo desta, em muitos casos, a razão de ser da nossa existência. Não é pequeno o número de pessoas que só conseguem enxergar a vida sob a ótica da tal “missão” que, não raro, e para estas pessoas, dura por toda a vida.

Da minha parte, não enxergo a coisa exatamente desta forma. Penso que cada um de nós tem diversas missões para serem cumpridas no curso da vida e que, como tais, vão se sucedendo umas às outras, em uma saga contínua e permanente, cujo fim coincide com o término desta existência. Algumas missões são mais prolongadas do que outras; mais espinhosas; mais dolorosas; mais aguerridas; mais cansativas, mas, a todas é reservado um limite, um termo final. Um momento no qual dão-se por esgotadas e, portanto, encerradas, independentemente do resultado produzido. Daí por diante, parte-se para outra missão.

Exemplo que me parece bastante oportuno, principalmente, sob a ótica do momento atual da minha trajetória, é o relacionado com a missão a ser desempenhada com o foco totalmente voltado para os filhos. Trata-se de missão difícil, espinhosa e complicada, sim, mas, que tem tempo para findar. Não é missão de toda uma vida, porque, cumpre a cada pai e a cada mãe, acolher aquele serzinho que chega ao mundo para integrar a família, com todo o amor e com toda a dedicação possível e inimaginável. Chega da forma como todos nós sabemos e conhecemos muito bem: indefeso, inocente e carente de todo tipo de cuidado. Sem nada, completamente nu e absolutamente sozinho. De tudo e em tudo dependente de alguém! É a sina de todos nós, seres humanos: ao nascermos e ao morrermos, dependemos de alguém para nos levar de um lado para o outro!

Àquele pequeno ser que chega ao mundo, a mãe ensina por primeiro o caminho do bico do seio, levando-o à boca, para a primeira alimentação, seiva de continuidade de uma vida gestada em um ambiente propício, no qual nada faltava e tudo chegava da forma mais natural possível. Agora não! Agora ele depende da mãe para iniciar o processo da alimentação, com todos os suplementos e complementos necessários para que aquela vidinha ganhe mais tônus a cada dia, e  em todos os sentidos. Ele ou ela depende de alguém, normalmente, da mãe, para colher-lhe as primeiras (e muitas outras) fezes, trocando-lhe as fraudas e zelando pela manutenção e higiene daquele frágil corpo.

Depois, pouco mais tarde, vem o ensino de inúmeras outras atividades necessárias para o progresso daquele ser que, agora, já sabe pedir o famoso “papá”; já chora, quando não quer alguma coisa; já dá de mãos, com certa irritação, quando se sente objeto de abuso dos adultos corujões. Mas, ainda falta aprender a engatinhar para, em seguida, dar o primeiro grande avanço para a liberdade: os primeiros passos! Todos, na família, aguardam o momento deste pequeno astronauta fazer sua primeira caminhada que, para nós, serão apenas alguns passos, mas, para ele ou para ela, será uma grande caminhada rumo à independência. Daí por diante, ele/ela vai de vento em popa, mas, a missão do pai e da mãe ainda está longe de ser completada.

Vem o momento dramático da escola, dos primeiros contatos sociais com outros pequenos seres tão simples e inocentes quanto o nosso rebento. Mas, novamente estamos lá, ao lado dele ou dela, torcendo, dando força, incentivando e, não raro, também chorando pela insegurança de deixar aquela mudinha de árvore aos cuidados de jardineiros estranhos. Jardineiros e jardineiras que são, obviamente, bem preparados e muito bem treinados, mas, não somos nós! E acreditamos, sinceramente, que ninguém é capaz de fazer por ele ou por ela nada do que somente nós sabemos fazer.

A fase estudantil é uma das mais longas, mais complexas e mais delicadas porque pega nossos filhinhos com dois ou três anos de idade e acompanha-os até a entrada na Universidade. E nós, destemidos que somos, estamos ali firmes, fortes e resistentes. Resistentes às dificuldades por eles encontradas nos primeiros anos; resistentes em relação ao convívio com outros seres iguais que, vindos de outras raízes, possuem perfis, às vezes, bastante diferentes e complexos, assim como os modos de proceder em relação a tudo e a todos à volta. Resistentes às rebeldias da adolescência; resistentes ao ímpeto da juventude e, por fim, e já cansados, resistentes aos enfrentamentos abertos, resultantes do normalíssimo conflito de gerações.

Aqui, neste estágio, e na minha opinião, a missão paterna e materna caminha para o encerramento, porque, a partir do conflito gerado pela visão e consequente compreensão do mundo, quando o filho ou a filha enxerga o mundo e suas dependências com olhar próprio, muitas das vezes, bastante diferente do nosso olhar já treinado, experimentado e, porque não assumir, já viciado, acreditam já serem senhores absolutos dos próprios destinos, dispensando maiores comentários, evitando os diálogos mais aprofundados ou mesmo a necessária e saudável troca de experiências, para a verdadeira transmissão da vida e das suas vicissitudes. O que nós sabemos, ou achamos que sabemos, já não lhes interessa mais. Para eles, passamos a ser seres estranhos e já a caminho da obsolescência, seres de um outro mundo, de uma outra época, com outros valores e portadores de um “conhecimento” que a modernidade, sob muitos aspectos, já não reconhece mais como válido. É, quando acredito, a missão do pai e da mãe está encerrada”. Tudo foi feito, dito e ensinado. Experiências mil foram transmitidas. O que normalmente denominamos por "conselhos", foram distribuídos aos montões. Centenas de exemplos foram tomados como referências e indicativos para o bom e para o mau caminho. Enfim, aquele filho ou filha está preparado para a ação! E, de tão preparados, eles acreditam poder deixar de lado tudo o que receberam, e partir para suas aventuras e experiências próprias.

Dali por diante, é verdade, sempre estaremos prontos para o filho ou para a filha, mas, apenas para o acolhimento, o consolo e, não raro, para o socorro! E, quase sempre, o trunfo vitorioso é o da concordância ou o do silêncio.

É com esta visão e com este sentimento que vejo meu filho chegar aos vinte e um anos de idade! É preciso reconhecer, também, ser esta a primeira experiência pela qual estou passando. Mas ainda sou um menino, um menino que carrega no peito dúvidas, medos e inseguranças. Um menino que, infelizmente, não encontra outro menino para trocar ideias e experiências válidas para ambos, um mais velho, o outro, mais jovem. Tão jovem que, em razão da idade que chega e faz desabrochar toda a impetuosidade da vida, não percebe o valor absoluto, e a importância, do diálogo constante e permanente com este menino que ele já considera velho demais e fora de moda. Ambos são meninos, porém, cada qual refletindo o seu próprio tempo.

Um dia eu também tive vinte e um anos de idade, e como eu sonhei poder ser tratado pelo meu pai como um adulto, um adulto capaz de ter ideias e opiniões próprias e interessantes; um adulto capaz de principiar e de prolongar um diálogo forte, saudável e frutuoso para ambos quando eu, certamente, teria a vantagem de aprender muito mais. No entanto, meu pai, vindo de uma realidade na qual não conheceu o carinho, o acolhimento, o amor, o consolo ou mesmo o socorro de um pai ou de uma mãe, rechaçava, como evita até hoje, o diálogo aberto, franco e sincero com os filhos, por se achar, ele próprio, o senhor absoluto de todas as razões e de todas as verdades.

Do alto destes meus quase sessenta anos olho para os vinte e um anos passados como um raio, e percebo ter cumprido minha missão o que, para mim, é motivo de orgulho, satisfação e consolo pessoal e espiritual muito grande. Cumpri, sim, a missão que me competia como pai. Agora, resta-me apenas sentar na varanda e, tal qual o ancião que tem os olhos perdidos no horizonte, aguardar para apreciar os resultados do extenso plantio que fiz no decorrer destes últimos vinte e um anos esperando, ainda, para ver o que revelarão os anos vindouros.

Aos pais e mães mais jovens, não sirvo de modelo, porque ousei agir bem adiante no tempo, acreditando estar construindo pontes e viadutos pelos quais muitas cargas positivas seriam transportadas de forma permanente, espontânea e inteiramente gratuita. Entretanto, qual não tem sido minha surpresa, quando vejo que, tudo construído e desobstruído para gerar integração plena, assim como a produção de esplêndidos resultados, existe um pedágio a ser pago, instalado pelas artimanhas da vida. Um pedágio que dificulta o fluxo natural do transporte de projetos, planos e experiências, criando obstáculos onde não existem e obscurecendo a visão, impedindo a percepção e, evidentemente, afastando a possibilidade de se preparar, em larga escala, para as armadilhas que o futuro guarda para a totalidade dos seres humanos.

Não importa o quanto está sendo, ou o quanto ainda será, cobrado para a travessia das tais pontes e viadutos. O que realmente importa, para mim, e, talvez, até de forma egoísta, é a convicção de ter cumprido com o papel que me foi designado: o papel de pai! Cumpri-o com altivez e com determinação; cumpri-o com satisfação e com orgulho e, na condição daquele que planta uma árvore frutífera em terras alheias, ou mesmo nas próprias, espero que alguém recolha os frutos que, mais dia, menos dia, não tenho dúvidas, aparecerão. Afinal, o que é a vida, senão um plantar e um colher permanentes? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

   

fev 18

EDITORIAL DA SEMANA: TRABALHADORES DO BRASIL

TEMPOS MODERNOS - 2019

TEMPOS MODERNOS – O SÉCULO QUE VIVE NO PASSADO –

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quando falamos em “tempos modernos”, quase sempre vem à mente a lembrança do jovem Chaplin mergulhado no interior de uma fábrica de montagem de peças, apertando parafusos, em uma atividade tão frenética que,  já no intervalo para o almoço, mostrava as mãos trêmulas e vacilantes, repetindo o mesmo gesto, ainda que sem a chave na mão. Coisa de louco, diriam os jovens de hoje.

Diriam isto porque, muitos dos nossos jovens ainda não mergulharam no famigerado ambiente da produção em série de qualquer um dos objetos que consomem ou compram diariamente, pela internet ou mesmo nas lojas físicas. O trabalho de natureza repetitiva, manual ou intelectual que seja, ao invés de uma saudável prática e uma bem-vinda experiência, traz doenças físicas, mentais e espirituais, muitas das quais perseguem as pessoas pelo resto de suas vidas.

Parece incrível que tais ambientes ainda existam e que, por outra, ainda sejam comandados por pessoas que se revelam dotadas com a mesma mentalidade que vigorava no interior das fábricas das décadas de 1920/1930 do século passado. Porém, existem e estão cada vez mais presentes, tanto nos setores públicos, quanto nos privados. Tanto na produção em série, massificada, quanto no trabalho meramente burocrático e intelectual, dependente de relatórios e de decisões previamente elaboradas (os famigerados modelos), com a simples escusa de acelerar o trabalho, produzir mais e preservar pesquisas e coletas de dados já realizadas.

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador. Num primeiro momento, a simples e ingênua repetição de atos e de formas parece coisa simples, racional e saudável. Entretanto, o tempo se encarrega de mostrar que  chega a hora em que o trabalhador ou a trabalhadora passam a sofrer do vício do trabalho repetitivo, e ficam de tal modo vinculados ao sistema que, se for modificado o conteúdo central do trabalho, ele/ela passará batido e, olhando apenas para a peça e o instrumento ou para o título e para as primeiras linhas, dará o mesmo resultado para a questão posta diante de si, tamanha a lesão cognitiva que já tomou conta do seu precioso cérebro.

Aqui, volta a lembrança do trabalhador Chaplin embrenhado, e indefeso, em meio à multiplicidade de engrenagens, simbolizando muito bem tentáculos de um sistema que devora o ser humano de tal forma que, em pouco tempo, se sente como um verdadeiro dente da engrenagem. E mais: muitos, se veem como um dente muito importante na dinâmica que faz tudo girar ao seu redor. Tão importante que são capazes de tudo para se manterem atrelados ao sistema que, paradoxalmente, devora-os com prazer e satisfação e que, quando os consome totalmente, já tem outro, engrenado, para representar o mesmo papel, em um verdadeiro ciclo vicioso e ceifador de  saúdes e de vidas.

Ainda assim, desconhecendo ou fingindo desconhecer as severas consequências das regras impostas e alimentando todo o sistema, chefes intelectualizados, sindicalistas, trabalhadores e outros que se dizem do ramo, estão verdadeiramente assombrados com tudo o que vem sendo proposto (alguma coisa já foi, inclusive, implantada) no campo dos direitos trabalhistas sem, no entanto, mexerem um dedo sequer para questionar seriamente o condenável sistema produtivo, manual ou mesmo intelectual, no qual estão imersos até o pescoço milhões de trabalhadores, exigindo de subordinados, associados e comandados, apenas, e sempre, mais agilidade no processo produtivo, como que a bloquear ainda mais a capacidade intelectiva do cidadão ou da cidadã que, no dia-a-dia, produzem, de verdade, as grandes riquezas e mantêm, impreterivelmente, os ótimos bônus financeiros e os excelentes salários daqueles que, em posição de comando, estão no topo da cadeia produtiva.

O filme que relata a aflição e a descoloração pessoal daquele operário representado, de forma magistral, pelo jovem Charles Chaplin, não raro, é passado em palestras e em congressos, mundo afora, como modelo de produção a ser fortemente criticado e, de fato rejeitado pelos administradores modernos, haja vista o indizível mal que causa aos trabalhadores. Entretanto, ainda contaminados e, de certa forma embotados, pelo pensamento dominante naquelas já citadas décadas do século passado, todos eles  (líderes, chefes e administradores), com raríssimas exceções, mantêm o mesmo sistema de cobrança e de exigência de agilidade na produção de resultados em seus ambientes de trabalho, caçoando daqueles que afirmam estarem sofrendo e alegando não aguentarem mais o sistema viciante e viciado, ou, o que mais acontece, preparando a substituição do que denominam "maçãs podres".

Atualmente, em certas áreas do serviço público, adota-se o teletrabalho, como a joia da coroa. Diferentemente dos procedimentos similares adotados na iniciativa privada, nacional e estrangeira, líderes que representam estes setores públicos, além de não fornecerem equipamentos adequados e aptos à qualidade do trabalho, de não se responsabilizarem pelos efetivos custos operacionais e de não oferecerem um centavo a mais de incentivo para os trabalhadores, diferentemente do que ocorre no setor privado, ainda se acham no direito de exigir aumento expressivo da produtividade, no que contam, infelizmente, com a concordância dos trabalhadores e das trabalhadoras que, já embotados e incapazes de perceber o quanto estão sendo explorados, lutam para assegurar o que ainda acreditam ser um “privilégio”.

O teletrabalho, na forma em que foi pensado, planejado e executado com relativo sucesso por grandes grupos corporativos, grupos que, querendo ganhar cada vez mais, sabem o quanto é importante o bem estar dos seus empregados, tem por finalidade proporcionar aos trabalhadores e às trabalhadoras a possibilidade de executarem suas tarefas diárias no ambiente que lhes parece mais íntimo: a residência. E, justamente por respeitarem este ambiente íntimo, as grandes corporações fazem questão de encher estes trabalhadores de mimos, como jornada de trabalho inalterada, com respeito aos necessários intervalos regulares para a recomposição física, o fornecimento de equipamentos modernos, sofisticados e altamente eficientes, a manutenção periódica nos referidos equipamentos, serviço de help-desk funcionando de forma efetiva e eficaz, durante 24 horas por dia, além de um bônus salarial visando cobrir ou minimizar os custos de operacionalidade o que, incentiva e estimula tal modalidade de trabalho.

Isto sim, é respeitar o trabalhador e o seu íntimo ambiente residencial. Este sim, é o método que busca acrescentar ganhos pessoais, materiais e espirituais àqueles que asseguram os polpudos bônus financeiros aos sócios e acionistas ou os magníficos salários dos líderes, chefes e administradores. Aqui, sim, justifica que cada trabalhador ou trabalhadora lute com afinco para conseguir este que é um verdadeiro privilégio, totalmente oposto ao que tem sido oferecido aos trabalhadores brasileiros, principalmente, os de alguns setores públicos, cujos chefes e administradores acreditam, ou fingem acreditar, estarem na vanguarda do processo evolutivo do trabalho.

Penso ser chegado o momento de, mais do que direitos codificados, os trabalhadores buscarem formas de trabalho mais humanas e mais humanizadas, de modo que passem a ganhar algo que vale muito mais do que o dinheiro: o verdadeiro bem estar para a vida, com valorização e resguardo aos principais direitos da pessoa, onde quem comanda saiba respeitar o ambiente íntimo e pessoal daquele que lhe assegura os enormes ganhos e, por fim, a própria riqueza.

Caso contrário, o filme do velho-jovem Chaplin continuará a representar uma realidade que teima em não sair de cena. Uma realidade que tem transformado os nossos trabalhadores, ao longo do tempo, em bonecos robotizados, viciados na repetição de atos, de gestos e de comandos, que permanecem ativados e atuantes, mesmo fora do ambiente do trabalho, nas conversas de finais de semana com amigos e familiares, naquele papo que ninguém aguenta mais, mas que todos ouvem até por piedade daquele que se sente um importante dente da engrenagem produtiva na qual está inserido, pois todos percebem o prejuízo mental de que são portadores tais indivíduos. Reflita e, ainda que não concorde, veja se conhece realidade diferente e melhor. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

fev 11

EDITORIAL DA SEMANA: O TEMPO É ADVERSÁRIO DE QUEM NÃO O COMPREENDE

COMPREENDER O TEMPO

QUEM NÃO COMPREENDE O TEMPO, É DERROTADO POR ELE –

“Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito” (Ecl 3, 3). Portanto, é prudente, sensato e sábio compreender e respeitar o tempo e sua dinâmica, sem interferir, por qualquer modo, para acelerar o seu curso, permitindo que todas as coisas, ao final do termo próprio de cada uma, sejam reveladas e produzam os frutos desejados e esperados.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Um dos maiores desafios do estágio atual da civilização pós-moderna é conviver com o tempo, esse fenômeno que, mal compreendido, deixa as pessoas de cabelo em pé, diante da “urgência” com que tudo passou a ter que ser resolvido ou discutido, produzindo resultados da forma mais rápida e fulminante possível, de preferência, na velocidade do pensamento.

Esquecem-se, muitas pessoas, que tempo é o intervalo a ser percorrido entre aquilo que projetamos para o futuro e a efetiva concretização e que, fora das atividades meramente virtuais, no âmbito das efetivamente humanas, este intervalo necessita ser percorrido e esgotado completamente, para que, então, possamos contemplar aquilo que, lá atrás, queríamos ver realizado. No mundo virtual, na era de domínio do chip, tudo ocorre em tempo real, vapt-vupt. Basta dar um comando... e tudo aparece na tela mágica do aparelho eletrônico disponível.

Entretanto, fora deste cenário mágico do “tudo pra já”, proporcionado pela mais alta tecnologia virtual, não existe possibilidade de encurtar o tal espaço a ser percorrido entre o projeto e o resultado final de que falávamos acima. Alguns seres humanos, no entanto, teimam de forma insistente, e até meio ignorante, em fazer do tempo um instrumento a ser manejado ao bel prazer, pretendendo trazer para agora, já, os resultados (quantitativos e qualitativos) que só o regular transcurso do tempo pode proporcionar. Para tais pessoas, e eu conheço algumas, somos nós que manipulamos o tempo e, portanto, temos plenas condições de elastecê-lo ou de encurtá-lo, sem se aterem para o fato de que, qualquer adulteração promovida na natureza trará, inevitavelmente, consequências que, na esmagadora maioria das vezes, são indesejadas e até mesmo prejudiciais.

O processo de adulteração, seja em que campo for, desnaturaliza, consome além do possível, cria esgotamento, ocasiona tensões, prejudica o bem-estar geral e compromete seriamente a qualidade daquilo que, em condições normais, seria produzido com padrão de excelência.

Muitas pessoas, e, novamente, conheço algumas, não conseguem entender que aumentos no volume de projetos envolvem maiores prazos, porque, as distâncias a serem percorridas serão muito maiores e, portanto, consumirão mais tempo. Ou seja, trata-se de verdadeira insensatez, desprovida de inteligência e da própria prática do raciocínio, a fala daqueles que gostam de bradar “faremos mais com menos”, deixando de revelar que, aqui, o “menos” significa qualidade ou qualquer outra perda a ser imposta aos executores que agem em nome ou por pressão daquele que, por não compreender as vicissitudes do tempo, acredita deter em suas mãos o controle de um fenômeno que somente Deus domina plenamente, por ser o Senhor absoluto do passado, do presente e do futuro.

Não deve ser omitido, dos pretensos aceleradores dos ponteiros, que o tempo é o pior e mais cruel dos adversários daqueles que não conseguem compreendê-lo, porque, por não serem dotados da necessária compreensão, acabam sofrendo e impondo sofrimentos aos que os cercam que, não raro, são objetos de comando.

É preciso, não apenas compreender o tempo e sua dinâmica, como respeitá-lo profundamente e deixá-lo fluir da forma mais natural possível, agindo como se o hoje fosse hoje e o amanhã, amanhã. Não dá para viver sobrepondo-se às leis da natureza e, especialmente, ao tempo, na ânsia descontrolada de fazer tudo acontecer agora, já, como se o mundo estivesse marcado para terminar hoje e, ainda, assim, ter que deixar tudo prontinho, como se alguma valia tivesse para quem, eventualmente, sobrevivesse. Cada coisa, e, ao final, tudo, tem o seu tempo certo para acontecer. Não existe forma mágica para semear de manhã e colher à tarde, sob pena de, adulterando todas as lógicas e leis da natureza, colher-se algo terrivelmente descaracterizado e desconfigurado, capaz de investir contra a própria criatura. Os mais sábios, ou ao menos os mais providos de racionalidade, devem refletir sobre estas questões, a fim de servirem como verdadeiros exemplos, contribuindo para a formação de opiniões sadias e sensatas e não, como agem alguns, disseminando exemplos que levam-nos a recordar Jesus, que a respeito dos fariseus, dizia para os seus seguidores: “fazei tudo o que eles vos disserem; mas não imiteis as suas ações” (Mt 23, 3), tamanha a insensatez e a imprudência com que agiam aqueles que não arredavam o pé do templo, acreditando piamente, serem bons exemplos a serem seguidos, mas, que, na prática agiam de forma absolutamente contrária ao que ensinavam.

Relativamente ao tempo, ensina-nos o Eclesiastes: “Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito” (Ecl 3, 3). Portanto, é prudente, sensato e sábio compreender e respeitar o tempo e sua dinâmica, sem interferir, por qualquer modo, para acelerar o seu curso, permitindo que todas as coisas, ao final do termo próprio de cada uma, sejam reveladas e produzam os frutos desejados e esperados.

Por que é sábio, sensato e prudente agir assim, em relação ao tempo? porque é assim que o próprio Deus age. Leia-se a Bíblia: “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho, feito da mulher” (Gal 4,4). Ou seja, o próprio Deus esperou calmamente o decurso do tempo para, então, e somente então, enviar o Salvador de todos nós.

Que cada um procure curar sua ansiedade e seu desespero em relação ao tempo, pedindo socorro aos Céus, refletindo sobre o seu proceder e conscientizando-se de que, contra os fenômenos da natureza, o homem não deve investir, seja para prolongar, seja para acelerar, sob pena de arcar com as consequências daí decorrentes, mesmo que recaiam sobre os seus semelhantes como, não raro, acontece.

Este texto, assim como todos os demais até então escritos, pretende abrir espaço para uma profunda reflexão acerca do mal que fazemos a nós mesmos quando, mal compreendendo e até mesmo desrespeitando o dinamismo do tempo, permitimo-nos dominar pela ânsia, pela insensatez e pela imprudência e avançamos contra o seu transcurso, acreditando estarmos agindo bem e sendo bons exemplos quando, na verdade, é totalmente o inverso. Leia, reflita e tire suas conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

fev 04

EDITORIAL DA SEMANA: QUEREM MATAR DEUS

DEUS

“O homem ocidental parece ter tomado seu próprio partido; ele se libertou de Deus, vive sem Deus. A nova regra consiste em esquecer o céu para que o homem seja plenamente livre e autônomo. A nova regra consiste em esquecer o céu para que o homem seja plenamente livre e autônomo.” –

PRONUNCIAR O NOME DE DEUS VIROU MOTIVO DE PIADA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não bastasse a sentença de Friedrich Nietzsche, de que “Deus está morto”, acusando-nos por sua morte, hoje em dia estamos sendo sentenciados e condenados ao silêncio, quanto à pronuncia do Santo Nome. Para muitos, pode parecer um exagero tal afirmação, mas, basta ler os jornais, as revistas ou assistir os telejornais ou os programas especializados na saga política. Em todos eles, sem exceção, existe a chacota, o desprezo e até mesmo o desvio de finalidade em relação aos que, corajosamente, ousam falar que tudo e em tudo  fazem, devem, temem e invocam o nome de Deus.

Falar o nome de Deus tornou-se a senha privilegiada para reclamar de uma fantasiosa ditadura moral ou mesmo de uma trama urdida para fazer do Estado o Cenáculo do Altíssimo, como se dele necessitasse para se fazer presente e atuante. Os que pregam o silêncio sobre o nome de Deus, e de tudo quanto a Ele diz respeito, fazem questão de alardear aos quatro ventos que o Estado é laico, como se fosse suficiente para justificar a maldita sentença a pesar sobre as cabeças e os corações de pessoas que, sinceramente, fazem questão absoluta de atribuir ao Deus do Céu todas as conquistas, as derrotas, os conhecimentos e os aprendizados com os quais são, diariamente, premiados, assim como a Ele dedicar seus mais variados e diversificados projetos de vida, sociais, religiosos e/ou políticos.

Estamos próximos do dia em que o questionamento do personagem Nietzschiano será, também, o nosso: “Procuro Deus! Onde está Deus?... Já lhes direi! Nós o matamos, vocês e eu. Somos todos assassinos!”. E assim seremos comparados, porque estamos sendo coniventes, não com os assassinos, mas com os que desejam, de fato, a morte de Deus. Aqueles para os quais trata-se de sofrida tortura admitir que, acima deles, existe alguém que não é mais sábio, mas, a própria Sabedoria; não é mais poderoso, mas, o próprio Poder. Em meio a esta tortura imposta pelo senhor do orgulho, da prepotência, da ambição e da vaidade, os inimigos de Deus não suportam ouvir o Santo Nome e, em razão desta repelência obstinada, acusam os crentes de estarem misturando alhos com bugalhos, restringindo a “pronúncia maldita” aos púlpitos eclesiais.

Não obstante, diante dos terríveis desastres naturais ou das cenas mais horrendas causadas pela violência dos homens, os inimigos do nome de Deus fazem chegar aos nossos olhos e ouvidos as hordas que, de mãos dadas e, com velas e flores nas mãos, erguem a voz para recitar o não menos famoso “Pai Nosso...”, como que para chamar a atenção para o fato de que o Deus tão falado e tão festejado pouco se importa com sua suposta criatura. No fundo, o que querem é questionar uma fé que, na sua ótica obstinada pelo relativismo e pelo tudopodismo sem regra, não tem mais lugar na sociedade do século XXI que, certamente, a história futura intitulará como o século das trevas.

Chama a atenção as palavras do Cardeal Robert Sarah, para quem “O homem ocidental parece ter tomado seu próprio partido; ele se libertou de Deus, vive sem Deus. A nova regra consiste em esquecer o céu para que o homem seja plenamente livre e autônomo. Mas a morte de Deus provoca o sepultamento do bem, do belo, do amor e da verdade; se a fonte não jorra mais, se esta água se transformou pela lama da indiferença, o homem desmorona”[1].

É lícito ao ser humano a busca pela liberdade e pela autonomia sem, no entanto, pretender se livrar justamente Daquele em cujas mãos estão depositados a vida e o destino final de cada um de nós. Depois de milhões e milhões de anos o homem não conseguiu se livrar desta realidade e, por mais que tente, tudo indica à exaustão, que jamais conseguirá. Então, por que enfrentar a crença, a fé e sua profissão, a fidelidade e o culto aberto e espontâneo a Deus? Por que insistir em bater na mesma tecla, rotulando de forma pejorativa, depreciativa e despreziva os que fazem do nome de Deus a razão de suas vidas e de suas existências?

Estas questões estão muito vivas no nosso dia-a-dia atual, porque determinadas autoridades, até de forma corajosa, decidiram e ousaram pronunciar o nome de Deus diante das câmeras e dos holofotes, rendendo-Lhe graças e louvores publicamente, em atitude pouquíssimas vezes vista pela maioria do povo pobre, simples e humilde que, impreterivelmente, age da mesma forma, apesar de todos os pesares.

Não é bom que se combata os que pronunciam o nome de Deus, seja de forma reservada, no recôndito de suas almas, seja diante das câmeras e dos microfones porque, os mesmos que hoje condenam tal atitude, amanhã, em seus leitos fúnebres, poderão querer ouvir o nome de Deus e, certamente, não encontrarão ninguém para dar-lhes eco aos desejos que, hoje, soam como ordens, já que, em sua devastadora maioria, são tidos, imerecidamente, como formadores de opinião.

Este texto tem por finalidade incentivar todos os crentes e tementes ao Senhor, a pronunciarem Seu Santo Nome sempre e em todo lugar, louvando-O e rendendo-Lhe graças por Sua infinita misericórdia, até para com os que não creem e para com os que repelem ouvir o nome de Deus. “Bem aventurada a Nação que tem o Senhor por seu Deus. O povo que Ele escolheu para sua herança” (Sl 32, 12). Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

[1] SARAH, Robert e DIAT, Nicolas – DEUS OU NADA – São Paulo. 2016 – Fons Sapientiae. 366 páginas.

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