Lisaac

Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

set 14

EDITORIAL DA SEMANA: JESUS E SUA GENTE POBRE E HUMILDE

JESUS E SUA GENTE

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: NO CAMINHO DE CRISTO E DO EVANGELHO –

*Por L. A. de Moura –

Hoje eu vou abordar um tema sobre o qual, talvez, você possa se surpreender ou, quem sabe, achá-lo, simplesmente, fora da moda. Respeito qualquer que seja a sua postura. Mas, acredito ser preciso, como sempre o foi, falar sobre a Teologia e, mais especificamente, sobre a Teologia da Libertação. Você poderia até mesmo objetar que, nos tempos atuais, das redes sociais, da globalização, do imediatismo dos fatos e das notícias em ritmo full time, nunca se passou por período de tamanha liberdade e, consequentemente, libertação.

Bem, não sei se você está compreendendo sobre o que eu quero falar hoje. Mas, tudo bem, vou procurar informá-lo sobre tudo. Não vamos, aqui, neste espaço limitado, ficar discutindo a estupenda evolução tecnológica pela qual tem passado toda a humanidade. Não é esta a meta. O que pretendo trazer para você é uma ínfima parte daquilo que convencionou-se denominar como “Teologia da Libertação” a partir de Jesus Cristo e do seu Evangelho. É disto que se trata.

Para iniciar a conversa, e sempre evitando me alongar em demasia, devo destacar nomes de teólogos como o do peruano Gustavo Gutierrez, do suíço Huns Küng e do brasileiro Leonardo Boff, que estão entre os pioneiros de uma visão teológica que, entre os fins da década de 1960 até meados da de 1980, do século passado, abalaram grandes estruturas da Igreja de Roma, resultando em severas punições para, inclusive, o brasileiro.

Os mais antigos devem se recordar de tais episódios. Os mais jovens, por óbvio, não vivenciaram aqueles tempos bastante difíceis. Por esta razão, é recomendável que pesquisem acerca do tema e da história, caso tenham algum interesse.

Deixando conceituações e formulações teológico-filosóficas de lado, vamos direto ao assunto: a Teologia da Libertação, além de significar um grito de permanente alerta à Igreja Cristã trata, também, e em síntese, de aplicar no chão da terra os ensinamentos e os exemplos de Jesus, por muitos denominados como “o Jesus histórico”, ou seja, aquele Jesus sobre o qual o cristianismo se encarregou de acumular dados e fatos que envolveram a sua rápida passagem por este mundo.

É importante destacar que Jesus pode ser visto, e assim o é por muitos cristãos e muitas cristãs, apenas como o da fé, ou seja, aquele homem absolutamente santo, Filho do Altíssimo, alto, bonito, com vestes limpas e bem alinhadas, Mestre judeu das Sagradas Escrituras, que ensinava a verdade, elencava os pecados a que estão sujeitos todos os mortais, condenava os ricos e mostrava o inevitável caminho do Hades, o fogo da geena, para os pecadores não redimidos. Este mesmo Jesus não hesitava em passar noites inteiras em profundos diálogos com o Pai; praticava o jejum, curava cegos, surdos, mudos e enfermos, ressuscitava mortos, perdoava os pecados, mas, alertava os pecadores para não mais pecarem e, por fim, vítima exemplarmente obediente, caminhou sob chibatas até o calvário, onde encontrou a morte na cruz. Um Jesus, enfim, fatídico!

Um outro Jesus, tão amado quanto o primeiro, é aquele que alguns julgam ter passado a juventude entre os Essênios, estudando as Sagradas Escrituras e as estruturas do judaísmo. Um Jesus absolutamente pobre. Mal vestido, mal calçado, morando mal e comendo mal, junto com todos os pobres do seu tempo. Este Jesus, sob este prisma, é complacente com a gente pobre e sofrida que o cerca. Senta-se em meio a todos eles, sem se preocupar se são, ou não, pecadores, cobradores de impostos ou prostitutas. A Ele não interessa saber se aquela gente simples e humilde tem, ou não, uma religião: apenas ensina o respeito à casa do Pai e o caminho do Reino. Para Ele não importa se o homem deve comer carne ou peixe, se deve beber água ou vinho. Ele procura estar sempre com o seu povo, com a sua gente. E, vivendo e convivendo desta forma, Ele vê diante dos olhos a pobreza absoluta, a falta de tudo, a doença, a injustiça, a privação dos órgãos essenciais aos sentidos. Ele sente na própria pele, como se fosse com ele mesmo, a exploração do povo, a perseguição à qual estavam sujeitos, a exclusão social dos leprosos. Ele sofre. Ele chora com os amigos e familiares do amigo Lázaro, que jaz no túmulo.

Este mesmo Jesus, não suportando assistir calado a tantos horrores pelos quais seus amigos, irmãos, vizinhos e conterrâneos estavam sendo massacrados, sobe ao monte e clama as bem-aventuranças; não se conformando com o egoísmo, Ele leva a multidão a repartir pães e peixes; com piedade de Pedro e de seus amigos, Ele possibilita a pesca milagrosa. Para mostrar o poder e a necessidade da transformação dos seres humanos, Ele faz a água se transformar em vinho de primeira qualidade, demonstrando que o último estágio pode ser muito superior ao primeiro. Querendo revelar que nós podemos fazer muito mais do que aparentamos ou acreditamos, Ele afirma, e comprova por meio de Pedro que, quem tiver fé, caminhará sobre as águas; se observar seus ensinamentos, fará as mesmas obras que Ele, e outras ainda maiores, sem qualquer forma ou resquício de exclusivismo. Ele ensina que o Pai ama todos os seus filhos e filhas e que, ao final, quer mesmo é justiça para todos.

Enfim, um Jesus popular, um homem nascido, crescido, vivido e experimentado em meio ao seu sofrido povo, dos quais nunca se afastou.

Jesus era um leigo que, conhecedor da vontade de Deus, declara-se como sendo o próprio caminho, a verdade e a vida. Não satisfeito, chama a si todos os cansados, aflitos e oprimidos, prometendo que a todos aliviará dos seus fardos e pesos. Um pregador que não tinha igreja, frequentava a Sinagoga (casa de oração) e, com a mesma desenvoltura, foi ao Templo de Jerusalém.

Admirado com a fé de Pedro, Ele afirma ser sobre aquela fé, forte como uma rocha, que pretende ver construída a sua Igreja – uma verdadeira assembleia de filhos e filhas de Deus, vivendo e convivendo em absoluta comunhão. Neste sentido Ele, de antemão, assegura que, onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ali, também, estará Ele. Na proximidade da sua condenação, Ele declara: “não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18).

É este Jesus que, preferindo não desafiar Roma, manda pagar o imposto devido a César, não, sem antes, deixar claro que o que pertence a Deus, deve ser dado a Deus. Um Jesus que olha para o sábado, dia sagrado para os religiosos da época, e afirma que este dia foi feito para o homem, e não, o contrário. Um Jesus, enfim, intrigante!

Pois foi justamente olhando para este Jesus, que os chamados teólogos da libertação, ao confrontarem épocas e contextos, além de fazerem certas comparações entre o judaísmo do tempo de Jesus e certos setores do cristianismo contemporâneo, compreenderam ter chegado o tempo de, realmente, conclamar toda a Igreja Cristã a se comprometer de fato e com coragem com a causa do pobre, do oprimido e do injustiçado e a promover a verdadeira imitação de Cristo, postando-se ao lado da gente pobre, sofrida, perseguida, injustiçada, humilhada, explorada, combatida e excluída. Gente da mesma estirpe daquela que convivia com o Mestre de Nazaré. Mesmo estando muitos séculos distantes de Jesus, os teólogos da libertação viveram seus momentos de calvário. Alguns foram crucificados pelas canetas que assinaram suas sentenças de condenação. Outros, de fato, perderam suas vidas ao defenderem sua gente e seus povos, sem se importarem se eram índios, brancos, negros, mulheres, homossexuais,  prostitutas, camponeses ou operários da urbe. Era imperioso viver, na prática do chão da terra e da fábrica, o Evangelho libertador trazido por Jesus sem, jamais, esquecer ou desconsiderar a plenitude da vida eterna, da vida em abundância prometida pelo Jesus da fé.

Muitos homens e mulheres nascidos e criados no seio da Igreja, obcecados com a ideia de entrarem no Reino de Deus por seus próprios méritos, criticando e condenando irmãos e irmãs que adotam outras posturas, condenaram, e ainda condenam, a Teologia da Libertação enxergando nela um simulacro do marxismo ou do comunismo trotskiano. Com esta visão, e pintados na cor branca por fora, muitos cristãos católicos, inclusive, apontaram o dedo contra a Teologia da Libertação e dos seus defensores, tachando-os, simplesmente, de revolucionários comunistas, desobedientes da Igreja, maus exemplos e coisas do gênero, preferindo o silêncio complacente à fala indignada em defesa da gente pobre, sofrida, injustiçada e humilhada de todas as formas.

Talvez, estes cristãos e cristãs, de tão obcecados, tenham esquecido de algumas das palavras mais importantes ditas por Jesus como, por exemplo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais e iniquidade” (Mt 7, 22-23). Talvez, ainda, estes cristãos e cristãs terão mesmo necessidade de ouvir esta sentença a ser proferida pela boca do próprio Jesus, para poderem compreender que a vontade do Pai e do Filho é que todos os homens sejam tratados com justiça, nem mais e nem menos. Deus não combate a riqueza. Os Patriarcas, no Velho Testamento, eram todos muito ricos e abençoados por Deus, porque eram fiéis e, também, comprometidos com a justiça. No entanto, com a chegada da monarquia, com seus luxos, com suas trapaças, mentiras, idolatrias, corrupções, luxúrias, explorações, humilhações, perseguições, políticas belicistas e mortes, Deus envia profetas altamente indignados como Isaías e Amós, por exemplo, para gritarem contra esta afronta feita ao povo e ao Criador e para clamarem por justiça ao órfão e à viúva.

Quem olha para o mundo de hoje, para o Brasil, inclusive, e acha que está tudo bem, tudo do jeito que só poderia estar; que o pobre nasceu assim, e que assim viverá até morrer; quem acredita que o capitalismo, selvagem como é, é o sistema abençoado e abençoante dos ricos, e que os pobres devem lutar para superar suas dificuldades do dia-a-dia, comendo quando for possível, sem que nada seja feito, não pode se autointitular seguidor de Jesus. Simplesmente porque Jesus não era, não vivia e não agia assim. Quem poderá imitar alguém que não era do jeito que está sendo imitado? Jesus bradou em alto e bom som contra a opressão do seu tempo; Jesus teve coragem para enfrentar, não o império romano propriamente, mas, e, sobretudo, o judaísmo farisaico daquele tempo. Um sistema religioso estruturado, hierarquizado, convicto de que era o senhor absoluto e o guardião da verdade e das bençãos de Deus. Um sistema conivente com o Império, em troca de bem-estar, de conforto, de manutenção dos seus feudos religiosos e, quem sabe, de isenção de impostos.

Quem olha para o Brasil de hoje, e percebe que os povos indígenas estão sendo massacrados, largados à própria sorte; percebe que o campo está inflamado pela política armamentista; que os cárceres estão apinhados de seres humanos que, a cada dia, ganham formas mais e mais monstruosas; que vê direitos trabalhistas, como o simples pagamento do salário, serem aviltados; quem a tudo isto vê, e acredita que está tudo normal, carrega dentro si algum espírito absolutamente desumano, animalesco mesmo. Quem vê o que está sendo feito com as nossas matas e florestas, com os nossos rios e nascentes, com grandes companhias faturando bilhões em cima do fornecimento de uma água de qualidade altamente duvidosa; um saneamento básico que, de básico, não tem nada. Quem a tudo isto vê e mantém-se inerte e em silêncio, não pode acreditar que entrará no Reino de Deus, preparado apenas e tão somente para os pobres e para os justos.

Quem assiste um ministro preocupado, descabelado com a disparada do dólar, com a situação da bolsa de valores e da economia, sem qualquer preocupação com os trabalhadores e com as trabalhadoras do país que, de fato e de direito, são os verdadeiros produtores de toda a riqueza; quem vê este sujeito agindo desta forma, sem demonstrar qualquer preocupação ou mesmo sem propor qualquer política voltada para o emprego, para uma correção justa dos salários, para uma efetiva justiça social, para a saúde ou para a educação das massas, não pode acreditar, sinceramente, ser esta a vontade de Jesus. Neste cenário, deveriam sentir-se envergonhados de se autoproclamarem cristãos, seguidores de Jesus. Seguidores de um Jesus que, simplesmente, desconhecem totalmente, apenas, ouviram falar.

Cinco anos após a publicação, pelo Papa Francisco, da Carta Encíclica Laudato Sí' e trinta dias após o falecimento de Dom Pedro Casaldáliga, a Teologia da Libertação, assim como seus árduos defensores, não pode perder a sua pujança. Pelo contrário, precisamos alimentá-la cada vez mais, como o cozinheiro alimenta o fogão com a lenha seca, a fim de que o fogo do Espírito permaneça sempre aceso em nossos corações. Não podemos assistir calados, omissos e coniventes a tudo o que se passa ao nosso redor, simplesmente, indo à igreja ou ao templo nos dias determinados, depositando um dinheirinho da sacolinha do padre ou do pastor, sob pena de, naquele dia, ouvirmos um sonoro: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim todos vós que praticais a iniquidade.

Esta é apenas uma pequena parte acerca da Teologia da Libertação, suas preocupações, seus olhares e seus objetivos. Acredito que você, se ainda não refletiu profundamente, deverá fazê-lo a partir de agora. Se ainda não compreendeu que o Papa Francisco está aí para abraçar o Evangelho e o modo de viver ensinado, e de conviver adotado, por Jesus, procure se enquadrar enquanto é tempo, pois, a vida é fluida e, quando menos esperamos, eis que é chegada a hora da última travessia. Você poderá até fazer a travessia em um vagão forrado com ouro, porém, nunca se sabe de que forma chegará do outro lado, até porque o seu vagão fica aqui, encaixado numa estreita vaga de concreto. Pense sobre tudo isto e avalie se está imitando o Jesus verdadeiro ou aquele que pintaram para você ou que você mesmo(a) decidiu pintar para si. Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

set 07

EDITORIAL SEMANAL: A ÉTICA COMO VIRTUDE

SÓCRATES -2020

SOMOS ÉTICOS POR CONVICÇÃO OU POR CAUSA DA COERÇÃO LEGAL OU SOCIAL –

*Por L. A. de Moura –

O tema que hoje apresentas para o nosso costumeiro debate, é por demais instigante, haja vista estar entranhado no cotidiano de todas as pessoas, diríamos, de bem: a ética. E, como sempre, mantendo o teu estilo provocativo, questionas se pretendemos elevar a ética em decorrência de uma convicção própria, ou se, por outro lado, fazemo-lo em razão de certa “coerção” advinda da sociedade, de forma contratual ou mesmo legal. Eu me assusto com este teu estilo. Falo assim, porque, certamente, não encontraremos muito eco diante daqueles que, porventura, venham tomar conhecimento deste nosso diálogo.

No entanto, confiando na nossa capacidade para deslizar por entre as linhas e as entrelinhas, sem causar maiores incidentes, vamos em frente. Na tua opinião, da qual não ouso discordar, é razoável comparar o que é ético com o que é, também, justo, uma vez que uma coisa não sobrevive dissociada da outra. Partindo desta hipótese, pensas que tal como ocorre com a justiça, a prática da ética decorre muito mais de uma imposição vinda do exterior, do que, propriamente, do interior dos seres humanos. Em outras palavras: a teu juízo, o indivíduo só procura ser ético diante do público quando, em segredo, no silêncio da sua alma e, caso eventualmente consultado por si mesmo, manifestaria outro desejo de ser, de viver e de agir.

Destas tuas conclusões, penso ser coerente a dúvida inicial: o indivíduo é ético por convicção ou por coerção? Haveria, por assim dizer, um caminho do meio, no qual um intrépido qualquer pudesse esconder suas verdadeiras características, sem cair diante de um lado ou de outro do abismo? Penso que não!

É claro que não podemos, aqui, neste espaço bastante limitado, pretender efetuar uma exploração sobre a conduta humana no decorrer de toda a história da civilização, sob pena de descermos às profundezas das origens, sem fôlego para o imediato retorno. Desta forma, buscando amparo na análise sobre o humano do nosso tempo que, certamente, é o mesmo de sempre, poderemos encontrar evidentes semelhanças entre os mais diversos exemplares, haja vista pertencermos, todos, à mesma espécie.

Bem, no tempo atual, parece não existirem dúvidas quanto ao fato de que a força dos atos e das opiniões que praticamos ou que externamos, encontra forte balizamento no que a chamada “maioria” pratica ou declara pensar. Assim, praticamos as ações que, segundo a “maioria” dos nossos congêneres, são as mais corretas, as mais justas, as mais equilibradas, as mais coerentes e as mais virtuosas. Na mesma direção, as opiniões que externamos. Devem, para não serem cruelmente apedrejadas, estar em absoluta conformidade com a opinião dos que, inclusive, são denominados “formadores de opinião”. Com um pouco de reflexão, parece não haver muita dúvida quanto a isto.

Ora, se pudermos assumir como verdadeiras as proposições acima, então chegaremos facilmente à conclusão de que os seres humanos contemporâneos agem muito mais, movidos pelo que lhes é imposto pela sociedade, que se fecha em copas, do que propriamente pela sua genuína natureza. Donde podermos afirmar, então, que os indivíduos falam sobre a ética, defendendo-a com unhas e dentes, apenas, e, tão somente, diante das câmeras ou dos inúmeros olhares que lhes são dirigidos por uma plateia ávida por ouvir, justamente, aquilo que se espera que seja dito, até porque, é o reflexo de determinado pensamento dominante. Fora destas circunstâncias e destes contextos, tais indivíduos tendem a conflitar com seus próprios pendores internos.

Seria o caso, e até bastante oportuno, de recordar o famoso exemplo do pastor de ovelhas chamado Giges, usado por Platão, na sua “A República”. Para quem não conhece o caso, aqui vai uma palhinha bem resumida, a partir do diálogo entre Gláucon e Sócrates, quando o primeiro apresenta Giges como um sujeito cumpridor dos seus deveres, mas que, em razão de circunstâncias climáticas, encontra, no corpo de um cadáver, um anel de ouro. Dada a localização do cadáver (é bom ler no original), Giges apodera-se do anel e, em pouco tempo, descobre que ao movimentar a parte superior do anel na direção da palma da sua mão, torna-se invisível para as demais pessoas. Voltando o anel à posição inicial, volta a ser visto por qualquer um. Ora, Giges rapidamente torna-se um sujeito perigoso, uma vez que, possuidor de tais poderes, é capaz de, na invisibilidade agora possível, praticar os atos mais absurdos que se possa imaginar. Sugiro que os leitores leiam a história na íntegra (Segundo Livro de A República – Platão). Para o leitor atento da historinha de Giges, o próprio fato de apoderar-se do anel, em um ambiente fora da vista das pessoas, já soa como algo bastante sugestivo acerca da real personalidade do pastor de ovelhas que, naquele justo momento, encontrava-se a sós com o cadáver, longe de olhares outros.

Imaginem os leitores e as leitoras, por exemplo, o caso de dois estudantes que decidam efetuar matrícula em mesma instituição universitária, sendo que, em dado momento, um deles, sejam lá quais forem as suas razões, decide não mais caminhar junto com o outro, desistindo do ingresso no campus universitário. Obviamente, cada um segue o caminho que se lhe afigura como o melhor. No entanto, o que desistiu de seguir a caminhada universitária, pede ao outro para, na medida em que o curso for evoluindo, vá passando para ele todas as apostilas que recebe da instituição, pelo simples fato de estar regularmente matriculado. Assume, diante do amigo, o interesse em aprender tudo o que puder sobre aquela cadeira, apenas, e, tão somente, não querendo assumir compromissos com o estudo regular nem com as regras impostas pela instituição.

O caso pode parecer estranho ao tema aqui desenvolvido. No entanto, é preciso olhar com um pouco mais de atenção para podermos enxergar a quebra da ética, principalmente, por parte do estudante regularmente matriculado, caso resolva atender o pedido feito pelo amigo. É que, parece bastante claro que, no caso, só tem direito de receber as tais apostilas, aquele que está inscrito naquela instituição para cursar aquela disciplina específica. Para tanto, a instituição cobra um determinado valor mensal, e o estudante paga com a devida regularidade. Enquanto o outro, por ter desistido de frequentar o mesmo curso, ficou isento de efetuar qualquer pagamento àquela instituição ficando, também, sem direito de receber dela, de forma direta ou indireta, qualquer material didático.

Ora, para os que ainda possam guardar alguma insegurança relativamente ao fato, basta perguntar-se a si próprio se, no caso, o estudante que resolvesse atender aos clamores do amigo, seria bem avaliado, e até mesmo aplaudido pela direção da Universidade se, em dado momento, toda a trama viesse a público. Será que o gesto de amizade, passando por cima dos autores do projeto de estudo dirigido, desconsiderando todo o trabalho de pesquisa, além do custo do material utilizado e da força de trabalho despendida, seria visto com bons olhos pelo Reitor da Universidade ou pelo Diretor daquela disciplina? Pode ser que não!

Trata-se de um exemplo muito simples. Bastante simples, mas, que, ocorre com muita frequência no mundo acadêmico. Ora, mas isto não é nada grave, poderiam objetar os leitores e as leitoras. Parece não ser grave mesmo. No entanto, quem é capaz de praticar um ato minimamente antiético, de posse de uma justificativa até plausível, será capaz de praticar muitos outros, para os quais, certamente, encontrará as justificativas cabíveis e, possivelmente, admissíveis, desde que – e isto é importante – não sejam atingidos interesses maiores, caso venha a ser descoberto.

Portanto, exemplos não faltam no dia-a-dia das nossas vidas. É preciso, e até certo ponto útil, que cada um de nós faça uma avaliação rigorosa diante de cada ato a ser praticado, para saber se está agindo por força da coerção ou de uma sólida convicção própria. Agiria desta forma, independentemente da publicidade do ato, ou, por outro lado, diante da plateia, tomaria outro rumo?

Há a alguns anos eu adquiri, pela internet, um programa nutricional, seguido de um livro de receitas de culinária, elaborados por uma equipe cujo chefe era um médico gastroenterologista, com foco em pessoas portadoras de diabetes. Adquirir, aqui, significa, comprar mesmo. Comprar e pagar. Bem, seria natural que, comprando e pagando, eu me entendesse como “dono” daquele material, podendo repassá-lo para qualquer outra pessoa das minhas relações. Até mesmo para ajudar alguém a se alimentar de forma mais adequada. Muito justo, diriam alguns. No entanto, no ato da compra, tive que declarar estar ciente de que, qualquer forma de transferência daquele material, no qual vinham estampados o meu nome e o número do meu CPF, constituiria fraude, em razão do direito da autoria, do qual o médico assinante é detentor. Não bastasse a referida adesão ao compromisso, assim como a minha identificação para fins fiscais, verifiquei, posteriormente que, qualquer simples cópia, exibia, também, o endereço eletrônico do médico, na forma de marca d’água, significando que, mesmo que eu quisesse burlar o compromisso assumido, estaria muito claro para qualquer pessoa, que aquele era um material cujo autor deve ser respeitado. Valendo dizer: quem quiser adquiri-lo, deve comprá-lo!

Quer um outro exemplo prático? A Folha de São Paulo até permite que sejam feitas cópias das matérias que publica. No entanto, o copiador, ao teclar o Ctrl+v, recebe apenas o endereço eletrônico da referida página do jornal que, por sua vez, só pode ser acessado por assinantes. O que isto significa? Significa que, se eu, que sou assinante, enviar cópia do endereço eletrônico para uma pessoa que não o seja, ela não conseguirá o acesso desejado. E por quê? Seria de se perguntar: por se tratar de material de cunho comercial, que possui valor econômico para quem o produz. Desta forma, se qualquer pessoa pudesse obter acesso àquele material, a empresa iria à falência.

Observem que, em ambos os exemplos, a "ética", aqui, ocorre em função das precauções tomadas pelas respectivas instituições, o que parece não ocorrer no caso do estudante cujo amigo pediu cópia do material disponibilizado somente para os regularmente matriculados naquela disciplina específica. Portanto, neste último caso, é possível que o nosso prezado estudante mandaria a ética às favas e, para agradar ao amigo, cederia facilmente todo o material solicitado. Tiraria, também, se fossem pedidas, fotos das professoras mais sensuais, assim como das estudantes mais bonitas etc., sem qualquer constrangimento. Tudo isto porque, para ele, ética tem a ver com a liberdade de agir, e esta, não encontra limites a não ser na lei e na punição.

O grande problema, é que o ser humano não se esmera em ser honesto, em respeitar o direito alheio. Pelo contrário, procura sempre esmerar-se em superar quaisquer obstáculos relativos à ética, de modo que, da forma mais discreta, e secreta, possível, possa invadir o espaço do outro sem ser descoberto e sem, evidentemente, perder a auréola de “pessoa ética”.

Finalizando este nosso colóquio, julgo ser necessário dizer que precisamos inverter esta lógica, porque ela tem destruído uma das coisas mais importantes da vida de todos nós: a confiança mútua. Precisamos acreditar que nossas relações, sejam comerciais ou não, carecem do sentimento, e da própria convicção, da justeza, do equilíbrio e da equidade. É, pois, possível, uma melhor convivência. Só depende de todos e de cada um de nós.

Em razão do meu atual momento acadêmico, penso ser importante discriminar aqui o Óctuplo do Nobre Caminho, extraído do Dhammapada, que traz as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda, para a superação e a libertação da dor e do sofrimento: a) a reta compreensão; b) o reto pensamento; c) a reta palavra; d) a reta ação; e) o reto modo de vida; f) o reto esforço; g) a reta atenção; h) a reta concentração.

O sentido de “reto”, aqui, é o daquilo que é “justo”. Portanto, precisamos conhecer e, ao mesmo tempo, praticar, estas virtudes, para podermos disseminar o caminho do bem que tanto almejamos para as nossas vidas, assim como para as de todos os nossos semelhantes. A pergunta não é: É possível ter um mundo melhor? Mas, sim: Eu consigo ser melhor do que sou para encontrar um lugar no mundo que almejo como melhor? Porque, se a resposta a esta segunda pergunta for afirmativa, a primeira questão estará, igualmente, resolvida.

Espero que tenhas ficado satisfeito com estas minhas ponderações e que os nossos leitores e leitoras possam, também, tirar algum proveito de tudo isto, apesar de, como sempre, reafirmar que tudo não passa de opiniões e de convicções de natureza pessoal, frutos da vivência e da própria experiência de vida. Que cada um faça as suas íntimas e saudáveis reflexões e que, a partir daí, possa tirar as conclusões capazes de mudar caminhos e caminhadas, oferecendo exemplos e opções para outros caminhantes. Seja feliz, e boa sorte!

_____________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 31

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO DESISTA DA PERMANENTE BUSCA PELA SABEDORIA

A BUSCA PELO SABER

A BUSCA PELO CONHECIMENTO E PELA SABEDORIA EXIGE NEUTRALIDADE E IMPARCIALIDADE –

*Por L. A. de Moura –

Hoje você traz um assunto formidável para que, sobre ele, possamos abrir algumas portas que, no final de todas as contas, serão convertidas em acesso para o livre pesquisador, estudioso e pensador poderem adentrar no fantástico mundo do conhecimento.

Sem muita complacência para com este escriba, você questiona, de início, a motivação de certas pessoas para, em decorrência das crenças, religiosas ou não, afastarem-se dos diversos campos do conhecimento. Segundo seus argumentos, muitas pessoas preferem acorrentar-se à ignorância, para manter suas convicções, a lançarem-se livremente no universo do saber, da busca pelo conhecimento, em todos os níveis possíveis, e da própria verdade sobre todas as coisas. E, ainda, de acordo com a sua tese, crenças e convicções ortodoxas funcionam como verdadeiros muros de concreto, a impedirem o avanço de boa parte da humanidade que, para piorar ainda mais o cenário, prefere desacreditar os buscadores de novos caminhos e de novos conhecimentos, a dar-lhes seguimento e subsídios em seus trabalhos.

Para você, conforme posso deduzir pela sua indignação, trata-se de situação aviltante à qual o ser humano, em escala crescente e progressiva, está estacionado, proporcionando um endurecimento absurdo da alma, alimentando o egoísmo e a prepotência e impedindo a própria evolução espiritual, tão necessária para a vida pós-túmulo.

Como tem feito ultimamente, você passa para mim a árdua tarefa de tomar uma posição diante do tema, acreditando que, talvez, eu consiga encontrar uma porta de saída para impasse de tal magnitude. Não tenho tal pretensão. No entanto, algumas palavras posso acrescentar ao seu repertório de observações e de conclusões.

Veja, é fato concreto, e neste sentido você está coberto de razão, que uma parte significativa da humanidade vive, atualmente, entre a cruz da ignorância e a espada das próprias convicções. Pregada na cruz da ignorância, esta larga parcela de seres humanos, com pregos cravados no próprio cérebro, não consegue, sequer, imaginar a possibilidade de sair livre da condenação. Ao mesmo tempo que, com a espada das crenças e das convicções apontada para a jugular, esta mesma parcela é incapaz de ousar qualquer movimento na direção do vértice, ou seja, na direção do Conhecimento e da Verdade. Deste modo, temos aquilo do que somos testemunhas oculares.

Bem, você poderia então, e de uma forma bastante legítima, perguntar: o que dizer deste cenário caótico? Como sair deste impasse? É certo que, quase sempre, temos respostas prontas para muitas coisas. Porém, para outro tanto de questões não as temos, assim, de imediato.

Não posso deixar de admitir que esta tem sido uma das questões que mais ocupam a minha mente de pensador, procurando compreender a falta de interesse e, podemos mesmo dizer, de vontade, das pessoas para buscarem de modo constante o aperfeiçoamento do conhecimento e da sabedoria. No afã de encontrar respostas minimamente aceitáveis e, ao mesmo tempo, eficientes, venho meditando sobre tudo isto há muito tempo. Não encontrei nada de muito satisfatório. Ainda assim, consegui contabilizar algumas possibilidades que, caso adotadas possam, talvez, alterar este estado, como você afirma, “caótico”.

No mundo das ideias, que é basicamente o nosso, crenças e convicções chegam até nós por meio de dados, informações, pregações e certezas trazidas por pessoas e/ou instituições que, para tanto, valem-se de diversos instrumentos – livros, vídeos, textos antigos ou recentes, interpretações de códigos, de leis, de manuais e de ensinamentos muito antigos, doutrinas e dogmas – que surgem, justamente, com o objetivo de criar em cada um de nós uma espécie de carcaça, presumidamente protetora contra as chamadas intempéries da vida. Para os que trazem tudo isto para nós, é imperativo que acolhamos tudo com bastante aguerrimento, certeza e fidelidade, de nada abrindo mão, ou por nada substituindo, para que estejamos, digamos, sempre protegidos contra os falsos mestres e, por fim, contra a caminhada rumo a todo um mundo de fenômenos, de conhecimentos e de saberes ainda desconhecidos pela maioria de nós, mal explicados ou mesmo mal esclarecidos.

Ora, uma das grandes virtudes que o ser humano pode ostentar, quando possui, é a do discernimento. É saber distinguir uma coisa da outra com a maior exatidão e perfeição possíveis. Esta virtude faz parte do cabedal de sabedoria que o ser humano deve almejar e que deve, portanto, lutar diuturnamente para alcançar. O Apóstolo Tiago, na sua Epístola às doze tribos, afirma que: “Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á concedida. Mas peça-a com fé, sem nada hesitar, porque aquele que hesita é semelhante à onda do mar, que é agitada e levada de uma parte para a outra pelo vento.” (Tg 1, 5-6). Assim, é de suma importância que o ser humano seja virtuoso na arte de discernir entre o bem e o mal, entre o falso e o verdadeiro, entre o certo e o errado e, por fim, entre todos os dualismos existentes e conhecidos.

Portador da virtude do discernimento, tal qual o homem que, amarrado ao mastro do navio, pode ir à ilha das sereias, sem ser capturado e devorado, o ser humano pode, e deve, caminhar, sempre, em busca de novos conhecimentos acerca de tudo o que o cerca, sem medo e sem titubear, ou seja, sem hesitar, conforme exorta o Apóstolo na carta acima mencionada.

Em outras e conclusivas palavras: aquele que sai em busca do conhecimento e da sabedoria deve portar-se de forma absolutamente neutra e imparcial, de modo a impedir que pré-conceitos possam servir como obstáculos para o crescimento, humano e espiritual. Dotado com a virtude do discernimento, o ser humano sempre reconhecerá a verdadeira sabedoria, assim como o sábio e correto ensinamento, deixando de ser escravo das verdades e dos ensinamentos prontos que, normalmente, são-lhe entregues por mestres que nem sempre acreditam ou praticam o que pregam e ensinam.

O contexto no qual estamos inseridos atualmente exige, diante dos inúmeros fatos por todos presenciados e testemunhados, que desçamos da cruz da ignorância e que nos afastemos da espada das convicções que, de certa forma, nos foram impostas de cima para baixo, para irmos em busca de conhecimentos mais sólidos e mais profundos, ainda que para, apenas, confirmar o que já sabemos de antemão. É necessário que, de forma neutra e imparcial, possamos nos lançar no mar em busca de outros peixes. Neste sentido, gosto sempre de recordar a perícope do Evangelho de Lucas, quando Jesus ordena a Pedro para ir mais adiante, no mar, para lançar suas redes. Ora, Pedro havia passado a noite toda ali, naquele mesmo mar, lançando as suas redes, sem nenhum sucesso. Nada de peixes! Ele fala isso com Jesus sem, no entanto, deixar de acrescentar: “Mestre, tendo trabalhado toda a noite, não apanhamos nada; porém, em respeito à tua palavra, lançarei a rede.” (Lc 5, 1-9). Pedro, um velho e exímio pescador, conhecedor das artimanhas do mar, cheio de sabedoria e de convicções, ouve a voz Daquele que nunca tinha fisgado um único peixe na vida. Abre-se para o próximo, abre-se para o conhecimento do outro. Leia o capítulo indicado acima e veja o que aconteceu com a superação das velhas e impactantes convicções do velho pescador.

Não fomos criados para vivermos na limitação. O Criador espera que cresçamos na fé, no Conhecimento e na Sabedoria. E, já que citei Jesus, volto a Ele para recordar suas sábias palavras, ao afirmar que: “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Observe que o Mestre de Nazaré não se contenta com o fazermos as mesmas obras que Ele fez, mas, sugere que façamos “outras ainda maiores”. Portanto, não devemos permanecer amarrados ao mastro do navio quando ao nosso redor, sequer, inexistem sereias devoradoras. Não devemos ter medo do conhecimento e da sabedoria. Ao contrário, devemos ir ao seu encontro a fim de crescermos, principalmente, no âmbito espiritual que, no fundo, deveria ser o nosso único interesse nesta vida e neste mundo.

Por último, para reforçar minha concordância com a sua legítima preocupação, quero citar, ainda, a parábola dos talentos, contada por Jesus, mas que, aqui, vou resumir: um homem que estava para sair em viagem pelo exterior, chamou seus três empregados e entregou-lhes parte da sua fortuna. Ao primeiro entregou cinco talentos; ao segundo, dois talentos e, ao terceiro, um talento. O homem que recebeu cinco talentos, investiu tudo aquilo e, ao final, dobrou o capital do patrão; o segundo empregado fez o mesmo e obteve o mesmo resultado, colheu o dobro do que investiu. O terceiro empregado, porém, com medo do que pudesse acontecer, e sabendo que o patrão era homem bastante rigoroso e severo, preferiu cavar um buraco no chão e enterrar o único talento que recebera. Quando o patrão retornou da viagem e pediu a prestação de contas do dinheiro entregue aos três empregados, cobriu os dois primeiros de elogios e reprovou a atitude, e o medo, do terceiro empregado, chamando-o de “servo mau e preguiçoso”, determinando que fosse-lhe retirado tudo o que estava sob a sua administração (Mt 25, 14-30).

Portanto, aquilo que recebemos das mãos do Senhor, devemos investir, de modo a multiplicar tudo o que nos foi confiado, inclusive, e, principalmente, o conhecimento e a sabedoria, sob pena de, em algum momento da nossa trajetória, sermos por Ele tachados de “servos maus e preguiçosos”, vindo a perder até mesmo o pouco que havíamos recebido anteriormente. Munido com a virtude do discernimento, lança-te na caça por mais e mais conhecimento; atira-te na busca por mais saber; adentra no mar do crescimento espiritual e lança as tuas redes. Abandona o medo e a covardia, símbolos máximos da falta de fé, de coragem e de fidelidade e prova inequívoca de falta de respeito para com a palavra do Mestre maior, Jesus, a quem o pescador Simão Pedro não ousou desobedecer ou mesmo desconfiar do seu saber, apesar de ainda não conhecê-Lo tão perfeitamente como viria a fazê-lo bem mais tarde. Liberta-te da cruz e da espada que te impedem de prosperar espiritualmente. Foge da sombra do conhecimento e do saber servidos, prontos e acabados, na bandeja dos sábios de plantão que, quase sempre, estão por trás de escândalos financeiros, sexuais e morais.

Desta forma, meu amigo de caminhada, espero ter acrescentado algo mais à sua já tão expandida sabedoria. Você, certamente, dotado de saber e de discernimento que é, saberá agregar o que for bom e útil e, ao mesmo tempo, desvencilhar-se do que for inútil, desnecessário ou redundante.

Que nossos leitores e nossas leitoras compreendam bem o nosso propósito e que, munidos do espírito da imparcialidade, da neutralidade, da boa vontade e da virtude do discernimento, possam fazer bom proveito deste texto que, como sempre gostamos de destacar, não é verdade pronta e acabada para ninguém, nem para nós mesmos. É apenas um ponto de partida. Um ponto que dá acesso a inúmeros outros pontos. Sejam felizes, e que gozem da boa sorte!

______________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 24

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM É VOCÊ DE VERDADE?

QUEM SOU EU

O QUE DIZER, QUANDO ALGUÉM DESEJA SABER QUEM SOU EU –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente algumas questões bastante interessantes têm percorrido o nosso diálogo semanal. São questões que, na maioria das vezes, você traz para que eu possa, após ouvir as suas ponderações, emitir algumas opiniões, independentemente de estarem, ou não, em conformidade com o seu pensamento. De fato, você tem me instigado, diria mesmo, provocado, a refletir sobre temas do nosso cotidiano. Temas que, realmente, estão na pauta das nossas relações diárias e pelos quais passamos, muitas vezes, sem nos darmos conta da importância que possuem para o nosso progresso, enquanto seres humanos. Desde o início, gostei da sugestão e aprovei os critérios para que, a partir destas trocas de experiências, pudéssemos levar aos leitores e às leitoras alguns subsídios favoráveis, e até mesmo incentivadores, para regulares reflexões.

Hoje você apresenta algo inusitado para refletirmos durante a nossa já costumeira caminhada. Trata-se da forma como eu, você e cada um de nós, devemos nos apresentar para as pessoas que, de algum modo, demonstram interesse em conhecer quem, de fato, nós somos. Inicialmente, você afirma que seria lógico que, ao me apresentar para a outra pessoa, eu expusesse minhas características físicas. Ora, estas características, isso me parece óbvio demais, não interessam a ninguém. Até porque, basta olhar para mim para, imediatamente, saberem quem eu sou sob esta perspectiva.

Você, no entanto, acredita que, ao descrever todas as minhas características físicas, eu estaria demonstrando, e até certo ponto aceitando, certas, digamos, disparidades em relação a outros corpos mais perfeitos e/ou ajustados aos padrões de beleza aceitos ou impostos pela sociedade. Assim, se ostento certa deficiência facial, por exemplo, e deixo de descrevê-la abertamente seria, na sua opinião, uma forma de fugir de uma realidade que, no fundo, estaria a me incomodar. Se, ainda, sou de estatura menos elevada, ostento uma calvície e revelo uma barriguinha um pouco saliente, o fato de deixar de mencioná-las seria, no seu entender, um modo que eu adotaria para acreditar que, ficando em silêncio quanto a tais fatos, faria com que o outro deixasse de dar tanta atenção. Não penso exatamente deste modo. Porém, respeito todas as suas colocações neste sentido. Afinal de contas, você, na minha opinião, tem alguma razão quanto à necessidade que tenho de enfrentar todos os meus, digamos, dilemas estéticos. De fato, existem pessoas, e eu conheço algumas, que não se aceitam como são ou como estão. E, por esta razão, vivem em função de alterar todas as suas incômodas características, por acreditarem padecerem de certas “deficiências” físicas. Não concordo, porém, respeito!

Na minha opinião, quando alguém deseja saber quem, de fato, eu sou, está interessado em conhecer justamente tudo aquilo que o corpo não revela. Vale dizer: quer conhecer o máximo possível a respeito da minha formação espiritual, ética, moral e, porque não dizer, da minha personalidade. É isto que interessa às outras pessoas e ao mundo que me cerca.

Conte-me mais sobre você, costumam pedir as pessoas quando se relacionam conosco pela primeira vez. E aí está a chave de tudo. Porque, na medida em que expomos o que somos, o que pensamos e, principalmente, a forma como estamos acostumados a agir, é que o nosso interlocutor terá elementos suficientes para, dali por diante, testar a veracidade de tudo o que dissemos. Afinal, é preciso responder a estas perguntas: o que me faz bem, o que me traz alegria, como vejo o outro, sob diversos aspectos, que princípios e valores eu cultivo? Todas estas questões estão ali, diante de nós, fervilhando no mar da curiosidade alheia

Não preciso te lembrar que, quanto mais interesse a outra pessoa demonstra em ouvir sobre mim, mais vontade de falar eu tenho. Assim, não é raro que, nestas circunstâncias, a gente fale coisas mirabolantes. Coisas que, na verdade, são mais lendas do que realidades. E será, no dia-a-dia daquele relacionamento que se inicia, que vou ser chamado a comprovar tudo o que falei sobre mim. E com o tempo a pessoa saberá perfeitamente, quem eu sou de verdade.

Se me apresento, por exemplo, como uma pessoa de trato fácil, de temperamento sereno, tranquilo e compreensivo, passo para o meu interlocutor a imagem de uma pessoa bacana, amiga, simpática. Pessoa com a qual, jamais, se tem qualquer problema de convivência. No entanto, se na primeira situação adversa em que estivermos juntos, eu perder a serenidade, a tranquilidade e a compreensão, ainda que eu caia em mim, imediatamente, e me lembre dos detalhes da minha apresentação e peça mil desculpas, a pessoa certamente ficará com a “pulga atrás da orelha”, pois, perceberá que aquela pessoa é diferente da que se apresentou a ela. Mas, em nome da tolerância e da compreensão, meu interlocutor passará uma borracha sobre o acontecido e, vida que segue.

Mesmo sendo tolerante, paciente e compreensivo, aquela(a) a quem me apresentei, sempre estará a observar a minha conduta diante das outras pessoas e/ou de situações adversas. E, com toda certeza, terá ocasião para comprovar quem, realmente, eu sou em termos de temperamento.

Bem, cada um de nós tem o seu próprio temperamento e, por mais que queira parecer agradável, em certos momentos e circunstâncias, é inclinado a agir de forma bastante severa, ou até mesmo ríspida. Coisas do ser humano! Com um pouco de jeito a gente até compreende bem.

Se a outra pessoa fosse você, por exemplo, que é inteligente e dotado de boas intenções, compreenderia tudo o que eu disse acerca do temperamento, e procuraria me observar sob outros prismas. Haveria de se interessar, talvez, por comprovar o respeito que eu tenho pelos valores e princípios que sustentei, lá na primeira conversa, como sendo fundamentais para a minha vida. E aí, também, pode acontecer de sofrer algumas decepções, pois verá que eu, diante de certas circunstâncias, e dependendo do contexto, prefiro auferir todas as vantagens possíveis em uma relação, sem demonstrar qualquer forma de amizade, de solidariedade, de compaixão ou mesmo de fraternidade para com outras pessoas. Aquele sujeito que se apresentou a você, como amigo, humanista, fraterno e solidário, agora, na prática, revela-se absolutamente outro. E isto te assusta!

Bem, você poderá questionar: o que mais esperar de um sujeito destes? Um sujeito que se apresentou de um jeito, mas que na prática, tem se revelado outro. Pois eu te digo que pode esperar muitas outras novidades... negativas, porque uma pessoa destas trai a confiança de todos e de qualquer um que dela se aproxima.

Por esta razão, é que eu sustento que, quando alguém vai se apresentar a outra pessoa, deve falar sobre seus valores, princípios, conceitos, personalidade e outras virtudes espirituais. E deve, é óbvio, ser coerente com tudo aquilo que está dizendo sobre si. E, ainda, caso não se sinta celeiro de algumas virtudes, deve assumir isto de imediato, sem se preocupar com a reação do outro, porque trata-se de revelar, quem ela é de verdade. Não deve mentir ou omitir nada, na tentativa de passar uma imagem, digamos, agradável e adequada ao pensamento dominante. Pois, efetivamente, será cobrada por isto em futuro próximo.

Eu, por exemplo, defendo a ideia de que não preciso me preocupar em ser agradável a ninguém. O que, de fato, deve ser objeto das minhas preocupações, é se tenho sido coerente com a minha personalidade, com o meu caráter, com os meus princípios e valores, morais e éticos. Desta forma, ser sincero diante dos outros é uma das minhas grandes virtudes. Quando eu elogio alguém, a pessoa pode ter certeza de que não a estou bajulando; quando a critico, da mesma forma, não a estou ofendendo. Em quaisquer circunstâncias, estou sendo honesto para com o outro. Coisa que muita gente se recusa a fazer, sob a desculpa de não querer ou poder ser desagradável. É melhor passar por desagradável do que por mentiroso, falso, hipócrita e fraudador da própria personalidade, como conheço e conheci muitos durante a minha caminhada.

Na realidade, os outros sempre esperam que sejamos coerentes com aquilo que dizemos ser. Não podemos afirmar que somos uma coisa, se agimos de forma absolutamente oposta, sob pena de perdermos um prêmio fantástico, que é a credibilidade. Uma das melhores coisas que podemos perder é, justamente, a credibilidade, a confiança alheia. Esta perda é de difícil recuperação. E eu conheço muita gente, e você deve conhecer também, que vive se apresentando de um modo e agindo de outro, diametralmente, oposto. Estas pessoas não se tocam, porém, já são mais do que conhecidas e, podemos dizer, manjadas. Ninguém mais, que com elas convivem, nelas depositam confiança ou crédito. Em muitos casos, as pessoas convivem com este tipo de gente por absoluta necessidade, não, por sentirem estima, confiança e/ou amizade verdadeiras.

Penso ser muito triste e, de certo modo, decepcionante, saber que alguém convive comigo por obrigação, necessidade ou imposição das circunstâncias, simplesmente porque me apresento de um jeito e me comporto de outro completamente diferente, incoerente, falso, mesquinho etc. Muitas são as oportunidades em que as pessoas são aceitas, apenas, em razão do cargo ou da função que ocupam. Não fosse por isto, poucos seriam próximos de verdade e em verdade.

Espero que você, particularmente, não se sinta triste comigo, ante meus argumentos. São apenas os meus argumentos. No fundo, no fundo, podem não ser coincidentes com os seus. Mas, pelo menos, estamos sendo absolutamente sinceros um com o outro.

E que os nossos leitores e leitoras possam aproveitar nossas formulações para refletirem sobre suas próprias vidas e possam, também, promover um sério exame de consciência, a fim de verificarem como estão se comportando diante dos seus semelhantes. De que forma estão se apresentando a quem os deseja conhecer e se estão, de fato, sendo coerentes com a figura humana que usam para descreverem-se a si mesmos. Tomara, ajam desta forma. Assim, o mundo poderá ser um pouco melhor para todos nós. Seja feliz, e boa sorte!

______________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso de teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 17

EDITORIAL DA SEMANA: SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO

UMA NOVA ESPIRITUALIDADE

REFLETINDO SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO CONTEMPORÂNEO–

*Por L. A. de Moura –

Após algumas reflexões, você declara com surpresa a conclusão de que os seres humanos deste tempo atual conseguiram ficar – nas suas palavras – “estagnados”, relativamente à atividade espiritual. Traz a questão para mim, afirmando que, nos dias que correm, as pessoas estão muito mais preocupadas com o “ter”, do que com o “ser” e que isto, no seu entendimento, explica alguns dos fracassos que a humanidade, como um todo, tem experimentado de forma um tanto assustadora.

Embora eu concorde com o resultado das suas reflexões, você faz questão de conhecer minha opinião pessoal acerca do tema, acreditando que eu, mesmo concordando com as suas colocações, tenho condições de acrescentar algo a mais. Algo que, no seu entender, possa, digamos, lançar mais luzes sobre uma questão tão vital para a própria existência do ser humano. Aliás, você é de opinião de que, acerca do tema, muita coisa ainda precisa ser dita.

Conforme já fiz questão de destacar, concordo com você quando utiliza o termo “estagnação espiritual”, para se referir à humanidade no atual estágio da sua existência. De fato, se compararmos com o que conhecemos acerca dos tempos antigos, os seres humanos deste nosso tempo estão muito aquém daquilo que um dia já pode ser denominado como “espiritualidade”. E nem precisamos ir tão longe na linha do tempo. Se levarmos em consideração, por exemplo, alguns espiritualistas que estiveram entre nós, agorinha mesmo, no século XX, vamos perceber que o fenômeno por você sublinhado é coisa bastante recente. Coisa de, digamos, poucas décadas para cá.

Você, é claro, quer saber justamente as causas desta estagnação. As razões que fizeram com que os seres humanos chegassem a tal ponto. Na ânsia por uma resposta, você antecipa algumas perguntas, pretendendo empurrar-me para as respostas fáceis. Por exemplo, indaga: “os seres humanos perderam a fé nas coisas relacionadas com o espírito?”, ou, “o mundo tornou-se tão atrativo a ponto de abduzir todos os seres pensantes?”, ou, ainda, “não se acredita mais na perenidade da vida e na eternidade do espírito?”. Suas perguntas são, deveras, sagazes. Eu, no entanto, evitarei cair na sua estratégia e, portanto, não oferecerei respostas imediatas mas, apenas, e tão somente, algumas das minhas convicções, deixando que, ao final, você tente de per se, encontrar o que procura.

Uma das grandes janelas do tempo – o pensamento – está fechada para a maioria dos seres humanos. Esta janela esteve, durante séculos, aberta para uma significativa quantidade de homens e mulheres que jamais abriram mão do direito de pensar, de raciocinar, de buscar respostas para tudo o que se passava no seu entorno, especificamente, no que dizia respeito à espiritualidade como forma de vida, apesar de todas as circunstâncias do contexto em que viveram. A comprovação disto, e sem citar nomes específicos, está na fabulosa literatura filosófica, teológica, antropológica, teosófica etc., produzida e compilada durante séculos.

Por outros tantos séculos a mesma literatura continuou sendo objeto de estudos e de pesquisas por aqueles e aquelas que, já apresentando sinais de conformismo com o que fora pensado e concluído até então, já não sentiam mais o mesmo estímulo dos mais antigos e, portanto, evitavam pensar muito, preferindo, ao contrário, dedicar-se à leitura e ao estudo aprofundado sobre tudo o que já tinha sido objeto da atenção de outros.

Obviamente, e você haverá de concordar comigo, vamos encontrar já na fase pura e simples do estudo e da leitura, um pequeno declínio na arte de pensar e de procurar respostas espirituais e espiritualistas. Porém, ainda não se pode afirmar que isto representou o caos. O pior, certamente, e como sempre acontece, ainda estava por vir.

Chegou o tempo em que uma grande massa de seres humanos pendeu para o lado da prática religiosa institucionalizada. Vale dizer: as pessoas queriam estar vinculadas a uma religião sólida e consolidada. A partir deste evento, e por não estar dando aula de história deixo com você a tarefa de promover uma adequação cronológica, tudo passou a ser muito diferente. As perguntas que antes eram feitas pelos grandes espiritualistas a si mesmos, cujas respostas eles próprios encontravam depois de muitas reflexões, orações e oblações passaram a encontrar forte resistência por parte das religiões que, simultaneamente, ofereciam, e ainda oferecem, um cardápio de respostas prontas, quentinhas, saídas do forno da indução.

Bem, acredito que você esteja começando a compreender que as perguntas que tais pensadores faziam a si mesmos, acerca da existência do ser humano, bem como do seu destino final e dos caminhos espirituais a serem percorridos, levavam-nos a profundas reflexões e, consequentemente, a enormes modificações no seu modus vivendi. Donde, então, um modelo de espiritualidade tomou forma e ganhou espaço considerável entre os seres humanos. Passou-se, então, à compreensão da existência de uma vida sobrenatural já a partir desta vida terrena. Ou seja: a forma de vida adotada neste plano terreno está intimamente ligada com o destino final de cada criatura. Assim, os que voltavam seus olhos para a vida espiritual, privilegiando o ser ao invés do ter, construíam e pavimentavam uma larga estrada rumo à eternidade. Uma estrada que valia à pena ser percorrida!

Foi um trabalho árduo, no qual muitos e muitas perderam a própria vida, tornando-se verdadeiros mártires, em nome do amor e da fidelidade a Deus, à Verdade e ao próximo. Era um período de muita espiritualidade! Os seres humanos direcionando os olhos do espírito para muito além desta pobre existência terrena. Um mundo realmente promissor, compreendido como uma espécie de porta para a eternidade da alma.

Entretanto, a forte indução religiosa, marcou os seres humanos com o estigma da “salvação”, pela simples adesão a um líder espiritual ou ao que poderíamos denominar de “messias”. Aceitando de bom grado o seguimento ao líder ou ao messias indicado pela religião, os fiéis estariam, e ainda estão, salvos de qualquer perdição espiritual, dispensando maiores indagações ou projeções de natureza espiritualista. A partir de então, basta aderir a todo um conjunto de doutrinas, liturgias e dogmas para ter assegurada a (re)entrada no paraíso. Em resumo: basta abraçar as normas eclesiais e seguir – sem necessariamente ter de imitar – o Messias ou o Profeta. Algumas religiões afirmam sem cerimônia que, aquele(a) que “aceitar Jesus” no seu coração, já está salvo! Nada mais importa.

Não é mais necessário refletir. Não é mais importante raciocinar. Não importa mais estudar e/ou pesquisar sobre os compêndios deixados pelos grandes espiritualistas, sábios e sábias de todos os tempos. A religião tornou-se uma verdadeira “caverna”, ao estilo platônico, a qual, uma vez acessada, e cumpridas as regras impostas por outros seres humanos que, diga-se de passagem, agem em nome de Deus, praticamente assegura a “salvação” tão desejada, sem maiores esforços intelectuais, com tudo o que o termo possa significar. Todos os sinais são neste sentido e nesta direção. Para quê, então, refletir sobre o fim último do ser humano, se alguém já antecipa tudo, em nome de uma fé que todos devem possuir? Aos que não a possuem, não é recomendada apenas uma reflexão pura e simples, mas, mera petição dirigida a Deus que, gratuitamente, distribui o dom àqueles aos quais Ele julga merecedores.

Veja, os desdobramentos desta linha de raciocínio são muito extensos. Não cabem aqui, neste espaço limitado. Porém, é fácil extrair rapidamente algumas conclusões satisfatórias para o atingimento do seu objetivo. Uma delas é que, ao perderem o interesse pela prática da reflexão, da contemplação do sagrado e pela busca incessante de respostas espiritualistas, aos seres humanos restou apenas, e, tão somente, a ida para o gueto religioso com uma sujeição que, muitas vezes, beira ao fanatismo. E aí, muitos e muitos, com o passar dos tempos, e, notadamente, nas últimas décadas, enxergaram que a prática religiosa institucionalizada nada mais fazia do que colocar todos e todas em uma mesma caixa hermética, com o selo “salvos”. Mas, isto, para o ser humano é deprimente. Ele carece de pensar, de debater, de apresentar suas convicções e suas questões mais perturbadoras. Ele necessita da liberdade para se apresentar diante da divindade, e dela ouvir muitas das repostas buscadas. A criatura quer estar, e necessita estar, em permanente diálogo com o Criador, sem intermediários e, obviamente, sem ser tachada de “louca” ou colocada sob suspeita de esquizofrenia. A criatura quer falar com o seu Deus e quer acreditar que ouve a voz Dele no seu íntimo. Isto é fruto da mais completa reflexão e entrega espiritual. Porém, as religiões cuidam de cercear esta liberdade, fazendo crer que, muito do que se diz é fruto de ilusões ou mesmo de perturbações espirituais e/ou mentais desqualificando, deste modo, qualquer forma de interação do vivente com a espiritualidade, já a partir do diálogo direto com o próprio Deus, como se Ele fosse apenas ouvinte, e não, falante também.

Desta forma, sem interesse e sem o costume do estudo, da pesquisa e dos profundos questionamentos advindos de uma continuada reflexão, mas, também, sem aceitar as imposições normativas da religião, grande parte da humanidade optou pelo afastamento e pela consequente, e assustadora, adesão ao mundo materialista. Um mundo, diga-se de passagem, que não oferece qualquer forma de salvação. Porém, oferece na prática, e na realidade, uma grande possibilidade de realização individual, prometendo, e em muitos casos até mesmo assegurando, a tão sonhada felicidade, tudo o que o ser humano quer para aqui e agora. É claro que o mundo, com seus sistemas perversos, não aceita, sequer, ouvir falar na efemeridade e na transitoriedade da vida. Isto, para o mundo, é sinal de fracasso sistêmico e que, portanto, deve ser abominado!

Bem, diante deste cenário que estou apresentando, e que você pode facilmente comprovar, parece que consigo expor a opinião que me foi pedida. E, antão, você tem diante de si o “algo a mais” de que necessita para aprimorar as conclusões às quais já havia chegado acerca da estagnação espiritual dos seres humanos contemporâneos.

É fácil perceber o enorme mal que a entrega de conclusões prontas causa aos seres humanos, haja vista que, privados da prática da reflexão e mesmo do contato diário com a necessária espiritualidade, estes descambam para o seguimento cego às diversas doutrinas religiosas ou, o que é ainda pior, entregam-se aos prazeres do mundo, e daí só conseguem sair quando, no final da vida, já não encontram mais portas abertas diante de si, tendo como única e indefectível possibilidade, a aceitação do fim de uma existência que poderia ter sido muito mais sadia, rica e capaz de prepará-lo, definitivamente, para uma eternidade que ele desconhece, apenas ouviu falar, porém, sobre ela, sequer, possui qualquer certeza ou convicção.

Talvez você não compreenda, em todos os aspectos, a inteireza de tudo o que acabo de afirmar. No entanto, a partir de tudo o que afirmo, você poderá caminhar para uma reflexão mais aprofundada, mediante a qual poderá encontrar respostas que, no final, servirão para desnudar diante de si o exato perfil do ser humano com o qual temos sido obrigados a conviver.

Sem pretender agir a exemplo das religiões – que já trazem todas as verdades na bandeja da vida, e que não permitem qualquer questionamento – devo reforçar a ideia de que os nossos congêneres contemporâneos não querem mais saber da busca espiritual, ou mesmo da busca por respostas mais fundamentadas, acerca da sua existência e do seu destino final, bem como dos caminhos a serem percorridos para tanto, deixando de lado o interesse, não apenas pelos conceitos puros e simples, da ética e das virtudes necessárias para a transição entre a vida efêmera e a eterna, decidindo optar pela conveniente adesão e pela total vinculação a tudo o que lhes é pregado e constantemente relembrado.

E, fato evidente, tudo o que é pregado e periodicamente relembrado, nada mais faz do que impor limites doutrinários à liberdade intelectual e espiritual. Pensar o quê, sobre o quê e para quê, se tudo já foi pensado, refletido e interpretado como “verdades absolutas”? Assim, nossos pobres semelhantes permanecem algemados no interior da “caverna” e, quando alguns de nós tenta mostrar-lhes que a realidade é bem outra, querem a todo custo a nossa desqualificação intelectual e, se possível, a nossa própria eliminação. Refletir, questionar e procurar por respostas outras, tornou-se coisa essencialmente diabólica. Eis aí tudo o que eu pretendia trazer para você, acerca do tema hoje proposto. Espero ter atendido, de alguma forma, às suas expectativas.

Nunca é demais sublinhar que o resultado destas nossas reflexões não carrega a pretensão de servir como itinerário para a vida de ninguém, senão, e apenas isto, como um ponto de partida para que os leitores possam aprofundar os questionamentos sugeridos ampliando, quem sabe, todo um leque de possibilidades que, ao fim e ao cabo, estão intimamente relacionados com a nossa existência e com o nosso destino final. Portanto, leia, reflita, tire suas próprias conclusões e, se julgar conveniente, compartilhe com outros seres humanos. Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 10

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE FICA O CÉU?

ONDE FICA O CÉU

AFINAL, O QUE É E ONDE FICA O CÉU? –

*Por L. A. de Moura –

Você afirma não enxergar qualquer novidade no fato de, a maioria dos seres humanos que professam alguma fé, pretenderem, após a morte, ir para o céu. Não vê novidade e, conforme sustenta, tem idêntica pretensão. No entanto, depois de algumas reflexões, vieram as dúvidas: o que é o céu? Onde fica o céu? Estas são as questões que você traz acreditando que eu, que sou apenas um caminhante e um pensador espiritualista, possa te socorrer e, por fim, ajudar a encontrar respostas minimamente satisfatórias.

Não sei se precisamente eu, poderei satisfazer suas curiosidades acerca do tema. Porém, confesso que já andei refletindo muito e, certamente, cheguei a algumas conclusões que, para mim, foram, e ainda são, bastante satisfatórias. Desta forma, tudo o que posso fazer para te auxiliar, é compartilhar com você o fruto das minhas indagações espirituais e espiritualistas.

Como sou um caminhante, faço o convite para que venha comigo nesta pequena jornada para, juntos, podermos ir adequando pensamentos e conclusões, pretendendo, ao final, chegarmos às respostas postuladas por você. Vamos juntos.

Quando alguém fala sobre o céu, seja lá em que sentido for, a sensação que causa é sempre a de bem-estar e de felicidade. Você, ao comprar uma casa bem situada, em um lugar de paz e de tranquilidade, obviamente soltará a seguinte frase para os amigos: “lá, onde comprei minha casa, é o céu. Um verdadeiro paraíso”. E, a partir desta frase inicial, você começa a desfiar todas as vantagens, todos os benefícios e todas as virtudes encontradas naquele lugar paradisíaco, arrematando desta forma: “quando chego em casa, me sinto no céu”.

Ora, só de se expressar deste modo, você revela ter algum conhecimento acerca do que é, verdadeiramente, o céu: um lugar de paz, de serenidade, de tranquilidade, de completude e, por fim, de realização dos seus maiores sonhos. Com isso, planto no seu coração, uma outra questão: seria o céu, então, um espaço físico até onde todos podemos chegar? Não, não é! O Céu descrito por você, ao falar sobre a casa comprada, é apenas uma soma de virtudes e de qualidades encontradas que, de tão boas, tão magníficas, remetem ao conceito de tudo o que de melhor existe no mundo. Tudo aquilo, para você, equipara-se à noção de Céu que traz guardada na sua alma.

Pois bem, quando você afirma que, ao chegar em casa tem a sensação de estar no Céu, significa que a existência de paz, de serenidade, de tranquilidade, de repouso absoluto e, o mais importante, de uma consciência totalmente desprovida de arrependimentos, conseguem te transportar de uma realidade não tão virtuosa, para uma outra diametralmente oposta. Uma realidade onde você, de fato, se sente realizado e feliz.

No entanto, por se tratar de sentimentos e de realizações vinculados à vida que, por si só, é efêmera e, portanto, transitória, não te asseguram qualquer possibilidade de continuidade. E, se em determinado momento, todo este cenário paradisíaco for modificado, você sentirá muitas saudades daquele, digamos, “Céu” do qual em alguns momentos da vida, você pode desfrutar.

Veja, diante de tudo isto, você tem uma exata noção do que é o Céu. Nesta lógica, o Céu, então, é o gozo da paz, da serenidade, da tranquilidade espiritual e da total ausência de arrependimentos. Em outras palavras: é a plena consciência de ter dado o melhor de si durante todo o tempo e, por fim, ter chegado à plenitude de uma existência.

Porém, uma resposta ainda é devida: onde fica este Céu? Aí, sabendo de antemão que o Céu descrito em razão da casa comprada não é duradouro, porque vinculado à vida que é transitória, você logo imagina que ele fica em algum lugar distante, ainda a ser alcançado. Pensando desta forma, é natural que algum desânimo tome conta do seu ser. No entanto, as virtudes conceituais acerca do Céu, conduzem à convicção de estarmos falando sobre estado de espírito. Ou seja, qualquer pessoa que tenha paz de espírito, que seja tranquila por natureza, que sempre procure dar o melhor de si e que não carregue arrependimentos na alma, tem, dentro de si, o verdadeiro Céu. Um Céu absolutamente espiritual e, quando morre, vai com este Céu unir-se a outros Céus o que, poderíamos denominar como o verdadeiro Reino dos Céus.

Mas, não estou colocando um ponto final nesta reflexão. Tem mais alguma coisa muito importante a ser dita. Você, certamente, conhece a famosa oração do Pai-Nosso, onde se começa dizendo “Pai-nosso, que estás nos Céus... (Mt 6, 9-13)”, não conhece? Veja, o Apóstolo Paulo, chama a atenção dos Coríntios ao lhes dizer: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3, 16). Pensa comigo: se o Nosso Pai está nos Céus e se o seu Espírito habita em nós, eu te pergunto: onde fica o Céu, senão em cada um de nós? Somos, de fato, partes de um conjunto formado por todos os Céus, nos quais o Senhor habita e reina individual e coletivamente. Isto é representado, inclusive, por meio da saudação indiana do Namastê - "O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você".

Porém, observe bem: se o Céu pode estar em cada de nós, por meio de todas as virtudes já descritas, o inferno, da mesma forma, pode estar também, por meio de todas as inversões possíveis e admissíveis.

Deste modo, o Céu que já pode se manifestar na sua vida terrena, invadindo todo o seu espírito e dominando todo o seu ser, é claro e evidente que, após a morte, ele será transportado com o seu espírito para unir-se a outros céus e aí, sim, todos comporão o Reino dos Céus, no qual somente o bem e a justiça dominam de forma única e exclusiva. É óbvio que você, a partir desta reflexão, poderá vir com inúmeras outras indagações. No entanto, não devo ficar, aqui, imaginando coisas que você poderia perguntar. Faça suas reflexões e, em uma outra oportunidade, poderemos voltar ao tema.

O que importa, neste momento, é que você compreenda que o Céu não está lá em cima, ao lado ou lá embaixo. Ele está dentro de você, de mim e de cada um de nós. E tais percepções são possíveis de serem sentidas pela vida que levamos. Quando praticamos o bem, ainda que da forma mais secreta, somos invadidos por um sentimento de realização, de felicidade e de vontade de praticar mais ações benéficas ou benevolentes, porque isso nos traz a paz de espírito, a tranquilidade, a certeza de estarmos fazendo a coisa certa e, em decorrência, uma total e absoluta consciência desabitada por qualquer forma de arrependimento.

“O Reino de Deus”, disse Jesus, “está no meio de vós”! Esta foi a resposta dada pelo Mestre de Nazaré aos fariseus, quando perguntaram: “Quando virá o Reino de Deus?” (Lc 17, 20-21). Assim, compreende-se que, junto de nós, e não lá adiante, está o Céu, o Reino e o próprio Deus, a confirmar que trazemos em nosso interior o verdadeiro Céu. Só depende de nós identificá-lo e por ele zelarmos para que permaneça assim até o dia da nossa redenção.

Desta forma, não acredite que, ao final da sua jornada, será levado para um lugar distante chamado Céu. Não, não será assim, posso te afirmar com segurança. Naquele dia, e naquele momento, o Céu que já deve existir em você, se abrirá totalmente, como uma enorme flor, e seu espírito contemplará toda a real beleza que o Céu possui. A partir dali, então, você seguirá rumo à eternidade e ao verdadeiro e único Reino dos Céus. É o fim absoluto de todas as ilusões. É o retorno à vida como ela sempre foi na realidade. Toda a riqueza do seu Céu será manifestada no seu espírito e então, e somente então, sua alegria e sua felicidade serão completas e indestrutíveis.

O ser humano do mundo não compreende esta linguagem e, de certa forma, repudia-a, porque, apegado ao mundo e às suas ilusões, não aceita nem de longe pensar em dele ser afastado bruscamente pela morte. Dói-lhe fundo na alma tais pensamentos. Você, porém, que traz o protótipo do Céu no seu íntimo, aguarda complacente e feliz o momento do mergulho no oceano divino, quando o seu Céu interior será unido a outros Céus e todos, juntos, comporão o Reino dos Céus.

Para aumentar a sua convicção acerca do tema, sugiro que leia com atenção o Salmo que diz: “Ditoso o homem que não se deixou levar pelo conselho dos ímpios, que não se deteve no caminho dos pecadores, que não se sentou na cadeira dos zombadores, mas que tem a sua vontade posta na lei do Senhor, e nessa lei medita de dia e de noite. Será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto, e cujas folhas não cairão; e todas as coisas que ele fizer serão prósperas” (Sl 1, 1-3).

O Salmo parece abrir uma porta para o nosso Céu interior, o qual Deus escolheu como morada permanente.

Acredito que minhas palavras, no mínimo, servirão como incentivo para que você faça reflexões mais aprofundadas. Interrogações e dúvidas são próprias do espírito humano. Não se assuste ou se detenha diante delas. Na medida em que forem surgindo, procure travar conversas construtivas. Conversas que, certamente, trarão mais algumas convicções. E, assim, sucessivamente, você, eu e todos nós, vamos caminhando por esta longa estrada da vida, ampliando o nosso Céu interior, facilitando a habitação de Deus para que, no dia fatal, possamos nos unir a outros como nós.

Deixo claro para você, como sempre tenho procurado deixar, que este texto é apenas uma opinião pessoal, fundamentada na longa caminhada e nas diversas experiências e reflexões espirituais e com o próprio Deus. Escrevo, na tentativa de, por algum modo, poder sanar questões que possam vagar por sua alma. No entanto, não precisa, de modo algum, concordar comigo. Faça suas próprias reflexões e tire as conclusões que julgar oportunas e pertinentes. Quem sabe, um dia, possamos estar juntos no mesmo Reino. Seja feliz, e boa sorte!

NAMASTÊ - NOVO ________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 03

EDITORIAL DA SEMANA: O MAL COMO DECORRÊNCIA DE SI MESMO

A FORÇA DO MAL

DE ONDE VEM O MAL, QUAL É A SUA ORIGEM?

*Por L. A. de Moura –

Muitas e muitas pessoas querem saber a razão pela qual o mal está sempre presente no mundo. É difícil, para muita gente, compreender os motivos que levam o mal a duelar com o bem, apesar de Deus, das religiões, das crenças, devoções e seguimentos cultuais. Assim, você tem toda razão de, também, questionar sobre tudo isto. Preocupa-me, no entanto, e muito, o fato de você dirigir tais questionamentos a mim, como se eu tivesse a capacidade para explicar o que teólogos, filósofos e religiosos do mundo todo cansaram de fazê-lo, fornecendo suas versões sem, no entanto, e jamais, terem conseguido de modo satisfatório, dizimar as dúvidas que ainda pairam a respeito do tema.

Entretanto, eu, que não sou nada disso, não passando de um simples  pensador, estudioso e pesquisador, cujo espírito é voltado muito mais para a reflexão, poderei tentar te fornecer, apenas, e, tão somente, um ponto de vista que, por fim, poderá te confundir ainda mais ou, quem sabe, servir como uma faísca capaz de acender uma verdadeira tocha no íntimo da sua alma. Só isso, nada mais do que isso. Vem comigo, então, vamos tentar caminhar um pouco por esta estrada sinuosa e cheia de armadilhas.

Talvez, e na minha opinião, seja fundamental deixar claro, desde o início desta conversa, que não é Deus a origem do mal. Não foi Ele quem criou o mal e, muito menos, quem o introduziu no mundo dos viventes. O mal existe como consequência, como efeito. Vejamos, por primeiro, o que está escrito na narrativa do Livro do Gênesis. Então, disse o Senhor ao homem: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Na mesma narrativa bíblica, vamos encontrar uma personagem cuja atuação foi decisiva para que os seres humanos desobedecessem a ordem divina e, finalmente, tirassem a rolha da lâmpada na qual estava guardado o gênio do mal: a serpente. Figura mítica, mas, que, teve a perspicácia de dizer ao ser humano: “Vós de nenhum modo morrereis. Mas Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele (do fruto da árvore da ciência do bem e do mal), vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3, 4-5).

Veja, o ser humano teve interesse, curiosidade, ambição, ilusão ou dê-se lá o nome que quiser, de conhecer “o bem e o mal”. Desta forma, ao destampar a lâmpada mágica da desobediência, viu sair para fora os dois gêmeos – o bem e o mal – e, com eles, a morte, como consequência maior de um ato que não deveria ter sido praticado.

Ora, se bem refletido, a morte é o fechamento de todos os males que afligem o ser humano neste mundo. É, por assim dizer, a decorrência final.

O bem, certamente, seduz a muitos e a muitos leva a uma vida a ele dedicada. E traz, é claro, as devidas consequências. O mal, de igual modo, também, seduz a muitos, graças à satisfação ilusória dos sonhos, das ambições, dos apetites, dos planos e dos projetos de muitos viventes que, ainda hoje, acreditam piamente que, apesar de tudo, a felicidade neste plano terreno existe, está ao alcance de todos e que, portanto, deve ser perseguida e conseguida a qualquer preço. Eis aí a palavra-chave do nosso tema: “a qualquer preço”. De fato, tudo, absolutamente tudo, tem e cobra um preço. Costumo dizer, abrindo um pequeno parêntesis, que a vida é semelhante a um grande restaurante: você chega, entra, senta, pede o prato mais caro do cardápio; pede a bebida mais exótica que desejar; bebe até perder o controle dos seus atos; quebra pratos, garrafas, taças e copos. Briga, quebra mesas e cadeiras, ofende as pessoas. Faz tudo o que estiver ao seu alcance. Atende a todos os seus instintos. Porém, todos os prejuízos causados serão pagos, centavo por centavo. Quem pagará? Ora, o que importa é o pagamento.

Então, e fechando o parêntesis, a busca pela felicidade, e não raro pelos  desjos e prazeres da vida, cobra o devido preço. Quem sai em busca de tudo o que o mundo tem a oferecer, “a qualquer preço”, sem pensar sobre quem terá de pagá-lo, certamente vai realizar tudo o que planejou. Nada ou ninguém poderá detê-lo. Entretanto, as consequências virão e, certamente, cairão sobre muitos que, nem sempre, têm algo a ver com os atos praticados. Isto, porque, quem pode, e enquanto pode, se defende da imediatidade das consequências advindas dos atos erráticos que praticou. No fim, porém, muitas vezes já sem recursos e sem forças acaba, também, sucumbindo à voracidade do mal.

Você poderia, então, questionar: Mas, como é possível que um justo pague pelos atos do injusto e do ímpio? Veja, o mal não escolhe a quem vai atingir. Ele vem como a fúria de uma tempestade que assola e, muitas vezes, destrói tudo e todos os que estão na sua direção. Lembra da historinha do restaurante? Tudo deverá ser ressarcido. Para o dono do estabelecimento não importa quem pagará a conta. Ele quer receber por tudo o que foi consumido e destruído. Imagine, por exemplo, o caso de uma criança sozinha em casa. A mãe, para encontrar-se com o namorado na rua, esquece uma panela de  pressão no fogão, com o queimador aceso. Se ela fica com o namorado por um tempo prolongado, suficiente para que a panela exploda, certamente, a criança será fortemente atingida, sem ter culpa de absolutamente nada. As consequências só deixam de ocorrer, se o ato for interrompido a tempo.

Quem pesquisou e descobriu a fusão do átomo, e daí concluiu que poderia construir uma bomba atômica, para subjugar e dominar povos e nações, por arrogância, ambição ou vingança, levou o mal e a destruição a milhares de inocentes porque a bomba, depois de acionada, tem como consequência única realizar o que dela é esperado: a explosão radioativa de altíssima potência e magnitude. Aquele que cria uma bactéria em laboratório e que, eventualmente, perde o controle da sua criação, leva dor, sofrimento e morte a centenas, milhares de pessoas, absolutamente inocentes. O que eu quero dizer é que o mal é decorrente de atos praticados por alguém, de algum modo, em algum lugar e com alguma pretensão ou finalidade. Daí ser fácil concluir que, todas as vezes que praticamos o bem, as consequências, também, são inevitáveis e, assim, contribuímos para a felicidade de muitos e muitos, os quais não nos são conhecidos, mas que, indiretamente, recebem os frutos do bem que praticamos.

A partir daí, você pode refletir melhor, e verificar quanto mal é praticado no mundo, todos os dias, em todos os setores da vida, a começar pelas agressões à própria natureza. E quais são as consequências? São as piores possíveis. E quem as sofre, direta ou indiretamente? Toda a humanidade. As feridas causadas à natureza trazem como consequências os desastres naturais, a doença do ar, do solo e do subsolo, a infecção dos rios e dos mares, afetando milhões de pessoas e de outros seres vivos em todo o mundo. Com o ar, a terra, os rios, os mares e o subsolo fortemente atingidos, vêm as doenças, graves ou gravíssimas, a fome, a desnutrição e... mais doenças e mortes, numa escalada sucessiva de males que vão se multiplicando ao infinito. Tudo, porque alguém, em algum momento e lugar, decidiu que pode agredir a natureza, que nada acontece. Ora, os males e os sofrimentos daí decorrentes são, ou serão, suportados por quem? Justamente por todos aqueles que, ao contrário, vivem defendendo o respeito para com a natureza. No entanto, as consequências pelos erros cometidos já estão fora de controle. Lembra da figura mítica da serpente? “Vós de nenhum modo morrereis”.

É justo atribuir o mal a Deus? É justo afirmar que Deus deveria livrar o ser humano de tantos males, quando é o próprio ser humano o provocador e causador de tudo isto? O próprio Deus (encarnado) sofreu as consequências da maldade humana. Desta forma, acho que você concordará que o ser humano é o único responsável por todo o mal que existe no mundo, haja vista partir dele a prática de todos os atos capazes de gerar consequências absolutamente desastrosas para todos os demais seres vivos, sem qualquer distinção ou exceção.

Alguns cientistas humanistas já conseguiram demonstrar o quanto de bem decorre da prática do bem. Sobre o mal pode-se firmar o mesmo raciocínio!

Portanto, o que estamos enfrentando, atualmente, todos os males que estão despencando sobre as nossas cabeças, certamente, decorrem de atos malignos, maldosos, mal planejados, maliciosos ou mal executados por algum ou alguns dos nossos congêneres. Pessoas que, em algum momento das suas vidas, desejaram “ser como deuses, dominando o bem e o mal”.

Como antecipei para você, desde o início desta nossa conversa, não tenho a pretensão de explicar o que muitos sábios já tentaram sem sucesso. Porém, deixo para você, apenas, a minha opinião sobre o assunto. Daí para a frente, fica com você a missão de tentar encontrar alguma outra resposta que possa ser mais satisfatória.

Por fim, peço que observe que, se a humanidade quisesse extinguir o mal, bastaria fazer quase tudo de forma muito diferente do que tem feito. Fazendo e ensinando às futuras gerações. Caso contrário estaremos, simplesmente, experimentando a primeira de muitas outras pandemias com características iguais ou muito piores do que esta. E que ninguém se atreva a colocar a culpa em Deus, como tem ocorrido vez por outra, acreditando e disseminando a crença de que o Criador envia o castigo para redimir os pecados da humanidade, ou coisas do gênero. Não é castigo, não são castigos. São consequências decorrentes de tantos males praticados ao longo do tempo. Pratique-se o bem, e as consequências também haverão de ser derramadas sobre nossas vidas. Dizia São João de Deus, ao pedir que os ricos cuidassem dos doentes e inválidos: "Fazei o bem a vós mesmos, socorrendo os que jazem pelas ruas, maltratados por tantas e tantas enfermidades".

Espero que você obtenha sucesso na busca por explicações mais “científicas” acerca da presença do mal. Apesar da ciência e das tantas explicações que ela promove, o mal está aí, cada dia mais presente, mais forte e mais expansivo. Se este texto te aproveita para alguma coisa, faça bom proveito. Caso contrário, a tecla DEL do seu dispositivo pode resolver o problema, sem qualquer consequência previsível. De qualquer forma, seja feliz, e boa sorte!

NAMASTÊ - NOVO ___________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jul 27

EDITORIAL DA SEMANA: ÉS MESMO FIEL ÀS TUAS PROMESSAS?

Logo da novela Eu prometo

CONVERSANDO SOBRE A FIDELIDADE –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente nós temos conversado sobre assuntos diversos, durante alguns trechos da nossa permanente caminhada. São questões que envolvem o dia-a-dia, nosso e de grande parte dos seres humanos e, se por um lado, respondem a algumas das tuas questões pessoais, por outro, com certeza, respondem às de muitas outras pessoas que, eventualmente, possam estar, também, com questionamentos semelhantes na alma.

Hoje tu me convidas a falar um pouco sobre a fidelidade, questionando-me sobre o seu alcance, ou seja, até onde cabe falar sobre ela?

As indagações que colocas acerca do tema são, deveras, muito apropriadas e pertinentes e, penso eu, devem ser dissecadas minuciosamente, a fim de podermos, realmente, adquirir uma compreensão mais próxima possível da perfeição. Só assim, e desta forma, seremos capazes de vivenciar a fidelidade em toda a sua extensão e complexidade.

Por primeiro, é oportuno definir, etimologicamente, o termo “fidelidade”: na lição de Deonísio da Silva, o termo procede do latim – fidelitate – declinando para fidelitas, fidelitatis, fidelidade[1]. A palavra tem a ver, também, com o termo latino “fides”, donde derivam a fé, a “fidúcia”, ou, ainda, a confiança. Percebes? Estamos a tratar de um termo que envolve confiança, fé ou, no linguajar mais adequado à nossa conversa, “credibilidade”.

Bem, agora que já dominas o significado do termo, podemos aprofundar um pouco mais na conversa pela qual tanto esperas. Seria legítimo se, eventualmente, quisesses saber, então, o que significa ser fiel, haja vista a tua pretensão de adequar o termo – fidelidade – à tua vida cotidiana.

Sabendo o significado de fidelidade, não seria difícil, para ti, deduzir de imediato que, ser fiel, é manter intactos todos os compromissos por ti assumidos ao longo da tua caminhada. Quais compromissos? Todos! Tudo o que tu disseste ontem, para seres fiel, deves confirmá-lo hoje. Aí, poderias fazer pequena confusão com outro termo bastante utilizado todos os dias: a coerência. Muitos de nós cobra coerência entre o discurso e a prática. No entanto, perceba, ser coerente não é ser fiel, no sentido estrito da palavra. Ser coerente é agir em conformidade com um ponto de vista expresso. Ser fiel, é diferente. Ser fiel, é agir em absoluto cumprimento com o compromisso assumido perante terceiros.

Ora, poderias, ainda, objetar: mas, se não assumir qualquer compromisso, não preciso ser fiel, nem me preocupar com qualquer forma de fidelidade. Terias alguma razão, caso fosse possível passar pela vida sem, de fato, assumir qualquer forma de compromisso. Só que não é. Não é possível viver sem assumir compromissos. E sabes por quê? Porque o compromisso é expresso pela palavra, cuja expressão pode ser, simplesmente, clicar nas teclas “concordo”, ou, “aceito”, depois de concluir uma compra banal pela internet. Ao acionar qualquer uma das referidas teclas, já assumiste um compromisso, qual seja, o de efetuar a aquisição do produto pelo qual, de alguma forma, terás de dar uma contrapartida. E se não deres a contrapartida combinada, e aceita por ti, serás banido daquele site, por não seres considerada pessoa de... confiança!

O mesmo ocorre, quando pedes alguma coisa emprestada a alguém, comprometendo-te a devolver em determinado prazo e sob a condição de manter intacto o estado da coisa, ou assumir a responsabilidade pelo reparo em caso de algum dano fortuito. Caso assim não procedas, estarás deixando de cumprir o que, por livre e espontânea vontade, assumiste com o outro.

A partir desta compreensão, perceberás nitidamente que, todo e qualquer compromisso assumido por ti, perante terceiros, no pretérito, obrigar-te-á no futuro e, caso venhas a mudar de ideia ou mesmo deixar de cumprir rigorosamente o compromisso assumido, cairás, inevitavelmente, no descrédito.

No tempo dos nossos avós, diziam eles, a palavra de uma pessoa possuía valor inestimável e insubstituível. Dada a palavra, um “fio da barba”, consagrava o ato e o sujeito, de forma alguma, deixava de cumprir o compromisso assumido, sob pena de, em muitos casos, pagar com a própria vida.

Hoje em dia, a palavra de uma pessoa não possui qualquer valor. Aliás, o sujeito nem precisa falar. Tem que assinar papéis e apresentar todas as credenciais materiais exigidas porque, caso descumpra o prometido, arcará inexoravelmente com as penalidades duríssimas impostas, contratual ou legalmente, aos infiéis, mal pagadores, trambiqueiros, ou, chame lá como quiser.

Entretanto, os seres humanos deste tempo de mudanças, e de pandemia, acreditam piamente que, no caso do matrimônio e da religião, por exemplo, não há que se falar em fidelidade. Nega-se hoje o compromisso assumido ontem, desde que situação mais interessante ou mais vantajosa surja no caminho do promitente. A desculpa esfarrapada da “liberdade” sem limites, justifica qualquer mudança de atitude. O ser livre é a senha necessária para permitir que, o que se ajusta hoje, seja impiedosamente, descumprido amanhã. Assim, em quem confiar?

Embora este seja o pensar de muitos e muitos seres humanos, o preço por qualquer infidelidade é sempre o mesmo: o descrédito e a desconfiança. Aquele que deixa de cumprir um compromisso assumido torna-se pessoa “não confiável” e, com tais tipos de pessoas, nem eu e nem tu queremos manter qualquer tipo de negócio, simplesmente, porque não queremos ser bobos de ninguém e, quem é infiel uma vez, pode sê-lo duas, três ou para o resto da vida.

Dirás tu, em compaixão para com o infiel: mas, todos merecem uma segunda chance. É verdade. No entanto, manter a fidelidade exige uma constância comportamental. Basta ser fiel uma ou duas vezes para adquirir-se a confiança alheia. Porém, para desconfigurar a infidelidade, o sujeito terá que manter uma constância de fidelidade muito maior porque, dir-se-á a respeito dele (infiel), já mentiu uma vez, pode mentir de novo; já traiu uma vez, pode trair de novo; já negligenciou uma vez, pode agir do mesmo modo outra e outras vezes. Então, para o infiel, o prazo de recomposição do crédito e da confiança será sempre muito maior, e qualquer escorregão é mais do que suficiente para lançá-lo, novamente, no fundo do poço.

Por esta razão, é de se aconselhar aos jovens, que estão dando os primeiros passos para a vida adulta: assumam compromissos com seriedade e, uma vez, assumidos, cumpra-os rigorosamente, mesmo que, ao final, contabilizem algum prejuízo material. Será sempre muito melhor sofrer algum prejuízo material do que um quase insuperável prejuízo moral. Deixa este ônus para os que contigo contratarem. Se toda uma geração passar a agir desta forma, e a assim ensinar aos seus descendentes, pode ser que, algum dia, por mais distante que possa estar no futuro, a palavra volte a ter o valor que os infiéis de todos os tempos, com seus comportamentos falhos e inescrupulosos, corromperam.

Penso que, agora, em teu coração, não pairam muitas dúvidas acerca da fidelidade e das suas implicações. Exemplos, certamente, virão às centenas diante de ti. Basta refletir um pouco.

Em todo caso, espero ter contribuído, por pouco que tenha sido, para o teu crescimento pessoal e espiritual. Reflita sobre tudo o que está dito e, caso julgues oportuno e conveniente, compartilha com teus semelhantes. Vai que a tua versão seja mais bem sucedida do que a minha. Afinal, é nosso dever levar, sempre e sempre, boas e saudáveis ideias a todos os nossos semelhantes. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________________ [1] SILVA, Deonísio da. De onde vêm as palavras. Origens e Curiosidades da Língua Portuguesa. 17ª ed. Rio de Janeiro. Lexicon, 2014. p. 201. __________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, pensador espiritualista, caminhante e cultor do silêncio.

jul 20

EDITORIAL DA SEMANA: SEGUES OU IMITAS O TEU MESTRE?

MESTRE E DISCÍPULO

OS MESTRES E SEUS SEGUIDORES –

*Por L. A. de Moura –

Tua história, relacionada com o seguimento a mestres, doutrinas e religiões, traz-me à memória o conhecimento adquirido ao longo da minha incansável caminhada, acerca da existência e da vida de dois grandes mestres que, um dia, estiveram aqui, entre nós, seres humanos. A humanidade, é claro, conheceu muitos e diferentes mestres. Cada um deles teve a sua época, o seu momento, a sua fama e o seu prestígio e, certamente, deixou a sua própria história para as gerações futuras. Mas, para lançar um pouco de luz no teu caminho, quero falar, apenas, sobre dois deles sem, no entanto, revelar seus nomes. Caso queiras, sinta-te à vontade para identificar um e outro, de acordo com teus conhecimentos ou intuições.

O primeiro mestre viveu alguns séculos antes do segundo. Assim como o segundo, o primeiro, também, era filho de rei, portanto, ambos pertenciam à linhagem da alta nobreza. No entanto, ambos também decidiram abdicar totalmente de suas nobrezas para, ao contrário do que deles era esperado, viverem na mais absoluta pobreza, simplicidade e humildade. O primeiro deles nasceu em berço de ouro e, posteriormente, deixou tudo para trás para seguir seu caminho com, apenas, a roupa do corpo. O segundo, conforme a história que é contada sobre ele, desde que foi concebido, abdicou da condição de nobre e de filho do rei, preferindo nascer, crescer e viver em meio à pobreza do seu tempo, para poder sentir, na própria pele, todas as angústias e os sofrimentos a que são submetidos os mais pobres e mais humildes.

Fazia parte da essência daqueles dois mestres, revelados bem mais tarde, estarem com seus espíritos absolutamente voltados para algo muito maior, para o Transcendente. Assim, entendiam e ensinavam que este mundo é, pura e simplesmente, uma mera passagem. Ensinavam que os seres humanos passam por aqui, porém, não ficam para sempre e que, desta forma, é inútil acumular bens e riquezas. Ensinaram, cada um no seu tempo, o amor, o respeito, o perdão, a compaixão e a reverência ao próximo. E, mais do que ensinar, ambos souberam viver em total e absoluta coerência com o que pregavam para o séquito que os acompanhava.

Nenhum dos dois escreveu nada, nem ditou nada para ser escrito para a posteridade. Porém, ambos tiveram suas palavras e seus feitos narrados de diversas maneiras ao longo dos séculos. Pessoas muito próximas a cada um deles, e, de acordo com suas memórias, foram compondo diversos escritos que rodaram, e que ainda rodam o mundo todo, passando de mão em mão e repetidos de boca em boca. Quase tudo o que foi feito e dito por eles, ou a respeito deles, chegou até nós.

Não é preciso destacar que, tanto um quanto o outro, fizeram muitos discípulos. É próprio dos mestres, principalmente, daqueles dos tempos antigos, terem seus discípulos, ou seja, aqueles que, abraçando seus ensinamentos, tratam de viver e de ensinar tudo o que aprenderam enquanto estiveram na companhia sábia dos seus iluminados e sábios orientadores, sendo fielmente seguidos de geração em geração.

São muitas as semelhanças entre os dois mestres. Entretanto, as diferenças começam a sobressair quando analisadas as atitudes dos seus seguidores ao longo da história. Se, no caso do primeiro mestre, seus discípulos primitivos e seus seguidores, de até hoje, trilharam e ainda trilham mais ou menos os mesmos caminhos traçados por ele, o mesmo não pode ser dito em relação aos seguidores, ou aos que dizem ser seguidores, do segundo mestre.

Se, no caso do primeiro mestre, seus seguidores mantém fidelidade na constante busca da paz, da união, do desprendimento e da abnegação; se vivem no caminho da sabedoria, ou pelo menos na busca constante dela, o mesmo não se pode dizer acerca dos seguidores do segundo mestre.

Por fim, se, no caso do primeiro mestre, seus seguidores, em todo o mundo, multiplicam-se silenciosamente, os seguidores do segundo mestre, em todo o mundo, estão em lenta, mas, progressiva, decadência.

No século passado, um grande líder espiritual chegou a dizer publicamente que não era seguidor do segundo mestre, justamente, por causa das atitudes dos seus seguidores, tamanha a discrepância entre a vida e o ensinamento do mestre e a vida e o proceder daqueles que se dizem alinhados com ele.

Bem, não é preciso dizer, embora estejamos dizendo, que quem se diz seguidor de alguém, deve seguir precisamente os ensinamentos, as lições e o proceder deste alguém, sob pena de desgastá-lo perante o mundo. Esta é uma lição da qual tu não podes esquecer, para o seguimento ao teu mestre de escolha: não o sigas apenas, porém, imita-o em tudo o que ele ensinou e praticou.

O primeiro mestre pregava a paz. Na mesma linha, seus seguidores, ainda hoje, pregam e vivem na busca constante da paz entre si e com o mundo que os cerca. O segundo mestre, da mesma forma, pregava e vivia na mais absoluta paz. Seus seguidores, ou pelo menos aqueles que se autointitulam como tais, vivem em constantes conflitos entre si, além de alimentarem a discórdia junto aos que não compartilham do mesmo seguimento.

Enquanto os seguidores do primeiro mestre reservam tempo para a meditação e para a contemplação, procurando o esvaziamento de si mesmos, com o constante preenchimento dos seus espíritos, os seguidores do segundo mestre não encontram tempo suficiente, sequer, para uma reflexão espiritual constante, além de desconhecerem completamente o significado do “esvaziamento de si mesmos” e de prestarem culto ao acúmulo de bens e de riquezas, aos quais dedicam a maior parte das suas vidas.

Enquanto os seguidores do primeiro mestre acreditam piamente que, com o tempo, podem se igualar ao sábio, os seguidores do segundo, alegando a condição humana, cheia de imperfeições, não creem na possibilidade de serem iguais ao seu mestre, embora dele se diga ter afirmado ser possível, não apenas poderem ser iguais a ele, mas, até mesmo superá-lo.

E, o mais chocante nesta história, que não é fictícia, é que o número de seguidores do segundo mestre supera, em muito, os do primeiro mestre, para comprovar que, quantidade e qualidade são atributos muito diferentes e que fazem, sim, toda a diferença. Principalmente, quando olhamos para o estágio atual da humanidade e percebemos o quanto estamos precisando, na prática do dia-a-dia, dos ensinamentos de ambos os mestres, especialmente, os do segundo.

Se é verdade, como parece ser, que os seres humanos são, de fato, imperfeitos, também é verdade que os seguidores do segundo mestre pouco se lixam para a busca da sabedoria ou da perfeição. A grande maioria deles se preocupa, em primeiro lugar, com suas necessidades pessoais e familiares. Muitos, dentre os que juram serem seguidores do segundo mestre, praticam o mal em plena luz do dia; buscam levar vantagem em tudo; longe de semearem o perdão ou de perdoarem seus ofensores, defendem a “justiça” do olho por olho e do dente por dente inventando, nas últimas décadas, o famigerado “dano moral”, ou reparação moral, por meio do qual, buscam o recebimento de valores até como paga por vidas perdidas, como se o dinheiro pudesse desconstituir danos fatais. Fazem discriminação de pessoas, rejeitam raças, sexos, crenças e ideologias políticas em nome de uma altamente discutível moral. E se alguém se dirige a qualquer um deles e questiona a quem seguem, afirmam serem seguidores do segundo mestre.

Ora, examinando os seguidores de ambos os mestres, suas vidas e suas práticas, chega-se rapidamente à conclusão que os seguidores do primeiro veneram e honram, de fato, a sua mensagem e a sua memória, enquanto os seguidores do segundo, em muitos casos, ultrajam e desonram a mensagem e a memória daquele que lhes dedicou sua vida em toda a sua plenitude.

Parece ainda ser possível reverter o quadro. Cada um segue o mestre que quer e com o qual mais se identifica. No entanto, seria muito bom se cada um procurasse não apenas, seguir, mas, e, sobretudo, imitar o mestre que decide seguir, porque, seguir alguém é muito fácil, o difícil mesmo é imitar-lhe nas práticas que decorrem dos seus ensinamentos.

Imagino que tenhas diante de ti duas tarefas básicas e, ao mesmo tempo, importantes: primeiro, identificar nominalmente estes dois mestres; depois, descobrir a qual dos dois queres seguir. Feito isto, terás de venerar e honrar a mensagem e a memória do mestre escolhido. Então, e somente então, estarás caminhando em uma direção mais ou menos ajustada. Mas, perceba: não basta seguir. Aliás, não deves apenas seguir. Necessitas, de fato, imitar o teu mestre em tudo o que ele ensinou e em tudo o que, de fato viveu. Caso contrário, estarás, além de perdendo o teu tempo, maculando a vida, a mensagem e a memória daquele a quem decidistes dedicar a tua vida.

Este texto tem por finalidade convidar os leitores a uma profunda reflexão acerca das suas atitudes em relação ao mestre, ou aos mestres, que decidiram seguir, verificando se estão sendo, de fato, coerentes com os ensinamentos e com a própria vida daquele(s) que afirmam seguir. Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, pensador espiritualista, caminhante e cultor do silêncio.

     

jul 13

EDITORIAL DA SEMANA: O PREÇO DA LIBERDADE

LIBERDADE DE ESCOLHA

A LIBERDADE: DILEMAS E ANGÚSTIAS NA HORA DE FAZER ESCOLHAS –

*Por L. A. de Moura –

Convido você, hoje, para uma caminhada na longa estrada percorrida por todos os amantes da liberdade. Trata-se de um dos maiores, e mais auspiciosos, atributos concedidos pelo Criador, aos seres humanos. Com a natureza não é assim. A nenhum outro ser vivo foi concedida a liberdade. Assim, os pássaros, por exemplo, voam porque não têm outra opção e, quando feridos em suas asas, têm a locomoção totalmente obstruída. A lógica é a mesma em relação a todos os demais seres vivos.

Aos seres humanos, porém, o Criador desejou dotar com o atributo da liberdade que, por mais que pareça saudável e, sempre, desejável, é, também, agente provocador de dilemas e de verdadeiras angústias. Você, em um primeiro momento, pode sentir algum tormento na alma, vindo mesmo a questionar: “ora, se a liberdade é, como é, tudo de bom, por que tem o poder de provocar efeitos negativos?” E eu te respondo dizendo não se tratar de efeitos, digamos, negativos, mas, de profunda dúvida na hora em que somos chamados, e sempre o somos, a decidir livremente sobre as opções que temos, inevitavelmente, que fazer.

Vou te dar um exemplo simples: não importa, aqui, se você crê ou não na Bíblia. Não importa se você é pessoa de fé ou se optou por não a ter. Importa, apenas, que você observe o exemplo: a narrativa bíblica acerca da Criação dos seres humanos, traz para nós a figura mítica do primeiro homem e da primeira mulher que, colocados em um cenário paradisíaco, recebem a ordem para não tocar no fruto produzido pela árvore da ciência do bem e do mal, sob pena de morrerem. Ora, até aí, tudo caminhava muito bem. Aquele primitivo casal não tinha mesmo qualquer intenção de tocar no fruto proibido, até que alguém – uma astuta serpente – apresenta a opção de comerem daquele fruto, para se tornarem comparáveis aos deuses, conhecendo o bem e o mal, assegurando-lhes que a tal da morte não os alcançaria de forma alguma (Gn 3, 1-5).

Bem, ainda que não tenha qualquer resquício de fé, você admitirá que aquele primeiro casal ficou diante de um dilema: comer ou não comer do fruto proibido? Se não comessem, ficariam livres da morte, porém, não teriam acesso à ciência do bem e do mal e, embora tivessem de tudo ao seu dispor, viveriam meio que alienados, além, é claro, de perderem a oportunidade de serem como os deuses. Se, por outro lado, optassem por comer do referido fruto, conforme sugerido pela serpente, correriam o risco de, mesmo tomando ciência do bem e do mal, perderem a vida, cujas consequências, para eles, era absolutamente desconhecida. Eis o primeiro dilema do ser humano diante da liberdade com a qual havia sido dotado. Todos nós sabemos qual foi a opção escolhida!

Ora, a liberdade tão desejada, querida e amada é, também, fonte de problemas porque, caso façamos a escolha equivocada, para dizer o mínimo, poderemos comprometer não apenas a nossa, mas, a vida de outras pessoas também. Desta forma, você já deve ter compreendido que ser livre importa, sempre, em fazer escolhas e que, quase sempre, na hora de escolher, a angústia toma conta da nossa alma. Veja que, decidir entre o bom e o ruim é fácil: você sabe o que é bom e o que é ruim. Aí não tem problema algum, você decide sem piscar, descarta o ruim e fica com o bom. Escolher entre o pior e o menos ruim também não guarda qualquer mistério. Porém, escolher entre o bom e o bom, aí sim, gera o dilema, a dúvida e a angústia. Veja o seguinte exemplo: uma família amiga convida você e sua família para um super churrasco no próximo final de semana. Vocês ficam, desde o convite, com água na boca, porque conhecem muito bem o churrasqueiro e sabem que o cara manda bem. Sabe comprar a carne de primeira, conhece a melhor marca da linguiça, sabe temperar, sabe cortar, conhece o ponto ideal da carne, além de ser mestre nos acompanhamentos de praxe.

Entretanto, mal você desliga o telefone, no qual falava com o churrasqueiro amigo, uma super amiga da família convida todos vocês para uma deliciosa bacalhoada, justamente no próximo final de semana. Vocês conhecem muito bem a cozinheira, sabem que ela manda muito bem quando o prato é feito à base do bacalhau. Sabe o ponto ideal do tempero; escolhe o tamanho ideal das batatas; sabe desfiar o bacalhau como ninguém; compra sempre o bacalhau norueguês, porque desconfia do bacalhau do Porto; compra azeite e azeitonas importadas da Espanha; usa o alho chileno, além de ser doutora no arroz branco solto como grãos de areia. Enfim, todo mundo com água na boca. Surge, então, o dilema: churrasco ou bacalhau? Aceitar um convite importa recusar o outro. E o pior, terá que inventar uma desculpa muito boa, porque ambos os anfitriões conhecem muito bem o seu gosto para as iguarias que estão se propondo a fazer. E você e sua família, sem dar, ainda, qualquer resposta aos convites recebidos, ficam atordoados: “Para onde iremos no próximo final de semana?”

Quer mais? Você, profissional de mão cheia, com mestrado e doutorado (devidamente comprovados, é claro) na sua área acadêmica, recebe um convite para trabalhar na sede de uma empresa multinacional, em Toronto, no Canadá. Salário dez vezes maior que o que ganha aqui no Brasil, casa, carro e todo o conforto para você, só para você. A política de migração do País não favorece a sua família, e a empresa não oferece qualquer benefício extensivo a ela! Caramba, que dilema: ficar no seu emprego aqui, no seu País de origem, ao lado da sua família, mulher e filhos, ganhando X, sem muitas perspectivas, ou ir, sozinho para o Canadá, ganhando dez vezes mais, porém, longe do seu berço e do seu lar? É você que deverá ligar para quem te convidou e dizer: “sim, eu vou”, ou, “infelizmente, não vou”. Em qualquer caso, seu coração ficará angustiado, para dizer o mínimo.

Eu compreendo que, neste ponto da nossa caminhada, você já deve estar preferindo abrir mão de qualquer forma de liberdade. Já deve estar passando pela sua cabeça a genial ideia utilizada pelos condôminos do seu prédio que, não querendo sofrer traumas ou aborrecimentos, deixam de comparecer às reuniões agendadas pelo Síndico, valendo-se do usual: “o que for decidido pela maioria, eu aceito sem problemas”. Só que, você sabe, aceita sem problemas quando o assunto não termina em contribuição extraordinária, cujo valor, dependendo da situação, é, digamos, salgado para o seu bolso. Ou, ainda, quando você deixa de votar em qualquer candidato nas eleições gerais, simplesmente, por se valer do bordão popular: “não voto em ninguém, porque políticos são todos iguais”. Aí, poucos meses depois, você vai para a rua, em marcha ao lado de outros que deixaram de fazer suas opções, erguendo faixas com os dizeres “FORA FULANO” e “NOVAS ELEIÇÕES JÁ”.

Ou seja, meu amigo, minha amiga, você não pode deixar de fazer escolhas. Você terá que decidir se vai no churrasco ou na bacalhoada; terá que decidir se vai para o Canadá ou se ficará no Brasil; terá que comparecer na reunião do condomínio e, por fim, precisará eleger um candidato para representa-lo na política municipal, estadual ou federal.

Talvez você esteja sofrendo por antecipação, porque nada disso está acontecendo na sua vida neste momento. Mas você sente o drama na própria pele e quer porque quer saber como conviver com esta mal ou bem dita liberdade. E eu, para te atormentar ainda mais, poderia responder simplesmente: não sei, o problema é seu. É você que deve tomar as suas decisões, eu tomo as minhas. E ir embora já, sem te dar mais nenhuma chance de argumentar.

Mas, eu não sou desses! Vou tentar te ajudar dizendo o seguinte: existem quatro pilares, que não são secretos, por isso posso te contar, sobre os quais você deve ancorar a sua liberdade: a prudência, o bom senso, a sabedoria e a sua personalidade.

Sobre estes quatro pilares você sempre tomará decisões sobre as quais não terá qualquer arrependimento. E mais, devido à sua personalidade, você certamente não ficará preso a dilemas ou a angústias, simplesmente porque, na hora de fazer escolhas, decidirá com bom senso, com prudência e com sabedoria. Isto está em você, faz parte da sua personalidade. Onde a maioria fraqueja, você decide de forma arrojada. Onde outros titubeiam, você sabe exatamente o que é melhor, mais acertado, mais justo, mais inteligente, mais humano e, portanto, mais sábio. Assim, tanto no primeiro quanto no segundo exemplo, você entregaria a decisão nas mãos da sua família, porque você é pessoa vinculada a valores e família, para você, é um valor absoluto. Isto está em você, faz parte da sua formação, da sua personalidade. Nos demais exemplos, você decidiria por si próprio, primeiro, indo à reunião de condôminos porque sua personalidade não admite que ninguém decida nada por você. O valor aí é a sua autonomia participativa. Decidiria, também, votar nos candidatos mais recomendados, para a representação política nas esferas municipal, estadual ou federal, sabendo dos riscos que este tipo de operação podem trazer. Mas, graças à sua personalidade, um dos seus valores é assumir riscos inevitáveis.

Veja, por tudo o que foi dito até aqui – e já estou propondo o final desta conversa – parece ter ficado claro para você que a própria liberdade é um valor muito relativo, haja vista que ela, apenas, nos impõe a obrigação de fazermos escolhas. Ou seja, não temos escolha: ou decidimos e sofremos as consequências, ou, deixamos de decidir e, também, sofremos as consequências. Então, a saída é pelo caminho da prudência, do bom senso, da sabedoria e da personalidade que, ao fim e ao cabo, é quem ditará a escolha da hora.

Acredito que não transtornei a sua vida. Tenho esperança de que, ao contrário, trouxe para você um pouco de alento, e de material para ampla reflexão, no que diz respeito ao atributo sagrado com o qual o Criador nos brindou mas, que, por causa das nossas limitações, acaba se transformando em verdadeiro tormento.

Confio que você, na hora de fazer escolhas, se lembrará desta nossa conversa e, lançando mão da sua personalidade, agirá com prudência, com bom senso e com sabedoria. Para o seu bem e o de todos os que estão ao seu redor.

Este é mais um texto convidativo para a reflexão. Obviamente que você é livre para refletir sobre ele, ou, simplesmente, descartá-lo. Fique à vontade. No mais, independentemente da escolha que fizer, seja feliz, e boa sorte!

_______________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, pensador espiritualista, caminhante e cultor do silêncio.

Posts mais antigos «

Apoio: