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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

mar 18

EDITORIAL DA SEMANA: TODA ESCOLHA TRAZ CONSEQUÊNCIAS

FAZER ESCOLHAS

OS FRUTOS QUE COLHEMOS NASCEM DAS ESCOLHAS QUE FAZEMOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quantos prantos e lamentos  chegam a todo instante aos ouvidos de Deus, com súplicas e clamores por socorro, além das previsíveis blasfêmias e heresias. Tudo, em decorrência das dores e dos dissabores enfrentados por todos e por cada um de nós no longo curso da vida. Abre-se aqui um parêntesis para falar sobre esta questão do ”longo curso da vida”. Só se valem desta expressão os que sofrem e que esperam a vinda do Senhor, como a solução final para todos os problemas, a cura para todas as formas de enfermidades e a justiça para todos, acima de tudo. Os que que vivem no prazer, na felicidade mundana e no regozijo das benesses de tudo de bom e de melhor que o mundo pode oferecer a um vivente, sempre acham que a vida é curta demais e que deveria haver um acréscimo, todas as vezes que o fim estivesse próximo.

Bem, fechado o parêntesis, aos ouvidos da divindade chegam todos os nossos clamores, em face de tudo o que sofremos aqui neste plano terreno. Obviamente que Deus não pode ser responsabilizado por nada de mal que ocorre debaixo do sol, haja vista ser impossível para Deus praticar o mal e que, por Ele, nós estaríamos no paraíso, usufruindo de tudo e, inclusive, da vida plena e sem fim. Entretanto, como espécie, o que fizemos? Fizemos uma simples escolha.

Escolha. Eis a palavra que define tudo sobre nós. Sempre, depois que nascemos, fazemos escolhas. É o sinal mais evidente e identificador do livre arbítrio com o qual somos dotados por Deus que, apesar de tudo o que nos ensina, sempre conhece o lado para o qual pendemos. Não em vão, já no Paraíso Deus não diz que “se” o homem comer da árvore proibida morrerá, mas, afirma categoricamente que “O dia em que dela comerdes, certamente morrereis”, porque Ele já sabia o final daquela novela. Pois bem, escolha é sempre a opção que fazemos, ou até mesmo deixamos de fazer, diante das diversas possibilidades que nos são apresentadas. É preciso saber, no entanto, que as escolhas trazem embutidas, de forma inevitável, consequências, e é aí que reside o nó górdio da questão. As escolhas que fazemos nem sempre se nos apresentam de forma completa e transparente, ou seja, praticamente nunca as escolhas revelam as contraindicações, como nas bulas dos remédios, que avisam sobre os riscos e os perigos que podem ser enfrentados pelos pacientes,  depois da ingestão daquele produto.

A vida não tem bula, e justamente por esta razão, nossas escolhas são feitas, normalmente, em razão dos impulsos que nos movem: compramos porque queremos; vendemos porque julgamos ser bom; mudamos de emprego porque achamos mais oportuno e vantajoso; trocamos de profissão porque estamos convictos de termos encontrado a verdadeira vocação; divorciamo-nos porque encontramos alguém que vai nos fazer mais felizes, ou simplesmente porque estamos cansados do outro. Enfim, são inúmeras as possibilidades de escolhas às quais somos convidados a fazer todos os dias, ao longo da nossa existência.

Entretanto, todas e cada uma das escolhas que fazemos trazem, a curtíssimo, curto, médio e longo prazos consequências para as quais quase nunca fomos ou estamos preparados. Daí as decepções, os arrependimentos, os sofrimentos, as angústias e as amarguras que caem sobre as nossas cabeças como se fossem bolas de ferro que, de tão pesadas, fazem com que passemos a sentir o chão afundando sob os nossos pés. Aí, nestas horas, bradamos a Deus! choramos, oramos, erguemos os braços na direção do céu falamos impropérios, sentimo-nos totalmente abandonados à própria sorte, outros até acham que estão sendo colocados à prova por Deus e tem, ainda, os que acreditam estarem sendo severamente castigados por algum mal feito no passado.

Dificilmente, no entanto, alguém admite estar sofrendo as consequências decorrentes de escolhas que foram feitas em dado momento. Escolhas que, na ocasião, pareciam acertadas e cheias de promessas sedutoras. Escolhas que propiciavam certas vantagens ou lucros acima do normal, mas que a pessoa, naquele instante, sentia-se premiada pelos céus com aquilo que lhes parecia verdadeira dádiva. O que ontem parecia verdadeira benção e premiação, hoje parece maldição e castigo!

E tais escolhas são feitas de forma individual ou coletiva. Individual, quando os beneficiários diretos somos nós mesmos; coletiva, quando escolhemos algo ou alguém para atuar, direta ou indiretamente, sobre toda a sociedade como, por exemplo, na eleição de um governante ou de um parlamentar. Muita gente acredita não ser culpada por nada de mal que ocorre na sociedade como um todo, mas, o engano é abissal, haja vista que a escolha direta ou mesmo a omissão na hora de escolher, faz de nós participantes ativos de tudo o que está em jogo porque, sempre somos convidados a fazer escolhas e, se fazemos más ou boas escolhas, ou mesmo se preferimos a omissão, estamos vinculados aos resultados e às consequências que daí advirão. Enfim, não tem muito jeito, agiu ou se omitiu, tem responsabilidade sobre as consequências.

Isso tudo para, no fim, afirmar-se que o modelo de família adotado pela ampla maioria da sociedade ocidental está, deveras, equivocado, porque parte do pressuposto de que somos absolutamente livres para decidir o que fazer com nossas vidas. Livres e imunes a uma ética e a uma moral para as quais muitos, e já há muito tempo, decidiram virar as costas por entendê-las objetos de manobras das religiões. Trata-se de escolha legitimamente feita por parcela considerável da sociedade humana mas que, como já o afirmamos, traz embutidas todas as consequências que, todos os dias, a mídia estampa diante dos nossos olhos, à exaustão, como a jogar no rosto de cada um de nós a culpa pelos resultados, agora, colhidos.

A extrema violência demonstrada por delinquentes de todos os matizes, o desamor e o desrespeito para com tudo e todos, a falta de apreço pelas instituições, de um modo geral, e pelos templos sagrados e religiosos, de modo especial, assim como o ódio racial e homofóbico, o desprezo aos mais velhos e desamparados, tudo isso é fruto direto da árvore plantada sob um modelo de família absolutamente adulterado e corrompido. Um modelo que, em nome da ampla liberdade de escolha foi, e ainda está sendo, alimentado por um tipo de adubo que, traz prazer, realização e até satisfação momentâneos, mas que, também, enrijece o coração e o espírito, gerando embriões que, quando crescem, são capazes de coisas inacreditáveis, como as que temos visto no noticiário do país e do mundo.

Nossos avós falavam sobre Deus; nossos pais falavam sobre Deus; nós quase não falamos sobre Deus. Nossos jovens, e mesmo muitos adultos, não sabem quem é Deus! E quando não se conhece Deus, de onde provém toda forma de vida, de onde provém um modo de vida condizente com a santidade e com a perfeição, perde-se a noção dos princípios e dos valores que moldam, justamente, a vida pacífica em sociedade. Resultado: tudo o que o noticiário nacional e internacional têm disponibilizado para nós, todos os dias e todas as noite.

Portanto, não devemos permanecer nesta profunda ignorância, acreditando ou querendo acreditar que o mal que cai sobre nós e sobre esta geração, decorre de provação, de castigo, do abandono à própria sorte ou, ainda, da chegada do final dos tempos, como muitos gostam de afirmar, mas, que decorre, sim, diretamente das escolhas que temos feito ou apoiado, ou, ainda, das nossas omissões porque, até o ato de permanecer inerte é uma escolha que tem suas consequências.

Devemos reservar alguns instantes da nossa tumultuada e agitada vida para refletir sobre as escolhas que temos, ou não, feito, avaliando acerca de cada uma, as consequências visíveis e mesmo as previsíveis e então, e somente então, haveremos de fazer o necessário mea culpa, livrando Deus de uma responsabilidade que Ele, definitivamente, não possui.

A proposta, como sempre, é para uma profunda reflexão e tirada de conclusões. Conclusões que podem mudar o curso de algumas vidas e, quiçá, de toda uma coletividade. Faça isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritual, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 11

EDITORIAL DA SEMANA: DIGA NÃO À HOMOFOBIA E À TRANSFOBIA

HOMOFOBIA - CRIMINALIZAR OU NÃO

HOMOFOBIA: UM CRIME CONTRA A PESSOA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém a tramitação, no Supremo Tribunal Federal, da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26, mediante a qual a Corte Suprema do País é provocada a decidir acerca da criminalização, ou não, da homofobia, caracterizada pelo preconceito contra a comunidade LGBT (Gays, Lésbicas, e Transgêneros).

A ADO decorre do fato de o Congresso Nacional ainda não ter legislado sobre a matéria, no sentido de criar norma penal protetiva de parcela significativa da sociedade, o que causa surpresa e certo espanto, haja vista a proteção legal de que gozam outras minorias.

O julgamento está suspenso, até designação de nova sessão pelo Presidente da Corte tendo, no entanto, sido proferidos quatro votos favoráveis à criminalização do ato homofóbico. Votos da lavra dos eminentes Ministros Celso de Mello, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, sendo os dois primeiros relatores da ADO 26 e do Mandado de Injunção 4733, respectivamente.

Dentre os que acompanham os votos do relatores, merece destaque o seguinte trecho do voto do Ministro Alexandre de Moraes, ao afirmar que: “Passados 30 anos da Constituição Federal, todas as determinações constitucionais específicas para proteção de grupos considerados vulneráveis foram regulamentadas com a criação de tipos penais específicos. No entanto, apesar de dezenas de projetos de lei, só a discriminação homofóbica e transfóbica permanece sem nenhum tipo de aprovação. O único caso em que o próprio Congresso não seguiu o seu padrão”[1].

A questão, certamente, será ainda objeto de acirrado debate no Plenário do STF, até porque existem, inacreditavelmente, vozes graúdas que defendem totalmente o oposto do que já decidiram os quatro primeiros Ministros. Diz-se “inacreditavelmente”, porque é de causar espanto e temor que agentes públicos graduados na República defendam abertamente que a homofobia e/ou a transfobia não merece qualquer especial atenção por parte do legislador que, por sinal, não está nem aí, mesmo, para o fato real, tanto, que é preciso que a Corte Suprema chame à responsabilidade aqueles cuja única competência é justamente a de legislar.

Parece ser impensável, nos dias de hoje, que atos praticados contra pessoas e grupos minoritários, possam ser admitidos no âmbito da normalidade, como se fossem decorrência ou mesmo consequência de uma condição de vida que a pessoa, de forma livre a autônoma, assume perante o corpo social. Atos praticados, sempre de forma rude e covarde, contra afrodescendentes, contra idosos, contra crianças e adolescentes e/ou contra deficientes físicos, que já contam com uma legislação penalmente impositiva, não podem ser dissociados das mesmas manifestações praticadas contra o amplo espectro da homossexualidade. Vale dizer: atos que importem em qualquer forma de discriminação, com exclusão ou mesmo com o uso da violência, em razão da opção de vida da pessoa, não podem, de forma alguma, passar imunes perante a dureza da lei. Afinal, o que é a lei senão a forma encontrada para normatizar e equilibrar a vida em sociedade? Que tipo de sociedade teremos se, como pretendem alguns, certas formas de discriminação ou de desapreço público passarem a ser aceitas, em decorrência de ideologias camufladas por uma moralidade altamente questionável?

Toda a sociedade pátria deve se posicionar neste momento! Inexistem quaisquer justificativas, sejam de natureza moral, religiosa ou mesmo ideológica, que possam servir de porto seguro para aquele que pratica qualquer forma de discriminação contra um cidadão ou uma cidadã cujos direitos são assegurados por uma mesma Constituição. Afinal de contas, vale repetir o que já tem sido repetido à exaustão: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (Artigo 5º, caput, da Constituição da República). Assim, a mesma mão legal que pesa sobre quem pratica o crime de racismo, deve pesar, também, sobre quem pratica atos de homofobia. Não existe diferença objetiva entre pessoas. Até pela própria lei natural, todos nós somos iguais: nascemos, crescemos, vivemos e, reproduzindo ou não, inevitavelmente, morremos. Desta sina nenhum ser vivente escapa. Então, por que uns devem ser tratados no rigor da lei, enquanto outros podem agir segundo suas próprias convicções, ainda que em prejuízo físico, moral ou psicológico do outro?

A democracia está assentada na estrutura tripartite do poder, onde a competência de cada um dos poderes constituídos é delimitada na Constituição e, quando algum deles deixa de exercer a competência que lhe é atribuída, cabe ao Poder Judiciário entrar em ação. É o caso!

Espera-se, sinceramente, apesar das vozes em contrário, que a Suprema Corte coloque os pingos nos “is” e reconheça, sim, como crime comparável ao do racismo, qualquer ato de homofobia praticado contra qualquer cidadão ou cidadã em território nacional, passível de punição severa e exemplar, concedendo o mandado de injunção postulado, na forma do inciso LXXI, do artigo 5º da Constituição da República, de modo a que a lei puna, de fato, “qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais” (Art. 5º, XLI da CR).

O que não podemos admitir é que pessoas e grupos, valendo-se dos slogans que julgam úteis e necessários para o exercício das suas atividades, pressionem os legisladores para promoverem o encurtamento dos direitos de determinados cidadãos e cidadãs, em função da opção de vida que cada qual, livremente, pode fazer e escolher.

Além do mais, a questão é, também, humanitária. Não podemos ficar calados diante de manifestações grotescas contra quem decidiu dar à vida um rumo diferente daquele dado pela maioria da sociedade. Do mesmo modo, não é de ser aceito que vieses radicais e fundamentalistas, originados na política ou na religião, sirvam de base para o acobertamento de atos nefastos de homofobia.

Este texto é apenas um convite à reflexão. Que cada leitor e cada leitora, na intimidade do seu espírito, na nobreza do seu coração e na liberdade de suas convicções possa tirar suas próprias conclusões e, julgando útil e oportuno, consiga um canal para externá-las de forma limpa e democrática, sim, mas, sempre em prol do outro. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=404076

mar 06

EDITORIAL DA SEMANA: ÉS PÓ, E A ELE RETORNARÁS!

TU ÉS PÓ

TU ÉS PÓ, E AO PÓ RETORNARÁS!

*Por Luiz Antonio de Moura –

A quarta-feira de cinzas, infelizmente, para muitas pessoas significa apenas o triste final de um período de folia, de festa e de todo tipo de permissividade que, portanto, carece de lamento e de uma certa tristeza nostálgica. Para milhares de pessoas, para não arriscar a casa dos milhões, as cinzas da quarta-feira significam o estado físico a que chegaram depois dos curtíssimos dias dedicados ao carnaval. Pode ser até que tenham certa razão, mas, não é apenas este o significado das cinzas que, inclusive, é objeto de celebração especial na liturgia católica, marcando o início do período quaresmal.

As cinzas que, como dissemos, é objeto da liturgia católica, remonta às origens da humanidade, logicamente, para os que creem na teoria do criacionismo, segundo a qual tudo e todas as coisas, inclusive, os seres humanos, foram criados por Deus. E, como não temos interesse em abrir debate em torno de teorias, trazemos para a mesa as referências bíblicas acerca das cinzas que, na verdade, é o que nos move e nos interessa no momento.

O ser humano não foi criado para a derrota, para o submundo ou mesmo para a morte. Não! Deus, ao criá-lo, pretendeu fazer dele imagem e semelhança Sua, conforme narrado no Livro do Gênesis (Gn 1, 26), ou seja, pretendeu que aquele ser humano vivesse em patamares divinos, constituído por toda uma inimaginável riqueza e pureza espiritual da qual nada poderia removê-lo. Nada, a não ser o pecado. Porém, quanto ao pecado, o Criador previne o homem para a ele não sucumbir e, de forma bastante simples, proíbe-o de comer do fruto de certa árvore, sob o alerta: “Qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

O ser humano, no entanto, desde a origem, e graças à matéria da qual foi tirado (terra), sempre foi suscetível a ouvir vozes outras que, não raro, indicam-lhe caminhos tortuosos, espinhosos que, em dado momento, irão lançá-lo ao encontro da lama de onde foi tirado. Assim aconteceu com aqueles primeiros seres humanos: deram ouvidos à voz de quem não admitia vê-los como imagem e semelhança de um Deus que, de tão amado, é invejado. Havia quem desejasse ardentemente destruir a criatura à qual Deus criara como primícia das primícias. E  foi justamente este invejoso e destruidor que decidiu falar ao ouvido de um daqueles primeiros seres humanos: “Vós de nenhum modo morrereis. Mas Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele (do fruto proibido), se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3, 4-5).

Convencidos de que aquela era a voz da sabedoria, e de que conhecer o bem e o mal era necessário e útil para o aprimoramento da criação, e querendo, eles próprios ocuparem o lugar de Deus, desobedeceram à ordem do Criador e saborearam os frutos daquela árvore da qual não deviam jamais se aproximar. A partir daquele ato, caem a pureza e a inocência e, também, e como decorrência, a impossibilidade de se livrarem da morte. Os seres humanos adquirem a finitude da matéria e, então, vem a sentença: “Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra, donde foste tirado; porque tu és pó, e em pó te hás de tornar” (Gn 3, 19).

Pó, é o resultado da decomposição total e absoluta da matéria à mais insignificante de todas as coisas. O mesmo há que ser dito acerca das cinzas, que representam o fim do fim da matéria orgânica. Um fim tão trágico que a matéria orgânica envelhecida ou mesmo vitimada pelo fogo, ao ser tocada, ainda que de forma bem leve, desfaz-se imediatamente em um vasto e poeirado conteúdo. Uma vez cinzas, cinzas para sempre!

É justamente esta a simbologia das cinzas referidas na liturgia da quarta-feira depois da folia a que os homens se dedicam, sempre sob os mais diversos e diversificados motivos, os quais, também, não interessa serem abordados aqui.

A Igreja convida todos os fiéis a prostrarem-se diante da realidade última desta existência, lembrando-nos das palavras do Criador:  “És pó e ao pó retornarás”.

Trata-se de recordação cada dia mais distante da realidade dos homens deste tempo, para os quais o que vale não é recordar, mas, viver. E viver intensamente cada momento permitido seja lá por quem for. Não interessa a boa parte dos seres humanos desta época saber quem são, o que são, de onde vieram nem para onde irão. Interessa-lhes, sim, aproveitar ao máximo toda a energia que sentem dentro de si, originada de um vulcão incendiário, que acreditam jamais ser extinto. Para esta gigantesca horda de humanos, Deus quer vê-los felizes da melhor forma que entenderem e que escolherem, ainda ouvindo a voz inicial: “certamente não morrereis”. Esta é a voz que impera, que libera, que abre todas as portas do mundo. Mas, também, é a mesma voz que impede, que obstrui e que fecha as portas do céu. É bom não esquecer que Deus, depois de expulsar os seres humanos do jardim do Éden, colocou “querubins diante do paraíso, brandindo espadas de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3, 24).

Na quarta-feira de cinzas somos convidados a recordar nossa condição final e, para os que creem, a buscar o arrependimento das nossas transgressões, ao mesmo tempo em que somos chamados à reconciliação, haja vista que, diante de nós, é colocado um período de quarenta dias para uma profunda reflexão acerca do que somos, de quem somos, de onde estamos e para onde pretendemos ir. Pretensão a qual, a depender do lugar, precisaremos baixar a bola da arrogância, da prepotência, do orgulho, da vaidade, do desamor e da desobediência e, seguindo a verdadeira voz Daquele que pode nos reconduzir ao paraíso, tomarmos consciência de que das cinzas poderemos ressurgir para a vida eterna.

Esta é uma das reflexões possíveis acerca das cinzas que marcam a quarta-feira pós-carnaval. Para aqueles que preferem o silêncio do quarto à ida ao Templo, sugere-se a leitura dos três primeiros capítulos do Livro do Gênesis. Trata-se de uma narrativa mediante a qual o autor sagrado vislumbra momentos, deveras, importantes e decisivos da origem de todas as coisas e, inclusive, da nossa própria. Vale a pena ler, refletir e auto programar-se para a continuidade de uma caminhada de retorno às origens quando, por meio e sob as ordens de Jesus Cristo, os querubins que guardam o paraíso permitirão a nossa passagem de volta para a casa do Pai. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 04

EDITORIAL DA SEMANA: NO CARNAVAL, TODOS FOGEM DE ALGUMA COISA

CARNAVAL

EDITORIAL DA SEMANA: CARNAVAL, DIAS DE FUGA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

            Chegamos a mais um carnaval! Muita festa, muita alegria, muita música e, enfim, muito de tudo o que faz a vida parecer um estágio de felicidade permanente, sem os assombros dos problemas, das dores, dos dissabores, das angústias, das surpresas negativas, dos roubos, dos mal feitos em todas as esferas de poder, das injustiças e de tudo o que, realmente, traz a infelicidade para milhões de pessoas.

            Mas, existe o carnaval! Este momento mágico que, no curso de alguns dias, apaga tudo o que é feio e pinta um quadro generoso e cobiçado. De sexta-feira de uma semana até o domingo da outra semana, para falar a verdade, o samba, com todos os seus adereços, é o senhor absoluto de todas as razões. É o anestesista que sara todas as dores e que congela todos os sentimentos de humanidade e de humanização.

            No entanto, nem todos permitem a anestesia da alma: jovens, pelo país afora, estão reclusos rezando, cantando louvores a Deus, fazendo novas amizades e assumindo compromissos com a ética, com a moral, com os bons costumes e com as boas práticas. Jovens que seguem as mais diversas denominações religiosas. Jovens que, acima de tudo, acreditam que existe algo de mais valioso do que a folia amnésica que invade o País levando multidões para os braços de uma alegria cara e desproporcional à realidade de suas vidas.

            Homens e mulheres, pais e mães, chefes de família, também estão reclusos em oração pelo mundo, pelo País, pelas famílias e pela solução de todo um manancial de problemas que tanto têm afligido a nossa sociedade e que, passados os dias mágicos do esquecimento e da fuga, certamente, retornarão com a mesma força de sempre.

            Muitos outros cidadãos e cidadãs, ainda que contra a vontade, estão trabalhando normalmente, para tentarem manter o bem estar de uma maioria comprometida com a fuga dos problemas, da dura realidade do dia-a-dia e, principalmente, com o bem estar dos turistas que, também, estão em busca do que nós temos de melhor, além do enriquecimento de tantos outros que, nestes dias, amealham verdadeiras fortunas às custas de quem reúne os últimos reais, para fazer a festa dos outros, fingindo estar feliz!

            Não se deve condenar as festas populares. Pelo contrário, devemos incentivá-las e, na medida do possível, delas participar com vigor, alegria e satisfação. Deus quer ver o seu povo feliz e festivo. O que devemos condenar é o silêncio daqueles que, nestes dias, mantêm-se calados diante da fome, do desemprego, das lotações nos hospitais públicos, da alta disfarçada nos preços dos alimentos, das passagens e dos remédios; calam-se diante dos mal feitos de todas as espécies, dos homicídios e das agressões, dos fanfarrões da política que estão esbanjando o dinheiro do povo, diante do povo e aplaudidos pelo povo, sem que ninguém os fotografe, filme ou grave, como se nestes dias, existisse uma espécie de alforria para tudo o que está acontecendo de mal na sociedade.

            O que devemos condenar com veemência é o incentivo dado por Administradores públicos aos promotores do samba e da folia tresloucada, sob a falsa alegação de que atraem e alegram os turistas, como se turista pagasse os salários atrasados de servidores públicos estaduais, que há muito estão vivendo em penúria nunca, jamais, vista em nossas terras. Passados os dias da alegria virtual, vem a tristeza real: falta dinheiro para a segurança pública, falta dinheiro para a saúde, volta à ribalta o decrépito rombo nas contas públicas e, principalmente, da Previdência, com brados de que só uma reforma dantesca no sistema previdenciário poderá salvar o País. Surgem novos e detestáveis aumentos de passagens de ônibus, metrôs e barcas, já estão preparando, inclusive, os consumidores para o aumento nas tarifas de luz, sem que ninguém, absolutamente ninguém, fale em incentivo ao pobre, ao trabalhador, ao doente, ao estudante, ao órfão, à viúva e ao indigente. A partir do fim da festa milagrosa, nenhum Administrador público tem dinheiro para incentivar mais nada. Incentivos? Só para o samba e para os grandes foliões, gente de fama e prestígio, porque o retorno é certo. Retorno para quem caras-pálidas?

            O carnaval seria muito mais bem vindo se viesse, todos os anos, para celebrar as vitórias e as conquistas do povo, com a sua promoção a uma vida mais digna, com remédios e alimentos mais baratos, atendimento médico de qualidade e imediato, educação de melhor qualidade, formando verdadeiros cidadãos para o País e para o mundo. Aí sim, deveríamos saudar o carnaval como a festa das festas e não, como temos vivido neste País, quando o carnaval nada mais é do que um período de fuga, no qual os sofredores fogem da sua realidade, os fanfarrões, mal feitores e irresponsáveis fogem dos holofotes e das câmeras que, nestes dias, sequer são direcionados para o lado oposto, dando continuidade ao noticiário perverso que, diariamente, invade nossos lares com as mais escabrosas notícias, quando são divulgadas coisas apavorantes que estão acontecendo no País e no mundo.

            Nestes dias, porém, parece que nada de mal, de sério ou de grave existe, tudo é belo, tudo é alegria e festa. O mundo mal e perverso acabou, todo o mal foi extirpado e só ficou um povo feliz e realizado que, como ninguém, sabe colocar seus blocos na rua, esbanjando alegria e liberdade para, inclusive, cortar a própria pele e deixar o fígado ou os pulmões à vista de todos, para o deleite dos sádicos, já que nada mais em seus corpos tem para esconder.

            Entretanto, o povo tem a palavra final. E, se o povo está se sentindo feliz, quem poderá contradizê-lo? Sorte dos palhaços, dos padeiros e dos cervejeiros, porque enquanto existirem circo, pão e cerveja, a alegria será geral e irrestrita, pelo menos até próxima distração pública. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

fev 25

EDITORIAL DA SEMANA: TODA MISSÃO TEM UM FIM!

FRUTOS DA VIDA - 2

MISSÃO CUMPRIDA, É HORA DE OBSERVAR OS RESULTADOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Muitos de nós acreditamos ser portadores de missões que, atribuídas por Deus, pela Lei, pela Cultura ou pela Moral, devem ser cumpridas à risca, fazendo desta, em muitos casos, a razão de ser da nossa existência. Não é pequeno o número de pessoas que só conseguem enxergar a vida sob a ótica da tal “missão” que, não raro, e para estas pessoas, dura por toda a vida.

Da minha parte, não enxergo a coisa exatamente desta forma. Penso que cada um de nós tem diversas missões para serem cumpridas no curso da vida e que, como tais, vão se sucedendo umas às outras, em uma saga contínua e permanente, cujo fim coincide com o término desta existência. Algumas missões são mais prolongadas do que outras; mais espinhosas; mais dolorosas; mais aguerridas; mais cansativas, mas, a todas é reservado um limite, um termo final. Um momento no qual dão-se por esgotadas e, portanto, encerradas, independentemente do resultado produzido. Daí por diante, parte-se para outra missão.

Exemplo que me parece bastante oportuno, principalmente, sob a ótica do momento atual da minha trajetória, é o relacionado com a missão a ser desempenhada com o foco totalmente voltado para os filhos. Trata-se de missão difícil, espinhosa e complicada, sim, mas, que tem tempo para findar. Não é missão de toda uma vida, porque, cumpre a cada pai e a cada mãe, acolher aquele serzinho que chega ao mundo para integrar a família, com todo o amor e com toda a dedicação possível e inimaginável. Chega da forma como todos nós sabemos e conhecemos muito bem: indefeso, inocente e carente de todo tipo de cuidado. Sem nada, completamente nu e absolutamente sozinho. De tudo e em tudo dependente de alguém! É a sina de todos nós, seres humanos: ao nascermos e ao morrermos, dependemos de alguém para nos levar de um lado para o outro!

Àquele pequeno ser que chega ao mundo, a mãe ensina por primeiro o caminho do bico do seio, levando-o à boca, para a primeira alimentação, seiva de continuidade de uma vida gestada em um ambiente propício, no qual nada faltava e tudo chegava da forma mais natural possível. Agora não! Agora ele depende da mãe para iniciar o processo da alimentação, com todos os suplementos e complementos necessários para que aquela vidinha ganhe mais tônus a cada dia, e  em todos os sentidos. Ele ou ela depende de alguém, normalmente, da mãe, para colher-lhe as primeiras (e muitas outras) fezes, trocando-lhe as fraudas e zelando pela manutenção e higiene daquele frágil corpo.

Depois, pouco mais tarde, vem o ensino de inúmeras outras atividades necessárias para o progresso daquele ser que, agora, já sabe pedir o famoso “papá”; já chora, quando não quer alguma coisa; já dá de mãos, com certa irritação, quando se sente objeto de abuso dos adultos corujões. Mas, ainda falta aprender a engatinhar para, em seguida, dar o primeiro grande avanço para a liberdade: os primeiros passos! Todos, na família, aguardam o momento deste pequeno astronauta fazer sua primeira caminhada que, para nós, serão apenas alguns passos, mas, para ele ou para ela, será uma grande caminhada rumo à independência. Daí por diante, ele/ela vai de vento em popa, mas, a missão do pai e da mãe ainda está longe de ser completada.

Vem o momento dramático da escola, dos primeiros contatos sociais com outros pequenos seres tão simples e inocentes quanto o nosso rebento. Mas, novamente estamos lá, ao lado dele ou dela, torcendo, dando força, incentivando e, não raro, também chorando pela insegurança de deixar aquela mudinha de árvore aos cuidados de jardineiros estranhos. Jardineiros e jardineiras que são, obviamente, bem preparados e muito bem treinados, mas, não somos nós! E acreditamos, sinceramente, que ninguém é capaz de fazer por ele ou por ela nada do que somente nós sabemos fazer.

A fase estudantil é uma das mais longas, mais complexas e mais delicadas porque pega nossos filhinhos com dois ou três anos de idade e acompanha-os até a entrada na Universidade. E nós, destemidos que somos, estamos ali firmes, fortes e resistentes. Resistentes às dificuldades por eles encontradas nos primeiros anos; resistentes em relação ao convívio com outros seres iguais que, vindos de outras raízes, possuem perfis, às vezes, bastante diferentes e complexos, assim como os modos de proceder em relação a tudo e a todos à volta. Resistentes às rebeldias da adolescência; resistentes ao ímpeto da juventude e, por fim, e já cansados, resistentes aos enfrentamentos abertos, resultantes do normalíssimo conflito de gerações.

Aqui, neste estágio, e na minha opinião, a missão paterna e materna caminha para o encerramento, porque, a partir do conflito gerado pela visão e consequente compreensão do mundo, quando o filho ou a filha enxerga o mundo e suas dependências com olhar próprio, muitas das vezes, bastante diferente do nosso olhar já treinado, experimentado e, porque não assumir, já viciado, acreditam já serem senhores absolutos dos próprios destinos, dispensando maiores comentários, evitando os diálogos mais aprofundados ou mesmo a necessária e saudável troca de experiências, para a verdadeira transmissão da vida e das suas vicissitudes. O que nós sabemos, ou achamos que sabemos, já não lhes interessa mais. Para eles, passamos a ser seres estranhos e já a caminho da obsolescência, seres de um outro mundo, de uma outra época, com outros valores e portadores de um “conhecimento” que a modernidade, sob muitos aspectos, já não reconhece mais como válido. É, quando acredito, a missão do pai e da mãe está encerrada”. Tudo foi feito, dito e ensinado. Experiências mil foram transmitidas. O que normalmente denominamos por "conselhos", foram distribuídos aos montões. Centenas de exemplos foram tomados como referências e indicativos para o bom e para o mau caminho. Enfim, aquele filho ou filha está preparado para a ação! E, de tão preparados, eles acreditam poder deixar de lado tudo o que receberam, e partir para suas aventuras e experiências próprias.

Dali por diante, é verdade, sempre estaremos prontos para o filho ou para a filha, mas, apenas para o acolhimento, o consolo e, não raro, para o socorro! E, quase sempre, o trunfo vitorioso é o da concordância ou o do silêncio.

É com esta visão e com este sentimento que vejo meu filho chegar aos vinte e um anos de idade! É preciso reconhecer, também, ser esta a primeira experiência pela qual estou passando. Mas ainda sou um menino, um menino que carrega no peito dúvidas, medos e inseguranças. Um menino que, infelizmente, não encontra outro menino para trocar ideias e experiências válidas para ambos, um mais velho, o outro, mais jovem. Tão jovem que, em razão da idade que chega e faz desabrochar toda a impetuosidade da vida, não percebe o valor absoluto, e a importância, do diálogo constante e permanente com este menino que ele já considera velho demais e fora de moda. Ambos são meninos, porém, cada qual refletindo o seu próprio tempo.

Um dia eu também tive vinte e um anos de idade, e como eu sonhei poder ser tratado pelo meu pai como um adulto, um adulto capaz de ter ideias e opiniões próprias e interessantes; um adulto capaz de principiar e de prolongar um diálogo forte, saudável e frutuoso para ambos quando eu, certamente, teria a vantagem de aprender muito mais. No entanto, meu pai, vindo de uma realidade na qual não conheceu o carinho, o acolhimento, o amor, o consolo ou mesmo o socorro de um pai ou de uma mãe, rechaçava, como evita até hoje, o diálogo aberto, franco e sincero com os filhos, por se achar, ele próprio, o senhor absoluto de todas as razões e de todas as verdades.

Do alto destes meus quase sessenta anos olho para os vinte e um anos passados como um raio, e percebo ter cumprido minha missão o que, para mim, é motivo de orgulho, satisfação e consolo pessoal e espiritual muito grande. Cumpri, sim, a missão que me competia como pai. Agora, resta-me apenas sentar na varanda e, tal qual o ancião que tem os olhos perdidos no horizonte, aguardar para apreciar os resultados do extenso plantio que fiz no decorrer destes últimos vinte e um anos esperando, ainda, para ver o que revelarão os anos vindouros.

Aos pais e mães mais jovens, não sirvo de modelo, porque ousei agir bem adiante no tempo, acreditando estar construindo pontes e viadutos pelos quais muitas cargas positivas seriam transportadas de forma permanente, espontânea e inteiramente gratuita. Entretanto, qual não tem sido minha surpresa, quando vejo que, tudo construído e desobstruído para gerar integração plena, assim como a produção de esplêndidos resultados, existe um pedágio a ser pago, instalado pelas artimanhas da vida. Um pedágio que dificulta o fluxo natural do transporte de projetos, planos e experiências, criando obstáculos onde não existem e obscurecendo a visão, impedindo a percepção e, evidentemente, afastando a possibilidade de se preparar, em larga escala, para as armadilhas que o futuro guarda para a totalidade dos seres humanos.

Não importa o quanto está sendo, ou o quanto ainda será, cobrado para a travessia das tais pontes e viadutos. O que realmente importa, para mim, e, talvez, até de forma egoísta, é a convicção de ter cumprido com o papel que me foi designado: o papel de pai! Cumpri-o com altivez e com determinação; cumpri-o com satisfação e com orgulho e, na condição daquele que planta uma árvore frutífera em terras alheias, ou mesmo nas próprias, espero que alguém recolha os frutos que, mais dia, menos dia, não tenho dúvidas, aparecerão. Afinal, o que é a vida, senão um plantar e um colher permanentes? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

   

fev 18

EDITORIAL DA SEMANA: TRABALHADORES DO BRASIL

TEMPOS MODERNOS - 2019

TEMPOS MODERNOS – O SÉCULO QUE VIVE NO PASSADO –

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quando falamos em “tempos modernos”, quase sempre vem à mente a lembrança do jovem Chaplin mergulhado no interior de uma fábrica de montagem de peças, apertando parafusos, em uma atividade tão frenética que,  já no intervalo para o almoço, mostrava as mãos trêmulas e vacilantes, repetindo o mesmo gesto, ainda que sem a chave na mão. Coisa de louco, diriam os jovens de hoje.

Diriam isto porque, muitos dos nossos jovens ainda não mergulharam no famigerado ambiente da produção em série de qualquer um dos objetos que consomem ou compram diariamente, pela internet ou mesmo nas lojas físicas. O trabalho de natureza repetitiva, manual ou intelectual que seja, ao invés de uma saudável prática e uma bem-vinda experiência, traz doenças físicas, mentais e espirituais, muitas das quais perseguem as pessoas pelo resto de suas vidas.

Parece incrível que tais ambientes ainda existam e que, por outra, ainda sejam comandados por pessoas que se revelam dotadas com a mesma mentalidade que vigorava no interior das fábricas das décadas de 1920/1930 do século passado. Porém, existem e estão cada vez mais presentes, tanto nos setores públicos, quanto nos privados. Tanto na produção em série, massificada, quanto no trabalho meramente burocrático e intelectual, dependente de relatórios e de decisões previamente elaboradas (os famigerados modelos), com a simples escusa de acelerar o trabalho, produzir mais e preservar pesquisas e coletas de dados já realizadas.

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador. Num primeiro momento, a simples e ingênua repetição de atos e de formas parece coisa simples, racional e saudável. Entretanto, o tempo se encarrega de mostrar que  chega a hora em que o trabalhador ou a trabalhadora passam a sofrer do vício do trabalho repetitivo, e ficam de tal modo vinculados ao sistema que, se for modificado o conteúdo central do trabalho, ele/ela passará batido e, olhando apenas para a peça e o instrumento ou para o título e para as primeiras linhas, dará o mesmo resultado para a questão posta diante de si, tamanha a lesão cognitiva que já tomou conta do seu precioso cérebro.

Aqui, volta a lembrança do trabalhador Chaplin embrenhado, e indefeso, em meio à multiplicidade de engrenagens, simbolizando muito bem tentáculos de um sistema que devora o ser humano de tal forma que, em pouco tempo, se sente como um verdadeiro dente da engrenagem. E mais: muitos, se veem como um dente muito importante na dinâmica que faz tudo girar ao seu redor. Tão importante que são capazes de tudo para se manterem atrelados ao sistema que, paradoxalmente, devora-os com prazer e satisfação e que, quando os consome totalmente, já tem outro, engrenado, para representar o mesmo papel, em um verdadeiro ciclo vicioso e ceifador de  saúdes e de vidas.

Ainda assim, desconhecendo ou fingindo desconhecer as severas consequências das regras impostas e alimentando todo o sistema, chefes intelectualizados, sindicalistas, trabalhadores e outros que se dizem do ramo, estão verdadeiramente assombrados com tudo o que vem sendo proposto (alguma coisa já foi, inclusive, implantada) no campo dos direitos trabalhistas sem, no entanto, mexerem um dedo sequer para questionar seriamente o condenável sistema produtivo, manual ou mesmo intelectual, no qual estão imersos até o pescoço milhões de trabalhadores, exigindo de subordinados, associados e comandados, apenas, e sempre, mais agilidade no processo produtivo, como que a bloquear ainda mais a capacidade intelectiva do cidadão ou da cidadã que, no dia-a-dia, produzem, de verdade, as grandes riquezas e mantêm, impreterivelmente, os ótimos bônus financeiros e os excelentes salários daqueles que, em posição de comando, estão no topo da cadeia produtiva.

O filme que relata a aflição e a descoloração pessoal daquele operário representado, de forma magistral, pelo jovem Charles Chaplin, não raro, é passado em palestras e em congressos, mundo afora, como modelo de produção a ser fortemente criticado e, de fato rejeitado pelos administradores modernos, haja vista o indizível mal que causa aos trabalhadores. Entretanto, ainda contaminados e, de certa forma embotados, pelo pensamento dominante naquelas já citadas décadas do século passado, todos eles  (líderes, chefes e administradores), com raríssimas exceções, mantêm o mesmo sistema de cobrança e de exigência de agilidade na produção de resultados em seus ambientes de trabalho, caçoando daqueles que afirmam estarem sofrendo e alegando não aguentarem mais o sistema viciante e viciado, ou, o que mais acontece, preparando a substituição do que denominam "maçãs podres".

Atualmente, em certas áreas do serviço público, adota-se o teletrabalho, como a joia da coroa. Diferentemente dos procedimentos similares adotados na iniciativa privada, nacional e estrangeira, líderes que representam estes setores públicos, além de não fornecerem equipamentos adequados e aptos à qualidade do trabalho, de não se responsabilizarem pelos efetivos custos operacionais e de não oferecerem um centavo a mais de incentivo para os trabalhadores, diferentemente do que ocorre no setor privado, ainda se acham no direito de exigir aumento expressivo da produtividade, no que contam, infelizmente, com a concordância dos trabalhadores e das trabalhadoras que, já embotados e incapazes de perceber o quanto estão sendo explorados, lutam para assegurar o que ainda acreditam ser um “privilégio”.

O teletrabalho, na forma em que foi pensado, planejado e executado com relativo sucesso por grandes grupos corporativos, grupos que, querendo ganhar cada vez mais, sabem o quanto é importante o bem estar dos seus empregados, tem por finalidade proporcionar aos trabalhadores e às trabalhadoras a possibilidade de executarem suas tarefas diárias no ambiente que lhes parece mais íntimo: a residência. E, justamente por respeitarem este ambiente íntimo, as grandes corporações fazem questão de encher estes trabalhadores de mimos, como jornada de trabalho inalterada, com respeito aos necessários intervalos regulares para a recomposição física, o fornecimento de equipamentos modernos, sofisticados e altamente eficientes, a manutenção periódica nos referidos equipamentos, serviço de help-desk funcionando de forma efetiva e eficaz, durante 24 horas por dia, além de um bônus salarial visando cobrir ou minimizar os custos de operacionalidade o que, incentiva e estimula tal modalidade de trabalho.

Isto sim, é respeitar o trabalhador e o seu íntimo ambiente residencial. Este sim, é o método que busca acrescentar ganhos pessoais, materiais e espirituais àqueles que asseguram os polpudos bônus financeiros aos sócios e acionistas ou os magníficos salários dos líderes, chefes e administradores. Aqui, sim, justifica que cada trabalhador ou trabalhadora lute com afinco para conseguir este que é um verdadeiro privilégio, totalmente oposto ao que tem sido oferecido aos trabalhadores brasileiros, principalmente, os de alguns setores públicos, cujos chefes e administradores acreditam, ou fingem acreditar, estarem na vanguarda do processo evolutivo do trabalho.

Penso ser chegado o momento de, mais do que direitos codificados, os trabalhadores buscarem formas de trabalho mais humanas e mais humanizadas, de modo que passem a ganhar algo que vale muito mais do que o dinheiro: o verdadeiro bem estar para a vida, com valorização e resguardo aos principais direitos da pessoa, onde quem comanda saiba respeitar o ambiente íntimo e pessoal daquele que lhe assegura os enormes ganhos e, por fim, a própria riqueza.

Caso contrário, o filme do velho-jovem Chaplin continuará a representar uma realidade que teima em não sair de cena. Uma realidade que tem transformado os nossos trabalhadores, ao longo do tempo, em bonecos robotizados, viciados na repetição de atos, de gestos e de comandos, que permanecem ativados e atuantes, mesmo fora do ambiente do trabalho, nas conversas de finais de semana com amigos e familiares, naquele papo que ninguém aguenta mais, mas que todos ouvem até por piedade daquele que se sente um importante dente da engrenagem produtiva na qual está inserido, pois todos percebem o prejuízo mental de que são portadores tais indivíduos. Reflita e, ainda que não concorde, veja se conhece realidade diferente e melhor. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

fev 11

EDITORIAL DA SEMANA: O TEMPO É ADVERSÁRIO DE QUEM NÃO O COMPREENDE

COMPREENDER O TEMPO

QUEM NÃO COMPREENDE O TEMPO, É DERROTADO POR ELE –

“Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito” (Ecl 3, 3). Portanto, é prudente, sensato e sábio compreender e respeitar o tempo e sua dinâmica, sem interferir, por qualquer modo, para acelerar o seu curso, permitindo que todas as coisas, ao final do termo próprio de cada uma, sejam reveladas e produzam os frutos desejados e esperados.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Um dos maiores desafios do estágio atual da civilização pós-moderna é conviver com o tempo, esse fenômeno que, mal compreendido, deixa as pessoas de cabelo em pé, diante da “urgência” com que tudo passou a ter que ser resolvido ou discutido, produzindo resultados da forma mais rápida e fulminante possível, de preferência, na velocidade do pensamento.

Esquecem-se, muitas pessoas, que tempo é o intervalo a ser percorrido entre aquilo que projetamos para o futuro e a efetiva concretização e que, fora das atividades meramente virtuais, no âmbito das efetivamente humanas, este intervalo necessita ser percorrido e esgotado completamente, para que, então, possamos contemplar aquilo que, lá atrás, queríamos ver realizado. No mundo virtual, na era de domínio do chip, tudo ocorre em tempo real, vapt-vupt. Basta dar um comando... e tudo aparece na tela mágica do aparelho eletrônico disponível.

Entretanto, fora deste cenário mágico do “tudo pra já”, proporcionado pela mais alta tecnologia virtual, não existe possibilidade de encurtar o tal espaço a ser percorrido entre o projeto e o resultado final de que falávamos acima. Alguns seres humanos, no entanto, teimam de forma insistente, e até meio ignorante, em fazer do tempo um instrumento a ser manejado ao bel prazer, pretendendo trazer para agora, já, os resultados (quantitativos e qualitativos) que só o regular transcurso do tempo pode proporcionar. Para tais pessoas, e eu conheço algumas, somos nós que manipulamos o tempo e, portanto, temos plenas condições de elastecê-lo ou de encurtá-lo, sem se aterem para o fato de que, qualquer adulteração promovida na natureza trará, inevitavelmente, consequências que, na esmagadora maioria das vezes, são indesejadas e até mesmo prejudiciais.

O processo de adulteração, seja em que campo for, desnaturaliza, consome além do possível, cria esgotamento, ocasiona tensões, prejudica o bem-estar geral e compromete seriamente a qualidade daquilo que, em condições normais, seria produzido com padrão de excelência.

Muitas pessoas, e, novamente, conheço algumas, não conseguem entender que aumentos no volume de projetos envolvem maiores prazos, porque, as distâncias a serem percorridas serão muito maiores e, portanto, consumirão mais tempo. Ou seja, trata-se de verdadeira insensatez, desprovida de inteligência e da própria prática do raciocínio, a fala daqueles que gostam de bradar “faremos mais com menos”, deixando de revelar que, aqui, o “menos” significa qualidade ou qualquer outra perda a ser imposta aos executores que agem em nome ou por pressão daquele que, por não compreender as vicissitudes do tempo, acredita deter em suas mãos o controle de um fenômeno que somente Deus domina plenamente, por ser o Senhor absoluto do passado, do presente e do futuro.

Não deve ser omitido, dos pretensos aceleradores dos ponteiros, que o tempo é o pior e mais cruel dos adversários daqueles que não conseguem compreendê-lo, porque, por não serem dotados da necessária compreensão, acabam sofrendo e impondo sofrimentos aos que os cercam que, não raro, são objetos de comando.

É preciso, não apenas compreender o tempo e sua dinâmica, como respeitá-lo profundamente e deixá-lo fluir da forma mais natural possível, agindo como se o hoje fosse hoje e o amanhã, amanhã. Não dá para viver sobrepondo-se às leis da natureza e, especialmente, ao tempo, na ânsia descontrolada de fazer tudo acontecer agora, já, como se o mundo estivesse marcado para terminar hoje e, ainda, assim, ter que deixar tudo prontinho, como se alguma valia tivesse para quem, eventualmente, sobrevivesse. Cada coisa, e, ao final, tudo, tem o seu tempo certo para acontecer. Não existe forma mágica para semear de manhã e colher à tarde, sob pena de, adulterando todas as lógicas e leis da natureza, colher-se algo terrivelmente descaracterizado e desconfigurado, capaz de investir contra a própria criatura. Os mais sábios, ou ao menos os mais providos de racionalidade, devem refletir sobre estas questões, a fim de servirem como verdadeiros exemplos, contribuindo para a formação de opiniões sadias e sensatas e não, como agem alguns, disseminando exemplos que levam-nos a recordar Jesus, que a respeito dos fariseus, dizia para os seus seguidores: “fazei tudo o que eles vos disserem; mas não imiteis as suas ações” (Mt 23, 3), tamanha a insensatez e a imprudência com que agiam aqueles que não arredavam o pé do templo, acreditando piamente, serem bons exemplos a serem seguidos, mas, que, na prática agiam de forma absolutamente contrária ao que ensinavam.

Relativamente ao tempo, ensina-nos o Eclesiastes: “Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito” (Ecl 3, 3). Portanto, é prudente, sensato e sábio compreender e respeitar o tempo e sua dinâmica, sem interferir, por qualquer modo, para acelerar o seu curso, permitindo que todas as coisas, ao final do termo próprio de cada uma, sejam reveladas e produzam os frutos desejados e esperados.

Por que é sábio, sensato e prudente agir assim, em relação ao tempo? porque é assim que o próprio Deus age. Leia-se a Bíblia: “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho, feito da mulher” (Gal 4,4). Ou seja, o próprio Deus esperou calmamente o decurso do tempo para, então, e somente então, enviar o Salvador de todos nós.

Que cada um procure curar sua ansiedade e seu desespero em relação ao tempo, pedindo socorro aos Céus, refletindo sobre o seu proceder e conscientizando-se de que, contra os fenômenos da natureza, o homem não deve investir, seja para prolongar, seja para acelerar, sob pena de arcar com as consequências daí decorrentes, mesmo que recaiam sobre os seus semelhantes como, não raro, acontece.

Este texto, assim como todos os demais até então escritos, pretende abrir espaço para uma profunda reflexão acerca do mal que fazemos a nós mesmos quando, mal compreendendo e até mesmo desrespeitando o dinamismo do tempo, permitimo-nos dominar pela ânsia, pela insensatez e pela imprudência e avançamos contra o seu transcurso, acreditando estarmos agindo bem e sendo bons exemplos quando, na verdade, é totalmente o inverso. Leia, reflita e tire suas conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

fev 04

EDITORIAL DA SEMANA: QUEREM MATAR DEUS

DEUS

“O homem ocidental parece ter tomado seu próprio partido; ele se libertou de Deus, vive sem Deus. A nova regra consiste em esquecer o céu para que o homem seja plenamente livre e autônomo. A nova regra consiste em esquecer o céu para que o homem seja plenamente livre e autônomo.” –

PRONUNCIAR O NOME DE DEUS VIROU MOTIVO DE PIADA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não bastasse a sentença de Friedrich Nietzsche, de que “Deus está morto”, acusando-nos por sua morte, hoje em dia estamos sendo sentenciados e condenados ao silêncio, quanto à pronuncia do Santo Nome. Para muitos, pode parecer um exagero tal afirmação, mas, basta ler os jornais, as revistas ou assistir os telejornais ou os programas especializados na saga política. Em todos eles, sem exceção, existe a chacota, o desprezo e até mesmo o desvio de finalidade em relação aos que, corajosamente, ousam falar que tudo e em tudo  fazem, devem, temem e invocam o nome de Deus.

Falar o nome de Deus tornou-se a senha privilegiada para reclamar de uma fantasiosa ditadura moral ou mesmo de uma trama urdida para fazer do Estado o Cenáculo do Altíssimo, como se dele necessitasse para se fazer presente e atuante. Os que pregam o silêncio sobre o nome de Deus, e de tudo quanto a Ele diz respeito, fazem questão de alardear aos quatro ventos que o Estado é laico, como se fosse suficiente para justificar a maldita sentença a pesar sobre as cabeças e os corações de pessoas que, sinceramente, fazem questão absoluta de atribuir ao Deus do Céu todas as conquistas, as derrotas, os conhecimentos e os aprendizados com os quais são, diariamente, premiados, assim como a Ele dedicar seus mais variados e diversificados projetos de vida, sociais, religiosos e/ou políticos.

Estamos próximos do dia em que o questionamento do personagem Nietzschiano será, também, o nosso: “Procuro Deus! Onde está Deus?... Já lhes direi! Nós o matamos, vocês e eu. Somos todos assassinos!”. E assim seremos comparados, porque estamos sendo coniventes, não com os assassinos, mas com os que desejam, de fato, a morte de Deus. Aqueles para os quais trata-se de sofrida tortura admitir que, acima deles, existe alguém que não é mais sábio, mas, a própria Sabedoria; não é mais poderoso, mas, o próprio Poder. Em meio a esta tortura imposta pelo senhor do orgulho, da prepotência, da ambição e da vaidade, os inimigos de Deus não suportam ouvir o Santo Nome e, em razão desta repelência obstinada, acusam os crentes de estarem misturando alhos com bugalhos, restringindo a “pronúncia maldita” aos púlpitos eclesiais.

Não obstante, diante dos terríveis desastres naturais ou das cenas mais horrendas causadas pela violência dos homens, os inimigos do nome de Deus fazem chegar aos nossos olhos e ouvidos as hordas que, de mãos dadas e, com velas e flores nas mãos, erguem a voz para recitar o não menos famoso “Pai Nosso...”, como que para chamar a atenção para o fato de que o Deus tão falado e tão festejado pouco se importa com sua suposta criatura. No fundo, o que querem é questionar uma fé que, na sua ótica obstinada pelo relativismo e pelo tudopodismo sem regra, não tem mais lugar na sociedade do século XXI que, certamente, a história futura intitulará como o século das trevas.

Chama a atenção as palavras do Cardeal Robert Sarah, para quem “O homem ocidental parece ter tomado seu próprio partido; ele se libertou de Deus, vive sem Deus. A nova regra consiste em esquecer o céu para que o homem seja plenamente livre e autônomo. Mas a morte de Deus provoca o sepultamento do bem, do belo, do amor e da verdade; se a fonte não jorra mais, se esta água se transformou pela lama da indiferença, o homem desmorona”[1].

É lícito ao ser humano a busca pela liberdade e pela autonomia sem, no entanto, pretender se livrar justamente Daquele em cujas mãos estão depositados a vida e o destino final de cada um de nós. Depois de milhões e milhões de anos o homem não conseguiu se livrar desta realidade e, por mais que tente, tudo indica à exaustão, que jamais conseguirá. Então, por que enfrentar a crença, a fé e sua profissão, a fidelidade e o culto aberto e espontâneo a Deus? Por que insistir em bater na mesma tecla, rotulando de forma pejorativa, depreciativa e despreziva os que fazem do nome de Deus a razão de suas vidas e de suas existências?

Estas questões estão muito vivas no nosso dia-a-dia atual, porque determinadas autoridades, até de forma corajosa, decidiram e ousaram pronunciar o nome de Deus diante das câmeras e dos holofotes, rendendo-Lhe graças e louvores publicamente, em atitude pouquíssimas vezes vista pela maioria do povo pobre, simples e humilde que, impreterivelmente, age da mesma forma, apesar de todos os pesares.

Não é bom que se combata os que pronunciam o nome de Deus, seja de forma reservada, no recôndito de suas almas, seja diante das câmeras e dos microfones porque, os mesmos que hoje condenam tal atitude, amanhã, em seus leitos fúnebres, poderão querer ouvir o nome de Deus e, certamente, não encontrarão ninguém para dar-lhes eco aos desejos que, hoje, soam como ordens, já que, em sua devastadora maioria, são tidos, imerecidamente, como formadores de opinião.

Este texto tem por finalidade incentivar todos os crentes e tementes ao Senhor, a pronunciarem Seu Santo Nome sempre e em todo lugar, louvando-O e rendendo-Lhe graças por Sua infinita misericórdia, até para com os que não creem e para com os que repelem ouvir o nome de Deus. “Bem aventurada a Nação que tem o Senhor por seu Deus. O povo que Ele escolheu para sua herança” (Sl 32, 12). Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

[1] SARAH, Robert e DIAT, Nicolas – DEUS OU NADA – São Paulo. 2016 – Fons Sapientiae. 366 páginas.

dez 31

EDITORIAL DA SEMANA: O QUE MUDA DE HOJE PARA AMANHÃ?!

ANO DE 2019

O QUE ESPERAR DO ANO QUE ESTÁ CHEGANDO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Para nós é quase uma doença incurável: ao final de 365 dias ininterruptos, impreterivelmente, findamos um ciclo, que chamamos de “ano”, e iniciamos outro, que chamamos de “ano novo”, acreditando sinceramente que tudo poderá ser muito diferente do que foi até o último dia daquele ano pesado que acaba de ficar, definitivamente, no passado das nossas vidas. É assim na vida de todos nós, humanos, e, pelo visto, continuará sendo assim até que alguém, talvez de Marte, ensine fórmula mais sábia e mais inteligente para alterarmos nossas expectativas de vida. Enquanto nada muda em relação à fórmula, vamos caminhando e acreditando (viva a fé!) que o ano que chega é bastante promissor e que tudo o que de pior aconteceu no ano findo, não será repetido doravante. Desse modo, de esperança em esperança, vamos alimentando o sistema capitalista que, este sim, promete prosperar cada vez mais, enquanto assistimos, felizes até, a chegada dos cabelos brancos, das rugas, dos netos e bisnetos e vamos acompanhando, lenta e progressivamente, a partida dos parentes e amigos, percebendo que, à frente, a fila está cada vez menor, significando que, em breve, nosso número será chamado às contas finais.

Não havendo outra solução para o dilema da contagem do tempo, e não podendo ficar parados, boquiabertos, olhando para trás e para frente sem retrospectivas e sem novas expectativas, precisamos seguir em frente, acreditando (sempre a fé!) que a partir do primeiro dia do novo ano, tudo será encaminhado para a chegada de dias muito iluminados, cheios de vitórias, de sucessos, de saúde, paz, harmonia e tudo o mais que, quase que de forma automática, desejamos uns para os outros.

O ano de 2018 não foge à regra! Agora, olhando para trás, vemo-lo como um ano terrível, cheio de armadilhas, trapaças, mentiras, violências múltiplas, fome, doença, perda de empregos, perda de vidas, inocentes ou não, derrota em mais uma copa do mundo e, também, derrota de um sistema político impregnado de mazelas e de malfeitos. Tudo isso, com o acréscimo das decepções e das desilusões que, ao fim de tudo, cai sobre muitos de nós, em relação a tudo o que nos cerca.

Mas, o que temos, senão a fé (sempre a fé!), para acreditarmos que o ano de 2019 será bem diferente? Quem garante que o ano que se aproxima não trará as mesmas armadilhas, mentiras, violências múltiplas, fome, doença, perda de empregos e de vidas, inocentes ou não, ou mesmo as decepções e desilusões com o “novo sistema político” que se pretende solucionador de problemas estruturais? Nada ou ninguém pode garantir coisa alguma. Até porque, mudam-se os cenários e os palcos, mudam-se até os locais em que as peças são encenadas sem, no entanto, mudarem os atores e seus instintos que, por mais que se mostrem diferentes são, na essência, absolutamente iguais a todos os demais que, vez por outra, entram em cena como coadjuvantes ou como atores principais.

Assim, o que esperar do ano que se aproxima? Em tese, nada! Na prática, porém, há que se esperar que cada cidadão e cada cidadã (respeitados todos os gêneros), façam a necessária introspecção, a fim de apurar falhas no sistema operacional individual, a partir do qual corpo e alma agem isolada ou coletivamente, criando, recriando, renovando ou mesmo impedindo, novas formas de vida e de convivência, donde, certamente, resultados – positivos ou negativos – serão obtidos e, aí sim, poderão fazer a grande diferença em relação ao ano que escorregou pela ladeira do passado.

Não é de se esperar, nem é bom que assim seja, que governos criem condições melhores de vida; que façam justiça social; que acabem com a violência; que elaborem políticas solidárias capazes de suprirem as necessidades dos mais pobres e mais necessitados; que inviabilizem projetos contra a vida; que façam, enfim, o sol brilhar dia e noite sobre todos.

É preciso que a esperança nasça dentro de cada um de nós, fazendo-nos portadores das sementes das mudanças que queremos. É preciso entender que nós, seres humanos, somos capazes de, unidos em torno de um mesmo ideal, mudar tudo, em todos os lugares, independentemente, do grupo político que chega prometendo mundos e fundos e que todos nós, por experiência própria, sabemos que, o pouco que for feito será, com quase toda certeza, contra os interesses da maioria de nós todos.

Dessa forma, o ano que está chegando só será realmente bom e promissor, se cada um de nós conseguir mudar a si próprio, respeitando mais o próximo em qualquer lugar ou circunstância; sendo solidário com os necessitados de quaisquer bens – materiais, espirituais, pessoais, sanitários ou educacionais; cumprir rigorosamente as leis e exigir que todos façam a mesma coisa, denunciando fraudadores, corruptos e corruptores; agir de forma ética em todos os lugares por onde passar; e, por fim, praticar o mais simples dos atos: não jogar lixo (inclusive, guimba de cigarros) nas ruas, nas calçadas e nos rios e riachos de todos os lugares.

Com tais propósitos, poderemos esperar um ano novo cheio de novidades e de esperanças. Entretanto, se fizermos a passagem do ano, acreditando que os políticos serão ou agirão de forma diferente; que os ministros do governo atuarão com o pensamento voltado para o bem estar do povo; que a justiça punirá os culpados e que absolverá os inocentes na exata medida dos delitos praticados; que os patrões darão mais valor aos seus empregados ou que estes zelarão mais pelo patrimônio dos patrões, chegaremos ao final do ano com as mesmas sensações de sempre: que o ano não foi bom, mas que, o ano novo será bem melhor. E assim, permaneceremos nesta roda que gira, gira mas que não consegue fazer o carro sair do lugar, ao passo que nós, sim, com o girar da roda, estamos caminhando lentamente para o fim, sem nunca termos tido a sensação das mudanças pelas quais esperamos durante toda a nossa existência.

A sugestão é para que cada um faça um sincero e honesto exame de consciência do modo de agir perante tudo e todos e que, ao final, proponha-se o desafio da mudança íntima e pessoal, a partir do que, nova esperança brotará em cada coração, e aí sim, esperar que o ano novo seja muito diferente daquele que passou. Pense sobre isto, reflita e desafie-se. Tudo depende de você, não do governo, dos políticos, do sistema capitalista ou do socialista. Não da alta do dólar ou da bolsa de valores. Lembre-se: as rodas estão aí, e giram para o lado que for determinado por alguém. Enquanto este alguém for o outro, você assistirá as mudanças na vida dele. Quando você fizer as rodas girarem para o lado que desejar, então, suas expectativas e esperanças se tornarão realidades e, com o ano novo, chegará, também, uma nova forma de vida, mais feliz e muito mais promissora. Que 2019 surja na sua vida como um verdadeiro e excelente Ano Novo. Seja feliz, e boa sorte!.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

dez 24

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ

A LUZ INTERIOR

NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O tema não é novo em nossos escritos, mas, decidimos voltar a ele porque parece-nos ser de grande importância o aprofundamento em torno de uma questão vital para o ser humano: a presença constante do Espírito de Deus, no templo sagrado da criatura humana.

É importante repetir a sentença divina proferida após a criação do homem: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18), ainda que, na sequência, o narrador bíblico atribua ao Criador as palavras “façamos-lhe uma semelhante a ele” tendo, então, da costela do homem, formado a mulher.

A situação vivida por Adão e Eva, a questão do “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, assim como a ingestão do fruto proibido, até a expulsão do Paraíso, são suficientemente conhecidas por todos nós e, caso não, é só ler o final do capítulo 2 e o capítulo 3 do Livro do Gênesis para inteirar-se de tudo.

O que realmente chama a nossa atenção na frase: “Não é bom que o homem esteja só”, é o procedimento de Deus a partir de então, em relação àquele homem que, se no primeiro momento, encanta o Criador, em seguida decepciona-O ao ponto de expulsá-los (homem e mulher) do Paraíso Terrestre. Pois, já um pouco antes da expulsão, Deus tece “túnicas de peles” e veste-os, para que não saíam completamente nus, totalmente desamparados. Foram embora daquele oásis, mas, levaram consigo a preocupação, o carinho e, certamente, o Espírito de Deus.

De dois filhos – Caim e Abel – que nascem de Adão e Eva, o Senhor valoriza mais a produção de Abel, que é pastor, o que foi suficiente para atrair a ira de Caim, lavrador que, enciumado, arma uma trama e mata o irmão, manchando a terra, pela primeira vez, com o sangue inocente. Pois nem assim, Deus se afasta e, num gesto de extrema bondade, aproxima-se de Caim e, depois de ouvir-lhe a confissão do crime que acabara de cometer, coloca nele um sinal para que, “qualquer um que matar Caim será castigado sete vezes mais” (Gn 4, 15-16) e Caim sai do lugar e vai tocar sua vida.

E o narrador bíblico conta que o Senhor deu ao primeiro casal a graça de gerarem um outro filho, para o lugar de Abel. Ora, o que percebemos já nestas poucas linhas é que Deus expulsa o ser humano do Paraíso Terrestre, mas, vai atrás dele, para acudi-lo nos momentos mais difíceis, cumprindo o que havia pressentido desde o início: “Não é bom que o homem esteja só”.

Na narrativa sobre o dilúvio – real ou mito – Deus fala diretamente com o ancião Noé porque, preocupado em manter intacta aquela família abençoada e mais todas as espécies criadas, dá as coordenadas para a construção de uma enorme Arca na qual, de cada espécie, um casal, além da esposa e dos filhos e noras de Noé, todos ficariam abrigados da fúria das águas que caíram tenebrosamente durante quarenta dias e quarenta noites (Gn 6, 9-22.7, 1-12), levando o extermínio a tudo o que se movia sobre a terra, tanto homens quanto animais. Depois da devastação pelas águas, que cobriram toda a terra por cento e cinquenta dias (Gn 7,27), Deus coloca-se ao lado de Noé, da família e de todas as espécies salvas, abençoa-os e diz: “Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 9,1).

A Bíblia não omite nenhuma passagem na qual o Senhor está presente ao lado dos seres humanos. Nós é que, para encurtar caminhos, damos aqui alguns saltos. Assim, bem mais tarde, vamos encontrar o Criador falando a Abraão (que no início tinha o nome de Abrão), com quem, a exemplo do ocorrido com Noé, faz aliança. Com Abraão é diferente. Primeiro Deus fala com ele e manda-o sair da terra, de perto do pai e dos parentes, para ir rumo a uma terra ainda a ser designada. De tanta confiança, Abraão segue a ordem do Criador. Mas, a vida de Abraão é marcada, principalmente, pela ausência de uma prole, que Deus insiste e assegurar-lhe, será mais extensa do que as estrelas do céu e do que os grãos de areia das praias. Para consolidar ainda mais a promessa, Deus envia três anjos a Abraão, no Vale de Mambré e ali, o Senhor assegura ao ancião que em um ano, Sara, a estéril, dará à luz um filho do Patriarca.

Aqui, ao custo da redução do texto, vale lembrar o quanto Abraão deve ter se sentido solitário, ouvindo a voz de Deus constantemente, fazendo-lhe promessas de uma posteridade incontável, mesmo sendo marido, e velho, de uma estéril. Mas, o Senhor não o deixa “só”, envia-lhe os três anjos com ordem e poder para assegurar-lhe que tudo seria cumprido a seu tempo.

Não bastasse a presença dos anjos, portadores de boas notícias, Abraão decide interceder pelo povo de Sodoma e de Gomorra (Gn 18,16-33), travando uma insistente intercessão por uma gente já marcada para ser dizimada. Deus é companheiro e é paciente!

Também por nós não é desconhecida a passagem em que Moisés, “solitário” na montanha, na condução do rebanho do sogro, pressente a presença do Criador, nas chamas inextinguíveis da sarça. Inebriado com o trabalho e, possivelmente, meditando sobre sua vida, Moisés aproxima-se da sarça ardente  e ouve a voz que chama-o pelo nome: “Moisés, Moisés” (Ex 3,4) e, a partir de então, ambos andarão juntos, na condução de todo um povo escolhido: na saída do Egito; na travessia do Mar Vermelho; no Maná no deserto; na água do rochedo; nas codornizes; a nuvem e a coluna de fogo; as tábuas da Lei. Sempre a presença de Deus, impedindo que o homem esteja só”.

O Profeta Samuel, ainda menino-adolescente, sozinho em seu ambiente de dormir, no templo do Senhor, ainda sob os cuidados do sacerdote Heli, tem o sono interrompido pela voz de Deus que, sucessivamente, chama-o pelo nome: “Samuel, Samuel” (ISm 3,3.6) e que, conforme pressentido por Heli, fará de Samuel um grande profeta e com ele andará por toda a vida, fazendo o mesmo com inúmeros outros profetas que, cada qual no seu tempo, são interpelados pelo Senhor que, não apenas se revela presente, mas, e, sobretudo, caminha com eles na direção, na condução e no ensinamento do povo escolhido.

Não é bom que o homem esteja só, diz o Senhor e, Ele mesmo, se faz presença na vida deste homem. Ele próprio se apresenta diante do ser humano como que para dizer: estou aqui, em ti e contigo. Vamos avante, sem medo!

Estes são apenas uns poucos exemplos. A Bíblia está repleta com muitos e muitos outros exemplos da presença, e da comunicação direta de Deus, junto ao ser humano, homens e mulheres, de forma indiscriminada.

Mesmo mais tarde, quando do mistério da encarnação, Deus se faz representar pelo anjo junto a Maria e, pela virtude do Espírito Santo, na concepção da Virgem.

Revelando-se, e revelado, como Pai, Deus se faz presente junto ao Filho que, na condição plenamente humana submete-se ao batismo, no Jordão. Mais tarde, o mesmo Deus se manifesta no monte Tabor, quando da transfiguração de Jesus. Sempre o mesmo Deus zeloso, presente, amoroso e paciente.

Ele jamais deixa o homem sozinho porque, como sempre, entende não ser bom que o homem esteja só. Confiantes nesta presença constante e permanente, em todas as nossas atribulações, podemos e devemos contar com o Deus que habita em nós, templos vivos do Espírito Santo. Não falamos isso apenas com respaldo na fé, que pode ser colocada em dúvida, mas, acima de tudo, na palavra de Jesus, que é Deus. É Ele quem fala da presença que temos em nós e assegura-nos que, diante dos nossos embaraços, nada devemos temer, “Porque o Espírito Santo vos ensinará, naquele momento, o que deveis dizer” (Lc 12,11-12); depois, declara que, quando o Pai enviar o Espírito Santo “ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26); adiante, Jesus afirma que o Espírito Santo “vos guiará no caminho da verdade integral” (Jo 16, 13), destacando que, ainda que o mundo não o conheça, “vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (Jo 14,17)

O Capítulo 2 do Livro dos Atos do Apóstolos narra a descida do Espírito Santo, no primeiro Pentecostes depois da Ressurreição de Jesus.

Paulo, o Apóstolo tardio, vai exortar os cristãos de Corinto a manterem-se íntegros porque, questiona-os Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá. Com efeito, é santo o templo de Deus, que vós sois” (ICor 3, 16-17).

A pergunta frequente quando tratamos sobre esta habitação divina no ser humano é se o Espírito habita em todos, de forma indiscriminada. O Apóstolo Paulo é quem elucida a questão, ao responder aos cristãos de Tessalônica: “Em verdade Deus não nos chamou para a imundície, mas para a santidade. Aquele, pois, que despreza isto, não despreza um homem, mas Deus, que também deu o seu Espírito Santo para habitar em nós” (Its 4, 7-8).

E, se ainda assim, alguma dúvida permanece, é bom confiar na mensagem do Evangelho de João, onde está escrito que Jesus disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).

Portanto, o templo do Espírito Santo deve estar conformado à Palavra e aos ensinamentos divinos, tendo no homem um fiel seguidor, a fim de que mais e mais possa sentir em si a divina presença, não apenas mediante sucessivas vitórias, mas, e, sobretudo, na portabilidade das virtudes espirituais, armas com as quais é possível enfrentar todas as intempéries. E assim, e de modo efusivo, dar cumprimento à vontade de Deus: Não é bom que o homem esteja só”.

Reflita sobre este texto e perceba que Deus não acha bom que estejas só. Ele quer estar contigo, quer caminhar ao teu lado, quer habitar em ti, quer ouvir tua voz e quer falar contigo e, então, somente Nele esperarás. E, os que Nele esperam, “adquirirão sempre novas forças, tomarão asas como de águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão” (Is 40, 31). Pense sobre isto, creia e não permita que o seu templo interior fique ou permaneça desabitado. Namastê. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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