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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

out 14

EDITORIAL DA SEMANA: POTENCIALIDADES DA MENTE HUMANA

BRUCE LEE

 A FORÇA E O PODER DA MENTE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O ano de 2023 marcará o cinquentenário da morte de Lee Jun-fan, um cidadão nascido em San Francisco, no estado da Califórnia, que, apesar de ser filho de uma família originária de Hong Kong, passa boa parte da vida nos Estados Unidos, cursando a faculdade de filosofia e, mais tarde, ensinando artes marciais, já com o nome de Bruce Lee, com o qual fica mundialmente famoso, tanto como mestre imbatível do Kung-Fu como, também, como excelente ator, cujos filmes ameaçam seriamente a supremacia de Hollywood, no início da década de 1970. 

Bem, a história de Bruce Lee é bastante interessante sob diversos aspectos. Tantos, que merece um livro dedicado àquele que, há mais de cinquenta anos, conseguiu enxergar o que muitos sábios de hoje começam a compreender com alguma dificuldade. Não pretendo, aqui, neste espaço restrito, discorrer de forma alongada sobre a vida, a carreira e a obra do Grande Mestre, cuja morte prematura, aos 32 anos de idade, sepultou para sempre um projeto de vida e de carreira que, certamente, teriam muita influência no modo de vida ocidental. Permanecem, no entanto, as ideias e os exemplos deixados que merecem destaques e que, por muitos e muitos anos, ainda, serão, para todos nós, amantes ou não das artes marciais, motivo de interesse, de estudo e de divulgação.

Bruce Lee não se tornou um mestre das artes marciais da noite para o dia: passou por diversos e severos treinamentos, tanto nos EUA, quanto na China e mesmo em Hong Kong, onde aprendeu o Kung-Fu, uma arte marcial tradicional, e muito antiga,  cuja essência é formada por movimentos físicos suaves e harmônicos entre si, voltados para o conhecimento e para o pleno domínio do corpo e da mente e, eventualmente, para a defesa pessoal, contra o ataque de  inimigos ferozes e perversos. Ensinado e treinado por bons e sábios mestres orientais, e sendo extremamente disciplinado no aprendizado e nos treinamentos individuais, Bruce Lee aprendeu diversas técnicas, ligadas a outros estilos do próprio Kung-Fu e, também, de outras artes marciais. Foi discípulo, inclusive, do lendário Mestre Yp Man, com quem aprendeu a essência do wing chun, uma modalidade mais técnica e mais sofisticada de arte marcial.

Mas, Bruce Lee, que tinha enorme apreço, também, pela filosofia, não se contentou com o pleno domínio que adquiriu do conjunto de todas as artes marciais praticadas de forma ostensiva. Em dado momento, ele cria um estilo próprio de luta, o "Jeet Kune do" (a arte do punho que intercepta), revelando-se a mais científica de todas as artes marciais. Entretanto, o próprio Bruce vai compreender, um pouco mais tarde, que estilos de lutas, por mais sofisticados que possam ser, jamais serão suficientes para derrotar inimigos cada vez mais treinados e preparados para o combate. Ele, então, e aí está a sua grande genialidade, vai firmar o seguinte convencimento: “não usar nenhum modo, como modo. Não ter nenhuma limitação, como limitação”. Ou seja, trabalhando a junção entre as diversas técnicas de artes marciais, e mesmo do "jeet kune do", com princípios tanto da filosofia como da psicologia, Bruce Lee chega à conclusão de que, o que o bom praticante de arte marcial precisa ter, é a capacidade para dar respostas imediatas a qualquer forma de ataque, deixando para trás tudo o que até então fora ensinado, na base da previsibilidade: “se meu adversário agir desta forma, eu devo responder desta outra”, com a utilização de mecanismos que, simplesmente, robotizam o ser humano, fazendo dele um mero repetidor de gestos, violentos ou não, previamente treinados. Em determinado momento da carreira, Bruce Lee vai afirmar que, para ser verdadeiramente completa, e, até certo ponto, imbatível, a pessoa precisaria de quatro braços e quatro pernas, tendo em vista a alta qualificação dos adversários e o elevado grau dos desafios a serem enfrentados.

Ao chegar a esta conclusão, Bruce vai afirmar que: “hoje eu já não acredito mais em nenhum estilo, como superior aos demais”. Para ele, o segredo está na mente humana que, sabiamente manipulada por cada um de nós, tem força e poder de superação incríveis. Olhar nos olhos dos adversários e enxergar o ponto fraco, o medo escondido e, de forma sábia e sofisticada, dar respostas superiores ao que está sendo exigido por tais adversários, levando-os à dúvida e à insegurança quanto aos métodos empregados, a partir de quando serão, seguramente, derrotados.

Durante a sua caminhada em busca do conhecimento, e enquanto se recuperava de uma lesão na coluna vertebral, em decorrência da qual ficou de cama por seis meses, Bruce Lee dedicou dias e mais dias ao estudo, tanto das técnicas de artes marciais orientais e ocidentais, milenares ou mais recentes como, também, da filosofia, lendo inúmeros livros, dentre os quais, deteve-se no pensador indiano Jiddu Krisknamurti, que ensinava que não devemos buscar a luz em nenhum mestre, guru, livro, seita, religião ou em qualquer diretor ou condutor espiritual, mas, dentro de nós mesmos e que, o ser humano precisa, acima de tudo, livrar-se dos condicionamentos em que vive, a tudo aceitando e com tudo concordando, sem oposição, sem reflexão e sem os imprescindíveis questionamentos e aperfeiçoamentos.

Para Krishnamurti, o ser humano precisa libertar-se de todas as formas de condicionamentos, a fim de que então, e somente então, possa liberar força, energia e direção próprias, de acordo com os desafios de cada momento e de cada época, livrando-se dos fantasmas do passado e não se preocupando com os lances do futuro. Bruce Lee apega-se a esta reflexão do pensador indiano, para transformar a arte marcial, que de forma alguma prescinde da dedicação, da disciplina e do treinamento, em verdadeira máquina de guerra humana, donde jamais ter sido vencido em combate. Ele que, inclusive, muito além dos treinos no tatame, era versado nas lutas de rua, em Hong Kong, enfrentando, na juventude, adversários reais, muitas vezes, munidos com facas e com correntes, razão pela qual o pai, temendo pela vida do filho, envia-o para os EUA.

Talvez os praticantes de MMA, de UFC ou de tantas outras modalidades de artes marciais, ainda não tenham, apesar de passados quase cinquenta anos da morte de Bruce Lee, compreendido exatamente que a força maior para derrotar os adversários não está no físico avantajado, nos músculos esteticamente trabalhados, nem na repetição ostensiva de sequências de ataques e de defesas previsíveis, mas, simplesmente, no interior de cada um que, conhecendo-se a si mesmo, pode dar respostas simples, e até então impensáveis, para desafios, também, impensáveis. A cerca da simplicidade, o lendário Mestre Yp Man, já ensinava pelo final dos anos de 1969 que “a simplicidade é a forma mais perfeita da sofisticação”, deixando claro que a nossa essência é muito simples e, com ela e por meio dela, podemos derrotar todos os nossos inimigos e adversários sem mover, sequer, um dedo. Ou seja, é a arte de vencer a luta sem lutar, valendo-se, apenas, do potencial intelectivo e sapiencial.

É justamente a arte de vencer a luta, qualquer luta, sem lutar, que está fazendo muita falta aos seres humanos que, atualmente, povoam este imenso planeta. Precisamos compreender que, de dentro de nós, de cada um de nós, jorram rios de sabedoria, de força e de poder capazes de, todos juntos, mudarem para sempre as nossas histórias, pessoais e coletivas. Enquanto acreditarmos na força física e no poder do dinheiro e das armas, continuaremos a vencer e a perder batalhas sem, no entanto, nunca, jamais, conseguirmos vencer a guerra. Incontáveis almas já partiram deste mundo, sem terem saboreado o gosto da vitória final, simplesmente porque conseguiram vencer pequenas batalhas, mas, a guerra mesmo, não. Saíram todos derrotados e, até certo ponto, frustrados!

É importante perceber que o conhecimento acerca das potencialidades da máquina humana assemelha-se ao do mecânico que, ao ouvir o simples barulho do motor do carro, consegue identificar o problema e, imediatamente, sabe perfeitamente o que deve ser feito para vencer o desafio daquele momento. Este simples mecânico não passa vida toda treinando os ouvidos em barulhos de motores, mas ele, como ninguém, é capaz de, ouvindo-os, saber exatamente onde atacar para derrotar, o problema apresentado.

Talvez, a grande lição deixada por Bruce Lee tenha sido esta: o segredo para a vitória, em qualquer circunstância, é o pleno domínio da mente, de modo a surpreender qualquer adversário que, sem muita técnica, conhecimento ou sabedoria, apresenta-se diante de nós pronto para nos impor severa derrota. Mesmo sem muita técnica, conhecimento ou sabedoria, nossos adversários sempre acreditam saber o tipo de resposta que daremos. Porém, jamais pensam no imponderável, no inimaginável, no efeito surpresa que, somente os verdadeiramente sábios conseguem colocar em prática nos momentos mais dramáticos de suas vidas porque, além de conhecerem com precisão o funcionamento da máquina humana, a partir do conhecimento de si próprios, sabem como tirar proveito da distração, da desatenção, da falta de foco e da falta de conhecimento, próprio e alheio, dos adversários a serem enfrentados.

E aqui, já não se fala mais em artes marciais ou em lutas de rua ou de qualquer outro cenário. Fala-se, também, e mais especificamente, sobre todas as lutas para as quais somos desafiados no dia-a-dia da vida, seja na rua, no trabalho, no meio acadêmico, na família, na comunidade, seja, enfim, aonde for. Em cada uma destas lutas, precisamos ativar o centro operacional interno, de onde emanam  respostas, suficientemente aptas para assegurarem a nossa vitória sobre adversários que, muitas vezes, movidos apenas pelo instinto animalesco e por sentimentos maldosos ou mesmo negativos, atacam-nos de modo violento, sem saberem que, mesmo sem lutar, somos capazes de derrotá-los, porque agimos com simplicidade, com sabedoria e porque, também, temos conhecimentos acerca dos extremos humanos.

Este texto, além de reativar recordações sobre Bruce Lee é, também, para reacender em cada leitor, e em cada leitora, a certeza de que existem luz, ouro, paz, sabedoria, força e poder no seu interior. Só depende de você tomar posse de todo este patrimônio que, devido à sua inércia, está parado e cheio de poeira, enquanto você vive dando murros em ponta de faca e sendo derrotado(a) por adversários que nem sempre possuem tanto preparo assim, mas, apenas, são hábeis na arte de assustar e de amedrontar todos os seus alvos. Pare para refletir e, valendo-se do tesouro mental, para agir. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

out 07

EDITORIAL DA SEMANA: PROCESSOS DE DESCONSTRUÇÃO DA PAZ

GUERRA TOTAL

CAMINHOS QUE LEVAM À DESCONSTRUÇÃO DA PAZ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas acerca do fato de que um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade, é a constante e permanente ameaça à paz. E aqui, não falamos apenas da paz cujo oposto leva aos campos de batalhas, nos quais são encontrados todos os tipos de armas de fogo e de explosivos, capazes de dizimarem populações inteiras. Não. Falamos, também, da paz entre as nações, da paz política, social, comunitária e, até mesmo, da paz em família. Falamos da paz, como estado desejado para que os seres humanos possam viver e desenvolver seus projetos, sem serem fustigados ou ameaçados pela fúria de adversários e de inimigos vorazes. Adversários e inimigos que amam e que prestigiam todo tipo de conflito. Existindo qualquer potencial para a morte da paz, lá estão eles prontos para a ação! Parece invenção, mas, não é não. Existem pessoas que detestam a paz. Não sabem conviver com ela, desconhecem-na na prática ou odeiam aquela que a maioria das pessoas tanto amam e perseguem: A PAZ!

Alguém poderá objetar, até com certa dose de razão, que a humanidade jamais conheceu período de paz integral, haja vista que, desde que o homem existe, conflitos,  embates e combates fazem parte da relação constante com seus congêneres. De fato, cem por cento de paz, atualmente, nem nos cemitérios!

Entretanto, é preciso admitir, a civilização nunca enfrentou tantas linhas de batalhas e de combates tão intensos, violentos e destruidores, como tem enfrentado de meados do século XX para cá. São combates e embates de cunhos bélicos, religiosos, sociais, políticos, ideológicos, filosóficos, intelectuais e até mesmo de costumes e de tradições. Neste emaranhado de motivos, até o ambiente familiar passou a servir como campo de severas batalhas, quando são seladas grandes inimizades em decorrência dos danos causados, mutuamente, por membros de um mesmo grupo.

Ora, sem encontrar refúgio seguro, e diante da iminência de ataques vindos de todas as direções, o homem moderno comporta-se como quem está sempre pronto para o combate, seja ele da natureza que for. Não importa de onde partam os ataques, é preciso enfrentá-los à altura e, o pior, revidá-los com precisão e rigor. Assim, temos o cenário que vemos todos os dias, por onde quer que andemos: as nações, a sociedade, a comunidade, o ambiente familiar, o de trabalho também, o político, o religioso e o acadêmico, todos, divididos em pequenos, médios ou grandes grupos, devidamente alinhados, preparados e dispostos a tudo para fazerem valer ideias e projetos, muitos dos quais de cunho meramente pessoal e todos, vale dizer, de natureza absolutamente efêmera.

Bem, por trás deste verdadeiro barril de pólvora, e de tanta preparação e disposição para a guerra, que nem sempre termina com sangue, mas, com sérios prejuízos psicológicos, sociológicos, políticos, financeiros, sanitários e existenciais, existe todo um processo de desconstrução da paz. Ninguém vai, loucamente, para o campo de batalha, disposto a “matar” ou a “morrer” sem que, antes, tenha tomado conhecimento sobre causas e efeitos, sobre o inimigo e sobre as condições do próprio arsenal. E é aí que tudo tem início.

Existem alguns detalhes que antecedem o ambiente belicoso, ocorra onde ocorrer, tenha a forma que tiver. Um destes “detalhes”, que podemos denominar como pavios, é justamente a existência dos chamados “boatos”. Os boatos que, na maioria das vezes, distorcem, ou até mesmo falseiam, a verdade, possuem um poder de alastramento incrível. Saem de uma boca ou de uma rede social qualquer e partem feito rastilho de pólvora chegando, impreterivelmente, nos endereços certos: naqueles que são os verdadeiros promotores da guerra. A partir daí, esses promotores da guerra, tratam de, apenas, direcionar os boatos recebidos. Pronto! Está preparado o cenário. Pessoas sentem-se ofendidas e magoadas; outras, traídas e apunhaladas pelas costas; outras, desiludidas e decepcionadas e outras, ainda, severamente excluídas e/ou discriminadas. Enfim, os boatos possuem força incrível para a desconstrução da paz. E com eles, obviamente, a mentira.

Outro detalhe antecedente, e não menos instigante de conflitos, de embates e de batalhas, é a divulgação permanente, seja por meio da palavra escrita ou mesmo oralmente transmitida, do apoio irrestrito à tese de que “a melhor defesa é sempre o ataque”. Ou seja, tão logo a pessoa perceba, ainda que apenas de forma aparente, a possibilidade de iminência de um ataque, deve partir, imediatamente, para o contra-ataque, no exercício de uma defesa que nem precisa ser própria. Pode ser em favor de terceiros. Vale tudo, para quem não tem qualquer compromisso com a paz. Tudo motiva. Tudo justifica.

Tem, ainda, a defesa que muitos fazem do uso de armas letais, como fórmula perfeita e eficaz para combater os “inimigos da paz”. Ou seja, para defender a paz, pega-se em armas e extermina-se o suposto inimigo. Inimigo da paz! Para os defensores deste “detalhe”, o perigo vem sempre do outro. É o outro que representa o mal, o adversário a ser combatido. Aquele que ameaça, verdadeiramente, a paz. Ao lado destes, marcham significativas parcelas da sociedade. Marcham em defesa da guerra, contra os adversários da paz, que são sempre os outros!

Por fim, e sem, absolutamente, exaurir a lista de detalhes antecedentes, encontramos os apologistas da vingança. Para estes, o mal precisa ser combatido com a mesma intensidade com que praticado. Porque, para eles, se o mal não for combatido com intenso rigor, tende a se propagar ainda mais. Quando, por todas as formas “legais” e conhecidas, não puderem promover a vingança desejada, partem para a vingança financeira. Qual seja: o dano moral. Impor ao outro uma pena financeira grave, para estes apologistas, pode ter efeito pedagógico muito importante além de, evidentemente, fazer inchar bolsos e contas bancárias.

Bem, todos estes – poucos, é bom que se diga – detalhes elencados, na verdade, possuem, acima de tudo, a capacidade para a desconstrução da paz. Seja da paz em campo aberto, entre as nações, na política, na sociedade, na comunidade de trabalho, acadêmica ou religiosa, ou na própria família.

Se pararmos de dar ouvidos aos inúmeros boatos que chegam até nós; se deixarmos de abraçar teses e métodos, supostamente, defensivos; se abandonarmos o apreço pelas armas letais e se, principalmente, deixarmos de fomentar a vingança, tenha a forma que tiver, certamente, estaremos contribuindo para a manutenção da paz. Ou, na pior das hipóteses, estaremos cooperando com o atraso no início da guerra.

Se não conseguirmos abraçar as fórmulas acima expostas, para a manutenção da paz, que sejamos, pelo menos, promotores do diálogo, da conciliação, da tolerância e do perdão, como formas eficazes de resolução de quaisquer conflitos. Uma inimizade, um corpo no chão ou um dinheiro a mais não são capazes de reconstruir a paz. Quando muito, ajudam a disseminar o ódio, o medo e, o pior, mais desejo de vingança.

Como sempre, o objetivo aqui é incentivar a reflexão que, caso seja feita, poderá auxiliar na melhor compreensão acerca do estado a que chegamos, com todo o progresso tecnológico e com toda a civilidade que julgamos possuir. Se for possível para você, reflita. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

set 30

EDITORIAL DA SEMANA: CRENÇAS E PENSAMENTOS LIMITANTES

PENSAMENTOS LIMITANTES

CRENÇAS E PENSAMENTOS LIMITANTES: É PRECISO ABANDONÁ-LOS, PARA PODER AVANÇAR –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém, e nem deve assustar a ninguém, a constatação de que nós, seres humanos, estamos encurralados no avançar da civilização. Chegamos até aqui, porém, não estamos agindo com a sabedoria e com a perspicácia necessárias para continuarmos avançando no processo cognitivo, que poderia nos transformar em pessoas mais dignas, superiores e cada vez melhores.

O mundo atual, com todas as estruturas dominantes, e cada vez mais ortodoxas, tem nos levado, não apenas ao isolamento individual, mas, e, sobretudo, ao isolamento coletivo. Cada vez mais somos empurrados para guetos religiosos, políticos, filosóficos, ideológicos, todos, fundados em crenças, em pensamentos, em convicções e em “certezas”, que só fazem limitar a nossa capacidade de avançar na compreensão do homem, enquanto espécie, e da natureza, enquanto berço e leito destinados ao acolhimento e à própria sobrevivência de todos os seres vivos.

Guiados por uma espécie de bússola construída por grupos ideológicos fortemente politizados, por sólidas instituições religiosas e acadêmicas, por pensadores que se dizem modernos, mas, que, no fundo estão atrelados à era glacial, e por um conceito de Estado cada vez mais elaborado e difundido por elites que nem sempre têm compromisso com a evolução e com o progresso de homens e de Nações, vemos muitos dos nossos contemporâneos se apequenarem, fazendo seus, crenças e pensamentos estanques, que defendem com unhas e dentes, ou seja, a tudo aceitam como verdade absoluta, em nada oferecendo resistência ou contestação impossibilitando, assim, a caminhada investigativa, que é o nascedouro do conhecimento na forma mais pura e mais genuína.

Muitos homens e mulheres deste nosso tempo têm se deixado levar por estes, que podemos denominar como “pensamentos e crenças limitantes”, simplesmente, abandonando a capacidade de crescimento intelectual e de, o que é mais importante, servirem de exemplo e de incentivo para as gerações que vêm logo atrás. Acreditam, muitos destes homens e muitas destas mulheres, já serem detentores de todo o conhecimento necessário, seja em que aspecto for, e que, portanto, agora, é só se trancarem nos seus guetos individuais e egoístas, blindando suas mentes e seus corações contra forasteiros, para assegurarem todo o bem de que necessitam.

A partir destas convicções e certezas, que adotam como verdades absolutas, isolam-se do mundo, e no mundo, e, simplesmente, param de evoluir, vivendo apenas de resquícios de um passado que vai ficando cada vez mais distante; de frases construídas há tempos; e das famosas “opiniões formadas sobre tudo”, como apregoa o cancioneiro popular. Este tipo de pessoa, cujas características são encontradas em todos os estratos sociais, terminam por venderem “verdades” e conhecimentos que só cabem nas próprias cabeças, haja vista não resistirem mais, a nenhuma investigação mais detalhada e aprofundada.

São, portanto, os pensamentos e as crenças limitantes, que estão impedindo os homens e as mulheres deste nosso tempo de trevas e de obscurantismo intelectual, os responsáveis pelo embotamento da raça humana, posto que, quem assim não se adequa e aceita viver, passa a ser objeto de exclusão e, com bastante frequência, de perseguição mesmo.

Assim, temos visto, e de certa forma enfrentado, situações das mais grotescas, considerado todo o progresso que a humanidade experimentou nos dois últimos séculos e, particularmente, nas últimas cinco ou seis décadas. Todo o avanço da ciência e da tecnologia não tem encontrado paralelo no avanço cognitivo de boa parte da humanidade que, sem saber muito o bem o que fazer, prefere andar em bandos, em busca de gurus, de mestres, de líderes religiosos, de profetas do apocalipse, de guias espirituais e de todo tipo de condutores, destes cujos livros estão apinhados nas livrarias, físicas ou virtuais, espalhadas pelo mundo afora.

Os seres humanos deste tempo, ao invés de buscarem dentro de si mesmos a luz, as respostas e as soluções para seus inúmeros conflitos, assim como para os da própria espécie, preferem dar ouvidos aos pregadores separatistas, que trabalham a soldo de suas escolas políticas e filosóficas, de suas seitas e religiões e afirmam conhecer perfeitamente, tanto o verdadeiro caminho, quanto o caminho da verdade. E, sem se darem ao trabalho de estudar, de pesquisar e de investigar todas as informações que recebem, as massas assimilam tudo aquilo que ouvem e saem divulgando por todos os meios possíveis e imagináveis e, o pior, alimentando conflitos uns com os outros, em razão dos guias e condutores aos quais servem, e seguem, a pretexto de professarem esta ou aquela ideologia, ou mesmo convicção filosófico-religiosa.

Ora, há milhares de anos os homens daqueles tempos remotos faziam a mesma coisa: ouviam longos discursos, formavam filas para serem abençoados por seus gurus e mestres, cultuavam deuses, apresentavam oferendas e ofereciam sacrifícios e, do mesmo modo que hoje, combatiam uns aos outros, em nome da crença e das ideias predominantes. Mas eles ainda tinham muito a avançar!

E hoje, o que temos, o que vemos? Temos pessoas que estão abrindo mão do direito de pensar. Vemos pessoas vendendo pensamentos, por meio de livros e de palestras, e enriquecendo às custas de verdadeiras massas humanas que, ao final de tudo, andam por aí dando prestígio, fama e dinheiro para os grandes, não sábios, mas, sabichões, mestres e acumuladores de fortunas.

É preciso que os homens e que as mulheres deste nosso tempo usem o cérebro, a mente e a consciência para descobrirem novas e promissoras formas de vida, aqui mesmo, neste Planeta maravilhoso, chamado Terra. Já passa da hora de buscarem dentro de si mesmos, a luz que já brilha em abundância, e deixarem de andar iluminados por fagulhas que escapam daqueles que sabem negociar, no mercado humano, o fruto das suas baterias internas.

É preciso abandonar as crenças e os pensamentos limitantes e, até certo ponto, alienantes, para que se possa retomar o caminho da evolução cognitiva, para o qual fomos criados e do qual estamos desviados, saindo do nosso isolamento e dos guetos nos quais fizemos nossa morada, onde já habitamos por muitas e muitas gerações.

Não podemos continuar sendo deste ou daquele País, desta ou daquela religião, defensores desta ou daquela linha de pensamento. Somos todos de uma mesma e única espécie: a humana. Precisamos abandonar todas as divisões e formas de separatismos, pois, é de onde vêm os conflitos, os embates e as guerras. Precisamos refletir juntos e, juntos, buscarmos o “ser humano renovado” que habita nas cavernas internas que trazemos em cada um de nós, desde sempre. Reflita, pesquise, investigue sobre tudo isto e, fundamentalmente, rejeite conclusões, porque elas significam o fim da linha. Quando concluímos alguma coisa, importa dizer, chegamos ao final daquela jornada, e a nossa jornada jamais tem um fim. Somos, apenas, substituídos pelos que vão chegando pouco a pouco durante, ou mesmo após, a nossa partida.

Porém, não abra mão do direito de ter seus próprios pensamentos e seu próprio conhecimento, frutos da sua vivência, da sua convivência, das suas pesquisas e das suas investigações. Pare de andar sob a tutela de mestres, de gurus e de condutores de ocasião, que vendem livros igual água e se dizem conhecedores do verdadeiro caminho para a felicidade. Não acredite nisto, nem gaste o seu precioso dinheiro.

Seja senhor, senhora, do seu próprio destino e comece por questionar tudo o que está por trás de todos os discursos que ouve; das pregações, dos “ensinamentos” e dos pseudoconhecimentos que são passados por aqueles que, no dia-a-dia, revelam não saberem viver, e não vivem, o que ensinam nem o que pregam dos púlpitos e das bancadas. Passe a refletir sobre todas as coisas, antes de formar o seu próprio pensamento e a sua convicção cronológica. Assim, você estará caminhando, evoluindo, construindo, renovando e servindo de exemplo paras as novas gerações que estão aí e para as que já estão a caminho.

Reflita e investigue sobre o papel que você tem desempenhado: se tem sido o de pensador, de investigador, de pesquisador, de inovador, de construtor, ou, simples e confortavelmente, o de seguidor de líderes nos quais prefere acreditar cegamente, só porque reproduzem, eles também, livros e palavras antigas, frutos do pensamento e da investigação daqueles que, no seu devido tempo, foram mais eficientes do que nós, na arte de pensar. Se acredita que só eles eram bons, você também é vítima das crenças e dos pensamentos limitantes que, iguais ao prego, estão te fixando na madeira dura do tempo e da história, impedindo que explore todo o seu verdadeiro potencial, deixando de colaborar com o projeto expansionista da vida, seja do ponto de vista da Evolução, ou mesmo da Criação. Fuja deste cenário, enquanto é tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

set 23

EDITORIAL DA SEMANA: O RESPEITO, COMO PONTO DE PARTIDA!

TRABALHO ALHEIO

HÁ QUE SE RESPEITAR O OUTRO E TUDO O QUE ELE PRODUZ DE BOM –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Depois de algumas décadas de vida, a gente começa a revisitar os arquivos internos e, de forma até meio nostálgica, recorda muitas etapas superadas, reavalia métodos, renova esperanças e, sem dúvida, faz comparações e elabora críticas ao novo e ao moderno. Críticas, positivas. Críticas que trazem a força da experiência que, de forma alguma, pode ser desperdiçada. Esse mecanismo existe desde as origens. De geração em geração, vamos nos renovando, aprendendo com os mais antigos, criando novos métodos e ensinando aos mais jovens e, assim, sucessivamente, caminhamos na longa e interminável estrada do tempo.

Algumas coisas chamam mais atenção, obviamente, do que outras. Alguns procedimentos, apresentam-se como verdadeiramente inovadores, para o bem. Outros, no entanto, são, também, inovadores, só que, para o mal e, portanto, precisam ser apontados e combatidos enquanto há tempo, para que o futuro não seja absolutamente frustrante e, de certa forma, temido.

No atual estágio vivido pela humanidade é de se observar uma prática que vem tomando corpo entre nós, seres humanos equilibrados, sábios, competentes e senhores de tudo: a falta de respeito para com o próximo! E esta falta de respeito é demonstrada nas formas mais diversas possíveis, mas, notadamente, no que se refere ao trabalho produzido pelo próximo. Os exemplos surgem aos milhares, porque em toda parte, a toda hora e seja lá quem for o tal “próximo”, podemos verificar a lamentável ocorrência.

Alguém, por exemplo, compra uma casa, por mais simples que seja, constrói um muro no entorno da residência e comete a “imprudência” de pintá-lo de branco, por exemplo. Logo aparece alguém que, sem respeitar a pessoa, o trabalho e o sacrifício despendidos, trata de pichar o máximo que pode, com palavras, siglas e símbolos, muitas vezes indecifráveis para as pessoas mais ingênuas e menos antenadas com o mundo do vandalismo.

Faz-se uma festinha em casa, convida-se os amigos mais próximos que, obviamente, trazem cônjuges e filhos, não raro, com namoradas e/ou namorados e, no final da festa, são facilmente encontrados restos de alimentos na lixeira do banheiro; copos atrás do sofá da sala, com restos de bebidas e guimbas de cigarros, no mínimo; marcas de dedos sujos com glacê de bolo na cortina, além de coisas que nem podem ser escritas, em total desrespeito, desconsideração e desprestígio para com aqueles que, de forma árdua, e muitas vezes com sacrifícios financeiros, arquitetaram, organizaram e produziram todo aquele ambiente festivo. Isso, quando, tempos depois, não se fica sabendo de críticas feitas aos arranjos alocados no ambiente.

Em casa, filhos e filhas, sem terem a menor noção do trabalho, do custo e do sacrifício feitos pelos pais, esbanjam alimentos e energia; destroem equipamentos e mobiliários; não sentem o menor constrangimento em colocar os pés calçados sobre camas e sofás; fazem do carro da família o seu parque de diversão particular. Enfim, desrespeitam e desprestigiam tudo o que os pais fazem. Isso, quando não desfazem do trabalho dos próprios empregados da casa, sem se darem conta de que tudo o que foi feito, comprado ou construído, partiu do trabalho de alguém. Alguém, que empregou energia física ou intelectual, tempo para a execução e, quase sempre, dinheiro. Mas, quem destrói, desrespeita ou desprestigia, não tem noção de nada, ou, se tem, age mesmo por falta de escrúpulos.

No trabalho, todos querem ter acesso livre e pessoal a mesa, cadeira, telefone e computador, além de uma pequena quantidade de acessórios. No entanto, no dia-a-dia, tudo isto é tratado com o maior desprezo e descuido, simplesmente, porque é fruto do investimento alheio. É fruto de projeto negocial cujos lucros pertencem a quem comanda, sendo esquecido que, se quem comanda for à bancarrota, o emprego será perdido. E, uma vez perdido, torna-se difícil uma nova, rápida e necessária recolocação no mercado de trabalho.

As vias e praças públicas e, principalmente, os jardins e canteiros de flores, são especialmente descuidados, desrespeitados e desprestigiados também, sob o falso e ignóbil entendimento de que os impostos são pagos justamente para o cuidado permanente de todos os bens públicos. Com esta visão tosca, que muitos revelam sem o menor pudor ou constrangimento, todo o trabalho realizado por varredores de rua, por jardineiros, por calceteiros, por zeladores das vias públicas e por toda uma gama de trabalhadores profissionais, é visto e tratado sem a menor consideração e sem o menor respeito.

Os que utilizam o transporte público, que representam a maioria da população, pouco ou nada se importam com a preservação dos veículos e de acessórios como bancos e poltronas: rabiscam, cortam com estilete, escrevem palavras chulas, fazem publicidade sobre suas opções sexuais etc., em total prejuízo para empresas e usuários. Porque, quem destrói, também usa e, quando não tem, critica e protesta, às vezes, até, de forma violenta e depredatória. Tudo isso, sem qualquer respeito para com quem investe, com quem limpa, conserta, faz ajustes e que, também, utiliza.

O desprezo, o desrespeito, o desprestígio e o desleixo para com os bens públicos, de um modo geral, é quase uma regra com pouquíssimas exceções e envolve, ainda, telefones, placas, bancos de praças, estátuas e gravuras, postes, semáforos, iluminação, rios e córregos, pontes e grades, banheiros e tudo o mais que, ao menos em tese, visa o bem estar de toda a coletividade, inclusive, de quem não paga, ou nunca pagou, impostos.

Todos estes poucos exemplos, servem para revelar, de forma assustadora e arrepiante, o quanto é desprezado e desrespeitado o trabalho alheio e tudo o que é pago e produzido pelo outro, numa prática que beira à insanidade coletiva, dado que, muitos dos que escapam de uma hipótese caem, impreterivelmente, na outra. É preciso dialogar mais com as pessoas, no sentido de fazê-las compreender que tudo o que existe é produzido, comprado ou pago por alguém que, em determinado momento, será até mesmo por aquele ou por aquela que, hoje, contribui com sua dose de desprezo e de desrespeito para com o trabalho, o investimento e o sacrifício do próximo.

É preciso levar às pessoas, na verdade, ensiná-las, a exata noção de que o respeito ao próximo é o ponto de partida para o funcionamento de qualquer outro mecanismo social, cívico, religioso ou moral, donde emana a possibilidade de uma vida mais harmônica em sociedade. Fora daí, deste entendimento e desta compreensão, a convivência entre nós, seres humanos, vai ficar cada dia mais exposta à impaciência e à intolerância e, por fim, à violência o que, certamente, trará consequências gravíssimas para a nossa própria espécie.

As pessoas precisam aprender, e cabe aos mais sóbrios ensinar, que práticas de vandalismo, de desrespeito, de desprestígio e de desconsideração por tudo o que o outro produz de bom revelam, acima de tudo, o estágio mais primitivo do ser humano o que, no mundo contemporâneo, importa em verdadeiro retrocesso, haja vista o elevado nível intelectual e tecnológico a que chegamos. Ou seja, o que se vê, na prática, não condiz com o progresso auferido pela civilização. Falta, no caso, elevada dose de coerência! Sem falar é claro, óbvio e triste, na tremenda ausência de educação para a vida em sociedade e a para a própria convivência entre iguais.

Este texto é apenas mais um convite à reflexão, diante de um cenário que, para ser comprovado, exige apenas que a pessoa esteja viva, de tão fácil que é. Caso o leitor ou a leitora julgue prático e conveniente, compartilhe com outras pessoas. Quem sabe, conseguiremos comprovar a tese de que “de grão em grão a galinha enche o papo”? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

 

set 16

EDITORIAL DA SEMANA: A FORÇA E O PODER DOS PENSAMENTOS

CAOS INTERIOR

OS PENSAMENTOS, COMO  FONTES DO CAOS INTERIOR –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece missão impossível, o pedido para que alguém, por um instante que seja, pare de pensar. O mundo agitado no qual estamos inseridos é palco no qual os movimentos, internos e externos, fazem parte de todo o arranjo que, regido por mãos invisíveis, faz o ponteiro do tempo girar sem parar, e sem recuar.

Externamente existe todo um conjunto de atividades, diretas ou indiretas, que nos obriga a estarmos em constante movimento. Andamos, corremos, fazemos, buscamos, entregamos, falamos, ouvimos rapidamente, disparamos mensagens, cumprimentamos, rimos, fazemos cara feia, dizemos sim para uns, e não, para outros, quase que simultaneamente, dirigimos etc. Enfim, fazemos tudo isto e muito mais, quase sem perceber porque, internamente, somos bombardeados o tempo todo por incontáveis, e muitas vezes contraditórios e conflitantes, pensamentos. Esta é a rotina que nos é imposta pelo mundo, e dela não conseguimos nos livrar porque, então, seria abdicar daquilo que compreendemos como “vida”. Somos, e estamos, condicionados a esta realidade: mente e corpo acionados diuturnamente, feito máquinas movidas a baterias que, embora necessitem, nem sempre são recarregadas do modo correto.

É nesta marcha medonha que grande parte da humanidade caminha desde muito cedo, da mais tenra infância até os últimos instantes de estada neste plano terreno. Muitos nem chegam a ter plena consciência deste final, e ficam já pela metade do caminho  sob os cuidados de alguém, graças ao acúmulo de males, físicos e mentais, que caem sobre si.

Bem, o fato é que, para nós, ditos normais, a vida se resume nesta correria absurda, da qual a maioria não consegue, nem quer, escapar. Para muitas pessoas, esta roda giratória frenética é o que traz graça para a existência e o que faz a vida ser, realmente, prazerosa. Pobres infelizes!

Entretanto, se por um lado, a agitação física parece fugir do nosso controle, até porque, ou andamos ou somos empurrados, por outro lado temos a capacidade de, se quisermos, ordenar a mente de modo que os pensamentos fluam no curso justo e equilibrado do riacho interior que banha toda a nossa capacidade intelectiva e cognitiva.

Os pensamentos, a ciência já o comprovou por diversos modos são, também, fontes riquíssimas de prazer, de alegria, de cura e de compensação, sim, mas, igualmente, de dores, de sofrimentos, de angústias, de doenças, de medos, de descontroles e até de total descompasso com o mundo real. Ou seja, se existe um caos interior, a fonte primária pode estar relacionada diretamente com os pensamentos desordenados ou negativos que cultivamos, ou que, na pior das hipóteses, alimentamos no dia-a-dia da nossa caminhada terrena. Pensamentos negativos, vingativos e cheios de ressentimentos funcionam como estopins capazes de causarem pequenas e consistentes explosões mentais, ainda que de pequeno potencial, mas, que, com o acúmulo, podem ocasionar desastres de magnitude impensável em qualquer um de nós, seres humanos. Mal do qual os animais não padecem, justamente por serem, simplesmente, irracionais!.

Os pensamentos negativos, não raro, decorrem de projeções apontadas para o futuro e que, portanto, trazem para nós respostas (preocupações) totalmente indesejadas porque revelam, de forma maquiada, falsa e antecipada, ocorrências absolutamente incertas e, em muitos casos, improváveis. No entanto, são a elas que nos apegamos para imaginar que tudo “pode dar errado”, ou que, “tudo vai dar errado mesmo”, seja lá o que este “tudo” possa significar. Daí, munidos de respostas negativas, originadas dos nossos pensamentos catapultados para o futuro, sofremos. Ficamos angustiados e preocupados; surge o medo, a desconfiança, a insegurança; sentimos frio no estômago e facilitamos a produção, pelo organismo, de substâncias altamente tóxicas e poluentes que, no médio e longo prazos, trarão como consequências doenças, muitas vezes, incuráveis.

Os pensamentos eivados de ressentimentos, mágoas ou de sentimentos de ódio, de inimizades ou de vingança, ao contrário dos primeiros, são direcionados ao passado e referem-se diretamente a fatos e circunstâncias já sepultados pelo tempo. Fatos e circunstâncias que, ainda assim, conseguem exercer influência altamente danosa ao nosso momento presente, justamente porque insistimos na inútil, e improdutiva, tentativa de ressuscitá-los e, não conseguindo, passamos e repassamos todos eles em nossa mente, criando um ambiente de sofrimento, de tristeza, de revolta e de sincero desejo de vingança. Sentimentos que, ao longo do tempo, vão remoendo todo o nosso íntimo e transformando nossa vida em algo absolutamente indesejado e, portanto, nefasto.

Ora, se esta é a realidade vivida pelos seres humanos, e parece ser mesmo, então, o que fazer para a transposição das águas? Como agir para colocar cada pedra no seu devido lugar, todo o volume de água no devido leito, para que siga o curso normal dos grandes rios? Meditar!

A meditação como forma de esvaziamento, ainda que temporário, da mente, no sentido de afastar todo e qualquer pensamento direcionado para frente ou para trás, é método bastante eficaz para desobstruir os canais de ligação direta com o transcendente e libertar-nos dos nefastos efeitos causados pelo caos a que nos referimos acima. É colocar a mente em estado de profundo silêncio e repouso, ativando os sentidos da visão e da audição espirituais, quando são, ainda que momentaneamente, afastados todos aqueles pensamentos dos quais decorrem tantos males para as nossas vidas. Somente a prática constante e permanente da meditação, sem fórmulas escritas e sem roteiros pré-determinados, pode permitir que façamos uma verdadeira reconstrução do nosso ser interior, donde origina todo o bem, toda a luz, toda a verdadeira energia e, por conseguinte, toda a força necessária para seguirmos adiante de forma intacta e vencedora. É o verdadeiro recarregar das baterias!

Não se trata, obviamente, de tarefa fácil. Desafia-nos, em primeiro lugar, a uma verdadeira imersão em nosso interior, a fim de fazermos um reconhecimento, real, e não falseado ou desonesto, do estado mental e espiritual a que estamos submetidos e subordinados. Visto e compreendido este estado, precisamos tomar a decisão de agir. E agir, neste caso, importa praticar atos que vão de encontro a tudo o que até então permitimos ser acumulado em nossa mente e em nosso interior. Conflitos internos, certamente, surgirão, porque trata-se de toda uma existência vinculada ao caos mental com o qual fomos coniventes e ao qual, de certa forma, estamos condicionados. Porém, é possível vencer estes conflitos e, lenta e progressivamente, subir cada um dos degraus da escada que vai nos conduzir ao topo, à verdadeira Luz que, por sinal, já brilha dentro de cada um de nós. Esta é a porta de entrada, que sempre esteve aberta à sua frente. Daí por diante, entrar e agir, é com você.

Segundo o filósofo indiano J. Krishnamurti “Ninguém, ninguém pode ensiná-lo a meditar. Não importa quão longa seja a barba do cidadão ou as roupas exóticas que ele use. Descubra por si próprio, mantenha-se fiel à sua descoberta e não dependa de ninguém”[1].

A prática da meditação diária em momento, lugar e posição mais aprazíveis e convenientes, precedida, ou não, do diálogo com o sagrado, vai se tornando uma verdadeira necessidade para a alma, até o momento em que totalmente envolvida, ocorre o profundo mergulho nas águas refrescantes do nosso interior. De tal modo que os dias passam a ser absolutamente iluminados, independentemente, de onde e de com quem estamos.

Cultivar o silêncio interior, pondo um fim ao constante e perturbador falatório que existe no íntimo do seu ser, por meio do qual pensamentos conflitantes, e conflituosos, debatem-se o tempo todo, fazendo verdadeira algazarra na sua mente e impedindo que o seu "eu" possa prosperar, é, também, forma de apaziguar a mente, como um todo,  e de reconstruir toda a estrutura, que foi criada para te trazer plena realização com acesso, inclusive, à felicidade tão perseguida, porém, por caminhos tortuosos e labirínticos. 

Não é difícil encontrar pessoas bastante estressadas nas filas. Qualquer fila, principalmente, quando muito lenta, deixa as pessoas enervadas e, rapidamente, propensas às críticas e às reclamações. Nestas horas, para o praticante da meditação, e cultor do silêncio mental, o momento é mais do que oportuno para abstrair-se mentalmente, sem o socorro do celular ou do fone de ouvido, e iniciar um verdadeiro passeio pelo jardim interior. Rapidamente verá o fim daquele momento conflituoso. No entanto, é preciso, antes, construir e fazer a manutenção do jardim, pois, caso contrário, a pessoa acaba sendo abduzida pelo momento angustiante e, quando menos espera está, ela própria, brigando, xingando e desafiando todo mundo, de forma absolutamente insana, como muitos de nós já presenciou ou até mesmo já se viu envolvido.

O objetivo, aqui, é o incentivo a uma melhor administração mental, de tal forma que os pensamentos sirvam, apenas, para proporcionar bem estar e, não para, como costuma ocorrer, provocar situações totalmente prejudiciais para as pessoas, no aspecto físico ou mesmo no espiritual.

Reflita sobre tudo isto e, se julgar conveniente, faça uma visitinha ao seu interior, para verificar a quantas andam os seus pensamentos e para qual direção estão apontados, se para o passado ou para o futuro, e, se entender ser possível para você, inicie o processo de limpeza, de depuração, de administração e de reconstrução mental. Vai te fazer muito bem e, certamente, proporcionar dias e vida muito melhores. Faça isto. Namastê! Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

[1] KRISHNAMURTI, J. – Nossa Luz Interior – O verdadeiro significado da meditação. São Paulo. Ágora: 2000. 108 páginas.

set 09

EDITORIAL DA SEMANA: DA ESPIRITUALIDADE, PARA A VIDA ETERNA.

ÁGUAS NO MAR

  A PRÁTICA DA ESPIRITUALIDADE É O CAMINHO A SER PERCORRIDO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não parece ser desconhecido o fato de os seres humanos terem sobre si a compreensão dualista matéria-espírito, corpo-alma. Com raras exceções, esta compreensão advém, em grande parte, da vida religiosa ou, em outras palavras, do seguimento a esta ou àquela religião.

Religiões, grosso modo, são representadas por instituições de natureza comunitária, normalmente hierarquizadas, por meio das quais as pessoas vivem, e tentam colocar em prática, as crenças que professam, seguindo ensinamentos doutrinários, observando ritos e abraçando dogmas. Esta fórmula é, praticamente, infalível. Poderá ser encontrada em todas as religiões e terá nos adeptos, uns fanáticos ou nem tanto, verdadeiros e árduos defensores.

Pois bem! A questão que chama a nossa atenção é sobre os efeitos espirituais que incidem sobre todos e cada um dos praticantes das religiões. Ou seja, se cada ser humano que professa esta ou aquela fé tem, realmente, noção de fazer parte de um todo muito maior, envolvendo não apenas todos os demais seres, mas, também, a própria natureza. Ou, se acontece, como acreditamos, de ficarem restritos (e limitados) às doutrinas, aos ritos e aos dogmas prescritos em cada uma das incontáveis religiões.

Ora, enquanto o homem olha para si e percebe a necessidade de viver em comunidade restrita, e adequada, ao seu modo de compreender a vida e à forma de se relacionar com a divindade e com os seus semelhantes deixando de fora, em muitos casos, a totalidade da humanidade, bem como a própria natureza, com todas as suas leis, deixa, também, de perceber que toda a Criação é projetada para a unidade: que todos somos um, e que esse “um” tem o vértice voltado para o único e verdadeiro UM, no qual tudo se completa e tudo se explica.

A partir da profissão de determinada crença, não é novidade a formação, ainda que involuntária, de verdadeiros guetos. Isto porque, cada religião caminha sob a influência direta de doutrinas, ritos e dogmas próprios, e bastante distintos uns dos outros, o que gera, com muita frequência, sérias divergências e conflitos, internos e externos que, inevitavelmente, vão opor irmãos contra irmãos.

Mas, para os verdadeiros praticantes desta ou daquela religião, sempre que a fé está ameaçada, os conflitos são mesmo inevitáveis, e devem acontecer, até para o fortalecimento da própria fé. Ou seja, quando os adeptos de determinada religião acusam os de outra, de estarem subvertendo ou transgredindo a Palavra de Deus, eles acreditam piamente terem o dever de enfrentar o que denominam de “opositores”, porque se sentem os verdadeiros, e genuínos, guardiões da fé.

Acredito ser este um fato incontestável, diante da realidade apresentada e vivida nos diversos quadrantes do mundo. Realidade que, não devemos esquecer, é tão antiga quanto o homem. Até aí, nada de muito novo.

Entretanto, as incontáveis religiões não têm conseguido, de forma eficiente e permanente, promover o crescimento espiritual de todos os filhos de Deus. Isto porque muitas delas, simplesmente acreditam que os verdadeiros filhos de Deus são apenas, e tão somente, os seus adeptos e seguidores particulares. Para estas, os que estão vinculados às outras religiões estão distantes desta condição, porque não seguem aqueles caminhos determinados como únicos e verdadeiros, assim como os rituais estabelecidos pela instituição religiosa “abençoada por Deus”.

Ora, se o Criador não faz acepção de pessoas, sejam elas quem forem, como admitir que as criaturas possam fazê-lo, em detrimento umas das outras? No caso, o que, invariavelmente, justifica tal postura é o sentimento de posse e de guarda da Verdade, que cada uma tem de si.

Esta questão lateja nas mentes e nos corações de todos os espiritualistas que têm, como foco, a vida na unidade, voltada total e absolutamente para o Transcendente de onde, além da Luz intensa e permanente, recebem inspirações e instruções para o aprimoramento da relação, e da convivência mesma, com todos os seres e com a própria natureza, amando-os de verdade, respeitando-os em suas essências, acolhendo-os com todas as suas imperfeições, reverenciando-os e, principalmente, com eles aprendendo diuturnamente tudo o que têm para ensinar.

A prática da espiritualidade, portanto, perpassa todas as formas de religiosidade unindo-se à coletividade dos espíritos, sem aprisionar-se a ritos e/ou dogmas que, até podem ser belos e verdadeiros, mas, que, não podem ser usados para a divisão da unidade querida pelo Criador desde sempre, e pela qual o próprio Jesus orou com estas singelas palavras: “que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). Ser “um” é muito mais do que ser muitos, absolutamente separados e divididos em nome de crenças que deixam de reverenciar, e de vivenciar mesmo, a unidade querida pelo Criador.

Tentar explicar isso a cada pessoa que pratica esta ou aquela religião parece missão absolutamente impossível. No entanto, se cada um de nós passar a viver a espiritualidade ensinada por aqueles que, verdadeiramente, conseguiram compreender que existe uma unidade em torno do Transcendente, incluindo a natureza com suas leis e o próprio Universo, e que cada ato ou omissão praticados afeta a todos de forma indistinta, o mundo, certamente, será recriado e tudo será muito diferente do que tem sido até aqui. Não é utopia, porque é a vontade do próprio Deus que, sempre, sempre, realiza todos os seus projetos e desígnios. A questão é: quando a humanidade, como um todo, vai conseguir compreender esta lógica tão simples? Eis o nosso grande desafio.

Reflita sobre tudo isto e, sem abandonar a sua religião (para quem tem uma) procure compreender que conflitos doutrinários, ritualísticos ou dogmáticos com irmãos de outras religiões, só contribuem para uma divisão absolutamente indesejada por Deus. E você, certamente, não quer desafiar Aquele que está no comando absoluto de tudo, principalmente, por influência dos homens, quer? Pense sobre isto e cresça espiritualmente com todos os seus congêneres, reverenciando a natureza, e o próprio Universo, com todas as suas leis, acolhendo-os e amando-os para que a relação com o Transcendente seja aperfeiçoada cada vez mais, até o dia da unificação total de todos no verdadeiramente UM quando, então, tais quais verdadeiras gotas de água, cairemos no oceano da Vida e seremos todos, e eternamente, um único mar. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cutor do silêncio.

 

   

set 02

EDITORIAL DA SEMANA: EXISTEM PESSOAS ILUMINADAS

ESPÍRITO DE LUZ

EDITORIAL DA SEMANA: EM CADA GERAÇÃO, ESPÍRITOS DE LUZ ESTÃO SEMPRE PRESENTES –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Faz parte do inconsciente coletivo a ideia de que, com o passar dos séculos e das gerações, tudo vai piorando progressivamente, em decorrência do definhamento intelectual e espiritual dos seres humanos. Daí dizer-se com frequência que “esta geração está perdida” ou que “estamos vivendo o final dos tempos”, como se tais possibilidades pudessem ser mensuradas por meio de padrões estritamente humanos.

Se fizermos pequena regressão histórica, vamos verificar com certa facilidade que, no tempo dos grandes mestres orientais, daqueles que, de volta e meia, entram em alta no gosto de alguns praticantes da espiritualidade, mestres da estirpe de Lao Tsé, de Confúcio ou mesmo de Buda, existiam homens absolutamente perversos, corruptos e assassinos. Vamos encontrar homens com as mesmas características no tempo dos grandes profetas bíblicos, assim como na época de Jesus e, posteriormente, nas épocas de todos os santos e santas consagrados pela instituição Católica.

Entretanto, assim como no tempo dos citados mestres orientais, na época dos profetas, de Jesus e dos santos, existiram seres humanos habitados por espíritos de luz, como os próprios, que trouxeram grandes ensinamentos, grandes contribuições para o crescimento espiritual da humanidade e que tiveram atrás de si gigantescas filas de seguidores e de propagadores de tudo o que com eles aprenderam. A exceção, no caso, fica com Jesus, que era a própria Luz encarnada.

A questão mais profunda é que, o avanço dos séculos trouxe, também, o progresso em todas as áreas, mais em umas do que em outras, mas, indiscutivelmente, em todas elas. E esse progresso só fez aumentar a ferocidade de grande parte da humanidade, na busca pelo crescimento material, primordialmente, no que se refere ao poder, advindo do dinheiro ou das armas, ou de ambos ao mesmo tempo. O fato é que o ser humano, por natureza, é apegado ao fugaz, ao perecível, ao efêmero e ao que brilha. Com este apego, e com a abundância da riqueza disponível, bastou apenas organizar-se das formas mais engenhosas possíveis e imagináveis para a saga do acúmulo ilimitado, donde o consumismo exacerbado a que estamos acostumados. Quem tem, quer mais. Quem não tem, quer ter de qualquer jeito (os meios justificam os fins).

Enquanto o progresso caminhou com a humanidade, a passos de cágado, tudo foi acontecendo par e passo um com o outro. Entretanto, após a última experiência bélica mundial, o progresso, principalmente no campo tecnológico, ligou todas as suas turbinas e disparou com tal velocidade e intensidade que o ser humano não consegue acompanhá-lo na forma desejada. Assim, chegamos ao século XXI quando, a cada instante, surge uma tecnologia mais avançada, mais interessante, mais promissora, mais eficiente e, portanto, mais cobiçada, haja vista que o grande fenômeno destes tempos é a integração de todo o planeta por meio da internet que, com ela, traz as não menos famosas redes sociais.

Bem, tudo é muito bonito. Tudo é muito eficiente e belo. Mas, nem todo este maravilhoso mundo da exposição foi capaz de frear a ambição, o materialismo e o consumismo. Pelo contrário, tudo isso parece estar se multiplicando de forma assombrosa, de modo a manter níveis apavorantes de crimes contra a vida, contra honra e contra o patrimônio, em um cenário comandado, justamente, por aqueles que já têm de tudo, e em abundância, mas que insistem em acumular ainda mais, a qualquer preço. Ou seja, permanece a mesma lógica dos tempos muito antigos, referidos no início deste texto.

Porém, se nos primórdios da civilização, tal como a conhecemos, existiam vândalos, criminosos de todas as espécies e assassinos dos mais ferozes e impiedosos tipos, assim como governantes loucos, déspotas e hereges, mas, existiam, também, grandes mestres, profetas e santos, podemos afirmar, com segurança, que, ainda hoje, existem diversos espíritos de luz, que estão aí, caminhando muito perto de cada um de nós.

Quem não conhece uma pessoa absurdamente má, corrupta, criminosa, desonesta ou árdua defensora da cultura da morte, seja lá qual for o meio e a justificativa? Mas, também, quem não conhece uma pessoa absolutamente boa, sensível, honesta, amiga, confiável e capaz de fazer tudo pelo próximo? Em outras, e significativas, palavras: quem não conhece, pessoalmente, um verdadeiro espírito de luz?

Graças a Deus, estas pessoas verdadeiramente iluminadas existem, estão e caminham no meio de nós e, em cada geração, fazem-se presentes. O problema é que, quase sempre nós não lhes devotamos a merecida atenção e, até, por vezes, não perdemos a oportunidade de ridicularizá-las, tachando-as de ingênuas, de bobas, de “santinhas” ou de totalmente alheias à realidade. Porque, para a esmagadora maioria das pessoas, o certo é ser esperto. E, ser esperto, é ganhar sempre, sem dar nada em troca. Ser esperto, é levar vantagem em tudo e sobre todos, o tempo todo. E, nesta lógica, o bobo, o trouxa, o ingênuo é, justamente, aquele que pensa no outro, que não aceita se locupletar de forma enganosa ou criminosa. É aquele, enfim, que reza pela cartilha da espiritualidade, da justiça, da fé e da reverência a Deus e ao próximo em detrimento da cartilha do materialismo, do acúmulo de bens e de riquezas, da desumanidade, da vingança pessoal ou estatal, do egoísmo, do consumismo desgovernado, da necessidade de estar sempre na mídia, seja a que preço for etc.

Portanto, é muito fácil comprovar que não estamos vivendo o final dos tempos, nem que tudo já esteja irremediavelmente perdido. O que está acontecendo é que a humanidade, total e absolutamente embotada e fascinada pelo mundo e por suas glórias, ofertas e homens descrentes, submete-se à total ferocidade do mal que avança impiedosamente sobre ela, e não consegue enxergar, nem ouvir, os espíritos de luz que, desde sempre, caminham bem próximos a nós, na vizinhança, na comunidade de bairro ou religiosa, no trabalho, no trânsito, nas ruas e praças ou na própria família, enfim, sempre muito próximos de nós, e dispostos a indicar para nós os melhores, mais sábios e mais saudáveis caminhos.

Não acredite nas profecias que vislumbram o fim do mundo em tudo e a todo momento. O mundo que está desmoronando é o mundo do verdadeiro conhecimento e da verdadeira sabedoria, da reverência a Deus e ao próximo, do culto e do respeito ao sagrado, da humildade, da simplicidade e da afetividade (os três tesouros, segundo a tradição Taoísta), em decorrência direta da nossa falta de percepção e de visão de que ainda existe muita luz no mundo. Nós é que, já tremendamente maculados pela cegueira secular, acreditamos que está tudo escuro, em densas trevas. Mas, isto não é real: existe muita luz no nosso entorno. Precisamos ter abertos os olhos e os ouvidos espirituais, para que possamos ver e ouvir tudo o que tem sido mostrado e dito a todos e a cada um de nós, durante todo o tempo da nossa existência. Tem sido assim em todas as gerações, e assim continuará sendo, porque Deus, desde o início, deseja que sejamos semelhantes a Ele e, por esta razão, sempre envia mensageiros, profetas, missionários e vocacionados. É preciso identificá-los, ouvi-los e imitá-los, para que o mundo prospere de forma una, santa, permanente e abundante.

Reflita um pouco sobre tudo isto e faça alguns testes acerca de tudo o que está sendo dito. É bom sempre duvidar, porém, também, é muito bom poder comprovar tudo o que vemos, ouvimos ou lemos. Vai que a gente é que está certo, e o outro, irremediavelmente, equivocado. Que sempre existam pessoas iluminadas e portadoras de muita luz ao teu lado, para que possam te guiar, te iluminar, te proteger e te ensinar. Não tenha vergonha de aprender, a gente precisa aprender sempre e durante todo o tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

ago 26

EDITORIAL DA SEMANA: AS CHAVES E AS PORTAS ESTÃO DIANTE DE NÓS – SEGUNDA PARTE

O CAMINHO DO MONGE

CHAVES E PORTAS: CAMINHOS LIBERADOS –

PARTE II –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Na primeira parte desta reflexão, falamos sobre os cinco adversários, comparados aos dedos de uma das mãos – orgulho, prepotência, ambição, inveja e ira – e iniciamos uma fórmula para derrotá-los e, então, termos acesso às chaves e às portas que existem à nossa frente, para que possamos ultrapassar certos limites impostos pela vida que, num primeiro momento, parecem-nos impossíveis de serem vencidos.

Nesta oportunidade, vamos dar continuidade àquela reflexão, trazendo os contrapontos aos cinco adversários que, de igual forma, podem ser contados nos dedos da outra mão. Só que, no caso, não são adversários, mas, virtudes que, derrotados os primeiros, passam a fazer parte, positivamente, das nossas vidas e do sucesso almejado por todos e por cada um de nós.

Se, temos como adversário, de um lado, o orgulho temos, no contraponto, a humildade; para a prepotência, a simplicidade de coração; para a ambição, a gratidão pelo que já recebemos; para a inveja, o contentamento e, para a ira, o perdão e a reconciliação. São estas as virtudes a serem conquistadas por meio da reflexão e do permanente e continuado diálogo espiritual, cujo cenário é o nosso templo interior, e o interlocutor, o Espírito Santo de Deus.

Toda esta linha de raciocínio lógico acerca da vida e das diversas formas de usufruí-la sadiamente, passa pelo profundo e necessário conhecimento de si próprio. Pois, somente quando temos perfeito e honesto conhecimento sobre nós mesmos, é que somos capazes de enxergar extravios, transgressões, desníveis e extremos aos quais nos submetemos diariamente, em busca de uma “felicidade” alardeada pelo mundo exterior ao nosso templo sagrado.

As atuais configurações do mundo no qual estamos inseridos, sugerem um permanente afastamento das nossas origens e, consequentemente, uma gigantesca desconstrução de todos os valores éticos, morais, sociais, políticos e religiosos que predominaram até meados do século passado. Assim, a sociedade contemporânea perdeu a noção de que existem princípios e valores sagrados que regem a vida, em todas as instâncias e circunstâncias, que, uma vez adulterados, ultrajados e/ou desprezados, geram devastadora instabilidade em todas as forças da natureza, donde não escapamos, sequer, e principalmente, nós, os seres humanos.

É preciso consolidar esta compreensão para, de forma sadia e promissora, reconstruir as pontes bombardeadas pela ilusão do materialismo como única forma de atingir a tão perseguida felicidade. Reconstruir as pontes e aplainar os caminhos, para que voltemos a celebrar a tão necessária espiritualidade que, a despeito dos descrentes, tem potencial para regenerar a raça humana, tão dividida e tão segmentada, vítima que tem sido de si própria e dos seus enganos e atropelos.

Voltar-se para si, e para o interior de si, é conditio sine qua non para a proximidade da perfeição e da semelhança com o Criador, a partir de quando é possível lacrar as portas do ódio, do desamor, do desrespeito, do desprezo, da maldade justificada, da indiferença para com os mais pobres e desvalidos para, finalmente, ver abertas as portas que conduzem às grandes, e humanas, realizações pessoais e coletivas, ponto de partida para o ressurgimento dos grandes seres humanos, que alguns chamam de verdadeiros heróis, porque saberão, como os antigos, liderar projetos e processos virtuosos, voltados para o bem estar e para o aprimoramento de toda a espécie humana. Heróis e líderes que não se fazem presentes nos dias de hoje.

O que estamos contemplando, hoje, no cenário mundial, é, justamente o oposto de tudo isto, ou seja, o que está imperando é o ódio, o sectarismo, o racismo, a luta ideológica, o total e absoluto desrespeito para com os seres humanos desprovidos de armas e de dinheiro, a corrupção, em todas as suas formas, a injustiça praticada, inclusive, nos Palácios da própria  Justiça, a disseminação da cultura da morte, como única forma de resolução de conflitos. Enfim, o verdadeiro caos humano!

Se, realmente, queremos ser felizes, precisamos frear bruscamente nossa corrida desesperada rumo ao futuro incerto e duvidoso. Parar, olhar para dentro de nós mesmos, esquecermos do “outro” por um instante, e dedicarmos tempo a avaliação de quem realmente somos e o que temos feito por nós e pelos outros. Que armas temos utilizado para alcançar nossos projetos e ambições. Precisaremos examinar a profundidade e a extensão da nossa relação com os cinco adversários – orgulho, prepotência, ambição, inveja e ira – para então, e somente então, termos diante de nós o mapa absolutamente errático ao qual estamos dando todos os créditos, esquecendo-nos de que existem contrapontos – humildade, simplicidade de coração, gratidão, contentamento e perdão/reconciliação – que, uma vez reconquistados e praticados, terão poder para nos tirar deste verdadeiro caos no qual estamos inseridos.

Se conseguirmos esta grande proeza, reabilitaremos as forças da natureza, fazendo com que atuem absolutamente em nosso favor e benefício. Nosso e de toda a espécie humana, apesar das exceções que sempre existiram e que sempre existirão. O problema é que, a partir de determinado momento histórico, as exceções foram dominando a regra e hoje a contabilidade aponta para a infeliz conversão da regra antiga em uma demolidora exceção. É preciso, e podemos, reverter esta lógica perversa de convivência.

Releia, se julgar necessário e oportuno, a primeira parte desta reflexão, medite sobre ambas, tire suas conclusões e, caso entenda possível, dê início ao processo de reconstrução, começando por si mesmo(a) e, na sequência, repassando a ideia para amigos, familiares e entes queridos. Assim, e só assim, portas incríveis serão abertas diante de cada um de nós, e o impossível será afastado do nosso caminho.

E, lembre-se: vencer adversários e reconquistar virtudes significa ter em mãos uma preciosa chave, apta a abrir portas até então invisíveis para nós, em razão da cegueira imposta pela lógica de um mundo insano, insensato e insensível. Reflita sobre tudo isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

 

ago 19

EDITORIAL DA SEMANA: AS CHAVES E AS PORTAS ESTÃO DIANTE DE NÓS – PRIMEIRA PARTE

PORTAS ABERTAS - 2

CHAVES E PORTAS: CAMINHOS LIBERADOS –

PARTE I –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A visão realista do mundo permite a transparência de cenários que, em muitas ocasiões, e situações, impõem limites diante de nós. Alguns desses limites instigam nossa vocação para a superação e, logo, logo, conseguimos vencê-los. Entretanto, existem outros limites que, simplesmente, revelam-se intransponíveis, em razão das inomináveis altura e espessura.

No primeiro caso, mesmo diante das nossas fraquezas e incertezas, recebemos alguns incentivos e estímulos, porque tais limites podem, de fato, ser transpostos. No segundo caso, no entanto, ninguém ousa nos instigar, porque a impossibilidade é reconhecida por todos. Então, o que fazer? Recuar, desistir?

Não, não devemos recuar nem desistir, porque, se existe um mundo visível que apresenta limites intransponíveis diante de nós, existe, também, um mundo invisível que, simplesmente, abre portas diante de nós, facilitando a nossa passagem para lados, mundos, situações e oportunidades que, até então, pareciam impossíveis e inexistentes. Não são portas imaginárias, virtuais, mágicas ou coisas mirabolantes, daquelas que só vemos em filmes de alta ficção científica. São portas reais, plausíveis e sensíveis. Portas que são abertas por meio de chaves que nos são fornecidas por forças superiores.

O segredo não está nas portas, mas, na obtenção e no manuseio das chaves! Em nossas mãos, normalmente, existem cinco dedos. Para cada dedo, um desafio a ser vencido. Cinco desafios que, uma vez vencidos, abrem o caminho para o predomínio do espírito sobre a matéria: o orgulho, a prepotência, a ambição, a inveja e a ira. A derrota destes cinco adversários permite que consigamos destravar algumas portas e, assim, ter acesso a caminhos até então tidos como inexistentes e até mesmo impossíveis de serem trilhados.

O orgulho é, geralmente, o primeiro desafio que nos empareda e nos atinge com força. Diante dele sentimo-nos frágeis e submissos, a ele nos entregando com facilidade e com docilidade, servindo-o de todas as formas por ele exigidas, porque, de nós, ele apenas exige o assassinato da humildade. Matando a humildade, sentimo-nos senhores absolutos do nosso EU e do caminho que temos à disposição.

A prepotência é irmã gêmea do orgulho. Quando acreditamos sermos senhores absolutos do nosso EU e de estarmos no pleno domínio do caminho que temos à disposição, sem qualquer dependência do “outro”, cremos firmemente sermos insuperáveis e, portanto, invencíveis. Ninguém é capaz de deter nossos passos e avanços e, consequentemente, a nossa caminhada. A prepotência forja o extremado amor próprio. Com o orgulho e a prepotência, esmurramos com força bestial os limites intransponíveis impostos pelo mundo visível, dando-nos a nítida certeza de que, se não vencemos, ninguém é capaz de vencer também.

A ambição é a principal responsável pela cegueira espiritual. Na medida em que sucumbimos diante dela, ficamos cada vez mais cegos para a realidade que nos cerca. Daí, não conseguirmos enxergar quando, diante de nós, existe uma muralha intransponível e, da mesma forma, não conseguimos ver as portas que já estão, ou que podem ser facilmente, abertas à nossa frente.

A inveja é a rainha do retrocesso e do descaminho. É ela quem nos obriga a abandonar o nosso caminho natural para seguirmos, e perseguirmos, o caminho trilhado pelo “outro”. Caminho que é próprio de cada um. Construído para cada um, de forma absolutamente individualizada. A inveja, aliada inseparável da ambição, faz com que acreditemos convictamente que um único caminho pode ser trilhado com sucesso por dois seres diferentes. Assim, o que é do outro, pode ser meu também. O que o outro tem, eu posso ter igual ou até mesmo superior.

A ira, por fim, não bastassem os outros entraves, corrompe os nossos tímpanos e trava a nossa mente, impedindo o curso natural da razão. Acometidos com a ira, somos incapazes de pensar de modo racional. Somos incapazes de agir de forma sensata. Portanto, tornamo-nos imprudentes, insensíveis, insensatos e insanos. Movidos pela ira, perdemos a sensibilidade e o tato necessários para a percepção das diversas portas existentes, algumas das quais já estão abertas diante de nós.

Vencer estes cinco desafios pode parecer, à primeira vista, um grande obstáculo intransponível e, aí, voltaríamos à questão inicial. Entretanto, cada um de nós, acreditando ou não, possui um espírito que, por sua vez, traduz-se em um imenso e poderoso templo, no interior do qual muitos e muitos mistérios são desvendados. Forças ocultas são dissipadas; obstáculos são removidos; segredos são revelados e novas forças são concedidas.

Ao desviarmos a nossa atenção, e a nossa atuação, para o templo que carregamos em nosso interior, administrado e gerenciado por um Espírito Maior, capaz de vencer até mesmo o que, para nós, parece ser impossível, adquirimos não apenas uma renovada vida, mas, sabedoria suficiente para vencermos e superarmos todos os entraves, e mais: capacidade para, abertos os olhos, ouvidos e mente, enxergarmos com toda a clareza necessária, todas as portas que estão abertas, desde sempre, à nossa frente.

Mas, é preciso repetir: os cinco desafios devem ser superados. Imagine-se diante de um cofre contendo a solução para todos os seus problemas. Trancado a sete chaves, você não consegue abri-lo, senão, penetrando no interior de uma profunda caverna, ao fundo da qual existe um altar de pedra em cujo tampo estão as sete chaves que abrem o tal cofre. Você precisa, apenas, perceber que, indo na direção da caverna terá rápido acesso às chaves que te darão acesso a todas as soluções perseguidas.

É justamente o que deve ser feito para que as diversas portas existentes, que já podem ser  abertas por você, sejam percebidas, também, por todos aqueles que julgam estar diante de problemas intransponíveis. As soluções existem e estão diante de cada um de nós. Não percebê-las ou não saber como acessá-las, depende do destravamento dos olhos, dos ouvidos e da mente espirituais, o que só pode ser feito após a derrota dos cinco maiores adversários do ser humano. Sozinhos, não podemos vencê-los, mas, com o auxílio do Espírito de Deus, tudo se faz possível porque Ele faz novas todas as coisas e, assim, pode transformar-nos em pessoas absolutamente novas, imunes ao impossível.

Não se trata de magia ou de ilusionismo. Trata-se, na verdade, de crença. Jesus disse que “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Portanto, com fé e pela fé, obstáculos podem ser superados, adversários  derrotados, muralhas derrubadas, portas abertas e caminhos revelados. No entanto, não basta dizer que crê. É preciso renunciar a si mesmo e entregar-se de corpo e de alma, vencendo todos os inimigos do espírito. Então, e somente então, haverá serenidade, sabedoria, santidade e capacidade para superar todos os limites impostos por este mundo que, ao contrário do que muitos creem, não é real, mas, totalmente ilusório.

Reflita profundamente. Faça uma visita ao seu templo interior e, confiando no Espírito que lá está, derrote seus cinco inimigos e, após, esbanjando alegria e felicidade, escolha as portas que melhor atendem aos seus anseios e necessidades. Faça isso já, não perca mais tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mar 18

EDITORIAL DA SEMANA: TODA ESCOLHA TRAZ CONSEQUÊNCIAS

FAZER ESCOLHAS

OS FRUTOS QUE COLHEMOS NASCEM DAS ESCOLHAS QUE FAZEMOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quantos prantos e lamentos  chegam a todo instante aos ouvidos de Deus, com súplicas e clamores por socorro, além das previsíveis blasfêmias e heresias. Tudo, em decorrência das dores e dos dissabores enfrentados por todos e por cada um de nós no longo curso da vida. Abre-se aqui um parêntesis para falar sobre esta questão do ”longo curso da vida”. Só se valem desta expressão os que sofrem e que esperam a vinda do Senhor, como a solução final para todos os problemas, a cura para todas as formas de enfermidades e a justiça para todos, acima de tudo. Os que que vivem no prazer, na felicidade mundana e no regozijo das benesses de tudo de bom e de melhor que o mundo pode oferecer a um vivente, sempre acham que a vida é curta demais e que deveria haver um acréscimo, todas as vezes que o fim estivesse próximo.

Bem, fechado o parêntesis, aos ouvidos da divindade chegam todos os nossos clamores, em face de tudo o que sofremos aqui neste plano terreno. Obviamente que Deus não pode ser responsabilizado por nada de mal que ocorre debaixo do sol, haja vista ser impossível para Deus praticar o mal e que, por Ele, nós estaríamos no paraíso, usufruindo de tudo e, inclusive, da vida plena e sem fim. Entretanto, como espécie, o que fizemos? Fizemos uma simples escolha.

Escolha. Eis a palavra que define tudo sobre nós. Sempre, depois que nascemos, fazemos escolhas. É o sinal mais evidente e identificador do livre arbítrio com o qual somos dotados por Deus que, apesar de tudo o que nos ensina, sempre conhece o lado para o qual pendemos. Não em vão, já no Paraíso Deus não diz que “se” o homem comer da árvore proibida morrerá, mas, afirma categoricamente que “O dia em que dela comerdes, certamente morrereis”, porque Ele já sabia o final daquela novela. Pois bem, escolha é sempre a opção que fazemos, ou até mesmo deixamos de fazer, diante das diversas possibilidades que nos são apresentadas. É preciso saber, no entanto, que as escolhas trazem embutidas, de forma inevitável, consequências, e é aí que reside o nó górdio da questão. As escolhas que fazemos nem sempre se nos apresentam de forma completa e transparente, ou seja, praticamente nunca as escolhas revelam as contraindicações, como nas bulas dos remédios, que avisam sobre os riscos e os perigos que podem ser enfrentados pelos pacientes,  depois da ingestão daquele produto.

A vida não tem bula, e justamente por esta razão, nossas escolhas são feitas, normalmente, em razão dos impulsos que nos movem: compramos porque queremos; vendemos porque julgamos ser bom; mudamos de emprego porque achamos mais oportuno e vantajoso; trocamos de profissão porque estamos convictos de termos encontrado a verdadeira vocação; divorciamo-nos porque encontramos alguém que vai nos fazer mais felizes, ou simplesmente porque estamos cansados do outro. Enfim, são inúmeras as possibilidades de escolhas às quais somos convidados a fazer todos os dias, ao longo da nossa existência.

Entretanto, todas e cada uma das escolhas que fazemos trazem, a curtíssimo, curto, médio e longo prazos consequências para as quais quase nunca fomos ou estamos preparados. Daí as decepções, os arrependimentos, os sofrimentos, as angústias e as amarguras que caem sobre as nossas cabeças como se fossem bolas de ferro que, de tão pesadas, fazem com que passemos a sentir o chão afundando sob os nossos pés. Aí, nestas horas, bradamos a Deus! choramos, oramos, erguemos os braços na direção do céu falamos impropérios, sentimo-nos totalmente abandonados à própria sorte, outros até acham que estão sendo colocados à prova por Deus e tem, ainda, os que acreditam estarem sendo severamente castigados por algum mal feito no passado.

Dificilmente, no entanto, alguém admite estar sofrendo as consequências decorrentes de escolhas que foram feitas em dado momento. Escolhas que, na ocasião, pareciam acertadas e cheias de promessas sedutoras. Escolhas que propiciavam certas vantagens ou lucros acima do normal, mas que a pessoa, naquele instante, sentia-se premiada pelos céus com aquilo que lhes parecia verdadeira dádiva. O que ontem parecia verdadeira benção e premiação, hoje parece maldição e castigo!

E tais escolhas são feitas de forma individual ou coletiva. Individual, quando os beneficiários diretos somos nós mesmos; coletiva, quando escolhemos algo ou alguém para atuar, direta ou indiretamente, sobre toda a sociedade como, por exemplo, na eleição de um governante ou de um parlamentar. Muita gente acredita não ser culpada por nada de mal que ocorre na sociedade como um todo, mas, o engano é abissal, haja vista que a escolha direta ou mesmo a omissão na hora de escolher, faz de nós participantes ativos de tudo o que está em jogo porque, sempre somos convidados a fazer escolhas e, se fazemos más ou boas escolhas, ou mesmo se preferimos a omissão, estamos vinculados aos resultados e às consequências que daí advirão. Enfim, não tem muito jeito, agiu ou se omitiu, tem responsabilidade sobre as consequências.

Isso tudo para, no fim, afirmar-se que o modelo de família adotado pela ampla maioria da sociedade ocidental está, deveras, equivocado, porque parte do pressuposto de que somos absolutamente livres para decidir o que fazer com nossas vidas. Livres e imunes a uma ética e a uma moral para as quais muitos, e já há muito tempo, decidiram virar as costas por entendê-las objetos de manobras das religiões. Trata-se de escolha legitimamente feita por parcela considerável da sociedade humana mas que, como já o afirmamos, traz embutidas todas as consequências que, todos os dias, a mídia estampa diante dos nossos olhos, à exaustão, como a jogar no rosto de cada um de nós a culpa pelos resultados, agora, colhidos.

A extrema violência demonstrada por delinquentes de todos os matizes, o desamor e o desrespeito para com tudo e todos, a falta de apreço pelas instituições, de um modo geral, e pelos templos sagrados e religiosos, de modo especial, assim como o ódio racial e homofóbico, o desprezo aos mais velhos e desamparados, tudo isso é fruto direto da árvore plantada sob um modelo de família absolutamente adulterado e corrompido. Um modelo que, em nome da ampla liberdade de escolha foi, e ainda está sendo, alimentado por um tipo de adubo que, traz prazer, realização e até satisfação momentâneos, mas que, também, enrijece o coração e o espírito, gerando embriões que, quando crescem, são capazes de coisas inacreditáveis, como as que temos visto no noticiário do país e do mundo.

Nossos avós falavam sobre Deus; nossos pais falavam sobre Deus; nós quase não falamos sobre Deus. Nossos jovens, e mesmo muitos adultos, não sabem quem é Deus! E quando não se conhece Deus, de onde provém toda forma de vida, de onde provém um modo de vida condizente com a santidade e com a perfeição, perde-se a noção dos princípios e dos valores que moldam, justamente, a vida pacífica em sociedade. Resultado: tudo o que o noticiário nacional e internacional têm disponibilizado para nós, todos os dias e todas as noite.

Portanto, não devemos permanecer nesta profunda ignorância, acreditando ou querendo acreditar que o mal que cai sobre nós e sobre esta geração, decorre de provação, de castigo, do abandono à própria sorte ou, ainda, da chegada do final dos tempos, como muitos gostam de afirmar, mas, que decorre, sim, diretamente das escolhas que temos feito ou apoiado, ou, ainda, das nossas omissões porque, até o ato de permanecer inerte é uma escolha que tem suas consequências.

Devemos reservar alguns instantes da nossa tumultuada e agitada vida para refletir sobre as escolhas que temos, ou não, feito, avaliando acerca de cada uma, as consequências visíveis e mesmo as previsíveis e então, e somente então, haveremos de fazer o necessário mea culpa, livrando Deus de uma responsabilidade que Ele, definitivamente, não possui.

A proposta, como sempre, é para uma profunda reflexão e tirada de conclusões. Conclusões que podem mudar o curso de algumas vidas e, quiçá, de toda uma coletividade. Faça isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritual, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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