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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DO MÊS

fev 02

EDITORIAL DO MÊS: NA LIBERTAÇÃO, A FELICIDADE ALMEJADA

VINDE A MIM TODOS VÓS

TEOLOGIA MORAL: A CHAVE PARA UMA VIDA MAIS COMPLETA E MAIS FELIZ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Uma das maiores e mais persistentes preocupações de carrego comigo a vida toda está relacionada com a disseminação do conhecimento. Nunca me conformei com a dificuldade de acesso ao conhecimento e, principalmente, quando esta dificuldade ocorre de forma premeditada por aqueles que, detentores do saber, fazem-se de bobos ou de desentendidos, deixando incontável número de pessoas presas, e até certo ponto acorrentadas, à ignorância. Isso, em relação a todos as áreas do conhecimento.

Muito do que aprendi, e do que ainda aprendo, no meio acadêmico, seja na área do direito, minha primeira graduação, ou mesmo na da teologia, minha paixão eterna, procuro divulgar sugestões e opiniões para as pessoas, a fim de que elas possam ter, ao menos, uma pequena noção sobre assuntos cuja ignorância traz, não raro, sofrimentos, prejuízos e, posso dizer, até um certo esmagamento espiritual, em virtude, principalmente, dos sentimentos de culpa e de arrependimento que, ainda que bem camuflados no mais profundo do ser, trazem angústias imensuráveis a todos nós seres humanos.

Por estas razões, resolvi abordar aqui e agora o tema que, para mim, é o do momento: a teologia moral! É claro que não pretendo, neste curto espaço, dar aula sobre o assunto, o que demandaria a escrituração e o detalhamento de enormes e espessos volumes, mas, quero, apenas e tão somente, comentar certos aspectos de um ramo da teologia ao qual venho me dedicando com mais afinco a cada dia, justamente, por entendê-lo portador de enorme potencial libertário, por envolver, para nós cristãos fieis e fervorosos, temas como pecado, culpa, arrependimento e possibilidades de reconciliação.

Sejam quais forem os melhores e mais apropriados conceitos destacados para cada um dos temas indicados – pecado, culpa, arrependimento e reconciliação – o fato é que caminhamos por uma estrada na qual somos espremidos, de um lado, pelos mandamentos compilados na Lei de Moisés, sobre os quais Jesus disse ter vindo para, além de cumpri-los, também, aperfeiçoá-los e, por outro lado, com as exigências impostas pelas religiões e seus dotes fundamentalistas, além das concepções trazidas pelo século presente que, vítima do mal do relativismo, apregoa justamente a inexistência ou a não importância dos temas em destaque. Ou seja, para o mundo pós-moderno, questões como pecado e culpa, por exemplo, estão superadas pelo tempo. Arrependimento é ato personalíssimo que, portanto, só aprisiona os mais antigos e ultraconservadores. Reconciliação, então, nem se fala. Diversos setores eclesiásticos, por seu turno, impõem verdadeiras e pesadas correntes sobre os que ousam levar-lhes seus pesares com a vida ou mostrar-lhes os insuportáveis fardos que carregam na alma.

Em meio a toda esta barafunda, o verdadeiro cristão, aquele que procura seguir de perto as pegadas do Mestre Jesus, caminha com bastante dificuldade, porque, ora é oprimido por deixar de fazer ou de praticar atos que acredita fazerem-no um pouco mais feliz, ora sente-se esmagado pelo sentimento de culpa ou mesmo pelo arrependimento que, neste caso, pode ser pela ação ou pela omissão.

A teologia moral não vem derrubar muralhas, nem abrir fronteiras inimagináveis, mas, vem trazer alento aos corações e aos espíritos cansados e aflitos, aos quais Jesus se dirige dizendo: “vinde a mim todos vós que estais cansados e aflitos, e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28-30). E a teologia moral traz esse alento, justamente, por estar solidamente fundamentada na pessoa, na ação, nos gestos e nas palavras de Jesus que, se de um lado afirma ter vindo para, além de cumprir a lei, aperfeiçoá-la, também declara querer misericórdia e não, sacrifícios, chamando para si todos os cansados e fatigados, para o necessário e refrescante bálsamo do carinhoso acolhimento, para a oitiva da palavra suave, mansa e curadora e para a descoberta, principalmente, do perdão, com possibilidades de seguir adiante, em paz e de forma serena.

É com base nestas fórmulas evangélicas, e não em simples achismos, que autores moralistas consagrados, como  Bernhard Haering, Marciano Vidal, Josef Fuchs, Klaus Demmer, Antonio Moser, Bernardino Leers e Eduardo López Azpitarte, por exemplo (existem muitos outros) tratam de questões como o pecado, nas mais diversas formas, como a sexualidade e a homossexualidade, com todos os seus desdobramentos, e como a culpa, o arrependimento e a reconciliação. São teólogos como estes, sem esquecer José Maria Castillo, Paula Fredriksen e Tereza Rodrigues Vieira, que vão traçar para todos nós o caminho seguro e sem curvas que leva direto para Jesus que, verdadeiramente, é Aquele que tem o poder de libertar todas as criaturas dos inúmeros pesares que carregam em si e consigo.

A narrativa do Livro do Gênesis, sobre o fato de Adão, depois do pecado da desobediência, ter procurado ocultar-se da presença de Deus (Gn 3, 8), ainda se faz presente em nós e em nossas vidas, sempre que sentimos o manto sombrio do fato, do ato ou da omissão aproximarem-se do nosso ser, trazendo o terrível odor do sentimento de culpa ou de remorso. Em tais momentos e circunstâncias, é normal que busquemos o afastamento, e o consequente isolamento, dos oráculos do Senhor, em virtude da noção que temos, ainda que inconfessável, sobre o certo e o errado.

Assim, é no estudo e na pesquisa que envolvem a teologia moral que vamos encontrar as respostas adequadas para as nossas inquietações físicas, sociais, psicológicas e espirituais simplesmente porque ela responde a uma pergunta fundamental, que todo cristão deveria fazer-se o tempo todo: “o que Jesus faria em tal situação ou diante de tal problema ou dilema?”. Ao deixarmos de nos questionar a respeito da nossa adequação à imagem e ao agir de Jesus, na tentativa de, verdadeiramente, libertarmo-nos de todos os males, afundamos. E, afundados, nem sempre conseguimos emergir ou nos reerguer com a facilidade outrora imaginada. Daí, o caminho do vício, da depressão, da discórdia, do mal humor e, não raro, do suicídio aparecer como “tábua de salvação” para quem já se considera irremediavelmente perdido.

A teologia moral, à luz das Escrituras, da doutrina e, também, do Magistério da Igreja, não deixa de enfrentar temas como a sexualidade, o celibato, a masturbação, a homossexualidade, a homoafetividade, com todos os seus desdobramentos, o matrimônio com os efeitos da conjugalidade e da procriação responsável, o divórcio e a situação dos recasados, o aborto e a eutanásia, além de questões sociais como a ética – social, moral e antropológica – e outras mais, decorrentes que são da natureza humana.

São aspectos que, uma vez conhecidos, trazem luz aonde impera, muitas vezes, as trevas dos sentimentos que nos afastam do Deus cujos braços sempre estão abertos em toda a sua infinita extensão para nos receber com o maior carinho, compreensão, perdão e renovadas chances de reconciliação social, eclesial, física, psicológica e espiritual, vale dizer: a nossa própria reconstrução.

Mais adiante, vou listar os autores acima citados, com as respectivas obras, para que todos que tenham interesse possam adquiri-las para ampliarem o grau da necessária visão libertadora. A função primeira da teologia é sempre libertadora porque, conforme disse o Senhor: “Conhecereis a verdade, e ela vos tornará livres” (Jo 8, 32). Outra não é a intenção dos diversos autores indicados, senão levar para leitores, estudiosos e pesquisadores, no âmbito da teologia moral, diversos conhecimentos, entendimentos e interpretações, porém, somente um caminho: Jesus e sua inquestionável misericórdia.

Este texto, além de proposto para efeito de reflexão é, também, indutivo para a busca de novos conhecimentos acerca da fé e da forma pela qual temo-la vivido, se opressora ou libertadora. Portanto, considero estar cumprindo papel relevante ao incentivar as pessoas a buscarem, na leitura de autores consagrados, alguns dos quais já estão ao lado do Pai, uma maior e melhor compreensão da realidade humana. Realidade da qual nenhum de nós consegue fugir, porque é intrínseca a nossa própria natureza. Faça as leituras que puder, reflita, tire suas próprias conclusões e liberte-se de uma vez por todas. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________________________ BIBLIOGRAFIA SUGERIDA: AZPITARTE, Eduardo López – Culpa e Pecado – Responsabilidade e Conversão. Petrópolis. Vozes: 2005. 200 páginas. ____________Ética da Sexualidade e do Matrimônio. São Paulo. Paulus: 1997. 462 p. CASTILLO, José Maria – A Humanidade de Jesus. 1ª Reimp. Petrópolis. Vozes: 2018. 130 páginas. ____________A Ética de Cristo. 2ª Reimp. São Paulo. Loyola: 2016. 213 páginas. DEMMER, Klaus – Introdução à Teologia Moral – 2ª Ed. São Paulo. Loyola: 2007. 120 páginas. FREDRIKSEN, Paula – Pecado – A História Primitiva de Uma Ideia. Petrópolis. Vozes: 2014. 245 páginas. FUCHS, Josef – Existe uma Moral Cristã? – São Paulo. Paulinas: 1972. 242 páginas. HAERING, Bernhard – Livres e Fieis em Cristo. 3 volumes. São Paulo. Paulinas: 1979. LEERS, Bernardino – O Mistério da Reconciliação – Uma Ética Profissional Para Confessores. Petrópolis. Vozes: 1988. 216 páginas. MOSER, Antonio – Casado ou Solteiro – Você pode ser feliz. 2ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2007. 280 páginas. _____________O Pecado – Do Descrédito ao Aprofundamento. 5ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2012. 203 páginas. RODRIGUES VIEIRA, Tereza (ORG.) – Bioética e Sexualidade. São Paulo. Jurídica Brasileira: 2004. 196 páginas. VIDAL, Marciano – Nova Moral Fundamental – O Lar teológico da Ética. Aparecida-SP. Paulinas e Santuário: 2003. 912 páginas. _____________Moral Cristã em tempos de relativismos e fundamentalismos. São Paulo. Santuário: 2014. 189 páginas. ____________________________________________________________ *Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.      

ago 26

EDITORIAL DO MÊS: AS CHAVES E AS PORTAS ESTÃO DIANTE DE NÓS – PRIMEIRA PARTE

PORTAS ABERTAS - 2

CHAVES E PORTAS: CAMINHOS LIBERADOS –

PARTE I –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A visão realista do mundo permite a transparência de cenários que, em muitas ocasiões, e situações, impõem limites diante de nós. Alguns desses limites instigam nossa vocação para a superação e, logo, logo, conseguimos vencê-los. Entretanto, existem outros limites que, simplesmente, revelam-se intransponíveis, em razão das inomináveis altura e espessura.

No primeiro caso, mesmo diante das nossas fraquezas e incertezas, recebemos alguns incentivos e estímulos, porque tais limites podem, de fato, ser transpostos. No segundo caso, no entanto, ninguém ousa nos instigar, porque a impossibilidade é reconhecida por todos. Então, o que fazer? Recuar, desistir?

Não, não devemos recuar nem desistir, porque, se existe um mundo visível que apresenta limites intransponíveis diante de nós, existe, também, um mundo invisível que, simplesmente, abre portas diante de nós, facilitando a nossa passagem para lados, mundos, situações e oportunidades que, até então, pareciam impossíveis e inexistentes. Não são portas imaginárias, virtuais, mágicas ou coisas mirabolantes, daquelas que só vemos em filmes de alta ficção científica. São portas reais, plausíveis e sensíveis. Portas que são abertas por meio de chaves que nos são fornecidas por forças superiores.

O segredo não está nas portas, mas, na obtenção e no manuseio das chaves! Em nossas mãos, normalmente, existem cinco dedos. Para cada dedo, um desafio a ser vencido. Cinco desafios que, uma vez vencidos, abrem o caminho para o predomínio do espírito sobre a matéria: o orgulho, a prepotência, a ambição, a inveja e a ira. A derrota destes cinco adversários permite que consigamos destravar algumas portas e, assim, ter acesso a caminhos até então tidos como inexistentes e até mesmo impossíveis de serem trilhados.

O orgulho é, geralmente, o primeiro desafio que nos empareda e nos atinge com força. Diante dele sentimo-nos frágeis e submissos, a ele nos entregando com facilidade e com docilidade, servindo-o de todas as formas por ele exigidas, porque, de nós, ele apenas exige o assassinato da humildade. Matando a humildade, sentimo-nos senhores absolutos do nosso EU e do caminho que temos à disposição.

A prepotência é irmã gêmea do orgulho. Quando acreditamos sermos senhores absolutos do nosso EU e de estarmos no pleno domínio do caminho que temos à disposição, sem qualquer dependência do “outro”, cremos firmemente sermos insuperáveis e, portanto, invencíveis. Ninguém é capaz de deter nossos passos e avanços e, consequentemente, a nossa caminhada. A prepotência forja o extremado amor próprio. Com o orgulho e a prepotência, esmurramos com força bestial os limites intransponíveis impostos pelo mundo visível, dando-nos a nítida certeza de que, se não vencemos, ninguém é capaz de vencer também.

A ambição é a principal responsável pela cegueira espiritual. Na medida em que sucumbimos diante dela, ficamos cada vez mais cegos para a realidade que nos cerca. Daí, não conseguirmos enxergar quando, diante de nós, existe uma muralha intransponível e, da mesma forma, não conseguimos ver as portas que já estão, ou que podem ser facilmente, abertas à nossa frente.

A inveja é a senhora do retrocesso e do descaminho. É ela que nos obriga a abandonar o nosso caminho natural para seguirmos, e perseguirmos, o caminho trilhado pelo “outro”. Caminho que é próprio de cada um. Construído para cada um, de forma absolutamente individualizada. A inveja, aliada inseparável da ambição, faz com que acreditemos convictamente que um único caminho pode ser trilhado com sucesso por dois seres diferentes. Assim, o que é do outro, pode ser meu também. O que o outro tem, eu posso ter igual ou até mesmo superior.

A ira, por fim, não bastassem os outros entraves, corrompe os nossos tímpanos e trava a nossa mente, impedindo o curso natural da razão. Acometidos com a ira, somos incapazes de pensar de modo racional. Somos incapazes de agir de forma sensata. Portanto, tornamo-nos imprudentes, insensíveis, insensatos e insanos. Movidos pela ira, perdemos a sensibilidade e o tato necessários para a percepção das diversas portas existentes, algumas das quais já estão abertas diante de nós.

Vencer estes cinco desafios pode parecer, à primeira vista, um grande obstáculo intransponível e, aí, voltaríamos à questão inicial. Entretanto, cada um de nós, acreditando ou não, possui um espírito que, por sua vez, traduz-se em um imenso e poderoso templo, no interior do qual muitos e muitos mistérios são desvendados. Forças ocultas são dissipadas; obstáculos são removidos; segredos são revelados e novas forças são concedidas.

Ao desviarmos a nossa atenção, e a nossa atuação, para o templo que carregamos em nosso interior, administrado e gerenciado por um Espírito Maior, capaz de vencer até mesmo o que, para nós, parece ser impossível, adquirimos não apenas uma renovada vida, mas, sabedoria suficiente para vencermos e superarmos todos os entraves, e mais: capacidade para, abertos os olhos, ouvidos e mente, enxergarmos com toda a clareza necessária, todas as portas que estão abertas, desde sempre, à nossa frente.

Mas, é preciso repetir: os cinco desafios devem ser superados. Imagine-se diante de um cofre contendo a solução para todos os seus problemas. Trancado a sete chaves, você não consegue abri-lo, senão, penetrando no interior de uma profunda caverna, ao fundo da qual existe um altar de pedra em cujo tampo estão as sete chaves que abrem o tal cofre. Você precisa, apenas, perceber que, indo na direção da caverna terá rápido acesso às chaves que te darão acesso a todas as soluções perseguidas.

É justamente o que deve ser feito para que as diversas portas existentes, que já podem ser  abertas por você, sejam percebidas, também, por todos aqueles que julgam estar diante de problemas intransponíveis. As soluções existem e estão diante de cada um de nós. Não percebê-las ou não saber como acessá-las, depende do destravamento dos olhos, dos ouvidos e da mente espirituais, o que só pode ser feito após a derrota dos cinco maiores adversários do ser humano. Sozinhos, não podemos vencê-los, mas, com o auxílio do Espírito de Deus, tudo se faz possível porque Ele faz novas todas as coisas e, assim, pode transformar-nos em pessoas absolutamente novas, imunes ao impossível.

Não se trata de magia ou de ilusionismo. Trata-se, na verdade, de crença. Jesus disse que “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Portanto, com fé e pela fé, obstáculos podem ser superados, adversários  derrotados, muralhas derrubadas, portas abertas e caminhos revelados. No entanto, não basta dizer que crê. É preciso renunciar a si mesmo e entregar-se de corpo e de alma, vencendo todos os inimigos do espírito. Então, e somente então, haverá serenidade, sabedoria, santidade e capacidade para superar todos os limites impostos por este mundo que, ao contrário do que muitos creem, não é real, mas, totalmente ilusório.

Reflita profundamente. Faça uma visita ao seu templo interior e, confiando no Espírito que lá está, derrote seus cinco inimigos e, após, esbanjando alegria e felicidade, escolha as portas que melhor atendem aos seus anseios e necessidades. Faça isso já, não perca mais tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mai 11

EDITORIAL DO MÊS: TUDO O QUE DEUS CRIOU É BOM!

OBRAS DE DEUS

A BELEZA DA CRIAÇÃO – O CRIADOR NÃO ECONOMIZOU NAS CORES –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A Bíblia, no livro Gênesis ou livro das origens, narra os primórdios da criação, momentos nos quais o Senhor Deus entendeu ser útil e necessário concretizar tudo o que já existia no seu Santo Espírito, mas que ainda não possuía forma. Tudo era apenas um abismo de trevas e de escuridão. E o Senhor, diante daquele cenário afirma: “Fiat lux” (haja a luz!). E fez-se a luz, e Deus viu que a luz era boa. A imensa claridade, surgida da explosão da vontade divina, clareou imediata e absolutamente todo o espaço no entorno de Deus. Um espaço absolutamente infinito. A partir da luz, Deus foi ordenando a existência de todas as demais criaturas e disse: “Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo a sua espécie” (Gn 1,24), e assim, foram ordenadas todas as águas, justa e perfeitamente separadas do elemento árido (terra) e foram criadas as luzes celestiais, as aves e os pássaros, os peixes, as árvores, a relva, os animais – dos menores aos mais robustos; dos mais simples aos mais selvagens – e toda a riqueza detida nas entranhas da terra e no abismo das águas. E tudo, Deus viu que era bom. Mas, para o Senhor, faltava o ápice daquela obra. Então, na Sua profunda, perfeita e única Sabedoria, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26).

Ao criar o homem com suas próprias mãos, Deus não quis que ele fosse apenas mais uma de suas criaturas. Deu-lhe poder de mando e de domínio sobre todas as coisas, sob a seguinte sentença: “Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra” (Gn1, 26).

Tudo criou o Senhor Deus e submeteu ao ser humano: terra, aves e pássaros, animais domésticos e selvagens, peixes e répteis. E, fazendo cair a primeira chuva sobre a terra, vieram à vida todos os vegetais, desde os mais rasteiros até as frondosas e gigantescas; desde a minúscula grama até as mais potentes árvores frutíferas. Encheu de vida a terra e o mar. Encheu de beleza e de formosura o céu e todo o universo. A verdadeira beleza da criação! Animais saltitando pela terra e pela relva; peixes, pequenos e grandes, cortando as águas dos mares e dos rios; pássaros colorindo o céu e as árvores e, com seu magnífico gorjeio, expressando o primeiro gesto de louvor ao Criador.

Muitos e muitos homens ao longo da história da humanidade souberam apreciar e valorizar o conjunto da obra de Deus, encantados e maravilhados com tudo o que viram. Dentre tantos, vêm à lembrança Sidarta Gautama (o Buda), Jesus de Nazaré e Francisco de Assis, que contemplaram toda a criação com profundo amor, respeito e senso de unidade e de preservação. Buda, nascido por volta do século VI a.C., estabeleceu verdadeira e sábia conexão, não apenas com as criaturas terrenas, mas, também, com todo o universo dedicando a maior parte da sua existência terrena à meditação, à contemplação e à busca da perfeita harmonia e do profundo equilíbrio entre todos os seres criados por Deus, sem nada tocar ou retocar, tamanha a perfeição que atribuiu a toda a Criação.

Jesus, filho do Criador, mais do que ninguém respeitou todos os seres criados pelo Pai e, também, mais do que ninguém, exerceu o pleno domínio sobre todas as criaturas, fosse da terra, fosse do mar ou mesmo do ar. Dominou céus e terra e tudo o que neles existe: exigiu que a figueira desse os frutos no tempo certo; chamou cardumes inteiros e imensos, aonde os homens nada encontravam; andou sobre as águas; derrotou os males do corpo e do espírito e, também a morte e, por fim, elevou-se aos céus, acima de todas as nuvens, diante dos homens. Jesus, verdadeiramente Deus, verdadeiramente homem. Jesus, o novo Adão. O Novo Homem a quem tudo é submetido e que tudo e a todos respeita e ama de forma infinitamente perfeita, porque sabe que tudo é obra de Deus, Criador sábio, magnífico e perfeito!

Francisco de Assis, nascido rico e potente, quis reduzir-se à insignificância, assumindo e vivendo na mais absoluta pobreza, para amar todas as criaturas e com elas conviver de forma intensa. Amou os seres humanos; amou a chuva, as flores, as aves, os insetos, os animais selvagens, o ar, as águas, as estrelas, o vento, o Sol, a Lua, as montanhas, o frio e o calor. Amou o elemento árido (terra), estabelecendo com ele conexão tão profunda que, em seus últimos instantes de vida, quis estar em profundo entrelaçamento da criatura com a mãe terra. Tão profundo amor e respeito por toda a obra de Deus levou Francisco a chamá-los, todos, de “irmãos”. Irmão Sol; irmão Vento; irmã Lua; irmã Morte! Assim como Jesus, Francisco quis ser e viver tudo em todos buscando a unidade e a harmonia de tudo e de  todos com o Todo, numa compreensão semelhante à de Buda acerca de todas as maravilhas criadas por Deus.

Independentemente do sucesso ou do fracasso das escolas budistas, cristãs e franciscanas, no prolongamento e na disseminação do respeito, do apreço, da admiração, da propagação das maravilhas, da preservação e da continuidade da obra e do louvor eterno ao Deus Criador, é sempre necessário e saudável recorrer ao salmista que, de forma excepcional e majestosa clama:

“1Bendize, ó minha alma, o Senhor!

Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande! De majestade e esplendor vos revestis,2envolvido de luz como de um manto. Vós estendestes o céu qual pavilhão,3acima das águas fixastes vossa morada. De nuvens fazeis vosso carro, andais nas asas do vento;4fazeis dos ventos os vossos mensageiros, e dos flamejantes relâmpagos vossos ministros.5Fundastes a terra em bases sólidas que são eternamente inabaláveis.6Vós a tínheis coberto com o manto do oceano, as águas ultrapassavam as montanhas.7Mas à vossa ameaça elas se afastaram, ao estrondo de vosso trovão estremeceram.8Elevaram-se as montanhas, sulcaram-se os vales nos lugares que vós lhes destinastes.9Estabelecestes os limites, que elas não hão de ultrapassar, para que não mais tornem a cobrir a terra.10Mandastes as fontes correr em riachos, que serpeiam por entre os montes.11Ali vão beber os animais dos campos, neles matam a sede os asnos selvagens.12Os pássaros do céu vêm aninhar em suas margens, e cantam entre as folhagens.13Do alto de vossas moradas derramais a chuva nas montanhas, do fruto de vossas obras se farta a terra.14Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão15e o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que lhe faz brilhar o rosto e o pão que lhe sustenta as forças.16As árvores do Senhor são cheias de seiva, assim como os cedros do Líbano que ele plantou.17Lá constroem as aves os seus ninhos, nos ciprestes a cegonha tem sua casa.18Os altos montes dão abrigo às cabras, e os rochedos aos arganazes.19Fizestes a lua para indicar os tempos; o sol conhece a hora de se pôr.20Mal estendeis as trevas e já se faz noite, entram a rondar os animais das selvas.21Rugem os leõezinhos por sua presa, e pedem a Deus o seu sustento.22Mas se retiram ao raiar do sol, e vão se deitar em seus covis.23É então que o homem sai para o trabalho, e moureja até o entardecer.24Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes.25Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, se agitam animais grandes e pequenos.26Nele navegam as naus e o Leviatã que criastes para brincar nas ondas.27Todos esses seres esperam de vós que lhes deis de comer em seu tempo.28Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens.29Se desviais o rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram.30Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra.31Ao Senhor, glória eterna; alegre-se o Senhor em suas obras!32Ele, cujo olhar basta para fazer tremer a terra, e cujo contato inflama as montanhas.33Enquanto viver, cantarei à glória do Senhor, salmodiarei ao meu Deus enquanto existir.34Possam minhas palavras lhe ser agradáveis! Minha única alegria se encontra no Senhor.35Sejam tirados da terra os pecadores e doravante desapareçam os ímpios. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia.” (Salmo 103).

É o nosso dever e a nossa salvação sempre dar-vos graças, ó Pai, em todo tempo e lugar porque pela Vossa misericórdia e pelo Vosso Amor, tudo criastes e a tudo dais vida para que nós, obras-primas das Vossas mãos, tenhamos vida e, por Jesus Cristo, vosso filho e Nosso Senhor, tenhamo-la de forma plena, abundante e eterna. Louvo-Te Senhor e que todos, num só coro, louvem-Te também, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos, amém! Admire as obras do Senhor, todas, e mantenha-se em conexão com tudo, com todos e com o Todo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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