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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: ESPAÇO TEOLÓGICO

mai 19

REFLEXÃO SEMANAL DO FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

5º DOMINGO DA PÁSCOA - AMAI-VOS UNS AOS OUTROS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, Pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que creem no Cristo a liberdade verdadeira e a herança eterna”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 14,21b-27

Contaram à comunidade tudo o que Deus fizera por meio deles.

Antes de concluir a primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé tornaram a visitar as comunidades fundadas para encorajá-los e exortá-los a “permanecerem firmes na fé”. E diziam: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. Os apóstolos sentem-se solidários com os fiéis recém-convertidos ao cristianismo. Mas, o sofrimento, a oposição, desprezo e perseguição eram o caminho a ser percorrido para entrar no reino de Deus. A conversão muitas vezes exigia romper com a família, com os costumes e vícios pagãos. Para dar solidez às novas igrejas, “designaram presbíteros para cada comunidade e os confiavam ao Senhor”, com jejuns e orações. Em seguida, voltaram a Antioquia a fim de prestar conta na comunidade reunida do sucesso da missão a eles confiada. Em Antioquia é que foram escolhidos pelo Espírito Santo e, depois de um jejum, orações e imposição das mãos, enviados para a missão. Os apóstolos não consideraram como sucesso pessoal os belos frutos da missão, mas “contaram tudo o que Deus fizeram por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos”. O Espírito Santo é a “força” prometida por Jesus para serem testemunhas suas “em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). É o mesmo Espírito que nos impulsiona, ainda hoje, a anunciar o Evangelho e dar testemunho de nossa fé.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 144

Bendirei o vosso nome, ó meu Deus,

meu Senhor e meu Rei para sempre.

2. SEGUNDA LEITURA: Ap 21,1-5a

Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos.

A segunda leitura inicia a visão que contêm a última revelação do livro do Apocalipse, recebida pelo vidente. O texto caracteriza-se pela palavra novo/nova, repetida quatro vezes. Ele vê um “novo céu e uma nova terra”. Na concepção bíblica, a expressão “céu e terra” engloba toda a realidade que existe entre estes dois pontos opostos, céu e terra. Indica a totalidade do até então conhecido. A nova realidade substitui a anterior, marcada pelo pecado, pela violência e pela morte, derrotadas pelo Cordeiro. A nova realidade se caracteriza pela ausência do mal e presença do bem. A nova Jerusalém desce do céu, isto é, vem de Deus, e está vestida como uma noiva, para celebrar o casamento com o Cordeiro. Uma voz que sai do trono (Deus) explica o que é este casamento: “Esta é a morada de Deus entre os homens” (cf. Ap 7,15: 2ª leitura do 4º Domingo da Páscoa). “Deus vai morar no meio deles”, como já morou em Jesus de Nazaré (cf. Jo 1,14; Mt 1,23). “Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles”. É a imagem da união conjugal que melhor expressa a comunhão de amor entre Deus e o seu povo (cf. Ef 5,21-33). Nesta nova realidade não haverá mais lágrimas, morte, luto nem dor. Será a plena realização do Reino de Deus anunciado por Jesus. Ele, o Cordeiro imolado, agora sentado no trono, é a garantia deste novo céu e nova terra: “Eis que faço novas todas as coisas” (Evangelho).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Jo 13,34

Eu vos dou novo preceito: que uns aos outros vos ameis:

Como eu vos tenho amado.

3. EVANGELHO: Jo 13,31-33a.34-35

Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros.

O Evangelho que acabamos de ouvir é o testamento de Jesus, sua última vontade antes de enfrentar a morte. Jesus caminha para sua glorificação, pelo caminho da exaltação na cruz. Em vida, Jesus dizia: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (10,11). Durante a última ceia disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”. Chegando a hora de mostrar este amor, Jesus nos deixa o mandamento do amor. Fala aos discípulos com a ternura de um pai: “Filhinhos”. Este novo mandamento que nos dá ultrapassa o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo. O mandamento do amor que Jesus deixa aos discípulos é o amor capaz de dar a vida pelos que ama: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. É assim que seremos reconhecidos como discípulos de Jesus. __________________________________________________

* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mai 19

REFLEXÃO DO MONSENHOR JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

V DOMINGO DA PÁSCOA – O DISTINTIVO DO CRISTÃO –

*Por Mons. José Maria Pereira –

O Evangelho (Jo 13, 31-35) refere-se ao momento em que, após ter anunciado a traição de Judas, Jesus fala da sua glorificação como se tratasse de uma realidade já presente, vinculada à Sua Paixão: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele” (Jo 13, 31). O contraste é chocante, mas apenas aparente; na verdade, aceitando ser atraiçoado e entregue à morte para a salvação dos homens, Jesus cumpre a missão que recebera do Pai e isto constitui o motivo preciso da Sua glorificação.

Jesus continuará no meio de seus discípulos pelo amor com que os amou e que lhes deixa como herança para que vivam nele e o realizem sempre nas suas relações mútuas. “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). O amor recíproco, ajustado ao amor do Mestre, ou melhor, nascido dele, garante, à comunidade cristã a presença de Jesus, da qual é autêntico sinal. Ao mesmo tempo, é o distintivo dos verdadeiros cristãos: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35). Deste modo, a vida da Igreja começou amparada numa força de coesão e de expansão totalmente nova e dotada de um poder extraordinário porque fundamentada, não no amor humano que é sempre frágil e falível, mas no amor divino: o amor de Cristo revivido nas mútuas relações dos que creem.

Jesus deixa um Mandamento Novo: “Amai-vos uns aos outros, COMO eu vos amei.”

Este anúncio nos é dado num contexto pascal, para nos dizer que é da Páscoa de Cristo que floresceu toda novidade. Cristo foi ressuscitado dos mortos… Por isso também nós caminhamos numa vida nova ( Rm 6, 4 ). A Páscoa é a renovação do mundo, uma passagem da velhice para a juventude, que não é uma juventude de idade, mas de simplicidade. “Tínhamos caído na velhice do pecado, mas pela ressurreição de Cristo fomos renovados na inocência das crianças” (São Máximo de Turim).

 A novidade é o amor.

 No Antigo Testamento o mandamento do amor já era conhecido; no Novo Testamento Jesus diz “o meu mandamento”.

Jesus fala de um “novo mandamento”. Mas, qual é a sua novidade? Já no Antigo Testamento, Deus tinha dado o mandamento do amor; agora, porém, este mandamento tornou-se novo, enquanto Jesus lhe acrescenta um suplemento muito importante: “Assim como Eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros.” O que é novo, é precisamente este “amar como Jesus amou”. Todo o nosso amor é precedido pelo seu amor e refere-se a este amor, insere-se neste amor, realiza-se precisamente por este amor. O Antigo Testamento não apresentava modelo algum de amor, mas formulava apenas o preceito de amar. Jesus, ao contrário, deu-se-nos como modelo e fonte de amor. Trata-se de um amor sem limites, universal, capaz de transformar também todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir no amor.

Dando-nos o novo mandamento, Jesus pede-nos que vivamos o seu próprio amor, do seu próprio amor, que é o sinal verdadeiramente credível, eloquente e eficaz para anunciar ao mundo a vinda do Reino de Deus. Obviamente, só com as nossas forças somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas o Senhor prometeu-nos que estará presente na nossa vida, tornando-nos capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos, inclusive aqueles que estão nos nossos corações. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor: é a verdadeira novidade do mundo e a força de uma glorificação permanente de Deus, que se glorifica na continuidade do amor de Jesus no nosso amor.

Agora, com Jesus, este mandamento se torna possível. Antes, se existia, era pura teoria, um ideal abstrato; era algo completamente diferente. Certamente existiram homens que tinham se amado antes de Cristo; mas por quê? Porque eram parentes entre eles, porque eram aliados, amigos, pertenciam ao mesmo clã ou ao mesmo povo. Agora é preciso ir além: amar a quem nos persegue, amar os inimigos, aqueles que não nos saúdam e não nos amam (Cf. Mt 5, 43-48).

Amar, isto é, os irmãos por si mesmos e não porque me podem ser úteis. É a palavra “próximo” que mudou de sentido; o conteúdo desse termo se ampliou de modo a compreender não só o vizinho, mas todo homem do qual tu podes te aproximar (ex. a parábola do Bom Samaritano).

Jesus viveu esse amor até as últimas consequências: até amar-nos assim com somos, primeiro, e a se identificar conosco diante do Pai, a nos perdoar e a morrer por nós. Amou-nos de verdade até o fim (Jo 13, 1), onde “fim” não indica somente até o fim da vida, mas também até  o extremo limite do possível, a totalidade, o que ele proclamou na Cruz quando disse: “Tudo está consumado” (Jo 19,30).

O mandamento de Jesus é novo também por outro motivo: porque renova! Ele é de tal modo que muda a face da terra, transforma as relações humanas, como aquele fermento do qual fala Jesus, que, introduzido na massa, a faz fermentar toda, levantando-a de sua inércia.

No momento em que anuncia a sua partida deste mundo ( “Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco” , Jo 13, 33); quase como testamento aos seus discípulos, para continuar de modo novo a sua Presença no meio deles, dá-lhes um Mandamento: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” ( Jo 13, 34 ). A novidade está na medida desse amor: “COMO EU vos tenho amado…” Se nos amarmos uns aos outros, Jesus continuará a estar Presente no meio de nós, a ser glorificado no mundo.

O amor de que Jesus fala é o amor que acolhe, que se faz serviço, que respeita a dignidade e a liberdade do outro, que se faz dom total (até à morte) para que o outro tenha mais vida.

A proposta cristã resume-se no amor. O amor é o distintivo, que nos identifica… Que em nossos gestos as pessoas possam descobrir a presença do Amor de Deus no mundo!

Que as famílias vivam a dimensão cristã do amor nos simples gestos quotidianos, nos relacionamentos familiares, superando divisões e incompreensões, cultivando a fé que torna a comunhão ainda mais sólida.

Que os jovens nunca percam a esperança, aquela que vem de Cristo Ressuscitado, da vitória de Deus sobre o pecado, o ódio e a morte. Cristo enfrentou a Cruz para pôr um limite ao mal; para nos fazer entrever, na sua Páscoa, a antecipação daquele momento em que também para nós, todas as lágrimas serão enxugadas e já não haverá morte, nem pranto, nem gritos, nem dor.

O  Apocalipse diz: “Aquele que se sentava no trono disse: “Eis que faço novas todas as coisas”” ( Ap 21, 5 ). A primeira coisa absolutamente nova, realizada por Deus, foi a Ressurreição de Jesus, a sua glorificação celestial. Ela é o início de toda uma série de “coisas novas”, em que também nós participamos. “Coisas novas” são um mundo repleto de alegria, em que não existem mais sofrimentos, nem abusos, em que já não há rancor nem ódio, mas somente o amor que vem de Deus e que transforma tudo.

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do Itamarati, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

mar 06

ESPAÇO TEOLÓGICO: CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO – CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO - 

No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO.

E, na continuação, valemo-nos das sábias e didáticas palavras do então Papa Bento XVI, considerado pela crítica acadêmica como um dos maiores teólogos do século XX que, durante seu curto pontificado tratou, dentre tantos outros, deste relevante tema em diversas palestras de natureza catequética, no contexto da CATEQUESE PASTORAL. De tudo, originou-se o Livro A ORAÇÃO, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1], cuja aquisição recomendamos aos nossos leitores, a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca da ORAÇÃO.  

“A LEITURA DA BÍBLIA, ALIMENTO PARA O ESPÍRITO

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Gostaria de continuar hoje o tema ao qual tínhamos dado início, ou seja, uma “escola de oração”, e também hoje, de uma maneira um pouco diversificada, sem me afastar desta temática, referir-me a alguns aspetos de índole espiritual e concreta, que parecem úteis não apenas para quem vive - numa região do mundo - a temporada das férias de verão, como nós, mas inclusive para todos aqueles que estão comprometidos no trabalho diário.

Quando temos um momento de pausa nas nossas atividades, de modo especial durante as férias, muitas vezes pegamos num livro, que desejamos ler. É precisamente este o primeiro aspecto sobre o qual hoje gostaria de meditar. Cada um de nós tem necessidade de momentos e de espaços de recolhimento, de meditação e de calma... Graças a Deus é assim! Com efeito, esta exigência diz-nos que não fomos feitos apenas para trabalhar, mas também para pensar, ponderar ou simplesmente para acompanhar com a mente e o coração uma narração, uma história com a qual nos identificarmos, num certo sentido, “perder-nos”, para depois nos encontrarmos enriquecidos.

Naturalmente, muitos destes livros de leitura que temos nas nossas mãos durante as férias são sobretudo de evasão, e isto é normal. Todavia, várias pessoas, especialmente se podem contar com espaços de pausa e de descanso mais prolongados, dedicam-se à leitura de algo mais comprometedor. Então, gostaria de lançar uma proposta: Porque não descobrir alguns livros da Bíblia, que normalmente não são conhecidos? Ou dos quais, talvez, ouvimos alguns trechos durante a Liturgia, mas que nunca lemos na íntegra?

Com efeito, muitos cristãos já não leem a Bíblia, e têm um seu conhecimento muito limitado e superficial. A Bíblia - como diz o nome - é uma coletânea de livros, uma pequena “biblioteca”, nascida ao longo de um milênio. Alguns destes “livrinhos” que a compõem permanecem quase desconhecidos para a maior parte das pessoas, inclusive de bons cristãos. Alguns são muito breves, como o Livro de Tobias, uma narração que contém um sentido muito elevado da família e do matrimônio; ou o Livro de Ester, em que a rainha judia, com a fé e a oração, salva o seu povo do extermínio; ou ainda mais breve, o Livro de Rute, uma estrangeira que conhece Deus e experimenta a Sua providência. Estes pequenos livros podem ser lidos inteiramente numa hora. Mais exigentes, e autênticas obras-primas, são o Livro de Job, que enfrenta o grande problema da dor inocente; o Qoelet, que impressiona pela modernidade desconcertante com que põe em discussão o sentido da vida e do mundo; o Cântico dos Cânticos, maravilhoso poema simbólico do amor humano. Como vedes, são todos livros do Antigo Testamento. E o Novo? Sem dúvida, o Novo Testamento é mais conhecido, e os seus gêneros literários são menos diversificados. Porém, a beleza da leitura integral do Evangelho deve ser descoberta, assim como recomendo os Atos dos Apóstolos, ou uma das cartas.

Caros amigos, para concluir, hoje gostaria de sugerir que conserveis ao vosso alcance, durante a temporada de verão, ou nos momentos de pausa, a Bíblia Sagrada, para a saborear de modo novo, lendo inteiramente alguns dos seus livros, aqueles menos conhecidos e também os mais famosos, como os evangelhos, mas numa leitura contínua. Assim, os momentos de descanso podem tornar-se, além de um enriquecimento cultural, inclusive um alimento para o espírito, capaz de nutrir o conhecimento de Deus e o diálogo com Ele, a oração. E esta parece ser uma bonita ocupação para as férias: pegar num livro da Bíblia, gozar assim de um pouco de descanso e, ao mesmo tempo, entrar no grande espaço da Palavra de Deus e aprofundar o nosso contato com o Eterno, precisamente como finalidade do tempo livre que o Senhor nos concede.

OS “OÁSIS” DO ESPÍRITO

Em cada época, homens e mulheres que consagraram a sua vida a Deus na oração - como os monges e as monjas - estabeleceram as suas comunidades em lugares particularmente lindos, nos campos, nas colinas, nos vales montanheses, às margens dos lagos ou do mar, ou até mesmo em pequenas ilhas. Estes lugares unem dois elementos muito importantes para a vida contemplativa: a beleza da criação, que remete à do Criador, e o silêncio, garantido pela distância em relação às cidades e às grandes vias de comunicação. O silêncio constitui a condição ambiental que melhor favorece o recolhimento, a escuta de Deus, a meditação. Já o próprio facto de nos deleitarmos com o silêncio, de nos deixarmos por assim dizer “cumular” do silêncio, predispõe-nos para a oração. O grande profeta Elias, no monte Horeb - ou seja, o Sinai - assistiu a um redemoinho, depois a um tremor de terra e finalmente a clarões de fogo, mas não reconheceu neles a voz de Deus; no entanto, reconheceu-a numa brisa ligeira (cf. lRs 19,11-13). Deus fala no silêncio, mas é preciso saber ouvi-LO. Por isso, os mosteiros são um oásis em que Deus fala à humanidade; e neles encontra-se o claustro, lugar simbólico, porque é um espaço fechado, mas aberto para o Céu.

[...]

O silêncio e a beleza do lugar em que vive a comunidade monástica - beleza simples e austera - constituem como que um reflexo da harmonia espiritual que a própria comunidade procura realizar. O mundo está constelado de tais oásis do espírito, alguns muito antigos, particularmente na Europa, outros mais recentes e outros ainda restaurados por novas comunidades. Olhando a realidade numa perspectiva espiritual, estes lugares do espírito são estruturas importantes do mundo! E não é por acaso que muitas pessoas, especialmente nos períodos de pausa, visitam estes lugares, transcorrendo ali alguns dias: graças a Deus, também a alma tem as suas exigências!

[...]

Agora, dirijamo-nos à Virgem Maria, para que nos ensine a amar o silêncio e a oração.

Castel Gandolfo

(Quartas-feiras, 3 e 10 de agosto de 2011). 

Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, vamos prosseguir com este mesmo tema sobre a ORAÇÃO, a fim de que todos e todas sejam, e se sintam, altamente gratificados.

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

out 12

SENHORA DE APARECIDA, OLHA PELO TEU POVO!

SENHORA DE APARECIDA

A SENHORA DE APARECIDA E AS MENSAGENS VINDAS DAS ÁGUAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Deus, na sua esplendorosa sabedoria, no processo de criação deixou ao nosso dispor, e em abundância, quatro elementos essenciais para o ciclo da vida: a água, o fogo, a terra e o ar. Criou-os sem qualquer espetacularidade e sem mesmo qualquer menção especial na narrativa do Livro do Gênesis, à exceção da separação das águas entre si, as de cima e as de baixo, e do elemento árido, terra.

Entretanto, ao longo da caminhada do homem sobre a terra, os quatro elementos têm se revelado vitais. Não apenas para a sobrevivência do ser humano, mas, e, sobretudo, para as diversas manifestações sobrenaturais do Criador e para o constante e infinito ciclo da vida. O homem vem do pó e ao pó retorna. O pó se transforma em húmus e em terra novamente. Na terra, banhada pela água e respirando o ar, germinam e crescem a erva, a verdura e a gramínea que alimentam homens e animais. E assim, sucessivamente, e em constante interdependência, os quatro elementos vão sendo entrelaçados entre si de tal forma, que a vida neles é permanente, sem ruptura e sem trégua. A vida, simplesmente, continua e se renova dia-a-dia, sem fim.

Da terra, os animais, as plantas e os homens. Da água, os peixes (alimento físico), a renovação (pelo dilúvio) e a reconciliação (por meio do batismo); do fogo, a provação (quanto à fidelidade) e a purificação (da alma) e; do ar, a respiração vital para os pulmões e para a força da alma (por meio do  Espírito Santo). Da conjunção destes quatro elementos, a vida, a luz, a força e o poder. Na essência de todos eles, a presença inconfundível de Deus.

Todo este prólogo é apenas para sublinhar que, no embalo das águas de um simples rio (o Paraíba) nasce a mensagem de Aparecida, pelas mãos de três pescadores que precisam de peixes para fazer agrado a gente de patente alta. Diante dos repetidos insucessos no lançamento das redes, que sempre retornam absolutamente vazias, recorrem à Virgem, Santa mãe de Deus, pedindo o auxílio precisado.

A resposta vem na rede, em forma de imagem destituída da cabeça. Causa assombro àqueles homens. No retorno das redes às águas, vem a cabeça que, espantosamente, encaixa-se perfeitamente na imagem deficiente. Era o primeiro milagre presenciado por aqueles pobres pescadores. Porém, o milagre maior estava a caminho: ao lançarem as redes novamente, sobem abarrotadas de peixes. Tantos, que tiveram que levar o barco até a margem para poderem retornar e continuar com o trabalho. Voltando para a cidade (Guaratinguetá), e contando o ocorrido, todo o povo presente compreende que alguma mensagem está sendo transmitida a partir daquela pescaria.

De fato, nasce ali uma devoção muito forte à Virgem que não vinha de cima, do ar, mas, das águas profundas do rio, como a comprovar que, dos elementos vem a vida e desta, mais vida, em vida e depois da vida. Na cor negra, a identificação com a massa de escravos que, então, sofria os horrores de um sistema rejeitado pelo resto do mundo, mas que, por aqui, adornava o colar de bens e de propriedades dos ricos, do clero e do império. Como nos dias de hoje, em relação à reforma agrária, naquele tempo, e em público, todos pareciam contra o sistema escravagista, na prática, porém, ninguém queria abrir mão do seu escravo, propriedade útil e dinâmica.

Pois bem, a Virgem surge como consoladora e intercessora daqueles pobres pescadores, não se sabe se eram escravos ou não, mas que tinham a missão de levar peixes para a festa de um tal Conde de Assumar, então governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro.

No sofrimento e na angústia dos pescadores, missionários a serviço de um Conde que alguns historiadores endeusam e outros demonizam, o sussurro da Virgem, como a dizer: “eis-me aqui, estou com vocês. Relancem suas redes”. A história relembra o Evangelho de São Lucas (Lc 5, 1-11) quando, diante de uma noite inteira de fracassos na pescaria de Simão Pedro, Jesus ordena-lhe avançar para águas mais profundas para conseguir sucesso. Pedro olha para o Mestre meio incrédulo e diz: “apesar de ter passado a noite toda aqui e de não ter conseguido nada, em respeito à tua palavra, vou fazer o que ordenas” e, lançando as redes novamente, agora, em águas mais profundas, quase não consegue chegar até à margem do rio, tamanha a quantidade de peixes apanhada.

A Virgem de Aparecida faz o mesmo, insufla no coração daqueles pescadores a decisão de lançar as redes novamente e... Peixes em abundância!

Das águas do rio, as mensagens para nós: somos todos iguais perante Deus, sem distinção de raças, de credos, de profissão ou de status social; aquele que ora com fé, é atendido sempre e em qualquer circunstância, tempo ou lugar, desde que seja para o bem, individual ou coletivo. E, por fim, é preciso sempre relançar as redes, de preferência em águas mais profundas, onde a vida é exuberante e frondosa, tal qual na própria árvore da vida.

Das águas, o batismo; das águas, a vida; das águas, as mensagens; das águas, a renovação. Estes são os grandes significados trazidos para todos nós, em outubro de 1717 pela Virgem de Aparecida e pelas mãos de Domingos Garcia, de Filipe Pedroso e de João Alves.

Aqueles pescadores trazem a voz das águas. Precisamos captá-la, entendê-la e praticá-la, sempre e em todo lugar, porque sempre somos enviados para buscar peixes para os poderosos (produção, tributação, cumprimento das leis, votos e aplausos) e, quando não obtemos sucesso, só Deus, pela intercessão da Virgem, pode vir em nosso socorro.

Mais de dois séculos depois, o Papa Pio XI proclama Nossa Senhora de Aparecida como Padroeira do Brasil em 1930 (existem divergências quanto à data exata). Padroeira deste País de tantas desigualdades, tantas indiferenças, exclusões e injustiças, mas, também, de tanta gente de fé que, de forma incessante, não deixa de rogar aos céus por sua gente e por seu povo simples, alegre, trabalhador, sofredor e humilde.

Que o Deus Todo-poderoso abençoe os nossos corações, guie os nossos passos e proteja as nossas almas contra todos os males, deixando Nossa Senhora de Aparecida, sempre ao nosso lado, como amiga, como conselheira e como excelente Padroeira. Nós precisamos dela. O Brasil, mais do que nunca, precisa dela. Tal qual os pescadores do século XVIII, façamos nossas orações. Seremos atendidos, e em abundância!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

jun 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO – PARTE II

BÍBLIA - O CAMINHO

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês de junho, vamos continuar apresentando trechos da obra de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confuso e até mesmo obscuro.

Dom Estevão, em linguagem simples e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Prosseguimos, portanto, com o Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

(CONTINUAÇÃO)

*Por Dom Estevão Bettencourt –

2 - O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus.

Já que, após o primeiro pecado, a corrupção se alastrava entre os homens, Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração; desse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. Em vista disto, por volta de 1800 a.C., Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldeia, terra idólatra, para Canaã (Palestina atual), a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gn 12, 1-3).

A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para todas as nações. Daí chamar-se este segundo marco da história “A PROMESSA”.

3 - A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.

O surto do povo de Deus foi confirmado por cerca de 1240 a.C.: tendo Israel caído cativo do Egito, Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã, dando-lhe, por meio de Moisés, uma constituição teocrática.

A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA, aliança, sim, provisória e nacional, travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.

4 - A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.

Por volta de 1020 a.C., Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos, ou seja, a MONARQUIA. Este desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fora governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes), queria um governo menos dependente da Providência insondável do Criador, humanamente mais “garantido”, mais fundado sobre bases que o bom senso pode apreciar (tal é, sem dúvida, a monarquia).

Instaurou-se então o REINO de Israel, que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930).

A própria monarquia, porém, acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte, dito da Samaria, e reino do Sul, dito de Judá. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. Os dois pequenos Estados irmãos, Samaria e Judá, politicamente insignificantes, sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Samaria em 722 se tornou presa dos assírios, ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios.

A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política, que sua missão religiosa não estava necessariamente ligada com sua missão nacional. Israel deveria esperar o REINO... DE DEUS, com tudo que este reino implica de transcendente, de desconcertante para o “filósofo”, um reino tal que “quem não o recebe como uma criancinha, nele não pode entrar” (cf. Mc 10, 15).

5 - Deportados para a Babilônia em 587, os habitantes de Judá sofreram o EXÍLIO. Também este foi altamente pedagógico para o povo de Deus. Privado de todo o aparato exterior (templo, sacrifícios, ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém, os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica da Divindade e da religião, passando a conceber o Criador de modo muito mais puro; a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente...

Em 538 Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus; Javé assim lhes mandou uma “redenção", que ainda era etapa em demanda da Redenção plena, messiânica. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita, a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa; era o chamado RESTO DE ISRAEL. Note-se bem: esse resto se constituía de judeus pobres, humanamente falando, quase malogrados, mas fervorosos adeptos de sua fé; a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio, pois lá haviam adquirido certo bem-estar material, prosperidade humana, que lhes sufocava o fervor teocrático!

6 - Após o exílio, Judá passou a viver como COMUNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro, comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias; infelizmente, porém, oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas, gregos, egípcios, sírios e romanos sucessivamente), os israelitas facilmente confundiam a figura do Messias, Restaurador da ordem religiosa, com a de um Libertador político.

Muito digna de nota é a epopeia dos irmãos Macabeus (165- 134), os quais, vibrando de autêntica piedade, moveram a resistência contra os sírios, que queriam paganizar o povo de Deus.

O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus, contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de pensar; Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus, dos espíritos, a sorte póstuma do homem; foi admitindo outrossim certo universalismo religioso, ou seja, a noção de que os bens messiânicos não se destinam a um povo apenas, mas a todas as nações da terra.

7 - Finalmente na plenitude dos tempos veio o Messias, segundo Adão, que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada.

Da vinda de Cristo em diante, a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus, ou seja, em Pentecostes; prolonga-se já por vinte séculos, não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento, mas unicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). Uma vez completo o número dos que entrarão na bem-aventurança, Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história, induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sobre a morte e as demais consequências do pecado). Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo são tempos de máxima tensão, em que o cristão experimenta o que é “ser” e, ao mesmo tempo, “não ser” filho de Deus, “ter” e, ao mesmo tempo, “não ter” a vida eterna.

[...]

Quanto ao Antigo Testamento em particular, não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula:

“Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda, povo que não tinha gênio metafísico, mas religioso, viveu e aparentemente descobriu a via da salvação: formulou-a pouco a pouco. O Antigo Testamento é a história desse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha, a Promessa, a Aliança, a Monarquia, o Exílio, a Comunidade. As experiências, as tentativas, os reveses, os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. Esse povo nos aparece movido por um ímpeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente, a reconsiderar em nível mais espiritual o que ele viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. O Antigo Testamento é a história desse contínuo ultrapassar-se a si mesmo, desse catecumenato, dessa espiritualização crescente.”

No próximo mês, daremos continuidade a este tema do Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Até lá!!

 

mai 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO

ESPAÇO TEOLÓGICO - 3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

No Espaço Teológico deste mês, vamos trazer para os nossos leitores e leitoras algumas pérolas de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confusa e até mesmo obscura.

Dom Estevão, em linguagem básica e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Na tentativa de poupar os leitores e as leitoras dos aspectos históricos a que se referem as páginas iniciais do livro acima descrito, vamos iniciar já no Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

*Por Dom Estevão Bettencourt –

"Não é raro ouvir-se a pergunta: “Qual o valor que, para o cristão ou, mais largamente, para o homem moderno, possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara; suas histórias e afirmações, à primeira vista, entram em conflito com as normas do Evangelho, da honestidade ou da ciência moderna, provocando “escândalos” de ordem moral ou científica; não se vê, por conseguinte, o proveito que possa acarretar tal leitura.

A questão não é nova. Surgiu mesmo no início da era cristã, quando os homens perceberam que Jesus, o Messias, consumara a Revelação do Antigo Testamento. Assim Marcion, herege do séc. II, rejeitava categoricamente os livros sagrados dos israelitas, julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompatível com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento.

Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. Adolf von Harnack (t 1930), por exemplo, escrevia:

“No séc. II, rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha, que a Grande Igreja fez bem de evitar; no séc. XVI, guardá-lo era uma necessidade fatal, à qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Mas, após o séc. XIX, conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo, como se fosse um documento canônico, é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica”.[1]

A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo, fascismo etc.). Na Alemanha, Rosenberg afirmava que a antiga Bíblia não é mais do que uma “coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros”.

Não obstante as objeções, de aparência por vezes sólida, a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é Palavra de Deus imperecível, significativa, portanto, também para os nossos tempos. Sendo assim, interessa-nos, antes do mais, examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. V e VI); a-seguir, consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura.

§ 1° - DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META

Quem abre o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história, tradições populares, profecias, máximas de sabedoria, cânticos religiosos etc. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. Com efeito, as variadas páginas do Antigo Testamento — diríamos mesmo: de toda a Sagrada Escritura — não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. A aliança é, conforme as páginas iniciais da Bíblia, travada com o primeiro homem logo depois da criação; este, porém, não a soube observar, violou-a; mas Deus, que não se deixa vencer em bondade, prometeu, após a ruptura, restaurar o pacto mediante novo homem dito “o Messias”. Isto faz com que toda a história, de então por diante, tome, do ponto de vista de Deus, o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida, etapas que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. Por conseguinte também, todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história, sejam crônicas, sejam leis, sejam profecias, direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. É isto o que, em última análise, nos leva a dizer que toda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora, ora preparada e anunciada (Antigo Testamento), ora efetuada (Novo Testamento); é, sim, para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual.

Esta afirmação, ainda assaz genérica, pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. Inegavelmente a história que ele nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. Tal aspecto, porém, não constitui senão a periferia do Antigo Testamento; o olho da fé pode e deve discernir, sob a face externa, o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários; deve, em outros termos, procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios, pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fez com que tanta coisa fosse escrita sob o carisma da inspiração. Percorreremos, pois, abaixo, as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico, procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus.

O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gn 1-3) caracterizada por três acontecimentos:

a) a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem;[2]

b) violada, porém, pela criatura;

c) Deus a promete restaurar, estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente, a descendência da mulher e a da serpente (cf. Gn 3, 15). Isto implica que, após a queda original, a história, considerada à luz de Deus, tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado, a serpente e sua linhagem, isto é, todos aqueles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores); de outro lado, a mulher e sua posteridade, isto é, Eva penitente e todos aqueles que, por graça de Deus, não pactuam com a serpente. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos, quando se consumará a vitória do Bem sobre o mal; é o jogo destes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos indivíduos. Eis o aspecto muito simples, mas, ao mesmo tempo, muito dramático, que a história universal tem aos olhos de Deus.

Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história, por mais explicável que pareça à luz de fatores naturais ou mecânicos, carece de caráter religioso; guerras, fomes, doenças foram, sim, introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão; são, pois, manifestações do reino do pecado ou de Satanás; doutro lado, os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor, manifestações ora mais claras, ora menos evidentes do reino de Cristo, tanto no indivíduo como na sociedade.” (Op. Cit. págs. 92/95).

No próximo mês, daremos continuidade a este tema sobre o Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

________________________________________________________ [1] Marcion (Leipzig, 1924), 217. [2] É o autor do Eclo 17, 12 quem fala de aliança concluída no paraíso entre Deus e os primeiros pais.

abr 02

ESPAÇO TEOLÓGICO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO, encerrando-o, pois, com esta edição. Procuramos, nestes três últimos meses (fevereiro, março e abril) apresentar, em linhas gerais, o pensamento e a teologia do Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO.

Além dos textos didáticos do Papa, sugerimos aos leitores e às leitoras a aquisição e a leitura do Livro “A ORAÇÃO”, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1] (à venda nas Livrarias Paulus de todo o Brasil), a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca de tema tão caro na vida de todos os fiéis.  

“ORAÇÃO E SILÊNCIO: JESUS MESTRE DE ORAÇÃO”

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Numa série de catequeses precedentes falei sobre a oração de Jesus e não gostaria de concluir esta reflexão sem meditar brevemente acerca do tema do silêncio de Jesus, tão importante na relação com Deus.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini fiz referência ao papel que o silêncio adquire na vida de Jesus, sobretudo no Gólgota: «Aqui vemo-nos colocados diante da “Palavra da cruz” (cf. ICor 1,18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se “disse” até calar, nada retendo do que nos devia comunicar.» (N.° 12) Diante deste silêncio da cruz, São Máximo, o Confessor, põe nos lábios da Mãe de Deus a seguinte expressão: «Fica sem palavras a Palavra do Pai, O qual fez todas as criaturas que falam; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele por cuja palavra e por cujo aceno se move tudo o que tem vida.»[2] A cruz de Cristo não mostra somente o silêncio de Jesus como Sua última palavra ao Pai, mas revela também que Deus fala por meio do silêncio'. «O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-LO lamentar: “Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46) Avançando na obediência até ao último suspiro de vida, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito.” (Lc 23,46)» (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, n.° 21). A experiência de Jesus na cruz é profundamente reveladora da situação do homem que reza e do ápice da oração: depois de ter ouvido e reconhecido a Palavra de Deus, devemos medir-nos também com o silêncio de Deus, expressão importante da própria Palavra divina.

A dinâmica de palavra e silêncio, que caracteriza a oração de Jesus em toda a Sua existência terrena, sobretudo na cruz, diz respeito também à nossa vida de oração, em duas direções.

A primeira é a que se refere ao acolhimento da Palavra de Deus. E necessário o silêncio interior e exterior, para que tal palavra possa ser ouvida. E este é um ponto particularmente difícil para nós, no nosso tempo. Com efeito, a nossa é uma época na qual não se favorece o recolhimento; aliás, às vezes a impressão é de que as pessoas têm medo de se separar, mesmo por um instante, do rio de palavras e de imagens que marcam e enchem os dias. Por isso, na já mencionada Exortação Verbum Domini recordei a necessidade de nos educarmos para o valor do silêncio: «Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher inseparável da Palavra e do silêncio.» (N.° 66) Este princípio - que sem silêncio não se sente, não se ouve, não se recebe uma palavra - é válido sobretudo para a oração pessoal, mas também para as nossas liturgias: para facilitar uma escuta autêntica, elas devem ser também ricas de momentos de silêncio e de acolhimento não verbal. E sempre válida a observação de Santo Agostinho: Verbo crescente, verba deficiunt - «Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam.» (Cf. Sermo 288, 5: PL 38, 1307; Sermo 120,2: PL 38,677). Os evangelhos apresentam com frequência, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que Se retira totalmente sozinho num lugar afastado das multi­dões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver a Sua relação filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a Sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: voltar a aprender o silêncio, a abertura à escuta, que nos abre ao próximo, à Palavra de Deus.

Porém, há uma segunda importante relação do silên­cio com a oração. Com efeito, não há apenas o nosso silêncio para nos dispor à escuta da Palavra de Deus; muitas vezes, na nossa oração, encontramo-nos diante do silêncio de Deus, experimentamos quase um sentido de abandono, parece-nos que Deus não ouve e não responde. Mas este silêncio de Deus, como aconteceu também para Jesus, não marca a Sua ausência. O cristão sabe bem que o Senhor está presente e escuta, mesmo na escuridão da dor, da rejei­ção e da solidão. Jesus garante aos discípulos e a cada um de nós que Deus conhece bem as nossas necessidades, em qualquer momento da nossa vida. Ele ensina aos discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais, antes que vós Lho peçais» (Mt 6,7- -8): um coração atento, silencioso e aberto é mais impor­tante que muitas palavras. Deus conhece-nos no íntimo, mais do que nós mesmos, e ama-nos: e saber isto deve ser suficiente. Na Bíblia, a experiência de Job é particularmente significativa a este propósito. Em pouco tempo, este homem perde tudo: familiares, bens, amigos e saúde; até parece que a atitude de Deus no que se lhe refere é a do abandono, do silêncio total. E no entanto Job, na sua relação com Deus, fala com Deus, clama a Deus; na sua oração, não obstante tudo, conserva intacta a sua fé e, no fim, descobre o valor da sua experiência e do silêncio de Deus. E assim no final, dirigindo-se ao Criador, pode concluir: «Eu tinha ouvido falar de Ti, mas agora são os meus olhos que Te veem» (Jb 42,5): todos nós conhecemos Deus quase só por ter ouvido falar d’Ele, e quanto mais abertos permanecemos ao Seu e ao nosso silêncio, tanto mais começamos a conhecê-LO realmente. Esta confiança extrema que se abre ao encontro profundo com Deus amadureceu no silêncio. São Francisco Xavier rezava, dizendo ao Senhor: eu amo-Te, não porque podeis conceder-me o paraíso, ou condenar-me ao inferno, mas porque Vós sois o meu Deus. Amo-Vos porque Vós sois Vós!

Aproximando-nos da conclusão das reflexões sobre a oração de Jesus, voltam à mente alguns ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica'. «O drama da oração é-nos plenamente revelado no Verbo que Se faz carne e habita entre nós. Procurar compreender a Sua oração através do que as Suas testemunhas nos dizem dela no Evangelho é aproximar-nos do Santo Senhor Jesus como da sarça ardente: primeiro, contemplando-O a Ele próprio em ora­ção; depois, escutando como Ele nos ensina a rezar para, finalmente, conhecermos como é que Ele atende a nossa oração.» (N.° 2598) E como é que Jesus nos ensina a rezar? No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica encontramos uma resposta clara: «Jesus ensina-nos a rezar, não só com a oração do Pai Nosso» - certamente o ato central do ensi­namento do modo como rezar - «mas também com a Sua própria oração. Assim, para além do conteúdo, ensina-nos as disposições requeridas para uma verdadeira oração: a pureza do coração que procura o Reino e perdoa aos inimigos; a confiança audaz e filial que se estende para além do que sentimos e compreendemos; a vigilância que protege o discípulo da tentação.» (N.° 544)

Percorrendo os evangelhos vimos como o Senhor é, para a nossa oração, interlocutor, amigo, testemunha e mestre. Em Jesus revela-se a novidade do nosso diálogo com Deus: a oração filial, que o Pai espera dos Seus filhos. E de Jesus aprendemos como a oração constante nos ajuda a interpre­tar a nossa vida, a fazer as nossas escolhas, a reconhecer e a acolher a nossa vocação, a descobrir os talentos que Deus nos concedeu, a cumprir diariamente a Sua vontade, único caminho para realizar a nossa existência.

Para nós, muitas vezes preocupados com a eficácia fun­cional e com os resultados concretos que alcançamos, a prece de Jesus indica que temos necessidade de parar, de viver momentos de intimidade com Deus, “desapegando-nos” da confusão de todos os dias, para ouvir, para ir à “raiz” que sus­tenta e alimenta a vida. Um dos momentos mais bonitos da oração de Jesus é precisamente quando Ele, para enfrentar doenças, dificuldades e limites dos Seus interlocutores, Se dirige ao Seu Pai em oração e assim ensina a quantos estão ao Seu redor onde é necessário procurar a fonte para ter esperança e salvação. Já recordei, como exemplo comovedor, a oração de Jesus no túmulo de Lázaro. O evangelista João narra: «Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos para o Céu, disse: “Pai, dou-Te graças por Me teres aten­dido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa das pessoas que Me rodeiam, para que venham a crer que Tu Me enviaste.” Dito isto, bradou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”» (Jo 11,41-43) Mas o ponto mais alto de profundidade na oração ao Pai, Jesus alcança-o no momento da Paixão e Morte, quando pronuncia o extremo «sim» ao desígnio de Deus e mostra como a von­tade humana encontra o seu cumprimento precisamente na adesão plena à vontade divina, e não na oposição. Na oração de Jesus, no Seu brado na Cruz, confluem «todas as desolações da humanidade de todos os tempos, escrava do pecado e da morte, todas as súplicas e intercessões da história da salva­ção. [...] E eis que o Pai as acolhe e atende, para além de toda a esperança, ao ressuscitar o Seu Filho. Assim se cum­pre e se consuma o drama da oração na economia da criação e da salvação.» (Catecismo da Igreja Católica, n.° 2606)

Caros irmãos e irmãs, peçamos com confiança ao Senhor para viver o caminho da nossa oração filial, aprendendo quotidianamente do Filho Unigênito que Se fez homem por nós como deve ser o modo de nos dirigirmos a Deus. As palavras de São Paulo, sobre a vida cristã em geral, são válidas também para a nossa oração: «Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os princi­pados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades nem a altura, nem o abismo nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Nosso Senhor Jesus Cristo.» (Rm 8,38-39).

Praça de São Pedro

(Quarta-feira, 7 de março de 2012)

Terminamos, aqui, a transcrição de alguns trechos dos ensinamentos ao Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO. Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, daremos início a novo tema teológico, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

[2]A vida de Maria, n.° 89: Textos marianos do primeiro milênio, 2, Roma, 1989, p. 253).

fev 01

ESPAÇO TEOLÓGICO: SEGREDOS DA ORAÇÃO

ESPAÇO TEOLÓGICO

ESPAÇO TEOLÓGICO –

Conforme antecipamos no mês de janeiro estamos, a partir de deste mês de fevereiro de 2018, iniciando a apresentação de diversos temas caros a todos os cristãos, de um modo geral, e aos católicos, de modo especial, sob a ótica de renomados Teólogos que, de muitas formas, podem nos ajudar na melhor compreensão dos diversos aspectos da nossa fé.

Iniciamos nossa apresentação, trazendo o tema: ORAÇÃO.

E, sobre este tema, vamos nos valer das sábias e didáticas palavras do então Papa Bento XVI, considerado pela crítica acadêmica como um dos maiores teólogos do século XX que, durante seu curto pontificado, tratou deste relevante tema em diversas palestras de natureza catequética, no contexto da CATEQUESE PASTORAL. De tudo, originou-se o Livro A ORAÇÃO, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1].  

Certamente, não vamos reproduzir todo o conteúdo do livro, pois, seriam necessários muitos meses para tanto. Vamos, no entanto, reproduzir alguns trechos, que consideramos mais diretos e mais importantes e, no mais, sugerimos a aquisição do livro (devidamente identificado no rodapé desta página, que pode ser adquirido, em princípio, em qualquer livraria Paulus).

 

“A ORAÇÃO DOS ANTIGOS

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Gostaria de dar início a uma nova série de catequeses. Depois das catequeses sobre os Padres da Igreja, sobre os grandes teólogos da Idade Média, sobre as grandes mulheres, gostaria de escolher um tema muito querido a todos nós: é o tema da oração, de modo específico da cristã, ou seja, a prece que Jesus nos ensinou e que a Igreja continua a ensinar-nos. Com efeito, é em Jesus que o homem se torna capaz de se aproximar de Deus com a profundidade e a intimidade da relação de paternidade e filiação. Com os primeiros discípulos, com confiança humilde, dirijamos-nos então ao Mestre e peçamos-Lhe: «Senhor, ensina-nos a rezar.» (Lc 11,1)

Nas próximas catequeses, aproximando-nos da Sagrada Escritura, da grande tradição dos Padres da Igreja, dos mestres de espiritualidade e de liturgia, queremos aprender a viver ainda mais intensamente a nossa relação com o Senhor, quase uma “escola de oração”. Com efeito, sabemos que a oração não se deve dar por certa: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo esta arte sempre de novo; mesmo aqueles que estão muito avançados na vida espiritual sentem sempre a necessidade de se pôr na escola de Jesus para aprender a rezar autenticamente. Recebemos a primeira lição do Senhor através do Seu exemplo. Os evangelhos descrevem- -nos Jesus em diálogo íntimo e constante com o Pai: é uma profunda comunhão d’Aquele que veio ao mundo não para fazer a Sua vontade, mas a do Pai que O enviou para a salvação do homem.

Nesta primeira catequese, como introdução, gostaria de propor alguns exemplos de oração presentes nas antigas culturas, para relevar como, praticamente sempre e em toda a parte, o homem se dirigiu a Deus.

Por exemplo, no antigo Egito um homem cego, pedindo à divindade que lhe restituísse a vista, atesta algo de universalmente humano, que é a pura e simples prece de pedido da parte de quem se encontra no sofrimento. Este homem reza: «O meu coração deseja ver-Te... Tu que me fizeste ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu Te veja! Debruça sobre mim o Teu rosto dileto.»1 Que eu Te veja; eis o núcleo da prece!

[...]

ORAÇÃO E SENTIDO RELIGIOSO

Vivemos numa época em que são evidentes os sinais do secularismo. Deus parece ter desaparecido do horizonte de várias pessoas ou ter-Se tornado uma realidade diante da qual o homem permanece indiferente. Mas vemos, ao mesmo tempo, muitos sinais que nos indicam um despertar do sentido religioso, uma redescoberta da importância de Deus para a vida do homem, uma exigência de espiritualidade, de superar uma visão puramente horizontal, material da vida humana. Olhando para a história recente, malogrou a previsão de quem, desde a época do Iluminismo, preanunciava o desaparecimento das religiões e exaltava uma razão absoluta, separada da fé, uma razão que teria esmagado as trevas dos dogmatismos religiosos e dissolvido o “mundo do sagrado”, restituindo ao homem a sua liberdade, a sua dignidade e a sua autonomia de Deus. A experiência do século passado, com as duas trágicas guerras mundiais, pôs em crise aquele progresso que a razão autônoma, o homem sem Deus parecia poder garantir.

O Catecismo da Igreja Católica afirma: «Pela criação, Deus chama todos os seres do nada à existência. [...] Mesmo depois de, pelo pecado, ter perdido a semelhança com Deus, o homem continua a ser à imagem do seu Criador. Conserva o desejo d’Aquele que o chama à existência. Todas as religiões testemunham esta busca essencial do homem.» (N.° 2566) Poderíamos dizer, como demonstrei na última catequese, que não houve qualquer grande civilização, desde os tempos mais longínquos até aos nossos dias, que não tenha sido religiosa.

(...)

O Concilio Vaticano II, na Declaração Nostra aetate, sublinhou-o sinteticamente: «Os homens esperam das diversas religiões uma resposta aos mais árduos problemas da condição humana que, hoje como outrora, continuam a perturbar profundamente os seus corações: o que é o homem [quem sou eu?], qual o sen­tido e o fim da nossa vida, o que é o bem e o que é o pecado, qual é a origem e a finalidade do sofrimento, qual é o caminho para se obter a verdadeira felicidade, o que é a morte, o julgamento e a recompensa que se lhe hão de seguir, e qual é, finalmente, aquele derradeiro e inefável mistério que envolve a nossa existência: De onde partimos e para onde vamos?» (N.° 1) O homem sabe que não pode responder sozinho à sua necessidade fundamental de compreender. Por mais que se tenha iludido e que ainda se iluda que é autossuficiente, contudo ele faz a experiência de que não é suficiente a si mesmo. Tem necessidade de se abrir ao outro, a algo ou a alguém que possa doar-lhe quanto lhe falta, deve sair de si mesmo rumo Aquele que é capaz de satisfazer a amplidão e a profundidade do seu desejo.

O homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus. E o homem sabe, de qualquer modo, que pode dirigir-se a Deus, sabe que Lhe pode rezar. São Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da História, define a oração «expressão do desejo que o homem tem de Deus». Esta atração por Deus, que o próprio Deus colocou no homem, é a alma da oração, que depois se reveste de muitas formas e modalidades, segundo a história, o tempo, o momento, a graça e até o pecado de cada orante.

(...)

Com efeito, estimados irmãos e irmãs, como vimos anteriormente, a oração não está ligada a um contexto particular, mas encontra-se inscrita no coração de cada pessoa e de cada civilização.

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Na oração, em cada época da História, o homem considera-se a si mesmo e a sua situação diante de Deus, a partir de Deus e em vista de Deus, e experimenta que é criatura carente de ajuda, incapaz de alcançar sozinho o cumprimento da própria existência e da própria esperança. (...) Na dinâmica desta relação com quem dá sentido à existência, com Deus, a oração tem uma das suas expressões típicas no gesto de se pôr de joelhos. E um gesto que contém em si uma ambivalência radical: com efeito, posso ser obrigado a pôr-me de joelhos, condição de indigência e de escravidão, mas posso também inclinar-me espontaneamente, declarando o meu limite e, portanto, o fato de que tenho necessidade de Outro. A Ele declaro que sou frágil, necessitado, “pecador”. Na experiência da oração, a criatura humana exprime toda a consciência de si, tudo o que consegue captar da própria existência e, ao mesmo tempo, dirige-se inteiramente para o Ser diante do qual se encontra, orienta a própria alma para aquele mistério do qual espera o cumprimento dos desejos mais profundos e a ajuda para superar a indigência da própria vida. Neste olhar para o Outro, neste dirigir-se “para além” está a essência da oração, como experiência de uma realidade que supera o sensível e o contingente.

Todavia, só no Deus que Se revela encontra pleno cumprimento a busca do homem. A oração, que é a abertura e elevação do coração a Deus, torna-se assim relação pessoal com Ele. E mesmo que o homem se esqueça do seu Cria dor, o Deus vivo e verdadeiro não cessa de chamar primeiro o homem ao misterioso encontro da oração. Como afirma o Catecismo'. «Na oração, é sempre o amor do Deus fiel a dar o primeiro passo; o passo do homem é sempre uma resposta. A medida que Deus Se revela e revela o homem a si mesmo, a oração surge como um apelo recíproco, um drama de aliança. Através das palavras e dos atos, este drama compromete o coração e manifesta-se ao longo de toda a história da salvação.» (N.° 2567)

Caros irmãos e irmãs, aprendamos a deter-nos em maior medida diante de Deus, de Deus que Se revelou em Jesus Cristo, aprendamos a reconhecer no silêncio, no íntimo de nós mesmos, a Sua voz que nos chama e nos reconduz à profundidade da nossa existência, à fonte da vida, à nascente da salvação, para nos fazer ir além do limite da nossa vida e abrir-nos à medida de Deus, à relação com Ele, que é Amor infinito. Obrigado!

Praça de São Pedro (Quarta-feira, 11 de maio de 2011)”

Sugerimos uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

No próximo mês, vamos prosseguir com este mesmo tema sobre a ORAÇÃO, a fim de que todos e todas sejam, e se sintam, altamente gratificados.

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

jan 12

ESPAÇO TEOLÓGICO: CAMINHO PARA O CONHECIMENTO

ESPAÇO TEOLÓGICO

ESPAÇO TEOLÓGICO – CRESCENDO COM A PALAVRA - 

*Por Luiz Antonio de Moura –

Iniciamos o ano de 2018 com forte tendência, não apenas de manutenção, mas, e, sobretudo, de aprimoramento do site www.sementesdapalavra.com.br por meio do qual temos conseguido chegar a diversos pontos geográficos, alcançando pessoas dos mais diversos matizes e das mais diversificadas profissões de fé o que, graças a Deus, é motivo de orgulho e de satisfação para nós, cujo objetivo é, e sempre foi, levar Palavra de Deus a todos os homens de boa vontade, independentemente da religião que professam.

Pois bem, com tais propósitos e objetivos, estamos verificando a necessidade de abrir espaço de indubitável importância para o cuidado e o zelo da fé da qual somos portadores por obra e graça de Deus, sem as quais seríamos como folhas secas caídas nos bosques da vida. O espaço ao qual nos referimos é aquele destinado à teologia, aonde pretendemos apresentar aos nossos leitores, seguidores e colaboradores não o nosso, mas, o entendimento e o conhecimento teológico sobre os mais diversos aspectos da Palavra de Deus, a partir da leitura de obras de teólogos do porte, por exemplo, de L. Alonso Schökel, J. L. Sicre Diaz, Joseph Ratzinger, Karol Wojtyla, Andrés Torres Queiruga, Karl Barth, Karl Rahner, Jürgen Moltmann, Isidoro Mazzarolo e muitos outros que, no conjunto, são os grandes responsáveis pela compreensão que temos acerca da criação, da formação do chamado “povo de Deus”, ainda no tempo dos Patriarcas e, posteriormente, a partir da história pré e pós-exílica de Israel, passando pelos profetas e, tudo encadeado, chegando ao Novo Testamento e à Nova Aliança apresentada e representada por Jesus Cristo.

Nas palavras e nos ensinamentos dos teólogos acima nomeados, além de outros que serão apresentados oportunamente, pretendemos levar aos leitores, seguidores e colaboradores do site uma visão teológica que lhes possibilite compreender com maior nitidez e clareza a extensão dos projetos criacional e salvífico de Deus, tendo o ser humano como objeto central, sim, mas, ao mesmo tempo, em permanente interação com tudo e com todos os demais seres vivos que o cercam, de modo a que o fracasso de um, significa também, o fracasso dos demais. Assim, o trinômio Deus-homem-vida passa a ser considerado como existência única e esta compreensão, por certo, fará de todos nós pessoas especialmente preparadas para a vida futura, aquela que ultrapassa os limites do tumulo e que nos fará ingressar no grande oceano divino, onde todas as nossas águas serão integradas às águas eternas, numa mistura que unificará o homem com a vida e estes com Deus de forma permanente e, portanto, eterna.

Por meio das diversas inserções teológicas apresentadas por renomados teólogos, atuais e antigos, procedentes dos mais diferentes matizes do pensamento, pretendemos facilitar o entendimento dos cristãos de modo a se adequarem plena e perfeitamente à mensagem de Jesus: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, pois, ao ser humano não pode ser, jamais, negada a oportunidade do conhecimento, principalmente, quando indispensável para uma vivência ajustada aos planos do Criador que têm por finalidade a recondução do homem às hostes do paraíso inicialmente preparado para a criatura cuja primazia é reconhecida por Deus desde o momento inicial, conforme narrado no Livro do Gênesis.

Então, eis o desafio a que nos propomos desde este início do ano de 2018, cuja primeira publicação está prevista para fevereiro, renovada a cada dois meses, dada a necessidade da pesquisa e da formatação dos textos a serem utilizados.

Esperamos, sinceramente, atingir os objetivos apresentados, para o que contamos com a inestimável e insubstituível presença e inspiração do Espírito Santo.

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*Luiz Antonio de Moura estuda Teologia no ITF-Petrópolis, é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

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