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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: ESPAÇO TEOLÓGICO

jul 05

LECTIO DIVINA: POR FREI LUDOVICO GARMUS, OFM

LUDOVICO GARMUS

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – EU SOU MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Zc 9,9-10

Eis que teu rei, humilde, vem ao teu encontro.

O texto da primeira leitura é do IV século a.C. A pequena comunidade judaica não tinha mais rei nem autonomia política, mas estava sob o domínio dos governantes da Pérsia. A esperança messiânica de um novo descendente de Davi tinha que ser repensada e reavivada. É o que o profeta Zacarias procura fazer, conclamando o povo de Jerusalém a acolher o seu rei com alegria. Ele já está vindo ao encontro de Jerusalém. O Messias esperado não será como os reis de Israel e de Judá. Será um rei justo, que realmente salvará o seu povo; será um rei humilde e virá montado sobre um jumento, sem a pompa e o aparato militar de um dominador. O Messias eliminará de Jerusalém cavalos e arcos de guerreiros, símbolo das guerras dos impérios dominadores de então. Mesmo assim estabelecerá a paz universal, tão desejada. Mateus, ao descrever a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado num jumento, cita esta profecia de Zacarias (Mt 21,1-11). Jesus veio implantar o Reino de Deus neste mundo, sem aparato bélico, porque seu reino não é deste mundo (Jo 18,36). Como Servo Sofredor, Jesus deu sua vida por este Reino, a fim de estabelecer a paz e a fraternidade entre os povos. “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). No mundo injusto e violento em que vivemos Jesus propõe a todos os povos a vida segundo os valores do Reino de Deus.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 144 (145)

Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

2. LEITURA: Rm 8,9.11-13

Se, pelo Espírito, fizerdes as obras do corpo morrer, vivereis.

Viver segundo a “carne” é viver na autossuficiência, fechado em si mesmo, como os ouvintes que rejeitaram a mensagem de Jesus (evangelho). Paulo fala da oposição entre vida segundo o Espírito e a vida segundo a carne. Vive segundo a carne quem se deixa dominar pelos critérios humanos do consumismo, da dominação sobre o próximo e do ódio, sem o menor senso de solidariedade humana. Vive segundo o espírito quem pertence a Cristo, porque crê no Espírito que mora em cada pessoa. Mas, viver segundo o Espírito, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, é uma “dívida”, diz Paulo; isto é, um desafio permanente na vida cristã. O caminho mais seguro para viver segundo o Espírito é “pertencer” a Cristo e aprender dele, que é “manso e humilde de coração” (evangelho).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra;

Os mistérios do teu reino aos pequenos, Pai, revelas!

3. EVANGELHO: Mt 11,25-30

Eu sou manso e humilde de coração.

Antes do evangelho que ouvimos, Jesus critica as cidades da Galileia, Corozaim, Betsaida e Cafarnaum, que o rejeitam por causa de seu orgulho e autossuficiência (11,20-24). Estas cidades não se converteram porque o modo de ser e de agir de Jesus incomodava. Jesus não veio conquistar adeptos pela violência, mas veio com humildade e mansidão. Veio, “pedindo licença para bater na porta do coração das pessoas” (Papa Francisco na JMJ). Os pequenos, pobres, pecadoras e pecadores, desprezados pelos orgulhosos, o acolheram e continuam acolhendo. Por isso, Jesus louva o Pai que se revela aos pequeninos, isto é, aos profetas cristãos, e se oculta aos grandes.

O evangelho de hoje nos convida a contemplar a imagem do Pai, revelada pelas palavras e gestos de Jesus. Convida-nos a louvar este Deus, que assim se revela. Propõe-nos a agir, com humildade e mansidão, como Jesus agiu com os pequeninos.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 05

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – JESUS: ALÍVIO NO SOFRIMENTO –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No Evangelho de hoje o Senhor Jesus repete-nos aquelas palavras que conhecemos tão bem, mas que nos comovem sempre: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30). Quando Jesus percorria os caminhos da Galileia, anunciando o Reino de Deus e curando os doentes, sentia compaixão pelas multidões, porque estavam cansadas e oprimidas “como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 35-36). Aquele olhar de Jesus parece alargar-se até hoje, até ao nosso mundo. Também hoje olha para tanta gente oprimida por condições de vida difíceis, mas também desprovida de pontos de referência válidos para encontrar um sentido e uma meta para a existência, até doentes de depressão. O olhar de Cristo pousa sobre estas pessoas, aliás, sobre cada um destes filhos do Pai que está nos Céus: “Vinde a mim, vós todos...” O Senhor chama para Si todos os homens, pois andamos sob o peso das nossas fadigas, lutas e tribulações. A história das almas mostra a verdade destas palavras de Jesus. Só o Evangelho apaga a sede de verdade e de justiça que desejam os corações sinceros. Só Nosso Senhor, o Mestre – e aqueles a quem Ele dá o Seu poder --, pode apaziguar o pecador ao dizer-lhe “os teus pecados te são perdoados” (Mt 9, 2). Neste sentido ensina São Paulo Vl: “Jesus diz agora e sempre: ‘Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei’. Efetivamente Jesus está numa atitude de convite, de conhecimento e de compaixão por nós; mais ainda, de oferecimento, de promessa, de amizade, de bondade; de remédio para os nossos males, de confortador, e ainda mais, de alimento, de pão, de fonte de energia e de vida” (Homilia  Corpus Christi).

“Vinde a Mim”: O Mestre dirige-Se às multidões que O seguem, “maltratadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Os fariseus sobrecarregavam-nas com minuciosas práticas insuportáveis (At 15, 10), que em troca não lhes davam a paz do coração. Pelo contrário, Jesus fala àquelas gentes e, também, a nós do Seu jugo e da Sua carga: “Qualquer outra carga te oprime e esmaga, mas a carga de Cristo alivia-te o peso. Outra carga qualquer tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a um pássaro lhe tiras as asas, parece que o alivias do peso, mas quanto mais lhe tires este peso, tanto mais o atas à terra. Vês no solo aquele que quiseste aliviar de um peso; restitui-lhe o peso das suas asas e verás como voa” (Santo Agostinho, Sermão 126). Com um pouco de experiência na intimidade pessoal com o Senhor, compreendemos que nos diga que “o Meu jugo é suave e a Minha carga é leve”. “Como se dissesse: todos os que andais atormentados, aflitos e carregados com a carga dos vossos cuidados e apetites, saí deles, vindo a Mim, e Eu vos recrearei e achareis para as vossas almas o descanso que vos tiram os vossos apetites” (Subida ao Monte Carmelo, Livro l, Cap. 7, 4).

Jesus promete dar a todos “alívio”, mas sob uma condição: “Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração”. O que é este “jugo”, que em vez de pesar alivia, e em vez de esmagar conforta? O “jugo” de Cristo é a lei do amor, é o seu Mandamento, que Ele deixou aos seus discípulos (Jo 13, 34; 15, 12). O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso é preciso abandonar o caminho da arrogância, da violência utilizada para obter posições de poder sempre maiores, para garantir o sucesso a qualquer preço.

Ao lado de Cristo, todas as fadigas se tornam amáveis, tudo o que poderia ser custoso no cumprimento da vontade de Deus se suaviza. O sacrifício, quando se está ao lado de Cristo, não é áspero e duro, mas amável. Ele assumiu as nossas dores e os nossos fardos mais pesados. O Evangelho é uma contínua prova da sua preocupação por todos: “Ele deixou-nos por toda a parte exemplos da sua misericórdia”, escreve São Gregório Magno. Ressuscita os mortos, cura os cegos, os leprosos, os surdos-mudos, liberta os endemoninhados…Por vezes, nem sequer espera que lhe tragam o doente, mas diz: Eu irei e o curarei: Mesmo no momento da morte, preocupa-se com os que estão ao seu lado. E ali entrega-se com amor, como propiciação pelos nossos pecados. E não só pelos nossos, mas também pelos de todo mundo.

Devemos imitar o Senhor: não só evitando lançar preocupações desnecessárias sobre os outros, mas ajudando-os a enfrentar as que têm.

Temos de libertar os outros daquilo que lhes pesa, como Cristo faria se estivesse no nosso lugar.

Ao mesmo tempo, podemos e devemos pensar nesses aspectos em que, muitas vezes sem termos plena consciência disso, contribuímos para tornar um pouco mais pesada e menos grata a vida dos outros:  pelos nossos juízos precipitados, pela crítica negativa, pela indiferença ou falta de consideração, pela palavra que mágoa.

Peçamos ao Senhor, na nossa oração pessoal, a ajuda da sua graça para sentirmos uma compaixão eficaz por aqueles que sofrem o mal incomensurável de estarem enredados no pecado. Peçamos-lhe a graça de entender que o apostolado da Confissão é a maior obra de todas as obras de misericórdias, pois é possibilitar que Deus derrame o seu perdão generosíssimo sobre os que se afastaram da casa paterna. Que enorme fardo retiramos dos ombros de quem estava oprimido pelo pecado e se aproxima da Confissão! Que grande alívio! Não encontraremos caminho mais seguro para seguirmos o Senhor e para encontrarmos a nossa própria felicidade do que a preocupação sincera por libertar ou aliviar do seu lastro os que  caminham  cansados e aflitos, pois Deus dispôs as coisas “para que aprendamos a levar as cargas uns dos outros; porque não há ninguém sem defeito, ninguém sem carga, ninguém que se baste a si próprio, nem que seja suficientemente sábio para si” (T. Kempis, Imitação de Cristo, I,16). Todos precisamos uns dos outros. A convivência diária requer essas ajudas mútuas, sem as quais dificilmente poderíamos ir para a frente.

E se alguma vez nós mesmos nos vemos a braços com um fardo excessivamente pesado para as nossas forças, não deixemos de ouvir as palavras do Senhor: Vinde a mim. Só Ele restaura as forças, só Ele sacia a sede. “Jesus diz agora e sempre: Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Efetivamente, Jesus encontra-se numa atitude de convite, de promessa, de amizade, de bondade, de remédio para os nossos males, de conforto e, sobretudo, de pão, de fonte de energia e de vida” (São Paulo VI, Homilia, 12/06/1977). Cristo é o nosso descanso.

O segredo é a oração. Quando, por vezes, na vida, nos sentimos esmagados e não sabemos a quem mais recorrer, temos que voltar-nos decididamente para o Sacrário, onde nos espera o Amigo que nunca atraiçoa nem decepciona, e que, nesse colóquio   sem palavras, nos anima, nos dá critério e nos robustece para a luta.

Quantas preocupações e fardos aparentemente insuportáveis se desfazem à luz trêmula da lamparina de um Sacrário!

Falando sobre a oração, sobre as visitas de adoração a Cristo presente sob as espécies eucarísticas, ensinou São João Paulo ll: “É bom demorar- se com Ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo predileto (cf. Jo 13,25), deixar-se tocar pelo amor infinito do seu coração. Se atualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela “arte da oração”, como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio! Escrevia Santo Afonso Maria de Ligório: “A devoção de adorar Jesus sacramentado é, depois dos sacramentos, a primeira de todas as devoções, a mais agradável a Deus e a mais útil para nós”. A Eucaristia é um tesouro inestimável: não só a sua celebração, mas também o permanecer diante dela fora da Missa permite – nos beber na própria fonte da graça. Uma comunidade cristã que queira contemplar melhor o rosto de Cristo, segundo o espírito que sugeri nas cartas apostólicas Novo Millennio Ineunte e Rosarium Virginis Mariae, não pode deixar de desenvolver também este aspecto do culto eucarístico, no qual perduram e se multiplicam os frutos da comunhão do corpo e sangue do Senhor” (Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, João Paulo ll, 25).

Muitas vezes encontramos muita miséria humana: quantos problemas, quantos sofrimentos, quanta desilusão e quanto amor negado!

Às vezes há problemas que não têm solução, há dor que nenhum analgésico cura, há escuridão onde a luz não penetra! E Cristo nos repete: “Vinde a Mim todos vós que estais cansados e Eu vos aliviarei”. Só Ele poderá aliviar o peso de nossos sofrimentos!

Que a Virgem Maria nos ajude a “aprender” de Jesus a verdadeira humildade, a carregar com decisão o seu jugo leve, para experimentar a paz interior e tornarmo-nos por nossa vez capazes de confortar os irmãos e as irmãs que percorrem com fadiga o caminho da vida.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

   

jun 28

COMENTANDO O EVANGELHO: MON. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – FESTEJAR AS COLUNAS DA IGREJA!

*Por Mons. José Maria Pereira –

A festa desses grandes Apóstolos Pedro e Paulo, que celebramos hoje, é ao mesmo tempo uma grata memória das grandes testemunhas de Jesus Cristo e uma solene confissão em favor da Igreja una, santa, católica e apostólica. É antes de tudo uma festa da catolicidade. É sinal do Pentecostes a nova comunidade que fala em todas as línguas e une todos os povos num único povo, numa família de Deus e este sinal tornou-se realidade. Eles são chamados colunas da Igreja nascente. Testemunhas insignes da fé, dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do Mestre divino, selaram com o sangue a sua pregação evangélica. O seu martírio é sinal de unidade da Igreja, como diz Santo Agostinho: “Um único dia é consagrado à festa dos dois Apóstolos. Mas também eles eram um só. Não obstante tenham sido martirizados em dias diferentes, eram um só. Pedro precedeu, Paulo seguiu” (Disc. 295, 8). Os dois Apóstolos prestaram o seu testemunho supremo à distância de pouco tempo e espaço um do outro: em Roma, foi crucificado São Pedro e sucessivamente foi decapitado São Paulo.

São Pedro e São Paulo são os últimos dois anéis de uma corrente que nos une ao próprio Cristo. Em certo sentido, nossa comunhão com Jesus passa através deles. Nós celebramos, por isso, a festa dos “fundadores” de nossa fé, dos antepassados do povo cristão. Foram mortos na perseguição de Nero pelo ano 64.

Disse Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16,18). Essa palavra de Jesus foi dirigida a Pedro, depois que Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16). Pedro faz a sua confissão de fé em Jesus, reconhecendo-O como Messias e Filho de Deus; e faz isso também em nome dos outros Apóstolos. Em resposta, o Senhor revela-lhe a missão que pretende confiar-lhe, ou seja, a de ser a “pedra”, a “rocha”, o fundamento visível sobre o qual está construído todo o edifício espiritual da Igreja (Mt 16, 16 – 19). Mas, de que modo Pedro é rocha? Como deve realizar esta prerrogativa, que naturalmente não recebeu para si mesmo? O texto de Mateus deixa claro que o reconhecimento da identidade de Jesus proferido por Simão, em nome dos Doze, não provém “da carne e do sangue”, isto é, das suas capacidades humanas, mas de uma especial Revelação de Deus Pai. Também sobressai, forte e clara, a promessa de Jesus: “as portas do inferno”, isto é, as forças do mal, “não conseguirão vencê-la. Na realidade, a promessa que Jesus faz a Pedro é ainda maior do que as promessas feitas aos profetas antigos: de fato, os profetas encontravam-se ameaçados por inimigos somente humanos, enquanto Pedro terá de ser defendido das “portas do inferno”, do poder destrutivo do mal. Jeremias recebe uma promessa que diz respeito à sua pessoa e ministério profético, enquanto Pedro recebe garantias relativamente ao futuro da Igreja, da nova comunidade fundada por Jesus Cristo e que se prolonga para além da existência pessoal do próprio Pedro, ou seja, por todos os tempos. 

A Igreja, portanto, não é uma sociedade de livres pensadores, mas é a sociedade, ou melhor, a comunidade daqueles que se unem a Pedro em proclamar a fé em Jesus Cristo. Quem edifica a Igreja é Cristo. É ele que escolhe livremente um homem e o põe na base do edifício.

Pedro é apenas um instrumento, a primeira pedra do edifício, enquanto Cristo é aquele que põe a primeira pedra. Todavia, doravante, não se poderá estar verdadeira e plenamente na Igreja, como pedra viva, se não se está em comunhão com a fé de Pedro e sua autoridade ou, ao menos, se não se procura estar. Santo Ambrósio escreveu uma palavra forte: “onde está Pedro, ali está a Igreja. ” Isto não significa que Pedro seja, sozinho, toda a Igreja, mas que não pode haver Igreja sem Pedro. A Igreja sem o Papa seria um barco sem timoneiro! O Papa é o representante de Cristo na terra (seu Vigário), o fundamento da unidade da Igreja.

Disse Jesus: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 19). O paralelismo “na Terra (...) nos Céus assegura que as decisões de Pedro, no exercício desta sua função eclesial, têm valor também diante de Deus.

O primado de Pedro e de seus sucessores está claro no Evangelho (cf. tb. Jo 21, 15). Pedro exerceu este primado, como encontramos nos Atos dos Apóstolos (At. 1, 15; 2, 14; 3, 6; 10, 1; 9, 32; 15, 7-2). Pedro foi Bispo de Roma, onde foi sepultado. Santo Inácio de Antioquia refere-se à Igreja de Roma como a “que preside a aliança do amor.”

Jesus quis fundar a sua Igreja tendo Pedro e seus sucessores à frente dela. Em dois mil anos de Cristianismo, até hoje, Pedro teve 266 sucessores! Pedro, Lino, Cleto, Clemente… João Paulo II, Bento XVI, Francisco. Podemos dizer, ontem Pedro, hoje Francisco. Agradeçamos a Deus por pertencermos à Igreja fundada por Cristo que é “Una, Santa, Católica e Apostólica, edificada por Jesus Cristo, sociedade visível instituída com órgãos hierárquicos e comunidade espiritual simultaneamente (…); fundada sobre os Apóstolos e transmitindo de geração em geração a sua palavra sempre viva e os seus poderes de Pastores no Sucessor de Pedro e nos Bispos em comunhão com ele; perpetuamente assistida pelo Espírito Santo” (Paulo VI, Credo do Povo de Deus).

Dizia São Josemaria Escrivá: “O amor ao Romano Pontífice há de ser em nós uma bela paixão, porque nele vemos Cristo.”

Também S. Paulo é hoje apresentado na cadeia (2Tm 4, 6-8. 17-18), na sua última prisão que terminará com o seu martírio. O Apóstolo está consciente da sua situação; porém, as suas palavras não revelam amargura, mas a serena satisfação de ter gasto a sua vida pelo Evangelho: “aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça…” (2Tm 4, 6-8). Repassando os escritos do Apóstolo dos Gentios, descobrimos que a imagem da espada se refere a toda a sua missão de evangelizador. Por exemplo, quando já sentia aproximar-se a morte, escreve a Timóteo: “Combati o bom combate” (2Tm 4, 7); aqui não se trata seguramente do combate de um comandante, mas daquele de um arauto da Palavra de Deus, fiel a Cristo e à sua Igreja, por quem se consumou totalmente. Por isso mesmo, o Senhor lhe deu a coroa de glória e colocou-o, juntamente com Pedro, como coluna no edifício espiritual da Igreja.

Paulo disse: “Escolheu-nos, antes da fundação do mundo” (Ef 1, 4). E continua: “chamou-nos com vocação santa, não em atenção às nossas obras, mas ao seu desígnio e sua graça” (2Tm. 1, 9).

A vocação é um dom que Deus preparou desde toda a eternidade. Todos nós recebemos, de diversas maneiras, uma chamada concreta para servir o Senhor. E ao longo da vida chegam-nos novos convites para segui-Lo, e temos de ser generosos com Ele em cada encontro. Temos de saber perguntar a Jesus na intimidade da oração, como São Paulo: Que devo fazer, Senhor?  Que queres que eu deixe por Ti?  Em que desejas que eu melhore? Neste momento da minha vida, que posso fazer por Ti?

O Senhor chama todos os cristãos à santidade; e é uma vocação exigente, muitas vezes heroica, pois Ele não quer seguidores tíbios, discípulos de segunda classe; se quiser ser discípulo do Mestre, deve imprimir um sentido apostólico à sua vida: um sentido que o levará a não deixar passar nenhuma oportunidade de aproximar os outros de Cristo, que é aproximá-los da fonte de alegria, da paz e da plenitude.

Temos de pedir, hoje, a São Paulo que saibamos converter em oportuna qualquer situação que se nos apresente. Quem verdadeiramente ama a Cristo sentirá a necessidade de O dar a conhecer, pois, como diz São Tomás de Aquino, aquilo que os homens muito admiram divulgam-no logo, porque da abundância do coração fala a boca”.

Relembrando o ardor missionário de São Pedro e São Paulo, que o Senhor nos conceda o mesmo entusiasmo para sermos discípulos e missionários de Cristo.

Vale refletir sobre as palavras do Papa, hoje, São Paulo Vl, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, que começa com estas palavras: “O compromisso de anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo, animados pela esperança mas, ao mesmo tempo, muitas vezes atormentados pelo medo e pela angústia, é sem dúvida alguma um serviço prestado à comunidade cristã, mas também a toda a humanidade” (n. 1). Impressiona a atualidade destas expressões!

Essa projeção missionária da Igreja foi muito bem desenvolvida por São João Paulo ll, que representou “ao vivo” a natureza missionária da Igreja, com as viagens apostólicas e com a insistência do seu Magistério sobre a urgência de uma “nova evangelização: “nova” não nos seus conteúdos, mas no seu impulso interior, aberto à Graça do Espírito Santo, que constitui a força da lei nova do Evangelho e que sempre renova a Igreja; “nova” na busca de modalidades que correspondam à força do Espírito Santo e sejam adaptadas aos tempos e às situações; e “nova”, porque necessária também nos países que já receberam o anúncio do Evangelho. A alma do homem tem sede de Deus do Deus vivo. Por isso São João Paulo ll escrevia: “A missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, ainda está muito longe de seu pleno cumprimento”, e acrescentava: “Uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão ainda está no início, e que devemos empenhar-nos com todas as forças ao seu serviço” (Encíclica Redemptoris Missio, 1).

A intercessão dos Santos Pedro e Paulo obtenha para a Igreja inteira fé fervorosa e coragem apostólica, para anunciar ao mundo a verdade de que todos nós temos necessidade, a verdade que é Deus, origem e fim do Universo e da História, Pai misericordioso e fiel, esperança de vida eterna.

A exemplo da Igreja primitiva que rezava por Pedro enquanto estava na prisão (At 12, 5) estejamos unidos em oração pelo Santo Padre o Papa Francisco!

Que a Santa Mãe de Deus nos oriente e nos acompanhe sempre com a sua intercessão: a sua fé indefectível, que sustentou a fé de Pedro e dos outros Apóstolos, continue a apoiar também a fé das gerações cristãs, a nossa própria fé: Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja, rogai por nós!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

jun 28

LECTIO DIVINA: FREI LUDOVICO GARMUS, OFM

LUDOVICO GARMUS

13º DOMINGO DO TEMPO COMUM – QUEM VOS RECEBE, A MIM RECEBE –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, pela vossa graça, nos fizestes filhos da luz. Concedei que não sejamos envolvidos pelas trevas do erro, mas brilhe em nossas vidas a luz da verdade”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 2Rs 4,8-11.14-16a

É um santo homem de Deus, este que passa em nossa casa.

A palavra de Deus deste domingo está centrada na hospitalidade, valor muito apreciado na cultura dos tempos bíblicos. Havia a convicção que Deus olha com carinho para as famílias que acolhem viajantes, peregrinos ou missionários. O profeta Eliseu era considerado um missionário, mensageiro de Deus. Não tinha morada fixa, mas anunciava a Palavra em todos os lugares para onde Deus o enviava. Em suas andanças era sempre acompanhado por um discípulo, Giezi. Quando viajava na Galileia, costumava hospedar-se em Sunam na casa de um casal de certas posses, mas que não tinha filhos. Por iniciativa da mulher, foi até construído um pequeno apartamento no terraço da casa para hospedar o “santo homem de Deus” e seu companheiro. Vendo a bondade com que a mulher os tratava, Eliseu perguntou ao discípulo: “Que se poderia fazer por esta mulher”? E Giezi comentou que ela não tinha filhos. Na despedida Eliseu disse à mulher: “Daqui a um ano, neste tempo, estarás com um filho nos braços” (cf. 2Rs 4,8-17). A mulher tratava com todo o carinho os hóspedes profetas. O que mais desejava era ter filhos e recebeu a promessa de um filho, “uma recompensa de profeta”, como diz Jesus no Evangelho.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 88

Ó senhor, eu cantarei, eternamente, o vosso amor.

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 6,3-4.8-11:

Sepultados com ele pelo batismo, vivamos uma nova vida!

O apóstolo Paulo não conheceu o Jesus histórico. O Evangelho que prega baseia-se na tradição apostólica recebida sobre Jesus e que ele sempre transmite: “que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia” e apareceu aos apóstolos, a mais de quinhentos irmãos e, por fim, também a ele (1Cor 15,3-11). Na leitura de hoje, Paulo insiste que a vida cristã tem seu fundamento na morte e ressurreição de Cristo. Recorre aos símbolos do batismo que, no seu tempo, se fazia por imersão. No rito do batismo, o catecúmeno descia na grande pia batismal, onde era mergulhado na água, simbolizando a participação na morte redentora de Cristo e sua própria morte para a vida de pecado. Ao emergir doutro lado da bacia, ressurgia para uma vida nova, como participante da glória de Cristo ressuscitado. Por isso Paulo diz: “Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele”.

Hoje, o rito do batismo é mais simples, mesmo assim alguns ritos lembram o que Paulo nos diz sobre o significado do batismo: a vela que os padrinhos acendem no círio pascal lembra a morte e ressurreição de Cristo; a veste batismal lembra a vida nova em Cristo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Vós sois uma raça escolhida, e propriedade de Deus.

Proclamai suas virtudes, pois, de trevas luz ele fez.

3. EVANGELHO: Mt 10,37-42

Quem não toma a sua cruz, não é digno de mim.

Quem vos recebe, a mim recebe.

Domingo passado já ouvimos um trecho do discurso missionário, no qual Jesus animava os apóstolos a enfrentarem as dificuldades no anúncio do evangelho (Mt 10,26-33). O evangelho de hoje conclui o discurso missionário. Antes de escolher os apóstolos e enviá-los em missão, Jesus age sozinho, embora acompanhado por muitos discípulos e pelo povo. Pouco antes (Mt 9,37-42), Mateus dá um resumo da atividade de Jesus: Jesus percorria cidades e aldeias e pregava “o Evangelho do Reino de Deus”. Compadecia-se do povo sofrido, “porque estava cansado e abatido, como ovelhas sem pastor”. E dizia aos discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua colheita”. Logo em seguida, Jesus chama doze entre os discípulos e lhes dá o nome de apóstolos (Mt 10,1-4). E, antes de enviá-los em missão, traça o plano de ação no discurso missionário (10,5-36). O texto do Evangelho divide-se em duas pequenas partes: exigências para a vida do apóstolo missionário (10,37-39) e recomendações para os cristãos oferecerem hospedagem a eles (10,40-42).

Entre as exigências se mencionam: o desapego dos laços familiares que impedem de cumprir com amor e liberdade a missão; tomar a própria cruz e seguir a Jesus Cristo; ser capaz de arriscar a própria vida por amor a Cristo. Como os apóstolos missionários devem deixar sua casa e família a fim de cumprir sua missão, Jesus recomenda aos cristãos que lhes seja dada hospitalidade (primeira leitura). Mais adiante, quando Pedro pergunta a Jesus – “e nós que deixamos tudo e te seguimos que recompensa teremos” –, Jesus responde: “Todo aquele que deixar casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de meu nome, receberá cem vezes mais e possuirá a vida eterna” (Mt 19,27-30). Os que recebem em sua casa os missionários, é a Jesus que recebem (10,41). E quem acolhe as pessoas pobres e desprotegidas, acolhe o próprio Jesus, e receberá como recompensa a vida eterna (Mt 25,34-40).

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jun 21

COMENTANDO O EVANGELHO – MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – VIVER SEM MEDOS –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Encontramos muitas pessoas com medo! Muitas vezes estamos cheios de medo. A criança tem medo do escuro e da pessoa que grita. O adolescente tem medo de si: medos inconscientes, mas dolorosos; medos que se chamam timidez, complexos de inferioridade, agressividade.

Muitos adultos vivem roídos de medo, da pior forma de medo – a angústia. Muitas vezes vivemos tremendo: medo do futuro, medo da morte, ou simplesmente do amanhã. Por medo, a pessoa se tranca dentro de seu pequeno mundo, cada vez mais se isola da sociedade. Por medo, levanta muros protetores cada vez mais altos, criam-se condomínios mais fechados e seguros… Medo da doença… do desemprego, etc.

No Evangelho (Mt 10, 26 -33), encontramos dois convites de Jesus: “Não temais os homens” e por outro “temei” a Deus. Assim, somos estimulados a refletir sobre a diferença que existe entre os receios humanos e o temor a Deus. O receio é uma dimensão natural da vida. Desde pequenos experimentamos formas de receio que se revelam depois imaginárias e desaparecem; sucessivamente outras emergem, que têm fundamentos concretos na realidade: elas devem ser enfrentadas e superadas com o compromisso humano e com a confiança em Deus.

Face ao amplo e diversificado panorama dos receios humanos, a Palavra de Deus é clara: quem “teme” a Deus “não tem medo”. O temor de Deus, que as Escrituras definem como “o princípio da verdadeira sabedoria”, coincide com a fé n’Ele, com o sagrado respeito pela sua Autoridade sobre a vida do mundo. Não “ter receio de Deus” equivale a colocar-se no seu lugar, a sentir-se dono do bem e do mal, da vida e da morte. Ao contrário, quem teme a Deus sente em si a segurança que tem uma criança nos braços de sua mãe (Sl 131 (130), 2); quem teme a Deus está tranquilo até no meio das tempestades, porque Deus, como Jesus nos revelou, é Pai cheio de misericórdia e de bondade. Quem O ama não tem receio: “No amor não há temor – escreve o Apóstolo João – antes o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor pressupõe o castigo e o que teme não é perfeito no amor” (1 Jo 4, 18). Portanto, quem crê não se assusta diante de nada, porque sabe que está nas mãos de Deus, sabe que o mal e a irritação não têm a última palavra, mas o único Senhor do mundo e da vida é Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que nos amou até se sacrificar a Si mesmo, morrendo na Cruz para a nossa salvação.

Quanto mais crescemos nesta intimidade com Deus, impregnada de amor, mais facilmente vencemos qualquer forma de receio. No trecho bíblico de hoje, Jesus repete várias vezes a exortação a não ter receio. Tranquiliza-nos como fez com os Apóstolos, como fez com São Paulo mostrando-lhe em visão uma noite, num momento particularmente difícil da sua pregação: “Não tenhas medo – disse-lhes – porque Eu estou contigo” (At 18, 9).   

É uma espécie de refrão que ressoa nas palavras de Jesus, repetido (nesse trecho) três vezes. Antes de qualquer raciocínio, hoje deveríamos assimilar e por assim dizer acolher em nós, saboreando - lhe toda a doçura, estas palavras de Jesus: Não tenhais medo!

Todo o Evangelho, e antes ainda o Antigo Testamento, está cheio disso. A Abraão Deus diz para não ter medo, na hora mesma que o chama para fora de sua terra, para um país desconhecido. Aos profetas diz: não temas, eu estou contigo. A Maria ainda: não temas, encontraste graça. Aos apóstolos, enviando-os ao mundo, diz: não temais diante dos tribunais e diante dos governadores. A todos os discípulos: Não tenhas medo, pequeno rebanho (Lc 12, 32).

Jesus oferece-nos as motivações, oferece-nos o verdadeiro remédio para nossos medos. Não temais – diz – aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Não temais, pois! Vós valeis mais do que os pássaros. No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade do Vosso Pai. “O Vosso Pai” – o que dizer: o que fará por vós que lhe sois filhos? A revelação da PATERNIDADE de Deus e a revelação de uma vida além da morte asseguram, portanto, o convite de Jesus. Todo o medo é redimensionado no momento em que Jesus traça e revela um plano da vida humana – o plano mais verdadeiro e mais pessoal do homem – em que nada o pode prejudicar, nem quem o mata. Vós podeis nos matar, mas não podeis nos prejudicar, exclamava, dirigindo-se aos perseguidores, o mártir São Justino, nos primeiros dias da Igreja.

Por outro lado, o que é que se pode temer dos homens? Eles poderão rir-se, perseguir, privar dos bens terrenos, meter na prisão e até causar a morte; mas esse não é o pior mal. Jesus, com efeito, diz: “Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo na Geena!” (Mt 10, 28). O crente, em certos casos, pode encontrar-se perante uma alternativa extrema: ou renegar da fé por medo aos homens e perder a alma; ou, para não se separar de Cristo, ter que enfrentar graves danos, ou a própria morte, garantindo assim a vida eterna. O martírio, ato supremo de amor a Deus, é um dever para todo o cristão, quando o fugir dele signifique renegar da fé.   

A raiz maligna de cada medo humano tem um nome preciso: é a morte, fruto do pecado. Jesus a venceu, expiando o pecado, todo o pecado do mundo. Venceu a morte passando pela morte e esvaziando-a de todo o veneno. A morte e a Ressurreição de Cristo são penhor de nossa vitória, são fonte de nossa esperança e de nossa coragem: Se Deus é por nós, quem será contra nós… Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? … Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou (Rm 8, 31-37). Tribulações, angústia, perseguição e fome: a Escritura tomou conhecimento de nossos medos mais profundos, mas nos ofereceu uma saída, uma esperança de vitória, graças a Jesus Cristo, que nos amou e se entregou por nós (Gl 2,29).

Sem medo à vida e sem medo à morte, alegres no meio das dificuldades, esforçados e abnegados perante os obstáculos e as doenças, serenos perante um futuro incerto: o Senhor pede-nos que vivamos assim. E isto será possível se considerarmos muitas vezes ao dia que somos filhos de Deus, especialmente quando somos assaltados pela inquietação, pela perturbação e pelas sombras da vida. Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé (1Jo 5, 4). E do alicerce seguro de uma fé inamovível surge uma moral de vitória que não é orgulho nem ingenuidade, mas a firmeza alegre do cristão que, apesar das suas misérias e limitações pessoais, sabe que essa vitória foi ganha por Cristo com a sua Morte na Cruz e com a sua gloriosa Ressurreição. Deus é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? Nem ninguém, nem nada, Senhor. Tu és a segurança dos meus dias!

Devemos ser fortes e valorosos diante das dificuldades, como é próprio dos filhos de Deus: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28). Jesus exorta-nos a não temer nada, exceto o pecado, que tira amizade com Deus e conduz à condenação eterna.

Fora o temor de perder a Deus – que é preocupação filial e precaução para não ofendê-Lo -- nada nos deve inquietar. Em determinados momentos do nosso caminho, poderão ser grandes as tribulações que padeçamos, mas o Senhor nos dará então a graça necessária para superá-las e para crescer em vida interior: Basta - te a minha graça (2Cor 12, 9), nos dirá Jesus.

O Profeta Jeremias, diante das perseguições, incompreensões, diz: “Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (Jr 20, 11). Como os profetas e os apóstolos, a Igreja vive a sorte do seu Mestre e Senhor. Como Jeremias, cada cristão, frente às dificuldades e oposições, deve responder com uma atitude de fé: a disposição de assumir na própria vida o Mistério Pascal. Ao participarmos da Eucaristia, revivemos o mistério e o momento em que Ele venceu o mundo. Haurimos com fé e humildade dessa Eucaristia a coragem para retomar nossa vida cotidiana, amanhã, menos expostos ao medo. Somos os discípulos de alguém que venceu o mundo!

Em todos os momentos peçamos a proteção da Virgem Maria. “Na hora do desprezo da Cruz, Nossa Senhora está lá, perto do seu Filho, decidida a correr a sua mesma sorte.  – Percamos o medo de nos comportarmos como cristãos responsáveis, quando isso não é cômodo no ambiente em que nos desenvolvemos: Ela nos ajudará” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 977).

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

jun 14

COMENTÁRIO SOBRE O EVANGELHO – POR MONSENHOR JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

 XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – A COMPAIXÃO DE JESUS!

*Por Mons. José Maria –

Hoje refletimos sobre o texto do Evangelho (Mt 9, 36 – 10, 8). O que é narrado nesse texto, deve ter acontecido muitas vezes enquanto o Senhor percorria cidades e aldeias pregando a chegada do Reino de Deus: ao ver a multidão, encheu-se de compaixão por ela, comoveu-se no mais íntimo do seu ser, porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor, profundamente desorientadas. “Jesus chamou os Doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (Mt 10, 1). Quando Jesus chamou os Doze, queria referir-se simbolicamente às tribos de Israel, que remontam aos doze filhos de Jacó. Por isso, pondo os Doze no centro da sua nova comunidade, Ele faz compreender que veio para completar o desígnio do Pai Celeste, embora só em Pentecostes há de aparecer o novo rosto da Igreja: quando os Doze, “cheios do Espírito Santo”, proclamarem o Evangelho falando todas as línguas (At 2, 3 – 4). Então, manifestar-se-á a Igreja Universal, reunida num único Corpo do qual Cristo ressuscitado é a Cabeça e, ao mesmo tempo, por Ele enviada a todas as nações, até aos extremos confins da Terra (Mt 28, 20).

Encheu-se de compaixão, ou condoeu-se dela: o verbo grego é profundamente expressivo: ”comover-se nas entranhas”. Jesus, com efeito, comoveu-se ao ver o povo, porque os seus pastores, em vez de o guiarem e cuidarem dele, o desencaminhavam, comportando-se mais como lobos do que como verdadeiros pastores do seu próprio rebanho. Fica claro nesse texto do Evangelho o estilo de Jesus fazer missão: o estilo da “compaixão”. O Evangelista Mateus frisa-o, chamando a atenção para o olhar que Cristo dirige às multidões: “Vendo as multidões”, ele escreve, “Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). E, depois da chamada dos Doze, reaparece esta atitude no mandato que Ele lhes dá de se dirigirem “às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10, 6). Nestas expressões sente-se o amor de Cristo pela sua gente, especialmente pelos pequeninos e pelos pobres. A compaixão cristã nada tem a ver com o pietismo, com o assistencialismo. Pelo contrário, é sinônimo de solidariedade e de partilha, e é animada pela esperança. A Palavra que Jesus dirige aos Apóstolos, “Ide e anunciai: ‘O Reino do Céu está próximo’” (Mt 10, 7), nasce da esperança. É uma esperança que se fundamenta na vinda de Cristo, e que em última análise coincide com a sua Pessoa e com o seu Ministério de Salvação onde Ele é o Reino de Deus, é a novidade do mundo!

“Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e comtemplássemos o espetáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo” (São Josemaria Escrivá, Cristo que passa, 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

A dificuldade é que agora, como nos tempos de Jesus, os trabalhadores são poucos em proporção com a tarefa. A solução é dada pelo próprio Senhor: Orar, rogar a Deus, Dono da messe, para que envie trabalhadores para a colheita. Será difícil que um cristão, que se ponha a rezar de verdade, não se sinta urgido a participar pessoalmente neste trabalho apostólico!

Na verdade, recorda-nos São Paulo VI: “A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos, de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim pois, que a consciência de cada crente se pergunte: Tenho cumprido o meu dever missionário? A oração pelas Missões é o primeiro modo de pôr em prática este dever.”

O Papa Emérito Bento XVI disse que “a messe existe, mas Deus quer servir-se dos homens, a fim de que ela seja levada ao celeiro. Deus tem necessidade de homens. Precisa de pessoas que digam: Sim, estou disposto a tornar-me o teu trabalhador na messe, estou disposto a ajudar a fim de que esta messe que está a amadurecer nos corações dos homens possa verdadeiramente entrar nos celeiros da eternidade e tornar perene comunhão divina de alegria e de amor”. Continua Bento XVI: “Rogai, portanto, ao Senhor da Messe!” Isto quer dizer também: não podemos simplesmente “produzir” vocações, elas devem vir de Deus. Não podemos, como talvez em outras profissões, por meio de uma propaganda bem orientada, mediante, por assim dizer, estratégias adequadas, simplesmente reclutar pessoas. O chamado, partindo do coração de Deus, deve sempre encontrar o caminho até o coração do homem”. São João Paulo II convidou: “Meus caros jovens, que vós sois chamados, sois chamados por Deus. A minha vida, a minha vida como homem tem, portanto, o seu significado, quando sou chamado por Deus, com um apelo vigoroso, decisivo e definitivo:  Somente Deus pode chamar assim o homem, e nenhum outro! E este apelo de Deus é feito incessantemente em Cristo e por Cristo, a cada um de vós; sede operários da messe da vossa humanidade, operários da vinha do Senhor, para participardes da colheita messiânica da humanidade”. Continua São João Paulo II: “Precisamos de ministros ordenados que sejam garantia permanente da presença sacramental de Cristo Redentor, nos diversos tempos e lugares e, com a pregação da Palavra e a celebração da Eucaristia e dos outros Sacramentos, guiem as Comunidades cristãs pelos caminhos da vida eterna. Precisamos de homens e mulheres que, com seu testemunho, conservem viva nos batizados a consciência dos valores fundamentais do Evangelho e façam emergir na consciência do Povo de Deus a exigência de responder com a santidade de vida ao amor de Deus derramado em seus corações pelo Espírito Santo”.

Nesse texto do Evangelho vê-se como é essencial a oração na vida da Igreja; que Jesus chama os seus Doze Apóstolos depois de lhes ter recomendado que rezassem para que o Senhor enviasse operários para a Sua messe (Mt 9, 38). Todos nós somos destinatários do desejo de Jesus, de multiplicar os trabalhadores na Messe do Senhor. Este desejo, que deve tornar-se oração, faz-nos pensar nos jovens, nos seminaristas, no Seminário; faz-nos considerar que a Igreja é, em sentido lato, um grande “seminário”, a começar pela família, até às comunidades paroquiais, às associações e aos movimentos de compromisso apostólico. Todos nós, na variedade dos carismas e dos ministérios, somos chamados a trabalhar na vinha do Senhor. Temos que pedir com frequência a Deus que se verifique no povo cristão um ressurgir de homens e mulheres que descubram o sentido vocacional da sua vida; que não somente queiram ser bons, mas se saibam chamados a ser operários no campo do Senhor e correspondam generosamente a essa chamada: homens e mulheres, velhos e jovens, que vivam entregues a Deus no meio do mundo, muitos em celibato apostólico; cristãos correntes, ocupados nas mesmas tarefas dos seus iguais, que levem Cristo ao âmago da sociedade de que fazem parte.

Toda a atividade apostólica dos cristãos deve ser, pois, precedida e acompanhada por uma intensa vida de oração, visto que não se trata de uma empresa meramente humana, mas divina.

“A messe é muita, mas os operários poucos… Ao escutarmos isto — comenta São Gregório Magno –, não podemos deixar de sentir uma grande tristeza, porque é preciso reconhecer que há pessoas que desejam escutar coisas boas; falta, no entanto, quem se dedique a anuncia-las”  ( Homilias sobre  o Evangelho, 17 ).

As palavras do Senhor: “A messe é grande....” têm plena atualidade nos nossos dias. Há searas inteiras que se perdem porque não há quem as recolha; daí a urgente necessidade de cristãos alegres, eficazes, fiéis à Igreja, conscientes do que têm entre mãos. E isso diz respeito a todos nós, pois o Senhor necessita de todos: de trabalhadores e estudantes que saibam levar Cristo à fábrica e à Universidade, com o seu prestígio de bons profissionais e com o seu apostolado; de professores exemplares que ensinem com sentido cristão, que dediquem generosamente o seu tempo aos alunos e sejam verdadeiros mestres; de homens e mulheres consequentes com a sua fé em cada atividade humana; de pais e mães de família que se preocupem verdadeiramente com a educação religiosa dos seus filhos, que intervenham nas associações de pais nos colégios, nas associações de bairro.

A gravidade da missão que nos incumbe deve levar-nos a fazer um sério exame de consciência: Que fiz hoje para dar a conhecer Deus? A quem falei hoje de Cristo? Preocupo-me realmente com a salvação dos que me rodeiam? Sou consciente de que muitos se aproximariam do Senhor se eu fosse mais audaz? E o Senhor continua a dizer-nos a todos nós, que a messe é muita e os operários poucos. E a messe que não se recolhe a tempo, perde-se.

São João Crisóstomo deixou-nos umas palavras que podem ajudar-nos a examinar se nos desculpamos facilmente diante desse nobre dever a que Deus nos chama: “Não há nada mais frio – diz o santo – que um cristão despreocupado da salvação alheia. Não podes aduzir como pretexto a tua pobreza econômica. Acusar-te-á a velhinha que deu as suas moedas no Templo. O próprio Pedro disse: Não tenho ouro nem prata (At 3, 6). E Paulo era tão pobre que muitas vezes passava fome e não tinha o necessário para viver. Não podes dar como pretexto a tua origem humilde: eles também eram pessoas humildes, de condição modesta. Nem a ignorância te servirá de desculpa: todos eles eram homens sem letras. Sejas escravo ou fugitivo, podes cumprir o que depende de ti. Assim foi Onésimo, e vê qual foi a sua vocação... Não invoques a doença como pretexto, pois Timóteo estava submetido a frequentes indisposições... Cada um pode ser útil ao seu próximo, se quiser fazer o que está ao seu alcance” (Homilia 20 sobre os Atos dos Apóstolos ).

“Ajuda-me a clamar: Jesus, almas!... Almas de apóstolo! São para ti, para a Tua Glória! Verás como acaba por escutar-nos” (São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 804).

Peçamos também à Santíssima Virgem que nos faça entender como dirigida a cada um de nós essa confidência que o Senhor faz aos seus — a messe é muita –, e formulemos um propósito concreto de empreender com urgência e constância um esforço grande para que sejam muitos os operários no campo de Deus. Peçamos-lhe a enorme alegria de ser instrumentos para que outros correspondam à chamada que Jesus lhes faz. Que a Virgem Santa nos ajude a permanecermos no amor de Cristo, para que possamos dar frutos abundantes, para a glória de Deus Pai e para a salvação do mundo.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

       

jun 07

LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

SANTÍSSIMA TRINDADE – GLÓRIA AO PAI E AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei, que professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a unidade onipotente”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ex 34,4b-6.8-9

Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente.

Moisés desceu do monte Sinai com as placas da Lei e encontrou o povo adorando um bezerro feito de ouro. Irritado, Moisés jogou as duas placas no chão e as quebrou. Deus queria exterminar povo que havia libertado do Egito. Moisés, porém, suplicou em favor do povo infiel e aplacou a ira divina (Ex 32–33). Então Deus ordenou a Moisés que preparasse duas novas placas de pedra, para encontrar-se novamente com Ele no monte Sinai. O texto de hoje narra o que aconteceu no encontro de Deus com Moisés. Sem dúvida, é um dos textos mais lindos de todo o Antigo Testamento. Uma verdadeira síntese da caminhada do povo pecador com Deus misericordioso e libertador. Enquanto Moisés sobe com as placas de pedra, Deus desce ao seu encontro e permanece com ele. No entanto, a permanência é rápida. Enquanto Deus passava na sua frente, Moisés prostra-se por terra em sua presença e exclama: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. Apesar dos pecados e infidelidades, o povo de Israel teve uma experiência viva da misericórdia divina em sua história. Por fim, contando com o amor misericordioso do Senhor, Moisés faz três pedidos: caminha conosco, perdoa nossas culpas e acolhe-nos como propriedade tua. Ou seja, como o seu povo escolhido, da nova aliança.

SALMO RESPONSORIAL

A vós louvor, honra e glória eternamente!

2. SEGUNDA LEITURA: 2Cor 13,11-13

A graça de Jesus Cristo, o amor de Deus

e a comunhão do Espírito Santo.

O breve texto desta leitura conclui a 2ª Carta de Paulo aos coríntios. Contém uma exortação (v. 11a), um voto ou promessa (v. 11b), uma despedida (v. 12) e uma bênção final (v. 13). Estes elementos aparecem também em outras cartas paulinas. Na exortação aparecem cinco verbos no imperativo que visam melhorar a vida em comunidade: alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia – isto é, o diálogo – vivei em paz. É o caminho que Paulo traça para construir a paz na comunidade abalada por conflitos e divisões internas. Agindo assim, acontecerá o que o apóstolo deseja: “e o Deus do amor e da paz estará convosco”. A bênção final explica quem é o Deus do amor e da paz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo”. É o Deus Trindade Santíssima, que nos envolve numa comunhão de Amor, como filhos e filhas queridos. Quando vivemos o amor com nossos irmãos, Deus que é amor estará sempre conosco.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

Ao Deus que é, que era e que vem,

pelos séculos. Amém.

3. EVANGELHO: Jo 3,16-18

Deus enviou seu Filho ao mundo,

para que o mundo seja salvo por ele.

O Evangelho de hoje faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3,1-21). Nicodemos era um fariseu rico que admirava Jesus. Veio procurar Jesus de noite, porque discordava de outros fariseus que perseguiam a Jesus. Na conversa, Nicodemos reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus, por causa dos sinais que fazia. Jesus lhe diz que ele precisava nascer de novo, isto é, nascer de Deus. Em outras palavras, assim como Nicodemos acredita em Jesus como um Mestre vindo de Deus, deveria também acreditar em Jesus como Filho de Deus, e assim nascer de novo, desta vez de Deus. No diálogo Jesus diz a Nicodemos que a chave de entrada na vida eterna é crer (três vezes) no Filho do Homem (3,9-15). A mesma insistência na fé aparece no evangelho de hoje. Deus amou tanto o mundo, que deu/entregou seu Filho unigênito para salvar todos que nele crerem. Deus não enviou seu Filho como juiz, para condenar as pessoas, mas para salvar a todos. A condição para ser salvo é crer no nome Filho unigênito. Este nome é Jesus, que significa “Deus salva”. Deus não condena ninguém. Quem não crê em Jesus Cristo, salvador da humanidade, condena-se a si mesmo.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jun 07

COMENTÁRIO AO EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

SANTÍSSIMA TRINDADE – MAIOR MISTÉRIO DA FÉ –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Depois de ter celebrado os mistérios da Salvação, desde o nascimento de Cristo (Natal) até a vinda do Espírito Santo (Pentecostes), a Liturgia propõe-nos o Mistério da Santíssima Trindade: Deus Pai e Filho e Espírito Santo, festa de Deus, centro da nossa fé. Quando pensamos na Trindade, vem à mente sobretudo o aspecto do Mistério: são Três e são Um, um só Deus em três Pessoas. Na realidade, Deus só pode ser um Mistério para nós na sua grandeza, todavia, Ele revelou-se: podemos conhece-Lo no seu Filho, e assim conhecer também o Pai e o Espírito Santo. O Pai e o Filho e o Espírito Santo são um só, porque são amor, e o amor é a força vivificadora absoluta, a unidade criada pelo amor é mais unidade do que uma unidade puramente física. O Pai doa tudo ao Filho; o Filho recebe tudo do Pai, com reconhecimento; e o Espírito Santo é como que o fruto deste amor recíproco do Pai e do Filho.

O texto do Evangelho de hoje, diz-nos: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). No mundo existe o mal, o egoísmo, a maldade, e Deus poderia vir para julgar este mundo, para destruir o mal, para castigar aqueles que agem nas trevas. No entanto, Ele demonstra que ama o mundo, que ama o homem, não obstante o seu pecado, e envia aquilo que tem de mais precioso: o seu Filho Único, E não só O envia, mas doa-O ao mundo. Jesus é o Filho de Deus que nasceu para nós, que viveu para nós, que curou os doentes, perdoou os pecados e acolheu todos. Respondendo ao amor que vem do Pai, o Filho entregou a sua própria vida por nós: na Cruz, o Amor misericordioso de Deus chega ao seu ápice. E é na Cruz que o Filho de Deus nos obtém a participação na vida eterna, que nos é comunicada mediante o dom do Espírito Santo. Assim, no Mistério da Cruz, estão presentes as Três Pessoas divinas: o Pai, que doa o seu Filho único para a salvação do mundo; o Filho, que cumpre até ao fundo o desígnio do Pai; e o Espírito Santo – infundido por Jesus no momento da morte – que vem tornar-nos partícipes da vida divina e a transformar a nossa existência, para que seja animada pelo amor divino.  

O Papa Bento XVl, em 2010, assinalou que “este domingo da Santíssima Trindade, em certa maneira, recapitula a revelação de Deus ocorrida nos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo. A mente e a linguagem humanas são inadequadas para explicar a relação existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e, entretanto, os Padres da Igreja procuraram ilustrar o mistério de Deus, Uno e Trino, vivendo-o na própria existência com profunda fé.

A Trindade divina, de fato, faz morada em nós, no dia do Batismo. ‘Eu te batizo, diz o ministro, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. O nome de Deus, no qual fomos batizados, recorda cada vez que fazemos o sinal da Cruz.

O teólogo Romano Guardini, a propósito do sinal da Cruz observa: “fazemo-lo antes da oração, para que nos disponha espiritualmente em ordem; para concentrar em Deus os pensamentos, o coração e a vontade; depois da oração, para que permaneça em nós aquilo que Deus nos deu. Isso abrange todo o ser, corpo e alma, e tudo fica consagrado em nome do Deus, Uno e Trino.” E é precisamente em nome deste Deus que o Apóstolo Paulo saúda as comunidades de Corinto, saudando-nos também a todos nós: “A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus (Pai  e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Cor 13, 13).

Seguidamente, Bento XVl afirmou que “no sinal da Cruz e no nome do Deus vivente está, por isso, contido o anúncio que gera a fé e inspira à oração. E, como no Evangelho Jesus promete aos Apóstolos que ‘quando vier o Espírito da Verdade, Ele os introduzirá em toda a verdade’, assim acontece na liturgia dominical, quando os sacerdotes dispensam, semana após semana, o pão da Palavra e da Eucaristia”.

Toda a vida da Igreja está impregnada pelo Mistério da Santíssima Trindade. E quando falamos aqui de mistério, não pensemos no incompreensível, mais na realidade mais profunda que atinge o núcleo do nosso ser e do nosso agir.

Mas é Cristo quem nos revela a intimidade do mistério trinitário e o convite para que participemos dele. “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt, 11, 27). Ele revelou-nos também a existência do Espírito Santo junto com o Pai e enviou-o à Igreja para que a santificasse até o fim dos tempos; e revelou-nos a perfeitíssima Unidade de vida entre as Pessoas divinas (Cf. Jo 16, 12-15).

O mistério da Santíssima Trindade é o ponto de partida de toda a verdade revelada e a fonte de que procede a vida sobrenatural e para a qual nos encaminhamos: somos filhos do Pai, irmãos e co-herdeiros do Filho, santificados continuamente pelo Espírito Santo para nos assemelharmos cada vez mais a Cristo.

Por ser o mistério central da vida da Igreja, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia. Fomos batizados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e em seu nome perdoam-se os pecados; ao começarmos e ao terminarmos muitas orações, dirigimo-nos ao Pai, por mediação de Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Muitas vezes ao longo do dia, nós, os cristãos repetimos: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

Meditando sobre a Trindade, dizia S. Josemaria Escrivá: “Deus é o meu Pai! Se meditares nisto, não sairás dessa consoladora consideração.

Jesus é meu Amigo íntimo! (outra descoberta), que me ama com toda a divina loucura do seu coração.

O Espírito Santo é meu Consolador!, que me guia nos passos de todo o meu caminho. Pensa bem, nisso. Tu és de Deus…, e Deus é teu” (Forja, nº2).

Desde que o homem é chamado a participar da própria vida divina pela graça recebida no Batismo, está destinado a participar cada vez mais dessa Vida. É um caminho que é preciso percorrer continuamente.

A Santíssima Trindade habita na nossa alma como num templo. E São Paulo faz-nos saber que o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Cf. Rm 5, 5). E aí, na intimidade da alma, temos de nos acostumar a relacionar-nos com Deus Pai, com Deus Filho e com Deus Espírito Santo. Dizia Santa Catarina de Sena: “Vós, Trindade eterna, sois mar profundo, no qual quanto mais penetro, mais descubro, e quanto mais descubro, mais vos procuro”. Sabemos quem é nosso Deus, mas não basta um conhecimento teórico, não basta saber coisas sobre Ele e falar dele; isso ainda não é fé. É necessário entrar em contato com Ele, escutá-Lo, mergulhar nas Sagradas Escrituras e responder a Ele amando concretamente as pessoas, começando com aquelas com as quais convivemos, porque Deus as ama e somos todos seus filhos e filhas.

Imensa é a alegria por termos a presença da Santíssima Trindade na nossa alma! Esta alegria é destinada a todo cristão, chamado à santidade no meio dos seus afazeres profissionais e que deseja amar a Deus com todo o seu ser; se bem que, como diz Santa Teresa, “há muitas almas que permanecem rodando o castelo (da alma), no lugar onde montam guarda as sentinelas, e nada se lhes dá de penetrar nele. Não sabem o que existe em tão preciosa mansão, nem quem mora dentro dela”. Nessa “preciosa mansão”, na alma que resplandece pela graça, está Deus conosco: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Desde pequenos, aprendemos de nossos pais a fazer o sinal da cruz e chamar a Deus: de Pai, Filho e Espírito Santo.

Assim com toda a naturalidade, estávamos invocando o mistério mais profundo de nossa fé e da vida cristã: Santíssima Trindade que hoje celebramos.

Só Cristo nos revelou claramente essa verdade: Fala constantemente do Pai: Quando Felipe diz: “Mostra-nos o Pai…”, Jesus responde: “Felipe… quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,8).

Jesus promete o Espírito Santo: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena Verdade”.

Quando se despede, no dia da Ascensão, afirma: “Ide… e batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

A contemplação e o louvor à Santíssima Trindade são a substância da nossa vida sobrenatural, e esse é também o nosso fim: porque no Céu, junto de Nossa Senhora – Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo: mais do que Ela, só Deus –, a nossa felicidade e o nosso júbilo serão um louvor eterno ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.

O então Papa Bento XVl ressaltou que: ”assim como aconteceu com a Virgem Maria, a Santíssima Trindade composta por Deus Pai. Deus Filho e Deus Espírito Santo, deve conduzir a vida de todo cristão vivendo este mistério com profunda fé e com a necessária abertura à graça “para avançar no amor para Deus e para o próximo”.

Fazendo o sinal da Cruz, nós declaramos a cada vez, nossa vontade de pertencer à Trindade.

Pense nesta frase de São Paulo: “… nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no pensamento humano, o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (1Cor 2, 9).

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

jun 01

JESUS ENSINA PERDOAR, E NÓS, O QUE FAZEMOS?

A MULHER ADÚLTERA - 3

NA LIÇÃO DE JESUS: PERDOAR É SEMPRE UM ENORME DESAFIO –

*Por L. A. de Moura –

Quem pode curar sem conhecer, em profundidade, a doença? E quem a conhece tão bem senão aquele que, de algum modo, foi por ela afligido? Qualquer especialista, em qualquer área da ciência médica, só adquire plena capacidade de clinicar com sucesso se, antes, passar por grandes e profundas experiências, ainda que somente a nível laboratorial, com os males aos quais dispõe-se a enfrentar. Daí que, para ofertar a cura, deve-se conhecer bem o mal a ser curado.

Em sua Primeira Carta o Apóstolo Pedro chama a nossa atenção para o fato de que, “pelas chagas do Pastor, as ovelhas foram curadas”, referindo-se às chagas de Cristo, por meio das quais obtivemos a cura para todos os males das nossas almas. Assim diz o Apóstolo, na referida Carta: “ele levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; “por suas chagas fostes sarados” (1Pd 2,24).

Na verdade, a tradição petrina nada mais faz do que reproduzir exatamente as palavras do segundo Isaías, quando afirma: “Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas, ele mesmo carregou com as nossas dores; nós o reputamos como um leproso, como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa das nossas iniquidades, foi despedaçado por causa dos nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas pisaduras” (Is 53, 4-5).

Diante disto, é notável a necessidade de estarmos intimamente ligados aos sofrimentos passados por todos os nossos semelhantes, a fim de que consigamos compreender de forma plena e satisfatória, o que realmente aflige o outro.  Fora daí, torna-se muito fácil a defesa do castigo para qualquer errante; a busca pela justiça a qualquer preço para delinquentes de menor expressão; a exclusão daqueles que não rezam pela mesma cartilha que nós. Torna-se extremamente fácil julgar o outro por tudo o que faz ou deixa de fazer.

É preciso ter a exata noção do sofrimento para, diante do que se passa com o alheio, podermos compreendê-lo, atendê-lo, socorrê-lo e guiá-lo diante de tudo o que sofre na carne ou no espírito. Não é exatamente isto o que temos visto ultimamente no mundo, especialmente no Brasil, onde a sede por vingança e por ajuste de contas parece não ter fim. Qualquer evento negativo que ocorre, pessoas e instituições logo, logo, bradam por justiça acima de qualquer coisa e, com frequência assustadora, por reparação financeira que, entre nós, recebe o sugestivo título de “dano moral”.

Apesar de já estarmos no curso da terceira década do século XXI, parece que a Lei de Talião, a cada dia, ganha mais e mais força no embate milenar com a lei de Cristo, que ensina o perdão das ofensas, assim como somos perdoados por nossas ofensas, pelo Pai que está nos Céus. Ou, pelo perdão que vivemos a Ele implorando!

A luta pela sobrevivência é árdua e implacável, e muitas pessoas, sequer, têm o tempo necessário e suficiente para uma reflexão acerca do que é certo e do que é errado e, por vezes, acabam praticando determinados atos que não são ilegais, mas, que, por fim, acabam magoando, ofendendo ou causando desgostos e aborrecimentos às demais pessoas. Pois até por causa destes atos, a justiça é implacavelmente clamada, mesmo que apenas uma justiça de natureza econômico-financeira, com os evidentes objetivos de fustigar o errante e de promover ganho para o bolso da suposta vítima. Em muitas situações, o crime advém da palavra mal colocada, da fala impensada ou, por vezes, maliciosamente interpretada.

O mundo está do jeito que está porque nós, seres humanos, temo-lo feito assim. Somos nós que, de um modo geral, encaminhamos as petições ao poder público e incitamo-lo a buscar nos calhamaços das milhares de leis pátrias um dispositivo apropriado para punir exemplarmente, no nosso linguajar, o faltante clamando pelo castigo que entendemos ser merecido.

No entanto, se somos realmente cristãos e se professamos com fidelidade a fé em Cristo e nos seus ensinamentos, precisamos rever os nossos procedimentos em relação aos nossos semelhantes. É por demais conhecida a passagem do Novo Testamento, na qual a Jesus é apresentada uma mulher acusada de adultério. Seus acusadores, assim como os de hoje, amparam-se na Lei de Moisés para buscar em Jesus a sentença de morte para aquela pecadora.

Jesus conhecia muito bem a lei e sabia que, de fato,  a prescrição legal era o apedrejamento em praça pública. No entanto Ele quer deixar claro para todos que, acima da lei escrita está a lei da misericórdia e do perdão, sem a qual não seremos, jamais, imagem e semelhança do Criador. Mas Jesus, também, não poderia incitar o descumprimento da lei que Ele mesmo já havia declarado ter vindo para cumprir. Olha para aqueles acusadores sedentos e, simplesmente, sugere que, aquele que estivesse sem faltas, atirasse a primeira pedra (Jo 8, 3-11).

Como sabemos, foi o suficiente para que, um a um daqueles implacáveis acusadores, fossem embora sem conseguirem impor à mulher a pena prescrita na lei. Jesus, como bom, fiel e honesto Juiz, concede o perdão àquela que, na forma da lei, já deveria estar morta em pleno solo arenoso.

Na visão de Jesus, perdoar é sempre um enorme desafio para o ser humano porque, acima de tudo, importa em abandonar a hipócrita retórica do “necessário cumprimento à lei”, para abraçar a lógica do Reino de Deus, no qual, somente os misericordiosos alcançarão misericórdia e, apenas, receberão o perdão os que, verdadeiramente souberam, em vida, perdoar seus semelhantes.

É isto que muitos e muitos pseudocristãos não conseguem compreender e, tampouco, colocar em prática no dia-a-dia das suas vidas. Lutam desesperadamente por uma reparação financeira ou pelo lançamento do infrator nas profundezas sujas da masmorra, sob o argumento de que, assim, o delinquente, não molestará outras vítimas. Nada tem mais poder de trazer o arrependimento do que o perdão expresso para o errante. Pessoas que, diante de um júri popular, em outros países é claro, perdoaram seus algozes, conseguiram o que nenhuma lei é capaz de conseguir: o profundo arrependimento do infrator, levando-o, em muitos casos, às lágrimas sinceras e restauradoras, bem como a um novo modo de vida.

Infelizmente, em nosso meio, ganha força a cada dia a retórica de que é preciso punir severamente para, “de forma didática”, coibir novos malfeitos.

É claro e evidente que, quando sofremos alguma agressão, seja por atos ou por palavras, no momento do sofrimento manifestamos o desejo de ver a punição mais dura possível para o infrator. No entanto, quem está de fora, se for verdadeiramente cristão ou cristã, deve trazer para nós, nas referidas oportunidades, o conforto, o consolo e a Palavra de Jesus para que, serenados os ânimos, retornemos à razão e saibamos decidir o que fazer buscando, em Cristo, e não na lei dos homens, a orientação apta ao momento.

Esta deve ser a posição do verdadeiro cristão, da verdadeira cristã. Não, o que temos visto por aí: pessoas incitando a vingança legal ou a justiça pelas próprias mãos, a imposição do severo e mais contundente castigo, como se isso fosse capaz de restaurar o status quo ante. Se queremos um mundo melhor, temos de ser melhores. Se queremos um mundo mais justo, temos de ser mais justos. Se queremos o perdão para os nossos atos e palavras que, muitas vezes, consideramos sem potencial maligno ou maléfico, temos de saber, também, perdoar os nossos ofensores.

Muitos dirão: falar é fácil. Mas, para Jesus, falar também foi fácil. Tão fácil, que surtiu grande efeito. Precisamos rever os nossos procedimentos, se realmente queremos um mundo melhor porque, se ele está do jeito que está, vale repetir, é porque nós colaboramos para que seja assim. Tudo o que é plantado, é colhido no devido tempo. Não se sinta ofendido ou magoado com este texto. Trata-se, apenas, de um convite à reflexão. Se considerá-lo errado ou contrário ao seu entendimento, já antecipo o pedido de perdão. Apenas reflita, tire suas próprias conclusões e, se for o caso, reveja seus conceitos e procedimentos. Não se esqueça de que, assim como esperamos muito do mundo, o mundo, também, espera muito de nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

mai 31

COMENTÁRIO SOBRE O EVANGELHO – MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

SOLENIDADE DE PENTECOSTES – MISSÃO DO ESPÍRITO SANTO –

*Mons. José Maria Pereira –

A Solenidade de Pentecostes, que celebramos no dia de hoje, encerra o tempo litúrgico da Páscoa. Com efeito, o Mistério Pascal – a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e a sua Ascensão ao Céu – encontra o seu cumprimento na poderosa efusão do Espírito Santo sobre os Apóstolos congregados com Maria, Mãe do Senhor, e com os demais discípulos. Foi o “batismo” da Igreja, batismo no Espírito Santo (At 1,5). Como narram ao Atos dos Apóstolos, na manhã da festividade do Pentecostes, um fragor como que de um vento investiu o Cenáculo e sobre cada um dos discípulos desceram como que línguas de fogo (At 2, 2-3). São Gregório Magno comenta: “Hoje, o Espírito Santo desceu com um som repentino sobre os discípulos e transformou as mentes de seres carnais no interior do seu amor, e enquanto apareceram externamente línguas de fogo, no interior os corações tornaram-se flamejantes porque, acolhendo Deus na visão do fogo, arderam suavemente por amor”. A voz de Deus diviniza a linguagem humana dos Apóstolos, que se tornam capazes de proclamar de modo “polifônico” o único Verbo divino. O sopro do Espírito Santo enche o Universo, gera a fé, leva à verdade e predispõe a unidade entre os povos. “Ouvindo aquele ruído, reuniram-se muitas pessoas e admiravam-se que cada um as pudesse ouvir falar na sua própria língua”, sobre as “maravilhas de Deus” (At 2, 6. 11).

 Pentecostes era uma das grandes festas judaicas; muitos israelitas iam nesses dias em peregrinação a Jerusalém, para adorar a Deus no Templo. A origem da festa remontava a uma antiquíssima celebração em que se davam graças a Deus pela safra do ano, em vésperas de ser colhida. Depois acrescentou-se a essa comemoração, que se celebrava cinquenta dias depois da Páscoa, a da promulgação da Lei dada por Deus no monte Sinai. Por desígnio divino, a colheita material que os judeus festejavam com tanto júbilo converteu-se, na Nova Aliança, numa festa de imensa alegria: a vinda do Espírito Santo com todos os seus dons e frutos.

Hoje é a plenitude do Mistério Pascal, com o Dom do Espírito Santo à Igreja. É o nascimento da Igreja. O Pentecostes é o cumprimento da promessa de Jesus: “… se Eu for, enviá-lo-ei” (Jo 16,7).

O Evangelho de São João oferece-nos uma palavra que concorda muito bem com o mistério da Igreja criada pelo Espírito. Esta é a palavra que saiu duas vezes da boca de Jesus na noite de Páscoa: “Shalom, a paz esteja convosco!” (Jo 20, 19.21). A expressão “Shalom” não é uma simples saudação; é muito mais: é o dom da paz prometida (Jo 14, 27) e conquistada por Jesus ao preço do seu Sangue, é o fruto da sua vitória na luta contra o espírito do mal. Portanto, trata-se de uma paz “não como o mundo a oferece”, mas como somente Deus a pode conceder.

Naturalmente, é bom ressaltar, de maneira prioritária, o Sacramento da Reconciliação (Sacramento da Confissão), que Cristo instituiu no mesmo momento em que comunicou aos discípulos a sua paz e o seu Espírito. Como está na página evangélica, Jesus soprou sobre os Apóstolos e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20, 21 – 23). Como é importante e, infelizmente, compreendido de forma insuficiente o dom da Reconciliação, que pacifica os corações! A paz de Cristo só se difunde através dos corações renovados dos homens e das mulheres reconciliados, que se tornaram servidores da justiça, prontos a espalhar pelo mundo a paz, unicamente com a força da verdade, sem fazer compromissos com a mentalidade do mundo, porque o mundo não pode doar a paz de Cristo: eis como a Igreja pode ser fermento daquela reconciliação que provém de Deus. Só pode sê-lo se permanecer dócil ao Espírito e der testemunho do Evangelho, se carregar a Cruz como e com Jesus. É precisamente isto que testemunham os Santos e as santas de todos os tempos!

“Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22) Autorizava-os a perdoar os pecados. Portanto, o Espírito Santo manifesta-se aqui como força do perdão dos pecados, da renovação dos nossos corações e da nossa existência; e assim Ele renova a Terra e onde havia divisão cria unidade

A vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes não foi um acontecimento isolado na vida da Igreja. O Paráclito santifica-a continuamente, como também santifica cada alma, através das inúmeras inspirações que se escondem em “todos os atrativos, movimentos, censuras e remorsos interiores, luzes e conhecimentos que Deus produz em nós, prevenindo o nosso coração com as suas bênçãos, pelo seu cuidado e amor paternal, a fim de nos despertar, mover, estimular para o amor celestial, para as boas resoluções, para tudo aquilo que, numa palavra, nos conduz à nossa vida eterna. A sua ação na alma é suave e aprazível; Ele vem salvar, curar, iluminar” (São Francisco de Sales).

No dia de Pentecostes, os Apóstolos foram robustecidos na sua missão de anunciarem a Boa Nova a todos os povos. Todos os cristãos têm, desde então, a missão de anunciar, de cantar as maravilhas que Deus fez no seu Filho e em todos aqueles que creem n’Ele. Somos agora um povo santo para publicar as grandezas d’Aquele que nos tirou das trevas para a sua luz admirável.

Ao compreendermos a grandeza da nossa missão, compreendemos também que ela depende da nossa correspondência às moções do Espírito Santo, e sentimo-nos necessitados de pedir-lhe frequentemente que lave o que está manchado, regue o que está seco, cure o que está doente, acenda o que está morno, retifique o que está torcido. Porque sabemos bem que no nosso interior há manchas, e partes que não dão todo o fruto que deveriam porque estão secas, e partes doentes, e tibieza e também pequenos desvios, que é necessário retificar.

Não se pode conceber vida cristã nem Igreja sem a presença e a ação do Espírito Santo!

Depois que Jesus completou a sua obra, constituído Senhor a partir de sua Ressurreição, envia ao mundo o seu Espírito, o Espírito do Pai. Conforme São João (Cf. Jo 20,19-23), Jesus comunica o seu Espírito, o mesmo Espírito que Ele entregou ao Pai no dia da Ressurreição. Para isso, sopra sobre eles, transmitindo-lhes a vida nova, a força, o Espírito Santo: “Recebi o Espírito Santo…” e o Dom do Perdão e da Reconciliação.

O Espírito Santo nos conduz à vida de oração. A vida cristã requer um diálogo constante com Deus Uno e Trino, e é a essa intimidade que o Espírito Santo nos conduz. Acostumemo-nos a procurar o convívio com o Espírito Santo, que é quem nos há de santificar; a confiar n’Ele, a pedir a sua ajuda, a senti-lo perto de nós. Assim se irá dilatando o nosso pobre coração, teremos mais ânsias de amar a Deus e, por Ele, a todas as criaturas.

A chama do Espírito Santo transformou totalmente os apóstolos. Que essa mesma chama ilumine e aqueça a nossa vida no caminho da Unidade, do Bem e da Verdade!

“O Espírito Santo vem em socorro de nossa fraqueza”, diz S. Paulo (Rom. 8,26). Diz São João da Cruz que o Espírito Santo, com a sua chama está ferindo a alma, gastando e consumindo-lhe as imperfeições dos seus maus hábitos.

Na Carta aos Gálatas, São Paulo recorda que “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, domínio próprio” (5, 22). Estes são os dons do Espírito Santo que invocamos também hoje para todos os cristãos, para que, no serviço comum e generoso ao Evangelho, possam ser no mundo sinal do amor de Deus pela humanidade. “ Todos eles perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres e Maria, Mãe de Jesus” (At 1, 14).Confiemos todos à intercessão da Virgem Maria, que hoje contemplamos no Mistério glorioso do Pentecostes. O Espírito Santo, que em Nazaré desceu sobre ela para a tornar a Mãe do Verbo encarnado (Lc 1, 35), desceu hoje sobre a Igreja nascente reunida à sua volta no Cenáculo (At 1, 14).  Invoquemos com confiança Maria Santíssima, Santuário do Espírito Santo, para que obtenha uma renovada efusão do Espírito sobre a Igreja dos nossos dias e por meio dela oremos:  “Vinde, Espírito Santo, cumulai os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Amém!

Por isso, cantemos: Vem, vem, vem, vem Espírito Santo de Amor, vem a nós, traz à Igreja em novo vigor.

À Virgem Maria, templo do Espírito Santo, confiemos a Igreja, a fim de que viva sempre de Jesus Cristo, da sua Palavra e dos seus mandamentos, e sob a ação perene do Espírito Paráclito anuncie a todos que “Jesus é o Senhor!” (1 Cor 12, 3).

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

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