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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: ESPAÇO TEOLÓGICO

set 14

EDITORIAL DA SEMANA: JESUS E SUA GENTE POBRE E HUMILDE

JESUS E SUA GENTE

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: NO CAMINHO DE CRISTO E DO EVANGELHO –

*Por L. A. de Moura –

Hoje eu vou abordar um tema sobre o qual, talvez, você possa se surpreender ou, quem sabe, achá-lo, simplesmente, fora da moda. Respeito qualquer que seja a sua postura. Mas, acredito ser preciso, como sempre o foi, falar sobre a Teologia e, mais especificamente, sobre a Teologia da Libertação. Você poderia até mesmo objetar que, nos tempos atuais, das redes sociais, da globalização, do imediatismo dos fatos e das notícias em ritmo full time, nunca se passou por período de tamanha liberdade e, consequentemente, libertação.

Bem, não sei se você está compreendendo sobre o que eu quero falar hoje. Mas, tudo bem, vou procurar informá-lo sobre tudo. Não vamos, aqui, neste espaço limitado, ficar discutindo a estupenda evolução tecnológica pela qual tem passado toda a humanidade. Não é esta a meta. O que pretendo trazer para você é uma ínfima parte daquilo que convencionou-se denominar como “Teologia da Libertação” a partir de Jesus Cristo e do seu Evangelho. É disto que se trata.

Para iniciar a conversa, e sempre evitando me alongar em demasia, devo destacar nomes de teólogos como o do peruano Gustavo Gutierrez, do suíço Huns Küng e do brasileiro Leonardo Boff, que estão entre os pioneiros de uma visão teológica que, entre os fins da década de 1960 até meados da de 1980, do século passado, abalaram grandes estruturas da Igreja de Roma, resultando em severas punições para, inclusive, o brasileiro.

Os mais antigos devem se recordar de tais episódios. Os mais jovens, por óbvio, não vivenciaram aqueles tempos bastante difíceis. Por esta razão, é recomendável que pesquisem acerca do tema e da história, caso tenham algum interesse.

Deixando conceituações e formulações teológico-filosóficas de lado, vamos direto ao assunto: a Teologia da Libertação, além de significar um grito de permanente alerta à Igreja Cristã trata, também, e em síntese, de aplicar no chão da terra os ensinamentos e os exemplos de Jesus, por muitos denominados como “o Jesus histórico”, ou seja, aquele Jesus sobre o qual o cristianismo se encarregou de acumular dados e fatos que envolveram a sua rápida passagem por este mundo.

É importante destacar que Jesus pode ser visto, e assim o é por muitos cristãos e muitas cristãs, apenas como o da fé, ou seja, aquele homem absolutamente santo, Filho do Altíssimo, alto, bonito, com vestes limpas e bem alinhadas, Mestre judeu das Sagradas Escrituras, que ensinava a verdade, elencava os pecados a que estão sujeitos todos os mortais, condenava os ricos e mostrava o inevitável caminho do Hades, o fogo da geena, para os pecadores não redimidos. Este mesmo Jesus não hesitava em passar noites inteiras em profundos diálogos com o Pai; praticava o jejum, curava cegos, surdos, mudos e enfermos, ressuscitava mortos, perdoava os pecados, mas, alertava os pecadores para não mais pecarem e, por fim, vítima exemplarmente obediente, caminhou sob chibatas até o calvário, onde encontrou a morte na cruz. Um Jesus, enfim, fatídico!

Um outro Jesus, tão amado quanto o primeiro, é aquele que alguns julgam ter passado a juventude entre os Essênios, estudando as Sagradas Escrituras e as estruturas do judaísmo. Um Jesus absolutamente pobre. Mal vestido, mal calçado, morando mal e comendo mal, junto com todos os pobres do seu tempo. Este Jesus, sob este prisma, é complacente com a gente pobre e sofrida que o cerca. Senta-se em meio a todos eles, sem se preocupar se são, ou não, pecadores, cobradores de impostos ou prostitutas. A Ele não interessa saber se aquela gente simples e humilde tem, ou não, uma religião: apenas ensina o respeito à casa do Pai e o caminho do Reino. Para Ele não importa se o homem deve comer carne ou peixe, se deve beber água ou vinho. Ele procura estar sempre com o seu povo, com a sua gente. E, vivendo e convivendo desta forma, Ele vê diante dos olhos a pobreza absoluta, a falta de tudo, a doença, a injustiça, a privação dos órgãos essenciais aos sentidos. Ele sente na própria pele, como se fosse com ele mesmo, a exploração do povo, a perseguição à qual estavam sujeitos, a exclusão social dos leprosos. Ele sofre. Ele chora com os amigos e familiares do amigo Lázaro, que jaz no túmulo.

Este mesmo Jesus, não suportando assistir calado a tantos horrores pelos quais seus amigos, irmãos, vizinhos e conterrâneos estavam sendo massacrados, sobe ao monte e clama as bem-aventuranças; não se conformando com o egoísmo, Ele leva a multidão a repartir pães e peixes; com piedade de Pedro e de seus amigos, Ele possibilita a pesca milagrosa. Para mostrar o poder e a necessidade da transformação dos seres humanos, Ele faz a água se transformar em vinho de primeira qualidade, demonstrando que o último estágio pode ser muito superior ao primeiro. Querendo revelar que nós podemos fazer muito mais do que aparentamos ou acreditamos, Ele afirma, e comprova por meio de Pedro que, quem tiver fé, caminhará sobre as águas; se observar seus ensinamentos, fará as mesmas obras que Ele, e outras ainda maiores, sem qualquer forma ou resquício de exclusivismo. Ele ensina que o Pai ama todos os seus filhos e filhas e que, ao final, quer mesmo é justiça para todos.

Enfim, um Jesus popular, um homem nascido, crescido, vivido e experimentado em meio ao seu sofrido povo, dos quais nunca se afastou.

Jesus era um leigo que, conhecedor da vontade de Deus, declara-se como sendo o próprio caminho, a verdade e a vida. Não satisfeito, chama a si todos os cansados, aflitos e oprimidos, prometendo que a todos aliviará dos seus fardos e pesos. Um pregador que não tinha igreja, frequentava a Sinagoga (casa de oração) e, com a mesma desenvoltura, foi ao Templo de Jerusalém.

Admirado com a fé de Pedro, Ele afirma ser sobre aquela fé, forte como uma rocha, que pretende ver construída a sua Igreja – uma verdadeira assembleia de filhos e filhas de Deus, vivendo e convivendo em absoluta comunhão. Neste sentido Ele, de antemão, assegura que, onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ali, também, estará Ele. Na proximidade da sua condenação, Ele declara: “não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18).

É este Jesus que, preferindo não desafiar Roma, manda pagar o imposto devido a César, não, sem antes, deixar claro que o que pertence a Deus, deve ser dado a Deus. Um Jesus que olha para o sábado, dia sagrado para os religiosos da época, e afirma que este dia foi feito para o homem, e não, o contrário. Um Jesus, enfim, intrigante!

Pois foi justamente olhando para este Jesus, que os chamados teólogos da libertação, ao confrontarem épocas e contextos, além de fazerem certas comparações entre o judaísmo do tempo de Jesus e certos setores do cristianismo contemporâneo, compreenderam ter chegado o tempo de, realmente, conclamar toda a Igreja Cristã a se comprometer de fato e com coragem com a causa do pobre, do oprimido e do injustiçado e a promover a verdadeira imitação de Cristo, postando-se ao lado da gente pobre, sofrida, perseguida, injustiçada, humilhada, explorada, combatida e excluída. Gente da mesma estirpe daquela que convivia com o Mestre de Nazaré. Mesmo estando muitos séculos distantes de Jesus, os teólogos da libertação viveram seus momentos de calvário. Alguns foram crucificados pelas canetas que assinaram suas sentenças de condenação. Outros, de fato, perderam suas vidas ao defenderem sua gente e seus povos, sem se importarem se eram índios, brancos, negros, mulheres, homossexuais,  prostitutas, camponeses ou operários da urbe. Era imperioso viver, na prática do chão da terra e da fábrica, o Evangelho libertador trazido por Jesus sem, jamais, esquecer ou desconsiderar a plenitude da vida eterna, da vida em abundância prometida pelo Jesus da fé.

Muitos homens e mulheres nascidos e criados no seio da Igreja, obcecados com a ideia de entrarem no Reino de Deus por seus próprios méritos, criticando e condenando irmãos e irmãs que adotam outras posturas, condenaram, e ainda condenam, a Teologia da Libertação enxergando nela um simulacro do marxismo ou do comunismo trotskiano. Com esta visão, e pintados na cor branca por fora, muitos cristãos católicos, inclusive, apontaram o dedo contra a Teologia da Libertação e dos seus defensores, tachando-os, simplesmente, de revolucionários comunistas, desobedientes da Igreja, maus exemplos e coisas do gênero, preferindo o silêncio complacente à fala indignada em defesa da gente pobre, sofrida, injustiçada e humilhada de todas as formas.

Talvez, estes cristãos e cristãs, de tão obcecados, tenham esquecido de algumas das palavras mais importantes ditas por Jesus como, por exemplo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais e iniquidade” (Mt 7, 22-23). Talvez, ainda, estes cristãos e cristãs terão mesmo necessidade de ouvir esta sentença a ser proferida pela boca do próprio Jesus, para poderem compreender que a vontade do Pai e do Filho é que todos os homens sejam tratados com justiça, nem mais e nem menos. Deus não combate a riqueza. Os Patriarcas, no Velho Testamento, eram todos muito ricos e abençoados por Deus, porque eram fiéis e, também, comprometidos com a justiça. No entanto, com a chegada da monarquia, com seus luxos, com suas trapaças, mentiras, idolatrias, corrupções, luxúrias, explorações, humilhações, perseguições, políticas belicistas e mortes, Deus envia profetas altamente indignados como Isaías e Amós, por exemplo, para gritarem contra esta afronta feita ao povo e ao Criador e para clamarem por justiça ao órfão e à viúva.

Quem olha para o mundo de hoje, para o Brasil, inclusive, e acha que está tudo bem, tudo do jeito que só poderia estar; que o pobre nasceu assim, e que assim viverá até morrer; quem acredita que o capitalismo, selvagem como é, é o sistema abençoado e abençoante dos ricos, e que os pobres devem lutar para superar suas dificuldades do dia-a-dia, comendo quando for possível, sem que nada seja feito, não pode se autointitular seguidor de Jesus. Simplesmente porque Jesus não era, não vivia e não agia assim. Quem poderá imitar alguém que não era do jeito que está sendo imitado? Jesus bradou em alto e bom som contra a opressão do seu tempo; Jesus teve coragem para enfrentar, não o império romano propriamente, mas, e, sobretudo, o judaísmo farisaico daquele tempo. Um sistema religioso estruturado, hierarquizado, convicto de que era o senhor absoluto e o guardião da verdade e das bençãos de Deus. Um sistema conivente com o Império, em troca de bem-estar, de conforto, de manutenção dos seus feudos religiosos e, quem sabe, de isenção de impostos.

Quem olha para o Brasil de hoje, e percebe que os povos indígenas estão sendo massacrados, largados à própria sorte; percebe que o campo está inflamado pela política armamentista; que os cárceres estão apinhados de seres humanos que, a cada dia, ganham formas mais e mais monstruosas; que vê direitos trabalhistas, como o simples pagamento do salário, serem aviltados; quem a tudo isto vê, e acredita que está tudo normal, carrega dentro si algum espírito absolutamente desumano, animalesco mesmo. Quem vê o que está sendo feito com as nossas matas e florestas, com os nossos rios e nascentes, com grandes companhias faturando bilhões em cima do fornecimento de uma água de qualidade altamente duvidosa; um saneamento básico que, de básico, não tem nada. Quem a tudo isto vê e mantém-se inerte e em silêncio, não pode acreditar que entrará no Reino de Deus, preparado apenas e tão somente para os pobres e para os justos.

Quem assiste um ministro preocupado, descabelado com a disparada do dólar, com a situação da bolsa de valores e da economia, sem qualquer preocupação com os trabalhadores e com as trabalhadoras do país que, de fato e de direito, são os verdadeiros produtores de toda a riqueza; quem vê este sujeito agindo desta forma, sem demonstrar qualquer preocupação ou mesmo sem propor qualquer política voltada para o emprego, para uma correção justa dos salários, para uma efetiva justiça social, para a saúde ou para a educação das massas, não pode acreditar, sinceramente, ser esta a vontade de Jesus. Neste cenário, deveriam sentir-se envergonhados de se autoproclamarem cristãos, seguidores de Jesus. Seguidores de um Jesus que, simplesmente, desconhecem totalmente, apenas, ouviram falar.

Cinco anos após a publicação, pelo Papa Francisco, da Carta Encíclica Laudato Sí' e trinta dias após o falecimento de Dom Pedro Casaldáliga, a Teologia da Libertação, assim como seus árduos defensores, não pode perder a sua pujança. Pelo contrário, precisamos alimentá-la cada vez mais, como o cozinheiro alimenta o fogão com a lenha seca, a fim de que o fogo do Espírito permaneça sempre aceso em nossos corações. Não podemos assistir calados, omissos e coniventes a tudo o que se passa ao nosso redor, simplesmente, indo à igreja ou ao templo nos dias determinados, depositando um dinheirinho da sacolinha do padre ou do pastor, sob pena de, naquele dia, ouvirmos um sonoro: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim todos vós que praticais a iniquidade.

Esta é apenas uma pequena parte acerca da Teologia da Libertação, suas preocupações, seus olhares e seus objetivos. Acredito que você, se ainda não refletiu profundamente, deverá fazê-lo a partir de agora. Se ainda não compreendeu que o Papa Francisco está aí para abraçar o Evangelho e o modo de viver ensinado, e de conviver adotado, por Jesus, procure se enquadrar enquanto é tempo, pois, a vida é fluida e, quando menos esperamos, eis que é chegada a hora da última travessia. Você poderá até fazer a travessia em um vagão forrado com ouro, porém, nunca se sabe de que forma chegará do outro lado, até porque o seu vagão fica aqui, encaixado numa estreita vaga de concreto. Pense sobre tudo isto e avalie se está imitando o Jesus verdadeiro ou aquele que pintaram para você ou que você mesmo(a) decidiu pintar para si. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

set 13

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018 XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – A “TERAPIA DO PERDÃO” –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Hoje a Palavra de Deus nos propõe o grande tema do perdão. Diz o Senhor no livro do Eclesiástico: “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Senão tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (Eclo 28, 1-4.)

Quem não perdoa o irmão, não poderá exigir o perdão de Deus. O pensamento da morte nos faz pensar diferente: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte e persevera nos mandamentos” (Eclo 28, 6-7).

A felicidade do homem não está em cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas sim em cultivar sentimentos de perdão e misericórdia.

No Evangelho (Mt 18, 21-35) Jesus revela um caminho de Reconciliação.

Pedro consulta Jesus sobre os limites do perdão: “Quantas vezes devemos perdoar”? Jesus responde: “70 × 7”, isto é, SEMPRE e todos, um perdão sem limites, inclusive aos inimigos que os judeus não incluíam.

O perdão não deve ficar na quantidade, mas na qualidade, de coração. Jesus conta a parábola de um empregado que devia uma fortuna imensa e, por compaixão, foi perdoado. Em seguida, ele, sem compaixão, se recusa a perdoar um companheiro que lhe devia uma quantia irrisória: “Paga-me o que me deves”. O Rei indignado o castiga severamente…

E Jesus conclui dizendo: “Assim agirá meu Pai com quem não perdoar seu irmão de todo o coração…”

A parábola é um exame de consciência para nós; convida-nos a analisar as nossas atitudes para com os irmãos que erram.

Jesus nos ensina que o mal, os ressentimentos, o rancor, o desejo de vingança, devem ser vencidos por uma caridade ilimitada que se há de manifestar no perdão incansável das ofensas alheias.

Para perdoar de coração, com absoluto esquecimento da injúria recebida, é necessária por vezes uma grande fé, alimentada pela caridade.

Perdoar, portanto, porque Deus nos perdoou e para que Deus nos perdoe! Mas esta não é a única motivação. O próprio Jesus deu outra motivação mais íntima e desinteressada: a misericórdia, um sentimento feito de compreensão, de identificação com o irmão, de solidariedade e de humildade.

São Paulo, seguindo o Mestre, exortava os Cristãos de Tessalônica: “Vede que ninguém pague a outro mal por mal. Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com todos” (1Ts 5,15). Ainda São Paulo, aplicou esta mensagem evangélica do perdão às situações concretas de sua vida, especialmente da vida doméstica: “Revesti-vos – escrevia – de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, sempre que tiverdes motivo de queixa contra alguém. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também” (Col. 3,12ss). É preciso insistir muito sobre a importância do perdão na vida de uma família. É indispensável expelir dos próprios pulmões o ar oxidado para manter o organismo sadio, assim como inspirar novo ar oxigenado. Perdoar-se é indispensável para manter vivo e sadio um matrimônio, tão importante como amar-se. O perdão, quando é sincero, renova, torna-se ele mesmo fator de crescimento do próprio amor. O fez notar o próprio Jesus na casa de Simão: Quem amará mais? “Aquele a quem foi perdoado mais”. Julgaste bem! (Lc 7,42ss). E concluiu com uma frase que vale um tratado de psicologia: Aquele a quem se perdoa pouco, ama pouco.

Perdoar é, portanto, de verdade, um gesto cheio de nobreza, digno do homem e indispensável para viver juntos e em paz.

Viveríamos mal o nosso caminho de discípulos de Cristo se, ao menor atrito – no lar, no escritório, no trânsito… –, a nossa caridade se esfriasse e nos sentíssemos ofendidos e desprezados. Às vezes – em matérias mais graves, em que a desculpa se torna mais difícil --, faremos nossa a oração de Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Em outros casos, bastará um sorriso, retribuir o cumprimento, ter um pormenor amável para restabelecer a amizade ou a paz perdida. As ninharias diárias não podem ser motivo para perdemos a alegria, que deve ser profunda e habitual na nossa vida.

O Senhor, depois de responder a Pedro sobre a capacidade ilimitada de perdão que devemos ter, expôs a parábola dos dois devedores para nos mostrar o fundamento desta manifestação da caridade. Devemos perdoar sempre e tudo porque é muito – sem medida – o que Deus nos perdoou e nos perdoa. E diante dessa prova da misericórdia do Senhor, tudo o que devemos perdoar aos outros é simplesmente insignificante.

Ensina São Josemaria Escrivá: “Esforça- te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti”(Caminho, nº 452).

O perdão é a expressão maior do amor. É aceitar e querer bem ao próximo assim como ele é; é agir como Deus; é agir a exemplo de Cristo. Perdoando, é para o Senhor que vivemos e para o Senhor que morremos (cf. Rm 14, 7-9).

Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária.

Deus nos perdoa, na mesma medida com que nós perdoamos… O amor é o distintivo do cristão.

A falta de perdão leva a muitos outros sofrimentos, doenças, provoca uma vida azeda e estressante. Só o perdão alivia e restitui a alegria… É a chamada “terapia do perdão”. Senhor, ensina-nos a perdoar!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

set 06

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – COMO CORRIGIR O IRMÃO?

*Por Mons. José Maria Pereira –

A Palavra de Deus, neste Domingo, pode ser desenvolvida, como meditação, refletindo sobre dois aspectos importantes da vida cristã: a correção fraterna e a oração em família.

Diz Jesus: “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo” (Mt 18,15). Este primeiro momento demonstra o respeito e o amor para com o próximo. Muitas vezes acontece que se espalha o erro da pessoa aos quatro ventos… Esta atitude não é cristã! É necessário rezar, pedindo as luzes do Espírito Santo para saber quando se deve calar… quando se deve falar… e como falar…

Caso o irmão não queira ouvir, Jesus ensina que se deve pedir a ajuda de outras pessoas, que tenham sensibilidade cristã e sabedoria…

Não se trata de condenar, mas de fazer a correção fraterna para que se restabeleça o amor (cf. Mt. 18,15-20). O grande critério é o amor mútuo (Rm 13,8-10) para que a comunhão se restabeleça.

Se essa tentativa também falhar, levar o assunto à Igreja (Comunidade) para recordar à pessoa que errou as exigências do caminho cristão. Como se percebe, recomenda-se que fique tudo em casa…

O importante é colocar-se de acordo no bem. Deve sobressair o amor fraterno, o ágape, pois, “não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (Rm 13,8). Isto vale também para a correção individual entre irmãos… Santo Agostinho aplicou exatamente à correção fraterna as palavras de São Paulo sobre a caridade: “Ama e faze o que queres. Seja que cales, cala por amor, seja que fales, fala por amor; seja que corrijas, corrige por amor; seja que perdoes, perdoa por amor. Esteja em ti a raiz do amor, porque desta raiz não pode nascer outra coisa a não ser o bem”.

A correção, quando é evangélica, é talvez a manifestação mais genuína do amor fraterno. Ela exclui qualquer desejo de vingança ou ostentação pessoal e é movida unicamente pelo desejo do bem do outro. “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!” Esta primeira palavra se refere ao âmbito privado, à correção como deve acontecer nas relações interpessoais. A regra de Jesus vale, por isso, também na vida familiar, entre amigos, no ambiente onde passamos nossa vida cotidiana. Se teu irmão pecar contra ti [...] pode significar também: se teu marido, se teu filho, se teu cunhado e se teu patrão erram. Dir-se-ia que finalmente nos deparamos com um mandamento do Evangelho fácil e agradável. O que existe de mais natural do que perceber as culpas dos outros? Ao invés, se trata de uma das coisas mais difíceis e isto explica por que seja tão rara nos relacionamentos humanos a verdadeira correção fraterna. Jesus não encoraja a caça aos defeitos alheios, a maledicência ou aquela propensão tão frequente de tornar públicos os defeitos do próximo, embora fingindo estar talvez hipocritamente tristes pelo mal que produzem contra a virtude.

É importante observar o valor da oração em comunidade, em família.

“Se dois estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos Céus. Pois, onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” (Mt. 18,19-20).

A Igreja viveu desde sempre a prática da oração em comum (cf. At. 12,5). De modo particular, é muito agradável ao Senhor a oração que a família faz em comum!

“A oração familiar, ensina São João Paulo II, tem como conteúdo original a própria vida de família: alegrias e dores, esperanças e tristezas, nascimento e festas de anos, aniversário de casamento dos pais, partidas, ausências e regressos, escolhas importantes e decisivas, a morte de pessoas queridas, etc., assinalam a intervenção do amor de Deus na história da família, assim como devem marcar o momento favorável para a ação de graças, para a súplica, para o abandono confiante da família ao Pai comum que está nos Céus. A dignidade e a responsabilidade da família cristã, como Igreja doméstica, só podem ser vividas com a ajuda incessante de Deus, que será concedida, sem falta, a todos os que a implorarem com humildade e confiança na oração.” (Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 59).

A oração em comum comunica uma particular fortaleza a toda a família, pois fomenta o sentido sobrenatural, que permite compreender o que acontece ao nosso redor e no seio do lar, e nos ensina a ver que nada é alheio aos planos de Deus: Ele se mostra sempre como um Pai que nos diz que a família é mais sua do que nossa!

“Onde há caridade e amor, ali está Deus”. Quando nós, cristãos, nos reunimos para orar, Cristo encontra-se entre nós. Ele escuta com prazer essa oração alicerçada na unidade. Assim faziam também os Apóstolos: “Perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At 1,14). Era a nova família de Cristo.

Em família, no mês da Bíblia e sempre, intensificar a leitura orante da Bíblia.

Outra fórmula de oração, que é um belo ato de piedade e de oração familiar, por excelência, é o terço. Ensina São João Paulo II: “A família cristã encontra-se e consolida a sua identidade na oração. Esforçai-vos por dispor todos os dias de um tempo para dedicá-lo juntos a falar com o Senhor e a escutar a sua voz. Que bonito quando numa família se reza, ao anoitecer, nem que seja uma só parte do Rosário! Uma família que reza unida permanece unida, uma família que ora é uma família que se salva”.

A Igreja quis conceder inúmeras graças e indulgências aos que rezam o terço em família. Esforcemo-nos por fomentar esta oração tão grata ao Senhor e à sua Santíssima Mãe, e que é, no dizer de São João XXlll, “uma grande oração pública e universal em face das necessidades ordinárias da Igreja santa, das nações e do mundo inteiro”.  É um bom ponto de apoio para a unidade familiar e a melhor ajuda para enfrentar as necessidades de toda a família.

Comportai-vos de tal maneira que as vossas casas sejam lugares de fé cristã e de virtude, mediante a oração em comum”.

“Estarei no meio deles”, diz Jesus. Tratando-se da correção fraterna através dos meios indicados por Jesus, quando a mesma não for possível, ainda poderá ser possível pela Oração, feita em comum, em nome de Jesus.

Peçamos a Deus para que nos ensine esta difícil forma de amor, que sabe corrigir sem desencorajar e lutar sem ofender.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

ago 30

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – A LOUCURA DA CRUZ E A SALVAÇÃO!

*Por Mons. José Maria Pereira –

No Evangelho de hoje (Mt 16, 21-27), Jesus explica aos seus discípulos que deverá “ir a Jerusalém e sofrer muito por parte dos anciãos e dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar”. Tudo parece inverter-se no coração dos discípulos! Como é possível que “Cristo, o Filho de Deus vivo”, possa sofrer até à morte? O apóstolo Pedro revolta-se, não aceita este caminho, toma a palavra e diz ao Mestre: “Deus Te livre de tal, Senhor, isso não há de acontecer” (v. 22). É evidente a divergência entre o desígnio de amor do Pai, que chega até ao dom do Filho Unigênito na Cruz para salvar a humanidade, e as expectativas, os desejos, os projetos dos discípulos. E este contraste repete-se também hoje: quando a realização da própria vida está orientada unicamente para o sucesso social, para o bem-estar físico e econômico, já não se raciocina segundo Deus, mas segundo os homens (v. 23). Pensar segundo o mundo significa pôr Deus de lado, não aceitar o seu projeto de amor, impedir-lhe quase de realizar o seu querer sábio. Por isso Jesus diz a Pedro uma palavra particularmente dura: “Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo”. O Senhor ensina que “o caminho dos discípulos é seguir o Crucificado (ir após Ele). Nos três Evangelhos explica, contudo, este segui-lo no Sinal da Cruz... Como o caminho do ‘perder-se a si mesmo’, que é necessário para o homem e sem o qual ele não pode encontrar-se a si mesmo” (Jesus de Nazaré, 2007).

Como aos discípulos, assim também a nós Jesus faz o convite: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16,24). O cristão segue o Senhor quando aceita com amor a própria Cruz, que aos olhos do mundo parece uma derrota e uma “perda da vida” (vv. 25-26), sabendo que não a carrega sozinho, mas com Jesus, partilhando o seu mesmo caminho de doação. Escreve São Paulo Vl: “Misteriosamente, o próprio Cristo, para desenraizar do coração do homem o pecado de presunção e manifestar ao Pai uma obediência total e filial, aceita... morrer na Cruz” (Exor. Ap. Gaudete in Domino). Aceitando a morte voluntariamente, Jesus carrega a Cruz de todos os homens e torna-se fonte de salvação para toda a humanidade. São Cirilo de Jerusalém comenta: “A Cruz vitoriosa iluminou quem estava cego pela ignorância, libertou quem estava preso pelo pecado, trouxe a toda a humanidade a redenção” (Catechesis Illuminandorum, Xlll).

Jesus rejeita energicamente as insinuações de Pedro e diz: “Retira -Te, Satanás! Queres fazer-me cair. Pensas de modo humano, não de acordo com Deus”(Mt 16,23).

Levado pelo seu imenso carinho por Jesus, Simão procura afastá-Lo do caminho da Cruz, sem compreender ainda que ela será um grande bem para a humanidade e a suprema demonstração do amor de Deus por nós. Comenta São João Crisóstomo: “Pedro raciocinava humanamente e concluía que tudo aquilo – a Paixão e a Morte – era indigno de Cristo e reprovável.”

Pedro, naquele momento, não chega a entender que, por vontade expressa de Deus, a Redenção se tem de fazer mediante a Cruz e que “não houve meio mais conveniente de salvar a nossa miséria” (Sto. Agostinho).

Pensando apenas com uma lógica humana, é difícil entender que a dor, o sofrimento, aquilo que se apresenta como custoso, possa chegar a ser um bem. Até mesmo porque não fomos feitos para sofrer, pois todos aspiramos à felicidade.

O medo à dor é um impulso profundamente arraigado em nós, e a nossa primeira reação é de repulsa. Por isso, a mortificação, a penitência cristã, tropeça com dificuldades; não é fácil, e, ainda que a pratiquemos assiduamente, não acabamos nunca de acostumar-nos a ela.

A fé, no entanto, permite-nos ver e experimentar que sem sacrifício não há amor, não há alegria verdadeira, a alma não se purifica, não encontramos a Deus. O caminho da santidade passa pela Cruz, e todo o apostolado fundamenta-se nela. Ensinava São João Paulo II: “A Cruz é o livro vivo em que aprendemos definitivamente quem somos e como devemos atuar. Este livro está sempre aberto diante de nós” (Alocução, 01/04/1980). Devemos aproximar-nos dele e lê-lo; nele aprendemos quem é Cristo, o seu amor por nós e o caminho para segui- Lo. Quem procura a Deus sem sacrifício, sem Cruz, não O encontrará. Para ressuscitar com Cristo, temos que acompanha – Lo no seu caminho para a Cruz: aceitando as contrariedades e tribulações com paz e serenidade; sendo generosos na mortificação voluntária, que nos faz entender o sentido transcendente da vida e reafirma o senhorio da alma sobre o corpo. Devemos ter em conta que a Cruz que anuncia Cristo é escândalo para uns e loucura e insensatez para outros (cf. 1 Cor 1,23).

Hoje vemos também muitas pessoas que não sentem as coisas de Deus, mas as dos homens. Têm o olhar posto nas coisas da terra, nos bens materiais, sobre os quais se lançam sem medida, como se fossem os únicos reais e verdadeiros. Disse o Beato Álvaro Del Portilho:  “Este paganismo contemporâneo caracteriza-se pela busca do bem-estar material a qualquer custo, e pelo correspondente esquecimento – melhor seria dizer medo, autentico pavor- de tudo o que possa causar sofrimento. Com esta perspectiva, palavra como Deus, pecado, cruz, mortificação, vida eterna… acabam por ser incompreensíveis para um grande número de pessoas, que desconhecem o seu significado e sentido”.

Temos que lembrar a todos que não ponham o coração nas coisas da terra, que tudo é caduco, que envelhece e dura pouco. “Todos envelhecerão como uma veste” (Hb 1,11). Somente a alma que luta por manter-se em Deus permanecerá numa juventude sempre maior até que chegue o encontro com o Senhor. Todas as outras coisas passam, e depressa.

Jesus recorda-nos hoje: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois vier a perder a própria alma? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” (Mt 16,26). Antes, falou: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la.”

O que pensar então? Será que devemos realmente cair fora da corrente do mundo e renegar – nos como homens para sermos cristãos? Não, porque a renúncia que Jesus exige é, na realidade, a mais alta autorrealização, é a nossa verdadeira recuperação: porque perder a nós mesmos é o modo melhor para nos reencontrar: porque quem perde sua vida vai encontrá-la.

  O que podemos esperar de obter com uma autorrealização no plano humano? Talvez, fazer de nós pessoas cultas, respeitadas, ricas, plenamente autônomas, que chegam com boa saúde até uma idade avançada? Mas que vantagens traz tudo isso no fim? “O que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se depois perde a própria vida?” De que adiantam fama, dinheiro, divertimentos, se a morte engole tudo isso? Santo Agostinho diz: “O que adianta viver bem se não se vive para sempre.”

O cristão não pode passar por alto estas palavras de Jesus Cristo. Deve arriscar-se, jogar a vida presente em troca de conseguir a eterna. “É tão pouco uma vida para oferecê-la a Deus!…” (Caminho, nº 4 20).

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga.”(Mt 16, 24).

Jesus, com efeito, inaugurou e percorreu pessoalmente este caminho e por isso “tomar a cruz” significa agora “ir após ele”, colocar os pés em suas pegadas, segui-Lo. Há uma sucessão límpida e transparente de significado no Evangelho de hoje:  Jesus fala da cruz dos discípulos, depois de ter falado da sua: O filho do homem irá para Jerusalém, e lá vai sofrer, será morto… (…). Mas ao terceiro dia ressuscitará.

A exigência do Senhor inclui renunciar à própria vontade para a identificar com a de Deus, não aconteça que, como comenta São João da Cruz, tenhamos a sorte de muitos ”que queriam que Deus quisesse o que eles querem, e entristecem-se de querer o que Deus quer, e têm repugnância em acomodar a sua vontade à de Deus. Disto vem que muitas vezes, no que não acham a sua vontade e gosto, pensam não ser da vontade de Deus e, pelo contrário, quando se satisfazem, creem que Deus Se satisfaz, medindo também a Deus por si, e não a si mesmo por Deus”.

“O Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta” (Mt 16, 27). O Senhor, com estas palavras, situa cada homem, individualmente, diante do Juízo Final. A salvação tem, pois, um caráter radicalmente pessoal!

O fim do homem não é ganhar os bens temporais deste mundo, que são apenas meios ou instrumentos; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui na terra pela Graça, e plenamente e para sempre na Glória. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (isto é, tudo o que é comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a Cruz. Porque nenhum bem terreno, que é caduco, é comparável à salvação eterna da alma. Como explica São Tomás: “o menor bem da graça é superior a todo o bem do universo” (Suma Teológica, I-II, q. 113, a. 9).

Senhor, ensinai-nos a perder-nos para nos reencontrarmos em vós para a vida eterna!

Queridos irmãos, para cumprir plenamente a obra da salvação, o Redentor continua a associar a Si e à sua missão homens e mulheres dispostos a assumir a Cruz e a segui-lo. Portanto, assim como para Cristo, também para os cristãos levar a cruz não é facultativo, mas é uma missão que se deve abraçar por amor. No mundo atual, onde parecem dominar as forças que dividem e destroem, Cristo não deixa de propor a todos o seu convite claro: quem quer ser meu discípulo, renegue o seu egoísmo e carregue comigo a Cruz. Invoquemos a ajuda da Virgem Santa, a primeira que seguiu Jesus pelo caminho da Cruz até ao fim. Ela nos ajude a seguir com decisão o Senhor, para experimentarmos desde já, mesmo na prova, a glória da Ressurreição.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

   

ago 23

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – QUEM É JESUS DE NAZARÉ?

*Por Mons. José Maria Pereira –

O Evangelho (Mt 16, 13-20) nos apresenta Jesus com os seus discípulos em Cesareia de Filipe. Enquanto caminham, Jesus pergunta aos Apóstolos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” E depois que eles apresentaram as várias opiniões que as pessoas tinham, Jesus pergunta-lhes diretamente: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Pedro respondeu formulando a primeira confissão de fé: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. A fé vai mais longe que os simples dados empíricos ou históricos, e é capaz de apreender o Mistério da Pessoa de Cristo na sua profundidade.

A fé, porém, não é fruto do esforço do homem, da sua razão, mas é um dom de Deus: “És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu”. Tem a sua origem na iniciativa de Deus, que nos desvenda a sua intimidade e nos convida a participar da sua própria vida divina. A fé não se limita a proporcionar alguma informação sobre a identidade de Cristo, mas supõe uma relação pessoal com Ele, a adesão de toda a pessoa, com a sua inteligência, vontade e sentimentos, à manifestação que Deus faz de Si mesmo. Deste modo, a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”, no fundo está impelindo os discípulos a tomarem uma decisão pessoal em relação a Ele. Fé e seguimento de Cristo estão intimamente relacionados.

Disse São João Paulo II, em 1980: “Todos nós conhecemos esse momento em que já não basta falar de Jesus repetindo o que os outros disseram, em que já não basta referir uma opinião, mas é preciso dar testemunho, sentir-se comprometido pelo testemunho dado e depois ir até aos extremos das exigências desse compromisso. Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivadas: “Para você, quem sou Eu?”  Todo o futuro de uma vida “depende da nossa resposta nítida e sincera, sem retórica nem subterfúgios, que se possa dar a essa pergunta”.

Essa pergunta encontra particular ressonância no coração de Pedro, que, movido por uma graça especial, respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Jesus chama-o bem-aventurado (Feliz és tu, Simão…) por essa resposta cheia de verdade, na qual confessou abertamente a divindade d’Aquele em cuja companhia andava há vários meses. Esse foi o momento escolhido por Cristo para comunicar ao seu Apóstolo que sobre ele recairia o Primado de toda a sua Igreja: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la…”.

Pedro confessou sua fé no Cristo, Filho de Deus vivo, graças à escuta de sua palavra e à cotidiana convivência. O Discípulo reconheceu o Messias porque a revelação do Pai encontrou nele abertura e acolhida. Quer dizer, descobre a verdade dos desígnios de Deus quem se deixa iluminar pela luz da fé. Com razão, reconhece o Documento de Aparecida: “A fé em Jesus como o Filho do Pai é a porta de entrada para a Vida.”  Como discípulos de Jesus, confessamos nossa fé com as palavras de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (DAp, 100). A fé é um dom de Deus, é uma adesão pessoal a Ele.

Crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Concentremos toda nossa atenção acerca das duas perguntas de Jesus: “No dizer do povo quem é o Filho do Homem?” Ele, o Vivente, está ainda em condições de interrogar os homens. Não é, por isso, uma ficção do espírito se aquelas perguntas as ouvimos como dirigidas a nós, aqui, agora.

O povo, quem diz que Eu seja? O povo (literalmente: “os homens”) compreende, aqui, aqueles de fora, aqueles que ouviram falar de Jesus ou O viram, mas não aderiram a Ele. Tem talvez necessidade de nós o Senhor para saber o que pensam dele os homens? Não, certamente; aquela pergunta serve antes para nós que cremos. Para alguma finalidade que devemos descobrir em seguida, Jesus nos estimula, portanto, a indagar o que dizem dele os homens, nossos contemporâneos.

Para dar uma resposta convincente de fé, os cristãos precisam conhecer a fundo Jesus Cristo, saber sempre mais sobre sua pessoa e obra, pela leitura e meditação dos Evangelhos e pelos encontros com Ele por meio da ação litúrgica, em particular, dos sacramentos.

“Tu és Pedro…”. Pedro será a rocha, o alicerce firme sobre o qual Cristo construirá a sua Igreja, de tal maneira que nenhum poder poderá derrubá-la. E foi o próprio Senhor que quis que ele se sentisse apoiado e protegido pela veneração, amor e oração de todos os cristãos. Se desejamos estar muito unidos a Cristo, devemos estar sim, em primeiro lugar, a quem faz as suas vezes aqui na terra. Ensinava São Josemaria Escrivá: “Que a consideração diária do duro fardo que pesa sobre o Papa e sobre os bispos, te leve a venerá-los, a estimá-los com a tua oração” (Forja, 136).

O nosso amor pelo Papa não é apenas um afeto humano, baseado na sua santidade, simpatia, etc. Quando vamos ver o Papa, escutar a sua palavra, fazemo-lo para ver e ouvir o Vigário de Cristo, o “doce Cristo na terra”, na expressão de Santa Catarina de Sena, seja ele quem for. O Romano Pontífice é o sucessor de Pedro; unidos a ele, estamos unidos a Cristo.

Na sua resposta à confissão de Pedro, Jesus fala da sua Igreja: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”. Que significa isto? Jesus constrói a Igreja sobre a rocha da fé de Pedro, que confessa a divindade de Cristo. Sim, a Igreja não é uma simples instituição humana, como outra qualquer, mas está intimamente unida a Deus. O próprio Cristo Se refere a ela como a “sua” Igreja. Não se pode separar Cristo da Igreja, tal como não se pode separar a cabeça do corpo (cf. 1Cor 12,12). A Igreja não vive de si mesma, mas do Senhor. Ele está presente no meio dela e dá-lhe vida, alimento e fortaleza.

Jesus continua perguntando-nos: “quem dizeis que eu sou?” Para responder, não basta procurar na memória alguma fórmula que aprendemos no catecismo, ou ouvimos de outros ou lemos nos livros. É preciso procurar no coração, em nossa fé vivida e testemunhada. Assim descobriremos o que Jesus representa, de fato, em nossa vida. Também hoje Jesus não se contenta que nós saibamos o que diz dele a cultura; quer a nossa resposta, de nós que cremos nele e que nele colocamos nossa esperança. A resposta não se deve certamente inventar, há aquela que deu um dia Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Aquela resposta, revivida e aprofundada por todas as gerações cristãs que nos precederam, proclamada pelos Concílios e pelo Magistério da Igreja, chegou até nós, e nós, quando recitamos a oração do Creio, não fazemos outra coisa senão repeti-la: “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus… que por nós, homens, e para nossa salvação se encarnou e se fez homem…” . Nas suas orações e no seu ensinamento a Igreja sempre repete a si mesma esta fé: Jesus não é somente um homem, ou um profeta; é mais do que um profeta: é Deus conosco.

“E vós quem dizeis que eu sou?” Eis uma pergunta que o Senhor nos faz a cada novo dia, tanto pessoalmente quanto como Igreja. Quem é Cristo? É uma pergunta que deveria voltar a cada tomada de decisão, a cada ato nosso.

Que todos na Igreja, pastores e fiéis, nos aproximemos de dia para dia sempre mais do Senhor, para crescermos em santidade de vida e darmos assim um testemunho eficaz de que Jesus Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus, o Salvador de todos os homens e a fonte viva da sua esperança.

Hoje, a nós, seus discípulos, Jesus manda que digamos a todos que Ele é o Cristo: e dizê-lo, sobretudo, ao povo que continua a se perguntar quem é Jesus de Nazaré.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

   

ago 17

EDITORIAL DA SEMANA: SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO

UMA NOVA ESPIRITUALIDADE

REFLETINDO SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO CONTEMPORÂNEO–

*Por L. A. de Moura –

Após algumas reflexões, você declara com surpresa a conclusão de que os seres humanos deste tempo atual conseguiram ficar – nas suas palavras – “estagnados”, relativamente à atividade espiritual. Traz a questão para mim, afirmando que, nos dias que correm, as pessoas estão muito mais preocupadas com o “ter”, do que com o “ser” e que isto, no seu entendimento, explica alguns dos fracassos que a humanidade, como um todo, tem experimentado de forma um tanto assustadora.

Embora eu concorde com o resultado das suas reflexões, você faz questão de conhecer minha opinião pessoal acerca do tema, acreditando que eu, mesmo concordando com as suas colocações, tenho condições de acrescentar algo a mais. Algo que, no seu entender, possa, digamos, lançar mais luzes sobre uma questão tão vital para a própria existência do ser humano. Aliás, você é de opinião de que, acerca do tema, muita coisa ainda precisa ser dita.

Conforme já fiz questão de destacar, concordo com você quando utiliza o termo “estagnação espiritual”, para se referir à humanidade no atual estágio da sua existência. De fato, se compararmos com o que conhecemos acerca dos tempos antigos, os seres humanos deste nosso tempo estão muito aquém daquilo que um dia já pode ser denominado como “espiritualidade”. E nem precisamos ir tão longe na linha do tempo. Se levarmos em consideração, por exemplo, alguns espiritualistas que estiveram entre nós, agorinha mesmo, no século XX, vamos perceber que o fenômeno por você sublinhado é coisa bastante recente. Coisa de, digamos, poucas décadas para cá.

Você, é claro, quer saber justamente as causas desta estagnação. As razões que fizeram com que os seres humanos chegassem a tal ponto. Na ânsia por uma resposta, você antecipa algumas perguntas, pretendendo empurrar-me para as respostas fáceis. Por exemplo, indaga: “os seres humanos perderam a fé nas coisas relacionadas com o espírito?”, ou, “o mundo tornou-se tão atrativo a ponto de abduzir todos os seres pensantes?”, ou, ainda, “não se acredita mais na perenidade da vida e na eternidade do espírito?”. Suas perguntas são, deveras, sagazes. Eu, no entanto, evitarei cair na sua estratégia e, portanto, não oferecerei respostas imediatas mas, apenas, e tão somente, algumas das minhas convicções, deixando que, ao final, você tente de per se, encontrar o que procura.

Uma das grandes janelas do tempo – o pensamento – está fechada para a maioria dos seres humanos. Esta janela esteve, durante séculos, aberta para uma significativa quantidade de homens e mulheres que jamais abriram mão do direito de pensar, de raciocinar, de buscar respostas para tudo o que se passava no seu entorno, especificamente, no que dizia respeito à espiritualidade como forma de vida, apesar de todas as circunstâncias do contexto em que viveram. A comprovação disto, e sem citar nomes específicos, está na fabulosa literatura filosófica, teológica, antropológica, teosófica etc., produzida e compilada durante séculos.

Por outros tantos séculos a mesma literatura continuou sendo objeto de estudos e de pesquisas por aqueles e aquelas que, já apresentando sinais de conformismo com o que fora pensado e concluído até então, já não sentiam mais o mesmo estímulo dos mais antigos e, portanto, evitavam pensar muito, preferindo, ao contrário, dedicar-se à leitura e ao estudo aprofundado sobre tudo o que já tinha sido objeto da atenção de outros.

Obviamente, e você haverá de concordar comigo, vamos encontrar já na fase pura e simples do estudo e da leitura, um pequeno declínio na arte de pensar e de procurar respostas espirituais e espiritualistas. Porém, ainda não se pode afirmar que isto representou o caos. O pior, certamente, e como sempre acontece, ainda estava por vir.

Chegou o tempo em que uma grande massa de seres humanos pendeu para o lado da prática religiosa institucionalizada. Vale dizer: as pessoas queriam estar vinculadas a uma religião sólida e consolidada. A partir deste evento, e por não estar dando aula de história deixo com você a tarefa de promover uma adequação cronológica, tudo passou a ser muito diferente. As perguntas que antes eram feitas pelos grandes espiritualistas a si mesmos, cujas respostas eles próprios encontravam depois de muitas reflexões, orações e oblações passaram a encontrar forte resistência por parte das religiões que, simultaneamente, ofereciam, e ainda oferecem, um cardápio de respostas prontas, quentinhas, saídas do forno da indução.

Bem, acredito que você esteja começando a compreender que as perguntas que tais pensadores faziam a si mesmos, acerca da existência do ser humano, bem como do seu destino final e dos caminhos espirituais a serem percorridos, levavam-nos a profundas reflexões e, consequentemente, a enormes modificações no seu modus vivendi. Donde, então, um modelo de espiritualidade tomou forma e ganhou espaço considerável entre os seres humanos. Passou-se, então, à compreensão da existência de uma vida sobrenatural já a partir desta vida terrena. Ou seja: a forma de vida adotada neste plano terreno está intimamente ligada com o destino final de cada criatura. Assim, os que voltavam seus olhos para a vida espiritual, privilegiando o ser ao invés do ter, construíam e pavimentavam uma larga estrada rumo à eternidade. Uma estrada que valia à pena ser percorrida!

Foi um trabalho árduo, no qual muitos e muitas perderam a própria vida, tornando-se verdadeiros mártires, em nome do amor e da fidelidade a Deus, à Verdade e ao próximo. Era um período de muita espiritualidade! Os seres humanos direcionando os olhos do espírito para muito além desta pobre existência terrena. Um mundo realmente promissor, compreendido como uma espécie de porta para a eternidade da alma.

Entretanto, a forte indução religiosa, marcou os seres humanos com o estigma da “salvação”, pela simples adesão a um líder espiritual ou ao que poderíamos denominar de “messias”. Aceitando de bom grado o seguimento ao líder ou ao messias indicado pela religião, os fiéis estariam, e ainda estão, salvos de qualquer perdição espiritual, dispensando maiores indagações ou projeções de natureza espiritualista. A partir de então, basta aderir a todo um conjunto de doutrinas, liturgias e dogmas para ter assegurada a (re)entrada no paraíso. Em resumo: basta abraçar as normas eclesiais e seguir – sem necessariamente ter de imitar – o Messias ou o Profeta. Algumas religiões afirmam sem cerimônia que, aquele(a) que “aceitar Jesus” no seu coração, já está salvo! Nada mais importa.

Não é mais necessário refletir. Não é mais importante raciocinar. Não importa mais estudar e/ou pesquisar sobre os compêndios deixados pelos grandes espiritualistas, sábios e sábias de todos os tempos. A religião tornou-se uma verdadeira “caverna”, ao estilo platônico, a qual, uma vez acessada, e cumpridas as regras impostas por outros seres humanos que, diga-se de passagem, agem em nome de Deus, praticamente assegura a “salvação” tão desejada, sem maiores esforços intelectuais, com tudo o que o termo possa significar. Todos os sinais são neste sentido e nesta direção. Para quê, então, refletir sobre o fim último do ser humano, se alguém já antecipa tudo, em nome de uma fé que todos devem possuir? Aos que não a possuem, não é recomendada apenas uma reflexão pura e simples, mas, mera petição dirigida a Deus que, gratuitamente, distribui o dom àqueles aos quais Ele julga merecedores.

Veja, os desdobramentos desta linha de raciocínio são muito extensos. Não cabem aqui, neste espaço limitado. Porém, é fácil extrair rapidamente algumas conclusões satisfatórias para o atingimento do seu objetivo. Uma delas é que, ao perderem o interesse pela prática da reflexão, da contemplação do sagrado e pela busca incessante de respostas espiritualistas, aos seres humanos restou apenas, e, tão somente, a ida para o gueto religioso com uma sujeição que, muitas vezes, beira ao fanatismo. E aí, muitos e muitos, com o passar dos tempos, e, notadamente, nas últimas décadas, enxergaram que a prática religiosa institucionalizada nada mais fazia do que colocar todos e todas em uma mesma caixa hermética, com o selo “salvos”. Mas, isto, para o ser humano é deprimente. Ele carece de pensar, de debater, de apresentar suas convicções e suas questões mais perturbadoras. Ele necessita da liberdade para se apresentar diante da divindade, e dela ouvir muitas das repostas buscadas. A criatura quer estar, e necessita estar, em permanente diálogo com o Criador, sem intermediários e, obviamente, sem ser tachada de “louca” ou colocada sob suspeita de esquizofrenia. A criatura quer falar com o seu Deus e quer acreditar que ouve a voz Dele no seu íntimo. Isto é fruto da mais completa reflexão e entrega espiritual. Porém, as religiões cuidam de cercear esta liberdade, fazendo crer que, muito do que se diz é fruto de ilusões ou mesmo de perturbações espirituais e/ou mentais desqualificando, deste modo, qualquer forma de interação do vivente com a espiritualidade, já a partir do diálogo direto com o próprio Deus, como se Ele fosse apenas ouvinte, e não, falante também.

Desta forma, sem interesse e sem o costume do estudo, da pesquisa e dos profundos questionamentos advindos de uma continuada reflexão, mas, também, sem aceitar as imposições normativas da religião, grande parte da humanidade optou pelo afastamento e pela consequente, e assustadora, adesão ao mundo materialista. Um mundo, diga-se de passagem, que não oferece qualquer forma de salvação. Porém, oferece na prática, e na realidade, uma grande possibilidade de realização individual, prometendo, e em muitos casos até mesmo assegurando, a tão sonhada felicidade, tudo o que o ser humano quer para aqui e agora. É claro que o mundo, com seus sistemas perversos, não aceita, sequer, ouvir falar na efemeridade e na transitoriedade da vida. Isto, para o mundo, é sinal de fracasso sistêmico e que, portanto, deve ser abominado!

Bem, diante deste cenário que estou apresentando, e que você pode facilmente comprovar, parece que consigo expor a opinião que me foi pedida. E, antão, você tem diante de si o “algo a mais” de que necessita para aprimorar as conclusões às quais já havia chegado acerca da estagnação espiritual dos seres humanos contemporâneos.

É fácil perceber o enorme mal que a entrega de conclusões prontas causa aos seres humanos, haja vista que, privados da prática da reflexão e mesmo do contato diário com a necessária espiritualidade, estes descambam para o seguimento cego às diversas doutrinas religiosas ou, o que é ainda pior, entregam-se aos prazeres do mundo, e daí só conseguem sair quando, no final da vida, já não encontram mais portas abertas diante de si, tendo como única e indefectível possibilidade, a aceitação do fim de uma existência que poderia ter sido muito mais sadia, rica e capaz de prepará-lo, definitivamente, para uma eternidade que ele desconhece, apenas ouviu falar, porém, sobre ela, sequer, possui qualquer certeza ou convicção.

Talvez você não compreenda, em todos os aspectos, a inteireza de tudo o que acabo de afirmar. No entanto, a partir de tudo o que afirmo, você poderá caminhar para uma reflexão mais aprofundada, mediante a qual poderá encontrar respostas que, no final, servirão para desnudar diante de si o exato perfil do ser humano com o qual temos sido obrigados a conviver.

Sem pretender agir a exemplo das religiões – que já trazem todas as verdades na bandeja da vida, e que não permitem qualquer questionamento – devo reforçar a ideia de que os nossos congêneres contemporâneos não querem mais saber da busca espiritual, ou mesmo da busca por respostas mais fundamentadas, acerca da sua existência e do seu destino final, bem como dos caminhos a serem percorridos para tanto, deixando de lado o interesse, não apenas pelos conceitos puros e simples, da ética e das virtudes necessárias para a transição entre a vida efêmera e a eterna, decidindo optar pela conveniente adesão e pela total vinculação a tudo o que lhes é pregado e constantemente relembrado.

E, fato evidente, tudo o que é pregado e periodicamente relembrado, nada mais faz do que impor limites doutrinários à liberdade intelectual e espiritual. Pensar o quê, sobre o quê e para quê, se tudo já foi pensado, refletido e interpretado como “verdades absolutas”? Assim, nossos pobres semelhantes permanecem algemados no interior da “caverna” e, quando alguns de nós tenta mostrar-lhes que a realidade é bem outra, querem a todo custo a nossa desqualificação intelectual e, se possível, a nossa própria eliminação. Refletir, questionar e procurar por respostas outras, tornou-se coisa essencialmente diabólica. Eis aí tudo o que eu pretendia trazer para você, acerca do tema hoje proposto. Espero ter atendido, de alguma forma, às suas expectativas.

Nunca é demais sublinhar que o resultado destas nossas reflexões não carrega a pretensão de servir como itinerário para a vida de ninguém, senão, e apenas isto, como um ponto de partida para que os leitores possam aprofundar os questionamentos sugeridos ampliando, quem sabe, todo um leque de possibilidades que, ao fim e ao cabo, estão intimamente relacionados com a nossa existência e com o nosso destino final. Portanto, leia, reflita, tire suas próprias conclusões e, se julgar conveniente, compartilhe com outros seres humanos. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 16

LECTIO DIVINA: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

20º DOMINGO DO TEMPO COMUM – SEJA FEITO COMO TU O QUERES –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, preparastes para quem vos ama bens que nossos olhos não podem ver; acendei em nossos corações a chama da caridade para que, amando-vos em tudo e acima de tudo, corramos ao encontro das vossas promessas que superam todo desejo”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 56,1.6-7

Aos estrangeiros eu conduzirei ao meu monte santo.

A primeira leitura deste domingo inicia a terceira parte do Livro de Isaías (cap. 56–66), escrita após o exílio. A situação na Judeia era de crise. As promessas dos profetas de um retorno feliz a Jerusalém, não se cumpriam. Os chefes não cuidavam do bem-estar do povo desfavorecido, mas buscavam o próprio lucro (Is 56,9-12). O culto e os jejuns para afastar as calamidades de nada adiantavam, porque não se praticava o direito e a justiça (Is 58,1-12). A segunda parte de Isaías (caps. 40–55) conclui com a promessa de um feliz retorno para a Judeia (Is 55,12-13). O texto hoje lido inicia com uma ordem de cumprir o direito e a justiça. Não se trata de uma condição, mas de uma preparação para acolher a salvação que Deus livremente promete: pois “minha salvação está prestes a chegar e minha justiça não tardará a manifestar-se”. Trata-se aqui da justiça divina que salva, porque Deus continua fiel à aliança com Israel, apesar de infidelidades do povo, já punidas pelo exílio (Is 40,2). Mas quem faria parte da salvação e da aliança com Javé? Era a pergunta que vinha da parte dos que se sentiam excluídos do povo da aliança: os eunucos e estrangeiros. Os eunucos eram judeus castrados que estiveram a serviço de reis e de cortes, na diáspora. Estrangeiros poderiam ser judeus nascidos fora da Judeia, ou o resto do Reino de Israel, ou até pagãos convertidos ao judaísmo. A condição para ser salvo e pertencer à religião judaica era observar o sábado e as leis da aliança. Todos serão conduzidos ao “monte santo”, onde poderão oferecer holocaustos e vítimas agradáveis a Deus, na “casa de oração para todos os povos”. A convivência de Israel no exílio da Babilônia e na diáspora com outros povos e nações, levou a alargar a salvação prometida ao povo de Israel para horizontes mais amplos. O judeu já não se define pela descendência de Abraão, mas pela fidelidade à Lei da Aliança.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 66

Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor,

Que todas as nações vos glorifiquem!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 11,13-15.29-32

O dom e o chamado de Deus são irrevogáveis.

Paulo nasceu na diáspora, mas estudou a Lei em Jerusalém aos pés do mestre Gamaliel (At 22,3). Julgava-se preparado para anunciar Jesus Cristo aos judeus. Com muita dor no coração chega a dizer que gostaria de ter sido separado por Cristo em favor de seus irmãos, os judeus (Rm 9,2-3; cf. 19º Domingo, 2ª leitura). Diante da rejeição sofrida da parte dos chefes das sinagogas, decidiu pregar aos pagãos (cf. At 18,6). Na leitura de hoje, escrevendo aos cristãos de Roma, promete honrar seu ministério de apóstolo dos pagãos. Paulo espera que, evangelizando os pagãos, possa causar ciúme nos judeus e, assim, trazer alguns deles para Cristo. Os judeus tornaram-se desobedientes por terem rejeitado a Cristo. Mesmo assim, continuam sendo o povo escolhido porque Deus não volta atrás nas suas escolhas. Por outro lado, os pagãos, antes desobedientes, acolheram a Cristo e tornaram-se obedientes, alcançando a misericórdia de Deus. E Paulo conclui, cheio de esperança: Como todos foram desobedientes, tanto judeus como pagãos, Deus vai usar de misericórdia para com todos. Neste breve texto Paulo menciona o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É o triunfo da misericórdia da Santíssima Trindade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Mt 4,23

Jesus pregava o Evangelho, a boa notícia do Reino;

E curava seu povo doente de todos os males, sua gente.

3. EVANGELHO: Mt 15,21-28

Mulher, grande é a tua fé!

O texto do evangelho de Mateus está localizado entre duas multiplicações de pães (14,14-21 e 15,32-39). Por outro lado, antes deste texto, Pedro é repreendido pela falta de fé; mas, socorrido por Jesus quando se afogava, reconhece que Ele é “verdadeiramente, o Filho de Deus” (14,22-33). Depois de nosso texto, Pedro confessa que Jesus “é o Cristo, o Filho do Deus vivo” (16,16). O tema do pão e da fé estão presentes no evangelho de hoje. O texto inicia dizendo que Jesus, ao saber da morte de João Batista (Mt 14,1-13), retirou-se para as proximidades de Tiro e Sidônia, uma região pagã. Agora, sai da Galileia para evitar uma possível prisão e refletir sobre qual tipo de Cristo/Messias o Pai do céu queria que ele fosse.

Quando a mulher grita de longe para Jesus em favor de sua filha “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim”, ela o confessa como Filho de Deus (Senhor) e como Messias, descendente de Davi. Jesus parece estar vivendo um dilema: A missão que o Pai lhe confiou estaria limitada apenas aos descendentes de Abraão? – Por outro lado, os discípulos pedem que Jesus mande a mulher embora. – A princípio, Jesus responde que sua missão se restringe “às ovelhas perdidas da casa de Israel”. A mulher, no entanto, continua gritando com mais insistência ainda. Aproxima-se de Jesus, prostra-se a seus pés e suplica: “Senhor, socorre-me”! Jesus responde que “não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”. Parece uma ironia Jesus falar assim, logo Ele que tinha feito duas multiplicações de pães para alimentar quase dez mil pessoas, com sobras de mais de quinze cestas cheias de pão! No contexto, porém, Mateus ressalta a humildade da mulher pagã, que diz: “mas os cachorrinhos também comem as migalhas da mesa de seus donos”. Jesus se compadece e diz: “Mulher, grande é tua fé! Seja feito como tu o queres”! Na cena do milagre, a mulher cananeia apresenta Jesus como o Messias Salvador para todos, judeus e pagãos. A misericórdia de Deus é sem limites. Atinge judeus e pagãos (2ª leitura), enfim, toda a humanidade (Mt 28,18-20). ____________________________________________________________

* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 16

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ASSUNÇÃO DE MARIA - 2020

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No dia 15 de agosto, a Igreja celebra a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, ou Nossa Senhora da Glória. No Brasil, celebra – se, no domingo, logo após o dia 15.

A Igreja professou, unanimemente, desde os primeiros séculos, a fé na Assunção de Maria Santíssima em corpo e alma à glória celestial, como se deduz da Liturgia, dos documentos, dos escritos dos Padres e dos Doutores.

“Para nós, a Solenidade de hoje é como uma continuação da Páscoa, da Ressurreição e da Ascensão do Senhor. E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da futura ressurreição” (São João Paulo ll, Homilia). Trata-se de uma festa antiga, que tem o seu fundamento último na Sagrada Escritura: de fato, ela apresenta a Virgem Maria estreitamente unida ao seu Filho divino e sempre solidária com Ele. Mãe e Filho mostram-se estreitamente associados na luta contra o inimigo infernal até à plena vitória sobre ele.

Esta vitória expressa-se, em particular, na superação do pecado e da morte, isto é, em vencer aqueles inimigos que São Paulo apresenta sempre em conjunto (cf. Rm 5, 12.15-21; 1Cor 15, 21-26). Por isso, como a Ressurreição gloriosa de Cristo foi o sinal definitivo desta vitória, também a glorificação de Maria no seu corpo virginal constitui a confirmação final da sua plena solidariedade com o Filho tanto na luta quanto na vitória.

Diz o Prefácio da Solenidade que proclama maravilhosamente o mistério celebrado: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho, pois preservastes da corrupção da morte aquela que gerou, de modo inefável, o vosso próprio Filho feito homem, autor de toda a vida”.

Todos ressuscitaremos! Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; em seguida, os que forem de Cristo, na ocasião de sua vinda (1Cor 15,23).

Entre aqueles que são do Cristo há uma pessoa que é “de Cristo” de modo único e inigualável: sua Mãe, aquela que O gerou como homem, que viveu com Ele, partilhando a oração, as alegrias, os trabalhos e, sobretudo, ficando a Seu lado ao pé da cruz. Para essa criatura, Jesus não esperou o fim dos tempos para uni-la a Si, na glória; imediatamente, depois de sua morte, Ela foi ao céu em corpo e alma. É esta uma convicção da Igreja, celebrada com uma festa muito antiga, mas a partir de 1º de novembro de 1950, a festa se tornou mais solene com a proclamação do Dogma da Assunção, pelo papa Pio XII.

O que diz para nós o Mistério da Assunção? Maria é, também ela, de um modo diferente de Cristo, o primeiro fruto: as primícias da Ressureição e da Igreja. Nela Deus traçou como que um esboço daquilo que, ao final, acontecerá para toda a Igreja. Porque toda a Igreja, no fim, tornada como Maria, imaculada e santa, será elevada ao céu! A festa da Assunção, tão querida à tradição popular, constitui para todos os crentes uma ocasião útil para meditar acerca do sentido verdadeiro e sobre o valor da existência humana na perspectiva da eternidade. Indica para nós que é o Céu a nossa habitação definitiva. Dali Maria encoraja-nos com o seu exemplo a aceitar a Vontade de Deus, a não nos deixarmos seduzir pelas chamadas falazes de tudo o que é efêmero e passageiro, a não ceder às tentações do egoísmo e do mal que apagam no coração a alegria da vida.

Em Maria, Deus quis mostrar quão grande e profunda foi a redenção operada por Cristo e a que tamanha glória pode conduzir a criatura que se deixa envolver inteiramente. Maria, por sua vez, nos ensina como chegar à glória que hoje contemplamos e nos abre o caminho. É um caminho traçado, em todo seu percurso, por duas linhas retas: “a fé e a humildade”.

Bem-aventurada és tu que creste! Maria foi uma pessoa de fé, sempre; acreditou na Encarnação e disse: Fiat- seja feita a vossa vontade; acreditou apesar do longo silêncio de Nazaré; acreditou no Calvário. Acreditou também quando tudo parecia estar sendo desmentindo pelos fatos, também quando não compreendia; deixou-se conduzir docilmente por Deus, como uma ovelha que segue o Cordeiro conduzido à imolação, como é definida num hino da liturgia bizantina (Romano, o Mélode).

A carne de Jesus e a de Maria são a mesma carne. Portanto, a carne de Maria devia ter a mesma glória que teve a de seu Filho. São João Damasceno, no ano 749, escreve: “Era necessário que aquela que, no parto, havia conservado ilesa sua virgindade, conservasse também sem corrupção alguma seu corpo, depois da morte. Era preciso que aquela que havia trazido no seio o Criador feito menino, habitasse nos tabernáculos divinos. Era necessário que aquela que tinha visto o Filho sobre a cruz, recebendo no coração aquela espada das dores das quais fora imune ao dá-Lo à luz, O contemplasse sentado à direita do Pai. Era necessário que a Mãe de Deus possuísse aquilo que pertence ao Filho e fosse honrada por todas as criaturas como Mãe de Deus”.

A humildade é a explicação do mistério de Maria e da sua eleição. Ela foi “cheia de graça” porque era vazia de si.

Para que Deus possa realizar “grandes coisas” também em nós, para que possa conduzir-nos àquela glória final, alcançada por Maria, é necessário, portanto, que nós também apresentemos estes dois requisitos: a fé e a humildade.

Quem poderá ter uma fé pura e forte como a da Mãe de Jesus? Quem poderá alcançar a profundidade e a sinceridade da sua humildade? Ninguém! Podemos, porém, aproximar-nos dela, imitar- lhe a docilidade e a abertura a Deus. Podemos, sobretudo, rezar a Ela: Aumentai nossa fé; ensinai-nos a permanecer na humildade “sob a poderosa – e paterna- mão de Deus”. É a oração que, levantando o olhar, lhe dirigimos neste dia, em que a liturgia nos apresenta Maria como Rainha sentada à direita do Rei.

Os textos bíblicos contemplam esta realidade: O trecho da Leitura (Ap 11, 19; 12, 1-10) apresenta uma mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés, e do Filho que ela deu à luz, um varão, que irá reger todas as nações. Nesta imagem a Mulher e o Filho representam Jesus Cristo e a Igreja, mais a mulher confunde-se também com Maria, pois nela realizou-se plenamente a Igreja.

O texto de São Paulo (1Cor 15, 20-27), falando de Cristo, primícias dos ressuscitados, termina dizendo que, um dia, todos os que creem terão parte na Sua glorificação, mas em proporção diversa: “ Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (1Cor 15, 23). Entre os cristãos, o primeiro lugar pertence, sem dúvida, a Nossa Senhora, que foi sempre de Deus, porque jamais conheceu o pecado. É a única criatura em quem o esplendor da imagem de Deus nunca se viu ofuscado; é a Imaculada Conceição, a obra prima e intacta da Santíssima Trindade em quem o Pai, o Filho e o Espírito Santo sentiram as suas complacências, encontrando nela uma resposta total ao Seu amor.

A resposta de Maria ao amor de Deus ressoa no Evangelho (Lc 1, 39-56), tanto nas palavras de Isabel que exaltam a grande fé que levou Maria a aderir, sem vacilação alguma à vontade de Deus, como nas palavras da própria Virgem, que entoa um hino de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizou nela.

Ela é a nossa grande intercessora junto do Altíssimo. Maria nunca deixa de ajudar os que recorrem ao seu amparo: “Nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tivesse recorrido à vossa proteção fosse por Vós desamparado”, rezava São Bernardo. Procuremos confiar mais na sua intercessão, persuadidos de que Maria é a Rainha dos céus e da terra, o refúgio dos pecadores, e peçamos-lhe com simplicidade: Mostrai-nos Jesus!

A Assunção de Maria é uma preciosa antecipação da nossa ressurreição e baseia-se na Ressurreição de Cristo, que transformará o nosso corpo corruptível, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso (Fil 3, 21). Por isso São Paulo recorda-nos (1 Cor 15, 20-26): “Se a morte veio por um homem (pelo pecado de Adão), também por um homem, Cristo, veio a Ressurreição. Por Ele, todos retornarão à vida, mas cada um a seu tempo: como primícias, Cristo; em seguida, quando Ele voltar, todos os que são de Cristo; depois, os últimos, quando Cristo devolver a Deus Pai o seu reino…  Essa vinda de Cristo, de que fala o Apóstolo, disse São João Paulo II, “não devia por acaso cumprir-se, neste único caso (o da Virgem), de modo excepcional, por dizê-lo assim, imediatamente, quer dizer, no momento da conclusão da sua vida terrena? Esse final da vida que para todos os homens é a morte, a Tradição, no caso de Maria, chama-o com mais propriedade dormição. Externamente, deve ter sido como um doce sono: “Saiu deste mundo em estado de vigília” (São Germano de Constantinopla, Homilia sobre a Virgem); na plenitude do amor. “Terminado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (Papa Pio Xll). Ali a esperava o seu Filho Jesus, com o seu corpo glorioso, tal como Ela o tinha contemplado depois da Ressurreição.

A Solenidade de hoje enche-nos de confiança nas nossas súplicas. Pois, diz São Bernardo, “subiu aos céus a nossa Advogada para, como Mãe do Juiz e Mãe de Misericórdia, tratar dos negócios da nossa salvação.” Ela alenta continuamente a nossa esperança. Ensina São Josemaria Escrivá: “Somos ainda peregrinos, mas a nossa Mãe precedeu-nos e indica-nos já o termo do caminho: repete-nos que é possível lá chegarmos, e que lá chegaremos, se formos fiéis. Porque a Santíssima Virgem não é apenas nosso exemplo: é auxílio dos cristãos. E ante a nossa súplica – mostra que és Mãe –, não sabe nem quer negar-se a cuidar dos seus filhos com solicitude maternal.

Fixemos o nosso olhar em Maria, já assunta aos céus! Ela é a certeza e a prova de que os seus filhos estarão um dia com o corpo glorificado junto de Cristo glorioso. A nossa aspiração à vida eterna ganha asas ao meditarmos que a nossa Mãe celeste está lá em cima, que nos vê e nos contempla com o seu olhar cheio de ternura, com tanto mais amor quanto mais necessitados nos vê. “Realiza a função, própria da mãe, de medianeira de clemência na vinda definitiva” (São João Paulo ll). Contemplando Nossa Senhora da Assunção no Céu, compreendemos melhor que a nossa vida de todos os dias, não obstante seja marcada por provações e dificuldades, corre como um rio rumo ao oceano divino, para a plenitude da alegria e da paz. Entendemos que o nosso morrer não é o fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso crepúsculo no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno.

Maria foi elevada ao Céu em corpo e alma: também para o corpo existe um lugar em Deus. Para nós o Céu já não é uma esfera muito distante e desconhecida. No Céu temos uma Mãe. E a Mãe de Deus, a Mãe do Filho de Deus, é a nossa Mãe. Ele mesmo o disse. Ele constituiu-a nossa Mãe, quando disse ao discípulo e a todos nós: “Eis a tua Mãe!” No Céu temos uma Mãe. O Céu está aberto, o Céu tem um coração.

Confiemo-nos Àquela que – como afirma São Paulo Vl – “tendo subido ao Céu, não abandonou a sua missão de intercessão e de salvação”. A Ela, guia dos Apóstolos, sustentáculo dos Mártires, luz dos Santos, dirijamos a nossa oração, suplicando-lhe que nos acompanhe nesta vida terrena, que nos ajude a olhar para o Céu e que nos receba um dia ao lado do seu Filho Jesus.

Atraídos pelo esplendor celeste da Mãe do Redentor, recorramos com confiança àquela que do alto nos guarda e nos protege. Todos temos necessidade da sua ajuda e do seu conforto para enfrentar as provas e os desafios de cada dia; precisamos de a sentir mãe e irmã nas situações concretas da nossa existência. E para poder partilhar um dia também para sempre o seu mesmo destino, imitemo-La no dócil seguimento de Cristo e no generoso serviço aos irmãos. Este é o único modo para saborear, já na nossa peregrinação terrena, a alegria e a paz que vive em plenitude quem alcança a meta imortal do Paraíso.

Contemplemos Maria, a Assunta. Elevada ao Céu, Maria não se afastou de nós, mas permanece ainda mais próxima e a sua luz projeta-se sobre a nossa vida e sobre a História da humanidade inteira. Deixemo-nos encorajar para a fé e para a festa da alegria: Deus vence! E digamos com Isabel: bendita sois Vós entre todas as mulheres. Pedimos-te, juntamente com toda a Igreja: Santa Maria, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte! Amém.

No dia dedicado às Vocações Religiosas, Maria é apresentada como Modelo de pessoa consagrada e um “sinal” de Deus no mundo de hoje.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

           

ago 10

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE FICA O CÉU?

ONDE FICA O CÉU

AFINAL, O QUE É E ONDE FICA O CÉU? –

*Por L. A. de Moura –

Você afirma não enxergar qualquer novidade no fato de, a maioria dos seres humanos que professam alguma fé, pretenderem, após a morte, ir para o céu. Não vê novidade e, conforme sustenta, tem idêntica pretensão. No entanto, depois de algumas reflexões, vieram as dúvidas: o que é o céu? Onde fica o céu? Estas são as questões que você traz acreditando que eu, que sou apenas um caminhante e um pensador espiritualista, possa te socorrer e, por fim, ajudar a encontrar respostas minimamente satisfatórias.

Não sei se precisamente eu, poderei satisfazer suas curiosidades acerca do tema. Porém, confesso que já andei refletindo muito e, certamente, cheguei a algumas conclusões que, para mim, foram, e ainda são, bastante satisfatórias. Desta forma, tudo o que posso fazer para te auxiliar, é compartilhar com você o fruto das minhas indagações espirituais e espiritualistas.

Como sou um caminhante, faço o convite para que venha comigo nesta pequena jornada para, juntos, podermos ir adequando pensamentos e conclusões, pretendendo, ao final, chegarmos às respostas postuladas por você. Vamos juntos.

Quando alguém fala sobre o céu, seja lá em que sentido for, a sensação que causa é sempre a de bem-estar e de felicidade. Você, ao comprar uma casa bem situada, em um lugar de paz e de tranquilidade, obviamente soltará a seguinte frase para os amigos: “lá, onde comprei minha casa, é o céu. Um verdadeiro paraíso”. E, a partir desta frase inicial, você começa a desfiar todas as vantagens, todos os benefícios e todas as virtudes encontradas naquele lugar paradisíaco, arrematando desta forma: “quando chego em casa, me sinto no céu”.

Ora, só de se expressar deste modo, você revela ter algum conhecimento acerca do que é, verdadeiramente, o céu: um lugar de paz, de serenidade, de tranquilidade, de completude e, por fim, de realização dos seus maiores sonhos. Com isso, planto no seu coração, uma outra questão: seria o céu, então, um espaço físico até onde todos podemos chegar? Não, não é! O Céu descrito por você, ao falar sobre a casa comprada, é apenas uma soma de virtudes e de qualidades encontradas que, de tão boas, tão magníficas, remetem ao conceito de tudo o que de melhor existe no mundo. Tudo aquilo, para você, equipara-se à noção de Céu que traz guardada na sua alma.

Pois bem, quando você afirma que, ao chegar em casa tem a sensação de estar no Céu, significa que a existência de paz, de serenidade, de tranquilidade, de repouso absoluto e, o mais importante, de uma consciência totalmente desprovida de arrependimentos, conseguem te transportar de uma realidade não tão virtuosa, para uma outra diametralmente oposta. Uma realidade onde você, de fato, se sente realizado e feliz.

No entanto, por se tratar de sentimentos e de realizações vinculados à vida que, por si só, é efêmera e, portanto, transitória, não te asseguram qualquer possibilidade de continuidade. E, se em determinado momento, todo este cenário paradisíaco for modificado, você sentirá muitas saudades daquele, digamos, “Céu” do qual em alguns momentos da vida, você pode desfrutar.

Veja, diante de tudo isto, você tem uma exata noção do que é o Céu. Nesta lógica, o Céu, então, é o gozo da paz, da serenidade, da tranquilidade espiritual e da total ausência de arrependimentos. Em outras palavras: é a plena consciência de ter dado o melhor de si durante todo o tempo e, por fim, ter chegado à plenitude de uma existência.

Porém, uma resposta ainda é devida: onde fica este Céu? Aí, sabendo de antemão que o Céu descrito em razão da casa comprada não é duradouro, porque vinculado à vida que é transitória, você logo imagina que ele fica em algum lugar distante, ainda a ser alcançado. Pensando desta forma, é natural que algum desânimo tome conta do seu ser. No entanto, as virtudes conceituais acerca do Céu, conduzem à convicção de estarmos falando sobre estado de espírito. Ou seja, qualquer pessoa que tenha paz de espírito, que seja tranquila por natureza, que sempre procure dar o melhor de si e que não carregue arrependimentos na alma, tem, dentro de si, o verdadeiro Céu. Um Céu absolutamente espiritual e, quando morre, vai com este Céu unir-se a outros Céus o que, poderíamos denominar como o verdadeiro Reino dos Céus.

Mas, não estou colocando um ponto final nesta reflexão. Tem mais alguma coisa muito importante a ser dita. Você, certamente, conhece a famosa oração do Pai-Nosso, onde se começa dizendo “Pai-nosso, que estás nos Céus... (Mt 6, 9-13)”, não conhece? Veja, o Apóstolo Paulo, chama a atenção dos Coríntios ao lhes dizer: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3, 16). Pensa comigo: se o Nosso Pai está nos Céus e se o seu Espírito habita em nós, eu te pergunto: onde fica o Céu, senão em cada um de nós? Somos, de fato, partes de um conjunto formado por todos os Céus, nos quais o Senhor habita e reina individual e coletivamente. Isto é representado, inclusive, por meio da saudação indiana do Namastê - "O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você".

Porém, observe bem: se o Céu pode estar em cada de nós, por meio de todas as virtudes já descritas, o inferno, da mesma forma, pode estar também, por meio de todas as inversões possíveis e admissíveis.

Deste modo, o Céu que já pode se manifestar na sua vida terrena, invadindo todo o seu espírito e dominando todo o seu ser, é claro e evidente que, após a morte, ele será transportado com o seu espírito para unir-se a outros céus e aí, sim, todos comporão o Reino dos Céus, no qual somente o bem e a justiça dominam de forma única e exclusiva. É óbvio que você, a partir desta reflexão, poderá vir com inúmeras outras indagações. No entanto, não devo ficar, aqui, imaginando coisas que você poderia perguntar. Faça suas reflexões e, em uma outra oportunidade, poderemos voltar ao tema.

O que importa, neste momento, é que você compreenda que o Céu não está lá em cima, ao lado ou lá embaixo. Ele está dentro de você, de mim e de cada um de nós. E tais percepções são possíveis de serem sentidas pela vida que levamos. Quando praticamos o bem, ainda que da forma mais secreta, somos invadidos por um sentimento de realização, de felicidade e de vontade de praticar mais ações benéficas ou benevolentes, porque isso nos traz a paz de espírito, a tranquilidade, a certeza de estarmos fazendo a coisa certa e, em decorrência, uma total e absoluta consciência desabitada por qualquer forma de arrependimento.

“O Reino de Deus”, disse Jesus, “está no meio de vós”! Esta foi a resposta dada pelo Mestre de Nazaré aos fariseus, quando perguntaram: “Quando virá o Reino de Deus?” (Lc 17, 20-21). Assim, compreende-se que, junto de nós, e não lá adiante, está o Céu, o Reino e o próprio Deus, a confirmar que trazemos em nosso interior o verdadeiro Céu. Só depende de nós identificá-lo e por ele zelarmos para que permaneça assim até o dia da nossa redenção.

Desta forma, não acredite que, ao final da sua jornada, será levado para um lugar distante chamado Céu. Não, não será assim, posso te afirmar com segurança. Naquele dia, e naquele momento, o Céu que já deve existir em você, se abrirá totalmente, como uma enorme flor, e seu espírito contemplará toda a real beleza que o Céu possui. A partir dali, então, você seguirá rumo à eternidade e ao verdadeiro e único Reino dos Céus. É o fim absoluto de todas as ilusões. É o retorno à vida como ela sempre foi na realidade. Toda a riqueza do seu Céu será manifestada no seu espírito e então, e somente então, sua alegria e sua felicidade serão completas e indestrutíveis.

O ser humano do mundo não compreende esta linguagem e, de certa forma, repudia-a, porque, apegado ao mundo e às suas ilusões, não aceita nem de longe pensar em dele ser afastado bruscamente pela morte. Dói-lhe fundo na alma tais pensamentos. Você, porém, que traz o protótipo do Céu no seu íntimo, aguarda complacente e feliz o momento do mergulho no oceano divino, quando o seu Céu interior será unido a outros Céus e todos, juntos, comporão o Reino dos Céus.

Para aumentar a sua convicção acerca do tema, sugiro que leia com atenção o Salmo que diz: “Ditoso o homem que não se deixou levar pelo conselho dos ímpios, que não se deteve no caminho dos pecadores, que não se sentou na cadeira dos zombadores, mas que tem a sua vontade posta na lei do Senhor, e nessa lei medita de dia e de noite. Será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto, e cujas folhas não cairão; e todas as coisas que ele fizer serão prósperas” (Sl 1, 1-3).

O Salmo parece abrir uma porta para o nosso Céu interior, o qual Deus escolheu como morada permanente.

Acredito que minhas palavras, no mínimo, servirão como incentivo para que você faça reflexões mais aprofundadas. Interrogações e dúvidas são próprias do espírito humano. Não se assuste ou se detenha diante delas. Na medida em que forem surgindo, procure travar conversas construtivas. Conversas que, certamente, trarão mais algumas convicções. E, assim, sucessivamente, você, eu e todos nós, vamos caminhando por esta longa estrada da vida, ampliando o nosso Céu interior, facilitando a habitação de Deus para que, no dia fatal, possamos nos unir a outros como nós.

Deixo claro para você, como sempre tenho procurado deixar, que este texto é apenas uma opinião pessoal, fundamentada na longa caminhada e nas diversas experiências e reflexões espirituais e com o próprio Deus. Escrevo, na tentativa de, por algum modo, poder sanar questões que possam vagar por sua alma. No entanto, não precisa, de modo algum, concordar comigo. Faça suas próprias reflexões e tire as conclusões que julgar oportunas e pertinentes. Quem sabe, um dia, possamos estar juntos no mesmo Reino. Seja feliz, e boa sorte!

NAMASTÊ - NOVO ________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 09

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – CONFIANÇA NO SENHOR –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No Evangelho deste domingo (Mt 14,22-33) encontramos Jesus que, retirando-se sobre o monte, reza durante a noite inteira. Separado tanto da multidão como dos seus discípulos, o Senhor manifesta a sua intimidade com o Pai e a necessidade de rezar em solidão, ao abrigo dos tumultos do mundo. No entanto, este seu afastar-se não deve ser entendido como um desinteresse pelas pessoas, nem como um abandono dos Apóstolos. Pelo contrário - narra São Mateus - pediu que os discípulos entrassem na barca a fim de “O preceder na outra margem” (Mt 14, 22), para os encontrar de novo. Entretanto, “já a uma boa distância da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (v. 24), e eis que “pela quarta vigília da noite, Jesus veio até eles, caminhando sobre o mar” (v.25); os discípulos ficaram transtornados e, pensando que se tratava de um fantasma, “soltaram gritos de terror” (v. 26), pois não O reconheceram, não compreenderam que era o Senhor. Mas Jesus tranquiliza-os: “Ânimo, sou Eu. Não tenhais medo!” (v. 27). Os Padres da Igreja tiraram uma grande riqueza desse episódio: O mar simboliza a vida presente, a instabilidade do mundo visível; a tempestade indica todos os tipos de tribulação, de dificuldade que oprime o homem. A barca, ao contrário, representa a Igreja construída por Cristo e norteada pelos Apóstolos. Jesus deseja educar os discípulos a suportar com coragem as adversidades da vida, confiando em Deus, naquele que se revelou ao Profeta Elias no monte Horeb, no “murmúrio de uma brisa ligeira” (1Rs 19, 12). Ainda no texto do Evangelho, chama a atenção o gesto do Apóstolo Pedro que, tomado por um impulso de amor pelo Mestre, pediu para ir ao seu encontro, caminhando sobre as águas. “Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’ (Mt 14, 30). Santo Agostinho, imaginando que se dirigia ao Apóstolo, comenta: o Senhor “humilhou-se e pegou-te pela mão. Unicamente com as tuas forças, não consegues levantar-te. Segura na mão daquele que desce até ti”, e diz isto não apenas a Pedro, mas diz isto também a nós. Pedro caminha sobre as águas não pelas suas próprias forças, mas pela Graça divina, na qual crê, e quando se sente dominado pela dúvida, quando deixa de fixar o olhar em Jesus e tem medo do vento, quando não confia plenamente na Palavra do Mestre, quer dizer que, interiormente, se está a afastar-se d’Ele, e é então que corre o risco de afundar-se no mar da vida, e é assim também para nós: se olharmos unicamente para nós mesmos, tornamo-nos dependentes dos ventos e já não conseguimos atravessar as tempestades, as águas da vida. Escreve Romano Guardini que o Senhor “está sempre próximo, dado que se encontra na raiz do nosso próprio ser. Todavia, temos que experimentar o nosso relacionamento com Deus entre os polos da distância e da proximidade. Pela proximidade somos fortalecidos, pela distância, postos à prova”.

Ao ouvir a narração deste texto evangélico, podemos tirar uma conclusão: O Mestre não está longe nem agora; não nos deixará a sós lutando com as ondas; basta invocá – Lo que Ele descerá do monte e virá em socorro de sua Igreja. Esta confiança se baseia no fato de que Jesus ressuscitou e está vivo. Os antigos padres da Igreja colocavam em evidência uma coincidência: Jesus vai ao encontro dos apóstolos no lago “na quarta vigília da noite”, isto é, na mesma hora em que ressuscitou dos mortos.

Nesta situação, uma coisa é necessária para não afundar: não perder a confiança, não desanimar no meio das dificuldades, não olhar para baixo ou ao redor, para as ondas que se agitam, mas à frente, para Cristo. Somente quem vacila na fé, ou quem confia nas próprias forças, afunda.

O texto bíblico quer nos mostrar que a pouca fé do cristão torna – o medroso nos perigos, abatido nas dificuldades e, por isso, corre o risco de naufragar. Mas, ali onde a fé é viva, onde não se duvida do poder de Jesus e da sua presença contínua na Igreja, não há perigo de naufrágio, porque a mão do Senhor estende-se invisivelmente para salvar a barca da Igreja e cada cristão em particular.

Se a nossa vida se passar no cumprimento fiel do que Deus quer de nós, nunca nos faltará a ajuda divina. Na fraqueza, na fadiga, nas situações de maior dificuldade, Jesus irá se aproximar de nós, de modo inesperado, e nos dirá: “Sou Eu, não temais”. Ele nunca abandona os seus amigos, e muito menos quando o vento das tentações, do cansaço ou das dificuldades nos é contrário. Ensina Santa Teresa: “Se tiverdes confiança n’Ele e ânimo animoso, que Sua Majestade é muito amigo disso, não tenhais medo de que vos falte coisa alguma”.

Quando Pedro começou a afundar-se, para voltar à superfície, teve que segurar a mão forte do Senhor, seu Amigo e seu Deus. Não era muito, mas era o esforço que Deus lhe pedia; é a colaboração da boa vontade que o Senhor sempre nos pede.

Para Pedro, uma só coisa importa: estar perto de Cristo. Não interessa quais são as condições, se com “ventos contrários” ou “tempestade”, Pedro quer estar junto de Cristo. Pedro é sempre quem toma a palavra, é ele quem sempre dá o primeiro passo no grupo dos apóstolos.

Foram momentos impressionantes para todos: Pedro trocou a segurança da barca pela da palavra do Senhor. Não ficou aferrado às tábuas da embarcação, mas dirigiu-se para onde Jesus estava, a uns poucos metros dos discípulos, que contemplam atônitos o Apóstolo por cima das águas enfurecidas. Pedro avança sobre as ondas. Sustentam-no a fé e a confiança no seu Mestre; só isso!

Pedro teria continuado a caminhar firmemente sobre as águas e teria chegado até o Senhor se não tivesse afastado dEle o seu olhar confiante. Todas as tempestades juntas, as de dentro da alma e as do ambiente, nada podem enquanto estivermos bem ancorados na fé e na oração. A nossa fé nunca deve fraquejar, mesmo que as dificuldades sejam enormes e a sua violência pareça esmagar-nos.

Pouco importam o ambiente, as dificuldades que rodeiam a nossa vida, se sabemos avançar cheios de fé e confiança ao encontro de Jesus que nos espera; pouco importa que as ondas sejam muito altas ou o vento forte; pouco importa que não seja do natural do homem caminhar sobre as águas. Se olhamos para Jesus, tudo nos é possível; e esse olhar para Ele é a virtude da piedade. Se pela oração e pelos sacramentos nos mantemos unidos a Jesus, caminharemos com firmeza. Deixar de olhar para Cristo é naufragar, é incapacitar-se para dar um passo, mesmo em terra firme.

Esse pequeno esforço que o Senhor pede aos seus discípulos de todos os tempos para tirá-los de uma má situação, pode ser muito diverso: intensificar a oração; cortar decididamente com uma ocasião próxima de pecar; obedecer com prontidão e docilidade de coração aos conselhos recebidos na confissão e na conversa com o diretor espiritual… Não nos esqueçamos nunca da advertência de São João Crisóstomo:  “Quando falta a nossa cooperação, cessa também a ajuda de Deus”. Ainda que seja o Senhor quem nos tira da água. No momento em que Pedro começou a temer e a duvidar, começou também a afundar-se.

Temos de aprender a nunca desconfiar de Deus, que não se apresenta apenas nos acontecimentos favoráveis, mas também nas tormentas dos sofrimentos físicos e morais da vida: “Tende confiança, sou Eu, não temais!”. Deus nunca chega tarde em nosso auxílio, e sempre nos ajuda nas nossas necessidades.

E se alguma vez sentimos que nos falta apoio, que submergimos, repitamos aquela súplica de Pedro: “Senhor, salva-me!” Não duvidemos do seu amor, nem da sua mão misericordiosa, não esqueçamos que “Deus não manda impossíveis, mas ao mandar pede que faças o que possas e peças o que não possas, e ajude para que possas” (Santo Agostinho).

Que enorme segurança nos dá o Senhor! Ensina S. João Crisóstomo: “Ele garantiu-me a sua proteção; não é nas minhas forças que eu me apoio. Tenho nas minhas mãos a sua palavra escrita. Este é o meu báculo. Esta é a minha segurança, este é o meu porto tranquilo.  Ainda que o mundo inteiro se perturbe, eu leio esta palavra escrita que trago comigo, porque ela é o meu muro e minha defesa. O que é que ela me diz? Eu estarei convosco até o fim do mundo.”

Junto de Cristo, ganham-se todas as batalhas, desde que tenhamos uma confiança seus limites na sua ajuda: “Cristo está comigo, que posso temer? Que venham assaltar-me as ondas do mar e a ira dos poderosos; tudo isso não pesa mais do que uma teia de aranha” (S. João Crisóstomo). Não larguemos a sua mão; Ele não larga a nossa! Nos perigos, nos tropeços, nas dúvidas, é para Cristo que devemos olhar! Olhou para nós tantas vezes! É n’Ele que começa e culmina a vida cristã. Escreve São Tomás de Aquino: “Se queres salvar-te, olha para o rosto do teu Cristo”. O nosso trato habitual com Ele na oração e nos sacramentos é a única garantia de podermos conservar-nos de pé, como filhos de Deus, no meio de um mar agitado como o que nos envolve.

“Que importa que tenhas contra ti o mundo inteiro, com todos os seus poderes? Tu... para a frente! Repete as palavras do Salmo: ‘O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? Ainda que me veja cercado de inimigos, não fraquejará o meu coração’” (Caminho, 482)

A dificuldade da fé do apóstolo Pedro leva-nos a compreender que o Senhor, ainda que O procuremos ou invoquemos, é Ele mesmo que vem ao nosso encontro, abaixa o Céu para nos estender a sua mão e nos elevar à sua altura; Ele espera unicamente que nos confiemos de maneira total a Ele, que seguremos realmente a sua mão. Invoquemos a Virgem Maria, modelo de confiança plena em Deus para que, no meio de tantas preocupações, problemas e dificuldades que agitam o mar da nossa vida, ressoe no nosso coração a palavra tranquilizadora de Jesus que nos diz, também a nós: Ânimo, sou Eu, não tenhais medo!, e aumente a nossa fé n’Ele.

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* Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

   

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