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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: ESPAÇO TEOLÓGICO

mar 27

UM TESTEMUNHO E UM LOUVOR

 LOUVOR E ADORAÇÃO

PALAVRA E TESTEMUNHO DE UM CRISTÃO, PARA TODOS NÓS, CRISTÃOS –

*Por Marcos Luz –

Agradeço nesta manhã ao Poderoso Deus porque, antes tarde do que nunca. Já na segunda metade da quaresma deste ano de 2020, caminhando em direção ao final deste tempo litúrgico, e aos 47 anos de vida, sinto que finalmente compreendi, não na mente, mas no coração, o sentido da quaresma.

O principal evento salvífico da humanidade é a cruz, e não a manjedoura, mas muitas vezes nos preparamos mais para o Natal do que para a Páscoa. Evitando cair no engano do sentido penitencial/meritório, comum a muitos católicos romanos e também protestantes, percebo agora o quanto abstinências e jejuns (em quaisquer tempos, mas mais especificamente neste) são auxiliares valiosos para clarificação das ideias, a fim de uma interiorização mais profunda do sentido das Sagradas Escrituras.

Tenho aproveitado bem este jejum social como oportunidade de ler, refletir, meditar e sentir a força da revelação de Nosso Senhor no meu coração. Oro para que todos vocês também saibam perceber e consigam aproveitar essa oportunidade maravilhosa que Deus está nos concedendo de viver o tempo da quaresma de forma especial neste 2020. Nos preparando individualmente para uma Páscoa ricamente abençoada. Maranata. Obrigado, Senhor Jesus. Amém!

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*Marcos Luz é estudante de Teologia, no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis e é membro da Igreja Batista de Itaipava (Petrópolis-RJ).

fev 01

ESPÍRITO SANTO: ELE É DEUS E ESTÁ NO MEIO DE NÓS

O ESPÍRITO SANTO

O PODER DO ESPÍRITO SANTO –

O tema proposto nesta resenha é justamente o título do livro do Pastor protestante americano William Franklin Graham Jr., mundialmente conhecido, simplesmente, como Billy Graham. Billy nasceu em 07 de novembro de 1918 e faleceu, aos 99 anos de idade, em 21 de fevereiro de 2018, há poucos meses de completar o centésimo aniversário.

Pois bem, a partir da crença na  doutrina da Trindade, parece fora de qualquer dúvida que o aprofundamento sobre Espírito Santo tem sido um dos maiores, e mais perseguidos, objetivos de Teólogos cristãos, católicos e protestantes. Cada um a seu modo e com seus argumentos próprios, expõe o fruto de suas pesquisas e experiências, no afã de levar ao mundo a manifestação mais fecunda de Deus para toda a humanidade.

A partir desta edição, e nas seguintes, vamos transcrever alguns trechos do livro do falecido Pastor que, não obstante, deixou um verdadeiro legado para cristãos de todos os matizes. A obra, editada pela Vida Nova [1], é muito bem elaborada e didática o suficiente para que, qualquer pessoa que seja alfabetizada, possa ler e compreender de modo satisfatório. Senão vejamos:

“Quem é o Espírito Santo?

Alguns anos atrás um professor de quinto ano perguntou aos alunos de sua classe se alguém poderia explicar a eletricidade. Um rapaz levantou a mão. O professor perguntou: — Como você poderia explicar, Jimmy? Jimmy coçou a cabeça, pensou, e respondeu: — Ontem à noite eu ainda sabia, mas agora esqueci! O professor sacu­diu tristemente a cabeça e disse para a classe: — Que tragédia! A única pessoa no mundo que já entendeu a eletricidade, e ele esqueceu!

Esse professor está na mesma situação que você e eu quando estudamos a doutrina da Trindade. Aceitamos o fato de que o Espírito Santo é Deus, assim como o Pai e o Filho são Deus. Mas quando temos de explicar, Ficamos num beco sem saída.

Nos últimos anos foi falado e escrito sobre o Espírito Santo mais do que qualquer outro tema religioso, excetuando o ocultismo. Isso aconteceu principalmente por causa da influência do movimento carismático, que tem sido chamado de “a terceira força” do cristia­nismo, ao lado do catolicismo e do protestantismo. O movimento carismático mais recente, que tem algumas de suas origens no pentecostalismo histórico e na ênfase no Espírito Santo, está atualmente influenciando profundamente a maioria das principais denominações, bem como o catolicismo. Podemos sentir como o assunto é vasto, e como sabemos pouco sobre ele. Mesmo assim, Deus revelou em sua Palavra tudo que devemos saber.

Neste livro surgirão muitas perguntas que crentes confusos e às vezes incultos tentaram responder. De fato, milhões de cristãos em todos os continentes estão fazendo estas perguntas. Estão procurando e merecem respostas bíblicas. Por exemplo: O que é o batismo do Espírito Santo? Quando ocorre? E possível e necessário falar em lín­guas hoje em dia? Existe uma experiência chamada “segunda bênção”?

Antes de responder as essas questões, iniciaremos nosso estudo com uma pergunta fundamental: Quem é o Espírito Santo?

O Espírito Santo é uma pessoa

A Bíblia ensina que o Espírito Santo é uma pessoa. Jesus nunca o chamou de “isto” quando falava do Espírito Santo. Em João 14, 15 e 16, por exemplo, Jesus falou do Espírito Santo como “Ele”, porque ele não é uma força ou uma coisa, mas uma pessoa. Falta instrução ou mesmo discernimento a alguém que trata o Espírito Santo como “isto”.

Na Bíblia vemos que o Espírito Santo tem intelecto, emoções e vontade. Além disso, a Bíblia diz que ele faz coisas que uma força não faria, somente uma pessoa real.

Ele fala: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus” (Ap 2.7).

“E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”

Ele intercede: “Do mesmo modo também o Espírito nos ajuda na fraqueza; porque não sabemos o que havemos de pedir como con­vém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26, IBB).

Ele testifica: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26).

Ele guia: “Então disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro, e acompanha-o” (At 8.29).

“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Ele ordena: “E percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defron­tando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu” (At 16.6, 7).

Ele conduz: “Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir” (Jo 16.13).

Ele nomeia: “Portanto, tende cuidado de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus” (At 20.28, A21).

Pode-se mentir para ele: “Então disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assen­taste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 3.3, 4).

Pode-se insultá-lo: “De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?” (Hb. 10.29).

Pode-se blasfemar contra ele: “Por isso vos declaro: Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á isto perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isto perdoado, nem neste mundo, nem no porvir” (Mt. 12.31, 32).

Pode-se entristecê-lo: “E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção” (Ef 4.30).

Cada uma das emoções e atitudes que alistamos são características de uma pessoa. O Espírito Santo não é uma força impessoal, como a gravidade e o magnetismo. Ele é uma pessoa, com todos os atributos de uma personalidade. Mas não é só pessoa; também é divino.

O Espírito Santo é uma pessoa divina: ele é Deus

Em toda a Bíblia podemos ver claramente que o Espírito Santo é o próprio Deus. Podemos assim deduzir dos atributos que as Escrituras lhe confere. Estes atributos, sem exceção, são os do próprio Deus.

Ele é eterno: significa que nunca houve um momento em que ele não existiu. “Muito mais o sangue de Cristo que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos aó Deus vivo!” (Hb. 9.14).

Ele é Todo-poderoso: “Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua som­bra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35).

Ele é onipresente: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua presença?” (SI 139.7, A21).

Ele é onisciente: “Deus, porém, revelou-as a nós pelo seu Espírito. Pois o Espírito examina todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. Pois, quem conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus.” (ICor 2.10,11, A21).

Ele e Deus: “Então disse Pedro: Ananias, por que encheu Sata­nás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 5.3, 4, grifo meu).

“E todos nós com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18).

Ele é o Criador: A primeira referência bíblica ao Espírito Santo está em Gênesis 1.2 (Moffatt), onde lemos: “O Espírito de Deus pairava por sobre as águas”. No entanto, Gênesis. 1.1 diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. E em Colossenses 1, escre­vendo à igreja de Colossos sobre o Senhor Jesus Cristo, no meio de outras grandes verdades, Paulo nos diz:

Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer princi­pados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste (é conservado em ordem e harmonia, BLH) (Cl 1.16, 17).

Assim, Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo estavam jun­tos criando o mundo. E da máxima importância para todos os cristãos compreender e aceitar esses fatos, tanto na teologia como na prática.

Certa vez fiz algumas destas afirmações na presença de vários seminaristas. Um deles me perguntou: “Geralmente ele é menciona­do por último. Isto não implica em inferioridade?”. Respondi-lhe com alguns textos das Escrituras: Romanos 15.30 ele não é mencio­nado por último: “Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor”. E em Efésios 4.4 Paulo diz: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação”.

Mas, além disso, a colocação usual das três pessoas da Trindade no Novo Testamento tem a ver com sua sequência e função. Dizemos, por exemplo, que oramos ao Pai, através do Filho, no poder do Espírito Santo. Já havia escrito antes na introdução que, em termos de função, o Pai veio primeiro, depois o Filho se encarnou, morreu e ressuscitou. Agora, o Espírito atua nesta era do Espírito. A sequência não prejudica a igualdade, só tem a ver com função e cronologia.”[2]

CONTINUA EM BREVE

_______________________________________________________ [1] GRAHAM JR, William Franklin – O PODER DO ESPÍRITO SANTO –  2ª edição revisada. São Paulo. Vida Nova: reimpressão 2015. 155 páginas. [2] Op. Cit. págs. 17-21

fev 01

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: UMA REFLEXÃO SEMPRE RENOVADORA

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - 2020

A TEOLOGIA DEVE SEMPRE SER LIBERTADORA –

Nos idos de 1985/1988 havia no mundo cristão, especialmente, no católico romano, uma verdadeira neura sobre o tema “Teologia da Libertação”. Os que eram absolutamente contrários à temática afirmavam tratar-se de tentativa de levar para dentro da igreja romana e, em decorrência, para o resto do mundo cristão, ideias e projetos umbilicalmente ligados ao marxismo e à famigerada luta de classes. Para os mais jovens, não é preciso dizer o que isto significou para os teólogos que, voluntária ou involuntariamente, arvoravam-se em falar sobre a opressão do pobre, notadamente, do trabalhador assalariado. Falar sobre as desigualdades sociais, então, era visto como estandarte comunista. A coisa ficou muito feia. A Igreja de Roma logo tratou de silenciar grande parte dos teólogos que falavam em “libertação”. Ainda é por demais conhecida a penalidade aplicada ao então frade franciscano Leonardo Boff, um dos mais expoentes mais ferrenhos e árduo defensor da Teologia da Libertação.

Hoje, no entanto, pode-se falar em libertar o pobre da opressão do capital, do consumismo, da tributação. Pode-se falar em acabar com as desigualdades sociais e o Papa Francisco, inclusive, desde a eleição, clama por uma Igreja pobre a serviço dos pobres.

Ainda que aqui ou ali, existam fanáticos que enxergam comunismo em tudo o que encontram pela frente, a verdade é que o tema não representa mais qualquer obstáculo para que a vida siga em frente, sem dramas e sem traumas.

Nesta oportunidade, vamos trazer para os nossos leitores e leitoras alguns trechos do livro “Teologia da Libertação”[1], de autoria daquele que é considerado um dos seus principais formuladores: Gustavo Gutiérrez. A edição revisada é do ano 2000 e, já no início, sob o título “OLHAR LONGE – Introdução à nova edição”, destaca que:

“Há vinte anos, os bispos latino-americanos viam deste modo o momento que se abria entre nós: “A América Latina está evidentemente sob o signo da transformação e do desenvolvimento. Transformação que, além de produzir-se com rapidez extraordinária, chega a atingir todos os níveis do homem, desde o econômico até o religioso. Isto indica que estamos no umbral de uma nova época histórica de nosso continente, plena de um de­sejo de emancipação total, de libertação de qualquer servidão, de maturidade pessoal e de integração coletiva” (Medellín, Introdução).

Nova época histórica marcada por uma profunda aspiração à liberta­ção integral. Por dolorosa (já o era em 1968) que seja a situação latino- americana, essa visão vale também para hoje. Nestes anos ocorreram fatos que mudaram a história da região, fazendo-a ultrapassar o umbral assinala­do e entrar em um processo cada vez mais acelerado.

Isto estabelece um desafio novo para quem busca inspirar sua vida naquele que “ergueu sua tenda no meio de nós” (Jo 1,14). A perspectiva da fé deve ajudar-nos a ver o que está em jogo nesta fase histórica. A esse respeito, dizia a Conferência de Medellín: “Não podemos deixar de inter­pretar este gigantesco esforço por uma rápida transformação e desenvolvi­mento como evidente sinal da presença do espírito que conduz a história dos homens e dos povos para sua vocação. Não podemos deixar de desco­brir nesta vontade, cada dia mais tenaz e apressada, de transformação os vestígios da imagem de Deus no homem, como um potente dinamismo. Progressivamente esse dinamismo leva o homem ao domínio sempre maior da natureza, a uma profunda personalização e coesão fraternal e também a um encontro com aquele que ratifica, purifica e aprofunda os valores alcan­çados pelo esforço humano” (ibid.).

[...]

Nos anos transcorridos produziu-se uma inevitável decantação nesse esforço teológico. Acolhido com simpatia e esperança por muitos, contri­buiu para a vitalidade de numerosas experiências de testemunho cristão, ao mesmo tempo que criou um interesse pela reflexão sobre a fé — antes des­conhecido na sociedade latino-americana —, inclusive em círculos inte­lectuais tradicionalmente distantes ou hostis ao mundo cristão. Críticas pertinentes e sérias também se fizeram presentes e ajudaram a amadurecer a reflexão. Por outro lado, não faltaram os entusiasmos fáceis que interpre­taram esse intento de forma simplista ou errada, afastando-o das exigências integrais da fé cristã vivida em comunhão eclesial; tampouco esteve ausen­te a previsível resistência de alguns.

As razões de tudo isso são diversas. Mais que pensar nas responsabili­dades de outros, admitamos simplesmente que não é fácil tratar temas de­licados e conflitivos — conflitivos como a realidade que queremos penetrar com os olhos da fé — e encontrar de imediato e sempre as fórmulas mais claras e equilibradas para refletir teologicamente sobre eles. Em toda linguagem há busca, por isso é necessário olhar com respeito o que outras pessoas acreditam encontrar nos escritos desta perspectiva teológica. Os leitores têm direitos que os autores não podem nem devem negar. Por isso é sempre necessário esclarecer, melhorar e eventualmente corrigir formu­lações prévias se queremos empregar uma linguagem compreensível e fiel tanto à integridade da mensagem cristã como à realidade que vivemos.

Nos últimos anos, no contexto da Igreja católica, teve lugar um impor­tante debate sobre teologia da libertação. Se no âmbito pessoal — e por causas passageiras — houve momentos dolorosos, o importante é que se tra­tou de uma rica experiência espiritual; além disso, foi um momento de profun­da renovação de nossa fidelidade à Igreja em que cremos e esperamos comunitariamente no Senhor, bem como de reiteração de nossa solidariedade para com os pobres, privilegiados do Reino. O trabalho teológico deve continuar; para isso dispomos hoje de importantes documentos do Magistério que apon­tam o caminho a seguir e de diversos modos incentivam nossa busca.

O tempo está fazendo que se veja com maior clareza o essencial e que o acessório perca a relevância que, em dado momento histórico, pareceu ter. Está em curso um processo de amadurecimento. Porém, nos últimos anos, no itinerário da teologia da libertação, não há apenas um fator tem­poral, mas também uma ampliação do espaço. Nas diferentes confissões cristãs surgiram, de diversos lados, reflexões que a partir de suas respectivas tradições assumiram a ótica libertadora inspirada na mensagem do Reino de Deus. Mais que de influências teológicas (em alguns casos claramente inexistentes no início), trata-se do impulso que provoca simultaneamente uma realidade básica de opressão e marginalização que a consciência cristã rechaça e diante da qual propõe a totalidade e radicalidade do Evangelho.

[...]

Ao falar de teologia da libertação, não podemos omitir a referência ao amplo movimento de experiências e compromissos cristãos e religiosos que ali­mentam a consequente reflexão. Contudo, nestas páginas, vemo-nos obrigados a tratar especialmente do mundo latino-americano, que nos é mais próximo e no qual se inscreve nosso amadurecimento e nossa contribuição particular.

Vinte anos depois do surgimento desta reflexão pode ser oportuno rever sua expressão e suas pegadas. Não pretendemos reescrever textos como os deste livro a partir de nossas preocupações e perspectivas atuais. Mas cremos ser importante e útil destacar os pontos que nos parecem mais im­portantes, buscar as interpretações equivocadas, precisar e revisar formula­ções que hoje não consideramos adequadas, deixar de lado o que está ultrapassado e indicar alguns dos novos e promissores temas em que houve avanço nos últimos anos. A tarefa é grande, já se iniciou e está em curso; interessa- nos, aqui, esclarecer seus pontos relevantes.

A “nova época histórica” de que fala Medellín continua sendo o con­texto vital da América Latina. Trata-se, em termos bíblicos, de um kairós, um tempo propício e exigente de interpelação do Senhor, no qual somos chamados a dar um testemunho muito preciso. Nesse kairós, os cristãos estão experimentando um momento tenso e intenso de solidariedade, de reflexão e de martírio. Esse marco estimulante e imediato nos permite retomar e aprofundar o que há tempos consideramos os três pontos fundamentais dessa linha teológica: o ponto de vista do pobre, o que-fazer teológico e o anúncio do Reino de vida. Sobre cada um desses tópicos gostaríamos de indicar o que há de permanente, as contribuições recebidas, o amadureci­mento próprio do tempo e a consequente evolução de ideias que se produziu na perspectiva teológica em que nos situamos.”[2]

CONTINUA EM BREVE

______________________________________________________ [1] GUTIÉRREZ, Gustavo [2] Op. Cit. Págs. 11-15.

fev 01

DEUS EXISTE?: DEBATE ENTRE UM TEÓLOGO CRISTÃO E UM FILÓSOFO ATEU

DEUS EXISTE

QUESTÃO POSTA NO CENTRO DA MESA: DEUS EXISTE?

Por mais estranha que a pergunta possa soar aos ouvidos, principalmente, daqueles que, de alguma forma, professam a fé e prestam o culto ao Deus único, ela foi objeto de intenso debate público entre o então Cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo e jornalista italiano, e ateu, Paolo Flores D’Arcais, ocorrido no teatro Quirino, em Roma, em 21 de fevereiro de 2000, com a mediação do judeu Gad Lerner.

Deste intenso debate, que durou cerca de duas horas e meia, com transmissão pública para a rua, por meio de amplificador improvisado, resultou o enfrentamento de temas polêmicos como o conflito entre a fé e a razão, os valores comuns entre cristãos e ateus, a derrota do comunismo, o papado de João Paulo II, dando origem ao livro editado sobre o tema central do debate – “Deus Existe?”[1].

Nesta oportunidade, e n’outras que se fizerem presentes, vamos publicar alguns trechos deste verdadeiro embate entre titãs, sabendo-se, de antemão que, do então Cardeal Ratzinger, ao menos, diz-se ser um maiores Teólogos do século XX.

O mediador – Gad Lerner – inicia seu mister enfatizando a inconveniência do título escolhido para um debate público que, no entanto, “se assemelha mais a certas disputas medievais – pela brutalidade da pergunta proposta – que a nossas conversas televisivas mais ou menos superficiais”.

Gad Lerner: E então, entre os dois interlocutores a quem cederei a palavra imediatamente, podemos logo apontar um traço em comum, que de alguma maneira transforma sua intransigência mútua em algo especular, se não em algo comum. Ou seja, por parte de ambos, o repúdio a uma religiosidade de compromisso, o repúdio a um Deus feito sob medida, construído sob nossa pró­pria medida por cada um de nós, para o cuidado de nosso próprio corpo e de nossa própria alma, sem pensar muito no alheio ou no transcendente, ou seja, sem considerarmos a fundo o pro­blema da verdade.

Essa religiosidade de compromisso está muito difundida, como vocês sabem. O rótulo que ostenta em nossas sociedades opu­lentas, na maioria das vezes, é o rótulo da new age e também de uma determinada ideia do budismo. O relativismo que a ani­ma foi fortemente criticado por meus interlocutores nos textos que ambos publicaram na MicroMega, e, portanto, neles há, acima de tudo, essa necessidade de adequar-se ao absoluto da verdade. Mas ao ceder-lhes a palavra para este debate, gostaria de perguntar-lhes, também: de onde nasce, então, partindo de pon­tos de vista tão distantes, a necessidade recíproca de se falar; onde se origina? Pergunto isso principalmente a Sua Eminên­cia o cardeal Ratzinger.

Joseph Ratzinger: Nasce do fato de que nós, os crentes, acre­ditamos que temos algo a dizer ao mundo, aos outros, que a questão de Deus não é uma questão privada, entre nós, de um clube que tem seus interesses e faz seu jogo. Pelo contrário, es­tamos convencidos de que o homem precisa conhecer Deus, estamos convencidos de que em Jesus surgiu a verdade, e a ver­dade não é a propriedade privada de alguém; deve ser compar­tilhada, deve ser conhecida. E, por isso, estamos convencidos de que justamente neste momento da história, de crise da reli­giosidade, neste momento de crise inclusive das grandes cultu­ras, é importante que nós não vivamos só no interior de nossas certezas e de nossas identidades, mas que nos exponhamos realmente às perguntas dos outros. E com essa disponibilida­de e essa franqueza, no encontro recíproco, tentamos explicar tudo o que a nós parece razoável, e mais ainda, necessário para o homem.

Gad Lerner: Sr. Paolo Flores d’Arcais: “razoável e necessário”. Isso é Deus, isso é a fé, para o homem, diz o cardeal Ratzin­ger, que também, em seu escrito publicado na MicroMega, insiste na racionalidade, se me permite assim dizer, do cris­tianismo.

Paolo Flores d Arcais: Em um debate com estas características há uma grande assimetria, porque o crente está interessado em converter o não crente - está interessado no sentido mais elevado do termo, obviamente. Por outro lado, o ateu não está interessado em absoluto em convencer o crente da ine­xistência de Deus, não tem nenhum interesse em conseguir que alguém perca a fé. E então, por que também um ateu está profundamente interessado na fé e, acima de tudo, no tipo de fé de quem a pratica? Porque ser ateu - palavra que alguns consideram de mau gosto - (mas por que não se deve dizer sobriamente o que se é?), ser ateu significa simplesmente con­siderar que tudo entra em jogo aqui, em nossa existência, finita e incerta. E, portanto, que são importantes os valores que se escolhem nesta existência, a coerência entre os valores que se es­colhem e a própria conduta. E justamente porque tudo entra em jogo aqui, no horizonte desta existência, sobre essa base é que se estabelecem as alianças, as solidariedades, os conflitos e os choques.

E então, do ponto de vista dos valores que se escolhem, e prin­cipalmente da possibilidade de uma convivência baseada na tolerância, ou seja, no respeito mútuo, o tipo de religião prati­cada por quem crê não é indiferente. Se a fé de um cristão é a das primeiras gerações, que se resume em uma frase que não se sabe quem realmente a pronunciou - embora seja atribuída a Tertuliano[2] mas que constitui o sentir comum das primei­ras gerações de cristãos - e o conceito está claríssimo também em São Paulo isto é: “credo quia absurdum”, ou seja, “a fé é escândalo para a razão”...

Se isso é a fé, não surge nenhum conflito com o não crente, porque uma fé com essas características não pretenderá se im­por, só pedirá que a respeitem.

Mas se a fé católica pretende ser o resumo e a culminância da razão, ser o resumo e a culminância de tudo aquilo que é mais característico do homem, ser a verdadeira summa da razão e da humanidade, então compreenderão que se a fé pretende ser isso é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor, inclusive mediante o braço secular do Estado. Porque quem estivesse em conflito com os ditames da fé, e acima de tudo com suas consequências morais, estaria também contra a razão e a humanidade.

Gad Lerner: Desculpe, sr. Flores, mas talvez estejamos nos ante­cipando no tempo se nos pusermos a falar do braço secular do Estado. O senhor levantou uma questão, acho que decisiva, que, por outro lado, levantou também em seu escrito, ou seja: por que vocês, os crentes, vocês os cristãos, vocês os homens de fé não renunciam à demonstração mundana da verdade - isso é o que o sr. Flores escreveu -, por que pretendem dar também uma aparência racional ao que é evidentemente absurdo? Se vo­cês aceitassem, diz o sr. Flores - atribuindo essa posição tam­bém ao cristianismo das origens, e não sei se o senhor [dirigindo-se a Ratzinger] estará de acordo; provavelmente contestará essa tese do sr. Flores -, se vocês aceitassem a ideia do absurdo da fé, bem, nós nos conformaríamos, nós os deixaríamos crer; nós os deixaríamos crer porque são livres para isso, mas, ao fim e ao cabo, estaríamos satisfeitos pelo fato de se saber, de ficar registrado o absurdo dessa fé.

Joseph Ratzinger: Na realidade, tenho certeza de que as primei­ras gerações do cristianismo não pensavam na fé como um ab­surdo. É verdade que Paulo fala do “escândalo” da fé, e vemos que o escândalo existe em todas as gerações - até mesmo hoje -, mas, ao mesmo tempo, Paulo prega no Areópago, ou seja, no centro da cultura antiga, da filosofia antiga, em discussão com os filósofos, e cita também os filósofos. E, em geral, o início da pregação cristã se dirigia aos denominados phoboumenoi theon, ou seja, grupos de pessoas que haviam se congregado em volta da sinagoga.[3]

O judaísmo teve uma função e uma posição muito importan­tes no mundo antigo, porquanto aquela fé em um único Deus criado se apresentava justamente como a religião racional, que era buscada no momento da crise dos deuses. E, portanto, essa religião se oferecia como uma religião verdadeira e autêntica, não inventada pelos filósofos, mas realmente nascida do coração do homem e da luz de Deus, mas, ao mesmo tempo, em correspondência profunda com as convicções racionais da­quele período. E, portanto, as pessoas, digamos, “iluminadas” daquele período, em busca de Deus, que já não estavam satis­feitas com as religiões oficiais, as pessoas que buscavam não só uma construção filosófica, mas uma religião autêntica, que porém, correspondesse à razão...

Essas pessoas haviam criado um círculo em torno da sinagoga, e aquele era o mundo em que Paulo podia pregar. E sua inten­ção e sua convicção foi justamente o Deus único que falou com Abraão, que falou no Antigo Testamento, e que se manifesta e se faz acessível por meio de Jesus aos povos do mundo. [Paulo] sabia bem que, por um lado, oferecia escândalo no Areópago; sabemos que o anúncio da ressurreição gera escândalo. Mas também tinha certeza de que não estava anunciando algo ab­surdo, capaz de satisfazer só a alguns, e sim algo que levava consigo uma mensagem capaz de apelar à razão dos homens e dizer-lhes: todos nós buscamos - neste momento de crise - a Deus, buscamos uma religião que não seja inventada, e sim au­têntica, e que, ao mesmo tempo, seja acorde com nossa razão.

E São Pedro, na primeira carta, diz explicitamente: devereis es­tar sempre dispostos a “dar razão” de vossa esperança, sempre deveis apologein, dar conta do logos. Ou seja: [os cristãos] têm de estar dispostos a demonstrar o logos, isto é, o sentido pro­fundamente racional de suas convicções.

Evidentemente, sobre esse ponto estou de acordo com o pro­fessor Flores d’Arcais; não se deve impor tudo isso. É preci­so apelar à consciência e à razão. Essa é a única instância que pode decidir. Porque realmente constitui um pecado pensar: se logo a razão não estiver disponível, deveremos “ajudá-la” com o poder do Estado. Isso é um grave erro. Portanto, não há de se impor com o poder - isso é um grande pecado e um grande erro -, e sim oferecer-se à evidencia da razão e do coração.

Paolo Flores d’Arcais: Naturalmente, o cristianismo consegue se impor em um horizonte de crise das religiões tradicionais, e...”[4]

 CONTINUA EM BREVE

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[1] RATZINGER, Joseph e D’ARCAIS, Paulo Flores – DEUS EXISTE? – São Paulo. Planeta: 2009. 125 páginas.
[2] A afirmação "credo quica absurdum” foi atribuída a Tertuliano porque no escrito intitulado De carne Christi declara expressamente que a crucificação e morte de Cristo é “crível porque inconcebível”, e sua ressurreição é “segura, porque impossível”. Reproduzimos o parágrafo integralmente: Natus est Dei Filius; non pudet, quia pudendum est: et mortuus est Dei Filius; prorsus credibile est, quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile.
[3] Os “tementes a Deus” eram gentios, não circuncidados, que iam à sinagoga para conhecer o mesmo Deus que os judeus e rezar para ele. Segundo muitos historiadores, terão uma importância relevante na acolhida da pregação de São Paulo.
[4] Op. Cit. págs. 25-32

jun 01

TERESA DE LISIEUX – DOUTORA DA IGREJA

TERESA DE LISIEUX - 2019

HISTÓRIA DE UMA ALMA – TERESA DE LISIEUX

"Deus me deu a graça de abrir minha inteligência muito cedo e de gravar tão profundamente em minha memória as lembranças de minha infância que me parece que as coisas que vou contar aconteceram ontem. Sem dúvida, Jesus queria, em seu amor, fazer com que eu conhecesse a Mãe incomparável que Ele me tinha dado, mas que sua mão Divina tinha pressa em coroar no Céu!....

Toda a minha vida Deus agradou-se em cercar-me de amor, minhas primeiras lembranças estão impressas de sorrisos e das carícias mais ter­nas!.... porém se ele tinha colocado perto de mim muito amor, o tinha posto também no meu pequeno coração, criando-o amante e sensível, também amava muito Papai e Mamãe e lhes testemunhava minha ternura de mil maneiras, pois eu era muito expansiva. Somente os meios que eu empregava eram às vezes estranhos, como prova esta passagem de uma car­ta de Mamãe14: — “O bebê é um duende sem igual, ela vem me acariciar desejando-me a morte: ‘Oh! como eu queria que morresses, minha pobre Mãezinha!..’ ralham com ela, ela diz: — ‘É, porém, para que vás para o Céu, pois dizes que é preciso morrer para ir lá’. Ela deseja também a morte de seu pai quando está em seus excessos de amor15!” /

Aos 25 de junho de 1874 quando eu tinha apenas 18 meses, eis o que mamãe dizia de mim16: “Vosso pai acaba de instalar um balanço, Celina é de uma alegria sem igual, mas é preciso ver a pequena balançar-se; é de rir, ela se segura como uma moça, não há perigo que solte a corda, depois quando não está bastante forte, ela grita. Amarram-na pela frente com outra corda e apesar disso não fico tranquila quando a vejo empoleirada lá em cima.

“Aconteceu-me uma aventura esquisita ultimamente com a pequena. Tenho o costume de ir à missa das 5 h ½ , nos primeiros dias não ousava deixá-la, mas vendo que ela nunca despertava, acabei por me decidir deixá-la. Eu a deito na minha cama e aproximo o berço tão perto que é impossível que ela caia, um dia esqueci-me de colocar o berço. Chego e a pequena não estava mais na minha cama; no mesmo momento ouço um grito, olho e a vejo sentada numa cadeira que estava na frente da cabeceira de minha cama, sua cabecinha estava deitada sobre o travesseiro e aí ela dormia um sono ruim porque se sentia incômoda. Não pude entender como ela caiu sentada nessa cadeira, pois estava deitada. Agradeci a Deus por não lhe ter acontecido nada, é verdadeiramente providencial, ela devia ter rolado no chão, seu Anjo velou por ela e as almas do purgatório às quais faço todos os dias uma oração pela pequena a protegeram, eis o que acho disso.... vede como quiserdes!”

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  1. Carta de 5 de dezembro de 1875 da Sra. Martin a sua filha Paulina, então interna na Visitação do Mans, onde a única irmã da Sra. Martin, Maria Luísa, é religiosa, irmã Maria Dositéia (morreu no dia 24 de fevereiro de 1877). Teresa tem três anos menos um mês. Ao redigir, Teresa dispõe desses documentos que ela cita.

  2. Teresa põe, aqui, uma chamada de nota (1), remetendo à nova folha (cortada) que, num segundo tempo, ela inseriu no seu manuscrito e que se tornou, assim, fólio 5r-v. Depois, ela juntará o texto primitivo, embaixo do fólio 4v, às palavras “Eu amava muito”.

  3. Carta da Sra. Martin às suas filhas Maria e Paulina, internas na Visitação do Mans.

 

mar 06

ESPAÇO TEOLÓGICO: CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO – CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO - 

No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO.

E, na continuação, valemo-nos das sábias e didáticas palavras do então Papa Bento XVI, considerado pela crítica acadêmica como um dos maiores teólogos do século XX que, durante seu curto pontificado tratou, dentre tantos outros, deste relevante tema em diversas palestras de natureza catequética, no contexto da CATEQUESE PASTORAL. De tudo, originou-se o Livro A ORAÇÃO, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1], cuja aquisição recomendamos aos nossos leitores, a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca da ORAÇÃO.  

“A LEITURA DA BÍBLIA, ALIMENTO PARA O ESPÍRITO

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Gostaria de continuar hoje o tema ao qual tínhamos dado início, ou seja, uma “escola de oração”, e também hoje, de uma maneira um pouco diversificada, sem me afastar desta temática, referir-me a alguns aspetos de índole espiritual e concreta, que parecem úteis não apenas para quem vive - numa região do mundo - a temporada das férias de verão, como nós, mas inclusive para todos aqueles que estão comprometidos no trabalho diário.

Quando temos um momento de pausa nas nossas atividades, de modo especial durante as férias, muitas vezes pegamos num livro, que desejamos ler. É precisamente este o primeiro aspecto sobre o qual hoje gostaria de meditar. Cada um de nós tem necessidade de momentos e de espaços de recolhimento, de meditação e de calma... Graças a Deus é assim! Com efeito, esta exigência diz-nos que não fomos feitos apenas para trabalhar, mas também para pensar, ponderar ou simplesmente para acompanhar com a mente e o coração uma narração, uma história com a qual nos identificarmos, num certo sentido, “perder-nos”, para depois nos encontrarmos enriquecidos.

Naturalmente, muitos destes livros de leitura que temos nas nossas mãos durante as férias são sobretudo de evasão, e isto é normal. Todavia, várias pessoas, especialmente se podem contar com espaços de pausa e de descanso mais prolongados, dedicam-se à leitura de algo mais comprometedor. Então, gostaria de lançar uma proposta: Porque não descobrir alguns livros da Bíblia, que normalmente não são conhecidos? Ou dos quais, talvez, ouvimos alguns trechos durante a Liturgia, mas que nunca lemos na íntegra?

Com efeito, muitos cristãos já não leem a Bíblia, e têm um seu conhecimento muito limitado e superficial. A Bíblia - como diz o nome - é uma coletânea de livros, uma pequena “biblioteca”, nascida ao longo de um milênio. Alguns destes “livrinhos” que a compõem permanecem quase desconhecidos para a maior parte das pessoas, inclusive de bons cristãos. Alguns são muito breves, como o Livro de Tobias, uma narração que contém um sentido muito elevado da família e do matrimônio; ou o Livro de Ester, em que a rainha judia, com a fé e a oração, salva o seu povo do extermínio; ou ainda mais breve, o Livro de Rute, uma estrangeira que conhece Deus e experimenta a Sua providência. Estes pequenos livros podem ser lidos inteiramente numa hora. Mais exigentes, e autênticas obras-primas, são o Livro de Job, que enfrenta o grande problema da dor inocente; o Qoelet, que impressiona pela modernidade desconcertante com que põe em discussão o sentido da vida e do mundo; o Cântico dos Cânticos, maravilhoso poema simbólico do amor humano. Como vedes, são todos livros do Antigo Testamento. E o Novo? Sem dúvida, o Novo Testamento é mais conhecido, e os seus gêneros literários são menos diversificados. Porém, a beleza da leitura integral do Evangelho deve ser descoberta, assim como recomendo os Atos dos Apóstolos, ou uma das cartas.

Caros amigos, para concluir, hoje gostaria de sugerir que conserveis ao vosso alcance, durante a temporada de verão, ou nos momentos de pausa, a Bíblia Sagrada, para a saborear de modo novo, lendo inteiramente alguns dos seus livros, aqueles menos conhecidos e também os mais famosos, como os evangelhos, mas numa leitura contínua. Assim, os momentos de descanso podem tornar-se, além de um enriquecimento cultural, inclusive um alimento para o espírito, capaz de nutrir o conhecimento de Deus e o diálogo com Ele, a oração. E esta parece ser uma bonita ocupação para as férias: pegar num livro da Bíblia, gozar assim de um pouco de descanso e, ao mesmo tempo, entrar no grande espaço da Palavra de Deus e aprofundar o nosso contato com o Eterno, precisamente como finalidade do tempo livre que o Senhor nos concede.

OS “OÁSIS” DO ESPÍRITO

Em cada época, homens e mulheres que consagraram a sua vida a Deus na oração - como os monges e as monjas - estabeleceram as suas comunidades em lugares particularmente lindos, nos campos, nas colinas, nos vales montanheses, às margens dos lagos ou do mar, ou até mesmo em pequenas ilhas. Estes lugares unem dois elementos muito importantes para a vida contemplativa: a beleza da criação, que remete à do Criador, e o silêncio, garantido pela distância em relação às cidades e às grandes vias de comunicação. O silêncio constitui a condição ambiental que melhor favorece o recolhimento, a escuta de Deus, a meditação. Já o próprio facto de nos deleitarmos com o silêncio, de nos deixarmos por assim dizer “cumular” do silêncio, predispõe-nos para a oração. O grande profeta Elias, no monte Horeb - ou seja, o Sinai - assistiu a um redemoinho, depois a um tremor de terra e finalmente a clarões de fogo, mas não reconheceu neles a voz de Deus; no entanto, reconheceu-a numa brisa ligeira (cf. lRs 19,11-13). Deus fala no silêncio, mas é preciso saber ouvi-LO. Por isso, os mosteiros são um oásis em que Deus fala à humanidade; e neles encontra-se o claustro, lugar simbólico, porque é um espaço fechado, mas aberto para o Céu.

[...]

O silêncio e a beleza do lugar em que vive a comunidade monástica - beleza simples e austera - constituem como que um reflexo da harmonia espiritual que a própria comunidade procura realizar. O mundo está constelado de tais oásis do espírito, alguns muito antigos, particularmente na Europa, outros mais recentes e outros ainda restaurados por novas comunidades. Olhando a realidade numa perspectiva espiritual, estes lugares do espírito são estruturas importantes do mundo! E não é por acaso que muitas pessoas, especialmente nos períodos de pausa, visitam estes lugares, transcorrendo ali alguns dias: graças a Deus, também a alma tem as suas exigências!

[...]

Agora, dirijamo-nos à Virgem Maria, para que nos ensine a amar o silêncio e a oração.

Castel Gandolfo

(Quartas-feiras, 3 e 10 de agosto de 2011). 

Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, vamos prosseguir com este mesmo tema sobre a ORAÇÃO, a fim de que todos e todas sejam, e se sintam, altamente gratificados.

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

out 12

SENHORA DE APARECIDA, OLHA PELO TEU POVO!

SENHORA DE APARECIDA

A SENHORA DE APARECIDA E AS MENSAGENS VINDAS DAS ÁGUAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Deus, na sua esplendorosa sabedoria, no processo de criação deixou ao nosso dispor, e em abundância, quatro elementos essenciais para o ciclo da vida: a água, o fogo, a terra e o ar. Criou-os sem qualquer espetacularidade e sem mesmo qualquer menção especial na narrativa do Livro do Gênesis, à exceção da separação das águas entre si, as de cima e as de baixo, e do elemento árido, terra.

Entretanto, ao longo da caminhada do homem sobre a terra, os quatro elementos têm se revelado vitais. Não apenas para a sobrevivência do ser humano, mas, e, sobretudo, para as diversas manifestações sobrenaturais do Criador e para o constante e infinito ciclo da vida. O homem vem do pó e ao pó retorna. O pó se transforma em húmus e em terra novamente. Na terra, banhada pela água e respirando o ar, germinam e crescem a erva, a verdura e a gramínea que alimentam homens e animais. E assim, sucessivamente, e em constante interdependência, os quatro elementos vão sendo entrelaçados entre si de tal forma, que a vida neles é permanente, sem ruptura e sem trégua. A vida, simplesmente, continua e se renova dia-a-dia, sem fim.

Da terra, os animais, as plantas e os homens. Da água, os peixes (alimento físico), a renovação (pelo dilúvio) e a reconciliação (por meio do batismo); do fogo, a provação (quanto à fidelidade) e a purificação (da alma) e; do ar, a respiração vital para os pulmões e para a força da alma (por meio do  Espírito Santo). Da conjunção destes quatro elementos, a vida, a luz, a força e o poder. Na essência de todos eles, a presença inconfundível de Deus.

Todo este prólogo é apenas para sublinhar que, no embalo das águas de um simples rio (o Paraíba) nasce a mensagem de Aparecida, pelas mãos de três pescadores que precisam de peixes para fazer agrado a gente de patente alta. Diante dos repetidos insucessos no lançamento das redes, que sempre retornam absolutamente vazias, recorrem à Virgem, Santa mãe de Deus, pedindo o auxílio precisado.

A resposta vem na rede, em forma de imagem destituída da cabeça. Causa assombro àqueles homens. No retorno das redes às águas, vem a cabeça que, espantosamente, encaixa-se perfeitamente na imagem deficiente. Era o primeiro milagre presenciado por aqueles pobres pescadores. Porém, o milagre maior estava a caminho: ao lançarem as redes novamente, sobem abarrotadas de peixes. Tantos, que tiveram que levar o barco até a margem para poderem retornar e continuar com o trabalho. Voltando para a cidade (Guaratinguetá), e contando o ocorrido, todo o povo presente compreende que alguma mensagem está sendo transmitida a partir daquela pescaria.

De fato, nasce ali uma devoção muito forte à Virgem que não vinha de cima, do ar, mas, das águas profundas do rio, como a comprovar que, dos elementos vem a vida e desta, mais vida, em vida e depois da vida. Na cor negra, a identificação com a massa de escravos que, então, sofria os horrores de um sistema rejeitado pelo resto do mundo, mas que, por aqui, adornava o colar de bens e de propriedades dos ricos, do clero e do império. Como nos dias de hoje, em relação à reforma agrária, naquele tempo, e em público, todos pareciam contra o sistema escravagista, na prática, porém, ninguém queria abrir mão do seu escravo, propriedade útil e dinâmica.

Pois bem, a Virgem surge como consoladora e intercessora daqueles pobres pescadores, não se sabe se eram escravos ou não, mas que tinham a missão de levar peixes para a festa de um tal Conde de Assumar, então governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro.

No sofrimento e na angústia dos pescadores, missionários a serviço de um Conde que alguns historiadores endeusam e outros demonizam, o sussurro da Virgem, como a dizer: “eis-me aqui, estou com vocês. Relancem suas redes”. A história relembra o Evangelho de São Lucas (Lc 5, 1-11) quando, diante de uma noite inteira de fracassos na pescaria de Simão Pedro, Jesus ordena-lhe avançar para águas mais profundas para conseguir sucesso. Pedro olha para o Mestre meio incrédulo e diz: “apesar de ter passado a noite toda aqui e de não ter conseguido nada, em respeito à tua palavra, vou fazer o que ordenas” e, lançando as redes novamente, agora, em águas mais profundas, quase não consegue chegar até à margem do rio, tamanha a quantidade de peixes apanhada.

A Virgem de Aparecida faz o mesmo, insufla no coração daqueles pescadores a decisão de lançar as redes novamente e... Peixes em abundância!

Das águas do rio, as mensagens para nós: somos todos iguais perante Deus, sem distinção de raças, de credos, de profissão ou de status social; aquele que ora com fé, é atendido sempre e em qualquer circunstância, tempo ou lugar, desde que seja para o bem, individual ou coletivo. E, por fim, é preciso sempre relançar as redes, de preferência em águas mais profundas, onde a vida é exuberante e frondosa, tal qual na própria árvore da vida.

Das águas, o batismo; das águas, a vida; das águas, as mensagens; das águas, a renovação. Estes são os grandes significados trazidos para todos nós, em outubro de 1717 pela Virgem de Aparecida e pelas mãos de Domingos Garcia, de Filipe Pedroso e de João Alves.

Aqueles pescadores trazem a voz das águas. Precisamos captá-la, entendê-la e praticá-la, sempre e em todo lugar, porque sempre somos enviados para buscar peixes para os poderosos (produção, tributação, cumprimento das leis, votos e aplausos) e, quando não obtemos sucesso, só Deus, pela intercessão da Virgem, pode vir em nosso socorro.

Mais de dois séculos depois, o Papa Pio XI proclama Nossa Senhora de Aparecida como Padroeira do Brasil em 1930 (existem divergências quanto à data exata). Padroeira deste País de tantas desigualdades, tantas indiferenças, exclusões e injustiças, mas, também, de tanta gente de fé que, de forma incessante, não deixa de rogar aos céus por sua gente e por seu povo simples, alegre, trabalhador, sofredor e humilde.

Que o Deus Todo-poderoso abençoe os nossos corações, guie os nossos passos e proteja as nossas almas contra todos os males, deixando Nossa Senhora de Aparecida, sempre ao nosso lado, como amiga, como conselheira e como excelente Padroeira. Nós precisamos dela. O Brasil, mais do que nunca, precisa dela. Tal qual os pescadores do século XVIII, façamos nossas orações. Seremos atendidos, e em abundância!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

jun 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO – PARTE II

BÍBLIA - O CAMINHO

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês de junho, vamos continuar apresentando trechos da obra de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confuso e até mesmo obscuro.

Dom Estevão, em linguagem simples e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Prosseguimos, portanto, com o Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

(CONTINUAÇÃO)

*Por Dom Estevão Bettencourt –

2 - O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus.

Já que, após o primeiro pecado, a corrupção se alastrava entre os homens, Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração; desse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. Em vista disto, por volta de 1800 a.C., Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldeia, terra idólatra, para Canaã (Palestina atual), a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gn 12, 1-3).

A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para todas as nações. Daí chamar-se este segundo marco da história “A PROMESSA”.

3 - A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.

O surto do povo de Deus foi confirmado por cerca de 1240 a.C.: tendo Israel caído cativo do Egito, Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã, dando-lhe, por meio de Moisés, uma constituição teocrática.

A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA, aliança, sim, provisória e nacional, travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.

4 - A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.

Por volta de 1020 a.C., Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos, ou seja, a MONARQUIA. Este desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fora governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes), queria um governo menos dependente da Providência insondável do Criador, humanamente mais “garantido”, mais fundado sobre bases que o bom senso pode apreciar (tal é, sem dúvida, a monarquia).

Instaurou-se então o REINO de Israel, que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930).

A própria monarquia, porém, acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte, dito da Samaria, e reino do Sul, dito de Judá. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. Os dois pequenos Estados irmãos, Samaria e Judá, politicamente insignificantes, sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Samaria em 722 se tornou presa dos assírios, ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios.

A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política, que sua missão religiosa não estava necessariamente ligada com sua missão nacional. Israel deveria esperar o REINO... DE DEUS, com tudo que este reino implica de transcendente, de desconcertante para o “filósofo”, um reino tal que “quem não o recebe como uma criancinha, nele não pode entrar” (cf. Mc 10, 15).

5 - Deportados para a Babilônia em 587, os habitantes de Judá sofreram o EXÍLIO. Também este foi altamente pedagógico para o povo de Deus. Privado de todo o aparato exterior (templo, sacrifícios, ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém, os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica da Divindade e da religião, passando a conceber o Criador de modo muito mais puro; a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente...

Em 538 Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus; Javé assim lhes mandou uma “redenção", que ainda era etapa em demanda da Redenção plena, messiânica. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita, a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa; era o chamado RESTO DE ISRAEL. Note-se bem: esse resto se constituía de judeus pobres, humanamente falando, quase malogrados, mas fervorosos adeptos de sua fé; a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio, pois lá haviam adquirido certo bem-estar material, prosperidade humana, que lhes sufocava o fervor teocrático!

6 - Após o exílio, Judá passou a viver como COMUNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro, comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias; infelizmente, porém, oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas, gregos, egípcios, sírios e romanos sucessivamente), os israelitas facilmente confundiam a figura do Messias, Restaurador da ordem religiosa, com a de um Libertador político.

Muito digna de nota é a epopeia dos irmãos Macabeus (165- 134), os quais, vibrando de autêntica piedade, moveram a resistência contra os sírios, que queriam paganizar o povo de Deus.

O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus, contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de pensar; Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus, dos espíritos, a sorte póstuma do homem; foi admitindo outrossim certo universalismo religioso, ou seja, a noção de que os bens messiânicos não se destinam a um povo apenas, mas a todas as nações da terra.

7 - Finalmente na plenitude dos tempos veio o Messias, segundo Adão, que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada.

Da vinda de Cristo em diante, a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus, ou seja, em Pentecostes; prolonga-se já por vinte séculos, não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento, mas unicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). Uma vez completo o número dos que entrarão na bem-aventurança, Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história, induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sobre a morte e as demais consequências do pecado). Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo são tempos de máxima tensão, em que o cristão experimenta o que é “ser” e, ao mesmo tempo, “não ser” filho de Deus, “ter” e, ao mesmo tempo, “não ter” a vida eterna.

[...]

Quanto ao Antigo Testamento em particular, não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula:

“Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda, povo que não tinha gênio metafísico, mas religioso, viveu e aparentemente descobriu a via da salvação: formulou-a pouco a pouco. O Antigo Testamento é a história desse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha, a Promessa, a Aliança, a Monarquia, o Exílio, a Comunidade. As experiências, as tentativas, os reveses, os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. Esse povo nos aparece movido por um ímpeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente, a reconsiderar em nível mais espiritual o que ele viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. O Antigo Testamento é a história desse contínuo ultrapassar-se a si mesmo, desse catecumenato, dessa espiritualização crescente.”

No próximo mês, daremos continuidade a este tema do Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Até lá!!

 

mai 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO

ESPAÇO TEOLÓGICO - 3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

No Espaço Teológico deste mês, vamos trazer para os nossos leitores e leitoras algumas pérolas de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confusa e até mesmo obscura.

Dom Estevão, em linguagem básica e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Na tentativa de poupar os leitores e as leitoras dos aspectos históricos a que se referem as páginas iniciais do livro acima descrito, vamos iniciar já no Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

*Por Dom Estevão Bettencourt –

"Não é raro ouvir-se a pergunta: “Qual o valor que, para o cristão ou, mais largamente, para o homem moderno, possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara; suas histórias e afirmações, à primeira vista, entram em conflito com as normas do Evangelho, da honestidade ou da ciência moderna, provocando “escândalos” de ordem moral ou científica; não se vê, por conseguinte, o proveito que possa acarretar tal leitura.

A questão não é nova. Surgiu mesmo no início da era cristã, quando os homens perceberam que Jesus, o Messias, consumara a Revelação do Antigo Testamento. Assim Marcion, herege do séc. II, rejeitava categoricamente os livros sagrados dos israelitas, julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompatível com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento.

Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. Adolf von Harnack (t 1930), por exemplo, escrevia:

“No séc. II, rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha, que a Grande Igreja fez bem de evitar; no séc. XVI, guardá-lo era uma necessidade fatal, à qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Mas, após o séc. XIX, conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo, como se fosse um documento canônico, é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica”.[1]

A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo, fascismo etc.). Na Alemanha, Rosenberg afirmava que a antiga Bíblia não é mais do que uma “coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros”.

Não obstante as objeções, de aparência por vezes sólida, a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é Palavra de Deus imperecível, significativa, portanto, também para os nossos tempos. Sendo assim, interessa-nos, antes do mais, examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. V e VI); a-seguir, consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura.

§ 1° - DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META

Quem abre o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história, tradições populares, profecias, máximas de sabedoria, cânticos religiosos etc. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. Com efeito, as variadas páginas do Antigo Testamento — diríamos mesmo: de toda a Sagrada Escritura — não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. A aliança é, conforme as páginas iniciais da Bíblia, travada com o primeiro homem logo depois da criação; este, porém, não a soube observar, violou-a; mas Deus, que não se deixa vencer em bondade, prometeu, após a ruptura, restaurar o pacto mediante novo homem dito “o Messias”. Isto faz com que toda a história, de então por diante, tome, do ponto de vista de Deus, o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida, etapas que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. Por conseguinte também, todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história, sejam crônicas, sejam leis, sejam profecias, direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. É isto o que, em última análise, nos leva a dizer que toda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora, ora preparada e anunciada (Antigo Testamento), ora efetuada (Novo Testamento); é, sim, para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual.

Esta afirmação, ainda assaz genérica, pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. Inegavelmente a história que ele nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. Tal aspecto, porém, não constitui senão a periferia do Antigo Testamento; o olho da fé pode e deve discernir, sob a face externa, o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários; deve, em outros termos, procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios, pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fez com que tanta coisa fosse escrita sob o carisma da inspiração. Percorreremos, pois, abaixo, as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico, procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus.

O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gn 1-3) caracterizada por três acontecimentos:

a) a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem;[2]

b) violada, porém, pela criatura;

c) Deus a promete restaurar, estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente, a descendência da mulher e a da serpente (cf. Gn 3, 15). Isto implica que, após a queda original, a história, considerada à luz de Deus, tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado, a serpente e sua linhagem, isto é, todos aqueles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores); de outro lado, a mulher e sua posteridade, isto é, Eva penitente e todos aqueles que, por graça de Deus, não pactuam com a serpente. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos, quando se consumará a vitória do Bem sobre o mal; é o jogo destes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos indivíduos. Eis o aspecto muito simples, mas, ao mesmo tempo, muito dramático, que a história universal tem aos olhos de Deus.

Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história, por mais explicável que pareça à luz de fatores naturais ou mecânicos, carece de caráter religioso; guerras, fomes, doenças foram, sim, introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão; são, pois, manifestações do reino do pecado ou de Satanás; doutro lado, os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor, manifestações ora mais claras, ora menos evidentes do reino de Cristo, tanto no indivíduo como na sociedade.” (Op. Cit. págs. 92/95).

No próximo mês, daremos continuidade a este tema sobre o Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

________________________________________________________ [1] Marcion (Leipzig, 1924), 217. [2] É o autor do Eclo 17, 12 quem fala de aliança concluída no paraíso entre Deus e os primeiros pais.

abr 02

ESPAÇO TEOLÓGICO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO, encerrando-o, pois, com esta edição. Procuramos, nestes três últimos meses (fevereiro, março e abril) apresentar, em linhas gerais, o pensamento e a teologia do Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO.

Além dos textos didáticos do Papa, sugerimos aos leitores e às leitoras a aquisição e a leitura do Livro “A ORAÇÃO”, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1] (à venda nas Livrarias Paulus de todo o Brasil), a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca de tema tão caro na vida de todos os fiéis.  

“ORAÇÃO E SILÊNCIO: JESUS MESTRE DE ORAÇÃO”

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Numa série de catequeses precedentes falei sobre a oração de Jesus e não gostaria de concluir esta reflexão sem meditar brevemente acerca do tema do silêncio de Jesus, tão importante na relação com Deus.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini fiz referência ao papel que o silêncio adquire na vida de Jesus, sobretudo no Gólgota: «Aqui vemo-nos colocados diante da “Palavra da cruz” (cf. ICor 1,18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se “disse” até calar, nada retendo do que nos devia comunicar.» (N.° 12) Diante deste silêncio da cruz, São Máximo, o Confessor, põe nos lábios da Mãe de Deus a seguinte expressão: «Fica sem palavras a Palavra do Pai, O qual fez todas as criaturas que falam; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele por cuja palavra e por cujo aceno se move tudo o que tem vida.»[2] A cruz de Cristo não mostra somente o silêncio de Jesus como Sua última palavra ao Pai, mas revela também que Deus fala por meio do silêncio'. «O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-LO lamentar: “Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46) Avançando na obediência até ao último suspiro de vida, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito.” (Lc 23,46)» (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, n.° 21). A experiência de Jesus na cruz é profundamente reveladora da situação do homem que reza e do ápice da oração: depois de ter ouvido e reconhecido a Palavra de Deus, devemos medir-nos também com o silêncio de Deus, expressão importante da própria Palavra divina.

A dinâmica de palavra e silêncio, que caracteriza a oração de Jesus em toda a Sua existência terrena, sobretudo na cruz, diz respeito também à nossa vida de oração, em duas direções.

A primeira é a que se refere ao acolhimento da Palavra de Deus. E necessário o silêncio interior e exterior, para que tal palavra possa ser ouvida. E este é um ponto particularmente difícil para nós, no nosso tempo. Com efeito, a nossa é uma época na qual não se favorece o recolhimento; aliás, às vezes a impressão é de que as pessoas têm medo de se separar, mesmo por um instante, do rio de palavras e de imagens que marcam e enchem os dias. Por isso, na já mencionada Exortação Verbum Domini recordei a necessidade de nos educarmos para o valor do silêncio: «Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher inseparável da Palavra e do silêncio.» (N.° 66) Este princípio - que sem silêncio não se sente, não se ouve, não se recebe uma palavra - é válido sobretudo para a oração pessoal, mas também para as nossas liturgias: para facilitar uma escuta autêntica, elas devem ser também ricas de momentos de silêncio e de acolhimento não verbal. E sempre válida a observação de Santo Agostinho: Verbo crescente, verba deficiunt - «Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam.» (Cf. Sermo 288, 5: PL 38, 1307; Sermo 120,2: PL 38,677). Os evangelhos apresentam com frequência, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que Se retira totalmente sozinho num lugar afastado das multi­dões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver a Sua relação filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a Sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: voltar a aprender o silêncio, a abertura à escuta, que nos abre ao próximo, à Palavra de Deus.

Porém, há uma segunda importante relação do silên­cio com a oração. Com efeito, não há apenas o nosso silêncio para nos dispor à escuta da Palavra de Deus; muitas vezes, na nossa oração, encontramo-nos diante do silêncio de Deus, experimentamos quase um sentido de abandono, parece-nos que Deus não ouve e não responde. Mas este silêncio de Deus, como aconteceu também para Jesus, não marca a Sua ausência. O cristão sabe bem que o Senhor está presente e escuta, mesmo na escuridão da dor, da rejei­ção e da solidão. Jesus garante aos discípulos e a cada um de nós que Deus conhece bem as nossas necessidades, em qualquer momento da nossa vida. Ele ensina aos discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais, antes que vós Lho peçais» (Mt 6,7- -8): um coração atento, silencioso e aberto é mais impor­tante que muitas palavras. Deus conhece-nos no íntimo, mais do que nós mesmos, e ama-nos: e saber isto deve ser suficiente. Na Bíblia, a experiência de Job é particularmente significativa a este propósito. Em pouco tempo, este homem perde tudo: familiares, bens, amigos e saúde; até parece que a atitude de Deus no que se lhe refere é a do abandono, do silêncio total. E no entanto Job, na sua relação com Deus, fala com Deus, clama a Deus; na sua oração, não obstante tudo, conserva intacta a sua fé e, no fim, descobre o valor da sua experiência e do silêncio de Deus. E assim no final, dirigindo-se ao Criador, pode concluir: «Eu tinha ouvido falar de Ti, mas agora são os meus olhos que Te veem» (Jb 42,5): todos nós conhecemos Deus quase só por ter ouvido falar d’Ele, e quanto mais abertos permanecemos ao Seu e ao nosso silêncio, tanto mais começamos a conhecê-LO realmente. Esta confiança extrema que se abre ao encontro profundo com Deus amadureceu no silêncio. São Francisco Xavier rezava, dizendo ao Senhor: eu amo-Te, não porque podeis conceder-me o paraíso, ou condenar-me ao inferno, mas porque Vós sois o meu Deus. Amo-Vos porque Vós sois Vós!

Aproximando-nos da conclusão das reflexões sobre a oração de Jesus, voltam à mente alguns ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica'. «O drama da oração é-nos plenamente revelado no Verbo que Se faz carne e habita entre nós. Procurar compreender a Sua oração através do que as Suas testemunhas nos dizem dela no Evangelho é aproximar-nos do Santo Senhor Jesus como da sarça ardente: primeiro, contemplando-O a Ele próprio em ora­ção; depois, escutando como Ele nos ensina a rezar para, finalmente, conhecermos como é que Ele atende a nossa oração.» (N.° 2598) E como é que Jesus nos ensina a rezar? No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica encontramos uma resposta clara: «Jesus ensina-nos a rezar, não só com a oração do Pai Nosso» - certamente o ato central do ensi­namento do modo como rezar - «mas também com a Sua própria oração. Assim, para além do conteúdo, ensina-nos as disposições requeridas para uma verdadeira oração: a pureza do coração que procura o Reino e perdoa aos inimigos; a confiança audaz e filial que se estende para além do que sentimos e compreendemos; a vigilância que protege o discípulo da tentação.» (N.° 544)

Percorrendo os evangelhos vimos como o Senhor é, para a nossa oração, interlocutor, amigo, testemunha e mestre. Em Jesus revela-se a novidade do nosso diálogo com Deus: a oração filial, que o Pai espera dos Seus filhos. E de Jesus aprendemos como a oração constante nos ajuda a interpre­tar a nossa vida, a fazer as nossas escolhas, a reconhecer e a acolher a nossa vocação, a descobrir os talentos que Deus nos concedeu, a cumprir diariamente a Sua vontade, único caminho para realizar a nossa existência.

Para nós, muitas vezes preocupados com a eficácia fun­cional e com os resultados concretos que alcançamos, a prece de Jesus indica que temos necessidade de parar, de viver momentos de intimidade com Deus, “desapegando-nos” da confusão de todos os dias, para ouvir, para ir à “raiz” que sus­tenta e alimenta a vida. Um dos momentos mais bonitos da oração de Jesus é precisamente quando Ele, para enfrentar doenças, dificuldades e limites dos Seus interlocutores, Se dirige ao Seu Pai em oração e assim ensina a quantos estão ao Seu redor onde é necessário procurar a fonte para ter esperança e salvação. Já recordei, como exemplo comovedor, a oração de Jesus no túmulo de Lázaro. O evangelista João narra: «Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos para o Céu, disse: “Pai, dou-Te graças por Me teres aten­dido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa das pessoas que Me rodeiam, para que venham a crer que Tu Me enviaste.” Dito isto, bradou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”» (Jo 11,41-43) Mas o ponto mais alto de profundidade na oração ao Pai, Jesus alcança-o no momento da Paixão e Morte, quando pronuncia o extremo «sim» ao desígnio de Deus e mostra como a von­tade humana encontra o seu cumprimento precisamente na adesão plena à vontade divina, e não na oposição. Na oração de Jesus, no Seu brado na Cruz, confluem «todas as desolações da humanidade de todos os tempos, escrava do pecado e da morte, todas as súplicas e intercessões da história da salva­ção. [...] E eis que o Pai as acolhe e atende, para além de toda a esperança, ao ressuscitar o Seu Filho. Assim se cum­pre e se consuma o drama da oração na economia da criação e da salvação.» (Catecismo da Igreja Católica, n.° 2606)

Caros irmãos e irmãs, peçamos com confiança ao Senhor para viver o caminho da nossa oração filial, aprendendo quotidianamente do Filho Unigênito que Se fez homem por nós como deve ser o modo de nos dirigirmos a Deus. As palavras de São Paulo, sobre a vida cristã em geral, são válidas também para a nossa oração: «Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os princi­pados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades nem a altura, nem o abismo nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Nosso Senhor Jesus Cristo.» (Rm 8,38-39).

Praça de São Pedro

(Quarta-feira, 7 de março de 2012)

Terminamos, aqui, a transcrição de alguns trechos dos ensinamentos ao Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO. Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, daremos início a novo tema teológico, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

[2]A vida de Maria, n.° 89: Textos marianos do primeiro milênio, 2, Roma, 1989, p. 253).

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