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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: ESPAÇO TEOLÓGICO

jul 21

MONSENHOR JOSÉ MARIA PEREIRA: REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO

ZÉ MARIA - 2018

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – AÇÃO E CONTEMPLAÇÃO –

*Por  Mons. José Maria Pereira –

O Evangelho, em Lc 10, 38-42, apresenta Jesus a caminho de Jerusalém e que, em Betânia, é recebido em casa de Marta, irmã de Maria e Lázaro, por quem o Senhor havia chorado e a quem havia ressuscitado. Na casa dos três irmãos, que Jesus amava de todo o coração, encontrou Ele a acolhida e o repouso necessários para descansar, depois de uma longa jornada. Lázaro, neste caso, não comparece. Jesus passa pela sua aldeia e – diz o texto – Marta O recebeu em sua casa ( Lc 10, 38 ). Este pormenor dá a entender que, das duas, Marta é a mais idosa, a que governa a casa. De fato, depois de Jesus ter entrado, Maria senta-se aos seus pés e ouve-O, enquanto Marta andava atarefada com muitos serviços, certamente devidos ao Hóspede extraordinário. Parece que vemos a cena: uma irmã que anda toda atarefada, e a outra como que raptada pela Presença do Mestre e das suas palavras. Um pouco depois Marta, evidentemente ressentida, não resiste mais e protesta, sentindo-se até no direito de criticar Jesus: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” Marta pretenderia até ensinar o Mestre! Mas Jesus, com grande calma, responde: “Marta, Marta! ( este nome repetido exprime afeto ). Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” ( Lc 10, 41-42 ). A Palavra de Cristo é claríssima: nenhum desprezo pela vida ativa, nem muito menos pela generosa hospitalidade; mas uma chamada clara ao fato de que a única coisa deveras necessária é outra; ouvir a Palavra do Senhor; e o Senhor, naquele momento está ali, presente na Pessoa de Jesus! Tudo o resto passará e nos será tirado, mas a Palavra de Deus é eterna e dá sentido ao nosso agir cotidiano.  

O diálogo de Jesus com Marta tem um tom familiar cheio de confiança, que nos faz pensar na grande amizade do Senhor com os três irmãos.

Santo Agostinho comenta esta cena da seguinte maneira: “Marta ocupava-se em muitas coisas, dispondo e preparando a refeição do Senhor. Pelo contrário, Maria preferiu alimentar-se do que dizia o Senhor. Não reparou de certo modo na agitação contínua de sua irmã e sentou-se aos pés de Jesus, sem fazer outra coisa senão escutar as Suas palavras. Tinha muito bem compreendido o que diz o Salmo: “Descansai e vede que Eu sou o Senhor” (Sl 46, 11). Marta consumia-se, Maria alimentava-se; aquela abarcava muitas coisas, esta só atendia a uma. Ambas as coisas são boas.”

Por séculos quis-se apresentar Marta e Maria como dois modelos de vida contrapostos: em Maria quis-se representar a contemplação, a vida de união com Deus; em Marta, a vida ativa de trabalho; mas a vida contemplativa não consiste em estar aos pés de Jesus sem fazer nada: isso seria uma desordem! Os afazeres de cada um são precisamente o lugar em que encontramos a Deus, “o eixo sobre o qual assenta e gira a nossa chamada à santidade” (São Josemaria Escrivá). Sem um trabalho sério, consciente, prestigioso, seria muito difícil, para não dizer impossível, ter uma vida interior profunda e exercer um apostolado eficaz no meio do mundo.

A maioria dos cristãos, chamados a santificar-se no meio do mundo, não se podem considerar como dois modos contrapostos de viver o cristianismo. Pois, uma vida ativa que se esqueça da união com Deus é algo inútil e estéril; uma suposta vida de oração que prescinda da preocupação apostólica e da santificação das realidades ordinárias também não pode agradar a Deus. A chave está, pois, em saber unir estas duas vidas, sem prejuízo nem de uma nem de outra. Esta união profunda entre ação e contemplação pode viver-se de modos muito diversos, segundo a vocação concreta que cada um recebe de Deus.

O trabalho, longe de ser obstáculo, há de ser meio e ocasião de uma intimidade afetuosa com Nosso Senhor, que é o mais importante. Ou seja, é no meio de nossos trabalhos cotidianos e através deles, não apesar deles, que Deus convida a maioria dos cristãos a santificar o mundo e a santificação nele, com uma vida transbordante de oração que vivifique e dê sentido a essas tarefas. A um grupo numeroso ensinava S. Josemaria Escrivá: “Deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo nas e a partir das tarefas civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-nos cada dia no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir (…). Não há outro caminho: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não O encontraremos nunca. Por isso, posso afirmar que a nossa época precisa devolver à matéria e às situações aparentemente vulgares o seu sentido nobre e original; pondo-as ao serviço do Reino de Deus, espiritualizando-as, fazendo delas o meio e a ocasião para o nosso encontro contínuo com Jesus Cristo” (Temas Atuais do Cristianismo, nº 114). Temos que chegar ao amor de Maria enquanto levamos a cabo o trabalho de Marta. Pois, o trabalho alimenta a oração e a oração “embebe” o trabalho. E isto até se chegar ao ponto de o trabalho em si mesmo, enquanto serviço feito ao homem e à sociedade, se converter em oração agradável a Deus. Numa palavra, o trabalho é o meio com que nos santificamos.

E isto é o que verdadeiramente importa: encontrar Jesus no meio desses afazeres diários, não esquecer em momento algum “o Senhor das coisas”; e menos ainda quando esses afazeres se referem mais diretamente a Ele, pois, do contrário, talvez acabássemos por realizá-los com a atenção posta em nós mesmos, procurando neles somente a nossa realização pessoal, o gosto ou a mera satisfação de um dever cumprido, e deixando de lado a retidão de intenção, esquecendo o Mestre.

Marta ao acolher Jesus em sua casa também nos ensina que devemos abrir o coração para o próximo, todo o próximo que se aproxima de nós ou de quem nós nos aproximamos. É toda uma atitude de acolhimento entre os esposos, entre pais e filhos, entre irmãos, entre os vizinhos, no trabalho, em nossas comunidades paroquiais etc.

É importante que acolhamos Jesus como Maria, colocando-nos aos seus pés para ouvi-Lo, mas é importante também que O acolhamos como Marta, proporcionando-Lhe descanso e alimento, contanto que tudo seja feito no Senhor.

Que a Virgem Santíssima nos alcance o espírito de trabalho de Marta e a presença de Deus de Maria, daquela que, sentada aos pés de Jesus, escutava embevecida as suas palavras.

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* Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

jul 21

FREI LUDOVICO GARMUS: LEITURA ORANTE

LUDOVICO GARMUS

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – FELIZES OS QUE OBSERVAM A PALAVRA DO SENHOR –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que, repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Gn 18,1-10a

Meu Senhor, não prossigas viagem, sem parar junto a mim, teu servo.

Deus tinha prometido a Abraão que faria dele pai de numerosas nações. Mas os anos iam passando e sua esposa Sara não lhe dava filhos, apesar de o Senhor renovar sua promessa: “É Sara, tua mulher, que te dará um filho, a quem chamarás Isaac” (Gn 17,19). Tempos depois, quando Abraão montou sua tenda junto ao carvalho de Mambré, o próprio Senhor lhe apareceu na figura misteriosa de três viajantes, enquanto descansava na entrada de sua tenda. Logo que os viu correu ao encontro deles para recebê-los. Hospedar viajantes era um dever sagrado entre os beduínos e Abraão o faz com presteza, corre ao encontro deles, prostra-se em sinal de respeito e até suplica para que fiquem com ele. Manda trazer água para lavar os pés, pede a Sara que prepare alguns pães, corre até o rebanho, escolhe um bezerro e manda um criado prepará-lo. Depois, de pé, serve aos visitantes tudo o que foi preparado (cf. Marta/Maria, Evangelho). Os três perguntam-lhe, então, sobre Sara, sua mulher, e Abraão diz que ela está na tenda. E um deles promete: “ao voltar no próximo ano, Sara, tua mulher, já terá um filho”. Abraão hospedou os viajantes com o que de melhor possuía, mas recebeu um dom maior: a promessa do nascimento do filho herdeiro.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 14

Senhor, quem morará em vossa casa?

2. SEGUNDA LEITURA: Cl 1,24-28

O mistério escondido por séculos e gerações,

mas agora revelado aos seus santos.

Paulo não fundou a comunidade de Colossos, mas desejava conhecê-la pessoalmente (2,1). Conhecia-a apenas por meio de Epafras, provável fundador da comunidade. Paulo dita a Carta na prisão, onde estava encarcerado e aguardava a possível morte (cf. 4,18). Alegra-se por estar sofrendo pelos cristãos e vê no sofrimento um modo de “completar o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja”. De fato, Paulo sofria por causa do Evangelho que anunciava; foi expulso de cidades, apedrejado, açoitado e preso várias vezes. Os sofrimentos são causados pela missão de “transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”. A “plenitude” do anúncio da palavra de Deus consiste em completar o que falta aos sofrimentos de Cristo e revelar o mistério de Deus, antes escondido e “agora revelado às nações, isto é, a presença de Cristo em vós, a esperança de glória” [cf. 1ª leitura e Evangelho]. O mistério revelado, segundo Paulo, era que Cristo não veio salvar apenas os judeus, mas todas as nações.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Felizes os que observam a palavra do Senhor,

de reto coração, e que produzem muitos frutos,

até o fim perseverantes!

3. EVANGELHO: Lc 10,38-42

Marta recebeu-o em sua casa.

Maria escolheu a melhor parte.

Estamos acostumados a ler a história de Marta e Maria como um simples fato da vida de Jesus, ou um modelo para “vida ativa” (leigos, sacerdotes, etc.) e “vida contemplativa” (monges e monjas). Mas a Palavra que ouvimos diz muito mais do que isso. Os primeiros cristãos quando recordavam ditos e fatos da vida de Jesus liam-nos a partir da vida concreta das comunidades. É o que Lucas também faz quando escreve o Evangelho e os Atos dos Apóstolos depois dos anos 70. Nos Atos, Lucas fala do crescimento rápido do número dos fiéis em Jerusalém. Os apóstolos já não davam conta de atender a todas as necessidades, sobretudo, das viúvas pobres de origem grega (At 6). Escolheram então sete diáconos, todos de origem grega, para cuidarem das viúvas gregas, “esquecidas no serviço diário”. A eles – diziam – “confiaremos esse serviço e nós continuaremos a dedicar-nos à oração e ao ministério da palavra”. Era uma divisão de trabalho; os diáconos cuidariam do serviço social da comunidade enquanto os apóstolos cuidariam da pregação e do culto. Na realidade, alguns diáconos não se contentaram em cuidar apenas da parte social. Assim, vemos Estêvão pregando em Jerusalém e Filipe em Samaria (cf. At 7–8). Havia na Igreja, portanto, certa tensão entre os dois ministérios, a pregação e o atendimento aos pobres. Este é o pano de fundo para lermos a cena de Jesus na casa de Marta e Maria.

Marta, em aramaico, significa senhora ou dona de casa. O nome na mentalidade semita indica a missão ou vocação de uma pessoa. Algumas senhoras, donas de casa, costumavam hospedar os apóstolos itinerantes, como Paulo (At 16,13; 18,1-4). Maria, por sua vez, significa “a excelsa”, sublime, elevada. Ela optou pela “parte melhor” ao assentar-se aos pés de Jesus numa atitude de discípula, para ouvir seus ensinamentos Marta é advertida porque a atividade exagerada podia afastá-la da escuta da palavra do Senhor. No seu modo de acolher e servir a Jesus, Marta acha que o melhor era preparar uma boa comida para o mestre. Quer chamar a atenção de Jesus sobre o que ela faz, – 1ª leitura: Sara prepara a comida e Abraão dá toda a atenção aos seus hóspedes – e de certa forma exige que Ele a libere para ajudá-la. Jesus repreende a distraída agitação de Marta e louva Maria, que escolheu a parte melhor. Marta se agita para oferecer a melhor acolhida a Jesus. Maria volta toda sua atenção para Jesus, abre o coração para ouvir seus ensinamentos e assim recebe o dom da palavra de Deus. Hospedar alguém, mais do um dar alguma coisa, é estar recebendo. “Hospitalidade é ‘receber’ uma pessoa: o hóspede é um dom de Deus” (Konings). Mais oferece ao hóspede quem o escuta. Não se trata de uma contradição entre vida ativa e contemplativa. São duas maneiras de amar próximo: servindo-o e escutando-o (Voigt).

Com quem eu pareço mais, com Marta ou com Maria? Como podemos chegar a um equilíbrio entre o serviço ao próximo e a escuta do Senhor? ______________________________________________________

* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 03

“SALVE CHEIA DE GRAÇA; O SENHOR É CONTIGO”

MARIA E O ANJO

MARIA, VERDADEIRAMENTE CHEIA DE GRAÇA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Algumas pessoas, talvez até conduzidas e induzidas por maus orientadores, costumam afirmar que Maria, mãe de Jesus, deve ser tratada como uma mulher absolutamente comum, igual a todos os demais seres humanos. Afirmam que ela apenas cumpriu uma vontade de Deus e que, nada de mais fenomenal teria acontecido na vida daquela pequena, simples e pobre menina do interior da Galileia.

Esta questão, na verdade, é um divisor de águas entre muitos cristãos que, em razão das diversas denominações reinantes, insistem em olhar para Maria de Nazaré como uma simples mulher, pecadora como qualquer outro ser humano, sem perceber nada de especial. Como se Deus fosse capaz de conceder uma graça tão especial – dar à luz o seu Filho Unigênito – a uma mulher qualquer, como se Ele agisse feito um Ditador que, olhando para os seus súditos, escolhe à esmo aquele ou aquela a quem encaminhar para o sacrifício.

A leitura da Bíblia não parece dar razão a tais pessoas. Em primeiro lugar, a salvação dos homens é projeto eterno e, desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso terrestre, Deus tratou de deixar bem claro para a serpente que haveria inimizade entre a posteridade dela e a da mulher que, por fim “te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar” (Gn 3, 15).

A posteridade da serpente é a que bem conhecemos, ou seja, é a do pecado, da morte e da perdição. A posteridade da mulher, ao contrário, é a da santificação e a da salvação para a vida eterna, atributos que só chegam ao mundo e aos seres humanos por meio do Verbo encarnado, a respeito do qual falaram os profetas ao longo de todo o Antigo Testamento, com maior ênfase para Isaías que, melhor do que ninguém, soube retratar a figura do Ungido de Deus.

Entretanto, ninguém pode, jamais, conceber a ideia de que o Filho de Deus teria encarnado no ventre de uma mulher pecadora, como qualquer outra do seu tempo. Aquela da qual nasceria a posteridade adversária da serpente teria que, necessariamente, ser e estar isenta de todo pecado; seu ventre, tal qual templo sagrado e purificado, teria de estar assim preparado para receber, aconchegar e gestar o Verbo de Deus, para a aquisição da perfeita natureza humana que, como sabemos, deriva de Maria.

Não é em vão ou sem propósito que o Anjo Gabriel, ao se aproximar de Maria, saúda-a efusivamente: “Deus te salve cheia de graça; o Senhor é contigo” (Lc 1, 28). Ora, o anjo enviado por Deus tinha pleno conhecimento de estar diante de uma pessoa absolutamente especial, porque a missão a ele atribuída era a de comunicar a Maria sobre a escolha de Deus. Ele não precisava chamá-la de “cheia de graça”, ou dizer que “o Senhor é contigo”. Bastava-lhe, apenas transmitir a mensagem divina.

Mas, não. O anjo faz questão de saudar Maria como serva especialíssima, “cheia de graça”, em quem o Senhor está e em quem o Espírito Santo agirá como jamais agiu sobre qualquer outro ser humano: “O Espírito Santo” diz o anjo, “descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”. Mas, a fala do anjo é mais profunda ainda, ao afirmar que “o Santo que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus”.

A esse respeito, Réginald Garrigou-Lagrange (1909 – 1964), considerado, ao lado do protestante Karl Barth, um dos maiores Teólogos do século XX, afirma que: “Enquanto que os anjos não manifestam sua reverência aos homens, porque eles lhes são superiores como espíritos puros e porque vivem sobrenaturalmente na santa familiaridade de Deus, o arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, se mostra cheio de respeito e de veneração, pois compreendia que ela o ultrapassava pela plenitude de graça, pela intimidade com o Altíssimo e por uma perfeita pureza”[1].

Ora, os filhos dos homens são filhos do pecado, do qual só conseguem se livrar por meio do Batismo e da confissão de que Jesus Cristo é o Salvador. Jesus, ao contrário, é Santo, nasce Santo porque é Filho de Deus e porque, sua encarnação humana é concretizada em corpo absolutamente Santo. Deus jamais permitiria que o seu Verbo encarnasse em um corpo maculado pela mancha do pecado. Maria, desde antes da concepção, é isenta de toda a mancha do pecado, justamente por ser ela, exatamente como reconhecido pelo anjo, “cheia de graça”. Nela, a graça de Deus abundou mais do que em qualquer anjo ou santo, porque ela é a verdadeira Arca da Nova Aliança. Não uma arca qualquer, mas, a exemplo da Arca da primeira Aliança, ela é de ouro finíssimo, especialmente preparada desde toda a eternidade para trazer à luz o Filho de Deus, verdadeira luz das nações e salvação para todos os homens.

A natureza humana de Jesus é formada por um corpo absolutamente incorruptível, puro e limpo de qualquer mácula. Um corpo santo que, só possui estas características, a partir do corpo da própria mãe. O Verbo é divino, mas o corpo é humano e, como tal, formado e gestado a partir da vida e do sangue de Maria, de quem adquire a natureza verdadeiramente humana. Jesus, mais tarde, vai afirmar que “cada árvore se conhece pelo seu fruto; pois nem se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas de um abrolho” (Lc 6, 44).

Portanto, a santidade e a pureza humanas de Jesus decorrem da descendência de Maria, sua Imaculada Mãe. Não sem propósito nós, católicos, não cessamos de saudá-la “cheia de graça, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”.

Maria tem lugar privilegiado na economia da salvação e, justamente por estar, e por ser, “cheia de graça” e, consequentemente, cheia do Espírito Santo, ela mesma declara: “de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. Maria não participa da Santíssima Trindade, mas, evidentemente, relaciona-se com ela como ninguém jamais se relacionou. Em Maria, Deus age diretamente, concedendo-lhe graça especial e abundante; de Maria nasce o Salvador e, em Maria o Espírito Santo desce e cobre-a com a virtude do Altíssimo. Nela se concretiza a relação intima e perfeita entre a “serva do Senhor” e o Deus Uno e Trino.

Querer comparar Maria com uma pessoa qualquer, sem nela reconhecer a graça que o próprio anjo reconhece; sem querer chamá-la “bem-aventurada”, conforme descrito pelo evangelista Lucas, enxergando nela a figura de uma simples pecadora, como qualquer outro mortal, é, no mínimo, demonstrar desrespeito para com o próprio Deus, que jamais deixaria que seu Verbo se encarnasse em ambiente contaminado pelo pecado. Contaminado com o sangue pecaminoso que corre nas veias de todos os filhos de Adão, ainda que se queira acreditar que a descendência de Abraão é mais santa, ou menos pecadora.

Agir assim, é demonstrar, também, absoluta falta de raciocínio e de conhecimento teológico, desprezando, inclusive, as narrativas do Evangelho de Lucas, que narra o encontro de Maria com Isabel, sua prima, quando o futuro precursor – João Batista – ainda em gestação, salta de alegria no ventre da mãe, ao ouvir e identificar a voz de Maria.

Muito e muito ainda pode ser falado sobre Maria, cuja santidade ultrapassa a de todos os santos, porque não precisou chegar ao final da vida terrena para receber as graças que os santos normalmente recebem. Ela, desde sempre, é cheia de graça. Observe-se que o anjo Gabriel não afirma: “serás cheia de graça”, mas, “Salve, cheia de graça”. Ou seja, ela não receberá a graça, mas, já é cheia de graça, antes mesmo de receber a virtude do Espírito Santo. Deus cumulou-a com dignidade e com graça especialíssimas, que a nenhum outro ser vivente foram dadas. A graça a ela concedida só não é maior do que a do próprio Filho, porque é Deus.

Portanto, seria bom que os cristãos, de qualquer denominação ou profissão de fé, refletissem um pouco mais, e melhor, antes de tratar a mãe de Deus como uma simples mulher pecadora, igual a todos e a cada um de nós, verdadeiros pecadores, pobres mortais e carentes da graça do Altíssimo. Nós que somos exortados pelo Apóstolo Paulo a zelar pela santidade do nosso próprio corpo, verdadeiro templo do Espírito Santo, e a demonstrar que somos carentes da graça propiciadora da presença do Divino Espírito Santo, o que, evidentemente, e em conformidade com o Evangelho, não aconteceu com Maria que, no tempo apropriado recebeu diretamente em si a presença e a ação do Espírito Santo, pois já era, abundantemente, agraciada pelo Altíssimo.

Com tamanha graça e digna da intimidade e da familiaridade com o Altíssimo, podemos e devemos, tal qual fez o anjo, respeitar e reverenciar Maria, enxergando nela a voz que, ao lado do Filho Jesus, assim como nas bodas de Caná, clama por todos nós, pecadores e, certamente que, de Jesus obtém tudo o que pede porque Ele, mais do que qualquer outro filho, soube amar a mãe até na hora da morte, deixando-a aos cuidados do discípulo amado sem, com isso, e de forma alguma, interromper a graça com a qual Deus a premiou desde antes da própria concepção (eternamente). Portanto, reflita um pouco mais, sobre o que pensa e anda dizendo a respeito da mãe Daquele que você afirma ser o seu Salvador. O desprezo, a falta de respeito e de reverência para com ela podem ter um preço desconhecido.

____________________________________________________ [1] GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald – A Mãe do Salvador e Nossa Vida Interior. Campinas-SP. Ecclesiae: 2017. P. 58.

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

     

jun 01

TERESA DE LISIEUX – DOUTORA DA IGREJA

TERESA DE LISIEUX - 2019

HISTÓRIA DE UMA ALMA – TERESA DE LISIEUX

"Deus me deu a graça de abrir minha inteligência muito cedo e de gravar tão profundamente em minha memória as lembranças de minha infância que me parece que as coisas que vou contar aconteceram ontem. Sem dúvida, Jesus queria, em seu amor, fazer com que eu conhecesse a Mãe incomparável que Ele me tinha dado, mas que sua mão Divina tinha pressa em coroar no Céu!....

Toda a minha vida Deus agradou-se em cercar-me de amor, minhas primeiras lembranças estão impressas de sorrisos e das carícias mais ter­nas!.... porém se ele tinha colocado perto de mim muito amor, o tinha posto também no meu pequeno coração, criando-o amante e sensível, também amava muito Papai e Mamãe e lhes testemunhava minha ternura de mil maneiras, pois eu era muito expansiva. Somente os meios que eu empregava eram às vezes estranhos, como prova esta passagem de uma car­ta de Mamãe14: — “O bebê é um duende sem igual, ela vem me acariciar desejando-me a morte: ‘Oh! como eu queria que morresses, minha pobre Mãezinha!..’ ralham com ela, ela diz: — ‘É, porém, para que vás para o Céu, pois dizes que é preciso morrer para ir lá’. Ela deseja também a morte de seu pai quando está em seus excessos de amor15!” /

Aos 25 de junho de 1874 quando eu tinha apenas 18 meses, eis o que mamãe dizia de mim16: “Vosso pai acaba de instalar um balanço, Celina é de uma alegria sem igual, mas é preciso ver a pequena balançar-se; é de rir, ela se segura como uma moça, não há perigo que solte a corda, depois quando não está bastante forte, ela grita. Amarram-na pela frente com outra corda e apesar disso não fico tranquila quando a vejo empoleirada lá em cima.

“Aconteceu-me uma aventura esquisita ultimamente com a pequena. Tenho o costume de ir à missa das 5 h ½ , nos primeiros dias não ousava deixá-la, mas vendo que ela nunca despertava, acabei por me decidir deixá-la. Eu a deito na minha cama e aproximo o berço tão perto que é impossível que ela caia, um dia esqueci-me de colocar o berço. Chego e a pequena não estava mais na minha cama; no mesmo momento ouço um grito, olho e a vejo sentada numa cadeira que estava na frente da cabeceira de minha cama, sua cabecinha estava deitada sobre o travesseiro e aí ela dormia um sono ruim porque se sentia incômoda. Não pude entender como ela caiu sentada nessa cadeira, pois estava deitada. Agradeci a Deus por não lhe ter acontecido nada, é verdadeiramente providencial, ela devia ter rolado no chão, seu Anjo velou por ela e as almas do purgatório às quais faço todos os dias uma oração pela pequena a protegeram, eis o que acho disso.... vede como quiserdes!”

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  1. Carta de 5 de dezembro de 1875 da Sra. Martin a sua filha Paulina, então interna na Visitação do Mans, onde a única irmã da Sra. Martin, Maria Luísa, é religiosa, irmã Maria Dositéia (morreu no dia 24 de fevereiro de 1877). Teresa tem três anos menos um mês. Ao redigir, Teresa dispõe desses documentos que ela cita.

  2. Teresa põe, aqui, uma chamada de nota (1), remetendo à nova folha (cortada) que, num segundo tempo, ela inseriu no seu manuscrito e que se tornou, assim, fólio 5r-v. Depois, ela juntará o texto primitivo, embaixo do fólio 4v, às palavras “Eu amava muito”.

  3. Carta da Sra. Martin às suas filhas Maria e Paulina, internas na Visitação do Mans.

 

jun 01

LUZES SOBRE A PATRÍSTICA

farol de alexandria - 2– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE -

Estamos dando ênfase a algumas matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo pequena parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.

Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

Sobre Orígenes, Eusébio de Cesareia destaca que:

“1. Quem tentar transmitir longamente por escrito sua vida terá muito a dizer e a narração completa exigiria uma obra particular. No entanto, no momento, resumiremos a maioria dos fatos tão brevemente quanto possível e o pouco que dissermos, nós o explanaremos segundo as cartas e o relato de seus familiares sobreviventes entre nós.

2. No tocante a Orígenes, por assim dizer, é digno de memória, a meu ver, mesmo o tempo em que esteve envolvido em faixas. Era no décimo ano do reinado de Severo; Laeto governava Alexandria e o restante do Egito; Demétrio, por sua vez, tinha recentemente obtido, após Juliano, o episcopado das comunidades deste país.

3. O incêndio da perseguição se propagava então, e milhares de fiéis haviam cingido a coroa do martírio. Tal paixão pelo martírio se apossou da alma de Orígenes, ainda menino, que era para ele prazer ir ao encontro dos perigos, saltar e lançar-se à luta.

4. Pouco faltou para que perdesse a vida, mas a divina e celeste Providência, para o bem da maioria dos fiéis, pôs obstáculos a seu ardor, por meio da mãe.

5. Esta suplicou primeiro por palavras, exortando-o a se compadecer de seu amor materno; mas vendo-o ainda mais impetuosamente inclinado ao martírio, ao ter conhecimento da prisão e encarceramento do pai, e completamente tomado do desejo do martírio, escondeu todas as suas vestes, obrigando-o a ficar em casa.

6. Ele, porém, nada mais podendo fazer, e como o desejo intensificado, bem acima de sua idade, não o deixava ficar inativo, enviou ao pai uma carta cheia de exortações ao martírio, na qual o encorajava, dizendo textualmente: “Cuida de não mudar de opinião por nossa causa”. Seja isto anotado por escrito como primeira prova da vivacidade de espírito de Orígenes, ainda menino, e de sua adesão segura à religião.

7. Entretanto, ele já havia lançado sólidos fundamentos no conhecimento da fé, exercitando-se desde a infância nas divinas Escrituras. A estas se aplicara diligentemente, em medida extraordinária, pois seu pai, não contente de fazer com que passasse pelo ciclo dos estudos, não havia considerado supérflua a solicitude pelas Escrituras.

8. Acima de tudo, portanto, antes de se dedicar às disciplinas helênicas, ele o havia levado a exercitar-se nos estudos sagrados, exigindo diariamente dele recitações e prestação de contas.

9. E isto não desagradava ao menino, que, ao contrário, trabalhava com zelo excessivo, de tal sorte que não lhe bastava conhecer o sentido simples e óbvio das Escrituras Sagradas, mas já procurava, desde aquela ocasião, algo mais, querendo descobrir uma visão mais profunda. Chegava mesmo a deixar o pai embaraçado, fazendo-lhe perguntas sobre o que queria indicar a Escritura divinamente inspirada.

10. Este, exteriormente, fingia repreendê-lo, exortando-o a não procurar saber o que estava acima de sua idade ou além do sentido óbvio. Mas, interiormente, sentia intensa alegria, dando muitas graças a Deus, causa de todos os bens, por ter merecido ser pai de tal filho.

11. Diz-se que parava muitas vezes junto do filho adormecido, descobria-lhe o peito, íntima habitação do Espírito divino, beijava-o respeitosamente, considerando-se feliz pela ótima prole que possuía. Conta-se sobre a infância de Orígenes estas e muitas outras coisas análogas.

12. Quando o pai consumou o martírio, ficou sozinho com a mãe e seis irmãos menores. Não tinha mais do que dezessete anos.

13. Como a fortuna paterna fora confiscada pelos agentes do tesouro imperial, ele encontrou-se com os seus na carência das coisas necessárias à subsistência. Mas dignou-se a providência divina cuidar dele. Encontrou acolhimento, bem como tranquilidade junto de uma senhora riquíssima de recursos materiais e muito ilustre, mas que tratava com grande consideração um homem famoso entre os hereges que então viviam em Alexandria. Era antioqueno de nascença; ela o tinha na conta de filho adotivo, cercando-o inteiramente de cuidados.

14. Mas Orígenes, que forçosamente tinha de conviver com ele, desde então deu provas brilhantes de fé ortodoxa. Enquanto Paulo (assim ele se chamava), aparentando eloquência, reunia junto de si uma inumerável turba, não apenas de hereges, mas ainda dos nossos, Orígenes jamais consentiu em unir-se a ele para a oração, mantendo desde a infância a norma da Igreja e tinha horror, segundo sua própria expressão, das doutrinas heréticas.

15. Iniciado pelo pai nas disciplinas helênicas, após a morte deste último, ele se entregou com maior ardor e inteiramente ao exercício das letras, de sorte que veio a possuir pouco tempo após a morte do pai, uma preparação suficiente nos conhecimentos gramaticais e consagrando-se a eles, acumulou, ao menos para sua idade, a base necessária.

Ainda jovem, ensinava a doutrina de Cristo

1. Enquanto ele estava ocupado no ensino, conforme ele próprio relata em alguma parte por escrito, ninguém se dedicava em Alexandria à catequese, mas todos de lá haviam fugido pela ameaça da perseguição; alguns pagãos, contudo, procuraram-no para ouvir a palavra de Deus.

2. Denota que o primeiro dentre eles foi Plutarco, que, após uma vida louvável, foi ornado com o martírio divino; o segundo, Héraclas, irmão de Plutarco que, também, deu depois dele grande exemplo de vida filosófica e ascética e que, em seguida a Demétrio, foi considerado digno do episcopado em Alexandria.

3. Orígenes tinha dezoito anos ao começar a dirigir a escola de catequese; progrediu muito na ocasião das perseguições sob Áquila, governador de Alexandria, e seu nome tornou-se extremamente célebre, junto de todos aqueles cuja fé ele estimulava, por causa do acolhimento e zelo por ele manifestados para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos.

4. Pois, não os assistia apenas na prisão, nem só quando interrogados e condenados, mas ainda depois da sentença final, com a maior audácia e expondo-se ao perigo, ficava junto deles ao serem os santos mártires levados para a morte. Assim, quando ele avançava corajosamente e com grande ousadia saudava os mártires com um beijo, acontecia frequentemente que o povo pagão que os cercava se enfurecia e estava a ponto de se precipitar sobre ele, mas estendia-se a mão de Deus para socorrê-lo e fazer com que milagrosamente escapasse. A mesma graça divina e celeste o protegeu em milhares de circunstâncias e é impossível dizer quantas vezes, quando ele se expunha às ciladas por seu ardor e ousadia excessivos em prol da doutrina de Cristo. E tão grande era a guerra que os infiéis lhe faziam, que se reuniam e punham guardas em volta da casa onde ele estava por causa da multidão daqueles aos quais ensinava as questões pertinentes à sagrada fé.”

Ainda, por meio de Eusébio de Cesareia, temos muito a relatar sobre a vida, a doutrina e a obra de Orígenes, isso, sem mencionar os outros autores aos quais já nos referimos no topo da página que, certamente, serão trazidos para apresentarem seus conhecimentos sobre a trajetória desse personagem tão rico, tão sábio, tão santo e que tantos exemplos deixou para as gerações que lhe sucederam, chegando até nós.

Em breve faremos outras publicações relativas ao período patrístico, a fim de melhor informar nossos leitores sobre a importância que os Pais da Igreja tiveram, para que a Igreja de Cristo saísse dos séculos sombrios e chegasse ao século XXI, apesar de todos os desafios impostos na atualidade.

mar 06

ESPAÇO TEOLÓGICO: CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO – CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO - 

No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO.

E, na continuação, valemo-nos das sábias e didáticas palavras do então Papa Bento XVI, considerado pela crítica acadêmica como um dos maiores teólogos do século XX que, durante seu curto pontificado tratou, dentre tantos outros, deste relevante tema em diversas palestras de natureza catequética, no contexto da CATEQUESE PASTORAL. De tudo, originou-se o Livro A ORAÇÃO, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1], cuja aquisição recomendamos aos nossos leitores, a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca da ORAÇÃO.  

“A LEITURA DA BÍBLIA, ALIMENTO PARA O ESPÍRITO

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Gostaria de continuar hoje o tema ao qual tínhamos dado início, ou seja, uma “escola de oração”, e também hoje, de uma maneira um pouco diversificada, sem me afastar desta temática, referir-me a alguns aspetos de índole espiritual e concreta, que parecem úteis não apenas para quem vive - numa região do mundo - a temporada das férias de verão, como nós, mas inclusive para todos aqueles que estão comprometidos no trabalho diário.

Quando temos um momento de pausa nas nossas atividades, de modo especial durante as férias, muitas vezes pegamos num livro, que desejamos ler. É precisamente este o primeiro aspecto sobre o qual hoje gostaria de meditar. Cada um de nós tem necessidade de momentos e de espaços de recolhimento, de meditação e de calma... Graças a Deus é assim! Com efeito, esta exigência diz-nos que não fomos feitos apenas para trabalhar, mas também para pensar, ponderar ou simplesmente para acompanhar com a mente e o coração uma narração, uma história com a qual nos identificarmos, num certo sentido, “perder-nos”, para depois nos encontrarmos enriquecidos.

Naturalmente, muitos destes livros de leitura que temos nas nossas mãos durante as férias são sobretudo de evasão, e isto é normal. Todavia, várias pessoas, especialmente se podem contar com espaços de pausa e de descanso mais prolongados, dedicam-se à leitura de algo mais comprometedor. Então, gostaria de lançar uma proposta: Porque não descobrir alguns livros da Bíblia, que normalmente não são conhecidos? Ou dos quais, talvez, ouvimos alguns trechos durante a Liturgia, mas que nunca lemos na íntegra?

Com efeito, muitos cristãos já não leem a Bíblia, e têm um seu conhecimento muito limitado e superficial. A Bíblia - como diz o nome - é uma coletânea de livros, uma pequena “biblioteca”, nascida ao longo de um milênio. Alguns destes “livrinhos” que a compõem permanecem quase desconhecidos para a maior parte das pessoas, inclusive de bons cristãos. Alguns são muito breves, como o Livro de Tobias, uma narração que contém um sentido muito elevado da família e do matrimônio; ou o Livro de Ester, em que a rainha judia, com a fé e a oração, salva o seu povo do extermínio; ou ainda mais breve, o Livro de Rute, uma estrangeira que conhece Deus e experimenta a Sua providência. Estes pequenos livros podem ser lidos inteiramente numa hora. Mais exigentes, e autênticas obras-primas, são o Livro de Job, que enfrenta o grande problema da dor inocente; o Qoelet, que impressiona pela modernidade desconcertante com que põe em discussão o sentido da vida e do mundo; o Cântico dos Cânticos, maravilhoso poema simbólico do amor humano. Como vedes, são todos livros do Antigo Testamento. E o Novo? Sem dúvida, o Novo Testamento é mais conhecido, e os seus gêneros literários são menos diversificados. Porém, a beleza da leitura integral do Evangelho deve ser descoberta, assim como recomendo os Atos dos Apóstolos, ou uma das cartas.

Caros amigos, para concluir, hoje gostaria de sugerir que conserveis ao vosso alcance, durante a temporada de verão, ou nos momentos de pausa, a Bíblia Sagrada, para a saborear de modo novo, lendo inteiramente alguns dos seus livros, aqueles menos conhecidos e também os mais famosos, como os evangelhos, mas numa leitura contínua. Assim, os momentos de descanso podem tornar-se, além de um enriquecimento cultural, inclusive um alimento para o espírito, capaz de nutrir o conhecimento de Deus e o diálogo com Ele, a oração. E esta parece ser uma bonita ocupação para as férias: pegar num livro da Bíblia, gozar assim de um pouco de descanso e, ao mesmo tempo, entrar no grande espaço da Palavra de Deus e aprofundar o nosso contato com o Eterno, precisamente como finalidade do tempo livre que o Senhor nos concede.

OS “OÁSIS” DO ESPÍRITO

Em cada época, homens e mulheres que consagraram a sua vida a Deus na oração - como os monges e as monjas - estabeleceram as suas comunidades em lugares particularmente lindos, nos campos, nas colinas, nos vales montanheses, às margens dos lagos ou do mar, ou até mesmo em pequenas ilhas. Estes lugares unem dois elementos muito importantes para a vida contemplativa: a beleza da criação, que remete à do Criador, e o silêncio, garantido pela distância em relação às cidades e às grandes vias de comunicação. O silêncio constitui a condição ambiental que melhor favorece o recolhimento, a escuta de Deus, a meditação. Já o próprio facto de nos deleitarmos com o silêncio, de nos deixarmos por assim dizer “cumular” do silêncio, predispõe-nos para a oração. O grande profeta Elias, no monte Horeb - ou seja, o Sinai - assistiu a um redemoinho, depois a um tremor de terra e finalmente a clarões de fogo, mas não reconheceu neles a voz de Deus; no entanto, reconheceu-a numa brisa ligeira (cf. lRs 19,11-13). Deus fala no silêncio, mas é preciso saber ouvi-LO. Por isso, os mosteiros são um oásis em que Deus fala à humanidade; e neles encontra-se o claustro, lugar simbólico, porque é um espaço fechado, mas aberto para o Céu.

[...]

O silêncio e a beleza do lugar em que vive a comunidade monástica - beleza simples e austera - constituem como que um reflexo da harmonia espiritual que a própria comunidade procura realizar. O mundo está constelado de tais oásis do espírito, alguns muito antigos, particularmente na Europa, outros mais recentes e outros ainda restaurados por novas comunidades. Olhando a realidade numa perspectiva espiritual, estes lugares do espírito são estruturas importantes do mundo! E não é por acaso que muitas pessoas, especialmente nos períodos de pausa, visitam estes lugares, transcorrendo ali alguns dias: graças a Deus, também a alma tem as suas exigências!

[...]

Agora, dirijamo-nos à Virgem Maria, para que nos ensine a amar o silêncio e a oração.

Castel Gandolfo

(Quartas-feiras, 3 e 10 de agosto de 2011). 

Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, vamos prosseguir com este mesmo tema sobre a ORAÇÃO, a fim de que todos e todas sejam, e se sintam, altamente gratificados.

_________________________________________________
[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

out 12

SENHORA DE APARECIDA, OLHA PELO TEU POVO!

SENHORA DE APARECIDA

A SENHORA DE APARECIDA E AS MENSAGENS VINDAS DAS ÁGUAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Deus, na sua esplendorosa sabedoria, no processo de criação deixou ao nosso dispor, e em abundância, quatro elementos essenciais para o ciclo da vida: a água, o fogo, a terra e o ar. Criou-os sem qualquer espetacularidade e sem mesmo qualquer menção especial na narrativa do Livro do Gênesis, à exceção da separação das águas entre si, as de cima e as de baixo, e do elemento árido, terra.

Entretanto, ao longo da caminhada do homem sobre a terra, os quatro elementos têm se revelado vitais. Não apenas para a sobrevivência do ser humano, mas, e, sobretudo, para as diversas manifestações sobrenaturais do Criador e para o constante e infinito ciclo da vida. O homem vem do pó e ao pó retorna. O pó se transforma em húmus e em terra novamente. Na terra, banhada pela água e respirando o ar, germinam e crescem a erva, a verdura e a gramínea que alimentam homens e animais. E assim, sucessivamente, e em constante interdependência, os quatro elementos vão sendo entrelaçados entre si de tal forma, que a vida neles é permanente, sem ruptura e sem trégua. A vida, simplesmente, continua e se renova dia-a-dia, sem fim.

Da terra, os animais, as plantas e os homens. Da água, os peixes (alimento físico), a renovação (pelo dilúvio) e a reconciliação (por meio do batismo); do fogo, a provação (quanto à fidelidade) e a purificação (da alma) e; do ar, a respiração vital para os pulmões e para a força da alma (por meio do  Espírito Santo). Da conjunção destes quatro elementos, a vida, a luz, a força e o poder. Na essência de todos eles, a presença inconfundível de Deus.

Todo este prólogo é apenas para sublinhar que, no embalo das águas de um simples rio (o Paraíba) nasce a mensagem de Aparecida, pelas mãos de três pescadores que precisam de peixes para fazer agrado a gente de patente alta. Diante dos repetidos insucessos no lançamento das redes, que sempre retornam absolutamente vazias, recorrem à Virgem, Santa mãe de Deus, pedindo o auxílio precisado.

A resposta vem na rede, em forma de imagem destituída da cabeça. Causa assombro àqueles homens. No retorno das redes às águas, vem a cabeça que, espantosamente, encaixa-se perfeitamente na imagem deficiente. Era o primeiro milagre presenciado por aqueles pobres pescadores. Porém, o milagre maior estava a caminho: ao lançarem as redes novamente, sobem abarrotadas de peixes. Tantos, que tiveram que levar o barco até a margem para poderem retornar e continuar com o trabalho. Voltando para a cidade (Guaratinguetá), e contando o ocorrido, todo o povo presente compreende que alguma mensagem está sendo transmitida a partir daquela pescaria.

De fato, nasce ali uma devoção muito forte à Virgem que não vinha de cima, do ar, mas, das águas profundas do rio, como a comprovar que, dos elementos vem a vida e desta, mais vida, em vida e depois da vida. Na cor negra, a identificação com a massa de escravos que, então, sofria os horrores de um sistema rejeitado pelo resto do mundo, mas que, por aqui, adornava o colar de bens e de propriedades dos ricos, do clero e do império. Como nos dias de hoje, em relação à reforma agrária, naquele tempo, e em público, todos pareciam contra o sistema escravagista, na prática, porém, ninguém queria abrir mão do seu escravo, propriedade útil e dinâmica.

Pois bem, a Virgem surge como consoladora e intercessora daqueles pobres pescadores, não se sabe se eram escravos ou não, mas que tinham a missão de levar peixes para a festa de um tal Conde de Assumar, então governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro.

No sofrimento e na angústia dos pescadores, missionários a serviço de um Conde que alguns historiadores endeusam e outros demonizam, o sussurro da Virgem, como a dizer: “eis-me aqui, estou com vocês. Relancem suas redes”. A história relembra o Evangelho de São Lucas (Lc 5, 1-11) quando, diante de uma noite inteira de fracassos na pescaria de Simão Pedro, Jesus ordena-lhe avançar para águas mais profundas para conseguir sucesso. Pedro olha para o Mestre meio incrédulo e diz: “apesar de ter passado a noite toda aqui e de não ter conseguido nada, em respeito à tua palavra, vou fazer o que ordenas” e, lançando as redes novamente, agora, em águas mais profundas, quase não consegue chegar até à margem do rio, tamanha a quantidade de peixes apanhada.

A Virgem de Aparecida faz o mesmo, insufla no coração daqueles pescadores a decisão de lançar as redes novamente e... Peixes em abundância!

Das águas do rio, as mensagens para nós: somos todos iguais perante Deus, sem distinção de raças, de credos, de profissão ou de status social; aquele que ora com fé, é atendido sempre e em qualquer circunstância, tempo ou lugar, desde que seja para o bem, individual ou coletivo. E, por fim, é preciso sempre relançar as redes, de preferência em águas mais profundas, onde a vida é exuberante e frondosa, tal qual na própria árvore da vida.

Das águas, o batismo; das águas, a vida; das águas, as mensagens; das águas, a renovação. Estes são os grandes significados trazidos para todos nós, em outubro de 1717 pela Virgem de Aparecida e pelas mãos de Domingos Garcia, de Filipe Pedroso e de João Alves.

Aqueles pescadores trazem a voz das águas. Precisamos captá-la, entendê-la e praticá-la, sempre e em todo lugar, porque sempre somos enviados para buscar peixes para os poderosos (produção, tributação, cumprimento das leis, votos e aplausos) e, quando não obtemos sucesso, só Deus, pela intercessão da Virgem, pode vir em nosso socorro.

Mais de dois séculos depois, o Papa Pio XI proclama Nossa Senhora de Aparecida como Padroeira do Brasil em 1930 (existem divergências quanto à data exata). Padroeira deste País de tantas desigualdades, tantas indiferenças, exclusões e injustiças, mas, também, de tanta gente de fé que, de forma incessante, não deixa de rogar aos céus por sua gente e por seu povo simples, alegre, trabalhador, sofredor e humilde.

Que o Deus Todo-poderoso abençoe os nossos corações, guie os nossos passos e proteja as nossas almas contra todos os males, deixando Nossa Senhora de Aparecida, sempre ao nosso lado, como amiga, como conselheira e como excelente Padroeira. Nós precisamos dela. O Brasil, mais do que nunca, precisa dela. Tal qual os pescadores do século XVIII, façamos nossas orações. Seremos atendidos, e em abundância!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

jun 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO – PARTE II

BÍBLIA - O CAMINHO

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês de junho, vamos continuar apresentando trechos da obra de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confuso e até mesmo obscuro.

Dom Estevão, em linguagem simples e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Prosseguimos, portanto, com o Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

(CONTINUAÇÃO)

*Por Dom Estevão Bettencourt –

2 - O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus.

Já que, após o primeiro pecado, a corrupção se alastrava entre os homens, Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração; desse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. Em vista disto, por volta de 1800 a.C., Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldeia, terra idólatra, para Canaã (Palestina atual), a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gn 12, 1-3).

A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para todas as nações. Daí chamar-se este segundo marco da história “A PROMESSA”.

3 - A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.

O surto do povo de Deus foi confirmado por cerca de 1240 a.C.: tendo Israel caído cativo do Egito, Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã, dando-lhe, por meio de Moisés, uma constituição teocrática.

A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA, aliança, sim, provisória e nacional, travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.

4 - A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.

Por volta de 1020 a.C., Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos, ou seja, a MONARQUIA. Este desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fora governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes), queria um governo menos dependente da Providência insondável do Criador, humanamente mais “garantido”, mais fundado sobre bases que o bom senso pode apreciar (tal é, sem dúvida, a monarquia).

Instaurou-se então o REINO de Israel, que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930).

A própria monarquia, porém, acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte, dito da Samaria, e reino do Sul, dito de Judá. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. Os dois pequenos Estados irmãos, Samaria e Judá, politicamente insignificantes, sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Samaria em 722 se tornou presa dos assírios, ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios.

A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política, que sua missão religiosa não estava necessariamente ligada com sua missão nacional. Israel deveria esperar o REINO... DE DEUS, com tudo que este reino implica de transcendente, de desconcertante para o “filósofo”, um reino tal que “quem não o recebe como uma criancinha, nele não pode entrar” (cf. Mc 10, 15).

5 - Deportados para a Babilônia em 587, os habitantes de Judá sofreram o EXÍLIO. Também este foi altamente pedagógico para o povo de Deus. Privado de todo o aparato exterior (templo, sacrifícios, ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém, os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica da Divindade e da religião, passando a conceber o Criador de modo muito mais puro; a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente...

Em 538 Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus; Javé assim lhes mandou uma “redenção", que ainda era etapa em demanda da Redenção plena, messiânica. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita, a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa; era o chamado RESTO DE ISRAEL. Note-se bem: esse resto se constituía de judeus pobres, humanamente falando, quase malogrados, mas fervorosos adeptos de sua fé; a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio, pois lá haviam adquirido certo bem-estar material, prosperidade humana, que lhes sufocava o fervor teocrático!

6 - Após o exílio, Judá passou a viver como COMUNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro, comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias; infelizmente, porém, oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas, gregos, egípcios, sírios e romanos sucessivamente), os israelitas facilmente confundiam a figura do Messias, Restaurador da ordem religiosa, com a de um Libertador político.

Muito digna de nota é a epopeia dos irmãos Macabeus (165- 134), os quais, vibrando de autêntica piedade, moveram a resistência contra os sírios, que queriam paganizar o povo de Deus.

O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus, contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de pensar; Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus, dos espíritos, a sorte póstuma do homem; foi admitindo outrossim certo universalismo religioso, ou seja, a noção de que os bens messiânicos não se destinam a um povo apenas, mas a todas as nações da terra.

7 - Finalmente na plenitude dos tempos veio o Messias, segundo Adão, que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada.

Da vinda de Cristo em diante, a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus, ou seja, em Pentecostes; prolonga-se já por vinte séculos, não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento, mas unicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). Uma vez completo o número dos que entrarão na bem-aventurança, Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história, induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sobre a morte e as demais consequências do pecado). Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo são tempos de máxima tensão, em que o cristão experimenta o que é “ser” e, ao mesmo tempo, “não ser” filho de Deus, “ter” e, ao mesmo tempo, “não ter” a vida eterna.

[...]

Quanto ao Antigo Testamento em particular, não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula:

“Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda, povo que não tinha gênio metafísico, mas religioso, viveu e aparentemente descobriu a via da salvação: formulou-a pouco a pouco. O Antigo Testamento é a história desse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha, a Promessa, a Aliança, a Monarquia, o Exílio, a Comunidade. As experiências, as tentativas, os reveses, os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. Esse povo nos aparece movido por um ímpeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente, a reconsiderar em nível mais espiritual o que ele viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. O Antigo Testamento é a história desse contínuo ultrapassar-se a si mesmo, desse catecumenato, dessa espiritualização crescente.”

No próximo mês, daremos continuidade a este tema do Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Até lá!!

 

mai 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO

ESPAÇO TEOLÓGICO - 3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

No Espaço Teológico deste mês, vamos trazer para os nossos leitores e leitoras algumas pérolas de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confusa e até mesmo obscura.

Dom Estevão, em linguagem básica e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Na tentativa de poupar os leitores e as leitoras dos aspectos históricos a que se referem as páginas iniciais do livro acima descrito, vamos iniciar já no Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

*Por Dom Estevão Bettencourt –

"Não é raro ouvir-se a pergunta: “Qual o valor que, para o cristão ou, mais largamente, para o homem moderno, possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara; suas histórias e afirmações, à primeira vista, entram em conflito com as normas do Evangelho, da honestidade ou da ciência moderna, provocando “escândalos” de ordem moral ou científica; não se vê, por conseguinte, o proveito que possa acarretar tal leitura.

A questão não é nova. Surgiu mesmo no início da era cristã, quando os homens perceberam que Jesus, o Messias, consumara a Revelação do Antigo Testamento. Assim Marcion, herege do séc. II, rejeitava categoricamente os livros sagrados dos israelitas, julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompatível com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento.

Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. Adolf von Harnack (t 1930), por exemplo, escrevia:

“No séc. II, rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha, que a Grande Igreja fez bem de evitar; no séc. XVI, guardá-lo era uma necessidade fatal, à qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Mas, após o séc. XIX, conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo, como se fosse um documento canônico, é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica”.[1]

A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo, fascismo etc.). Na Alemanha, Rosenberg afirmava que a antiga Bíblia não é mais do que uma “coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros”.

Não obstante as objeções, de aparência por vezes sólida, a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é Palavra de Deus imperecível, significativa, portanto, também para os nossos tempos. Sendo assim, interessa-nos, antes do mais, examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. V e VI); a-seguir, consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura.

§ 1° - DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META

Quem abre o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história, tradições populares, profecias, máximas de sabedoria, cânticos religiosos etc. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. Com efeito, as variadas páginas do Antigo Testamento — diríamos mesmo: de toda a Sagrada Escritura — não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. A aliança é, conforme as páginas iniciais da Bíblia, travada com o primeiro homem logo depois da criação; este, porém, não a soube observar, violou-a; mas Deus, que não se deixa vencer em bondade, prometeu, após a ruptura, restaurar o pacto mediante novo homem dito “o Messias”. Isto faz com que toda a história, de então por diante, tome, do ponto de vista de Deus, o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida, etapas que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. Por conseguinte também, todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história, sejam crônicas, sejam leis, sejam profecias, direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. É isto o que, em última análise, nos leva a dizer que toda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora, ora preparada e anunciada (Antigo Testamento), ora efetuada (Novo Testamento); é, sim, para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual.

Esta afirmação, ainda assaz genérica, pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. Inegavelmente a história que ele nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. Tal aspecto, porém, não constitui senão a periferia do Antigo Testamento; o olho da fé pode e deve discernir, sob a face externa, o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários; deve, em outros termos, procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios, pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fez com que tanta coisa fosse escrita sob o carisma da inspiração. Percorreremos, pois, abaixo, as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico, procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus.

O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gn 1-3) caracterizada por três acontecimentos:

a) a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem;[2]

b) violada, porém, pela criatura;

c) Deus a promete restaurar, estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente, a descendência da mulher e a da serpente (cf. Gn 3, 15). Isto implica que, após a queda original, a história, considerada à luz de Deus, tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado, a serpente e sua linhagem, isto é, todos aqueles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores); de outro lado, a mulher e sua posteridade, isto é, Eva penitente e todos aqueles que, por graça de Deus, não pactuam com a serpente. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos, quando se consumará a vitória do Bem sobre o mal; é o jogo destes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos indivíduos. Eis o aspecto muito simples, mas, ao mesmo tempo, muito dramático, que a história universal tem aos olhos de Deus.

Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história, por mais explicável que pareça à luz de fatores naturais ou mecânicos, carece de caráter religioso; guerras, fomes, doenças foram, sim, introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão; são, pois, manifestações do reino do pecado ou de Satanás; doutro lado, os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor, manifestações ora mais claras, ora menos evidentes do reino de Cristo, tanto no indivíduo como na sociedade.” (Op. Cit. págs. 92/95).

No próximo mês, daremos continuidade a este tema sobre o Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

________________________________________________________ [1] Marcion (Leipzig, 1924), 217. [2] É o autor do Eclo 17, 12 quem fala de aliança concluída no paraíso entre Deus e os primeiros pais.

abr 02

ESPAÇO TEOLÓGICO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO, encerrando-o, pois, com esta edição. Procuramos, nestes três últimos meses (fevereiro, março e abril) apresentar, em linhas gerais, o pensamento e a teologia do Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO.

Além dos textos didáticos do Papa, sugerimos aos leitores e às leitoras a aquisição e a leitura do Livro “A ORAÇÃO”, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1] (à venda nas Livrarias Paulus de todo o Brasil), a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca de tema tão caro na vida de todos os fiéis.  

“ORAÇÃO E SILÊNCIO: JESUS MESTRE DE ORAÇÃO”

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Numa série de catequeses precedentes falei sobre a oração de Jesus e não gostaria de concluir esta reflexão sem meditar brevemente acerca do tema do silêncio de Jesus, tão importante na relação com Deus.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini fiz referência ao papel que o silêncio adquire na vida de Jesus, sobretudo no Gólgota: «Aqui vemo-nos colocados diante da “Palavra da cruz” (cf. ICor 1,18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se “disse” até calar, nada retendo do que nos devia comunicar.» (N.° 12) Diante deste silêncio da cruz, São Máximo, o Confessor, põe nos lábios da Mãe de Deus a seguinte expressão: «Fica sem palavras a Palavra do Pai, O qual fez todas as criaturas que falam; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele por cuja palavra e por cujo aceno se move tudo o que tem vida.»[2] A cruz de Cristo não mostra somente o silêncio de Jesus como Sua última palavra ao Pai, mas revela também que Deus fala por meio do silêncio'. «O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-LO lamentar: “Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46) Avançando na obediência até ao último suspiro de vida, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito.” (Lc 23,46)» (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, n.° 21). A experiência de Jesus na cruz é profundamente reveladora da situação do homem que reza e do ápice da oração: depois de ter ouvido e reconhecido a Palavra de Deus, devemos medir-nos também com o silêncio de Deus, expressão importante da própria Palavra divina.

A dinâmica de palavra e silêncio, que caracteriza a oração de Jesus em toda a Sua existência terrena, sobretudo na cruz, diz respeito também à nossa vida de oração, em duas direções.

A primeira é a que se refere ao acolhimento da Palavra de Deus. E necessário o silêncio interior e exterior, para que tal palavra possa ser ouvida. E este é um ponto particularmente difícil para nós, no nosso tempo. Com efeito, a nossa é uma época na qual não se favorece o recolhimento; aliás, às vezes a impressão é de que as pessoas têm medo de se separar, mesmo por um instante, do rio de palavras e de imagens que marcam e enchem os dias. Por isso, na já mencionada Exortação Verbum Domini recordei a necessidade de nos educarmos para o valor do silêncio: «Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher inseparável da Palavra e do silêncio.» (N.° 66) Este princípio - que sem silêncio não se sente, não se ouve, não se recebe uma palavra - é válido sobretudo para a oração pessoal, mas também para as nossas liturgias: para facilitar uma escuta autêntica, elas devem ser também ricas de momentos de silêncio e de acolhimento não verbal. E sempre válida a observação de Santo Agostinho: Verbo crescente, verba deficiunt - «Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam.» (Cf. Sermo 288, 5: PL 38, 1307; Sermo 120,2: PL 38,677). Os evangelhos apresentam com frequência, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que Se retira totalmente sozinho num lugar afastado das multi­dões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver a Sua relação filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a Sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: voltar a aprender o silêncio, a abertura à escuta, que nos abre ao próximo, à Palavra de Deus.

Porém, há uma segunda importante relação do silên­cio com a oração. Com efeito, não há apenas o nosso silêncio para nos dispor à escuta da Palavra de Deus; muitas vezes, na nossa oração, encontramo-nos diante do silêncio de Deus, experimentamos quase um sentido de abandono, parece-nos que Deus não ouve e não responde. Mas este silêncio de Deus, como aconteceu também para Jesus, não marca a Sua ausência. O cristão sabe bem que o Senhor está presente e escuta, mesmo na escuridão da dor, da rejei­ção e da solidão. Jesus garante aos discípulos e a cada um de nós que Deus conhece bem as nossas necessidades, em qualquer momento da nossa vida. Ele ensina aos discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais, antes que vós Lho peçais» (Mt 6,7- -8): um coração atento, silencioso e aberto é mais impor­tante que muitas palavras. Deus conhece-nos no íntimo, mais do que nós mesmos, e ama-nos: e saber isto deve ser suficiente. Na Bíblia, a experiência de Job é particularmente significativa a este propósito. Em pouco tempo, este homem perde tudo: familiares, bens, amigos e saúde; até parece que a atitude de Deus no que se lhe refere é a do abandono, do silêncio total. E no entanto Job, na sua relação com Deus, fala com Deus, clama a Deus; na sua oração, não obstante tudo, conserva intacta a sua fé e, no fim, descobre o valor da sua experiência e do silêncio de Deus. E assim no final, dirigindo-se ao Criador, pode concluir: «Eu tinha ouvido falar de Ti, mas agora são os meus olhos que Te veem» (Jb 42,5): todos nós conhecemos Deus quase só por ter ouvido falar d’Ele, e quanto mais abertos permanecemos ao Seu e ao nosso silêncio, tanto mais começamos a conhecê-LO realmente. Esta confiança extrema que se abre ao encontro profundo com Deus amadureceu no silêncio. São Francisco Xavier rezava, dizendo ao Senhor: eu amo-Te, não porque podeis conceder-me o paraíso, ou condenar-me ao inferno, mas porque Vós sois o meu Deus. Amo-Vos porque Vós sois Vós!

Aproximando-nos da conclusão das reflexões sobre a oração de Jesus, voltam à mente alguns ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica'. «O drama da oração é-nos plenamente revelado no Verbo que Se faz carne e habita entre nós. Procurar compreender a Sua oração através do que as Suas testemunhas nos dizem dela no Evangelho é aproximar-nos do Santo Senhor Jesus como da sarça ardente: primeiro, contemplando-O a Ele próprio em ora­ção; depois, escutando como Ele nos ensina a rezar para, finalmente, conhecermos como é que Ele atende a nossa oração.» (N.° 2598) E como é que Jesus nos ensina a rezar? No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica encontramos uma resposta clara: «Jesus ensina-nos a rezar, não só com a oração do Pai Nosso» - certamente o ato central do ensi­namento do modo como rezar - «mas também com a Sua própria oração. Assim, para além do conteúdo, ensina-nos as disposições requeridas para uma verdadeira oração: a pureza do coração que procura o Reino e perdoa aos inimigos; a confiança audaz e filial que se estende para além do que sentimos e compreendemos; a vigilância que protege o discípulo da tentação.» (N.° 544)

Percorrendo os evangelhos vimos como o Senhor é, para a nossa oração, interlocutor, amigo, testemunha e mestre. Em Jesus revela-se a novidade do nosso diálogo com Deus: a oração filial, que o Pai espera dos Seus filhos. E de Jesus aprendemos como a oração constante nos ajuda a interpre­tar a nossa vida, a fazer as nossas escolhas, a reconhecer e a acolher a nossa vocação, a descobrir os talentos que Deus nos concedeu, a cumprir diariamente a Sua vontade, único caminho para realizar a nossa existência.

Para nós, muitas vezes preocupados com a eficácia fun­cional e com os resultados concretos que alcançamos, a prece de Jesus indica que temos necessidade de parar, de viver momentos de intimidade com Deus, “desapegando-nos” da confusão de todos os dias, para ouvir, para ir à “raiz” que sus­tenta e alimenta a vida. Um dos momentos mais bonitos da oração de Jesus é precisamente quando Ele, para enfrentar doenças, dificuldades e limites dos Seus interlocutores, Se dirige ao Seu Pai em oração e assim ensina a quantos estão ao Seu redor onde é necessário procurar a fonte para ter esperança e salvação. Já recordei, como exemplo comovedor, a oração de Jesus no túmulo de Lázaro. O evangelista João narra: «Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos para o Céu, disse: “Pai, dou-Te graças por Me teres aten­dido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa das pessoas que Me rodeiam, para que venham a crer que Tu Me enviaste.” Dito isto, bradou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”» (Jo 11,41-43) Mas o ponto mais alto de profundidade na oração ao Pai, Jesus alcança-o no momento da Paixão e Morte, quando pronuncia o extremo «sim» ao desígnio de Deus e mostra como a von­tade humana encontra o seu cumprimento precisamente na adesão plena à vontade divina, e não na oposição. Na oração de Jesus, no Seu brado na Cruz, confluem «todas as desolações da humanidade de todos os tempos, escrava do pecado e da morte, todas as súplicas e intercessões da história da salva­ção. [...] E eis que o Pai as acolhe e atende, para além de toda a esperança, ao ressuscitar o Seu Filho. Assim se cum­pre e se consuma o drama da oração na economia da criação e da salvação.» (Catecismo da Igreja Católica, n.° 2606)

Caros irmãos e irmãs, peçamos com confiança ao Senhor para viver o caminho da nossa oração filial, aprendendo quotidianamente do Filho Unigênito que Se fez homem por nós como deve ser o modo de nos dirigirmos a Deus. As palavras de São Paulo, sobre a vida cristã em geral, são válidas também para a nossa oração: «Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os princi­pados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades nem a altura, nem o abismo nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Nosso Senhor Jesus Cristo.» (Rm 8,38-39).

Praça de São Pedro

(Quarta-feira, 7 de março de 2012)

Terminamos, aqui, a transcrição de alguns trechos dos ensinamentos ao Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO. Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, daremos início a novo tema teológico, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

[2]A vida de Maria, n.° 89: Textos marianos do primeiro milênio, 2, Roma, 1989, p. 253).

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