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mai 11

A FAMÍLIA, SOB O OLHAR DE JACQUES LACAN – PARTE I

ESTRUTURA DA FAMÍLIA

ESTRUTURA CULTURAL DA FAMÍLIA HUMANA –

*Por Jacques Lacan –

A família surge-nos como um grupo natural de indivíduos unidos por uma dupla relação biológica: por um lado a geração, que dá as componentes do grupo; por outro as condições de meio que postula o desenvolvimento dos jovens e que mantêm o grupo, enquanto os adultos geradores asseguram essa função. Nas espécies animais, esta função dá lugar a comportamentos instintivos, muitas vezes bastante complexos. Foi preciso renunciar a fazer derivar das relações familiares assim definidas os outros fenómenos sociais observados nos animais. Estes últimos aparecem pelo contrário tão distintos dos instintos familiares que os investigadores mais recentes relacionam-nos com um instinto original, dito de inter-atracção.

ESTRUTURA CULTURAL DA FAMÍLIA HUMANA

A espécie humana caracteriza-se por um desenvolvimento singular das relações sociais, que sustêm capacidades excepcionais de comunicação mental, e correlativamente por uma economia paradoxal dos instintos que aí se mostram essencialmente susceptíveis de conversão e de inversão não tendo efeito isolável senão de modo esporádico. São assim permitidos comportamentos adaptativos duma variedade infinita. A sua conservação e o seu progresso, por dependerem da sua comunicação, são antes de tudo obra colectiva e constituem a cultura; ela introduz uma nova dimensão na realidade social e na vida psíquica. Esta dimensão especifica a família humana tal como todos os fenómenos sociais no homem.

Se, com efeito, a família humana permite observar, nas primeiras fases das funções maternais, por exemplo, alguns traços de comportamento instintivo, identificáveis aos da família biológica, basta reflectir no que o sentimento da paternidade deve aos postulados espirituais que marcaram o seu desenvolvimento, para compreender que neste domínio as instâncias culturais dominam as naturais, ao ponto de não se poder ter como paradoxais os casos em que, como na adopção, elas as substituem.

Será esta estrutura cultural da família humana inteiramente acessível aos métodos da psicologia concreta: observação e análise? Sem dúvida estes métodos bastam para pôr em evidência alguns traços essenciais, tal como a estrutura hierárquica da família, e bastam para reconhecer nela o órgão privilegiado desta coacção do adulto sobre a criança, coacção à qual o homem deve uma etapa original e as bases arcaicas da sua formação moral.

Mas outros traços objectivos: os modos de organização desta autoridade familiar, as leis da sua transmissão, os conceitos da descendência e do parentesco que lhe são ajuntados, as leis da herança e da sucessão, que aí se combinam, enfim as suas relações íntimas com as leis do casamento — obscurecem as relações psicológicas, emaranhando-as. A sua interpretação deve então esclarecer-se a partir dos dados comparados da etnografia, da história, do direito e da estatística social. Coordenados pelo método sociológico, estes dados estabelecem que a família humana é uma instituição. A análise psicológica deve adaptar-se a esta estrutura complexa e não lhe resta senão fazer tentativas filosóficas que têm por objectivo reduzir a família humana seja a um facto biológico, seja a um elemento teórico da sociedade.

Estas tentativas têm no entanto o seu princípio em certas aparências do fenómeno familiar; por muito ilusórias que sejam estas aparências, elas merecem que nos detenhamos nelas, porque se fundam sobre convergências reais entre causas heterogéneas. Descreveremos o seu mecanismo sobre dois pontos ainda em litígio para o psicólogo.

Hereditariedade psicológica. — Entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. Se as tradições espirituais, a preservação dos ritos, e dos costumes, a conservação das técnicas e do património lhe são disputadas por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira educação, na repressão dos instintos, na aquisição da língua justamente chamada materna. Por isso ela preside aos processos fundamentais do desenvolvimento psíquico, a esta organização das emoções segundo tipos condicionados pelo ambiente, que é a base dos sentimentos segundo SHAND; duma maneira mais lata, ela transmite estruturas de comportamento e de representação cujo jogo ultrapassa os limites da consciência.

Ela estabelece assim entre as gerações uma continuidade psíquica cuja causalidade é de ordem mental. Esta continuidade, se revela o artifício dos seus fundamentos nos próprios conceitos que definem a unidade de linhagem, a partir do totem até ao nome patronímico, também se manifesta pela transmissão à descendência de disposições psíquicas que confinam no inato; CONN criou o termo hereditariedade social para estes efeitos. Este termo, impróprio por ser ambíguo, tem pelo menos o mérito de assinalar quão difícil é ao psicólogo não exagerar a importância do biológico nos factos ditos de hereditariedade psicológica.

CONTINUA

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*LACAN, Jacques. A FAMÍLIA. Lisboa. Assírio & Alvim. 1981. Tradução de Brigitte Cardoso e Cunha Ana Paula dos Santos

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