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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: INFORMAÇÕES E SUGESTÕES

ago 22

REFLEXÃO SOBRE O WHATSAPP: VULGARIZADO E MAL UTILIZADO

WHATSAPP

O WHATSAPP É O NOVO POINT: POR QUE NÃO UTILIZÁ-LO SÓ PARA O BEM? –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas de que, atualmente, o WhatsApp é o point preferido da grande maioria das pessoas para toda forma de troca de informações. Muitas pessoas estão integradas em grupos de bate-papo; outras tantas, e de forma individual, mantêm-se ligadas a diversos amigos e contatos, com os quais dialogam diariamente, se não, várias vezes ao dia. É bonito ver que as pessoas, nos dias atuais, adotam a comunicação como forma de integração social, superando antigas cartinhas, bilhetinhos, ligações telefônicas ou até mesmo os e-mails.

Entretanto, é preciso reconhecer, as redes sociais, dentre as quais o WhatsApp se destaca, não têm sido usadas como lugares-comuns apenas aos bate-papos, por meio dos quais as pessoas tenderiam a crescer e a promoverem o crescimento dos seus amigos, com conversas úteis e interessantes, além da divulgação de notícias importantes (e verdadeiras), objetivando suprir vazios causados pela absurda correria do cotidiano.

Seria mais ou menos semelhante ao encontro diário de diversas pessoas, em torno de uma mesa de bar onde, sem nenhum aperitivo ou bebida de entrada ou de saída, falassem asneiras o tempo todo, além de transmitirem, umas para as outras, notícias falsas ou meias verdades, sem qualquer função ou objetivo nobre. Certamente que, em muito pouco tempo, tais reuniões deixariam de acontecer, porque as pessoas, logo, logo, chegariam à conclusão da absoluta perda de tempo e da inutilidade de tais encontros.

No entanto, no WhatsApp, por exemplo, isso não acontece porque tudo é gratuito, não custando tempo nem dinheiro. Retransmitir uma mensagem qualquer, ou reencaminhar fotos e vídeos em abundância é ato praticado em pouquíssimos segundos, bastando meros dois ou três cliques, e pronto! Já foi.

Com esta lógica, as pessoas, sem terem a menor consciência, e sem saberem valorizar a tecnologia de que dispõem, passam o dia todo enviando “abobrinhas” e “repolhos” e recebendo, em troca, iguais contribuições. Ora, vamos combinar que “abobrinhas” e “repolhos” são muito bons e até fazem falta na dieta diária de qualquer ser humano. Mas, todos os dias, em todas as refeições do dia, enchem o saco de qualquer um. E o pior: a pessoa acaba de enviar uma “abobrinha” e, imediatamente, recebe um “repolho”, ficando absolutamente claro que a “abobrinha”, sequer foi vista com a mínima atenção e/ou consideração.

Estamos vivendo momento histórico, tanto no nosso País quanto no mundo todo, do qual brotam, a todo instante, notícias importantíssimas de todos os lados. Notícias capazes de alterarem nossas vidas, no presente ou no futuro imediato, e que precisam, e devem, ser repassadas, muitas vezes até com certa urgência. D’outro lado, existem pensamentos, fatos, orações, milagres, realizações comunitárias e institucionais, além de toda uma gama de acontecimentos saudáveis e positivos que uns tomam conhecimento, e outros, não, e que, portanto, carecem de repasse entre amigos e contatos.

Voltemos à mesma mesa do bar, agora com outro enfoque, e observemos o quanto cada amigo tem para contar para os demais. Quantas coisas boas aconteceram e quantas estão para acontecer nas vidas de cada um deles, e que, paulatinamente, vão sendo contadas e mostradas, de modo a estarem, verdadeiramente, contribuindo para a alegria e o para o crescimento recíprocos. Tais reuniões, com esses objetivos, certamente serão mantidas e celebradas como algo bastante positivo, haja vista que ao final de cada uma delas, torna-se perceptível grande e real satisfação.

Parece estar na hora de as pessoas considerarem que a euforia inicial com o WhatsApp, e de resto com todas as redes sociais, já está superada, e que todos devemos utilizá-lo para as conversas realmente frutíferas, próprias de uma grande e valiosa amizade. Não se pode esquecer que existem pessoas no meu, e no seu, WhatsApp que, sequer, nos reconhece na rua. Há pouco tempo passei por uma dessas pessoas. E existem inúmeras! Porque o ambiente está absolutamente vulgarizado.

Podemos, e devemos, fazer do WhatsApp um ponto de encontro, diário ou não, propício para o convívio sadio com os nossos contatos, repassando e recebendo informações úteis e valiosas para as nossas vidas, seja por meio de palavras, de fotografias ou de vídeos capazes de cumprirem o duplo papel da informação e da transmissão de alegria. Fechar as portas às fofocas e, principalmente, às mentiras, fará com que saibamos aproveitar da melhor forma possível este maravilhoso canal de interação social, por meio do qual podemos levar aos amigos e contatos permanentes, conhecimentos e experiências extremamente valiosas para o crescimento pessoal e espiritual. Nada, porém, em excesso!

Como é bom receber informações novas e confiáveis; vídeos pedagógicos e transmissores de alegria, de emoção, de prazer e de grandes ensinamentos; textos e orações profundos e sugestivos; fotos de seres, pessoas e lugares por nós desconhecidos; palavras de incentivo, de gratidão, de carinho e de amizade. Enfim, quanta coisa boa, útil e valiosa pode ser transferida, encaminhada e reencaminhada por meio do WhatsApp, uma rede social que, por enquanto, tem servido a muitos apenas para a propagação de notícias falsas, de fofocas descabidas, de incentivo e de disseminação do sectarismo ideológico, religioso ou político, bem como de sentimentos de ódio e de vingança que, infelizmente, têm contaminado a sociedade humana.

Talvez você receba este texto, também, pelo WhatsApp, mas, a ideia é justamente esta: incentivar e estimular a reflexão para que então, e somente então, possamos nos valer dele de forma mais sábia, transformando-o em um verdadeiro point de encontro entre amigos e de contatos, consubstanciados em pessoas que olham e que conseguem enxergar  a sociedade como célula apta à expansão e, em perfeita harmonia com a natureza, capaz de canalizar desejos e objetivos humanos mais substanciais e mais condizentes com a própria espécie. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

ago 11

DOCUMENTOS DA IGREJA: É BOM CONHECÊ-LOS

DOCUMENTOS DA IGREJADOCUMENTOS DA IGREJA: CARTA ENCÍCLICA MATER ET MAGISTRA – PARTE I –

Vamos iniciar nosso trabalho de divulgação das diversas Encíclicas, bem como de outros documentos da Igreja Católica Romana. São, ao final, documentos de enorme relevância para a evangelização, visando, ainda, a harmonia, a paz social e o crescimento espiritual de todos os cristãos, de um modo geral, e dos católicos em particular.

É verdade que ao longo desses tantos séculos de caminhada, a Igreja editou inúmeros documentos, encíclicas, cartas pastorais, bulas etc. Por esta razão, não vamos nos ater a qualquer ordem cronológica, apenas, vamos editando, de forma integral ou parcial, conforme o caso, os documentos mais incisivos e que maior influência possam ter tido na vida dos cristãos e dos católicos.

Inicialmente, vamos tratar da Encíclica Mater et Magistra, publicada em 15 de maio de 1961 pelo Papa João XXIII.

Mãe e Mestra, esta foi a exata visão que Sua Santidade teve a respeito da Igreja. Em maio de 1961 a Igreja já se encontrava em pleno processo de gestação de um dos maiores e mais importantes concílios ecumênicos da sua história – o Concílio Vaticano II. Isso porque, em 17 de maio de 1959 o Papa João XXIII constituiu a comissão que presidiria o trabalho antepreparatório do concílio, cuja abertura solene já estava designada para 11 de outubro de 1962. Naquele dia, Sua Santidade, dirigindo-se à Igreja Romana, ao clero e ao mundo, disse:

“Veneráveis irmãos,

A Igreja, mãe de todos nós, muito se alegra neste dia tão desejado, em que se iniciam solenemente os trabalhos do Concílio Ecumênico, aqui reunido, por dom especial da Providência divina, junto ao sepulcro de Pedro e sob os auspícios da Virgem Mãe de Deus, de cuja maternidade divina celebramos hoje a festa”

Foi com esse espírito, e já antevendo o contexto conciliar que já estava em curso, que o Papa fez publicar a Encíclica Mater et Magistra, a 15 de maio de 1961. Trata-se de uma Carta longa, porém, de gigantesca importância para a Igreja, por meio da qual Sua Santidade evoca para a Santa Madre Igreja a condição de acolhedora de todos os homens e, ao mesmo tempo, de promotora da paz social à luz dos ensinamentos de Jesus com a finalidade de encaminhar a humanidade na direção da unidade e da constante busca da vida em toda a sua plenitude. Abaixo seguem alguns trechos característicos dessa visão, e de outros tantos que podem contribuir para o interesse dos leitores e aprofundarem-se na leitura integral desta magistral encíclica. In verbis:

“MATER ET MAGISTRA

Aos veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos, bispos e outros ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica, bem como a todo o clero e fiéis do orbe católico. Introdução

1. Mãe e mestra de todos os povos, a Igreja Universal foi fundada por Jesus Cristo, a fim de que todos, vindo no seu seio e no seu amor, através dos séculos, encontrem plenitude de vida mais elevada e penhor seguro de salvação. A esta Igreja, “coluna e fundamento da verdade” (cf. lTm 3,15), o seu Fundador santíssimo confiou uma dupla missão: de gerar filhos, e de os educar e dirigir, orientando, com solicitude materna, a vida dos indivíduos e dos povos, cuja alta dignidade ela sempre desveladamente respeitou e defendeu.

2. O cristianismo é, de fato, a realidade da união da terra com o céu, uma vez que assume o homem, na sua realidade concreta de espírito e matéria, inteligência e vontade, e o convida a elevar o pensamento, das condições mutáveis da vida terrena, até às alturas da vida eterna, onde gozará sem limites da plenitude da felicidade e da paz.

3. De modo que a Santa Igreja, apesar de ter como principal missão a de santificar as almas e de as fazer participar dos bens da ordem sobrenatural, não deixa de preocupar-se ao mesmo tempo com as exigências da vida cotidiana dos homens, não só no que diz respeito ao sustento e às condições de vida, mas também no que se refere à prosperidade e à civilização em seus múliplos aspectos, dentro do condicionalismo das várias épocas.

4. Ao realizar tudo isto, a Santa Igreja põe em prática o mandamento de Cristo, seu Fundador, que se refere sobretudo à salvação eterna do homem, quando diz: ‘Eu ou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6) e “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12); mas noutro passo, ao contemplar a multidão faminta, exclamou, num lamento sentido: ‘Tenho pena de toda esta gente” (Mc 8,2); manifestando, assim, como se preocupa também com as exigências materiais dos povos. E não foi só com palavras que o Divino Redentor demonstrou esse cuidado: provou-o igualmente com os exemplos da sua vida, multiplicando, várias vezes, por milagres, o pão que havia de saciar a fome a multidão que o seguia.

5. E com este pão, dado para alimentar o corpo, quis anunciar e significar aquele pão celestial das almas, que ia deixar aos homens na véspera da sua Paixão.

6. Não é, pois, para admirar, que a Igreja católica, à imitação de Cristo e em cumprimento das suas disposições, tenha mantido sempre bem alto, através de dois mil anos, isto é, desde a instituição dos antigos diáconos, até aos nossos tempos, o facho da caridade, não menos com preceitos do que com os numerosos exemplos que vem proporcionando. Caridade, que ao conjugar harmoniosamente os mandamentos do amor mútuo com a prática dos mesmos, realiza de modo admirável as exigências desta dupla doação que em si resume a doutrina e a ação ciai da Igreja.

7. Documento verdadeiramente insigne desta doutrina e desta ação desenvolvida pela Igreja ao longo dos séculos, deve considerar-se a imortal encíclica Rerum Novarum, que o nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII, há setenta anos promulgou para formular os princípios que haviam de resolver cristãmente a questão operária.

8. Poucas vezes a palavra de um papa teve ressonância tão universal, pela profundeza e vastidão da matéria tratada, bem como pelo vigor incisivo da expressão. A linha de rumo ali apontada e as advertências feitas revestiram-se de tal importância, que nunca poderão cair no esquecimento. Foi aberto um caminho novo à ação da Igreja. O Pastor supremo, fazendo próprios os sofrimentos, as queixas e as aspirações dos humildes e dos oprimidos, uma vez mais se ergueu como defensor dos seus direitos.

9. E hoje, apesar de ter passado tanto tempo, ainda se mantém real a eficácia dessa mensagem, não só nos documentos dos papas sucessores de Leão XIII, os quais, quando ensinam em matéria social, continuamente se referem à encíclica leonina, ora para nela se inspirarem, ora para esclarecerem o seu alcance, e sempre para estimular a ação dos católicos; mas até na organização mesma dos povos. Tudo isso mostra como os sólidos princípios, as diretrizes históricas e as paternais advertências contidas na magistral encíclica do nosso predecessor conservam ainda hoje o seu valor e sugerem, mesmo, critérios novos e vitais, para os homens poderem avaliar o conteúdo e as proporções da questão social, tal como hoje se apresenta, e decidir-se a assumir as responsabilidades daí resultantes.”

Em breve daremos início à publicação de diversas partes da Encíclica em questão, com a finalidade, repetimos, de incentivar todos os cristãos, e de modo particular todos os católicos, no aprofundamento da leitura do texto integral, eis que trata-se, como dissemos no início, de documento de enorme importância para todos os fieis seguidores de Jesus Cristo, além de conter forte apelo de conversão.

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(Fonte da Encíclica: Documentos de João XXIII – São Paulo. Paulus. 1998. 391 p.)

ago 11

JOSEFINA BAKHITA: SANTA DE TODOS OS TEMPOS

SANTA BAKHITA

SANTA JOSEFINA BAKHITA - 

                         Falar sobre Josefina Bakhita é mergulhar na vida simples e humilde daquele africano escondido do mundo, que sobrevive graças à Deus e à sua autodeterminação, tamanhas as dificuldades encontradas. É pensar naquele africano, pobre, negro, trabalhador que mora, alimenta-se e veste-se da forma mais precária possível, tentando vencer as doenças, a desnutrição e a miséria no sentido mais amplo possível.

                        Pois, mesmo em um cenário como este, ainda é possível ter que viver escondendo-se das guerrilhas cruéis e assassinas que, com viés político-militaresco, grassam por toda a região menos desenvolvida do imenso continente.

                   Em um ambiente como este, vamos encontrar uma família sudanesa em especial – marido, mulher e filhos – vivendo e sobrevivendo como Deus permite, porém, com a felicidade de manterem-se unidos em todas as adversidades. Até que um dia, mercadores humanos roubam daquela família a menina mais velha, que tinha em torno de oito para nove anos de idade. Pegam aquela pobre menina esquálida, inocente e indefesa para quê? Para vendê-la como escrava. Para lucrarem com a carne humana. Ninguém viu, ninguém filmou, ninguém testemunhou. Quem contou a história foi Madre Josefina Bakhita, à Madre Superiora da Congregação das Filhas da Caridade, de Madalena de Canossa.

                      Irmã Bakhita contou algumas das muitas recordações daquela fatídica manhã, em que estava sentada com uma amiguinha de doze ou treze anos de idade, à beira de um córrego, conversando e atirando pedras na água, quando, de repente, apareceram-lhes dois homens armados. Um deles, conta Bakhita, mandou embora a amiguinha de doze ou treze anos e ordenou que Josefina caminhasse um pouco à frente, para buscar pequeno embrulho escondido entre os arbustos. A menina, amedrontada, tratou de cumprir rapidamente a ordem que recebera, achando que, em seguida, seria mandada de volta para casa. Ledo engano! Afastada a amiguinha, Josefina é seguida pelos homens que, agarrando-a pelos braços magros, transformam-na em prisioneira e, como tal, obrigam-na a caminhar durante todo aquele dia e a noite que o seguia. Preocupada com os pais, que nunca mais veria, sofrida com os maus tratos recebidos, pés descalços, feridos e sangrando, a menina segue aqueles dois contrabandistas de seres humanos, que não demonstravam qualquer sentimento de piedade.

              Exausta da longa caminhada, ferida, suada, suja e faminta a menina é atirada numa espécie de esconderijo, recebendo um pedaço de pão e a ordem para ficar ali, quieta, até que decidissem o seu destino. Ali ela permaneceu por mais de um mês:

“Um pequeno furo no alto era a minha janela. A porta se abria por breves instantes para me darem alimento magro. O que sofri naquele lugar, não é possível descrever em palavras. Lembro-me ainda daquelas horas de angústia quando, cansada de chorar, caía quase desmaiada no chão em ligeiro torpor, enquanto a fantasia me levava para junto dos meus queridos lá longe, tão longe...”[1]

                        Depois de tanto tempo de angústia, lamento e sofrimento finalmente Bakhita compreende o destino que está reservado para si: ser vendida como escrava. Assim, ela conta que certa manhã foi entregue pelo patrão a um mercador de escravos que, depois de efetuar a compra, coloca-a junto com outros escravos, dentre os quais uma menina um pouco maior.

                      A longa caminhada fez com que aquela menina pobre, simples, humilde, inocente e indefesa enfrentasse dores que tiveram o dramático efeito de matar para sempre a sua infância, antecipando nela a chegada de uma mentalidade adulta, onde teria que aprender, a duras penas, como conviver, e mais, como sobreviver, num mundo cercado pelo dinheiro, pelo poder e pela servidão absoluta. Um mundo totalmente diferente daquele em que fora criada por seus pais, naquela humilde aldeia do Sudão.

                        Depois da primeira, Bakhita seria vendida, ainda, mais duas ou três vezes, sendo por fim, dada de presente a uma família nobre, de cuja filha Bakhita torna-se babá.

                        A partir desta doação e desta função como babá, a mão de Deus começa a se fazer visível.

                        Já estando longe da África, e sem esperança e sem vontade alguma de para lá retornar, Bakhita aproveita o longo período em que fica, com a filha pequena da senhora, sob os cuidados das irmãs da Congregação da Caridade de Veneza. As irmãs canossianas, responsáveis pelo Catecumenato, apresentaram Jesus Cristo a Josefina Bakhita. Falaram-lhe sobre o projeto de Deus para a Salvação dos homens; sobre o nascimento, a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ensinaram-lhe sobre o mistério da transubstanciação do pão e do vinho, em corpo e sangue de Cristo. Enfim, abriram para Bakhita as portas do céu, ainda em vida.

                        Quando, nove meses depois de estar ali, na Congregação, a senhora retorna para buscar Bakhita e a filha pequena, para um retorno à África, encontra uma resistência que não imaginara: Bakhita já estava com a alma totalmente entregue ao Senhor, e luta para permanecer na Congregação. É ela própria quem conta:

“Eu me recusei a segui-la para a África, porque não me sentia instruída para o batismo. Pensava também que, depois de batizada, não poderia professar a nova religião, e que por isso me era mais conveniente ficar com as irmãs. Ela ficou furiosa, tachando-me de ingrata ao deixá-la partir sozinha, depois de ela ter feito tanto bem a mim. Eu, porém, firma em meu pensamento. [...] Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque Ele queria tornar-me toda sua. Que bondade!”[2]

                        Finalmente, em 09 de janeiro de 1890, Bakhita recebe o batismo e, também, o novo nome – Josefina Margarida e Fortunata que, em árabe, quer dizer BAKHITA e, em 07 de dezembro de 1893 entrava para o noviciado pronunciando os santos votos em 08 de dezembro de 1896.

                        Quase um século depois, em 17 de maio de 1992, ocorre a beatificação, durante o pontificado de João Paulo II que, oito anos depois, em outubro de 2000 encerrava o processo de canonização de Santa Bakhita.

                        Durante o discurso de beatificação o Papa afirmou que: “Em nosso tempo, quando a corrida desenfreada pelo poder, pelo dinheiro e pelo prazer produz tanta desconfiança, violência e solidão, Bakhita nos é doada pelo Senhor como ‘Irmã universal’, para que nos revele o segredo da felicidade mais verdadeira: as bem-aventuranças”[3].

                        A Igreja Católica, em diversas oportunidades é acusada de promover a ascensão de santos e santas de forma indiscriminada, como se fosse uma verdadeira indústria de celebridades. Ocorre, no entanto, que os santos estão aqui, caminhando dia-após-dia ao nosso lado, convivendo conosco, falando conosco, estendendo as mãos para nós que, de forma insensível, insistimos em desconsiderá-los e em desprezá-los.

                        Quando morrem, alguém se interessa por suas histórias de vida, de dedicação, de sofrimento, de doação e de abnegação totais e tão intensas que a única forma de reparar nosso erro, engano ou maldade, é reconhecê-los como seres tão superiores a nós e tão próximos de Deus, que realmente merecem o título de “Santos”.

                        A história de Santa Josefina Bakhita é uma dessas histórias que, a princípio, não interessa a ninguém. Quantos meninos e meninas são sequestrados todos os dias, não apenas na África, mas em diversos pontos do planeta, sem que ninguém se interesse por suas histórias de vida? Quantos, porém, escapam da escravidão e da servidão humana para, tornarem-se servos e servas de Deus, não mais servindo aos senhores do mundo, mas, diretamente aos filhos e às filhas do Deus único e verdadeiro, cuja face nos é revelada por Jesus Cristo?

                        A Igreja cumpre papel exclusivo nesse mister! Trazendo até nós aqueles e aquelas que, por suas histórias de vida e de santidade, reconhecidamente fazem parte do séquito divino, convidando-nos a imitá-los sempre e sempre, na busca por idêntica posição.

                      Essa é a nossa homenagem a Santa Josefina Bakhita, mulher, negra, pobre, humilde, escrava e aprisionada pelos homens, mas que, liberta pelas mãos poderosas do Senhor, tornou-se para nós, ícone de santidade, de doação, de dedicação e de abnegação por amor ao Filho de Deus.

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Para saber mais:

LIVRO: ZANINI, Roberto Ítalo. JOSEFINA BAKHITA. O CORAÇÃO NOS MARTELAVA NO PEITO – DIÁRIO DE UMA ESCRAVA QUE SE TORNOU SANTA. São Paulo. Paulus: 2014. 94 páginas.

DVD: BAKHITA – Uma história Maravilhosa. Santa Josefina Bakhita. Paulinas. 2006. 74 minutos de duração, dublado.

[1] ZANINI, Roberto Ítalo (Org.). JOSEFINA BAKHITA – O Coração nos Martelava no Peito – Diário de uma escrava que se tornou santa. São Paulo. Paulus: 2014. 94 páginas. [2] Op. cit. pág 31. [3] Op. cit. pág. 53.

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