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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: INFORMAÇÕES E SUGESTÕES

set 14

EDITORIAL DA SEMANA: JESUS E SUA GENTE POBRE E HUMILDE

JESUS E SUA GENTE

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: NO CAMINHO DE CRISTO E DO EVANGELHO –

*Por L. A. de Moura –

Hoje eu vou abordar um tema sobre o qual, talvez, você possa se surpreender ou, quem sabe, achá-lo, simplesmente, fora da moda. Respeito qualquer que seja a sua postura. Mas, acredito ser preciso, como sempre o foi, falar sobre a Teologia e, mais especificamente, sobre a Teologia da Libertação. Você poderia até mesmo objetar que, nos tempos atuais, das redes sociais, da globalização, do imediatismo dos fatos e das notícias em ritmo full time, nunca se passou por período de tamanha liberdade e, consequentemente, libertação.

Bem, não sei se você está compreendendo sobre o que eu quero falar hoje. Mas, tudo bem, vou procurar informá-lo sobre tudo. Não vamos, aqui, neste espaço limitado, ficar discutindo a estupenda evolução tecnológica pela qual tem passado toda a humanidade. Não é esta a meta. O que pretendo trazer para você é uma ínfima parte daquilo que convencionou-se denominar como “Teologia da Libertação” a partir de Jesus Cristo e do seu Evangelho. É disto que se trata.

Para iniciar a conversa, e sempre evitando me alongar em demasia, devo destacar nomes de teólogos como o do peruano Gustavo Gutierrez, do suíço Huns Küng e do brasileiro Leonardo Boff, que estão entre os pioneiros de uma visão teológica que, entre os fins da década de 1960 até meados da de 1980, do século passado, abalaram grandes estruturas da Igreja de Roma, resultando em severas punições para, inclusive, o brasileiro.

Os mais antigos devem se recordar de tais episódios. Os mais jovens, por óbvio, não vivenciaram aqueles tempos bastante difíceis. Por esta razão, é recomendável que pesquisem acerca do tema e da história, caso tenham algum interesse.

Deixando conceituações e formulações teológico-filosóficas de lado, vamos direto ao assunto: a Teologia da Libertação, além de significar um grito de permanente alerta à Igreja Cristã trata, também, e em síntese, de aplicar no chão da terra os ensinamentos e os exemplos de Jesus, por muitos denominados como “o Jesus histórico”, ou seja, aquele Jesus sobre o qual o cristianismo se encarregou de acumular dados e fatos que envolveram a sua rápida passagem por este mundo.

É importante destacar que Jesus pode ser visto, e assim o é por muitos cristãos e muitas cristãs, apenas como o da fé, ou seja, aquele homem absolutamente santo, Filho do Altíssimo, alto, bonito, com vestes limpas e bem alinhadas, Mestre judeu das Sagradas Escrituras, que ensinava a verdade, elencava os pecados a que estão sujeitos todos os mortais, condenava os ricos e mostrava o inevitável caminho do Hades, o fogo da geena, para os pecadores não redimidos. Este mesmo Jesus não hesitava em passar noites inteiras em profundos diálogos com o Pai; praticava o jejum, curava cegos, surdos, mudos e enfermos, ressuscitava mortos, perdoava os pecados, mas, alertava os pecadores para não mais pecarem e, por fim, vítima exemplarmente obediente, caminhou sob chibatas até o calvário, onde encontrou a morte na cruz. Um Jesus, enfim, fatídico!

Um outro Jesus, tão amado quanto o primeiro, é aquele que alguns julgam ter passado a juventude entre os Essênios, estudando as Sagradas Escrituras e as estruturas do judaísmo. Um Jesus absolutamente pobre. Mal vestido, mal calçado, morando mal e comendo mal, junto com todos os pobres do seu tempo. Este Jesus, sob este prisma, é complacente com a gente pobre e sofrida que o cerca. Senta-se em meio a todos eles, sem se preocupar se são, ou não, pecadores, cobradores de impostos ou prostitutas. A Ele não interessa saber se aquela gente simples e humilde tem, ou não, uma religião: apenas ensina o respeito à casa do Pai e o caminho do Reino. Para Ele não importa se o homem deve comer carne ou peixe, se deve beber água ou vinho. Ele procura estar sempre com o seu povo, com a sua gente. E, vivendo e convivendo desta forma, Ele vê diante dos olhos a pobreza absoluta, a falta de tudo, a doença, a injustiça, a privação dos órgãos essenciais aos sentidos. Ele sente na própria pele, como se fosse com ele mesmo, a exploração do povo, a perseguição à qual estavam sujeitos, a exclusão social dos leprosos. Ele sofre. Ele chora com os amigos e familiares do amigo Lázaro, que jaz no túmulo.

Este mesmo Jesus, não suportando assistir calado a tantos horrores pelos quais seus amigos, irmãos, vizinhos e conterrâneos estavam sendo massacrados, sobe ao monte e clama as bem-aventuranças; não se conformando com o egoísmo, Ele leva a multidão a repartir pães e peixes; com piedade de Pedro e de seus amigos, Ele possibilita a pesca milagrosa. Para mostrar o poder e a necessidade da transformação dos seres humanos, Ele faz a água se transformar em vinho de primeira qualidade, demonstrando que o último estágio pode ser muito superior ao primeiro. Querendo revelar que nós podemos fazer muito mais do que aparentamos ou acreditamos, Ele afirma, e comprova por meio de Pedro que, quem tiver fé, caminhará sobre as águas; se observar seus ensinamentos, fará as mesmas obras que Ele, e outras ainda maiores, sem qualquer forma ou resquício de exclusivismo. Ele ensina que o Pai ama todos os seus filhos e filhas e que, ao final, quer mesmo é justiça para todos.

Enfim, um Jesus popular, um homem nascido, crescido, vivido e experimentado em meio ao seu sofrido povo, dos quais nunca se afastou.

Jesus era um leigo que, conhecedor da vontade de Deus, declara-se como sendo o próprio caminho, a verdade e a vida. Não satisfeito, chama a si todos os cansados, aflitos e oprimidos, prometendo que a todos aliviará dos seus fardos e pesos. Um pregador que não tinha igreja, frequentava a Sinagoga (casa de oração) e, com a mesma desenvoltura, foi ao Templo de Jerusalém.

Admirado com a fé de Pedro, Ele afirma ser sobre aquela fé, forte como uma rocha, que pretende ver construída a sua Igreja – uma verdadeira assembleia de filhos e filhas de Deus, vivendo e convivendo em absoluta comunhão. Neste sentido Ele, de antemão, assegura que, onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ali, também, estará Ele. Na proximidade da sua condenação, Ele declara: “não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18).

É este Jesus que, preferindo não desafiar Roma, manda pagar o imposto devido a César, não, sem antes, deixar claro que o que pertence a Deus, deve ser dado a Deus. Um Jesus que olha para o sábado, dia sagrado para os religiosos da época, e afirma que este dia foi feito para o homem, e não, o contrário. Um Jesus, enfim, intrigante!

Pois foi justamente olhando para este Jesus, que os chamados teólogos da libertação, ao confrontarem épocas e contextos, além de fazerem certas comparações entre o judaísmo do tempo de Jesus e certos setores do cristianismo contemporâneo, compreenderam ter chegado o tempo de, realmente, conclamar toda a Igreja Cristã a se comprometer de fato e com coragem com a causa do pobre, do oprimido e do injustiçado e a promover a verdadeira imitação de Cristo, postando-se ao lado da gente pobre, sofrida, perseguida, injustiçada, humilhada, explorada, combatida e excluída. Gente da mesma estirpe daquela que convivia com o Mestre de Nazaré. Mesmo estando muitos séculos distantes de Jesus, os teólogos da libertação viveram seus momentos de calvário. Alguns foram crucificados pelas canetas que assinaram suas sentenças de condenação. Outros, de fato, perderam suas vidas ao defenderem sua gente e seus povos, sem se importarem se eram índios, brancos, negros, mulheres, homossexuais,  prostitutas, camponeses ou operários da urbe. Era imperioso viver, na prática do chão da terra e da fábrica, o Evangelho libertador trazido por Jesus sem, jamais, esquecer ou desconsiderar a plenitude da vida eterna, da vida em abundância prometida pelo Jesus da fé.

Muitos homens e mulheres nascidos e criados no seio da Igreja, obcecados com a ideia de entrarem no Reino de Deus por seus próprios méritos, criticando e condenando irmãos e irmãs que adotam outras posturas, condenaram, e ainda condenam, a Teologia da Libertação enxergando nela um simulacro do marxismo ou do comunismo trotskiano. Com esta visão, e pintados na cor branca por fora, muitos cristãos católicos, inclusive, apontaram o dedo contra a Teologia da Libertação e dos seus defensores, tachando-os, simplesmente, de revolucionários comunistas, desobedientes da Igreja, maus exemplos e coisas do gênero, preferindo o silêncio complacente à fala indignada em defesa da gente pobre, sofrida, injustiçada e humilhada de todas as formas.

Talvez, estes cristãos e cristãs, de tão obcecados, tenham esquecido de algumas das palavras mais importantes ditas por Jesus como, por exemplo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais e iniquidade” (Mt 7, 22-23). Talvez, ainda, estes cristãos e cristãs terão mesmo necessidade de ouvir esta sentença a ser proferida pela boca do próprio Jesus, para poderem compreender que a vontade do Pai e do Filho é que todos os homens sejam tratados com justiça, nem mais e nem menos. Deus não combate a riqueza. Os Patriarcas, no Velho Testamento, eram todos muito ricos e abençoados por Deus, porque eram fiéis e, também, comprometidos com a justiça. No entanto, com a chegada da monarquia, com seus luxos, com suas trapaças, mentiras, idolatrias, corrupções, luxúrias, explorações, humilhações, perseguições, políticas belicistas e mortes, Deus envia profetas altamente indignados como Isaías e Amós, por exemplo, para gritarem contra esta afronta feita ao povo e ao Criador e para clamarem por justiça ao órfão e à viúva.

Quem olha para o mundo de hoje, para o Brasil, inclusive, e acha que está tudo bem, tudo do jeito que só poderia estar; que o pobre nasceu assim, e que assim viverá até morrer; quem acredita que o capitalismo, selvagem como é, é o sistema abençoado e abençoante dos ricos, e que os pobres devem lutar para superar suas dificuldades do dia-a-dia, comendo quando for possível, sem que nada seja feito, não pode se autointitular seguidor de Jesus. Simplesmente porque Jesus não era, não vivia e não agia assim. Quem poderá imitar alguém que não era do jeito que está sendo imitado? Jesus bradou em alto e bom som contra a opressão do seu tempo; Jesus teve coragem para enfrentar, não o império romano propriamente, mas, e, sobretudo, o judaísmo farisaico daquele tempo. Um sistema religioso estruturado, hierarquizado, convicto de que era o senhor absoluto e o guardião da verdade e das bençãos de Deus. Um sistema conivente com o Império, em troca de bem-estar, de conforto, de manutenção dos seus feudos religiosos e, quem sabe, de isenção de impostos.

Quem olha para o Brasil de hoje, e percebe que os povos indígenas estão sendo massacrados, largados à própria sorte; percebe que o campo está inflamado pela política armamentista; que os cárceres estão apinhados de seres humanos que, a cada dia, ganham formas mais e mais monstruosas; que vê direitos trabalhistas, como o simples pagamento do salário, serem aviltados; quem a tudo isto vê, e acredita que está tudo normal, carrega dentro si algum espírito absolutamente desumano, animalesco mesmo. Quem vê o que está sendo feito com as nossas matas e florestas, com os nossos rios e nascentes, com grandes companhias faturando bilhões em cima do fornecimento de uma água de qualidade altamente duvidosa; um saneamento básico que, de básico, não tem nada. Quem a tudo isto vê e mantém-se inerte e em silêncio, não pode acreditar que entrará no Reino de Deus, preparado apenas e tão somente para os pobres e para os justos.

Quem assiste um ministro preocupado, descabelado com a disparada do dólar, com a situação da bolsa de valores e da economia, sem qualquer preocupação com os trabalhadores e com as trabalhadoras do país que, de fato e de direito, são os verdadeiros produtores de toda a riqueza; quem vê este sujeito agindo desta forma, sem demonstrar qualquer preocupação ou mesmo sem propor qualquer política voltada para o emprego, para uma correção justa dos salários, para uma efetiva justiça social, para a saúde ou para a educação das massas, não pode acreditar, sinceramente, ser esta a vontade de Jesus. Neste cenário, deveriam sentir-se envergonhados de se autoproclamarem cristãos, seguidores de Jesus. Seguidores de um Jesus que, simplesmente, desconhecem totalmente, apenas, ouviram falar.

Cinco anos após a publicação, pelo Papa Francisco, da Carta Encíclica Laudato Sí' e trinta dias após o falecimento de Dom Pedro Casaldáliga, a Teologia da Libertação, assim como seus árduos defensores, não pode perder a sua pujança. Pelo contrário, precisamos alimentá-la cada vez mais, como o cozinheiro alimenta o fogão com a lenha seca, a fim de que o fogo do Espírito permaneça sempre aceso em nossos corações. Não podemos assistir calados, omissos e coniventes a tudo o que se passa ao nosso redor, simplesmente, indo à igreja ou ao templo nos dias determinados, depositando um dinheirinho da sacolinha do padre ou do pastor, sob pena de, naquele dia, ouvirmos um sonoro: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim todos vós que praticais a iniquidade.

Esta é apenas uma pequena parte acerca da Teologia da Libertação, suas preocupações, seus olhares e seus objetivos. Acredito que você, se ainda não refletiu profundamente, deverá fazê-lo a partir de agora. Se ainda não compreendeu que o Papa Francisco está aí para abraçar o Evangelho e o modo de viver ensinado, e de conviver adotado, por Jesus, procure se enquadrar enquanto é tempo, pois, a vida é fluida e, quando menos esperamos, eis que é chegada a hora da última travessia. Você poderá até fazer a travessia em um vagão forrado com ouro, porém, nunca se sabe de que forma chegará do outro lado, até porque o seu vagão fica aqui, encaixado numa estreita vaga de concreto. Pense sobre tudo isto e avalie se está imitando o Jesus verdadeiro ou aquele que pintaram para você ou que você mesmo(a) decidiu pintar para si. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

set 07

EDITORIAL SEMANAL: A ÉTICA COMO VIRTUDE

SÓCRATES -2020

SOMOS ÉTICOS POR CONVICÇÃO OU POR CAUSA DA COERÇÃO LEGAL OU SOCIAL –

*Por L. A. de Moura –

O tema que hoje apresentas para o nosso costumeiro debate, é por demais instigante, haja vista estar entranhado no cotidiano de todas as pessoas, diríamos, de bem: a ética. E, como sempre, mantendo o teu estilo provocativo, questionas se pretendemos elevar a ética em decorrência de uma convicção própria, ou se, por outro lado, fazemo-lo em razão de certa “coerção” advinda da sociedade, de forma contratual ou mesmo legal. Eu me assusto com este teu estilo. Falo assim, porque, certamente, não encontraremos muito eco diante daqueles que, porventura, venham tomar conhecimento deste nosso diálogo.

No entanto, confiando na nossa capacidade para deslizar por entre as linhas e as entrelinhas, sem causar maiores incidentes, vamos em frente. Na tua opinião, da qual não ouso discordar, é razoável comparar o que é ético com o que é, também, justo, uma vez que uma coisa não sobrevive dissociada da outra. Partindo desta hipótese, pensas que tal como ocorre com a justiça, a prática da ética decorre muito mais de uma imposição vinda do exterior, do que, propriamente, do interior dos seres humanos. Em outras palavras: a teu juízo, o indivíduo só procura ser ético diante do público quando, em segredo, no silêncio da sua alma e, caso eventualmente consultado por si mesmo, manifestaria outro desejo de ser, de viver e de agir.

Destas tuas conclusões, penso ser coerente a dúvida inicial: o indivíduo é ético por convicção ou por coerção? Haveria, por assim dizer, um caminho do meio, no qual um intrépido qualquer pudesse esconder suas verdadeiras características, sem cair diante de um lado ou de outro do abismo? Penso que não!

É claro que não podemos, aqui, neste espaço bastante limitado, pretender efetuar uma exploração sobre a conduta humana no decorrer de toda a história da civilização, sob pena de descermos às profundezas das origens, sem fôlego para o imediato retorno. Desta forma, buscando amparo na análise sobre o humano do nosso tempo que, certamente, é o mesmo de sempre, poderemos encontrar evidentes semelhanças entre os mais diversos exemplares, haja vista pertencermos, todos, à mesma espécie.

Bem, no tempo atual, parece não existirem dúvidas quanto ao fato de que a força dos atos e das opiniões que praticamos ou que externamos, encontra forte balizamento no que a chamada “maioria” pratica ou declara pensar. Assim, praticamos as ações que, segundo a “maioria” dos nossos congêneres, são as mais corretas, as mais justas, as mais equilibradas, as mais coerentes e as mais virtuosas. Na mesma direção, as opiniões que externamos. Devem, para não serem cruelmente apedrejadas, estar em absoluta conformidade com a opinião dos que, inclusive, são denominados “formadores de opinião”. Com um pouco de reflexão, parece não haver muita dúvida quanto a isto.

Ora, se pudermos assumir como verdadeiras as proposições acima, então chegaremos facilmente à conclusão de que os seres humanos contemporâneos agem muito mais, movidos pelo que lhes é imposto pela sociedade, que se fecha em copas, do que propriamente pela sua genuína natureza. Donde podermos afirmar, então, que os indivíduos falam sobre a ética, defendendo-a com unhas e dentes, apenas, e, tão somente, diante das câmeras ou dos inúmeros olhares que lhes são dirigidos por uma plateia ávida por ouvir, justamente, aquilo que se espera que seja dito, até porque, é o reflexo de determinado pensamento dominante. Fora destas circunstâncias e destes contextos, tais indivíduos tendem a conflitar com seus próprios pendores internos.

Seria o caso, e até bastante oportuno, de recordar o famoso exemplo do pastor de ovelhas chamado Giges, usado por Platão, na sua “A República”. Para quem não conhece o caso, aqui vai uma palhinha bem resumida, a partir do diálogo entre Gláucon e Sócrates, quando o primeiro apresenta Giges como um sujeito cumpridor dos seus deveres, mas que, em razão de circunstâncias climáticas, encontra, no corpo de um cadáver, um anel de ouro. Dada a localização do cadáver (é bom ler no original), Giges apodera-se do anel e, em pouco tempo, descobre que ao movimentar a parte superior do anel na direção da palma da sua mão, torna-se invisível para as demais pessoas. Voltando o anel à posição inicial, volta a ser visto por qualquer um. Ora, Giges rapidamente torna-se um sujeito perigoso, uma vez que, possuidor de tais poderes, é capaz de, na invisibilidade agora possível, praticar os atos mais absurdos que se possa imaginar. Sugiro que os leitores leiam a história na íntegra (Segundo Livro de A República – Platão). Para o leitor atento da historinha de Giges, o próprio fato de apoderar-se do anel, em um ambiente fora da vista das pessoas, já soa como algo bastante sugestivo acerca da real personalidade do pastor de ovelhas que, naquele justo momento, encontrava-se a sós com o cadáver, longe de olhares outros.

Imaginem os leitores e as leitoras, por exemplo, o caso de dois estudantes que decidam efetuar matrícula em mesma instituição universitária, sendo que, em dado momento, um deles, sejam lá quais forem as suas razões, decide não mais caminhar junto com o outro, desistindo do ingresso no campus universitário. Obviamente, cada um segue o caminho que se lhe afigura como o melhor. No entanto, o que desistiu de seguir a caminhada universitária, pede ao outro para, na medida em que o curso for evoluindo, vá passando para ele todas as apostilas que recebe da instituição, pelo simples fato de estar regularmente matriculado. Assume, diante do amigo, o interesse em aprender tudo o que puder sobre aquela cadeira, apenas, e, tão somente, não querendo assumir compromissos com o estudo regular nem com as regras impostas pela instituição.

O caso pode parecer estranho ao tema aqui desenvolvido. No entanto, é preciso olhar com um pouco mais de atenção para podermos enxergar a quebra da ética, principalmente, por parte do estudante regularmente matriculado, caso resolva atender o pedido feito pelo amigo. É que, parece bastante claro que, no caso, só tem direito de receber as tais apostilas, aquele que está inscrito naquela instituição para cursar aquela disciplina específica. Para tanto, a instituição cobra um determinado valor mensal, e o estudante paga com a devida regularidade. Enquanto o outro, por ter desistido de frequentar o mesmo curso, ficou isento de efetuar qualquer pagamento àquela instituição ficando, também, sem direito de receber dela, de forma direta ou indireta, qualquer material didático.

Ora, para os que ainda possam guardar alguma insegurança relativamente ao fato, basta perguntar-se a si próprio se, no caso, o estudante que resolvesse atender aos clamores do amigo, seria bem avaliado, e até mesmo aplaudido pela direção da Universidade se, em dado momento, toda a trama viesse a público. Será que o gesto de amizade, passando por cima dos autores do projeto de estudo dirigido, desconsiderando todo o trabalho de pesquisa, além do custo do material utilizado e da força de trabalho despendida, seria visto com bons olhos pelo Reitor da Universidade ou pelo Diretor daquela disciplina? Pode ser que não!

Trata-se de um exemplo muito simples. Bastante simples, mas, que, ocorre com muita frequência no mundo acadêmico. Ora, mas isto não é nada grave, poderiam objetar os leitores e as leitoras. Parece não ser grave mesmo. No entanto, quem é capaz de praticar um ato minimamente antiético, de posse de uma justificativa até plausível, será capaz de praticar muitos outros, para os quais, certamente, encontrará as justificativas cabíveis e, possivelmente, admissíveis, desde que – e isto é importante – não sejam atingidos interesses maiores, caso venha a ser descoberto.

Portanto, exemplos não faltam no dia-a-dia das nossas vidas. É preciso, e até certo ponto útil, que cada um de nós faça uma avaliação rigorosa diante de cada ato a ser praticado, para saber se está agindo por força da coerção ou de uma sólida convicção própria. Agiria desta forma, independentemente da publicidade do ato, ou, por outro lado, diante da plateia, tomaria outro rumo?

Há a alguns anos eu adquiri, pela internet, um programa nutricional, seguido de um livro de receitas de culinária, elaborados por uma equipe cujo chefe era um médico gastroenterologista, com foco em pessoas portadoras de diabetes. Adquirir, aqui, significa, comprar mesmo. Comprar e pagar. Bem, seria natural que, comprando e pagando, eu me entendesse como “dono” daquele material, podendo repassá-lo para qualquer outra pessoa das minhas relações. Até mesmo para ajudar alguém a se alimentar de forma mais adequada. Muito justo, diriam alguns. No entanto, no ato da compra, tive que declarar estar ciente de que, qualquer forma de transferência daquele material, no qual vinham estampados o meu nome e o número do meu CPF, constituiria fraude, em razão do direito da autoria, do qual o médico assinante é detentor. Não bastasse a referida adesão ao compromisso, assim como a minha identificação para fins fiscais, verifiquei, posteriormente que, qualquer simples cópia, exibia, também, o endereço eletrônico do médico, na forma de marca d’água, significando que, mesmo que eu quisesse burlar o compromisso assumido, estaria muito claro para qualquer pessoa, que aquele era um material cujo autor deve ser respeitado. Valendo dizer: quem quiser adquiri-lo, deve comprá-lo!

Quer um outro exemplo prático? A Folha de São Paulo até permite que sejam feitas cópias das matérias que publica. No entanto, o copiador, ao teclar o Ctrl+v, recebe apenas o endereço eletrônico da referida página do jornal que, por sua vez, só pode ser acessado por assinantes. O que isto significa? Significa que, se eu, que sou assinante, enviar cópia do endereço eletrônico para uma pessoa que não o seja, ela não conseguirá o acesso desejado. E por quê? Seria de se perguntar: por se tratar de material de cunho comercial, que possui valor econômico para quem o produz. Desta forma, se qualquer pessoa pudesse obter acesso àquele material, a empresa iria à falência.

Observem que, em ambos os exemplos, a "ética", aqui, ocorre em função das precauções tomadas pelas respectivas instituições, o que parece não ocorrer no caso do estudante cujo amigo pediu cópia do material disponibilizado somente para os regularmente matriculados naquela disciplina específica. Portanto, neste último caso, é possível que o nosso prezado estudante mandaria a ética às favas e, para agradar ao amigo, cederia facilmente todo o material solicitado. Tiraria, também, se fossem pedidas, fotos das professoras mais sensuais, assim como das estudantes mais bonitas etc., sem qualquer constrangimento. Tudo isto porque, para ele, ética tem a ver com a liberdade de agir, e esta, não encontra limites a não ser na lei e na punição.

O grande problema, é que o ser humano não se esmera em ser honesto, em respeitar o direito alheio. Pelo contrário, procura sempre esmerar-se em superar quaisquer obstáculos relativos à ética, de modo que, da forma mais discreta, e secreta, possível, possa invadir o espaço do outro sem ser descoberto e sem, evidentemente, perder a auréola de “pessoa ética”.

Finalizando este nosso colóquio, julgo ser necessário dizer que precisamos inverter esta lógica, porque ela tem destruído uma das coisas mais importantes da vida de todos nós: a confiança mútua. Precisamos acreditar que nossas relações, sejam comerciais ou não, carecem do sentimento, e da própria convicção, da justeza, do equilíbrio e da equidade. É, pois, possível, uma melhor convivência. Só depende de todos e de cada um de nós.

Em razão do meu atual momento acadêmico, penso ser importante discriminar aqui o Óctuplo do Nobre Caminho, extraído do Dhammapada, que traz as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda, para a superação e a libertação da dor e do sofrimento: a) a reta compreensão; b) o reto pensamento; c) a reta palavra; d) a reta ação; e) o reto modo de vida; f) o reto esforço; g) a reta atenção; h) a reta concentração.

O sentido de “reto”, aqui, é o daquilo que é “justo”. Portanto, precisamos conhecer e, ao mesmo tempo, praticar, estas virtudes, para podermos disseminar o caminho do bem que tanto almejamos para as nossas vidas, assim como para as de todos os nossos semelhantes. A pergunta não é: É possível ter um mundo melhor? Mas, sim: Eu consigo ser melhor do que sou para encontrar um lugar no mundo que almejo como melhor? Porque, se a resposta a esta segunda pergunta for afirmativa, a primeira questão estará, igualmente, resolvida.

Espero que tenhas ficado satisfeito com estas minhas ponderações e que os nossos leitores e leitoras possam, também, tirar algum proveito de tudo isto, apesar de, como sempre, reafirmar que tudo não passa de opiniões e de convicções de natureza pessoal, frutos da vivência e da própria experiência de vida. Que cada um faça as suas íntimas e saudáveis reflexões e que, a partir daí, possa tirar as conclusões capazes de mudar caminhos e caminhadas, oferecendo exemplos e opções para outros caminhantes. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 31

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO DESISTA DA PERMANENTE BUSCA PELA SABEDORIA

A BUSCA PELO SABER

A BUSCA PELO CONHECIMENTO E PELA SABEDORIA EXIGE NEUTRALIDADE E IMPARCIALIDADE –

*Por L. A. de Moura –

Hoje você traz um assunto formidável para que, sobre ele, possamos abrir algumas portas que, no final de todas as contas, serão convertidas em acesso para o livre pesquisador, estudioso e pensador poderem adentrar no fantástico mundo do conhecimento.

Sem muita complacência para com este escriba, você questiona, de início, a motivação de certas pessoas para, em decorrência das crenças, religiosas ou não, afastarem-se dos diversos campos do conhecimento. Segundo seus argumentos, muitas pessoas preferem acorrentar-se à ignorância, para manter suas convicções, a lançarem-se livremente no universo do saber, da busca pelo conhecimento, em todos os níveis possíveis, e da própria verdade sobre todas as coisas. E, ainda, de acordo com a sua tese, crenças e convicções ortodoxas funcionam como verdadeiros muros de concreto, a impedirem o avanço de boa parte da humanidade que, para piorar ainda mais o cenário, prefere desacreditar os buscadores de novos caminhos e de novos conhecimentos, a dar-lhes seguimento e subsídios em seus trabalhos.

Para você, conforme posso deduzir pela sua indignação, trata-se de situação aviltante à qual o ser humano, em escala crescente e progressiva, está estacionado, proporcionando um endurecimento absurdo da alma, alimentando o egoísmo e a prepotência e impedindo a própria evolução espiritual, tão necessária para a vida pós-túmulo.

Como tem feito ultimamente, você passa para mim a árdua tarefa de tomar uma posição diante do tema, acreditando que, talvez, eu consiga encontrar uma porta de saída para impasse de tal magnitude. Não tenho tal pretensão. No entanto, algumas palavras posso acrescentar ao seu repertório de observações e de conclusões.

Veja, é fato concreto, e neste sentido você está coberto de razão, que uma parte significativa da humanidade vive, atualmente, entre a cruz da ignorância e a espada das próprias convicções. Pregada na cruz da ignorância, esta larga parcela de seres humanos, com pregos cravados no próprio cérebro, não consegue, sequer, imaginar a possibilidade de sair livre da condenação. Ao mesmo tempo que, com a espada das crenças e das convicções apontada para a jugular, esta mesma parcela é incapaz de ousar qualquer movimento na direção do vértice, ou seja, na direção do Conhecimento e da Verdade. Deste modo, temos aquilo do que somos testemunhas oculares.

Bem, você poderia então, e de uma forma bastante legítima, perguntar: o que dizer deste cenário caótico? Como sair deste impasse? É certo que, quase sempre, temos respostas prontas para muitas coisas. Porém, para outro tanto de questões não as temos, assim, de imediato.

Não posso deixar de admitir que esta tem sido uma das questões que mais ocupam a minha mente de pensador, procurando compreender a falta de interesse e, podemos mesmo dizer, de vontade, das pessoas para buscarem de modo constante o aperfeiçoamento do conhecimento e da sabedoria. No afã de encontrar respostas minimamente aceitáveis e, ao mesmo tempo, eficientes, venho meditando sobre tudo isto há muito tempo. Não encontrei nada de muito satisfatório. Ainda assim, consegui contabilizar algumas possibilidades que, caso adotadas possam, talvez, alterar este estado, como você afirma, “caótico”.

No mundo das ideias, que é basicamente o nosso, crenças e convicções chegam até nós por meio de dados, informações, pregações e certezas trazidas por pessoas e/ou instituições que, para tanto, valem-se de diversos instrumentos – livros, vídeos, textos antigos ou recentes, interpretações de códigos, de leis, de manuais e de ensinamentos muito antigos, doutrinas e dogmas – que surgem, justamente, com o objetivo de criar em cada um de nós uma espécie de carcaça, presumidamente protetora contra as chamadas intempéries da vida. Para os que trazem tudo isto para nós, é imperativo que acolhamos tudo com bastante aguerrimento, certeza e fidelidade, de nada abrindo mão, ou por nada substituindo, para que estejamos, digamos, sempre protegidos contra os falsos mestres e, por fim, contra a caminhada rumo a todo um mundo de fenômenos, de conhecimentos e de saberes ainda desconhecidos pela maioria de nós, mal explicados ou mesmo mal esclarecidos.

Ora, uma das grandes virtudes que o ser humano pode ostentar, quando possui, é a do discernimento. É saber distinguir uma coisa da outra com a maior exatidão e perfeição possíveis. Esta virtude faz parte do cabedal de sabedoria que o ser humano deve almejar e que deve, portanto, lutar diuturnamente para alcançar. O Apóstolo Tiago, na sua Epístola às doze tribos, afirma que: “Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á concedida. Mas peça-a com fé, sem nada hesitar, porque aquele que hesita é semelhante à onda do mar, que é agitada e levada de uma parte para a outra pelo vento.” (Tg 1, 5-6). Assim, é de suma importância que o ser humano seja virtuoso na arte de discernir entre o bem e o mal, entre o falso e o verdadeiro, entre o certo e o errado e, por fim, entre todos os dualismos existentes e conhecidos.

Portador da virtude do discernimento, tal qual o homem que, amarrado ao mastro do navio, pode ir à ilha das sereias, sem ser capturado e devorado, o ser humano pode, e deve, caminhar, sempre, em busca de novos conhecimentos acerca de tudo o que o cerca, sem medo e sem titubear, ou seja, sem hesitar, conforme exorta o Apóstolo na carta acima mencionada.

Em outras e conclusivas palavras: aquele que sai em busca do conhecimento e da sabedoria deve portar-se de forma absolutamente neutra e imparcial, de modo a impedir que pré-conceitos possam servir como obstáculos para o crescimento, humano e espiritual. Dotado com a virtude do discernimento, o ser humano sempre reconhecerá a verdadeira sabedoria, assim como o sábio e correto ensinamento, deixando de ser escravo das verdades e dos ensinamentos prontos que, normalmente, são-lhe entregues por mestres que nem sempre acreditam ou praticam o que pregam e ensinam.

O contexto no qual estamos inseridos atualmente exige, diante dos inúmeros fatos por todos presenciados e testemunhados, que desçamos da cruz da ignorância e que nos afastemos da espada das convicções que, de certa forma, nos foram impostas de cima para baixo, para irmos em busca de conhecimentos mais sólidos e mais profundos, ainda que para, apenas, confirmar o que já sabemos de antemão. É necessário que, de forma neutra e imparcial, possamos nos lançar no mar em busca de outros peixes. Neste sentido, gosto sempre de recordar a perícope do Evangelho de Lucas, quando Jesus ordena a Pedro para ir mais adiante, no mar, para lançar suas redes. Ora, Pedro havia passado a noite toda ali, naquele mesmo mar, lançando as suas redes, sem nenhum sucesso. Nada de peixes! Ele fala isso com Jesus sem, no entanto, deixar de acrescentar: “Mestre, tendo trabalhado toda a noite, não apanhamos nada; porém, em respeito à tua palavra, lançarei a rede.” (Lc 5, 1-9). Pedro, um velho e exímio pescador, conhecedor das artimanhas do mar, cheio de sabedoria e de convicções, ouve a voz Daquele que nunca tinha fisgado um único peixe na vida. Abre-se para o próximo, abre-se para o conhecimento do outro. Leia o capítulo indicado acima e veja o que aconteceu com a superação das velhas e impactantes convicções do velho pescador.

Não fomos criados para vivermos na limitação. O Criador espera que cresçamos na fé, no Conhecimento e na Sabedoria. E, já que citei Jesus, volto a Ele para recordar suas sábias palavras, ao afirmar que: “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Observe que o Mestre de Nazaré não se contenta com o fazermos as mesmas obras que Ele fez, mas, sugere que façamos “outras ainda maiores”. Portanto, não devemos permanecer amarrados ao mastro do navio quando ao nosso redor, sequer, inexistem sereias devoradoras. Não devemos ter medo do conhecimento e da sabedoria. Ao contrário, devemos ir ao seu encontro a fim de crescermos, principalmente, no âmbito espiritual que, no fundo, deveria ser o nosso único interesse nesta vida e neste mundo.

Por último, para reforçar minha concordância com a sua legítima preocupação, quero citar, ainda, a parábola dos talentos, contada por Jesus, mas que, aqui, vou resumir: um homem que estava para sair em viagem pelo exterior, chamou seus três empregados e entregou-lhes parte da sua fortuna. Ao primeiro entregou cinco talentos; ao segundo, dois talentos e, ao terceiro, um talento. O homem que recebeu cinco talentos, investiu tudo aquilo e, ao final, dobrou o capital do patrão; o segundo empregado fez o mesmo e obteve o mesmo resultado, colheu o dobro do que investiu. O terceiro empregado, porém, com medo do que pudesse acontecer, e sabendo que o patrão era homem bastante rigoroso e severo, preferiu cavar um buraco no chão e enterrar o único talento que recebera. Quando o patrão retornou da viagem e pediu a prestação de contas do dinheiro entregue aos três empregados, cobriu os dois primeiros de elogios e reprovou a atitude, e o medo, do terceiro empregado, chamando-o de “servo mau e preguiçoso”, determinando que fosse-lhe retirado tudo o que estava sob a sua administração (Mt 25, 14-30).

Portanto, aquilo que recebemos das mãos do Senhor, devemos investir, de modo a multiplicar tudo o que nos foi confiado, inclusive, e, principalmente, o conhecimento e a sabedoria, sob pena de, em algum momento da nossa trajetória, sermos por Ele tachados de “servos maus e preguiçosos”, vindo a perder até mesmo o pouco que havíamos recebido anteriormente. Munido com a virtude do discernimento, lança-te na caça por mais e mais conhecimento; atira-te na busca por mais saber; adentra no mar do crescimento espiritual e lança as tuas redes. Abandona o medo e a covardia, símbolos máximos da falta de fé, de coragem e de fidelidade e prova inequívoca de falta de respeito para com a palavra do Mestre maior, Jesus, a quem o pescador Simão Pedro não ousou desobedecer ou mesmo desconfiar do seu saber, apesar de ainda não conhecê-Lo tão perfeitamente como viria a fazê-lo bem mais tarde. Liberta-te da cruz e da espada que te impedem de prosperar espiritualmente. Foge da sombra do conhecimento e do saber servidos, prontos e acabados, na bandeja dos sábios de plantão que, quase sempre, estão por trás de escândalos financeiros, sexuais e morais.

Desta forma, meu amigo de caminhada, espero ter acrescentado algo mais à sua já tão expandida sabedoria. Você, certamente, dotado de saber e de discernimento que é, saberá agregar o que for bom e útil e, ao mesmo tempo, desvencilhar-se do que for inútil, desnecessário ou redundante.

Que nossos leitores e nossas leitoras compreendam bem o nosso propósito e que, munidos do espírito da imparcialidade, da neutralidade, da boa vontade e da virtude do discernimento, possam fazer bom proveito deste texto que, como sempre gostamos de destacar, não é verdade pronta e acabada para ninguém, nem para nós mesmos. É apenas um ponto de partida. Um ponto que dá acesso a inúmeros outros pontos. Sejam felizes, e que gozem da boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 24

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM É VOCÊ DE VERDADE?

QUEM SOU EU

O QUE DIZER, QUANDO ALGUÉM DESEJA SABER QUEM SOU EU –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente algumas questões bastante interessantes têm percorrido o nosso diálogo semanal. São questões que, na maioria das vezes, você traz para que eu possa, após ouvir as suas ponderações, emitir algumas opiniões, independentemente de estarem, ou não, em conformidade com o seu pensamento. De fato, você tem me instigado, diria mesmo, provocado, a refletir sobre temas do nosso cotidiano. Temas que, realmente, estão na pauta das nossas relações diárias e pelos quais passamos, muitas vezes, sem nos darmos conta da importância que possuem para o nosso progresso, enquanto seres humanos. Desde o início, gostei da sugestão e aprovei os critérios para que, a partir destas trocas de experiências, pudéssemos levar aos leitores e às leitoras alguns subsídios favoráveis, e até mesmo incentivadores, para regulares reflexões.

Hoje você apresenta algo inusitado para refletirmos durante a nossa já costumeira caminhada. Trata-se da forma como eu, você e cada um de nós, devemos nos apresentar para as pessoas que, de algum modo, demonstram interesse em conhecer quem, de fato, nós somos. Inicialmente, você afirma que seria lógico que, ao me apresentar para a outra pessoa, eu expusesse minhas características físicas. Ora, estas características, isso me parece óbvio demais, não interessam a ninguém. Até porque, basta olhar para mim para, imediatamente, saberem quem eu sou sob esta perspectiva.

Você, no entanto, acredita que, ao descrever todas as minhas características físicas, eu estaria demonstrando, e até certo ponto aceitando, certas, digamos, disparidades em relação a outros corpos mais perfeitos e/ou ajustados aos padrões de beleza aceitos ou impostos pela sociedade. Assim, se ostento certa deficiência facial, por exemplo, e deixo de descrevê-la abertamente seria, na sua opinião, uma forma de fugir de uma realidade que, no fundo, estaria a me incomodar. Se, ainda, sou de estatura menos elevada, ostento uma calvície e revelo uma barriguinha um pouco saliente, o fato de deixar de mencioná-las seria, no seu entender, um modo que eu adotaria para acreditar que, ficando em silêncio quanto a tais fatos, faria com que o outro deixasse de dar tanta atenção. Não penso exatamente deste modo. Porém, respeito todas as suas colocações neste sentido. Afinal de contas, você, na minha opinião, tem alguma razão quanto à necessidade que tenho de enfrentar todos os meus, digamos, dilemas estéticos. De fato, existem pessoas, e eu conheço algumas, que não se aceitam como são ou como estão. E, por esta razão, vivem em função de alterar todas as suas incômodas características, por acreditarem padecerem de certas “deficiências” físicas. Não concordo, porém, respeito!

Na minha opinião, quando alguém deseja saber quem, de fato, eu sou, está interessado em conhecer justamente tudo aquilo que o corpo não revela. Vale dizer: quer conhecer o máximo possível a respeito da minha formação espiritual, ética, moral e, porque não dizer, da minha personalidade. É isto que interessa às outras pessoas e ao mundo que me cerca.

Conte-me mais sobre você, costumam pedir as pessoas quando se relacionam conosco pela primeira vez. E aí está a chave de tudo. Porque, na medida em que expomos o que somos, o que pensamos e, principalmente, a forma como estamos acostumados a agir, é que o nosso interlocutor terá elementos suficientes para, dali por diante, testar a veracidade de tudo o que dissemos. Afinal, é preciso responder a estas perguntas: o que me faz bem, o que me traz alegria, como vejo o outro, sob diversos aspectos, que princípios e valores eu cultivo? Todas estas questões estão ali, diante de nós, fervilhando no mar da curiosidade alheia

Não preciso te lembrar que, quanto mais interesse a outra pessoa demonstra em ouvir sobre mim, mais vontade de falar eu tenho. Assim, não é raro que, nestas circunstâncias, a gente fale coisas mirabolantes. Coisas que, na verdade, são mais lendas do que realidades. E será, no dia-a-dia daquele relacionamento que se inicia, que vou ser chamado a comprovar tudo o que falei sobre mim. E com o tempo a pessoa saberá perfeitamente, quem eu sou de verdade.

Se me apresento, por exemplo, como uma pessoa de trato fácil, de temperamento sereno, tranquilo e compreensivo, passo para o meu interlocutor a imagem de uma pessoa bacana, amiga, simpática. Pessoa com a qual, jamais, se tem qualquer problema de convivência. No entanto, se na primeira situação adversa em que estivermos juntos, eu perder a serenidade, a tranquilidade e a compreensão, ainda que eu caia em mim, imediatamente, e me lembre dos detalhes da minha apresentação e peça mil desculpas, a pessoa certamente ficará com a “pulga atrás da orelha”, pois, perceberá que aquela pessoa é diferente da que se apresentou a ela. Mas, em nome da tolerância e da compreensão, meu interlocutor passará uma borracha sobre o acontecido e, vida que segue.

Mesmo sendo tolerante, paciente e compreensivo, aquela(a) a quem me apresentei, sempre estará a observar a minha conduta diante das outras pessoas e/ou de situações adversas. E, com toda certeza, terá ocasião para comprovar quem, realmente, eu sou em termos de temperamento.

Bem, cada um de nós tem o seu próprio temperamento e, por mais que queira parecer agradável, em certos momentos e circunstâncias, é inclinado a agir de forma bastante severa, ou até mesmo ríspida. Coisas do ser humano! Com um pouco de jeito a gente até compreende bem.

Se a outra pessoa fosse você, por exemplo, que é inteligente e dotado de boas intenções, compreenderia tudo o que eu disse acerca do temperamento, e procuraria me observar sob outros prismas. Haveria de se interessar, talvez, por comprovar o respeito que eu tenho pelos valores e princípios que sustentei, lá na primeira conversa, como sendo fundamentais para a minha vida. E aí, também, pode acontecer de sofrer algumas decepções, pois verá que eu, diante de certas circunstâncias, e dependendo do contexto, prefiro auferir todas as vantagens possíveis em uma relação, sem demonstrar qualquer forma de amizade, de solidariedade, de compaixão ou mesmo de fraternidade para com outras pessoas. Aquele sujeito que se apresentou a você, como amigo, humanista, fraterno e solidário, agora, na prática, revela-se absolutamente outro. E isto te assusta!

Bem, você poderá questionar: o que mais esperar de um sujeito destes? Um sujeito que se apresentou de um jeito, mas que na prática, tem se revelado outro. Pois eu te digo que pode esperar muitas outras novidades... negativas, porque uma pessoa destas trai a confiança de todos e de qualquer um que dela se aproxima.

Por esta razão, é que eu sustento que, quando alguém vai se apresentar a outra pessoa, deve falar sobre seus valores, princípios, conceitos, personalidade e outras virtudes espirituais. E deve, é óbvio, ser coerente com tudo aquilo que está dizendo sobre si. E, ainda, caso não se sinta celeiro de algumas virtudes, deve assumir isto de imediato, sem se preocupar com a reação do outro, porque trata-se de revelar, quem ela é de verdade. Não deve mentir ou omitir nada, na tentativa de passar uma imagem, digamos, agradável e adequada ao pensamento dominante. Pois, efetivamente, será cobrada por isto em futuro próximo.

Eu, por exemplo, defendo a ideia de que não preciso me preocupar em ser agradável a ninguém. O que, de fato, deve ser objeto das minhas preocupações, é se tenho sido coerente com a minha personalidade, com o meu caráter, com os meus princípios e valores, morais e éticos. Desta forma, ser sincero diante dos outros é uma das minhas grandes virtudes. Quando eu elogio alguém, a pessoa pode ter certeza de que não a estou bajulando; quando a critico, da mesma forma, não a estou ofendendo. Em quaisquer circunstâncias, estou sendo honesto para com o outro. Coisa que muita gente se recusa a fazer, sob a desculpa de não querer ou poder ser desagradável. É melhor passar por desagradável do que por mentiroso, falso, hipócrita e fraudador da própria personalidade, como conheço e conheci muitos durante a minha caminhada.

Na realidade, os outros sempre esperam que sejamos coerentes com aquilo que dizemos ser. Não podemos afirmar que somos uma coisa, se agimos de forma absolutamente oposta, sob pena de perdermos um prêmio fantástico, que é a credibilidade. Uma das melhores coisas que podemos perder é, justamente, a credibilidade, a confiança alheia. Esta perda é de difícil recuperação. E eu conheço muita gente, e você deve conhecer também, que vive se apresentando de um modo e agindo de outro, diametralmente, oposto. Estas pessoas não se tocam, porém, já são mais do que conhecidas e, podemos dizer, manjadas. Ninguém mais, que com elas convivem, nelas depositam confiança ou crédito. Em muitos casos, as pessoas convivem com este tipo de gente por absoluta necessidade, não, por sentirem estima, confiança e/ou amizade verdadeiras.

Penso ser muito triste e, de certo modo, decepcionante, saber que alguém convive comigo por obrigação, necessidade ou imposição das circunstâncias, simplesmente porque me apresento de um jeito e me comporto de outro completamente diferente, incoerente, falso, mesquinho etc. Muitas são as oportunidades em que as pessoas são aceitas, apenas, em razão do cargo ou da função que ocupam. Não fosse por isto, poucos seriam próximos de verdade e em verdade.

Espero que você, particularmente, não se sinta triste comigo, ante meus argumentos. São apenas os meus argumentos. No fundo, no fundo, podem não ser coincidentes com os seus. Mas, pelo menos, estamos sendo absolutamente sinceros um com o outro.

E que os nossos leitores e leitoras possam aproveitar nossas formulações para refletirem sobre suas próprias vidas e possam, também, promover um sério exame de consciência, a fim de verificarem como estão se comportando diante dos seus semelhantes. De que forma estão se apresentando a quem os deseja conhecer e se estão, de fato, sendo coerentes com a figura humana que usam para descreverem-se a si mesmos. Tomara, ajam desta forma. Assim, o mundo poderá ser um pouco melhor para todos nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso de teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

Vídeo

O CINISMO DE CADA DIA

MENTIRA E CINISMO

A ERA DO CINISMO E DOS SEUS INCONFUNDÍVEIS ADEPTOS –

*Por L. A. de Moura –

Imagine que você, eu e muitos outros, todos os dias, assistimos e lemos nos meios de comunicação, diversos por sinal, as chamadas dos maiores bancos do país, oferecendo os melhores serviços presenciais, em tempo recorde, com gerentes, caixas e demais funcionários aptos e prontos para o imediato e eficiente atendimento. Nós, que viemos de outro Planeta, acreditamos e, já no dia seguinte, caminhamos em direção de um destes prestigiados bancos, na esperança de que, tal qual é dito na propaganda, seremos, realmente, atendidos da forma mais respeitosa e eficiente desejada. Até porque, o narrador da proposta televisiva, no caso, diz com todas as letras: “estamos aqui para fazer o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós”.

Ocorre que, quando adentramos na primeira agência daquele estabelecimento bancário, eufóricos e, certamente, necessitados, até porque ninguém vai ao banco passear, procuramos por um atendente que esteja pronto para nos direcionar. Então, para a nossa primeira surpresa, nos deparamos com uma mocinha bonita, mas, que, olhando para a nossa cara e, certamente, não gostando muito do que vê, demonstra certa antipatia. Mas, como estão lhe pagando para executar o trabalho, resolve dizer apenas: “precisa pegar uma senha, senhor. Pega a senha e aguarda ser chamado”.

Ora, já neste momento, eu ou você, percebemos que o tal “fazemos o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós” é meio fantasioso, porque, o que queremos, e até esperávamos, era que o atendimento fosse, realmente, rápido.

Mas, não, não é assim. Pegamos a tal senha e, não nos enquadrando em nenhum dos casos preferenciais (você conhece todos de cor), sentamos em uma espécie de auditório e ali ficamos. Existe lei impondo o tempo máximo de espera, mas, o tal banco, com certeza, finge desconhecer. A gente olha para as mesas dos atendentes que, normalmente, são designados como “gerentes”, e vemos que, para uma pequena multidão de vinte pessoas, existem apenas três destes ilustres gerentes que, pelo que demonstram, não têm a menor pressa no atendimento que estão fazendo. Até aí tudo bem. Cada cliente merece a máxima atenção. Mas, o caso é outro. O caso é que, cada cliente traz um problema mais complexo do que o outro. Complexo, no sentido de “mais trabalhoso”. Então, o tal gerente sente uma espécie de prazer em ficar retido com o cliente do momento o máximo que puder.

E a gente fica esperando. Liga o celular (graças a Deus inventaram o celular que, com a bendita internet, permite sofrer calado e distraído). O tempo vai passando e, depois de uns vinte minutos, com a fila de sentados andando bem lentamente, aparece um rapazinho simpático e começa a perguntar a um por um o que, afinal, deseja resolver com os prestativos “gerentes”. Neste momento a fila começa a diminuir drasticamente, porque cada pessoa vai sendo redirecionada para um outro setor do banco, quando não recebe a triste notícia de que aquele banco não executa a operação desejada. Este triturador de filas chega até você, ou diante de mim e, ao repetir a pergunta, descobre, e informa-nos com alegria, que o caso exige a apresentação de uma série de cópias de documentos, cuja lista pode ser pedida no segundo andar, para onde somos direcionados e, novamente, enfrentamos o relógio.

O resto não precisa ser dito, porque nós conhecemos perfeitamente onde vai desaguar. O fato é que, aquela propaganda feita na televisão e repetida com fotos nítidas e caprichadas nas revistas e jornais de livre circulação, revela-se absolutamente mentirosa, enganosa. Ou seja, eu e você acabamos concluindo que o que impera no campo da propaganda é o cinismo. Ou seja, apresenta-se o produto como se fosse a quintessência da qualidade e da grandeza quando, na verdade, nada do que é informado sobre ele corresponde com a verdade. Tudo é detalhadamente planejado para nos conduzir até o estabelecimento bancário na esperança de que, no fundo, nós não tenhamos nenhum problema para resolver, mas, dinheiro para aplicar em abundância. Obviamente que, quando é este o caso, o sujeito não fica em fila alguma. Já chega falando grosso e logo, logo, deixa claro que o bolso está pesado. Neste caso, e apenas neste caso, a propaganda revela ser verdadeira. Rapidez no atendimento. Cafezinho, puro ou com leite. Biscoitinhos salgados e doces. Gerente, homem ou mulher, simpático, atencioso e disposto a tudo para que seja deixado ali o melhor que o sujeito tem para oferecer; o dinheiro!

Idêntico raciocínio vale para o supermercado, para a drogaria, para a padaria, para o restaurante etc. É cinismo atrás de cinismo e a gente pensa: será que é tudo assim? Será assim na política, nas universidades, nos cursinhos de idiomas, nas igrejas, nas instituições públicas abrilhantadas pelos famosos brasões?

Meu amigo, minha amiga, não quero ser cínico com você, nem tentar te iludir para evitar sua tristeza: é tudo assim, deste jeito. E não tem jeito.

Há pouco tempo fui a um banco público (famoso por sua alardeada “excelência” no atendimento e na prestação de serviços) e, já conhecido da mocinha simpática, pedi a famosa senha. Deu-me a senha nº 1 e, sorrindo, me disse: “olha, que sorte, o senhor será o primeiro a ser atendido”, que bom, disse eu. Subi as escadinhas que conduzem ao primeiro andar. Quando cheguei, percebi que existiam apenas funcionários do banco naquele ambiente. Cada um na sua mesinha, completamente envolvidos com a tela do computador. Por trás de uma baia de vidro martelado, dava para perceber a presença de um “gerente”, com o seu querido e saboroso jornal aberto de ponta a ponta. Sentei-me e pensei: Talvez, assim como eu o percebo do outro lado, ele, também, consiga perceber que, do lado de cá, existe alguém aguardando para ser atendido.

Ledo engano. Fiquei ali por longos quinze minutos até que, de repente, chega uma pessoa conhecida, com pressa, e perguntou para mim: “tem alguém atendendo?” Eu disse que não e que já estava ali por uns quinze minutos. Com a cabeça, mostrei-lhe que tinha alguém do outro lado lendo jornal. Minha conhecida, então, aguardou por mais uns cinco minutos e, não suportando esperar, levantou-se e perguntou ao sujeito a que horas começaria o atendimento, ao que ele retrucou: “já vou chamar, aguarda um instante por favor”. Passados mais uns cinco minutos, chamou o primeiro que, por acaso, era eu. O resto, deixa pra lá.

Este grande banco público não sai de cena. Figura em quase todos os canais de televisão oferecendo mundos e fundos, patrocina atletas de diversas modalidades de esportes. Enfim, é tudo mentira! O cinismo impera entre nós.

Poderia falar, ainda, do cinismo na política, mas, penso comigo: será necessário? Acho que você sabe muito bem o que se passa do Arroio ao Chuí, do Leste ao Oeste do País, sem exceção!

Com o comércio, em geral, não vale à pena perder tempo. O que dizer, ainda, sobre as incontáveis religiões? Vai, sem se preocupar com o dia ou com a hora, em qualquer templo ou igreja e procura lá pelo pregador, para resolver um problema pessoal ou familiar. Faz isso pra ver se será atendido ou atendida prontamente. Agora, como aquele sujeito do banco, cheio de dinheiro, faz a mesma procura no âmbito religioso, para doar uma significativa quantia, para ver se o atendimento precisa ser agendado ou se existem dias previamente determinados para esta modalidade de atendimento.

Talvez o problema seja apenas comigo, pode ser, mas, recentemente, precisei aguardar por mais de seis meses para ter um pedido analisado por uma autoridade eclesiástica, que administra uma universidade religiosa. E mesmo assim, só obtive uma resposta porque enviei-lhe uma carta (pelo correio mesmo, registrada e tudo!), identificando-me como seu “irmão”, alegando sermos, eu e ele, filhos do mesmo Pai do Céu e, por fim, reiterando a fala de Jesus em Mateus 7, 12 (“tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas”). Mesmo sem me receber, conforme havia solicitado, parece que ele se tocou e, sentindo-se, talvez, meio emparedado, mandou uma secretária me ligar para dizer o famoso óbvio: “Ele pediu para dizer que, infelizmente, não podemos fazer nada pelo senhor”. Eu procurei agendar uma conversa, porque pretendia, pessoalmente, frente a frente, expor uma situação fática e tratar acerca de um projeto de estudo e de pesquisa em andamento. Falhou! Não deu. Eu não tinha nada para oferecer, apenas, para pedir. E para tal, a propaganda não faz qualquer previsão. Fica ao alvedrio de quem está no comando. Seja o que Deus quiser. Alea jacta est!

Portanto, meu caro, minha cara, não tenha ilusões diante das mais diversificadas propagandas, profanas ou religiosas, quase tudo está envolto na ilusão e no cinismo. Dizem, propagam e advogam uma coisa quando, na verdade, revelam uma realidade muito, absolutamente, totalmente diferente do que é propagandeado aos quatro ventos. Porém, como cristão que sou, sempre repito Jesus: “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas” (Mt 7, 12). Reflita, não se desespere e siga em frente. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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