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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: MEMÓRIA DO BLOG

nov 11

EDITORIAL DA SEMANA: A LIBERDADE COMO O BEM MAIOR

ATRÁS DAS GRADES

ENTRE O CONDE DE MONTE CRISTO E FIÓDOR DOSTOIÉVSKI –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Existe um paralelo que pode ser traçado entre as histórias de Edmond Dantès (O Conde de Monte Cristo) e a de Fiódor M. Dostoiévski, sabendo-se que a do primeiro é obra de ficção, fruto da genialidade de Alexandre Dumas, enquanto a segunda é parte da vida real do fabuloso escritor russo do século XIX.

Edmond Dantès, na trama do autor francês, é vítima de uma armadilha engendrada por “amigos” invejosos e, com o respaldo do procurador do rei, Gérard de Villefort, é acusado de ser bonapartista, crime de alta traição à Pátria, na França dos anos iniciais do séc. XIX. A questão principal da trama contra Dantès deve ser vista e analisada como um chicote de duas pontas afiadas: a primeira, formada por quem deseja ardentemente o lugar de comando da embarcação de cargas (Pharaon), de propriedade do velho e experiente sr. Morrel, que confia no trabalho, no caráter e na lealdade do jovem Edmond, então com dezenove anos de idade. Na outra ponta, o substituto do procurador do rei que, aos vinte e sete anos de idade, e agindo em nome e escudado pela lei, visava proteger, além dos interesses pessoais, o próprio pai, e pavimentar o caminho para a fama, o topo do poder na magistratura e a glória naquela sociedade “renovada”, pós-Napoleão. É justamente este “guardião” da lei e da moral, que aceita como verdadeiras as falsas acusações lançadas contra o jovem Edmond Dantès, cujo desejo maior era, de forma simples e humilde, prestar um bom trabalho ao velho armador, casar-se com a bela Mercedes e cuidar do pai, já idoso e adoentado. O sórdido Villefort, não apenas acolhe a denúncia que lhe chega às mãos como, também, manobra para que o pobre e humilde trabalhador seja eficientemente afastado do convívio da comunidade e da família, onde era tão querido e cortejado como exemplo de cidadão e de trabalhador.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, nascido no ano de 1821, é objeto de uma extensa biografia (5 longos volumes), escrita por Joseph Frank que, por mais de vinte anos, estudou e pesquisou sobre a vida do maior de todos os escritores russos. A referida biografia, editada pela EDUSP, a partir de 2008, é obra de peso literário e de grande utilidade para quem queira conhecer, na verdade dos fatos, quem foi o escritor tão citado por teólogos, psicólogos, sociólogos, humanistas e por personalidades marcantes e influentes ao longo de todo o século XX.

Pois bem, Dostoiévski, em dado momento da vida (1847), quando já era bastante conhecido e famoso por seus escritos, e tendo sido convidado para participar de reuniões literárias, cujo fundo era eminentemente político, é acusado de “conspirar” e de tramar contra o Czar, justamente por integrar um grupo denominado “Círculo de Petrachévski”, nome do ideólogo dos encontros.

Mikhail Petrachévski, na época, um jovem de 26 anos de idade, apenas seis meses mais velho que Fiódor Dostoiévski, mas, que tinha formação em economia política e tendências socialistas bastante acentuadas para o período, é descrito pelos amigos como sendo um sujeito excêntrico e cheio de “esquisitices”. Dostoiévski, no entanto, longe das tendências revolucionárias de Petrachévski, tinha grande interesse e preocupação com tudo o que se passava na Rússia de então e com os gravíssimos problemas vividos naquela sociedade czarista, notadamente, com as inúmeras injustiças sociais e com a acentuada pobreza advindas, principalmente, da servidão institucionalizada, equivalente à escravidão no Ocidente.

Enfim, denunciado o grupo do “Circulo de Petrachévski”, como foco de conspiração e de rebelião contra o Czar Fiódor, juntamente com outros companheiros, é preso e, incialmente, condenado ao fuzilamento, pena comutada no último instante pelo próprio imperador, para prisão na Sibéria, onde fica trancafiado durante seis anos sendo, depois, transferido para uma unidade militar onde é obrigado a seguir carreira, mesmo contra a vontade. Ao fim e ao cabo, e já adoentado, Dostoiévski só retornará à plena liberdade a exatos dez anos após a prisão ocorrida em 1849, quando pede aposentadoria no serviço militar, por motivo de grave enfermidade.

Edmond Dantès, diante de um procurador escolado, capaz de extrair dele toda a verdade dos fatos ocorridos durante a última viagem no comando emergencial do Pharaon, tem a nítida sensação de que será plenamente inocentado e absolvido das terríveis acusações lançadas contra ele. Acusações que, para a época, eram gravíssimas porque iam de encontro a tudo o que a “nova ordem política” representava, ou pretendia representar, para o período pós-napoleônico.

Entretanto, o sr. de Villefort, ao ouvir acusadores e acusado, logo percebe a real inocência de Dantès, mas, percebe, também, a existência de um documento, uma carta, na verdade, capaz de incriminar o próprio pai, razão pela qual decide, no recanto da sua consciência suja, determinar o encaminhamento de Edmond para a masmorra em que fora transformado o Castelo de If, lugar inexpugnável. Levado para aquele lugar sombrio, sem poder, sequer, avisar ou se despedir da noiva ou do pai que, com o passar do tempo, têm-no por completamente desaparecido, Dantès ficará ali, entre a depressão, a ameaça de loucura, a extrema solidão e a sensação de nunca mais poder ver e sentir a luz e os raios do sol.

Entretanto, graças à morte do Abade Faria, vizinho de cela no infortúnio, homem sábio e detentor de riqueza imensurável, Edmond Dantès consegue fazer-se passar pelo defunto e, camuflado no saco mortuário, é atirado nas profundezas do oceano, de onde consegue escapar e voltar à liberdade, na figura do enigmático, riquíssimo e vingador Conde de Monte de Cristo que, no entanto, jamais conseguirá mudar o passado no qual foi vítima escolhida a dedo.

Eu sou absolutamente suspeito para falar sobre Fiódor M. Dostoiévski e sobre o Conde de Monte Cristo, porque li com paixão a história de ambos, sendo que a do Conde, por ser um pouco menor (2 volumes apenas), já li duas vezes e, certamente, lerei mais uma ou duas ainda.

O que chamou a minha atenção, e eis aqui a razão deste texto, é que ambos, embora um seja personagem real e o outro fictício, foram vítimas de tramas, de mentiras, de falsas acusações, de calúnias, de condenações impostas por quem detinha o poder de julgar, do cumprimento de penas odiosas e, por fim, da reconquista da liberdade.

Ora, a liberdade para quem sai de uma prisão, principalmente, quando tem plena consciência da própria inocência, é algo de significado inominável e que, ao mesmo tempo, desperta sentimentos diversos. Se, para Fiódor Dostoiévski, ficar livre da cela, significou a possibilidade de cuidar da família e de retomar, com toda a força, a carreira de escritor e de pensador, para Edmond Dantès, agora na pele do Conde de Monte Cristo, significou impor derrota implacável a todos aqueles que, no passado, levaram-no para os fundos insalubres da masmorra.

A lição que fica de ambas as histórias é que, por mais que alguém possa dizer o contrário, e sejam lá quais forem os argumentos utilizados, jamais devemos nos alinhar com aqueles que se valem da mentira, da cilada, da calúnia e, por fim, da injustiça, para afastar da sociedade pessoas "incômodas". Devemos sempre ter em mente que, quando alguém alardeia estar combatendo crime e criminosos, denunciando, julgando e condenando de forma implacável, levantando bandeiras legalistas, moralistas e moralizantes, deve passar por séria análise psicológica e psiquiátrica porque, das duas uma, ou está acobertando interesses e pessoas muito próximas, ou preparando o terreno para perseguições, vinganças ou promoções pessoais de sorte que, de acordo com as conveniências, o truque é tirar de cena pessoas que podem servir como pedras no caminho, conforme ocorreu, tanto com Edmond Dantès, quanto com Fiódor Dostoiévski.

No caso dos personagens citados, tanto um quanto o outro, por fim, terminaram bem suas carreiras e seus algozes foram devidamente sepultados pela história. No drama do Conde de Monte Cristo, o sr. de Villefort, falso, mentiroso e promíscuo procurador, acabou relegado ao chiqueiro da trama e dele ninguém se recorda, a não ser quando relê a história. No caso de Dostoiévski, nenhum dos seus julgadores é, sequer, conhecido, ao passo que o escritor, entrou para a história e dela, certamente, jamais sairá porque, a história é, abaixo de Deus, a única e verdadeira Magistrada, sob cuja toga ficam ocultos para sempre os falsários, os mentirosos, os hipócritas e os traidores, lançando fachos de luz sobre todos os injustiçados e vítimas da mentira, da calúnia e da sordidez contra eles praticadas.

Caso seja do interesse do leitor ou da leitora, sugiro ler tanto o Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, pela Editora Zahar, quanto a biografia de Dostoiévski, pela Edusp. Leituras que, certamente, são bastante empolgantes e indutoras para a análise de inúmeros episódios vividos e conhecidos por homens e por mulheres de todos os tempos. Se for o caso, desejo uma excelente leitura. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 04

EDITORIAL DA SEMANA : POSSUIR TANTO, SEM POSSUIR A SI PRÓPRIO

RIQUEZAS

QUEM TANTO POSSUI, POSSUI A SI MESMO?

*Por Luiz Antonio de Moura – 

Não constitui mais qualquer novidade a luta incansável de muitas pessoas, com o foco absoluto voltado para a aquisição de bens de todos os níveis e valores. Dentre as frases mais ouvidas nas ruas e nos meios sociais, em geral, figuram estas: “este carro é meu”; “aquela casa é minha”; “tenho conta no banco tal”; estou adquirindo mais isso ou mais aquilo”. As pessoas não se dão conta, mas, falam abertamente: “este é o meu marido”; “aquela é a minha mulher”; “veja, são os meus filhos”, e por aí vai, numa sucessão de pronomes possessivos que não tem fim ou limite.

Os seres humanos gostam de serem tratados como detentores de posses, não importa sobre o que, mas, precisam sentirem-se “donos”, “possuidores”. Diante de tantas posses e de tantos bens, muitos chegam a afirmar, categoricamente, que, “é meu, eu decido o que fazer com isso”, demonstrando que, além da posse, “possui” total domínio sobre tudo o que ousa chamar de “seu”, inclusive, sobre o próprio corpo.

No entanto, surge uma questão interessante: quem possui tantos bens e tantas coisas, possui a si mesmo? Tem domínio sobre si próprio(a)? É capaz de acrescentar um dia a mais na sua existência? Tem capacidade para controlar o seu estado de nervos, quase sempre alterado? É capaz de modificar atitudes que perturbam a paz das pessoas ao seu redor? Quem possui tanta coisa, e com autoridade, tem autoridade sobre seus próprios atos, adequando-os à civilidade, à fraternidade, à solidariedade e a todas as demais virtudes que prega?

Parece que estas respostas, na imensa maioria das vezes, são negativas. Se o meu veículo apresenta qualquer defeito, logo, logo eu trato de enviá-lo ao mecânico, aciono o seguro e busco resolver o problema o mais breve possível. Entretanto, se sinto uma fisgadinha no fígado, por mais que alguém recomende, eu não encontro tempo para, de forma imediata, rápida e eficaz, buscar a resolução do problema. Se, em casa ou em família, alguém passa por dificuldades, eu vou me esquivando o máximo que posso, postergando qualquer auxílio. Mas, se a porta da minha garagem apresenta um pequeno defeito, por mínimo que seja, desde que dificulte a abertura, chego mais tarde no trabalho, ou saio mais cedo dele, para ir em busca de um técnico para fazer o imediato conserto.

Todas estas são realidades que parecem envolver todos nós, seres humanos. Quem, nunca passou por algo parecido? Porém, o que deve chamar nossa atenção é a rapidez com a qual nos dedicamos a cuidar das nossas posses e a lerdeza com a qual cuidamos de nós mesmos. O carro, a casa, o barco, a bicicleta ou a moto são bens passageiros, sim, sabemos disso. Mas, a eles dedicamos nossa atenção especial, enquanto a nós mesmos, ao nosso espírito e a tudo o mais, que não é efêmero, dedicamos tão pouca atenção.

Pare e pense, quando foi a última vez que admirou o seu carro novo, ou qualquer um dos seus bens? Quando foi a última vez que agradeceu a Deus por todos os bens que já conseguiu amealhar? Tenho certeza de que tudo isso ocorre com bastante frequência na sua vida.

Entretanto, quando foi a última vez que ligou para um dos “seus” amigos, simplesmente, para saber como está vivendo, como tem passado ou como está se sentindo no dia-a-dia da vida? Quando foi a última vez que procurou saber, de forma absolutamente desinteressada, como tem passado aquele amigo ou aquela amiga que se aposentou há tanto tempo? Quando foi a última vez que você se lembrou de dobrar os joelhos e, orando, pedir saúde, paz e bem para “seus” vizinhos, “seus” colegas de trabalho; “seus” devedores e “seus” credores”? Tudo é seu, sem dúvida, mas você só se lembra dos “seus” bens, da “sua conta bancária”, do “seu” cargo, dos “seus” compromissos corporativos.

Se você possui um carro que comporta apenas cinco passageiros, dificilmente, permitirá a presença de um sexto passageiro, para não expor o veículo ao peso excessivo. Se alguém pedir para transportar um peso mais elevado no seu automóvel de luxo, certamente, você se recusará. No entanto, quantas vezes você aumenta, sem dó nem piedade, a carga de trabalho que despeja sobre quem trabalha para você? Quantas vezes você acha que o peso carregado pelo outro não é tanto assim? Quantas vezes você não incentiva o outro a ter coragem e a caminhar mais um pouco, quando já está claro que ele não aguenta mais? Assim, mesmo que possua tantos bens materiais, talvez não possua nenhum dos verdadeiros bens essenciais para a vida do espírito.

São estas, dentre outras, coisas que chamam a nossa atenção e que nos levam a pensar como somos contraditórios, incoerentes, hipócritas e falsos, quando queremos possuir o mundo todo, mas, não conseguimos ter a simples posse de nós mesmos. Não conseguimos dar uma direção sensata, justa e coerente com tudo o que pregamos, à vida que levamos e, diante de pessoas que conosco convivem, fazemos até mesmo papel de bobos, acreditando que ninguém está observando o caminhar da nossa carruagem. Não se deixe enganar jamais: sempre estamos sendo observados por alguém. Não passamos despercebidos. Alguém sempre nos observa, de muito perto, ou mesmo à distância.

Já não somos mais convocados a mudar o mundo, como pensávamos outrora, nos tempos da nossa juventude, mas, a mudarmos a nós mesmos e isso importa demonstrar posse e domínio sobre o próprio ser, o próprio espírito e a própria vida. Afinal, de que vale dominar bens e valores materiais, se não conseguimos dominar o bem maior, que é a nossa própria vida?

Reflita sobre isso, no cantinho da sua alma e veja se realmente está na posse e no domínio de si mesmo(a), ou se está assim apenas em relação aos bens amealhados à custa do dinheiro, “seu bem maior”, aquele pelo qual você lutou a vida toda. Apenas reflita. Não se culpe porque, no final de todas as contas, o ser humano tem dessas coisas mesmo e nós, eu e você, não somos muito diferentes. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

nov 01

DOCUMENTOS DA IGREJA: É BOM CONHECÊ-LOS – PARTE II

DOCUMENTOS DA IGREJA DOCUMENTOS DA IGREJA: CARTA ENCÍCLICA MATER ET MAGISTRA – PARTE II –

Dando continuidade ao trabalho de divulgação, total ou parcial, das diversas Encíclicas e de outros documentos da Igreja Católica Apostólica Romana que são, conforme já ressaltamos, documentos de enorme relevância para a evangelização, e que têm por finalidade, promover a harmonia, a paz social e o crescimento espiritual de todos os cristãos, de um modo geral, e dos católicos em particular.

Ao longo de tantos séculos de caminhada, a Igreja editou inúmeros documentos, encíclicas, cartas pastorais, bulas etc. Por esta razão, não vamos nos ater a qualquer ordem cronológica, apenas, vamos editando, de forma integral ou parcial, conforme o caso, os documentos mais incisivos e que maior influência possam ter tido na vida dos cristãos e dos católicos.

Estamos, no momento, divulgando partes significativas da Encíclica Mater et Magistra, publicada a 15 de maio de 1961 pelo então Papa João XXIII. Trata-se, conforme já antecipamos anteriormente, de uma Carta longa, porém, de gigantesca importância para a Igreja, por meio da qual Sua Santidade evoca para a Santa Madre Igreja a condição de acolhedora de todos os homens e, ao mesmo tempo, de promotora da paz social à luz dos ensinamentos de Jesus com a finalidade de conduzir o rebanho na direção da unidade e da constante busca da vida em toda a sua plenitude.

Na Primeira Parte da Encíclica, o Papa João XXIII recorda os ensinamentos da Carta Rerum Novarum, de Leão XIII, e o seu desenvolvimento no magistério dos Santos Padres Pio XI e Pio XII, assim declarando:

“A época da encíclica “Rerum Novarum”

10. Os tempos em que Leão XIII falou eram de transformações radicais, de fortes contrastes e amargas rebeliões. As sombras daqueles tempos fazem-nos apreciar melhor a luz que promana do seu ensinamento.

11. Como é sabido de todos, o conceito do mundo econômico, então mais difundido e posto em prática, era um conceito naturalista, negador de toda a relação entre moral e economia. O motivo único da ação econômica, dizia-se, é o interesse individual. Lei suprema reguladora das relações entre os operadores econômicos é a livre concorrência sem limites. Juros dos capitais, preços das mercadorias e dos serviços, benefícios e salários, são determinados, de modo exclusivo e automático, pelas leis do mercado. O Estado deve abster-se de qualquer intervenção no campo econômico. Os sindicatos, nalguns países, eram proibidos; noutros, tolerados ou considerados como de direito privado.

[...]

13. Enquanto, em mãos de poucos, se acumulavam riquezas imensas, as classes trabalhadoras iam gradualmente caindo em condições de crescente mal-estar. Salários insuficientes ou de fome, condições de trabalho esgotadoras, que nenhuma consideração tinham pela saúde física, pela moral e pela fé religiosa. Sobretudo inumanas as condições de trabalho a que eram frequentemente submetidas as crianças e as mulheres. Sempre ameaçador o espectro do desemprego. A família, sujeita a contínuo processo de desintegração.

14. Daí uma profunda insatisfação nas classes trabalhadoras, entre as quais se propagava e se consolidava o espírito de protesto e de rebelião. E assim se explica porque encontraram tanto aplauso, naqueles meios, as teorias extremistas, que propunham remédios piores que os próprios males.

Os caminhos da reconstrução

15. Coube a Leão XIII, nos momentos difíceis daquele conflito, publicar a sua mensagem social, baseada na consideração da natureza humana e informada pelas normas e o espírito do Evangelho; mensagem que, desde que foi conhecida, se bem não faltassem oposições compreensíveis, suscitou universal admiração e entusiasmo. Certamente, não era a primeira vez que a Sé Apostólica descia à arena, em defesa dos interesses materiais dos menos favorecidos. Outros documentos do mesmo Leão XIII tinham já preparado o caminho; mas, desta vez, formulava-se uma síntese orgânica dos princípios e desenhava-se uma perspectiva histórica tão ampla, que fizeram da encíclica Rerum Novarum um verdadeiro resumo do catolicismo no campo econômico-social.

[...]

17. Bem conheceis, veneráveis irmãos, os princípios basilares expostos pelo imortal Pontífice, com tanta clareza como autoridade, segundo os quais deve ser reconstruído o setor econômico e social da comunidade humana.

[...]

19. .A propriedade privada, mesmo dos bens produtivos, é um direito natural que o Estado não pode suprimir. Consigo, intrinsecamente, comporta uma função social, mas é igualmente um direito, que se exerce em proveito próprio e para bem dos outros.

20. O Estado, cuja razão de ser é a realização do bem comum na ordem temporal, não pode manter-se ausente do mundo econômico; deve intervir com o fim de promover a produção de uma abundância suficiente de bens materiais, “cujo uso é necessário para o exercício da virtude”, e também para proteger os direitos de todos os cidadãos, sobretudo dos mais fracos, como são os operários, as mulheres e as crianças. De igual modo, é dever seu indeclinável contribuir ativamente para melhorar as condições de vida dos operários.

[...]

22. E aos trabalhadores, afirma ainda a encíclica, reconhece-se o direito natural de constituírem associações, ou só de operários, ou mistas de operários e patrões; como também o direito de darem às mesmas a estrutura orgânica que julgarem mais conveniente para assegurarem a obtenção dos seus legítimos interesses econômico-pro-fissionais, e o direito de agirem, no interior delas, de modo autônomo e por própria iniciativa, para a consecução dos mesmos interesses.

23. Operários e empresários devem regular as relações mútuas, inspirando-se no princípio da solidariedade humana e da fraternidade cristã; uma vez que, tanto a concorrência de tipo liberal, como a luta de classes no sentido marxista, são contrárias à natureza e à concepção cristã da vida.

[...]

25. Não devemos, pois, admirar-nos, se os católicos mais eminentes, atendendo aos apelos da encíclica, empreenderam iniciativas múltiplas, para traduzirem em prática aqueles princípios. De fato, nessa tarefa se empenharam, sob o impulso de exigências objetivas da natureza, homens de boa vontade de todos os países do mundo.

26. Por isso, a encíclica, com razão, foi e continua a ser considerada como a Magna Carta da reconstrução econômica e social da época moderna.

A encíclica “Quadragésimo Anno”

27. Pio XI, nosso predecessor de santa memória, comemorou o quadragésimo aniversário da encíclica Rerum Novarum, com um novo documento solene: a encíclica Quadragésimo Anno.

28. Nesta, o sumo pontífice insiste no direito e dever da Igreja de prestar a sua contribuição insubstituível para a feliz solução dos problemas sociais mais urgentes e mais graves, que angustiam a família humana; confirma os princípios fundamentais e as diretrizes históricas da encíclica leonina; e aproveita a ocasião para precisar alguns pontos de doutrina sobre os quais tinham surgido dúvidas, mesmo entre católicos, e para desenvolver o pensamento social cristão, atendendo às novas condições dos tempos. [...]

31. Com relação ao regime de salários, nega a tese que o declara injusto por natureza; mas reprova ao mesmo tempo as formas inumanas e injustas que, não poucas vezes, se praticou; inculca e desenvolve os critérios em que se deve inspirar e as condições a que é preciso satisfazer para não se lesar a justiça nem a equidade.

[...]

34. Entre comunismo e cristianismo, o pontífice declara novamente que a oposição é radical, e acrescenta não se poder admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado: quer porque ele foi construído sobre uma concepção da vida fechada no temporal, com o bem-estar como objetivo supremo da sociedade; quer porque fomenta uma organização social da vida comum tendo a produção como fim único, não sem grave prejuízo da liberdade humana; quer ainda porque lhe falta todo o princípio de verdadeira autoridade social.

[...]

37. Para remediar tal situação, o supremo pastor indica, como princípios fundamentais, o regresso do mundo econômico à ordem moral e a subordinação da busca dos lucros, individuais ou de grupos, às exigências do bem comum. Isto comporta, segundo o seu ensinamento, a reorganização da vida social mediante a reconstituição de corpos intermediários autônomos com finalidade econômica e profissional, criados pelos particulares e não impostos pelo Estado; o restabelecimento da autoridade dos poderes públicos para desempenharem as funções que lhes competem na realização do bem comum; e a colaboração em plano mundial entre as comunidades políticas, mesmo no campo econômico.

38. Os temas fundamentais, característicos da magistral encíclica de Pio XI, podem reduzir-se a dois. O primeiro proíbe completamente tomar como regra suprema das atividades e das instituições do mundo econômico quer o interesse individual ou de grupo, quer a livre concorrência, quer a hegemonia econômica, quer o prestígio ou o poder da nação, ou outros critérios semelhantes.

[...]

40. O segundo tema recomenda a criação de uma ordem jurídica, nacional e internacional, dotada de instituições estáveis, públicas e privadas, que se inspire na justiça social e à qual se conforme a economia; assim tornar-se-á menos difícil aos economistas exercer a própria atividade em harmonia com as exigências da justiça e atendendo ao bem comum.

A rádio mensagem de Pentecostes de 1941

41. Também Pio XII, nosso predecessor de venerável memória, contribuiu não pouco para definir e desenvolver a doutrina social cristã. No dia 1º de junho de 1941, festa de Pentecostes, transmitiu uma radio mensagem “para chamar a atenção do mundo católico sobre um acontecimento digno de ser gravado com letras de ouro nos fastos da Igreja: o quinquagésimo aniversário da fundamental encíclica social Rerum Novarum de Leão XIII... e para agradecer humildemente a Deus todo-poderoso... o dom que... se dignou conceder à Igreja com aquela encíclica do seu vigário na terra; e para louvá-lo, pelo sopro do Espírito renovador que, por meio da mesma, derramou desde então de modo sempre crescente sobre toda a humanidade”.

42. Nessa radio mensagem, o grande pontífice reivindica para a Igreja a “irrefutável competência de julgar se as bases de uma determinada ordem social estão de acordo com a ordem imutável que Deus Criador e Redentor manifestou por meio do direito natural e da revelação”, reafirma a vitalidade perene dos ensinamentos da encíclica Rerum Novarum e a sua fecundidade inexaurível; e aproveita a ocasião “para expor ulteriores princípios diretivos de moral sobre três valores fundamentais da vida social e econômica. Esses três valores fundamentais, que se unem, se enlaçam e se ajudam mutuamente, são: o uso dos bens materiais, o trabalho e a família”.

[...]

44. No que se refere ao trabalho, retomando um tema apontado na encíclica leonina, Pio XII confirma que ele é simultaneamente um dever e um direito de todos e cada um dos homens. Por conseguinte, corresponde a estes, em primeiro lugar, regular as relações mútuas do trabalho. Só no caso dos interessados não cumprirem ou não poderem cumprir o seu dever, “compete ao Estado intervir no campo da divisão e distribuição do trabalho, segundo a forma e a medida requeridas pelo bem comum devidamente entendido”.

45. Quanto à família, o sumo pontífice afirma que a propriedade privada dos bens materiais deve ser considerada como “espaço vital da família; isto é, meio apto para assegurar ao pai de família a sã liberdade de que necessita para poder cumprir os deveres que lhe foram impostos pelo Criador, para o bem-estar físico, espiritual e religioso dos seus”. Isto confere também à família o direito de emigrar. Sobre este ponto, o nosso predecessor adverte que os Estados, tanto os que permitem a emigração como os que acolhem novos elementos, se procurarem eliminar tudo o que “pode impedir o nascimento e o progresso de uma verdadeira confiança” mútua, conseguirão uma vantagem recíproca e contribuirão simultaneamente para o incremento do bem-estar humano e do avanço da cultura.

Ulteriores modificações

[...]

49. No campo político: em muitos países, a participação na vida pública de um número cada vez maior de cidadãos de diversas condições sociais; a difusão e a penetração da atividade dos poderes públicos no campo econômico e social. Acresce, além disso, no plano internacional, o declínio dos regimes coloniais e a conquista da independência política conseguida pelos povos da Ásia e da África; a multiplicação e a complexidade das relações entre os povos e o aumento da sua interdependência; a criação e o desenvolvimento de uma rede cada vez mais apertada de organismos de projeção mundial, com tendência a inspirar-se em critérios supranacionais: organismos de finalidades econômicas, sociais, culturais e políticas.

Temas da nova encíclica

50. Nós sentimo-nos no dever de conservar viva a chama acesa pelos nossos grandes predecessores e de exortar a todos a que nela busquem incentivo e luz para resolverem a questão social da maneira mais adequada aos nossos tempos. Por este motivo, comemorando de forma solene a encíclica leonina, comprazemo-nos em aproveitar a ocasião para repetir e precisar pontos de doutrina já expostos pelos nossos predecessores, e ao mesmo tempo fazer uma exposição desenvolvida do pensamento da Igreja, relativo aos novos e mais importantes problemas do momento.

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(Fonte da Encíclica: Documentos de João XXIII – São Paulo. Paulus. 1998. 391 p.)

out 28

EDITORIAL DA SEMANA: OS SERES HUMANOS ESTÃO EM PERIGO!

O HOMEM EM GUERRA

O PERIGO RONDA O SER HUMANO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Antigamente eu acreditava que só as pessoas mais velhas é que tinham coisas ruins para contar. Falavam de crises, de mortes, de roubos, de violência, de perseguições, de discriminações, de intrigas e de tudo o mais que se possa imaginar de ruim. Ficar perto de pessoas mais velhas era pedir para ouvir narrativas cercadas de trevas. Meus amigos sempre me diziam que, em casa, seus pais agiam da mesma forma!

Para não ficarmos a mercê daquelas conversas chatas e medonhas, o melhor que podíamos fazer era ficar isolados em nossas ilhas da fantasia, nas quais tudo era cercado de amor, de paixões, de seduções, de alegrias e de muitas expectativas para o futuro. Definitivamente, aqueles eram os nossos sonhos, projetos e ambições. O resto, ah, o resto era coisa de velhos!

Hoje, no entanto, é verdade que já estamos velhos, eu e minha geração, mas, as conversas sobre coisas ruins vêm de todos os lados. Jovens relatam perseguições, discriminações, violência, mortes e todo tipo de maldade. Adultos contam os filhos, os pais, os irmãos e os amigos que foram perdidos para a violência nos estádios de futebol, nas ruas e vielas, nas saídas de shows e de festas, nos metrôs ou até mesmo, imagina, na porta da própria casa. O perigo real está a nos rondar onde quer que estejamos. Já não importa mais se estamos à mesa de refeições, numa sala de cinema, na rua, no bar, no motel, sentados em um banco da praça em frente de casa ou até mesmo em uma igreja. Não bastassem as ações de pessoas malvadas, até as balas perdidas nos localizam e dizimam nossas vidas.

Não são mais os velhos de antigamente que estão espalhando o medo e o pânico. É a própria realidade vivida por crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, que está confeccionando um retrato falado que, infelizmente, somos obrigados a aceitar. Não temos mais as nossas “ilhas de fantasias”; não temos mais a chance de pensar no amor, seja lá da forma que for; não podemos mais acreditar que um simples adolescente ou que um homem de cabelos brancos são incapazes de fazer grande mal a nós ou a qualquer um dos nossos entes queridos.

Como costuma dizer uma autoridade pública: “dias difíceis”. Precisamos parar um pouco para pensar sobre tudo o que está se passando ao nosso redor, no país ou no mundo; no bairro, na cidade ou no estado; em família ou nas escolas. Enfim, precisamos olhar para todo este cenário e tentarmos responder, ainda que seja apenas para nós mesmos: como chegamos a este ponto?

Por que uma simples discussão no trânsito, acaba em morte(s)? por que, uma separação conjugal põe fim, também, a uma ou mais vidas? Por que o anúncio de um aumento de simples 0,17 centavos no preço de um bilhete de metrô (como no Chile destes dias) se transforma em estopim para uma rebelião popular com consequências desastrosas, causando mortes e prisões violentas? O que as gerações passadas sabiam fazer tão bem, que as de hoje não conseguem fazer? Enfim, repitamos a pergunta: por que chegamos a este ponto?

O mar continua calmo e sereno na maior parte do mundo; os pássaros continuam o seu lindo canto; o sol ainda brilha no alto das colinas e das copas das árvores; a abóbada celeste permanece toda iluminada nas noites de lua cheia; as cascatas continuam jorrando bilhões e bilhões de litros de água por minuto; os peixes ainda se divertem no fundo dos oceanos, apesar da poluição; os bebês continuam encantando a todos nós; o vento e a brisa permanecem suavizando o calor excessivo que por vezes sentimos nos invadir. A natureza, apesar de todo o mal que nós lhe causamos, permanece bela, serena, harmônica, pacífica e não revela ser nossa inimiga. Pelo contrário, continua nos presenteando a cada dia com as suas dádivas.

Mas nós, seres humanos, quem éramos e quem somos hoje? Quando assistíamos filmes envolvendo as grandes guerras épicas, com milhares de homens enfrentando-se e se auto dizimando com espadas e lanças em pleno céu aberto, nós os chamávamos de imbecis, de idiotas e de ignorantes diante de tamanha violência praticada uns contra os outros. Não é que estamos, em pleno século XXI, agindo da mesma forma, apesar de usarmos armas diferentes? E ainda existe quem acredita piamente que a solução é dar mais armas para o povo. Quanto mais armado, mais o povo poderá se defender. Que país é este? Que mundo é este? Para onde estamos caminhando?

Eu não gostaria de escrever sobre tema tão obscuro, tão cercado de trevas e de desesperança, mas, a realidade obriga a gente a parar para pensar e, sem saber as respostas, a compartilhar nossos sentimentos e preocupações com nossos semelhantes. É por esta razão que escrevo este texto, para compartilhar com você estas angústias e incertezas, na esperança de que diga que estou redondamente enganado, e que eu falo sobre estas coisas porque, tal qual os idosos do meu tempo de menino, eu também estou velho e não tenho coisa melhor para falar. Por favor, diga que é isto! Gostaria de acreditar que estou velho e que só consigo enxergar o lado feio da vida.

Mas, infelizmente, penso que você me dará razão e que concordará comigo que a situação pede cautela, diálogo, oração, meditação, controle emocional, desapego. Pede mais amor, mais harmonia, mais tolerância de uns para com os outros. Acredito que você, que não é desprovido(a) dos sentidos da audição, da visão e de um mínimo de racionalidade, concorda que estamos vivendo “tempos bastante difíceis” e que precisamos dizer não ao ódio, ao desejo de vingança, a todas as formas de intolerância, de racismo e de fobias para então, e somente então, passarmos a ter assuntos mais divertidos para contar. Passarmos a viver, todos, não em nossas ilhas da fantasia, como ainda fazem alguns, que preferem fazer de conta que nada demais está acontecendo, mas, em uma realidade melhor, mais humana e mais humanizada.

Nós, seres humanos, merecemos algo melhor do que isto com o que estamos nos “presenteando”. Merecemos algo muito melhor, porque quem nos deu a vida, deu-nos, também, tudo o mais de que precisamos para sermos realmente felizes. Reflita um pouco sobre tudo isto. Reflita e faça seus próprios questionamentos e, caso encontre respostas satisfatórias, compartilhe-as comigo. E, se ainda assim for possível, seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

out 21

EDITORIAL DA SEMANA: OS CICLOS DA VIDA

CICLOS DA VIDA - 2019

OS CICLOS DA VIDA: É PRECISO ENXERGÁ-LOS, COMPREENDÊ-LOS E ACEITÁ-LOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Seria muito bom se as pessoas, a certa altura da vida, tentassem olhar para trás, principalmente, para as suas próprias realidades, e conseguissem identificar cada uma das etapas pelas quais passaram, desde a mais tenra idade até o momento atual. Seria bom e bastante útil.

A regra do nascer, crescer, reproduzir e morrer, não diz muito daquilo que realmente enfrentamos ao longo da vida. Porque nascer, todos que aqui estamos nascemos, crescer e reproduzir, nem sempre é fato consumado e, morrer, parece ser mais certo do que até mesmo nascer porque alguns, nem isso conseguem!

Entretanto, para os que conseguem, mais ou menos, seguir a regrinha acima, o olhar para trás, certamente vai revelar toda uma caminhada percorrida. Tempos, lutas, desafios, vitórias, derrotas. Tempos ou ciclos iniciaram e findaram sem que, nos exatos momentos muitos de nós tenhamos nos dado conta. Mas, aconteceu: foram diversos ciclos e, se bem analisados, revelam o quanto crescemos a partir de cada um deles. Aí, a regra do crescer começa a fazer algum sentido, porque já não se fala em estatura física, mas, sim, em estrutura  intelectual, mental, espiritual e emocional. Envolvemos-nos com pessoas, com instituições e com projetos, muitos dos quais entraram e saíram das nossas vidas deixando profundos cortes que, no entanto, cicatrizaram e tornaram-se como imagens opacas.

Cada um destes ciclos teve a sua importância, a sua relevância e, de algum modo trouxe ganhos imensuráveis. No entanto, nós, com a nossa afoiteza, embrenhamos-nos em meio aos dentes da engrenagem e fomos deixando o tempo passar como labareda de fogo, queimando tudo o que, pessoalmente, era nosso: sonhos, projetos, possibilidades, potencialidades para, no fim, deixar-nos esmigalhados pelo cansaço, pela idade e, em muitos casos, pela doença visível ou ainda por se revelar.

É preciso caminhar, porque faz parte dos grandes segredos da vida, porém, examinando e identificando cada um dos ciclos vividos, deles extraindo  sabedoria, conhecimento, experiência, mas, também, o desapego e a humildade, para aceitar que, ao final de cada um, sempre tem outro ciclo já engatilhado, sabendo ser preciso não fazer “jogo duro” nem “cara feia” para a vida, mas, simplesmente, sair de um ciclo e, pronta e naturalmente, deixar-se levar pelo seguinte sem traumas, sem dramas e sem lágrimas.

Nada nesta vida é permanente. Tudo é efêmero, justamente, para que possamos desfrutar de tudo. Por esta razão, enganam-se os que amarram-se a si próprios a determinados ciclos da vida, e deles rejeitam sair, sob a singela e torpe desculpa de que estão satisfeitos ou realizados naquele patamar. Podem até estar desta forma, mas, a vida não está assim com eles. A vida quer que cada um de nós viva ciclo por ciclo, tirando o máximo de proveito que cada um pode oferecer sem, no entanto, a nenhum deles se apegar com afinco ou obsessão.

É preciso enxergar e compreender cada um dos ciclos, vividos e ainda por viver, para não impedir o livre curso da bela história humana. É necessário termos a exata medida de todas as coisas para, deixando certos apegos de lado, estarmos sempre prontos para a próxima fase do jogo. Este é o grande lance! Esta é a grande jogada. Eis aí a verdadeira demonstração de coragem e, até certo ponto, de sabedoria, pois, revela-se fraco e medíocre aquele que se permite apegar a este ou àquele ciclo, inviabilizando totalmente o curso natural da história. Da sua própria história.

Examinar a caminhada, refazendo mentalmente cada um dos ciclos vividos e vislumbrando expectativas sobre o que ainda está por vir nos seguintes, é que dá o verdadeiro sabor para a vida e que faz de nós, de cada um de nós, um competidor de verdade. Theodore Roosevelt ensinava que “É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota”.

Conheci estes dizeres quando ainda era bem jovem, na casa dos meus dezenove ou vinte anos e, de lá para cá, sempre recorro a eles para turbinar a passagem de cada um dos ciclos da minha vida, saindo de um e seguindo para outro sem oferecer qualquer resistência ou demonstrar qualquer espécie de apego. Uma coisa é discorrer, em tese, acerca da caminhada sobre um cabo de aço a trezentos metros do solo. Outra, bem diferente é, efetiva e concretamente, fazer o percurso. Óbvio que a realidade é sempre mais instigante e provocativa e desperta na gente a potência máxima para o desafio.

Ora, ficar estacionado em determinado ciclo, deixando de se expor às intempéries e, também, à vitória, é bastante cômodo quando, na verdade, com isso, revelamo-nos apegados, apequenados, medrosos, acovardados e, o pior de tudo, crentes de que somos impotentes para novos e saborosos desafios.

Ciclos são sinônimos de tempo e, portanto, têm início e fim e nós, se quisermos ser lembrados e imitados pelos que estão chegando na ribalta, devemos obedecer a lógica da natureza e, com sabedoria, desapego, coragem e humildade, fazermos, de forma serena e prazerosa, a passagem de um ciclo para o outro sabendo que, assim, somos mais, somos história, somos vencedores, porque teremos decidido, como ensinava Roosevelt, encarar a próxima etapa que, quem sabe, poderá ser, também, a última.

Que este texto não te assuste nem te cause medo, pavor ou pânico, mas, que, ao contrário, sirva para incentivá-lo a sair desta mesmice em que vive, acreditando que estar estacionado no ciclo atual é o seu destino final. Não é, a vida tem muito mais para te oferecer e, no próximo ciclo, espera muito mais de você, simplesmente porque, a vida não é o que se vê ou o que se imagina ser, ela é, para nós, infinita e, assim, tem muita coisa boa pela frente. Prossiga com a sua caminhada enxergando e compreendendo cada um dos ciclos, vividos e ainda por viver. Assim, estará apto para continuar vivendo, porque viver, ah, viver é uma arte que poucos artistas dominam com precisão e com habilidade. Pense sobre isto e prestigie a dinâmica dos ciclos, os ciclos da vida. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 14

EDITORIAL DA SEMANA: POTENCIALIDADES DA MENTE HUMANA

BRUCE LEE

 A FORÇA E O PODER DA MENTE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O ano de 2023 marcará o cinquentenário da morte de Lee Jun-fan, um cidadão nascido em San Francisco, no estado da Califórnia, que, apesar de ser filho de uma família originária de Hong Kong, passa boa parte da vida nos Estados Unidos, cursando a faculdade de filosofia e, mais tarde, ensinando artes marciais, já com o nome de Bruce Lee, com o qual fica mundialmente famoso, tanto como mestre imbatível do Kung-Fu como, também, como excelente ator, cujos filmes ameaçam seriamente a supremacia de Hollywood, no início da década de 1970. 

Bem, a história de Bruce Lee é bastante interessante sob diversos aspectos. Tantos, que merece um livro dedicado àquele que, há mais de cinquenta anos, conseguiu enxergar o que muitos sábios de hoje começam a compreender com alguma dificuldade. Não pretendo, aqui, neste espaço restrito, discorrer de forma alongada sobre a vida, a carreira e a obra do Grande Mestre, cuja morte prematura, aos 32 anos de idade, sepultou para sempre um projeto de vida e de carreira que, certamente, teriam muita influência no modo de vida ocidental. Permanecem, no entanto, as ideias e os exemplos deixados que merecem destaques e que, por muitos e muitos anos, ainda, serão, para todos nós, amantes ou não das artes marciais, motivo de interesse, de estudo e de divulgação.

Bruce Lee não se tornou um mestre das artes marciais da noite para o dia: passou por diversos e severos treinamentos, tanto nos EUA, quanto na China e mesmo em Hong Kong, onde aprendeu o Kung-Fu, uma arte marcial tradicional, e muito antiga,  cuja essência é formada por movimentos físicos suaves e harmônicos entre si, voltados para o conhecimento e para o pleno domínio do corpo e da mente e, eventualmente, para a defesa pessoal, contra o ataque de  inimigos ferozes e perversos. Ensinado e treinado por bons e sábios mestres orientais, e sendo extremamente disciplinado no aprendizado e nos treinamentos individuais, Bruce Lee aprendeu diversas técnicas, ligadas a outros estilos do próprio Kung-Fu e, também, de outras artes marciais. Foi discípulo, inclusive, do lendário Mestre Yp Man, com quem aprendeu a essência do wing chun, uma modalidade mais técnica e mais sofisticada de arte marcial.

Mas, Bruce Lee, que tinha enorme apreço, também, pela filosofia, não se contentou com o pleno domínio que adquiriu do conjunto de todas as artes marciais praticadas de forma ostensiva. Em dado momento, ele cria um estilo próprio de luta, o "Jeet Kune do" (a arte do punho que intercepta), revelando-se a mais científica de todas as artes marciais. Entretanto, o próprio Bruce vai compreender, um pouco mais tarde, que estilos de lutas, por mais sofisticados que possam ser, jamais serão suficientes para derrotar inimigos cada vez mais treinados e preparados para o combate. Ele, então, e aí está a sua grande genialidade, vai firmar o seguinte convencimento: “não usar nenhum modo, como modo. Não ter nenhuma limitação, como limitação”. Ou seja, trabalhando a junção entre as diversas técnicas de artes marciais, e mesmo do "jeet kune do", com princípios tanto da filosofia como da psicologia, Bruce Lee chega à conclusão de que, o que o bom praticante de arte marcial precisa ter, é a capacidade para dar respostas imediatas a qualquer forma de ataque, deixando para trás tudo o que até então fora ensinado, na base da previsibilidade: “se meu adversário agir desta forma, eu devo responder desta outra”, com a utilização de mecanismos que, simplesmente, robotizam o ser humano, fazendo dele um mero repetidor de gestos, violentos ou não, previamente treinados. Em determinado momento da carreira, Bruce Lee vai afirmar que, para ser verdadeiramente completa, e, até certo ponto, imbatível, a pessoa precisaria de quatro braços e quatro pernas, tendo em vista a alta qualificação dos adversários e o elevado grau dos desafios a serem enfrentados.

Ao chegar a esta conclusão, Bruce vai afirmar que: “hoje eu já não acredito mais em nenhum estilo, como superior aos demais”. Para ele, o segredo está na mente humana que, sabiamente manipulada por cada um de nós, tem força e poder de superação incríveis. Olhar nos olhos dos adversários e enxergar o ponto fraco, o medo escondido e, de forma sábia e sofisticada, dar respostas superiores ao que está sendo exigido por tais adversários, levando-os à dúvida e à insegurança quanto aos métodos empregados, a partir de quando serão, seguramente, derrotados.

Durante a sua caminhada em busca do conhecimento, e enquanto se recuperava de uma lesão na coluna vertebral, em decorrência da qual ficou de cama por seis meses, Bruce Lee dedicou dias e mais dias ao estudo, tanto das técnicas de artes marciais orientais e ocidentais, milenares ou mais recentes como, também, da filosofia, lendo inúmeros livros, dentre os quais, deteve-se no pensador indiano Jiddu Krisknamurti, que ensinava que não devemos buscar a luz em nenhum mestre, guru, livro, seita, religião ou em qualquer diretor ou condutor espiritual, mas, dentro de nós mesmos e que, o ser humano precisa, acima de tudo, livrar-se dos condicionamentos em que vive, a tudo aceitando e com tudo concordando, sem oposição, sem reflexão e sem os imprescindíveis questionamentos e aperfeiçoamentos.

Para Krishnamurti, o ser humano precisa libertar-se de todas as formas de condicionamentos, a fim de que então, e somente então, possa liberar força, energia e direção próprias, de acordo com os desafios de cada momento e de cada época, livrando-se dos fantasmas do passado e não se preocupando com os lances do futuro. Bruce Lee apega-se a esta reflexão do pensador indiano, para transformar a arte marcial, que de forma alguma prescinde da dedicação, da disciplina e do treinamento, em verdadeira máquina de guerra humana, donde jamais ter sido vencido em combate. Ele que, inclusive, muito além dos treinos no tatame, era versado nas lutas de rua, em Hong Kong, enfrentando, na juventude, adversários reais, muitas vezes, munidos com facas e com correntes, razão pela qual o pai, temendo pela vida do filho, envia-o para os EUA.

Talvez os praticantes de MMA, de UFC ou de tantas outras modalidades de artes marciais, ainda não tenham, apesar de passados quase cinquenta anos da morte de Bruce Lee, compreendido exatamente que a força maior para derrotar os adversários não está no físico avantajado, nos músculos esteticamente trabalhados, nem na repetição ostensiva de sequências de ataques e de defesas previsíveis, mas, simplesmente, no interior de cada um que, conhecendo-se a si mesmo, pode dar respostas simples, e até então impensáveis, para desafios, também, impensáveis. A cerca da simplicidade, o lendário Mestre Yp Man, já ensinava pelo final dos anos de 1969 que “a simplicidade é a forma mais perfeita da sofisticação”, deixando claro que a nossa essência é muito simples e, com ela e por meio dela, podemos derrotar todos os nossos inimigos e adversários sem mover, sequer, um dedo. Ou seja, é a arte de vencer a luta sem lutar, valendo-se, apenas, do potencial intelectivo e sapiencial.

É justamente a arte de vencer a luta, qualquer luta, sem lutar, que está fazendo muita falta aos seres humanos que, atualmente, povoam este imenso planeta. Precisamos compreender que, de dentro de nós, de cada um de nós, jorram rios de sabedoria, de força e de poder capazes de, todos juntos, mudarem para sempre as nossas histórias, pessoais e coletivas. Enquanto acreditarmos na força física e no poder do dinheiro e das armas, continuaremos a vencer e a perder batalhas sem, no entanto, nunca, jamais, conseguirmos vencer a guerra. Incontáveis almas já partiram deste mundo, sem terem saboreado o gosto da vitória final, simplesmente porque conseguiram vencer pequenas batalhas, mas, a guerra mesmo, não. Saíram todos derrotados e, até certo ponto, frustrados!

É importante perceber que o conhecimento acerca das potencialidades da máquina humana assemelha-se ao do mecânico que, ao ouvir o simples barulho do motor do carro, consegue identificar o problema e, imediatamente, sabe perfeitamente o que deve ser feito para vencer o desafio daquele momento. Este simples mecânico não passa vida toda treinando os ouvidos em barulhos de motores, mas ele, como ninguém, é capaz de, ouvindo-os, saber exatamente onde atacar para derrotar, o problema apresentado.

Talvez, a grande lição deixada por Bruce Lee tenha sido esta: o segredo para a vitória, em qualquer circunstância, é o pleno domínio da mente, de modo a surpreender qualquer adversário que, sem muita técnica, conhecimento ou sabedoria, apresenta-se diante de nós pronto para nos impor severa derrota. Mesmo sem muita técnica, conhecimento ou sabedoria, nossos adversários sempre acreditam saber o tipo de resposta que daremos. Porém, jamais pensam no imponderável, no inimaginável, no efeito surpresa que, somente os verdadeiramente sábios conseguem colocar em prática nos momentos mais dramáticos de suas vidas porque, além de conhecerem com precisão o funcionamento da máquina humana, a partir do conhecimento de si próprios, sabem como tirar proveito da distração, da desatenção, da falta de foco e da falta de conhecimento, próprio e alheio, dos adversários a serem enfrentados.

E aqui, já não se fala mais em artes marciais ou em lutas de rua ou de qualquer outro cenário. Fala-se, também, e mais especificamente, sobre todas as lutas para as quais somos desafiados no dia-a-dia da vida, seja na rua, no trabalho, no meio acadêmico, na família, na comunidade, seja, enfim, aonde for. Em cada uma destas lutas, precisamos ativar o centro operacional interno, de onde emanam  respostas, suficientemente aptas para assegurarem a nossa vitória sobre adversários que, muitas vezes, movidos apenas pelo instinto animalesco e por sentimentos maldosos ou mesmo negativos, atacam-nos de modo violento, sem saberem que, mesmo sem lutar, somos capazes de derrotá-los, porque agimos com simplicidade, com sabedoria e porque, também, temos conhecimentos acerca dos extremos humanos.

Este texto, além de reativar recordações sobre Bruce Lee é, também, para reacender em cada leitor, e em cada leitora, a certeza de que existem luz, ouro, paz, sabedoria, força e poder no seu interior. Só depende de você tomar posse de todo este patrimônio que, devido à sua inércia, está parado e cheio de poeira, enquanto você vive dando murros em ponta de faca e sendo derrotado(a) por adversários que nem sempre possuem tanto preparo assim, mas, apenas, são hábeis na arte de assustar e de amedrontar todos os seus alvos. Pare para refletir e, valendo-se do tesouro mental, para agir. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

out 11

REFLEXÕES DE UM SEXAGENÁRIO

FIM DA ESTRADA

ENFIM, A TERCEIRA IDADE –

*por Luiz Antonio de Moura –

Alguém, talvez sem nada melhor para fazer na vida, decidiu cunhar o termo “terceira idade”, tendo por objeto as pessoas que chegam à casa dos sessenta anos de idade. Deste modo, ao soar o sinal da meia-noite, chega-se ao dia do início da terceira, e última, fase da vida. A coisa tem cara de melancólica, mas, na verdade, depende do ângulo pela qual é observada.

N’outro dia mesmo eu tinha vinte anos de idade e olhava para frente como quem observa uma estrada a ser percorrida. Nunca, realmente, me preocupei muito em saber o que poderia haver depois da próxima curva. Imaginava que, como tudo indicava, depois da curva, a estrada continuava o seu rumo natural. Com esta crença que, na juventude, toma ares de convicção, não via porque dar ouvidos aos mais experientes, quando alertavam para as armadilhas e para os perigos camuflados depois de cada uma das próximas curvas. É engraçado! A gente acredita mesmo que sabe de tudo e que os outros estão fora da época. Mas não, eles têm sempre razão. Maldita razão! Logo após a primeira curva, lá está escondida alguma armadilhazinha, pronta para nos pregar as primeiras peças.

Assim, de peça em peça; de armadilha em armadilha, a gente vai aprendendo que nada na vida é constante, apesar do nosso querer. Esta lógica torna-se tão contumaz na nossa caminhada, que tem gente que passa a sentir falta da próxima curva, porque não consegue viver de forma constante. Necessita da vida sob alerta, sob o risco e sob o perigo. Gente que, depois de algum tempo, a gente identifica como doente de verdade. Sim, porque, apesar de tudo o que a vida nos propõe, imagino ser normal esperar, e até desejar, que depois da próxima curva, sempre exista uma continuidade de tudo o que é bom e, é claro, o fim de tudo o que é ruim, incomoda e traz sofrimentos.

Bem, deixando de lado os doentes e amantes da dor e do sofrimento, o certo é que n’outro dia mesmo, eu tinha meros vinte anos de idade e olhava para frente imaginando, com o tempo, alcançar a velocidade de cruzeiro, a partir de quando, seriam retas, descidas e curvas suaves e mais retas a serem percorridas, até, então, chegar na fase da tal “terceira idade”, com força, experiência, certeza e ares de sabedoria para, enfim, destruir todo aquele cenário pintado por quem já havia concluído aquele percurso e que, sem maiores cuidados, alertava para os buracos e fossos após cada uma das curvas seguintes.

Dos vinte aos trinta anos, a velocidade é boa. A gente sente que o carro está sob controle e imagina poder acelerar um pouco mais, sem medo das tais curvas. Aliás, as curvas costumam ser emocionantes e a gente, é claro, não sente medo delas. Vai que vai! A estrada alterna trechos muito bons com outros meio esburacados, mas, olhando para fora do veículo do tempo, percebe-se que alguém está fazendo os reparos necessários e, então, imagina-se que, aconteça o que acontecer, haja o que houver durante o percurso, sempre haverá alguém fazendo aqueles reparos. Temos segurança e já pensamos em esboçar pequeno sorriso, como quem diz: “não disse que conheço o caminho?”.

Dos quarenta aos cinquenta, um bom trecho já foi percorrido e, conforme previsto, já vimos muita coisa estranha na estrada percorrida. Depois de algumas curvas, pudemos perceber que o carro já não apresenta a mesma estabilidade; já descobrimos que, vez por outra, fomos realmente surpreendidos por situações desagradáveis depois de certas curvas; pudemos experimentar alguns trechos esburacados e cheios de crateras, nos quais nenhum reparo foi ou está sendo feito. Aquele meio sorriso convencido começa a sair dos nossos lábios e passamos a afirmar que, sob certos aspectos, alguns dos alertas recebidos lá atrás, no início da jornada, tinham alguma veracidade e começamos a nos tornar mais espertos, com os olhos mais atentos na estrada. Até porque, nesta fase da vida, muitos de nós já está usando os indesejáveis óculos. “É só para perto”, a gente afirma. Mas, na verdade, muitas coisas, para serem realizadas, dependem dos benditos óculos!.

Dos cinquenta aos sessenta longo trecho já foi percorrido e algumas experiências foram adquiridas. Umas, bem amargas; outras, menos um pouco, mas, no cômputo geral, é possível verificar as marcas deixadas por umas e por outras. Agora já temos consciência de que, depois de cada curva, sempre existe a possibilidade de surgirem pedras pontiagudas, abismos, armadilhas naturais e outras preparadas gentilmente pelos adversários. Já sabemos “por experiência”, que a estrada é perigosa e traiçoeira; que não podemos confiar em ninguém e, então, passamos a pronunciar o nome de Deus com maior frequência: Deus me livre; se Deus quiser; graças a Deus; tenho fé em Deus, e por aí vai. Já aqui estamos plenamente convencidos do quão enganados estávamos lá atrás, quando dos queridos e saudosos vinte anos!

A partir dos sessenta anos, nossa velocidade tende a ser bastante reduzida. Não, por deterioração ou cansaço da máquina, mas, por precaução. Já estamos cansados dos solavancos que antecedem a frenagem antes de cada curva que, agora, sabemos esconderem perigos. Já estamos prevenidos, por experiência própria, dos enormes riscos da entrada em alta velocidade nas curvas e da (in)consequente aceleração após cada uma delas, acreditando, ou mantendo a ilusão de que, após cada curva, as retas são decorrência natural do grande tracejado percurso.

Nesta fase, normalmente, ao olharmos para frente e para trás, sabemos avaliar com bastante probabilidade de acerto, muito do que ainda pode acontecer, caso insistamos em permanecer com a máquina acionada naqueles níveis de outrora. É preciso ir freando lentamente muito antes de cada curva. É preciso sair de cada curva com velocidade próxima do “zero” para, lenta e sabiamente, ir acelerando muito de acordo com as condições apresentadas diante de nós.

Na marca dos sessenta anos, passamos a compreender que o perigo não está escondido depois de cada curva, mas, incrivelmente, nas grandes retas, nas quais levamos o veículo a velocidades verdadeiramente impraticáveis, posto que, em alta velocidade, a brusca frenagem antes de curvas que vão surgindo do nada, causa impactos bastante negativos no corpo e na alma. Então, e somente então, começamos a compreender que, o ideal é percorrer as grandes retas com velocidade média, aumentando esporádica e cautelosamente, entrando nas curvas com boa estabilidade e saindo delas com segurança redobrada. Ah, aprendi os segredos! No entanto, alguém sussurra nos fones que trazemos colados aos ouvidos: “falta pouco para a chegada. Você já percorreu mais da metade do caminho útil. Prepare-se para entrar na reta final”. Agora, como consolo, só resta aos mais sábios e mais conscientes, tirar o pé do acelerador, colocá-lo no freio para, lenta e progressivamente, ir parando o carro porque, logo ali na frente está faixa de chegada!

Finalmente, tomamos consciência de que ainda podemos ser muito úteis, caminhando, agora, como instrutores de pista, alertando os novatos para os grandes perigos da estrada. Eles, porém, assim como nós outrora, não acreditam no que dizemos. Ligam seus veículos e, como loucos, saem em altíssimas velocidades! Lá se vão eles passar por tudo o que passamos, repetir os mesmos erros, ou outros ainda maiores para, no final, aos sessenta, entrarem na fase final da caminhada, na tal da “terceira idade” e, fatalmente, pretenderem ser o que agora queremos ser: instrutores de pista.

Hoje – 11 de outubro de 2019 – chego na marca dos sessenta anos! Entro nesta que chamam de “terceira idade”. Enfim, a terceira idade! Olho para frente e percebo com muita facilidade os riscos, para a saúde e para a vida, de continuar numa velocidade, ainda, ditada por quem está confortavelmente à margem da pista. Para quem não está, de fato e concretamente, na chuva, o guarda-chuva sempre será  uma peça feia, incômoda e inútil.

Chego aos sessenta anos de idade com conhecimento suficiente para saber que, daqui por diante, a estrada começa a ficar cada dia em condições mais desafiadoras, mais perigosas e mais propensas a transformar meu veículo em peça de museu deixando-me, em qualquer próxima curva, à pé. O melhor e mais sábio, para mim, é entrar na próxima à direita, trocar os pneus por uns mais macios e suaves, próprios para a grama, e ir curtir os belos e magníficos jardins que permeiam toda a grande pista da vida, deixando para os mais afoitos, os ainda despreparados e para os novatos, a possibilidade de engalfinharem-se na incrível “corrida maluca” da vida, na qual, além de competirem insaciavelmente uns com os outros, contarão sempre com a presença de certos fantasmas que, apesar do tempo, insistem em permanecer na pista, criando tumultos e fazendo papel de bobos, porque desrespeitam e desconsideram o poder e a força implacável do tempo, sob os mais diversos pretextos.

Posso até vir a ser instrutor de pista, porém, sabendo, de antemão, que, os que estão para iniciar o percurso, só vão, verdadeiramente, compreendê-lo quando puderem, assim como faço hoje, olhar para trás e dizerem o que digo: Enfim, a terceira idade!

Não sou merecedor de grandes congratulações, afinal, segui as regras. Joguei o jogo. Agora, estou arrumando as malas para entrar na verdadeira fase boa da vida. Aquela reservada aos verdadeiramente sábios. A fase a partir da qual, farei longas caminhadas. Não, naquela estrada estonteante, mas, na estrada que conduz aos vestiários, onde trocarei toda indumentária por roupas mais adequadas ao descanso, ao repouso, à leitura, às orações, à meditação e, enfim, aos passos na grande reta, ao fim da qual, espero, receberei de Deus o grande troféu da vida.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 07

EDITORIAL DA SEMANA: PROCESSOS DE DESCONSTRUÇÃO DA PAZ

GUERRA TOTAL

CAMINHOS QUE LEVAM À DESCONSTRUÇÃO DA PAZ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas acerca do fato de que um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade, é a constante e permanente ameaça à paz. E aqui, não falamos apenas da paz cujo oposto leva aos campos de batalhas, nos quais são encontrados todos os tipos de armas de fogo e de explosivos, capazes de dizimarem populações inteiras. Não. Falamos, também, da paz entre as nações, da paz política, social, comunitária e, até mesmo, da paz em família. Falamos da paz, como estado desejado para que os seres humanos possam viver e desenvolver seus projetos, sem serem fustigados ou ameaçados pela fúria de adversários e de inimigos vorazes. Adversários e inimigos que amam e que prestigiam todo tipo de conflito. Existindo qualquer potencial para a morte da paz, lá estão eles prontos para a ação! Parece invenção, mas, não é não. Existem pessoas que detestam a paz. Não sabem conviver com ela, desconhecem-na na prática ou odeiam aquela que a maioria das pessoas tanto amam e perseguem: A PAZ!

Alguém poderá objetar, até com certa dose de razão, que a humanidade jamais conheceu período de paz integral, haja vista que, desde que o homem existe, conflitos,  embates e combates fazem parte da relação constante com seus congêneres. De fato, cem por cento de paz, atualmente, nem nos cemitérios!

Entretanto, é preciso admitir, a civilização nunca enfrentou tantas linhas de batalhas e de combates tão intensos, violentos e destruidores, como tem enfrentado de meados do século XX para cá. São combates e embates de cunhos bélicos, religiosos, sociais, políticos, ideológicos, filosóficos, intelectuais e até mesmo de costumes e de tradições. Neste emaranhado de motivos, até o ambiente familiar passou a servir como campo de severas batalhas, quando são seladas grandes inimizades em decorrência dos danos causados, mutuamente, por membros de um mesmo grupo.

Ora, sem encontrar refúgio seguro, e diante da iminência de ataques vindos de todas as direções, o homem moderno comporta-se como quem está sempre pronto para o combate, seja ele da natureza que for. Não importa de onde partam os ataques, é preciso enfrentá-los à altura e, o pior, revidá-los com precisão e rigor. Assim, temos o cenário que vemos todos os dias, por onde quer que andemos: as nações, a sociedade, a comunidade, o ambiente familiar, o de trabalho também, o político, o religioso e o acadêmico, todos, divididos em pequenos, médios ou grandes grupos, devidamente alinhados, preparados e dispostos a tudo para fazerem valer ideias e projetos, muitos dos quais de cunho meramente pessoal e todos, vale dizer, de natureza absolutamente efêmera.

Bem, por trás deste verdadeiro barril de pólvora, e de tanta preparação e disposição para a guerra, que nem sempre termina com sangue, mas, com sérios prejuízos psicológicos, sociológicos, políticos, financeiros, sanitários e existenciais, existe todo um processo de desconstrução da paz. Ninguém vai, loucamente, para o campo de batalha, disposto a “matar” ou a “morrer” sem que, antes, tenha tomado conhecimento sobre causas e efeitos, sobre o inimigo e sobre as condições do próprio arsenal. E é aí que tudo tem início.

Existem alguns detalhes que antecedem o ambiente belicoso, ocorra onde ocorrer, tenha a forma que tiver. Um destes “detalhes”, que podemos denominar como pavios, é justamente a existência dos chamados “boatos”. Os boatos que, na maioria das vezes, distorcem, ou até mesmo falseiam, a verdade, possuem um poder de alastramento incrível. Saem de uma boca ou de uma rede social qualquer e partem feito rastilho de pólvora chegando, impreterivelmente, nos endereços certos: naqueles que são os verdadeiros promotores da guerra. A partir daí, esses promotores da guerra, tratam de, apenas, direcionar os boatos recebidos. Pronto! Está preparado o cenário. Pessoas sentem-se ofendidas e magoadas; outras, traídas e apunhaladas pelas costas; outras, desiludidas e decepcionadas e outras, ainda, severamente excluídas e/ou discriminadas. Enfim, os boatos possuem força incrível para a desconstrução da paz. E com eles, obviamente, a mentira.

Outro detalhe antecedente, e não menos instigante de conflitos, de embates e de batalhas, é a divulgação permanente, seja por meio da palavra escrita ou mesmo oralmente transmitida, do apoio irrestrito à tese de que “a melhor defesa é sempre o ataque”. Ou seja, tão logo a pessoa perceba, ainda que apenas de forma aparente, a possibilidade de iminência de um ataque, deve partir, imediatamente, para o contra-ataque, no exercício de uma defesa que nem precisa ser própria. Pode ser em favor de terceiros. Vale tudo, para quem não tem qualquer compromisso com a paz. Tudo motiva. Tudo justifica.

Tem, ainda, a defesa que muitos fazem do uso de armas letais, como fórmula perfeita e eficaz para combater os “inimigos da paz”. Ou seja, para defender a paz, pega-se em armas e extermina-se o suposto inimigo. Inimigo da paz! Para os defensores deste “detalhe”, o perigo vem sempre do outro. É o outro que representa o mal, o adversário a ser combatido. Aquele que ameaça, verdadeiramente, a paz. Ao lado destes, marcham significativas parcelas da sociedade. Marcham em defesa da guerra, contra os adversários da paz, que são sempre os outros!

Por fim, e sem, absolutamente, exaurir a lista de detalhes antecedentes, encontramos os apologistas da vingança. Para estes, o mal precisa ser combatido com a mesma intensidade com que praticado. Porque, para eles, se o mal não for combatido com intenso rigor, tende a se propagar ainda mais. Quando, por todas as formas “legais” e conhecidas, não puderem promover a vingança desejada, partem para a vingança financeira. Qual seja: o dano moral. Impor ao outro uma pena financeira grave, para estes apologistas, pode ter efeito pedagógico muito importante além de, evidentemente, fazer inchar bolsos e contas bancárias.

Bem, todos estes – poucos, é bom que se diga – detalhes elencados, na verdade, possuem, acima de tudo, a capacidade para a desconstrução da paz. Seja da paz em campo aberto, entre as nações, na política, na sociedade, na comunidade de trabalho, acadêmica ou religiosa, ou na própria família.

Se pararmos de dar ouvidos aos inúmeros boatos que chegam até nós; se deixarmos de abraçar teses e métodos, supostamente, defensivos; se abandonarmos o apreço pelas armas letais e se, principalmente, deixarmos de fomentar a vingança, tenha a forma que tiver, certamente, estaremos contribuindo para a manutenção da paz. Ou, na pior das hipóteses, estaremos cooperando com o atraso no início da guerra.

Se não conseguirmos abraçar as fórmulas acima expostas, para a manutenção da paz, que sejamos, pelo menos, promotores do diálogo, da conciliação, da tolerância e do perdão, como formas eficazes de resolução de quaisquer conflitos. Uma inimizade, um corpo no chão ou um dinheiro a mais não são capazes de reconstruir a paz. Quando muito, ajudam a disseminar o ódio, o medo e, o pior, mais desejo de vingança.

Como sempre, o objetivo aqui é incentivar a reflexão que, caso seja feita, poderá auxiliar na melhor compreensão acerca do estado a que chegamos, com todo o progresso tecnológico e com toda a civilidade que julgamos possuir. Se for possível para você, reflita. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 03

DE DEUS PARA DEUS, SEM ABDICAR DA LIBERDADE PARA PENSAR

DEUS COMO PONTO DE PARTIDA

DEUS COMO PONTO DE PARTIDA E DE CHEGADA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Por mais que devamos prestigiar, e até mesmo fazer valer, a liberdade que temos e o livre arbítrio com o qual somos premiados, não podemos esquecer que estas pérolas, para os crentes, não excluem, de forma alguma, a existência,  a presença e a ação de Deus, na origem e na extensão da nossa caminhada, após esta peregrinação, chamada vida.

Obviamente que este entendimento, conforme destacado, pertence somente aos crentes, não, aos defensores do ateísmo, para os quais a vida começa por acaso e termina com o ocaso, sem maiores consequências, bastando viver intensamente o tempo propiciado, sendo bom ou mal, conforme a aptidão natural de cada um e de acordo com as inclinações adquiridas por meio do contato com o mundo. Depois? Depois, é o fim absoluto. Nada mais.

Entretanto, não é assim que os crentes, professores das mais diversas crenças e tendências espirituais e espiritualistas, pensam e vivem. Cada um a seu modo, crê na existência, tanto de uma origem, como de um destino final, totalmente vinculados à divindade que, de acordo com a crença e com a tradição, recebe nomes distintos.

A crença em uma divindade, seja Deus, Allah, Brahma, Krishna, ou tenha o nome que tiver, não pode servir como agente inibidor para o exercício do livre pensar e do livre agir. A crença, na melhor das hipóteses, deve funcionar, apenas, e tão somente, como instrumento regulador dos atos praticados por nós, seres humanos, na relação de uns para com os outros e, de todos, para com a natureza, mãe acolhedora e mantenedora de todos os seres vivos.

É absolutamente imprescindível, e esta parece ser a vontade de Deus, para a permanente evolução de toda a Criação, que o ser humano não abra mão do direito de pensar, de raciocinar, de questionar, de contestar e, principalmente, de criar e de apresentar sempre, sempre, novos caminhos, novas propostas e novas possibilidades para a vida e para a sobrevivência de todas as espécies. Pensar, contestar e discordar, jamais deve ser tomado como ato de rebeldia, mas, e, sobretudo, como fórmula divina para o aperfeiçoamento da espécie humana, que detém este monopólio sobre todas as demais espécies.

Desta forma, precisamos envidar todos os esforços para não abandonarmos a prática do pensar e do repensar, do criticar e do contestar, em favor da crença cega em discursos cujas origens são, por demais, duvidosas e do seguimento a certos líderes que, de volta e meia, aparecem por aí, com indumentárias e adereços, até mentais, dizendo-se enviados “de cima” para conduzir a humanidade. Para os crentes, é preciso recordar, inclusive, ser esta a forma prevista para o surgimento de todos os anticristos, tanto os que já passaram por aqui, como os que ainda estão e os que ainda virão. Sempre surgem como salvadores de uma pátria na qual, em muitos casos, nem eles mesmos querem viver (estamos cheios destes exemplos). Chegam com as soluções prontas e com palavras muito bem medidas, antes de serem pronunciadas. Tudo, para o arrebatamento de multidões que, infelizmente, creditam a eles todas as possibilidades de vitória.

Ainda que citando Escrituras e Livros Sagrados, estes “líderes” – do menor ao maior – devem ser ouvidos com muito cuidado e tudo o que eles dizem deve ser objeto de pesquisa e de investigação por parte de todos nós, seres humanos, dotados de razão, de inteligência e do tão alardeado livre arbítrio.

Entretanto, é preciso ter em mente, os que creem, evidentemente, que Deus é o nosso porto de partida e o porto para o qual estamos destinados na finitude da matéria humana. Dele viemos e para ele voltaremos, nem que seja para o certeiro ajuste de contas sem, no entanto, termos que abrir mão da nossa liberdade e do livre arbítrio com o qual Ele próprio dotou cada um de nós.

Estudar, pesquisar, contestar e investigar sobre tudo o que ouvimos, de modo algum, ofende o Criador. Pelo contrário, é Seu desejo que o ser humano alcance a plenitude do conhecimento. Não, porém, por intermédio de quem não sabe verdadeiramente o que diz. Mas, por meio do trabalho conjunto voltado para o livre pensar, expressar e agir, a partir de onde e de quando, recebemos dados sempre atualizados para a formação daquilo que podemos denominar como patrimônio intelectual que, acredite, não nos pertence, mas, a todos os seres vivos, inclusive, à ameba!

É bem verdade, que no nosso meio existem homens e mulheres talhados na longa experiência laboratorial da vida. Pessoas nas quais, já nas primeiras palavras, é possível identificar a sabedoria com que são dotadas. Porém, nem por isto, afastam, automaticamente, a nossa reflexão e o nosso procedimento investigativo, até para irmos um pouco mais além do que elas próprias. O desejo de um autêntico e verdadeiro mestre é ver seus discípulos irem além de tudo o que ele ensina. Não, evidentemente, do jeito que vemos por aí. Pessoas estéreis e, ao mesmo tempo, reprodutoras de palavras e de conhecimentos alheios, muitos dos quais absolutamente vazios de conteúdo e de fundamentos.

A propósito, nunca é demais lembrar o Mestre Jesus: “o que crê em mim, fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Crendo, orando, pensando, investigando e agindo, somos muito mais do que simples descendentes do macaco, ou mera decorrência da evolução da ameba.

Para o que creem, é bom sempre repetir, Deus, quando da Criação, deixou para o ser humano a tarefa de levá-la adiante, expandindo-a e aperfeiçoando-a de forma ilimitada. E Ele espera que façamos a nossa parte! Não, que fiquemos dando razão uns aos outros, ou tirando-a uns dos outros, em nome de “pensadores” arcaicos e aproveitadores. Deus espera que lutemos, sempre em prol da vida. Não, como muitos têm lutado, em favor da morte, das mais diversas formas, com as mais diversificadas armas e com as mais primitivas justificativas.

Lendo este texto, não deposite nele nenhuma crença ou confiança, até que a sua própria inteligência te mostre algum indício de luz. E se, com a sua inteligência, reflexão, investigação e pesquisa, você detectar algum indício de luz, transforme-o em uma verdadeira central elétrica, com energia e potência capazes de energizar e de iluminar, pelo menos, o seu caminho de volta para Deus. Já terá sido muito. Lembre-se sempre do dito popular que diz que, “Para aquele que sabe, de um simples limão sai uma boa limonada”. Seja feliz, e boa sorte.

NAMASTÊ - NOVO _____________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

set 30

EDITORIAL DA SEMANA: CRENÇAS E PENSAMENTOS LIMITANTES

PENSAMENTOS LIMITANTES

CRENÇAS E PENSAMENTOS LIMITANTES: É PRECISO ABANDONÁ-LOS, PARA PODER AVANÇAR –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém, e nem deve assustar a ninguém, a constatação de que nós, seres humanos, estamos encurralados no avançar da civilização. Chegamos até aqui, porém, não estamos agindo com a sabedoria e com a perspicácia necessárias para continuarmos avançando no processo cognitivo, que poderia nos transformar em pessoas mais dignas, superiores e cada vez melhores.

O mundo atual, com todas as estruturas dominantes, e cada vez mais ortodoxas, tem nos levado, não apenas ao isolamento individual, mas, e, sobretudo, ao isolamento coletivo. Cada vez mais somos empurrados para guetos religiosos, políticos, filosóficos, ideológicos, todos, fundados em crenças, em pensamentos, em convicções e em “certezas”, que só fazem limitar a nossa capacidade de avançar na compreensão do homem, enquanto espécie, e da natureza, enquanto berço e leito destinados ao acolhimento e à própria sobrevivência de todos os seres vivos.

Guiados por uma espécie de bússola construída por grupos ideológicos fortemente politizados, por sólidas instituições religiosas e acadêmicas, por pensadores que se dizem modernos, mas, que, no fundo estão atrelados à era glacial, e por um conceito de Estado cada vez mais elaborado e difundido por elites que nem sempre têm compromisso com a evolução e com o progresso de homens e de Nações, vemos muitos dos nossos contemporâneos se apequenarem, fazendo seus, crenças e pensamentos estanques, que defendem com unhas e dentes, ou seja, a tudo aceitam como verdade absoluta, em nada oferecendo resistência ou contestação impossibilitando, assim, a caminhada investigativa, que é o nascedouro do conhecimento na forma mais pura e mais genuína.

Muitos homens e mulheres deste nosso tempo têm se deixado levar por estes, que podemos denominar como “pensamentos e crenças limitantes”, simplesmente, abandonando a capacidade de crescimento intelectual e de, o que é mais importante, servirem de exemplo e de incentivo para as gerações que vêm logo atrás. Acreditam, muitos destes homens e muitas destas mulheres, já serem detentores de todo o conhecimento necessário, seja em que aspecto for, e que, portanto, agora, é só se trancarem nos seus guetos individuais e egoístas, blindando suas mentes e seus corações contra forasteiros, para assegurarem todo o bem de que necessitam.

A partir destas convicções e certezas, que adotam como verdades absolutas, isolam-se do mundo, e no mundo, e, simplesmente, param de evoluir, vivendo apenas de resquícios de um passado que vai ficando cada vez mais distante; de frases construídas há tempos; e das famosas “opiniões formadas sobre tudo”, como apregoa o cancioneiro popular. Este tipo de pessoa, cujas características são encontradas em todos os estratos sociais, terminam por venderem “verdades” e conhecimentos que só cabem nas próprias cabeças, haja vista não resistirem mais, a nenhuma investigação mais detalhada e aprofundada.

São, portanto, os pensamentos e as crenças limitantes, que estão impedindo os homens e as mulheres deste nosso tempo de trevas e de obscurantismo intelectual, os responsáveis pelo embotamento da raça humana, posto que, quem assim não se adequa e aceita viver, passa a ser objeto de exclusão e, com bastante frequência, de perseguição mesmo.

Assim, temos visto, e de certa forma enfrentado, situações das mais grotescas, considerado todo o progresso que a humanidade experimentou nos dois últimos séculos e, particularmente, nas últimas cinco ou seis décadas. Todo o avanço da ciência e da tecnologia não tem encontrado paralelo no avanço cognitivo de boa parte da humanidade que, sem saber muito o bem o que fazer, prefere andar em bandos, em busca de gurus, de mestres, de líderes religiosos, de profetas do apocalipse, de guias espirituais e de todo tipo de condutores, destes cujos livros estão apinhados nas livrarias, físicas ou virtuais, espalhadas pelo mundo afora.

Os seres humanos deste tempo, ao invés de buscarem dentro de si mesmos a luz, as respostas e as soluções para seus inúmeros conflitos, assim como para os da própria espécie, preferem dar ouvidos aos pregadores separatistas, que trabalham a soldo de suas escolas políticas e filosóficas, de suas seitas e religiões e afirmam conhecer perfeitamente, tanto o verdadeiro caminho, quanto o caminho da verdade. E, sem se darem ao trabalho de estudar, de pesquisar e de investigar todas as informações que recebem, as massas assimilam tudo aquilo que ouvem e saem divulgando por todos os meios possíveis e imagináveis e, o pior, alimentando conflitos uns com os outros, em razão dos guias e condutores aos quais servem, e seguem, a pretexto de professarem esta ou aquela ideologia, ou mesmo convicção filosófico-religiosa.

Ora, há milhares de anos os homens daqueles tempos remotos faziam a mesma coisa: ouviam longos discursos, formavam filas para serem abençoados por seus gurus e mestres, cultuavam deuses, apresentavam oferendas e ofereciam sacrifícios e, do mesmo modo que hoje, combatiam uns aos outros, em nome da crença e das ideias predominantes. Mas eles ainda tinham muito a avançar!

E hoje, o que temos, o que vemos? Temos pessoas que estão abrindo mão do direito de pensar. Vemos pessoas vendendo pensamentos, por meio de livros e de palestras, e enriquecendo às custas de verdadeiras massas humanas que, ao final de tudo, andam por aí dando prestígio, fama e dinheiro para os grandes, não sábios, mas, sabichões, mestres e acumuladores de fortunas.

É preciso que os homens e que as mulheres deste nosso tempo usem o cérebro, a mente e a consciência para descobrirem novas e promissoras formas de vida, aqui mesmo, neste Planeta maravilhoso, chamado Terra. Já passa da hora de buscarem dentro de si mesmos, a luz que já brilha em abundância, e deixarem de andar iluminados por fagulhas que escapam daqueles que sabem negociar, no mercado humano, o fruto das suas baterias internas.

É preciso abandonar as crenças e os pensamentos limitantes e, até certo ponto, alienantes, para que se possa retomar o caminho da evolução cognitiva, para o qual fomos criados e do qual estamos desviados, saindo do nosso isolamento e dos guetos nos quais fizemos nossa morada, onde já habitamos por muitas e muitas gerações.

Não podemos continuar sendo deste ou daquele País, desta ou daquela religião, defensores desta ou daquela linha de pensamento. Somos todos de uma mesma e única espécie: a humana. Precisamos abandonar todas as divisões e formas de separatismos, pois, é de onde vêm os conflitos, os embates e as guerras. Precisamos refletir juntos e, juntos, buscarmos o “ser humano renovado” que habita nas cavernas internas que trazemos em cada um de nós, desde sempre. Reflita, pesquise, investigue sobre tudo isto e, fundamentalmente, rejeite conclusões, porque elas significam o fim da linha. Quando concluímos alguma coisa, importa dizer, chegamos ao final daquela jornada, e a nossa jornada jamais tem um fim. Somos, apenas, substituídos pelos que vão chegando pouco a pouco durante, ou mesmo após, a nossa partida.

Porém, não abra mão do direito de ter seus próprios pensamentos e seu próprio conhecimento, frutos da sua vivência, da sua convivência, das suas pesquisas e das suas investigações. Pare de andar sob a tutela de mestres, de gurus e de condutores de ocasião, que vendem livros igual água e se dizem conhecedores do verdadeiro caminho para a felicidade. Não acredite nisto, nem gaste o seu precioso dinheiro.

Seja senhor, senhora, do seu próprio destino e comece por questionar tudo o que está por trás de todos os discursos que ouve; das pregações, dos “ensinamentos” e dos pseudoconhecimentos que são passados por aqueles que, no dia-a-dia, revelam não saberem viver, e não vivem, o que ensinam nem o que pregam dos púlpitos e das bancadas. Passe a refletir sobre todas as coisas, antes de formar o seu próprio pensamento e a sua convicção cronológica. Assim, você estará caminhando, evoluindo, construindo, renovando e servindo de exemplo paras as novas gerações que estão aí e para as que já estão a caminho.

Reflita e investigue sobre o papel que você tem desempenhado: se tem sido o de pensador, de investigador, de pesquisador, de inovador, de construtor, ou, simples e confortavelmente, o de seguidor de líderes nos quais prefere acreditar cegamente, só porque reproduzem, eles também, livros e palavras antigas, frutos do pensamento e da investigação daqueles que, no seu devido tempo, foram mais eficientes do que nós, na arte de pensar. Se acredita que só eles eram bons, você também é vítima das crenças e dos pensamentos limitantes que, iguais ao prego, estão te fixando na madeira dura do tempo e da história, impedindo que explore todo o seu verdadeiro potencial, deixando de colaborar com o projeto expansionista da vida, seja do ponto de vista da Evolução, ou mesmo da Criação. Fuja deste cenário, enquanto é tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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