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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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jun 24

EDITORIAL DA SEMANA: SE QUISERES VENCER, TERÁS DE LUTAR!

O REI DAVI - 2019

 É PRECISO CRER E LUTAR, PARA VENCER –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A vida, como todos sabemos, é feita de lutas e de enfrentamento dos desafios que, como neve polar, caem sobre nossas cabeças durante todo o curso da nossa existência terrena. E, em decorrência, estamos sempre expostos, gostando ou não, a vitórias e a derrotas. É inevitável! Faz parte do jogo da vida.

Entretanto, se este “jogo da vida” possui regras, algumas até rígidas, é necessário, também, a coexistência de estratégias por meio das quais cada jogador se habilita para, no palco central, onde é visto por todos os demais participantes da peleja, demonstrar as habilidades e as competências para vencer, ou, na pior das hipóteses, para justificarem a sofrida derrota.

É assim que funciona. Quem vence, e quando vence, brada aos quatro ventos as estratégias, as habilidades e as competências utilizadas. E quem é derrotado, quando ocorre, justifica-se da melhor maneira que pode, embora em muitos casos, todos já conheçam, de antemão, os verdadeiros porquês daquela derrota.

Não se pretende dar, aqui, aulas de como vencer um jogo, que nenhum de nós sabe exatamente como fazê-lo. Até porque, quem nunca sofreu derrotas? Mas, também, quem nunca saboreou as delícias de uma bela vitória? O que se pretende é apresentar duas estratégias que, por sinal, são bastante conhecidas, mas, nem sempre, colocadas em prática na hora de jogar pra valer.

Falo, em primeiro lugar, da necessidade de coragem, determinação, persistência e resistência para lutas difíceis e, por vezes, prolongadas. Muitos passam a vida toda em “luta”, mas, lutam como quem apenas participa da querela, sem muita disposição e sem muito foco ou determinação. No final de cada batalha perdida, costumam atribuir a Deus a derrota, com a famosa frase: “Deus não quis”.

O fato é que, quem luta sem luvas, acaba por ferir gravemente as mãos e, assim, como continuar de pé em um ringue no qual o adversário está sempre muito bem preparado? Desta forma, a força de vontade, a garra pela vitória, mais as estratégias e as competências adquiridas no curso da caminhada, vão pavimentando uma estrada que, apesar das pequenas e esparsas derrotas, vai conduzir à grande vitória da vida. Àquela vitória que, um dia, vai ser contada para filhos e netos; grande vitória, que terá por testemunhas amigos, colegas de trabalho e de academia, vizinhos e muitos outros, até desconhecidos, mas, que, sem percebermos, sempre estão observando o nosso andar.

Porém, nada disso é suficiente o bastante para assegurar qualquer vitória sólida e duradoura, se não estiver amalgamado com a forte liga da fé. Da fé que tudo supera; fé que faz a pessoa andar como que por uma longa estrada invisível, onde só quem caminha sabe que existe algo abaixo dos pés. Fé que robustece o mais fraco dos seres e transforma em herói o menos provável de sê-lo. Fé, enfim, que leva à visão da realização de tudo aquilo que, para todos os demais, parecer sonho inalcançável ou mera e ingênua ilusão de quem não tem noção de quem é ou de onde está.

Quando eu era menino de treze ou quatorze anos de idade, meu pai exigia que,  além dos estudos, eu fizesse alguns trabalhos para casa. Eram trabalhos bem simples, mas ele exigia e cobrava os resultados. Os tais trabalhinhos consistiam em buscar lenha na serraria, para minha mãe poder cozinhar e economizar o já tão caro gás de cozinha; buscar lavagem nas casas da vizinhança, para alimentar o porquinho criado para garantir a cada ano a fartura de carne e de banha; cortar capim, nas beiradas dos riachos, para alimentar os coelhos que, de volta e meia, iam parar na panela, como única carne à disposição e, por fim, fazer a limpeza diária do chiqueiro, mantendo o ambiente minimamente limpo.

Quem conheceu aquele menino sujo, rasgado e trabalhador, jamais poderia imaginar que um dia seria alguém na vida. Ninguém seria capaz de apostar um centavo, sequer, na história daquele menino que, bem mais tarde, e à custa de muita luta, resistência, persistência e fé em Deus, receberia o diploma de Bacharel em Direito, seria aprovado em concurso público federal, faria algumas pós-graduações, voltaria aos bancos acadêmicos para cursar Teologia e avançaria rumo a um Mestrado. Ninguém seria louco de vislumbrar qualquer futuro promissor para aquele fedelho que, para completar, comia a sobra dos pratos dos irmãos, para ajudar a economizar a comida das panelas que, a qualquer momento, poderia vir a faltar.

Essa história, está sendo narrada por mim, mas, é semelhante à de muitos e muitos meninos por este mundo afora. E, como eu, o que leva esses “meninos pobres e maltrapilhos” a saírem da miséria absoluta para chegarem no topo de carreiras até então destinadas aos filhos dos mais abastados? O que leva os filhos dos pobres e excluídos a alcançarem os primeiros lugares nos ENEM’s da vida e nos concursos públicos que disputam? O que faz, por exemplo, com que um homem como o ex-Ministro Joaquim Barbosa, pobre e do interior da roça, chegar ao título de Doutor em uma Universidade Alemã?

A resposta é simples: luta, resistência, persistência e fé. Nada mais! Quem não tem estas armas, e não for herdeiro de fortunas, não chegará a lugar algum na vida e, no futuro, terá apenas histórias fanfarronas para contar e, ainda assim, sempre encontrará alguém para desmentir os possíveis e costumeiros exageros.

A outra saída é bem simples também: é o mundo do crime. Mas, nós conhecemos o final de todos os que optam por esta saída desonrosa e desastrosa.

Prevalecem, pois, as grandes armas dos verdadeiros guerreiros: a vontade de vencer; a força e a resistência para lutar; a coragem para perseverar em quaisquer circunstâncias, e a fé em Deus e no Poder absoluto da Santíssima Trindade. A partir do somatório de todos estes ingredientes ter-se-á uma verdadeira guerra, na qual algumas batalhas serão perdidas, mas, no final, a vitória se sobrepujará e os vencedores poderão, enfim, repousar em paz e na paz do Senhor.

O famoso e virtuoso Rei Davi deixou o exemplo para os seus contemporâneos, assim como para todas as gerações que o sucederam: homem temente e fiel a Deus mas, também, forte, corajoso, temido e destemido, pronto para enfrentar os piores inimigos, até mesmo os de dentro de casa e que, no final, deixou atrás de si um rastro e vitórias que o próprio Deus desejou preservar para a história.

Leia este texto com atenção, paciência e serenidade. Afie suas garras, refaça todos os seus projetos, reestude suas estratégias, dobre os joelhos ao chão, levante a cabeça, erga os punhos e parta para a luta sem medo, sem covardia e sem hesitação. Um dia você poderá repassar suas técnicas para outros iniciantes e, ao olhar para trás, poderá contemplar uma trajetória brilhante. Tão brilhante que te fará sentir profundamente grato a Deus e extremamente orgulhoso de si próprio. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jun 17

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO DEIXE O TRABALHO TE CONSUMIR, ABRA PORTAS DIANTE DE SI

PORTAS ABERTAS

ABRIR PORTAS DIANTE DE SI, TRAZ ESPERANÇAS E ALEGRIAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

É lamentável o que muitas pessoas fazem com as suas próprias vidas, prejudicando a caminhada quando, de forma voluntária e deliberada, vivem à custa de apenas um projeto que, normalmente, é o trabalho. São pessoas que primam pela qualidade do trabalho prestado, que cumprem com grande responsabilidade as tarefas que lhes são atribuídas e que revelam enorme senso de fidelidade para com um “sistema” que, no final de todas as contas, pouco, ou nada, se lixa para os executantes, justamente porque “sistemas” não possuem fundamentos humanísticos ou humanitários.

Aí é que está o nó górdio da questão: pessoas que passam a vida, como diziam nossos avós, “com o nariz voltado para o trabalho”, deixam de perceber, a seu exclusivo favor, que existem mil outras atividades, dentre as quais duas ou três podem ser exercidas de modo simultâneo, e que funcionam como verdadeiras portas, válvulas de escape, para os tão constantes momentos de crises no mundo do trabalho. Crises que são extremamente naturais e que, por assim o serem, vão e voltam sem qualquer compromisso com a nossa agenda. Quando menos esperamos, pimba! Lá vem um contratempo qualquer, que nos tira do sério. E, tirar do sério não é nada. O problema é quando tais crises, angústias ou decepções, causam profundas tristezas e até mesmo certa depressão.

Nestes momentos, que não são poucos ao longo de uma vida de trabalho, a pessoa precisa ter diante de sí outras opções de atividades que, na hora “H”, possam arrastá-la para um novo foco na existência. Nestas horas, o foco passa a ser aquela atividade com a qual sempre se identificou, mas, que, por causa dos compromissos rígidos com o trabalho, ficou um pouco de lado. No entanto, caso tais possibilidades não se façam presentes, a coisa fica muito feia, porque o ser humano, como tal, é muito suscetível ao sofrimento e é, também, frágil, enquanto pessoa distinta do “sistema”, que não tem cara, nem alma ou coração, mas, somente metas e objetivos a serem alcançados.

E, infelizmente, as metas e os objetivos definidos e cobrados pelo “sistema”, encontram em certas pessoas o eco necessário para funcionarem como membros e cérebros que o próprio “sistema” não possui. Quero dizer que, por meio de pessoas que se sujeitam a representarem estes papéis, o “sistema” age, exige, pune, massacra e, em muitos casos, destrói mesmo, aquele ou aquela que “colocou o nariz no serviço” como se fosse o foco principal da vida. E aí, no sofrimento, na angústia e nas tristezas do dia-a-dia, e sem qualquer outra opção viável, disponível e planejada, a pessoa vai definhando lenta e progressivamente, exatamente do jeito projetado pelo “sistema”, que não aceita que a criatura fique, sequer, doente, agourando mesmo o fim que, mesmo com tanta negritude, ainda proporciona alguns ganhos extras, com flores e outros adereços fúnebres.

Tudo isso pode parecer exagero, pessimismo, desilusão com a vida ou até desprezo pelo trabalho, mas, a verdade é que todos nós conhecemos pessoas que viveram ou ainda vivem situações semelhantes. Que o digam os psicólogos!

Daí ser importante que, todos, procurem ter e exercer atividades fora do ambiente do trabalho. Atividades, que não bastam ser aquelas apresentadas por algumas pessoas que, como amantes do “sistema”, tentam mostrar o lado positivo da coisa, afirmando que a simples frequência na academia ou o passeio ciclístico nas manhãs de sábados e domingos é mais do que suficiente para arejar o espírito. É conversa fiada! Não creditem nesta lorota. As atividades que fazem o contraponto ao trabalho e suas exigências via “sistema”, são as que competem diretamente com o “sistema”. Ou seja, são aquelas atividades que exigem que a pessoa desafie o raciocínio, a lógica, o planejamento e a execução de projetos próprios, cujos ganhos não retornam para o “sistema”, mas, para a própria pessoa executante. São, e devem ser mesmo, atividades que, além de oxigenarem os neurônios, ativam todos os mecanismos cerebrais, levando a pessoa a produzir sempre coisas novas e cada vez mais engenhosas.

Assim, vale aprender um novo ofício, ou uma nova profissão, ainda que por hobby; vale cursar uma faculdade com o foco diametralmente oposto ao trabalho prestado para o “sistema”; vale, também, estudar e aprender confeccionar trabalhos artesanais; aprender e desenvolver o manejo de instrumentos musicais; pintura de telas ou coisas do gênero; estudo de idiomas diversos. São inúmeras as possibilidades. Tudo vai depender do entusiasmo e da própria vocação da pessoa para o amor próprio.

Estas iniciativas são, na verdade, portas que a pessoa pode, e deve, ir abrindo ao longo da carreira profissional principal. São portas que, ainda que as referidas crises no trabalho não aconteçam, vão facilitar a longevidade da atividade cerebral e evitarão o que eu chamo de “emburrecimento fatal”, que é aquele adquirido pelo trabalhador contumaz; aquele que, “quanto mais” trabalho é jogado em cima dele, melhor e mais eficiente ele se sente, sem se dar conta de que está sendo apagado para o mundo. Um dia, quando o “sistema” não precisar mais dele, ou ele mesmo não conseguir mais atender às expectativas do “sistema” ou dar todas as respostas por ele desejadas, será lançado na cova dos leões, e seu corpo, abarrotado com aquelas taxas que um hemograma completo costuma revelar, e seu cérebro cansado e já sem condições criativas, será devorado pelo desânimo, pelo desalento e pelo arrependimento, que é o pior dos castigos impostos aos seres humanos, principalmente, quando dele nada resulta, porque as portas do tempo vão sendo fechadas atrás de cada de nós.

Não pense que escrevo este texto para levar as pessoas às lágrimas ou à revolta contra o trabalho, ou mesmo contra o “sistema”, tão amado por chefes, encarregados, diretores, sócios, gerentes, administradores e outros do mesmo galante. Não, não é meu objetivo! A razão de ser deste texto é o incentivo para que as pessoas passem a ter mais amor a si mesmas, e umas pelas outras, deixando de doar suas vidas ao “inumano sistema”, que a tudo e a todos devora da forma mais simples e rápida possível.

Meu desejo é incentivar as pessoas a buscarem outras opções de produtividade, que não o mero trabalho provedor das necessidades e dos deleites de uma vida, muitas vezes comandada apenas pela vaidade. Incentivo ao estudo e à pesquisa; à descoberta de valores até então ocultos ou absolutamente sugados pelo famigerado “sistema” que, pelas mãos dos seus escravos amantes, consome tudo de bom que a pessoa tem.

Descubra em você outras, e novas, potencialidades! Abra portas diante de si para que, nas possíveis eventualidades negativas com o mundo do trabalho, possa sentir-se senhor(a) absoluto(a) do seu destino, tirando do sistema e dos seus representantes semi-humanos, a possibilidade de aniquilar todo o seu potencial.

Não pense que eu não sei sobre o que falo. É por experiência própria, depois de quarenta anos de trabalho, e de quase já sessenta de idade, que faço todas estas exortações, porque, a partir de quando eu tomei conhecimento de tudo o que ora repasso para você, minha vida ganhou novos rumos e um renovado sentido. O fato de já poder me aposentar, e de só fazê-lo quando bem entender, revela que o “sistema”, sobre mim, já não tem mais o poder absoluto de outrora, porque hoje tenho diversas outras atividades em curso. Portas que Deus foi abrindo diante dos meus olhos e que, graças à Ele, eu tenho sabido aproveitar e conservar. Inclusive, dentre outros, ostento título universitário que me permite voo solo, quando, e se, assim o desejar justamente porque, antes do trabalho, eu já era o que sou. O que o “famigerado sistema” levou de mim, pagou bom preço, mas, o melhor de mim, continua comigo porque, graças a Deus, não fixei o preço para o “sistema”, e isto é motivo de muita alegria e de muita felicidade espiritual.

É esta felicidade que eu desejo para você também. Daí a minha insistência para que abra diante de si algumas novas e imponentes portas, ou, simplesmente, aproveite as que já estão abertas por Deus. Não entregue o melhor de si nunca, jamais, por preço algum. Turbine o seu amor próprio, sinta-se no comando da sua vida! Para a sua alegria e felicidade, abra diante de si portas verdadeiramente fecundas e produtivas, cultivando-as e curtindo-as de forma abundante, porque um dia você, certamente, se lembrará deste texto e assim como eu, poderá, também, exortar os seus contemporâneos. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jun 10

EDITORIAL DA SEMANA: SEU MELHOR AMIGO É O SEU PRÓPRIO EU, CONVERSE COM ELE

EU e EU - 2019

EU e EU: UMA RELAÇÃO CONTURBADA, MAS VERDADEIRA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Pode parecer loucura, mas não é não. Eu sempre ando com o meu Eu, que é aquele que sempre me revela as coisas como elas são de verdade, ainda que eu não goste muito ou não fique tão satisfeito o quanto poderia ficar. Por exemplo, quando paro em frente ao espelho eu me acho perfeitamente bem: bonito, elegante, esteticamente arrumado, alto, enfim, pronto para todas as lutas. Mas, o meu EU, logo, logo, trata de apequenar minhas pretensões, mostrando algumas ruguinhas, uma gordurinha aqui e outra ali, uma calvície mais avançada do que eu havia admitido, uma estatura pouco abaixo da mediana, algumas impropriedades no modo de ser e de agir e, se eu digo que não estou tão mal assim, o meu EU logo me diz que estou querendo me enganar, e procura aumentar o grau da minha visão, para que eu consiga enxergar tudo direitinho.

Essa relação do eu com o próprio EU, sempre, é muito conturbada porque, de um lado está um eu, repleto de imagens, de crenças, de vaidades e de pretensões; do outro lado, está o EU que, de fato, é quem detém a coragem, a disciplina, a honestidade e, por que não dizer, a própria sabedoria para mostrar o quão enganado está aquele eu que, na maioria das vezes tenta se iludir de verdade, na pretensão de viver e de ser um pouco mais feliz, ainda que de forma fantasiosa.

Alguém poderá dizer que isso é, mesmo, coisa de maluco. Mas, não é não. Pare para pensar em quantas vezes você já se deparou com este diálogo, entre os dois EUS, diante das mais diversas situações. Quantas vezes você quis fazer uma coisa e o seu EU disse para não fazer? Quantas vezes você pensou uma coisa acerca de si e o seu EU, honesto, sincero e verdadeiro como é, mostrou outra realidade bem diferente?

De certa forma, podemos dizer que nunca estamos sozinhos. Somos sempre dois. Um eu visível que ama e que prestigia as aparências, e outro invisível, para quem tudo é muito claro, mas, que teima em estar sempre junto, falando, cochichando, chamando a atenção, criticando, falando muitas coisas que não gostaríamos de ouvir, perturbando mesmo.

Embora pareça ser uma relação bastante conturbada, o fato é que ela é, também, bastante saudável porque, com o passar do tempo acabamos nos acostumando com a presença onipresente do nosso EU e, em estágios mais avançados, existe mesmo um diálogo aberto e franco entre ambos. É o que muitos chamam de “falar sozinho”. Na verdade não existe esta hipótese de falar sozinho. Quem fala, sempre fala com alguém, mesmo que seja absolutamente invisível para o mundo externo.

Falar com o EU, quando o compreendemos perfeitamente bem, é medida muito   salutar, proveitosa e engrandecedora, porque, como disse, quando bem o compreendemos, percebemos o quanto de nós, e sobre nós, é revelado de forma tão simples e tão verdadeira. Revelação que, no fundo, apenas nos torna pessoas muito melhores, porque lança para fora de nós aquela pretensão de sermos e de estarmos, sempre, em situação excelente e até superior às demais criaturas. Revelação que faz de nós pessoas mais comedidas, mais humildes, mais simples, mais realistas e, portanto, mais fáceis na convivência com os nossos semelhantes, aos quais julgamos até poder criticar, pois vemos neles, de forma bastante clara, todos os defeitos que existiam em nós e que, com a ajuda do nosso EU, aprendemos a corrigir lenta e progressivamente.

A relação do EU com o EU pode assumir uma condição de permanente e acalorada discussão, a ponto de a pessoa não suportar a si mesma, porque está sempre sendo confrontada com uma realidade que teima em não aceitar como verdadeira. Odeiam e repudiam a solidão absoluta, porque sentem medo do Eu interior. Daí conhecermos pessoas que parecem estar sempre de mal com a vida, sempre de mal humor. De péssimo humor! Estas pessoas, por onde quer que passem, e o que quer que façam, são criticadas pelo próprio EU que, de tanto agir, faz com que a pessoa se torne insegura demais e viva perguntando aos semelhantes coisas do tipo: como você me vê? Você acha que sou feia(ao)? Acha que estou muito gordo(a)? enxerga muitas rugas em mim? O que está achando do meu cabelo? Vivem elaborando perguntas sem pé nem cabeça, próprias de quem já ouviu as respostas, vindas do próprio EU, mas que insistem em não acreditar, e aí, uma resposta politicamente correta de uma outra pessoa, pode ajudar a inflamar ainda mais o duelo entre os dois EUS.

Entretanto, quando a relação entre eles é boa. Quando o primeiro eu aceita pacificamente todas as observações, críticas e sugestões do segundo EU, e procura se adequar às posturas e às sugestões propostas, a vida parece ganhar mais sentido e a pessoa passa a viver de forma mais feliz. Visivelmente feliz! É quando vemos a pessoa sempre de bom humor; sempre animada para tudo e disponível para todos, a qualquer momento. Pessoas que são capazes de enfrentar seus desafios com bastante naturalidade, porque sabem que, na hora “H”, farão uma breve consulta ao seu EU interior e, juntos, encontrarão respostas até então impensáveis. Acredito ter sido este o caminho escolhido e trilhado pelos grandes gênios da história. Depois de muitas batalhas interiores, a genialidade aflora e produz resultados espetaculares.

Porém, para que esta relação seja assim, boa, amistosa e feliz, é necessário ouvir a sábia voz do Eu interior, porque ele, melhor do que ninguém, é capaz de dizer as coisas mais espantosas sobre nós. Coisas que ninguém, ou quase ninguém, é capaz de nos dizer franca e abertamente. Coisas difíceis, sim, mas, verdadeiras e honestas porque, o que o nosso EU mais deseja é que sejamos felizes do jeito que somos e no meio no qual estamos inseridos. Por esta razão, ele joga na cara, fala de forma escancarada, critica sem meias palavras mas, também, apresenta as mais sábias e pertinentes soluções. É preciso ouvir o nosso EU, se quisermos viver de verdade e em verdade, porque, apenas nas aparências, uma hora a máscara cai, e aí, a decepção poderá ser grande demais para que consigamos sobreviver sem sérias sequelas. Aí estão as depressões e os suicídios a confirmarem  tese.

Minha relação com o meu Eu é tão boa e tão profícua que, há muito tempo eu o promovi à condição de Anjo porque, além de me alertar constantemente sobre o perigo das minhas inconstâncias, incoerências, insanidades, desregramentos, indisciplinas, explosões e rebeldias ele sempre me sugere caminhos sábios, seguros e promissores. Com o tempo, aprendi a respeitá-lo e a ouvi-lo com bastante frequência. Melhorei muito a partir de quando isso aconteceu porque, ao contrário do que eu acreditava, comecei a aprender muito mais sobre mim mesmo, evitando surpresas e ira ao ouvir a opinião de terceiros, e assim, pude corrigir muitos caminhos, jeitos, mal jeitos e trejeitos que estavam incrustados na minha vida e na forma como eu via, tudo e todos à minha volta, travando e obscurecendo a visão do que seja, realmente, uma existência verdadeiramente  feliz.

Ainda que este texto te pareça coisa de maluco, sugiro que reflita sobre ele e veja como andam as suas relações com o seu próprio EU. Veja se não está  fazendo ouvidos de mercador, quando ele fala tudo o que você precisa, mas não gostaria, de ouvir. Saiba que, do aperfeiçoamento desta relação entre os dois EUS, quem sai fortalecido é o “amor próprio”, cuja condição necessária para o crescimento e o fortalecimento é a confiança mútua. E, para que esta confiança se faça sempre presente, é preciso que você ouça a voz do seu EU, acredite nele e siga todas as suas intuições. Assim, você poderá ser muito mais feliz, porque aprenderá a se amar de tal forma, que assumirá quem, realmente, você é, e aceitará fazer profundas mudanças no jeito de ser e de viver, para que todos os que convivem próximos a você possam te amar também, fazendo com que a vida seja vivida em plenitude e com alegria.

Não brigue com o seu EU, porque ninguém é mais fiel, mais leal, mais amigo e mais honesto com você do que ele. Separar-se dele é optar por um terrível e angustiante abandono de si mesmo(a) porque, pode ser que ninguém te suporte tanto quanto ele, e que ninguém consiga te fazer tão feliz, também, quanto ele. Pense sobre isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jun 03

EDITORIAL DA SEMANA: VIVA BEM, ENQUANTO É POSSÍVEL

O TEMPO PASSA

ESCOLA DE TRISTEZA: NÃO HÁ VAGAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Tem muita gente matriculada na “Escola da Tristeza”, razão pela qual já não existem mais vagas. Mas, também, pudera! Trata-se daquela “escola” por onde passam as pessoas que não sabem viver, ou melhor, vivem sem saber o que significa viver. São pessoas que, normalmente, são acometidas por um destes três males: vivem reclamando de alguma coisa, vivem criticando tudo e todos à volta ou, o verdadeiro câncer, vivem torcendo para o tempo passar rápido, para poderem alcançar algum momento imaginariamente feliz.

A ciência do bem viver indica como melhor opção de vida, aquela que conduz ao máximo de proveito de cada instante vivido. Viver intensamente cada segundo, como se fosse o último! Com esta visão e nesta lógica, cada pessoa deveria ser plenamente feliz por estar viva e em combate, por mais duro e desafiante que pudesse ser. Sempre desejando que tudo demorasse mais um pouco e não, o contrário, tamanha a alegria de viver.

Mas, não! As pessoas que integram o primeiro grupo vivem reclamando. Reclamam do vizinho, do marido, da companheira, dos filhos, do colegas, dos chefes, do sistema, do cachorro, do tempo frio ou quente, do verão insuportável ou do inverno rigoroso. Se chove, a pessoa reclama da chuva; se não chove, a pessoa reclama do clima excessivamente seco. Reclama do trânsito, do custo de vida, do guarda da esquina, ou da ausência dele. Enfim, nada parece estar bom para este tipo de pessoa. Não chegam a ser chatas, porque não reclamam o tempo todo, sem parar. Em cada conversa, elas reservam um espaço valioso para as tais reclamações. Isso, quando não reclamam da saúde, própria ou de algum familiar. E, quando não têm mais do que reclamar, trazem aquela triste notícia: “sabe quem morreu?”

Para estas pessoas a vida parece não ter nenhuma graça. É como se vivessem arrastando duas enormes bolas de ferro grudadas em cada um dos pés. Passam a vida se arrastando, como se condenadas fossem. Vivem, porque não tem outro jeito. E, de tanta insatisfação e de tanto descontentamento, bebem em excesso, fumam sem parar e, quando querem puxar um assunto novo, começam criticando o governo.

Um outro grupo de pessoas, já não é tão afeito a reclamações. No entanto, passam o tempo a confeccionar críticas. Criticam o sistema político, criticam a economia, a justiça, o salário de quem ganha pouco e o de quem ganha muito, criticam a nova rodovia que está sendo construída, assim como criticam o lixo fora dos devidos lugares. Culpam o Prefeito pela chuva excessiva que cai e inunda ruas e praças; culpam os políticos por tudo de ruim que acontece no país. Criticam os bandidos, assim como a polícia também. Criticam a justiça que manda prender, assim como, também, a que manda soltar. Enfim, para este tipo de pessoa, tudo tem um culpado. Nunca, ela própria!

Para um terceiro grupo, a vida não está boa porque ainda não chegou o momento certo. O momento certo, para uns, é o final da semana, começando na sexta-feira à noite, no happpy hour e invadindo o sábado e o domingo e, se tiver um feriadão, melhor ainda. Vai ser de arrasar! Para outros, a vida só é boa quando sai o pagamento do salário. É dia de alguma alegria e de um pouco de tranquilidade. Por esta razão, passam o mês, contando os dias que faltam para a data premiada. Para outros, ainda, o momento bom da vida é só quando chegam as férias. Desta forma, passam o ano torcendo para o período abençoado, quando, parece, todos os problemas saem de cena. Por fim, existem aqueles para os quais tudo só será verdadeiramente bom, quando puderem estar aposentados. Assim, passam a vida toda aguardando o momento que, para eles, trará de vez a felicidade tão desejada. Qualquer mudança, ou ameaça de mudança, nas leis, causa verdadeiro pânico e muitos até enfartam antes da hora.

Não se trata de fazer “críticas” a estes três grupos de pessoas. Afinal, são seres humanos, como nós, e cada um tem seu modo próprio de enxergar a vida. No entanto, trata-se de constatar o quanto de vida, de essência de vida, é perdida por tais pessoas, pelo simples fato de não aprenderem a lição do dia: a vida deve ser vivida, segundo a segundo, como se fosse um delicioso sorvete a ser saboreado com gosto, prazer e satisfação.

As pessoas que compõem estes três grupos, parecem estar matriculadas na “Escola da Tristeza”, porque não sabem fazer a leitura necessária dos instantes, horas, dias, meses e anos que passam por aqui. Não compreendem a linguagem da alegria do simples fato de estarem vivas e, na esmagadora maioria, em pleno gozo da liberdade. Não aprenderam que a contagem do tempo deve servir para alimentar expectativas, sim, sem abrir mão do bem que já chegou, porque, quando estamos esperando pelo tempo futuro, estamos vivendo um presente que, rapidamente, torna-se passado, no qual a vida não pode ser revivida

Ser feliz, é claro, é o desejo de todos os seres humanos. Entretanto, existem métodos e caminhos para tanto. O Professor e Filósofo Paulista, Clóvis de Barros Filho, ao comentar o assunto, fala sobre quatro fontes que, somadas, trazem dicas bastante importantes para uma vida realmente feliz, independentemente de eventos variados.

O Professor Clóvis fala, por primeiro, sobre o ensinamento de Aristóteles, para quem, a melhor vida, a vida boa, só existe para aquele que já encontrou o seu verdadeiro espaço. Aquele que já encontrou o seu espaço no cosmos. Aquele, por exemplo, que exerce uma atividade na qual, independentemente do ganho financeiro, se sente plenamente realizado como pessoa e como profissional e realiza ao mesmo tempo todos os seus projetos, individuais e coletivos. Depois, cita Jesus Cristo, para quem a vida só é boa e feliz, quando é vivida em função do outro. Fazer o outro ser tão feliz quanto desejamos para nós mesmos. Fazer pelo outro aquilo que gostaríamos que ele fizesse por nós. Daí, a alegria permanente de viver, com prazer e satisfação plenos. Em seguida, o filósofo traz o ensinamento de Baruch Spinoza, para quem a vida boa é aquela proveniente da potência advinda da energia positiva que invade o ser humano, potência que ele denomina como alegria. Quanto mais potente o ser humano se sente, vencedor, criador, superador de desafios, mais alegrias ele tem e, portanto, mais feliz ele é. E essa alegria nasce da percepção de que ele, ser humano, tem potência para viver, para resolver seus problemas, para vencer todos os obstáculos, para superar todos os desafios. Potência positiva é igual a alegria que, por sua vez, é igual a vida plena e boa. Por último, ele traz o pensamento de Jean Jacques Rousseau, para quem a vida boa, a que proporciona a verdadeira felicidade, é aquela que pressupõe o uso adequado da liberdade, fazendo as escolhas certas para as próprias vidas. Por esta razão, Rousseau vai dizer que a vida do homem não tem nada a ver com o restante da natureza porque tudo, na natureza, é do jeito que é porque só pode ser daquele jeito: o vento venta porque não tem outra coisa para fazer; a chuva chove porque não pode ser diferente; a maré mareia porque não pode retroceder no mar, e assim sucessivamente. Mas, com o ser humano não é assim que acontece. Com os seres humanos, tudo pode ser diferente, desde que assim o queiram e que assim o façam ser. A alegria de fazer escolhas certas, portanto, traz a potência sobre a qual falou Spinoza e, quando a escolha é em função do outro, então, vive-se segundo a lição de Jesus e, por fim, se tudo isso ocorre no espaço que é o de cada um no cosmos, fecha-se com Aristóteles e assim, a vida é boa, e vale a pena ser vivida sempre e independente de outros eventos.

Vivida, sim, aqui e agora. Não a partir de sexta-feira à noite, no reduzido final de semana, depois de cinco longos dias de trabalho; não, no dia do pagamento, depois de trinta sofridos e angustiados dias de trabalho; não nas férias, depois de doze meses (ou mais) de intensa labuta, ou, ainda, depois de quarenta anos de lutas e mais lutas.

A vida é boa, quando vivida intensamente a cada respiração, quando sentimos o oxigênio potencializar os nossos pulmões, e quando percebemos que expelimos o ar impuro para fora de nosso organismo.

Portanto, se você está matriculado na “Escola da Tristeza”, saia já de lá. Lá você não viverá. Apenas, verá passarem os momentos, na vã expectativa de que a felicidade virá depois, depois e depois. E, esse depois, quando chegar, poderá não te encontrar mais por aqui.

É sempre bom recordar a historieta daquela pobre senhora, em meio a uma feira em Calcutá, diante de centenas de pessoas e de outro tanto de barracas, com muita sujeira, além de cães e outros animais perambulando por entre as pessoas, sem falar  sobre o forte cheiro a imperar naquele lugar mágico. Pois bem, a pobre mulher para, de repente, e põe-se a olhar para o chão, como se procurasse por algo perdido.  Rapidamente algumas pessoas se aglomeram em volta dela e ficam olhando também, até que um rapaz, curioso, pergunta: “a senhora perdeu alguma coisa?” “Perdi, sim”, responde a mulher. “Perdi uma agulha”. “Ah, minha senhora, como espera encontrar uma agulha em um lugar com este?” E todas as pessoas começam a ir embora, quando a senhora diz em tom mais elevado: “é uma agulha de ouro”. Neste momento, todos voltam e recomeçam a procura. Depois de algum tempo, o mesmo rapaz pergunta: “tem certeza de que perdeu aqui, nesta rua?” “Não”, diz ela, “perdi na minha casa”. “E onde fica a sua casa?”, pergunta o rapaz. “Fica a três quarteirões daqui”. “Ah, minha senhora, por que a senhora está procurando aqui, então?” E a pobre mulher, passivamente responde: “É a mesma coisa que vocês fazem com a felicidade. Ela mora dentro de vocês, mas vocês teimam em procurá-la fora, e distante”.

A vida boa está dentro de cada um de nós, mas, é claro: não vivemos alegres e felizes o tempo todo porque, senão, como diz outro Filósofo – Mário Sérgio Cortella – ficaríamos enjoados de tanta felicidade, porque tudo o que é demais enjoa e perde a graça. Assim, é bom saber que existe dentro de nós uma vida útil e boa de ser vivida. Porém, precisamos resgatá-la a cada momento, a cada dia, mês e ano. Ora falhamos, ora somos bem sucedidos. E é aí que está a grande jogada. Quando nos percebemos felizes e alegres, não queremos que o momento termine nunca. Não gostaríamos que aquele instante terminasse jamais. Mas ele termina e, em seguida, partimos em busca de outros tantos momentos e assim caminhamos em busca e na vivência destes pequenos, mas, significativos momentos, sem ficarmos esperando tais ou quais fatos acontecerem para então, e somente então, sermos um pouco felizes e um pouco alegres. Esta é a lição aprendida na Escola da Sabedoria, cujo Diretor nos assegura, sempre, os bons resultados e uma infalível aprovação final.

É preciso sair da “Escola da Tristeza” para então, e somente então, poder ter a vida boa, alegre, completa e abundante com a qual sempre sonhou, acreditando, equivocadamente, que ela só viria depois de algum tempo e de atendidas determinadas condições. É preciso entender que a vida, como dom que recebemos do Criador, é plena e completa, pronta para nos fazer felizes em qualquer lugar, em qualquer situação e de forma absolutamente incondicional.

Reflita sobre este texto e examine-se a si próprio(a) e, se for o caso, matricule-se já na verdadeira escola, que é a da Sabedoria, onde a vida jorra em abundância. Faça isso e busque, dentro de si, a felicidade que já está lá, aguardando para ser usada sem limites. Faça isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mai 13

EDITORIAL DA SEMANA: DECIDIR, NEM SEMPRE É TRANQUILO COMO PARECE

POR ONDE SEGUIR

A ANGUSTIA TE ACOMPANHARÁ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Recentemente precisei fazer um trabalho, do qual resultou a apresentação de uma palestra sobre a Ética Social e Profissional e, por conta disso, tive que fazer alguns estudos e algumas pesquisas pontuais. De tudo o que li, vi e ouvi, uma frase do filósofo e professor de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), Clóvis de Barros Filho, não só chamou a minha atenção, como, também, ficou gravada na minha mente e, em muito pouco tempo pude sentir, na própria pele, a veracidade da mesma: “A angustia te acompanhará”, diz o professor Clóvis, quase como se recitasse um mantra.

O contexto, certamente, é mais do que conhecido por todos e por cada um de nós, pois ganha vida todas as vezes em que estamos diante do dilema da escolha. Escolha que, necessariamente, temos de fazer a cada esquina, a cada nova situação surgida, a cada desafio a ser enfrentado, nos quais somos colocados diante de possibilidades tais que, em muitos casos, preferiríamos não ter liberdade. E aí, vem uma questão maior: a liberdade para fazer escolhas. É justamente esta liberdade, que nos empareda e nos angustia todas as vezes que precisamos fazer escolhas.

É claro, pois parece óbvio, que para fazê-las, precisamos atribuir valores a cada uma das possibilidades apresentadas e, para tanto, temos de adotar certos, e certeiros, critérios, pois, sem eles, ficamos sem os necessários e imprescindíveis parâmetros, a começar por uma inevitável hierarquização de todos os valores envolvidos na trama. Dentre os critérios a serem adotados, está o de contextualizar o problema: por exemplo, existem situações nas quais o valor maior é o sigilo, e não, a transparência – como ocorre nos negócios relacionados com o mercado. Em outras oportunidades, o valor mais relevante, é o silêncio, e não, a euforia de uma escola de samba (dá para imaginar um silêncio total na avenida do samba, em pleno domingo de carnaval?); n’outras situações o valor maior é a disciplina e o respeito; em outras, é a qualidade a qualquer preço; ou, ainda, a necessidade de determinado bem, e por aí vai.

De repente, na sua vida, você deve escolher entre a compra um carro novo, ainda que pagando à vista e com um bom desconto, ou usar o dinheiro para dar entrada na aquisição de um imóvel próprio, ainda que se envolvendo em um financiamento prolongado. Mas, o que tem maior valor quando você não possui a sua casa própria? Então, você olha para aquele carro dos seus sonhos, na cor e com o design sempre buscado, com todos os acessórios que você sempre idealizou, o preço é bom, o vendedor apresenta proposta irrecusável e, pior, aquela quantia, está absolutamente livre e disponível na sua conta corrente. No entanto, surge a proposta para a compra de um imóvel e, com aquela importância depositada na sua conta corrente, você pode dar uma boa entrada, como sinal, para a aquisição de um apartamento amplo, bem situado e do jeito que você e sua família precisam, pois, conforme dito, vocês não possuem casa própria! Seu coração bate mais forte. Sua mulher e seus filhos quase imploram para que você compre o carro. E você fica diante de um dilema angustiante. Nesta hora, você certamente se lembrará do filósofo: “a angustia te acompanhará”.

No entanto, o dilema entre o carro ou o imóvel é apenas um exemplo. Quantas e quantas vezes você, eu e todos nós, somos colocados diante de dilemas bastante semelhantes? Dilemas advindos, justamente, da liberdade que temos para fazer escolhas. Mas, ninguém pode fazê-las por nós porque, se abrirmos mão de escolher, estamos abrindo mão, também, da nossa liberdade. E aí, conseguimos enxergar pela primeira vez na vida, o preço da liberdade que apenas nós, humanos, temos.

Os animais são felizes por esta razão: não precisam fazer escolhas. Vivem do jeito que vivem, porque é a única forma de têm para viver desde sempre. Este tipo de liberdade, para eles, é absolutamente irrelevante. Por esta razão, não têm dilemas e, por conseguinte, não passam pelas angústias pelas quais nós, humanos, sempre passamos.

Nossa liberdade, no entanto, vem casada com a preocupação, com o desgaste, com o medo, com a angustia, com as perdas e com os ganhos e demanda, acima de tudo, a aquisição de um verdadeiro arsenal de estratégias, das quais nos valemos para, a cada situação, termos condições de, mesmo em meio a todos os custos, fazermos escolhas que podem ser acertadas, ou não.

Trata-se de processo que, à primeira vista, parece simples. Afinal, a toda hora a gente está fazendo escolhas diversas, e ninguém fica angustiado a todo instante por causa disso. A má notícia, porém, não são as escolhas miúdas que fazemos no dia-a-dia, as escolhas do varejo. A má notícia, é que precisamos sempre, e inevitavelmente, fazer um destes três tipos de escolhas: a escolha entre o bom e o bom; a escolha entre o bom e o ruim; e, a pior de todas, a escolha entre o ruim e o ruim.

A primeira escolha é mamão com mel: na escolha entre o bom e o bom, você vai escolher um bom e vai descartar o outro. A segunda escolha, aparentemente, também é tranquila: você ficará com o bom e descartará o ruim. Digo aparentemente porque, dependendo das circunstâncias, você é levado, com o coração sangrando, a optar pelo inverso, escolhendo o ruim e jogando o bom na lata de lixo. A terceira escolha, no entanto, é a mais dramática entre todas porque, aqui, você ficará entre dois ruins e, ao descartar um, obviamente, ficará com o outro, que é ruim também. Percebe o dilema? Percebe a angustia na hora de tomar uma decisão séria na sua vida?

E o mais chocante é que o professor Clóvis de Barros Filho traz o problema, e ele próprio diz com todas as letras não poder te ajudar, afirmando categoricamente que: “este abacaxi é você quem tem que descascar, não eu!”

O que não deixa de ser verdade. São os abacaxis da vida, que somos obrigados a descascar todos os dias querendo ou não, gostando ou não, sabendo ou não.

Daí resulta a importância de abastecermos os nossos espíritos com valores supra materiais, tais como a serenidade, a sabedoria, o discernimento, a fé, o equilíbrio, a capacidade, enfim, de fazer escolhas acertadas para a nossa vida. Escolhas que, não raro, afetam diretamente as pessoas que conosco convivem ou que dependem de nós para continuarem suas caminhadas.

A angustia te acompanhará! Este parece ser um mantra cuja veracidade pode ser comprovada dia-a-dia, durante toda a nossa existência ativa. Merece uma reflexão. Uma reflexão que provoca um sentimento, não de impotência, mas, de igualdade, na medida em que atinge a todos os seres humanos, de forma indiscriminada. Então, reflita e relembre dos diversos momentos nos quais você passou pela angustia de precisar tomar decisões difíceis, em razão das possibilidades que tinha diante de si. Alguns te aconselharam a refletir melhor; outros deram algumas opiniões que você, ao final, acabou descartando. Outros, ainda, sugeriram que você desistisse de tudo ou que recuasse e adiasse a decisão. Porém, no final de todas as contas, coube a você decidir, angustiado ou não. Mas, faz parte deste interessante jogo da vida, cuja próxima jogada será feita por você. Eu já fiz a minha. Escolha a peça a ser movida. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mai 06

EDITORIAL DA SEMANA: AO FERIR O PASTOR, TODO O REBANHO SANGRA

O PAPA E O SEU REBANHO

EDITORIAL DA SEMANA: O PAPA E O SEU REBANHO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Acusar alguém de ser herege, é uma coisa séria. Acusar um Papa de heresia, é coisa grave. Acusar o Papa Francisco, de heresia, é muito mais grave. E, coisa gravíssima, é quando tais acusações partem de sacerdotes e teólogos da própria Igreja Católica. Aqui, é preciso separar uns e outros, porque, os primeiros fazem voto de obediência à hierarquia eclesial, no topo da qual figura o próprio Romano Pontífice.

Fossem apenas, e simplesmente, teólogos, a fazerem tal acusação, embora grave, a situação seria facilmente contornada, em razão da “liberdade” de que gozam os leigos iniciados na teologia e na eclesiologia, quando, no máximo, poderiam ter seus argumentos enfrentados no meio acadêmico culminando, quando muito, numa descredencialização junto ao rebanho.

Entretanto, quando a acusação de heresia parte justamente daqueles que, em primeiro lugar, devem respeito e obediência ao Pontífice, é de se cobrar severidade na administração da necessária reprimenda, em razão da hierarquia eclesial. Tal acusação, se fosse, ou se for, o caso, deveria partir daqueles que, verdadeiramente, representam os Apóstolos de Cristo: os Bispos. E, a partir deles, ser encaminhada às instâncias superiores. Ah, mas é isso que os sacerdotes estão fazendo: encaminhando suas queixas aos Bispos. Não deixa de ser uma afronta direta ao Sumo Pontífice.

Chama, porém a atenção, mais do que a ousadia do enfrentamento, o fundamento utilizado pelos denunciantes, para tentarem cravar no Papa a pecha de herege: ser condescendente com seres humanos, filhos de Deus e irmãos de Jesus, que, em razão da condição matrimonial (divorciados e recasados) querem, mas não podem, se aproximar da mesa eucarística, onde, junto com Jesus, sentaram-se homens absolutamente comuns e, inclusive, o traidor Judas Iscariotes, e, também, por ser afetuoso e, na boca dos acusadores, acolhedor de outros tantos filhos e irmãos amados por Deus e por Jesus, que optaram pela homossexualidade como condição de vida.  

Na visão, digamos, tosca, destes sacerdotes, o Papa, que para eles e para os católicos representa a figura do próprio Jesus aqui na terra, deveria ser e agir de modo diametralmente oposto Daquele a quem representa: Jesus. Acreditam estes “profetas do apocalipse”, que Jesus, se ainda caminhasse fisicamente por este mundo, viraria o rosto para o lado, todas as vezes que se deparasse com homossexuais, ou se levantaria da mesa de refeições, todas as vezes que algum divorciado recasado tentasse tomar alimento junto dele e dos seus inúmeros e prediletos amigos, como se fosse verdade que Jesus tinha amigos prediletos.

Ora, parece haver certa inversão de valores em toda esta história mal começada e que, com toda certeza, será mal terminada: a mesa e os alimentos foram disponibilizados, justamente, para os que têm fome e sede. No caso, para todos os pecadores, aí incluídos, certamente, aqueles aos quais o Papa estende sua santa mão. Por esta lógica, parece que alguém, então, precisa sair da mesa para dar lugar, e não o contrário. Precisam sair da mesa todos os que já estão saciados, e não, como sugerem, os famintos e necessitados do alimento que cura e traz a salvação. Precisam sair da mesa os que ofendem grosseira, e despudoradamente, o representante oficial de Jesus, o Papa que, mesmo sendo um pecador como qualquer outro homem, tem procurado ajuntar em torno de si, e do próprio Cristo, todas as ovelhas do rebanho, inclusive, as feridas e as marcadas por todo tipo de sofrimento, de agressões, de violências e de discriminações nos mais variados graus.

Eu não tive acesso aos nomes dos acusadores do Papa, mas, penso comigo, deveriam ter seus nomes revelados, principalmente, os sacerdotes, para que todos os fieis de suas paróquias conhecessem bem aqueles que querem tomar assento ao lado do Filho de Deus, expulsando irmãos pobres, carentes, sofridos e, em muitos casos, cruelmente perseguidos em suas pátrias-mães. Estes sacerdotes precisam ser conhecidos, para que todos saibamos de quem devemos fugir. Devemos fugir dos lobos travestidos de cordeiros, e não, do Pastor, acusado de ser o verdadeiro lobo.

A história de vida do Papa Francisco contrasta com as de muitos de seus colegas de batina, se é que se pode falar desta forma, sem desrespeitar o Sumo Pontífice. Contrasta, porque o Santo Padre, quando ainda era um simples sacerdote na Argentina, já tinha o olhar totalmente voltado para as mesmas classes com as quais, hoje, tanto se identifica e das quais procura se aproximar cada vez mais, em nome e a exemplo do que, certamente, faria o próprio Jesus.

O Papa Francisco, ao contrário dos seus dois últimos antecessores, dentre os quais, um, inclusive, já foi declarado santo, caminha por entre o rebanho de Cristo com a mesma naturalidade com a qual Jesus caminhou: roupas e postura simples; braços abertos e acolhedores; sorriso e gestos de amizade, de compreensão e de misericórdia; abraçando e beijando crianças, jovens, adultos e idosos. Mas, é de se perguntar: de que adiantaria o Papa agir desta forma, nas ruas e praças do mundo e, no altar onde o Corpo e o Sangue de Cristo são adorados, afastar, justamente, os pecadores com maiores e mais profundas marcas em suas almas e em seus espíritos? Não chega a parecer-nos, que algumas batinas bonitas, finas e elegantes podem ser facilmente comparadas aos sepulcros caiados aos quais Jesus fez referência, quando enfrenta alguns  escribas e fariseus mais recalcitrantes (Mt 23, 27-28)? Não estariam, as referidas vestimentas, escondendo dentro de si todo tipo de podridão e de vergonha? Não seriam estes acusadores, semelhantes aos nosso primeiros pais, no quesito obediência?

Bem, a mim, e acredito, à maioria dos católicos, restam sempre a esperança e a confiança na presença infalível do Espírito Santo no centro da Igreja, a qual já não existiria mais, não fosse esta doce, forte e flamejante presença. Presença que não se arvora em lançar no inferno os indesejáveis, mas que, acima de qualquer outro evento, protege o rebanho e o Pastor, sem exclusões e sem discriminações.

Penso ser nosso o papel de orar a Deus e de pedir a presença com, ainda, maior intensidade, do Santo Espírito, para que Pastor e rebanho estejam a salvo das armadilhas preparadas, e incansavelmente urdidas, por estes lobos vorazes que, com vestimentas límpidas e imponentes, surgem de vez em quando, prontos para fazerem a carnificina tão desejada e tão acalentada pelo adversário número um de Deus, aquele mesmo que, lá no Jardim do Éden, induziu os primeiros seres humanos à desobediência descarada e desafiadora, levando-os, inexoravelmente, à expulsão das terras do Senhor.

Fosse o Sumo Pontífice acusado de qualquer outro crime, nós, cá de baixo, não teríamos muito o que falar. Mas, acusá-lo, justamente, de ser piedoso, misericordioso, acolhedor e imitador do Cristo Jesus, é algo que fere a nossa inteligência e a nossa ética, não nos permitindo ficar calados, quando alguém, injustamente, é levado perante o sinédrio do nosso tempo, para ser, de algum modo, crucificado mais uma vez.

Não seja omisso(a), não fuja da responsabilidade de assemelhar-se ao próprio Cristo. Não aceite passivamente, que um Papa seja tão escarnecido como tem sido ultimamente, o Papa Francisco.

Ao ler este texto, vá além da reflexão, caminhe mais adiante, examine sua memória e procure lembrar de quantas pessoas divorciadas e recasadas você conhece, e que desejam ardentemente receber o Corpo e o Sangue de Cristo; pense em quantos homossexuais de verdade, que você conhece, e que, vivendo uma vida digna e honesta, acalentam poder receber o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor e, assim, serem, também, recebidos pelo Filho do Deus Altíssimo. Depois, caso julgue oportuno, faça sua oração e rogue a Deus para que envie o Espírito Santo, para proteger o Pastor e todo o rebanho, tão covardemente ameaçados e tão insistentemente atacados, não por seus pecados cotidianos, mas, justamente, por tentarem imitar Jesus, o homem de Nazaré. Seja feliz, e boa sorte!

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*Por Luiz Antonio de Moura, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 18

EDITORIAL DA SEMANA: TODA ESCOLHA TRAZ CONSEQUÊNCIAS

FAZER ESCOLHAS

OS FRUTOS QUE COLHEMOS NASCEM DAS ESCOLHAS QUE FAZEMOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quantos prantos e lamentos  chegam a todo instante aos ouvidos de Deus, com súplicas e clamores por socorro, além das previsíveis blasfêmias e heresias. Tudo, em decorrência das dores e dos dissabores enfrentados por todos e por cada um de nós no longo curso da vida. Abre-se aqui um parêntesis para falar sobre esta questão do ”longo curso da vida”. Só se valem desta expressão os que sofrem e que esperam a vinda do Senhor, como a solução final para todos os problemas, a cura para todas as formas de enfermidades e a justiça para todos, acima de tudo. Os que que vivem no prazer, na felicidade mundana e no regozijo das benesses de tudo de bom e de melhor que o mundo pode oferecer a um vivente, sempre acham que a vida é curta demais e que deveria haver um acréscimo, todas as vezes que o fim estivesse próximo.

Bem, fechado o parêntesis, aos ouvidos da divindade chegam todos os nossos clamores, em face de tudo o que sofremos aqui neste plano terreno. Obviamente que Deus não pode ser responsabilizado por nada de mal que ocorre debaixo do sol, haja vista ser impossível para Deus praticar o mal e que, por Ele, nós estaríamos no paraíso, usufruindo de tudo e, inclusive, da vida plena e sem fim. Entretanto, como espécie, o que fizemos? Fizemos uma simples escolha.

Escolha. Eis a palavra que define tudo sobre nós. Sempre, depois que nascemos, fazemos escolhas. É o sinal mais evidente e identificador do livre arbítrio com o qual somos dotados por Deus que, apesar de tudo o que nos ensina, sempre conhece o lado para o qual pendemos. Não em vão, já no Paraíso Deus não diz que “se” o homem comer da árvore proibida morrerá, mas, afirma categoricamente que “O dia em que dela comerdes, certamente morrereis”, porque Ele já sabia o final daquela novela. Pois bem, escolha é sempre a opção que fazemos, ou até mesmo deixamos de fazer, diante das diversas possibilidades que nos são apresentadas. É preciso saber, no entanto, que as escolhas trazem embutidas, de forma inevitável, consequências, e é aí que reside o nó górdio da questão. As escolhas que fazemos nem sempre se nos apresentam de forma completa e transparente, ou seja, praticamente nunca as escolhas revelam as contraindicações, como nas bulas dos remédios, que avisam sobre os riscos e os perigos que podem ser enfrentados pelos pacientes,  depois da ingestão daquele produto.

A vida não tem bula, e justamente por esta razão, nossas escolhas são feitas, normalmente, em razão dos impulsos que nos movem: compramos porque queremos; vendemos porque julgamos ser bom; mudamos de emprego porque achamos mais oportuno e vantajoso; trocamos de profissão porque estamos convictos de termos encontrado a verdadeira vocação; divorciamo-nos porque encontramos alguém que vai nos fazer mais felizes, ou simplesmente porque estamos cansados do outro. Enfim, são inúmeras as possibilidades de escolhas às quais somos convidados a fazer todos os dias, ao longo da nossa existência.

Entretanto, todas e cada uma das escolhas que fazemos trazem, a curtíssimo, curto, médio e longo prazos consequências para as quais quase nunca fomos ou estamos preparados. Daí as decepções, os arrependimentos, os sofrimentos, as angústias e as amarguras que caem sobre as nossas cabeças como se fossem bolas de ferro que, de tão pesadas, fazem com que passemos a sentir o chão afundando sob os nossos pés. Aí, nestas horas, bradamos a Deus! choramos, oramos, erguemos os braços na direção do céu falamos impropérios, sentimo-nos totalmente abandonados à própria sorte, outros até acham que estão sendo colocados à prova por Deus e tem, ainda, os que acreditam estarem sendo severamente castigados por algum mal feito no passado.

Dificilmente, no entanto, alguém admite estar sofrendo as consequências decorrentes de escolhas que foram feitas em dado momento. Escolhas que, na ocasião, pareciam acertadas e cheias de promessas sedutoras. Escolhas que propiciavam certas vantagens ou lucros acima do normal, mas que a pessoa, naquele instante, sentia-se premiada pelos céus com aquilo que lhes parecia verdadeira dádiva. O que ontem parecia verdadeira benção e premiação, hoje parece maldição e castigo!

E tais escolhas são feitas de forma individual ou coletiva. Individual, quando os beneficiários diretos somos nós mesmos; coletiva, quando escolhemos algo ou alguém para atuar, direta ou indiretamente, sobre toda a sociedade como, por exemplo, na eleição de um governante ou de um parlamentar. Muita gente acredita não ser culpada por nada de mal que ocorre na sociedade como um todo, mas, o engano é abissal, haja vista que a escolha direta ou mesmo a omissão na hora de escolher, faz de nós participantes ativos de tudo o que está em jogo porque, sempre somos convidados a fazer escolhas e, se fazemos más ou boas escolhas, ou mesmo se preferimos a omissão, estamos vinculados aos resultados e às consequências que daí advirão. Enfim, não tem muito jeito, agiu ou se omitiu, tem responsabilidade sobre as consequências.

Isso tudo para, no fim, afirmar-se que o modelo de família adotado pela ampla maioria da sociedade ocidental está, deveras, equivocado, porque parte do pressuposto de que somos absolutamente livres para decidir o que fazer com nossas vidas. Livres e imunes a uma ética e a uma moral para as quais muitos, e já há muito tempo, decidiram virar as costas por entendê-las objetos de manobras das religiões. Trata-se de escolha legitimamente feita por parcela considerável da sociedade humana mas que, como já o afirmamos, traz embutidas todas as consequências que, todos os dias, a mídia estampa diante dos nossos olhos, à exaustão, como a jogar no rosto de cada um de nós a culpa pelos resultados, agora, colhidos.

A extrema violência demonstrada por delinquentes de todos os matizes, o desamor e o desrespeito para com tudo e todos, a falta de apreço pelas instituições, de um modo geral, e pelos templos sagrados e religiosos, de modo especial, assim como o ódio racial e homofóbico, o desprezo aos mais velhos e desamparados, tudo isso é fruto direto da árvore plantada sob um modelo de família absolutamente adulterado e corrompido. Um modelo que, em nome da ampla liberdade de escolha foi, e ainda está sendo, alimentado por um tipo de adubo que, traz prazer, realização e até satisfação momentâneos, mas que, também, enrijece o coração e o espírito, gerando embriões que, quando crescem, são capazes de coisas inacreditáveis, como as que temos visto no noticiário do país e do mundo.

Nossos avós falavam sobre Deus; nossos pais falavam sobre Deus; nós quase não falamos sobre Deus. Nossos jovens, e mesmo muitos adultos, não sabem quem é Deus! E quando não se conhece Deus, de onde provém toda forma de vida, de onde provém um modo de vida condizente com a santidade e com a perfeição, perde-se a noção dos princípios e dos valores que moldam, justamente, a vida pacífica em sociedade. Resultado: tudo o que o noticiário nacional e internacional têm disponibilizado para nós, todos os dias e todas as noite.

Portanto, não devemos permanecer nesta profunda ignorância, acreditando ou querendo acreditar que o mal que cai sobre nós e sobre esta geração, decorre de provação, de castigo, do abandono à própria sorte ou, ainda, da chegada do final dos tempos, como muitos gostam de afirmar, mas, que decorre, sim, diretamente das escolhas que temos feito ou apoiado, ou, ainda, das nossas omissões porque, até o ato de permanecer inerte é uma escolha que tem suas consequências.

Devemos reservar alguns instantes da nossa tumultuada e agitada vida para refletir sobre as escolhas que temos, ou não, feito, avaliando acerca de cada uma, as consequências visíveis e mesmo as previsíveis e então, e somente então, haveremos de fazer o necessário mea culpa, livrando Deus de uma responsabilidade que Ele, definitivamente, não possui.

A proposta, como sempre, é para uma profunda reflexão e tirada de conclusões. Conclusões que podem mudar o curso de algumas vidas e, quiçá, de toda uma coletividade. Faça isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritual, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 11

EDITORIAL DA SEMANA: DIGA NÃO À HOMOFOBIA E À TRANSFOBIA

HOMOFOBIA - CRIMINALIZAR OU NÃO

HOMOFOBIA: UM CRIME CONTRA A PESSOA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Não é segredo para ninguém a tramitação, no Supremo Tribunal Federal, da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26, mediante a qual a Corte Suprema do País é provocada a decidir acerca da criminalização, ou não, da homofobia, caracterizada pelo preconceito contra a comunidade LGBT (Gays, Lésbicas, e Transgêneros).

A ADO decorre do fato de o Congresso Nacional ainda não ter legislado sobre a matéria, no sentido de criar norma penal protetiva de parcela significativa da sociedade, o que causa surpresa e certo espanto, haja vista a proteção legal de que gozam outras minorias.

O julgamento está suspenso, até designação de nova sessão pelo Presidente da Corte tendo, no entanto, sido proferidos quatro votos favoráveis à criminalização do ato homofóbico. Votos da lavra dos eminentes Ministros Celso de Mello, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, sendo os dois primeiros relatores da ADO 26 e do Mandado de Injunção 4733, respectivamente.

Dentre os que acompanham os votos do relatores, merece destaque o seguinte trecho do voto do Ministro Alexandre de Moraes, ao afirmar que: “Passados 30 anos da Constituição Federal, todas as determinações constitucionais específicas para proteção de grupos considerados vulneráveis foram regulamentadas com a criação de tipos penais específicos. No entanto, apesar de dezenas de projetos de lei, só a discriminação homofóbica e transfóbica permanece sem nenhum tipo de aprovação. O único caso em que o próprio Congresso não seguiu o seu padrão”[1].

A questão, certamente, será ainda objeto de acirrado debate no Plenário do STF, até porque existem, inacreditavelmente, vozes graúdas que defendem totalmente o oposto do que já decidiram os quatro primeiros Ministros. Diz-se “inacreditavelmente”, porque é de causar espanto e temor que agentes públicos graduados na República defendam abertamente que a homofobia e/ou a transfobia não merece qualquer especial atenção por parte do legislador que, por sinal, não está nem aí, mesmo, para o fato real, tanto, que é preciso que a Corte Suprema chame à responsabilidade aqueles cuja única competência é justamente a de legislar.

Parece ser impensável, nos dias de hoje, que atos praticados contra pessoas e grupos minoritários, possam ser admitidos no âmbito da normalidade, como se fossem decorrência ou mesmo consequência de uma condição de vida que a pessoa, de forma livre a autônoma, assume perante o corpo social. Atos praticados, sempre de forma rude e covarde, contra afrodescendentes, contra idosos, contra crianças e adolescentes e/ou contra deficientes físicos, que já contam com uma legislação penalmente impositiva, não podem ser dissociados das mesmas manifestações praticadas contra o amplo espectro da homossexualidade. Vale dizer: atos que importem em qualquer forma de discriminação, com exclusão ou mesmo com o uso da violência, em razão da opção de vida da pessoa, não podem, de forma alguma, passar imunes perante a dureza da lei. Afinal, o que é a lei senão a forma encontrada para normatizar e equilibrar a vida em sociedade? Que tipo de sociedade teremos se, como pretendem alguns, certas formas de discriminação ou de desapreço público passarem a ser aceitas, em decorrência de ideologias camufladas por uma moralidade altamente questionável?

Toda a sociedade pátria deve se posicionar neste momento! Inexistem quaisquer justificativas, sejam de natureza moral, religiosa ou mesmo ideológica, que possam servir de porto seguro para aquele que pratica qualquer forma de discriminação contra um cidadão ou uma cidadã cujos direitos são assegurados por uma mesma Constituição. Afinal de contas, vale repetir o que já tem sido repetido à exaustão: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (Artigo 5º, caput, da Constituição da República). Assim, a mesma mão legal que pesa sobre quem pratica o crime de racismo, deve pesar, também, sobre quem pratica atos de homofobia. Não existe diferença objetiva entre pessoas. Até pela própria lei natural, todos nós somos iguais: nascemos, crescemos, vivemos e, reproduzindo ou não, inevitavelmente, morremos. Desta sina nenhum ser vivente escapa. Então, por que uns devem ser tratados no rigor da lei, enquanto outros podem agir segundo suas próprias convicções, ainda que em prejuízo físico, moral ou psicológico do outro?

A democracia está assentada na estrutura tripartite do poder, onde a competência de cada um dos poderes constituídos é delimitada na Constituição e, quando algum deles deixa de exercer a competência que lhe é atribuída, cabe ao Poder Judiciário entrar em ação. É o caso!

Espera-se, sinceramente, apesar das vozes em contrário, que a Suprema Corte coloque os pingos nos “is” e reconheça, sim, como crime comparável ao do racismo, qualquer ato de homofobia praticado contra qualquer cidadão ou cidadã em território nacional, passível de punição severa e exemplar, concedendo o mandado de injunção postulado, na forma do inciso LXXI, do artigo 5º da Constituição da República, de modo a que a lei puna, de fato, “qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais” (Art. 5º, XLI da CR).

O que não podemos admitir é que pessoas e grupos, valendo-se dos slogans que julgam úteis e necessários para o exercício das suas atividades, pressionem os legisladores para promoverem o encurtamento dos direitos de determinados cidadãos e cidadãs, em função da opção de vida que cada qual, livremente, pode fazer e escolher.

Além do mais, a questão é, também, humanitária. Não podemos ficar calados diante de manifestações grotescas contra quem decidiu dar à vida um rumo diferente daquele dado pela maioria da sociedade. Do mesmo modo, não é de ser aceito que vieses radicais e fundamentalistas, originados na política ou na religião, sirvam de base para o acobertamento de atos nefastos de homofobia.

Este texto é apenas um convite à reflexão. Que cada leitor e cada leitora, na intimidade do seu espírito, na nobreza do seu coração e na liberdade de suas convicções possa tirar suas próprias conclusões e, julgando útil e oportuno, consiga um canal para externá-las de forma limpa e democrática, sim, mas, sempre em prol do outro. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=404076

fev 25

EDITORIAL DA SEMANA: TODA MISSÃO TEM UM FIM!

FRUTOS DA VIDA - 2

MISSÃO CUMPRIDA, É HORA DE OBSERVAR OS RESULTADOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Muitos de nós acreditamos ser portadores de missões que, atribuídas por Deus, pela Lei, pela Cultura ou pela Moral, devem ser cumpridas à risca, fazendo desta, em muitos casos, a razão de ser da nossa existência. Não é pequeno o número de pessoas que só conseguem enxergar a vida sob a ótica da tal “missão” que, não raro, e para estas pessoas, dura por toda a vida.

Da minha parte, não enxergo a coisa exatamente desta forma. Penso que cada um de nós tem diversas missões para serem cumpridas no curso da vida e que, como tais, vão se sucedendo umas às outras, em uma saga contínua e permanente, cujo fim coincide com o término desta existência. Algumas missões são mais prolongadas do que outras; mais espinhosas; mais dolorosas; mais aguerridas; mais cansativas, mas, a todas é reservado um limite, um termo final. Um momento no qual dão-se por esgotadas e, portanto, encerradas, independentemente do resultado produzido. Daí por diante, parte-se para outra missão.

Exemplo que me parece bastante oportuno, principalmente, sob a ótica do momento atual da minha trajetória, é o relacionado com a missão a ser desempenhada com o foco totalmente voltado para os filhos. Trata-se de missão difícil, espinhosa e complicada, sim, mas, que tem tempo para findar. Não é missão de toda uma vida, porque, cumpre a cada pai e a cada mãe, acolher aquele serzinho que chega ao mundo para integrar a família, com todo o amor e com toda a dedicação possível e inimaginável. Chega da forma como todos nós sabemos e conhecemos muito bem: indefeso, inocente e carente de todo tipo de cuidado. Sem nada, completamente nu e absolutamente sozinho. De tudo e em tudo dependente de alguém! É a sina de todos nós, seres humanos: ao nascermos e ao morrermos, dependemos de alguém para nos levar de um lado para o outro!

Àquele pequeno ser que chega ao mundo, a mãe ensina por primeiro o caminho do bico do seio, levando-o à boca, para a primeira alimentação, seiva de continuidade de uma vida gestada em um ambiente propício, no qual nada faltava e tudo chegava da forma mais natural possível. Agora não! Agora ele depende da mãe para iniciar o processo da alimentação, com todos os suplementos e complementos necessários para que aquela vidinha ganhe mais tônus a cada dia, e  em todos os sentidos. Ele ou ela depende de alguém, normalmente, da mãe, para colher-lhe as primeiras (e muitas outras) fezes, trocando-lhe as fraudas e zelando pela manutenção e higiene daquele frágil corpo.

Depois, pouco mais tarde, vem o ensino de inúmeras outras atividades necessárias para o progresso daquele ser que, agora, já sabe pedir o famoso “papá”; já chora, quando não quer alguma coisa; já dá de mãos, com certa irritação, quando se sente objeto de abuso dos adultos corujões. Mas, ainda falta aprender a engatinhar para, em seguida, dar o primeiro grande avanço para a liberdade: os primeiros passos! Todos, na família, aguardam o momento deste pequeno astronauta fazer sua primeira caminhada que, para nós, serão apenas alguns passos, mas, para ele ou para ela, será uma grande caminhada rumo à independência. Daí por diante, ele/ela vai de vento em popa, mas, a missão do pai e da mãe ainda está longe de ser completada.

Vem o momento dramático da escola, dos primeiros contatos sociais com outros pequenos seres tão simples e inocentes quanto o nosso rebento. Mas, novamente estamos lá, ao lado dele ou dela, torcendo, dando força, incentivando e, não raro, também chorando pela insegurança de deixar aquela mudinha de árvore aos cuidados de jardineiros estranhos. Jardineiros e jardineiras que são, obviamente, bem preparados e muito bem treinados, mas, não somos nós! E acreditamos, sinceramente, que ninguém é capaz de fazer por ele ou por ela nada do que somente nós sabemos fazer.

A fase estudantil é uma das mais longas, mais complexas e mais delicadas porque pega nossos filhinhos com dois ou três anos de idade e acompanha-os até a entrada na Universidade. E nós, destemidos que somos, estamos ali firmes, fortes e resistentes. Resistentes às dificuldades por eles encontradas nos primeiros anos; resistentes em relação ao convívio com outros seres iguais que, vindos de outras raízes, possuem perfis, às vezes, bastante diferentes e complexos, assim como os modos de proceder em relação a tudo e a todos à volta. Resistentes às rebeldias da adolescência; resistentes ao ímpeto da juventude e, por fim, e já cansados, resistentes aos enfrentamentos abertos, resultantes do normalíssimo conflito de gerações.

Aqui, neste estágio, e na minha opinião, a missão paterna e materna caminha para o encerramento, porque, a partir do conflito gerado pela visão e consequente compreensão do mundo, quando o filho ou a filha enxerga o mundo e suas dependências com olhar próprio, muitas das vezes, bastante diferente do nosso olhar já treinado, experimentado e, porque não assumir, já viciado, acreditam já serem senhores absolutos dos próprios destinos, dispensando maiores comentários, evitando os diálogos mais aprofundados ou mesmo a necessária e saudável troca de experiências, para a verdadeira transmissão da vida e das suas vicissitudes. O que nós sabemos, ou achamos que sabemos, já não lhes interessa mais. Para eles, passamos a ser seres estranhos e já a caminho da obsolescência, seres de um outro mundo, de uma outra época, com outros valores e portadores de um “conhecimento” que a modernidade, sob muitos aspectos, já não reconhece mais como válido. É, quando acredito, a missão do pai e da mãe está encerrada”. Tudo foi feito, dito e ensinado. Experiências mil foram transmitidas. O que normalmente denominamos por "conselhos", foram distribuídos aos montões. Centenas de exemplos foram tomados como referências e indicativos para o bom e para o mau caminho. Enfim, aquele filho ou filha está preparado para a ação! E, de tão preparados, eles acreditam poder deixar de lado tudo o que receberam, e partir para suas aventuras e experiências próprias.

Dali por diante, é verdade, sempre estaremos prontos para o filho ou para a filha, mas, apenas para o acolhimento, o consolo e, não raro, para o socorro! E, quase sempre, o trunfo vitorioso é o da concordância ou o do silêncio.

É com esta visão e com este sentimento que vejo meu filho chegar aos vinte e um anos de idade! É preciso reconhecer, também, ser esta a primeira experiência pela qual estou passando. Mas ainda sou um menino, um menino que carrega no peito dúvidas, medos e inseguranças. Um menino que, infelizmente, não encontra outro menino para trocar ideias e experiências válidas para ambos, um mais velho, o outro, mais jovem. Tão jovem que, em razão da idade que chega e faz desabrochar toda a impetuosidade da vida, não percebe o valor absoluto, e a importância, do diálogo constante e permanente com este menino que ele já considera velho demais e fora de moda. Ambos são meninos, porém, cada qual refletindo o seu próprio tempo.

Um dia eu também tive vinte e um anos de idade, e como eu sonhei poder ser tratado pelo meu pai como um adulto, um adulto capaz de ter ideias e opiniões próprias e interessantes; um adulto capaz de principiar e de prolongar um diálogo forte, saudável e frutuoso para ambos quando eu, certamente, teria a vantagem de aprender muito mais. No entanto, meu pai, vindo de uma realidade na qual não conheceu o carinho, o acolhimento, o amor, o consolo ou mesmo o socorro de um pai ou de uma mãe, rechaçava, como evita até hoje, o diálogo aberto, franco e sincero com os filhos, por se achar, ele próprio, o senhor absoluto de todas as razões e de todas as verdades.

Do alto destes meus quase sessenta anos olho para os vinte e um anos passados como um raio, e percebo ter cumprido minha missão o que, para mim, é motivo de orgulho, satisfação e consolo pessoal e espiritual muito grande. Cumpri, sim, a missão que me competia como pai. Agora, resta-me apenas sentar na varanda e, tal qual o ancião que tem os olhos perdidos no horizonte, aguardar para apreciar os resultados do extenso plantio que fiz no decorrer destes últimos vinte e um anos esperando, ainda, para ver o que revelarão os anos vindouros.

Aos pais e mães mais jovens, não sirvo de modelo, porque ousei agir bem adiante no tempo, acreditando estar construindo pontes e viadutos pelos quais muitas cargas positivas seriam transportadas de forma permanente, espontânea e inteiramente gratuita. Entretanto, qual não tem sido minha surpresa, quando vejo que, tudo construído e desobstruído para gerar integração plena, assim como a produção de esplêndidos resultados, existe um pedágio a ser pago, instalado pelas artimanhas da vida. Um pedágio que dificulta o fluxo natural do transporte de projetos, planos e experiências, criando obstáculos onde não existem e obscurecendo a visão, impedindo a percepção e, evidentemente, afastando a possibilidade de se preparar, em larga escala, para as armadilhas que o futuro guarda para a totalidade dos seres humanos.

Não importa o quanto está sendo, ou o quanto ainda será, cobrado para a travessia das tais pontes e viadutos. O que realmente importa, para mim, e, talvez, até de forma egoísta, é a convicção de ter cumprido com o papel que me foi designado: o papel de pai! Cumpri-o com altivez e com determinação; cumpri-o com satisfação e com orgulho e, na condição daquele que planta uma árvore frutífera em terras alheias, ou mesmo nas próprias, espero que alguém recolha os frutos que, mais dia, menos dia, não tenho dúvidas, aparecerão. Afinal, o que é a vida, senão um plantar e um colher permanentes? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

   

fev 18

EDITORIAL DA SEMANA: TRABALHADORES DO BRASIL

TEMPOS MODERNOS - 2019

TEMPOS MODERNOS – O SÉCULO QUE VIVE NO PASSADO –

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quando falamos em “tempos modernos”, quase sempre vem à mente a lembrança do jovem Chaplin mergulhado no interior de uma fábrica de montagem de peças, apertando parafusos, em uma atividade tão frenética que,  já no intervalo para o almoço, mostrava as mãos trêmulas e vacilantes, repetindo o mesmo gesto, ainda que sem a chave na mão. Coisa de louco, diriam os jovens de hoje.

Diriam isto porque, muitos dos nossos jovens ainda não mergulharam no famigerado ambiente da produção em série de qualquer um dos objetos que consomem ou compram diariamente, pela internet ou mesmo nas lojas físicas. O trabalho de natureza repetitiva, manual ou intelectual que seja, ao invés de uma saudável prática e uma bem-vinda experiência, traz doenças físicas, mentais e espirituais, muitas das quais perseguem as pessoas pelo resto de suas vidas.

Parece incrível que tais ambientes ainda existam e que, por outra, ainda sejam comandados por pessoas que se revelam dotadas com a mesma mentalidade que vigorava no interior das fábricas das décadas de 1920/1930 do século passado. Porém, existem e estão cada vez mais presentes, tanto nos setores públicos, quanto nos privados. Tanto na produção em série, massificada, quanto no trabalho meramente burocrático e intelectual, dependente de relatórios e de decisões previamente elaboradas (os famigerados modelos), com a simples escusa de acelerar o trabalho, produzir mais e preservar pesquisas e coletas de dados já realizadas.

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador. Num primeiro momento, a simples e ingênua repetição de atos e de formas parece coisa simples, racional e saudável. Entretanto, o tempo se encarrega de mostrar que  chega a hora em que o trabalhador ou a trabalhadora passam a sofrer do vício do trabalho repetitivo, e ficam de tal modo vinculados ao sistema que, se for modificado o conteúdo central do trabalho, ele/ela passará batido e, olhando apenas para a peça e o instrumento ou para o título e para as primeiras linhas, dará o mesmo resultado para a questão posta diante de si, tamanha a lesão cognitiva que já tomou conta do seu precioso cérebro.

Aqui, volta a lembrança do trabalhador Chaplin embrenhado, e indefeso, em meio à multiplicidade de engrenagens, simbolizando muito bem tentáculos de um sistema que devora o ser humano de tal forma que, em pouco tempo, se sente como um verdadeiro dente da engrenagem. E mais: muitos, se veem como um dente muito importante na dinâmica que faz tudo girar ao seu redor. Tão importante que são capazes de tudo para se manterem atrelados ao sistema que, paradoxalmente, devora-os com prazer e satisfação e que, quando os consome totalmente, já tem outro, engrenado, para representar o mesmo papel, em um verdadeiro ciclo vicioso e ceifador de  saúdes e de vidas.

Ainda assim, desconhecendo ou fingindo desconhecer as severas consequências das regras impostas e alimentando todo o sistema, chefes intelectualizados, sindicalistas, trabalhadores e outros que se dizem do ramo, estão verdadeiramente assombrados com tudo o que vem sendo proposto (alguma coisa já foi, inclusive, implantada) no campo dos direitos trabalhistas sem, no entanto, mexerem um dedo sequer para questionar seriamente o condenável sistema produtivo, manual ou mesmo intelectual, no qual estão imersos até o pescoço milhões de trabalhadores, exigindo de subordinados, associados e comandados, apenas, e sempre, mais agilidade no processo produtivo, como que a bloquear ainda mais a capacidade intelectiva do cidadão ou da cidadã que, no dia-a-dia, produzem, de verdade, as grandes riquezas e mantêm, impreterivelmente, os ótimos bônus financeiros e os excelentes salários daqueles que, em posição de comando, estão no topo da cadeia produtiva.

O filme que relata a aflição e a descoloração pessoal daquele operário representado, de forma magistral, pelo jovem Charles Chaplin, não raro, é passado em palestras e em congressos, mundo afora, como modelo de produção a ser fortemente criticado e, de fato rejeitado pelos administradores modernos, haja vista o indizível mal que causa aos trabalhadores. Entretanto, ainda contaminados e, de certa forma embotados, pelo pensamento dominante naquelas já citadas décadas do século passado, todos eles  (líderes, chefes e administradores), com raríssimas exceções, mantêm o mesmo sistema de cobrança e de exigência de agilidade na produção de resultados em seus ambientes de trabalho, caçoando daqueles que afirmam estarem sofrendo e alegando não aguentarem mais o sistema viciante e viciado, ou, o que mais acontece, preparando a substituição do que denominam "maçãs podres".

Atualmente, em certas áreas do serviço público, adota-se o teletrabalho, como a joia da coroa. Diferentemente dos procedimentos similares adotados na iniciativa privada, nacional e estrangeira, líderes que representam estes setores públicos, além de não fornecerem equipamentos adequados e aptos à qualidade do trabalho, de não se responsabilizarem pelos efetivos custos operacionais e de não oferecerem um centavo a mais de incentivo para os trabalhadores, diferentemente do que ocorre no setor privado, ainda se acham no direito de exigir aumento expressivo da produtividade, no que contam, infelizmente, com a concordância dos trabalhadores e das trabalhadoras que, já embotados e incapazes de perceber o quanto estão sendo explorados, lutam para assegurar o que ainda acreditam ser um “privilégio”.

O teletrabalho, na forma em que foi pensado, planejado e executado com relativo sucesso por grandes grupos corporativos, grupos que, querendo ganhar cada vez mais, sabem o quanto é importante o bem estar dos seus empregados, tem por finalidade proporcionar aos trabalhadores e às trabalhadoras a possibilidade de executarem suas tarefas diárias no ambiente que lhes parece mais íntimo: a residência. E, justamente por respeitarem este ambiente íntimo, as grandes corporações fazem questão de encher estes trabalhadores de mimos, como jornada de trabalho inalterada, com respeito aos necessários intervalos regulares para a recomposição física, o fornecimento de equipamentos modernos, sofisticados e altamente eficientes, a manutenção periódica nos referidos equipamentos, serviço de help-desk funcionando de forma efetiva e eficaz, durante 24 horas por dia, além de um bônus salarial visando cobrir ou minimizar os custos de operacionalidade o que, incentiva e estimula tal modalidade de trabalho.

Isto sim, é respeitar o trabalhador e o seu íntimo ambiente residencial. Este sim, é o método que busca acrescentar ganhos pessoais, materiais e espirituais àqueles que asseguram os polpudos bônus financeiros aos sócios e acionistas ou os magníficos salários dos líderes, chefes e administradores. Aqui, sim, justifica que cada trabalhador ou trabalhadora lute com afinco para conseguir este que é um verdadeiro privilégio, totalmente oposto ao que tem sido oferecido aos trabalhadores brasileiros, principalmente, os de alguns setores públicos, cujos chefes e administradores acreditam, ou fingem acreditar, estarem na vanguarda do processo evolutivo do trabalho.

Penso ser chegado o momento de, mais do que direitos codificados, os trabalhadores buscarem formas de trabalho mais humanas e mais humanizadas, de modo que passem a ganhar algo que vale muito mais do que o dinheiro: o verdadeiro bem estar para a vida, com valorização e resguardo aos principais direitos da pessoa, onde quem comanda saiba respeitar o ambiente íntimo e pessoal daquele que lhe assegura os enormes ganhos e, por fim, a própria riqueza.

Caso contrário, o filme do velho-jovem Chaplin continuará a representar uma realidade que teima em não sair de cena. Uma realidade que tem transformado os nossos trabalhadores, ao longo do tempo, em bonecos robotizados, viciados na repetição de atos, de gestos e de comandos, que permanecem ativados e atuantes, mesmo fora do ambiente do trabalho, nas conversas de finais de semana com amigos e familiares, naquele papo que ninguém aguenta mais, mas que todos ouvem até por piedade daquele que se sente um importante dente da engrenagem produtiva na qual está inserido, pois todos percebem o prejuízo mental de que são portadores tais indivíduos. Reflita e, ainda que não concorde, veja se conhece realidade diferente e melhor. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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