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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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O CINISMO DE CADA DIA

MENTIRA E CINISMO

A ERA DO CINISMO E DOS SEUS INCONFUNDÍVEIS ADEPTOS –

*Por L. A. de Moura –

Imagine que você, eu e muitos outros, todos os dias, assistimos e lemos nos meios de comunicação, diversos por sinal, as chamadas dos maiores bancos do país, oferecendo os melhores serviços presenciais, em tempo recorde, com gerentes, caixas e demais funcionários aptos e prontos para o imediato e eficiente atendimento. Nós, que viemos de outro Planeta, acreditamos e, já no dia seguinte, caminhamos em direção de um destes prestigiados bancos, na esperança de que, tal qual é dito na propaganda, seremos, realmente, atendidos da forma mais respeitosa e eficiente desejada. Até porque, o narrador da proposta televisiva, no caso, diz com todas as letras: “estamos aqui para fazer o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós”.

Ocorre que, quando adentramos na primeira agência daquele estabelecimento bancário, eufóricos e, certamente, necessitados, até porque ninguém vai ao banco passear, procuramos por um atendente que esteja pronto para nos direcionar. Então, para a nossa primeira surpresa, nos deparamos com uma mocinha bonita, mas, que, olhando para a nossa cara e, certamente, não gostando muito do que vê, demonstra certa antipatia. Mas, como estão lhe pagando para executar o trabalho, resolve dizer apenas: “precisa pegar uma senha, senhor. Pega a senha e aguarda ser chamado”.

Ora, já neste momento, eu ou você, percebemos que o tal “fazemos o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós” é meio fantasioso, porque, o que queremos, e até esperávamos, era que o atendimento fosse, realmente, rápido.

Mas, não, não é assim. Pegamos a tal senha e, não nos enquadrando em nenhum dos casos preferenciais (você conhece todos de cor), sentamos em uma espécie de auditório e ali ficamos. Existe lei impondo o tempo máximo de espera, mas, o tal banco, com certeza, finge desconhecer. A gente olha para as mesas dos atendentes que, normalmente, são designados como “gerentes”, e vemos que, para uma pequena multidão de vinte pessoas, existem apenas três destes ilustres gerentes que, pelo que demonstram, não têm a menor pressa no atendimento que estão fazendo. Até aí tudo bem. Cada cliente merece a máxima atenção. Mas, o caso é outro. O caso é que, cada cliente traz um problema mais complexo do que o outro. Complexo, no sentido de “mais trabalhoso”. Então, o tal gerente sente uma espécie de prazer em ficar retido com o cliente do momento o máximo que puder.

E a gente fica esperando. Liga o celular (graças a Deus inventaram o celular que, com a bendita internet, permite sofrer calado e distraído). O tempo vai passando e, depois de uns vinte minutos, com a fila de sentados andando bem lentamente, aparece um rapazinho simpático e começa a perguntar a um por um o que, afinal, deseja resolver com os prestativos “gerentes”. Neste momento a fila começa a diminuir drasticamente, porque cada pessoa vai sendo redirecionada para um outro setor do banco, quando não recebe a triste notícia de que aquele banco não executa a operação desejada. Este triturador de filas chega até você, ou diante de mim e, ao repetir a pergunta, descobre, e informa-nos com alegria, que o caso exige a apresentação de uma série de cópias de documentos, cuja lista pode ser pedida no segundo andar, para onde somos direcionados e, novamente, enfrentamos o relógio.

O resto não precisa ser dito, porque nós conhecemos perfeitamente onde vai desaguar. O fato é que, aquela propaganda feita na televisão e repetida com fotos nítidas e caprichadas nas revistas e jornais de livre circulação, revela-se absolutamente mentirosa, enganosa. Ou seja, eu e você acabamos concluindo que o que impera no campo da propaganda é o cinismo. Ou seja, apresenta-se o produto como se fosse a quintessência da qualidade e da grandeza quando, na verdade, nada do que é informado sobre ele corresponde com a verdade. Tudo é detalhadamente planejado para nos conduzir até o estabelecimento bancário na esperança de que, no fundo, nós não tenhamos nenhum problema para resolver, mas, dinheiro para aplicar em abundância. Obviamente que, quando é este o caso, o sujeito não fica em fila alguma. Já chega falando grosso e logo, logo, deixa claro que o bolso está pesado. Neste caso, e apenas neste caso, a propaganda revela ser verdadeira. Rapidez no atendimento. Cafezinho, puro ou com leite. Biscoitinhos salgados e doces. Gerente, homem ou mulher, simpático, atencioso e disposto a tudo para que seja deixado ali o melhor que o sujeito tem para oferecer; o dinheiro!

Idêntico raciocínio vale para o supermercado, para a drogaria, para a padaria, para o restaurante etc. É cinismo atrás de cinismo e a gente pensa: será que é tudo assim? Será assim na política, nas universidades, nos cursinhos de idiomas, nas igrejas, nas instituições públicas abrilhantadas pelos famosos brasões?

Meu amigo, minha amiga, não quero ser cínico com você, nem tentar te iludir para evitar sua tristeza: é tudo assim, deste jeito. E não tem jeito.

Há pouco tempo fui a um banco público (famoso por sua alardeada “excelência” no atendimento e na prestação de serviços) e, já conhecido da mocinha simpática, pedi a famosa senha. Deu-me a senha nº 1 e, sorrindo, me disse: “olha, que sorte, o senhor será o primeiro a ser atendido”, que bom, disse eu. Subi as escadinhas que conduzem ao primeiro andar. Quando cheguei, percebi que existiam apenas funcionários do banco naquele ambiente. Cada um na sua mesinha, completamente envolvidos com a tela do computador. Por trás de uma baia de vidro martelado, dava para perceber a presença de um “gerente”, com o seu querido e saboroso jornal aberto de ponta a ponta. Sentei-me e pensei: Talvez, assim como eu o percebo do outro lado, ele, também, consiga perceber que, do lado de cá, existe alguém aguardando para ser atendido.

Ledo engano. Fiquei ali por longos quinze minutos até que, de repente, chega uma pessoa conhecida, com pressa, e perguntou para mim: “tem alguém atendendo?” Eu disse que não e que já estava ali por uns quinze minutos. Com a cabeça, mostrei-lhe que tinha alguém do outro lado lendo jornal. Minha conhecida, então, aguardou por mais uns cinco minutos e, não suportando esperar, levantou-se e perguntou ao sujeito a que horas começaria o atendimento, ao que ele retrucou: “já vou chamar, aguarda um instante por favor”. Passados mais uns cinco minutos, chamou o primeiro que, por acaso, era eu. O resto, deixa pra lá.

Este grande banco público não sai de cena. Figura em quase todos os canais de televisão oferecendo mundos e fundos, patrocina atletas de diversas modalidades de esportes. Enfim, é tudo mentira! O cinismo impera entre nós.

Poderia falar, ainda, do cinismo na política, mas, penso comigo: será necessário? Acho que você sabe muito bem o que se passa do Arroio ao Chuí, do Leste ao Oeste do País, sem exceção!

Com o comércio, em geral, não vale à pena perder tempo. O que dizer, ainda, sobre as incontáveis religiões? Vai, sem se preocupar com o dia ou com a hora, em qualquer templo ou igreja e procura lá pelo pregador, para resolver um problema pessoal ou familiar. Faz isso pra ver se será atendido ou atendida prontamente. Agora, como aquele sujeito do banco, cheio de dinheiro, faz a mesma procura no âmbito religioso, para doar uma significativa quantia, para ver se o atendimento precisa ser agendado ou se existem dias previamente determinados para esta modalidade de atendimento.

Talvez o problema seja apenas comigo, pode ser, mas, recentemente, precisei aguardar por mais de seis meses para ter um pedido analisado por uma autoridade eclesiástica, que administra uma universidade religiosa. E mesmo assim, só obtive uma resposta porque enviei-lhe uma carta (pelo correio mesmo, registrada e tudo!), identificando-me como seu “irmão”, alegando sermos, eu e ele, filhos do mesmo Pai do Céu e, por fim, reiterando a fala de Jesus em Mateus 7, 12 (“tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas”). Mesmo sem me receber, conforme havia solicitado, parece que ele se tocou e, sentindo-se, talvez, meio emparedado, mandou uma secretária me ligar para dizer o famoso óbvio: “Ele pediu para dizer que, infelizmente, não podemos fazer nada pelo senhor”. Eu procurei agendar uma conversa, porque pretendia, pessoalmente, frente a frente, expor uma situação fática e tratar acerca de um projeto de estudo e de pesquisa em andamento. Falhou! Não deu. Eu não tinha nada para oferecer, apenas, para pedir. E para tal, a propaganda não faz qualquer previsão. Fica ao alvedrio de quem está no comando. Seja o que Deus quiser. Alea jacta est!

Portanto, meu caro, minha cara, não tenha ilusões diante das mais diversificadas propagandas, profanas ou religiosas, quase tudo está envolto na ilusão e no cinismo. Dizem, propagam e advogam uma coisa quando, na verdade, revelam uma realidade muito, absolutamente, totalmente diferente do que é propagandeado aos quatro ventos. Porém, como cristão que sou, sempre repito Jesus: “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas” (Mt 7, 12). Reflita, não se desespere e siga em frente. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

jul 06

EDITORIAL DA SEMANA: O CAMINHO ESTÁ ABERTO PARA TI – SIGA-O

EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA

DE ONDE VENS E PARA ONDE ESTÁS INDO?

*Por L. A. de Moura –

Hoje, por sorte ou coincidência, encontro contigo durante minha longa caminhada pela vida. Venho de muito longe e, de repente, vejo-te aqui, como que aguardando um companheiro de viagem para seguir em frente. Mas, pelo que percebo são grandes as dúvidas que carregas em tua alma. Também, penso comigo, não é para menos: diante de um mundo tão dividido, tão fragmentado, tão inóspito, marcado por tantos vícios, tantas ameaças, incertezas e medos, não é de assustar ver-te em profunda angústia.

Mas eu sou um caminhante e, como disse, venho de muito longe, venho de tempos antigos, quando virtudes e valores coroavam a nobreza dos seres humanos. Tanto era assim, que a palavra de uma pessoa tinha muito peso e ressonância. Quase ninguém ousava colocar em dúvida a palavra empenhada por um homem ou por uma mulher. Se tivessem cabelos brancos, então, nem se fala: a palavra valia mais que o selo do rei.

Mas, são lugares antigos por onde passei. O que hoje faço é caminhar e, nesta missão, convido-te para seguirmos juntos. Vamos conversando um pouco, talvez, possamos nos socorrer mutuamente. Se queres, posso oferecer-te um pouco de água fresca. Uma água pura e cristalina. Tão refrescante que, se dela beberes, não terás mais sede. Percebo que tua angústia aumenta, principalmente, porque não me vês portando nenhum cantil, de onde possa retirar a água que ora te ofereço. Mas, posso esclarecer-te com algumas poucas palavras. Vamos caminhando. Não tenha medo da estrada. Ela é longa, mas traz alegrias e surpresas.

Inicialmente, eu gostaria de saber de onde tu vens e para onde pretendes ir. Isto é, deveras, muito importante porque, caso estejas sem destino certo ou com medo da estrada ou, ainda, em dúvida quanto ao caminho a ser seguido, posso orientar-te. Veja, posso apenas orientar-te, mas, o caminho terá que ser percorrido por ti. Apenas tu o podes percorrer, ninguém, jamais, poderá fazê-lo em teu lugar.

De onde venho, tomei conhecimento acerca de um profeta, um sábio, um verdadeiro santo que, apesar de se apresentar com trajes humanos, inclusive, no sentido corpóreo, era, também, divino. Tal homem, em certo momento da sua caminhada disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Esse dizer, no tempo dele, soava meio arrogante. Os grandes do seu tempo não compreenderam muito bem o que ele queria dizer e, por isso, criticaram-no à vontade e, por fim, contribuíram para a sua condenação à morte.

Quando tomei conhecimento das palavras daquele santo, homem e Deus reunidos em uma mesma pessoa, fiquei muito admirado, porque eu já era um caminhante, porém, não sabia muito bem, principalmente, para onde estava indo. Meditando sobre aquelas sábias e santas palavras, e, depois, aprofundando-me no estudo sobre a vida daquele homem, percebi que ele, de fato, não apenas conhece o caminho, mas, ele é o verdadeiro caminho. Seguir por ele é chegar no destino certo. Poderias tu questionar-me, neste ponto, acerca do significado deste “destino certo”, se desconheces a localização do ponto final da caminhada, não sabendo, sequer, a direção a ser tomada. Bem, posso tranquilizar-te, dizendo que a caminhada, embora possa parecer diferente, é espiritual. O corpo vai até aonde aguentar, mas o espírito segue em frente e, se por um lado, a vida do corpo é limitada, por outro, a do espírito não tem limites. Ora, seria lógico se perguntasses: o corpo cai, e o espírito segue como? É justamente aí que as palavras do Profeta e sábio começam a fazer todo o sentido. Quando Ele afirma “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”[1], quer dizer que o espírito só poderá seguir adiante, após a queda do corpo, se estiver vinculado ao verdadeiro caminho. Fora daí, vagueará perdido nos labirintos da eternidade, porque o espírito não morre.

Bem, então, tu me questionas: onde fica este caminho mágico, como ter acesso a ele; como faço para entrar nele? Respondo-te afirmando não se tratar de caminho mágico. Aliás, não existe mágica no homem-Deus, que veio se fazer de caminho para nós. Para início de conversa, é preciso que saibas o seu nome para não confundi-Lo com nenhum outro, haja vista que muitos outros tentaram se passar por ele e, na verdade, ainda tentam. Seu nome é Jesus. É Jesus de Nazaré! E o mais genial de toda esta narrativa é que tu não precisas entrar Nele para seguires na caminhada. Ele já está em ti. Ou seja, o caminho já está marcado na bússola da tua alma. O que te falta, então? Falta tomares conhecimento acerca de tudo o que o Profeta ensinou. Falta-te muito pouco para estares verdadeiramente no caminho. Tomar conhecimento de tudo o que Ele fez e ensinou e, por fim, colocar na prática da tua vida, do teu dia-a-dia, todos os seus preceitos porque, assim, Ele disse: “Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada”[2].

Penso que agora tu percebes que, conhecendo o caminho e estando na companhia Daquele que é verdadeiramente o caminho, só te falta caminhar. Mas, com justo motivo podes, ainda, duvidar da minha palavra, pensando: será mesmo verdade o que este está a me dizer? Veja, não sou eu quem te diz estas palavras, eu apenas sou mensageiro. Quem afirmou ser o caminho foi Jesus. Foi Ele que se colocou como o caminho e... a verdade! Além de ser o caminho, Ele é, também, a verdade, significando dizer que, Nele, não existe falsidade, mentira, fraude, desvio ou qualquer outro vício aos quais nós, humanos, estamos acostumados. A Palavra proferida por Ele é, de fato, a verdade. E podemos afirmar isto porque Ele mesmo disse: “Eu sei de onde vim e para onde vou, mas vós não sabeis de onde eu venho, nem para onde eu vou”[3].

Percebo-te vítima de confusão mental, porque não compreendes, ainda, a localização do ponto final. Para onde ir, afinal? Lembra-te: além do caminho e da verdade, Ele afirma ser, também, a vida. E que vida é esta? A vida eterna em toda a sua plenitude. E plenitude, aqui, não significa uma vida eterna estática, como muitos pensam, cantando hinos de louvor ao lado dos anjos. Vida em plenitude significa uma continuidade existencial, e útil, da alma para todo o sempre. Uma vida útil na qual tomaremos conhecimento sobre todas as realidades existentes e, ainda, sobre infinitas outras que, sequer, podemos imaginar. A este respeito, diz o profeta Isaías: “Nunca ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, nem nenhum olho viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que esperam em ti”[4]. Um homem nascido na cidade de Tarso, chamado Paulo, discípulo tardio do Profeta de Nazaré, em carta enviada à comunidade de Corinto, na Grécia, repetiu esta mesma afirmação feita por Isaías, para fortalecer naquela comunidade a fé no Evangelho[5].

Assim, podes acreditar no que estou te dizendo por que, nada mais faço do que repetir para ti as palavras do Mestre Jesus de Nazaré. E, se Ele afirma ser o Caminho, a verdade e a vida, então, é Nele, com Ele e por Ele que deves seguir a tua caminhada doravante.

Eu caminhava sem rumo e sem direção até que, um dia, recebi instruções parecidas com as que hoje estou passando para ti e, a partir de então, minha caminhada passou a ter consistência, direção e razão de ser. Hoje tenho noção de onde vim e, mesmo não sabendo direito para onde estou indo, confio plenamente no Senhor do Caminho e carrego na alma a convicção de que chegarei, como te disse, no “destino certo”.

Agora, poderias cobrar de mim a água refrescante prometida no início deste percurso. Realmente, como bem observastes, não trago nenhum cantil, mas, a água que te ofereci vem da mesma fonte: do mesmo Jesus. Foi Ele quem prometeu a uma mulher samaritana uma água viva, afirmando que, todo o que dela beber, jamais voltará a ter sede, porque, disse Ele: “a água que eu lhe der, virá a ser nele uma fonte de água que salte para a vida eterna”[6].

É normal que, neste ponto da nossa conversa, meu acompanhante deseje ficar um pouco a sós consigo mesmo, para refletir sobre tudo o que ouviu. Desta forma, despeço-me de ti e sigo em frente, pois, ainda tenho um bom trecho para percorrer. Espero que tua caminhada seja repleta de sucesso desde, é claro, que decidas seguir o único e verdadeiro caminho. No entanto, a liberdade é tua companheira maior e, caso queiras ouvir sugestões mais aprazíveis, sinta-se à vontade, afinal, pode ser que algo te encante ou te seduza mais do que as palavras de um sábio que viveu há tantos séculos. Isso é contigo, não me cabe dar palpite.

Da minha parte, vou em frente, pois sou um caminhante, eternamente caminhante. Um caminhante que vai sempre na direção do conhecimento, em busca da Sabedoria, com a firme convicção de que, ao chegar lá, terei algum descanso para, em seguida, caminhar na direção de outros rumos e outros mundos, para o cumprimento de outras missões. Afinal de contas, o mesmo Jesus afirmou: “Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Vou preparar um lugar para vós.”[7]

Este pequeno texto serve para você, também, que está sentado á beira de uma estrada qualquer, sem ter certeza ou convicção de estar no caminho certo. Talvez você possa se interessar em conhecer melhor o verdadeiro caminho e, se assim o for, siga as setas indicadas acima. No mais, seja feliz, e boa sorte na sua caminhada.

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*L. A. de Moura é um estudioso da teologia, um iniciante no estudo da filosofia, um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] Jo 14, 6. [2] Jo 14, 23. [3] Jo 8, 14. [4] Is 64, 4. [5] 1Cor 2, 9. [6] Jo 4, 7-15. [7] Jo 14, 1-2.

jun 29

EDITORIAL DA SEMANA: CONSCIENTIZA-TE SOBRE QUEM TU ÉS E QUAL É A TUA MISSÃO NO MUNDO

LUZ DO MUNDO E SAL DA TERRA

VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO E O SAL DA TERRA –

*Por L. A. de Moura –

A frase que, segundo o evangelista São Mateus, teria sido dita por Jesus (Mt 5, 13-14), na sequência do Sermão da Montanha, parece vir resolver uma antiga proposição da filosofia grega, ancorada, ao mesmo tempo, em um gigantesco desafio para o ser humano: o famoso “conhece-te a ti mesmo”. Trata-se, como muitos já o sabem, de um aforismo encontrado no pórtico de entrada do templo do deus Apolo, na cidade de Delfos. Atribui-se a Sócrates, não o aforismo em si, mas, a sua continuidade: “Conhece-te a ti mesmo e conheceras o universo e os deuses”.

Bem, neste exato ponto, eu faço um convite a você para, juntos, percorrermos uma pequena trilha teológico-filosófica que, ao final, poderá abrir para nós, eu e você, um pouco mais do denso véu por trás do qual a amiga sabedoria encontra seu eterno assento, porém, não menos dinâmico do que se poderia imaginar.

Vejamos, de início, até aonde podemos caminhar com o dito “Conhece-te a ti mesmo”, exposto em Delfos. Na mitologia, Apolo era filho de Zeus e Leto e, segundo a lenda, nasceu de sete meses mas, bem alimentado com néctar e ambrosia, já no quarto dia de vida teria pedido um arco e flecha para, em seguida, subir o monte Parnaso e enfrentar, ferir, perseguir e matar a serpente Píton, justamente na cidade de Delfos.

Píton era protegida de Zeus que, ao tomar conhecimento do crime cometido por Apolo, aplicou-lhe severa punição: primeiro, ir a Tempe purificar-se do seu nefasto feito e, em seguida, presidir os jogos píticos, instituídos em homenagem à serpente famosa. Não vamos continuar falando sobre Apolo, porque não é o caso. Do que está dito, importa-nos saber que Apolo, ao que tudo indica, e desde muito cedo em sua vida, teve pleno conhecimento sobre suas origens, potencialidades e, digamos, seu destino deísta. Desta forma, está justificada a aposição do aforismo no Pórtico do Templo dedicado ao deus do Sol, haja vista que, depois de outra severa punição infringida por Zeus, Apolo passou a defender a moderação em todas as coisas. Se você não conhece Apolo, procure conhecer, é bem legal.

Bem, a questão da moderação pode ser entendida como de vital importância para a pacificação do ser. E, neste sentido, conhecer a si mesmo é um bom início para agir com sapiência e, portanto, com maior possibilidade de acertos.

Conhecer a si mesmo para, segundo Sócrates, “conhecer o universo e os deuses”. O que poderia isto significar, senão, alcançar o inalcançável? Sim, porque, para o ser humano é, ao menos em tese, impossível conhecer, em toda a sua plenitude, tanto o Universo, quanto a, digamos, lógica, dos próprios deuses. Conhecer a si mesmo teria, então, como significado, tornar-se apto a transitar com maior desenvoltura entre o Céu e a Terra, principalmente, no convívio com seus semelhantes. Absolutamente semelhantes, e com toda a Criação!

Pensando bem, conviver com o outro só se torna plenamente possível e auspicioso se, e somente se, nós o conhecermos muito bem. Mas, você poderia indagar, como conhecer perfeitamente bem o outro se, para tanto, precisaria invadir todo o seu íntimo para investigar suas profundezas e profundidades? Ora, a resposta parece clara: conhecendo-me a mim mesmo, como espécie, conheço outro exemplar desta mesma espécie. E, observe-se que o “conhecer”, aqui, significa tomar conhecimento das fragilidades, capacidades e potencialidades do ser.

Daí que, quando Jesus declara, “vós sois a luz do mundo”, nada mais está fazendo do que colocando o ser humano em um avançado estágio de potencialidade, haja vista que o papel fundamental da luz é dissipar toda a ignorância, todas as trevas e todas as barreiras para, em seguida, tornar absolutamente transparente a forma de vida de toda uma espécie. Mas, para Jesus, isso não representou o auge, faltava algo: “vós sois o sal da terra”, Ele teria dito, ao que, ainda, acrescentou: “porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens”. É claro que, a lógica do Evangelho é no sentido inverso: primeiro é declarada a força do sal para, em seguida, falar acerca da luz.

No entanto, para o nosso intento, nenhuma alteração é imposta pela inversão, pois, o que desejamos é evidenciar que, quando o homem toma conhecimento de que é a luz do mundo e de que carrega em si a força suficiente para temperar as relações de vida e de convivência com todos os seus semelhantes e com o Todo da Criação ele, necessariamente, passa a conhecer-se a si mesmo e, consequentemente, torna-se apto a, nas palavras atribuídas a Sócrates, “conhecer o Universo e os deuses”.

Ora, talvez você queira trazer uma questão tangencial, perguntando se Jesus teria invalidado, ou tornado sem efeito a proposição filosófica que, durante séculos tem impulsionado e desafiado os homens de todos os tempos? Não, Jesus nem invalidou nem tornou sem efeito o desafio filosófico. Apenas facilitou o trabalho dos homens! O ser humano não tem mais a necessidade de ficar tentando buscar um conhecimento que a ele é concedido, gratuitamente, por Jesus. Não cabe mais ao homem, ficar perquirindo acerca do que, realmente, ele é ou sobre qual é o seu papel no mundo. Isso já o foi revelado pelo Mestre de Nazaré: “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo” (na versão original)

Entretanto, cabe sim, ao homem, adentrar no íntimo do seu ser, para investigar se tem, de fato, cumprido este papel ou se, ao contrário, tem perambulado pela vida, passando anos e anos neste plano terreno, sem ao menos compreender o verdadeiro significado da sua existência. Desta forma, o “conhece-te a ti mesmo”, hoje, soa muito mais como um “conscientiza-te de quem és”, não mais para conhecer o universo e os deuses, mas, para viver a vida em toda a sua plenitude e para conviver de forma harmônica e pacífica com todos os seus semelhantes e, por fim, com toda a Criação.

Nossa! Você poderá ficar estupefato com esta mensagem. Vamos concordar que, se os desafios são gigantescos, Jesus resolveu a parte mais complexa, dizendo-nos, exatamente quem e o que somos. Daí para a frente, cabe a cada um de nós, apenas, e, tão somente, tomar consciência desta revelação e passarmos a agir de forma absolutamente coerente e condizente com ela.

Surge, ainda, mas não por último, uma questão bastante latente e complementar a tudo isso: o Apóstolo Paulo, homem com sabidos vínculos com a cultura helênica (grega, portanto), vai chamar a atenção dos Coríntios (da cidade de Corinto, na Grécia), para alertá-los da seguinte forma: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá. Com efeito, é santo o templo de Deus, que sois vós” (1Cor 3, 16-17).

Ora, como é importante o alerta feito pelo Apóstolo! De forma complementar, somos “o sal da terra, a luz do mundo e o templo sagrado de Deus”. É o caso, então, de questionarmo-nos, para sabermos o que está faltando aos homens para viverem, já a partir de agora, a plenitude da vida com toda a harmonia e a paz tão necessárias e almejadas? Penso ser necessário repetir o que dissemos acima: é preciso tomar consciência, apenas, sobre o que já foi declarado que somos e sobre o papel que devemos desempenhar.

A luz está ofuscada, o sal deixado de lado e o templo fechado! Não estamos mais sendo desafiados a conhecer quem ou o que somos, isso já nos foi revelado. Estamos sendo desafiados, apenas, a uma singela visita ao nosso interior para, de forma absolutamente livre e consciente, desobstruirmos a luz, reabilitarmos a potência e o vigor do sal e, decididamente, abrirmos as portas do templo. E, vejam: abrir as portas do templo não para que Deus retorne a ele, mas, para que Deus saia da prisão na qual nós o encerramos. Abrir as portas do templo para que Deus se revele ao mundo através de cada um de nós, por meio das nossas atitudes e dos nossos comportamentos. É o que me parece estar, realmente, faltando aos seres humanos destes tempos tão obscuros e temerosos.

Por tais razões, acredito ser o nosso papel dar os primeiros passos na direção desta conscientização íntima e pessoal para, na sequência, disseminarmos a ideia para todas as pessoas que nos cercam, incitando-as a fazerem o mesmo, em uma interminável corrente humana. O aforismo aposto no Pórtico do Templo de Apolo, em Delfos, não pode ser apenas uma frase histórica a ser repetida de geração em geração, sem nenhum efeito prático. Da mesma forma, as declarações de Jesus e do Apóstolo Paulo, não podem ser apenas palavras ecoadas nos templos e nas igrejas, como meras lembranças de dizeres sagrados e consagrados pelo tempo.

Mais do que nunca, na história da civilização, os seres humanos precisam ter coragem para um profundo mergulho interior, para resgatarem a força e a potência da luz e do sal e para, destrancando as portas do templo, viabilizarem a ação de Deus em nós e em tudo o que cerca cada um de nós, inclusive, o próprio Planeta. Sem este procedimento, o caos e a confusão só farão aumentar a cada dia, a cada ano e a cada geração.

Este texto, na linha de todos os demais que escrevo e publico, é apenas um convite à reflexão. Você, que é sábio(a) pode, a partir dele, se entender viável, cabível e oportuno, ampliar todos os horizontes e, decididamente, contribuir para que a vida seja vivida com mais intensidade, com mais sabedoria e com maior perfeição. Reflita e, se for o caso, faça a sua parte. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura, é estudioso da teologia e, iniciante no estudo da filosofia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jun 22

EDITORIAL DA SEMANA: O SER HUMANO JÁ NÃO SE RECONHECE MAIS

O ESPELHO DA VIDA

TEMPOS PÓS-MODERNOS: O SER HUMANO, DIANTE DO GRANDE ESPELHO DA HISTÓRIA, JÁ NÃO SE RECONHECE MAIS –

*Por L. A. de Moura –

Ao lançarmos um olhar para o espelho da vida, muitos de nós ficamos encantados com a figura que aparece à nossa frente. Alguns se encantam com o rosto bem tratado e com discretas e quase ocultas alterações na pele; outros, apreciam a coloração dos cabelos, com o brilho desejado; outros, ainda, gostam da calvície bem resolvida e da barba acinzentada e bem aparada. Enfim, gente que não tem problemas com o espelho. Gente que, de frente ou de perfil, sente-se dentro de uma normalidade que mais encanta do que assusta.

Entretanto, o oposto também existe. Pessoas que demonstram verdadeiro pavor pelo espelho. Espelho, para este tipo de gente, é um verdadeiro instrumento de tortura, tamanha a antipatia que sentem por tudo o que veem surgir diante de si. Estéticas e formas absolutamente opostas ao desejado e ao que é, para algumas pessoas, considerado como top de linha! É de se lamentar uma relação tão negativa entre seres humanos e meros objetos que, por coincidência, refletem o que é colocado diante deles, sem acrescentar ou retirar nada.

Bem, se partirmos para uma visita diante do grande espelho da história, certamente, os resultados não serão agradáveis para nós. Ao nos aproximarmos deste gigantesco espelho, não teremos condições de reconhecer as figuras por ele refletidas porque, com o natural passar do tempo, nós fomos nos descaracterizando de tal modo, que não seria exagero afirmar que não temos quase nada mais daquele ser humano primitivo. E ser humano, aqui, é relativo à própria espécie, não, à evolução. E por quê? Porque o ser humano primitivo aceitou buscar o aperfeiçoamento da espécie, coisa da qual, parece, abrimos mão há muito tempo.

Ora, saiamos do cenário do espelho e passemos a avaliar a relação existente entre os galhos, as folhas, as flores e os frutos de uma árvore, com o caule e com as mais profundas raízes que a ela pertencem. É impensável que alguém possa defender a inexistência de tal relação, haja vista que a seiva necessária para os primeiros, vem, exatamente, por meio do caule que a absorve das raízes.

Bem, você dirá, o que isso tem a ver com a espécie humana? Tem tudo a ver. Basta olhar para os saberes dos homens de, por exemplo, vinte e cinco séculos atrás, o modo como refletiam profundamente sobre todas as coisas. A forma como debatiam entre si, todas as conclusões a que chegavam e, principalmente, o respeito que despertavam em todos os demais que, fossem lá quais fossem as razões, não haviam alcançado patamares tão elevados no pensamento ou no conhecimento.

A absoluta incompreensão acerca de conceitos relativos à ética, à moral, à democracia e à liberdade, para ficar apenas nos mais destacados, tem levado os seres humanos destas últimas gerações a um primitivismo verdadeiramente assustador. Porque, se por um lado, nada de novo ou de essencial para a contínua e necessária evolução da espécie, é produzido, por outro lado, toda uma gama de conhecimentos vinda do passado tem sido jogada na sarjeta da história. Conceitos sobre ética e moral, por exemplo, têm sido elaborados a partir dos interesses e das conveniências individuais, sem qualquer apreço pelo coletivismo. Desta forma, em uma sociedade na qual cada um faz o que lhe parece justo e correto, sem se preocupar com os demais membros da aldeia, parece óbvio que o resultado será sempre conflituoso.

Ao deixar de compreender, em profundidade, o verdadeiro significado de “Democracia”, ou pelo menos, sobre o que possa significar “viver de forma democrática”, os seres humanos destes dias difíceis, acreditam ser melhor ter de obedecer imposições, sem qualquer direito de criticas ou mesmo de contribuições para o aperfeiçoamento da convivência social, do que aceitar as regras do jogo no qual as maiorias, respeitadas as minorias, ditam o andar da carruagem. Preferem, ao contrário, simplesmente entregar de bandeja o poder nas mãos de pequenos grupos de cidadãos que, da forma que quiserem, poderão ditar normas e diretrizes sobre a vida e sobre a morte de tudo e de todos, inclusive, das instituições.

Por último, dentro desta nossa lastimável escalada, o absoluto desconhecimento acerca dos limites da “liberdade”, principalmente, quando se trata do convívio com outros seres da mesma espécie, faz tremer os alicerces da civilização. A partir do momento em que eu e você entendemos que nascemos livres e que, portanto, podemos falar e agir da forma que melhor nos agradar, em detrimento do respeito que os demais atores sociais merecem, então, tudo está comprometido, seriamente comprometido. Este, inclusive, é um gigantesco paradoxo vivido nos dias que correm: por um lado, degradam e denigrem a democracia, pedindo a chibata. Por outro, querem total liberdade de manifestação e de ação, como se uma coisa não fosse excludente da outra! A chibata e o domínio da força desconhecem, por completo, o que possa ser liberdade.

Há muitos anos um personagem vivido por Jô Soares dizia na TV: “é um espanto a ignorância da juventude”. Hoje, porém, há quem diga que a ignorância é uma benção!

Bem, qual é a melhor forma de retomar o conhecimento sobre tudo o que falamos até aqui? A mim me parece que, sem esperar por políticas governamentais, sempre, duvidosas, seja lá qual for a ideologia do momento, cada um de nós precisa aprofundar a leitura, a pesquisa e o estudo sobre o que os grandes homens do passado ensinaram e praticaram, nos tempos em que viveram. A forma como souberam enfrentar e vencer desafios muito maiores e, ainda assim, conseguiram deixar para nós verdadeiros acervos de conhecimento estocado nas bibliotecas e, posteriormente, nas Universidades de todo o mundo. Sabiam o que significava respeito; sabiam o que queria dizer ordem social e preservação do bem comum.

Precisamos procurar compreender melhor o significado, e a importância para a paz social, da ética e da moral, da liberdade e da democracia, em todas as suas extensões e com todos os seus limites. A partir desta retomada, bastará introduzir no cardápio a virtude do respeito mútuo para que então, e somente então, possamos vislumbrar a possibilidade de uma vida em sociedade digna dos seres humanos do século XXI. Caso contrário, estaremos caminhando, decididamente, para um sangrento conflito civilizatório, não mais de Nação contra Nação; não mais entre classes sociais, mas, entre indivíduos contra indivíduos, no que poderíamos denominar como verdadeira carnificina humana.

As pessoas precisam compreender que nem só de direitos vivem os cidadãos, mas, também, de obrigações que precisam ser observadas e cumpridas por todos, sob pena de todos serem prejudicados e penalizados. As ações, as palavras, as induções e, também, as ideias, provocam consequências de cujos resultados a sociedade, a comunidade, a família e as instituições dependerão para a sobrevivência, da mesma forma que os galhos, as flores, as folhas e os frutos dependem da seiva vinda das mais profundas raízes da árvore, tenha ela a altura que tiver.

É necessária a compreensão de que não somos donos de nada do que nos serve neste mundo. Apenas temos o direito de usar e de usufruir, mas, no final, todos conhecemos o destino fatal. Alguém pode lutar pelo direito pelo próprio corpo. Mas, observe o foguete que leva uma capsula espacial, na direção mais remota do Universo: no início, foguete e capsula são uma só coisa. Mas, em determinado momento, o foguete é desprezado no espaço, enquanto a capsula segue o seu rumo, com toda a programação, sabiamente, armazenada por aqueles que, realmente, tiveram conhecimento e talento para tanto. Assim somos nós. Platão, há 24 séculos atrás já sabia que o ser humano é corpo e alma, foguete e capsula! Será tão difícil assim, para os seres humanos atuais compreenderem isto? É de se questionar.

Penso que, diante deste verdadeiro drama vivido por todos nós, alguns mais outros menos, é necessário refletir. Refletir e buscar conhecer o que homens como Sidarta Gautama, Sócrates, Platão e Aristóteles, Jesus, Francisco de Assis, Agostinho de Hipona, Mohandas K. Gandhi, J. Krishnamurti ou mesmo Bhagwan S. Rajneesh (OSHO) sabiam e deixaram como herança intelectual e espiritual para todos nós. Certamente que o conjunto de todos estes conhecimentos será bastante favorável para a preservação da espécie humana, tão seriamente ameaçada, não, por extraterrestres, mas, pelos membros da própria espécie.

Este texto, como sempre gosto de destacar, é simplesmente mais um chamado à reflexão, sem quaisquer outras pretensões. Portanto, se, ao lê-lo, gostar, compartilhe com outros seres humanos. Se não gostar, a tecla DEL, no computador, significa deletar, apagar, jogar na lixeira. Fique à vontade. No mais, seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudioso da teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

       

jun 15

EDITORIAL DA SEMANA: É PRECISO REFLETIR SOBRE A ÉTICA

ÉTICA - 3

A AUSÊNCIA DA ÉTICA EXIGE CADA VEZ MAIS A PRESENÇA DAS LEIS –

*Por L. A. de Moura –

Quando você ouve alguém falar sobre ética, talvez, venha-lhe à mente uma grande especulação sobre o que, de fato, pode significar esta palavrinha tão pequena que, vez por outra é pronunciada por políticos, juristas, sacerdotes, filósofos e outros intelectuais mais destacados nos estratos sociais mais elevados na sociedade. É coisa que perturba a sua paz porque, ao não compreender muito bem, e saindo de bocas tão prestigiadas, a você parece tratar-se de algo muito além da sua vida e do seu dia-a-dia. Mas, hoje eu vou te esclarecer acerca de alguns aspectos da ética, de forma calma, serena, tranquila e definitiva, de um jeito capaz de colocar você em meio aos grandes do nosso tempo. Vem comigo, vamos fazer uma caminhada juntos.

Inicialmente, imagine que estamos, eu e você, passeando por um longo bosque, em uma bela manhã ensolarada e, de repente você me pergunta o que é ética. Pra início de conversa, eu digo a você: olha, tem uma definição do filósofo Clóvis de Barros Filho, sobre ética, que eu, particularmente, gosto muito e que, com certeza, te ajudará a obter a resposta desejada.

Clóvis define a ética como “a inteligência compartilhada, a serviço do aperfeiçoamento da convivência”. Este falar do filósofo não é em vão. Ele decorre da convicção de que a ética parte da premissa, segundo a qual a nossa convivência pode ser diferente e, portanto, melhor do que ela é, a depender das escolhas que, livremente, fazemos a todo instante. Para que você tenha uma compreensão mais ampla sobre o que é ética, é necessário perceber que tudo depende da liberdade de escolha, atributo que somente aos seres humanos foi concedido.

Você, com um pouco de atenção, vai observar que os animais vivem sem qualquer possibilidade de escolhas. Os pássaros voam porque não podem se locomover de outra forma; os peixes nadam porque não possuem condições de se deslocarem de forma diferente. E, assim, todos os animais, vertebrados ou não, ou seja lá quais forem as suas espécies. No mundo animal, tudo é do jeito que é. Com os seres humanos não é assim que acontece: tudo pode ser diferente a cada hora, a cada instante. Você, por exemplo, e diferentemente dos pássaros, pode se deslocar de um lugar para o outro de diversas formas muito diferentes, a depender, sempre, da escolha que fizer. Compreende?

Daí a impossibilidade de se falar na existência de um “manual de ética”, contendo normas a serem seguidas por determinada parcela da sociedade, ou de qualquer comunidade humana. Pois, qualquer feito neste sentido, tornar-se-ia absolutamente obsoleto no dia seguinte, em decorrência das mutações a que estamos, todos, sujeitos.

Ora, se a ética é fruto, e mesmo dependente, das escolhas que fazemos no dia-a-dia da nossa existência, para o “aperfeiçoamento da convivência”, parece um tanto óbvio que a nossa vida é marcada pelo dilema de ter que, a cada instante, fazer escolhas. Isto porque, sempre temos diante de nós possibilidades tantas, e tão próximas umas das outras que, escolher, transforma-se em um verdadeiro dilema. Realmente, não é tarefa fácil. No entanto, alguns critérios ajudam na hora de fazermos as tais escolhas. Um deles diz respeito aos valores que estão em jogo. Como assim? Você poderia questionar. Observe que a transparência, por exemplo, é um valor muito importante na política e na vida pública. Todos os atos e negócios públicos carecem de ter transparência, a fim de não permitir qualquer dúvida sobre a lisura. Aqui, portanto, suas escolhas, caso seja você um(a) agente público ou político(a), apesar de livre, deverá levar em conta o valor – transparência – que está no cerne da questão.

Entretanto, em se tratando de uma empresa privada, emparedada por uma concorrência brutal, onde todos querem destruir todos, aquela que lança um produto novo, e inédito, no mercado tem maiores possibilidades de sucesso do que suas concorrentes imediatas. Você concordará que, aqui, a transparência não é um valor a ser levado em consideração. Aqui, ao contrário do primeiro exemplo, o valor maior é o segredo absoluto até o último instante. E, caso você, trabalhando para a tal empresa privada, fizesse alguma escolha confundindo os valores, dando transparência a um fato que exige o mais absoluto segredo, certamente, seria despedido(a) sem qualquer chance de apelação, haja vista que acabaria por destruir todo o planejamento da empresa para alcançar o topo do topo. Compreende?

Assim, o valor maior no serviço militar é a disciplina; no meio hospitalar é o silêncio; nas atividades bancárias é o lucro e, assim, sucessivamente.

Ora, você poderia, então perguntar: se é assim, a cada momento e em cada ambiente, o modelo de ética é diferente? Sim. Minhas escolhas estarão sempre sujeitas aos valores de cada setor da vida por onde eu transitar? Sim. Minha liberdade é restrita ao mundo dos valores? Sim. Então, a própria liberdade é um atributo relativo? Sim.

O que você tem, na verdade, é a possibilidade de “livremente” fazer escolhas dentre as várias opções colocadas diante de si, considerados os valores de cada cenário. Daí, repita-se, a impossibilidade de alguém poder prever, antecipadamente, que escolhas deverão ser feitas. E, caso alguém faça a escolha por você, estará criando uma obrigação engessada, com a qual você, talvez, e muito provavelmente, não concordará.

Ora, para resumir, cabe a você, de forma inteligente, compartilhar com todos os envolvidos naquele cenário particular, a melhor forma de conviverem, respeitando os valores, os princípios gerais – como o respeito mútuo, a verdade e o amor ao próximo, por exemplo – e contribuindo para que a convivência seja, sempre, harmônica, pacífica e próspera.

Mas, você ainda poderá indagar: e quando isto não ocorre, como é que fica? Bem, quando isto não ocorre, aí sim, surgem as regras, as normas, as leis. Todas elas de natureza obrigatória e vinculadas a algum tipo de fiscalização e de punição. Ou seja, uma sociedade sem ética, é uma sociedade fadada a sofrer a imposição, impiedosa e fria, das leis. Quer um exemplo? A Constituição norte-americana, com 220 anos de existência tem, apenas, sete artigos e vinte e sete Emendas, sendo a última datada de 1992. Temos, ainda, a Constituição inglesa, fruto de acordos pactuados entre o Rei João, popularmente conhecido como João Sem Terra, e os barões da época (1215), que criaram, mais do que normas, princípios gerais, que são observados até hoje na elaboração do conjunto de leis que regem toda a estrutura estatal britânica. Olhando para estes dois cenários, observe o Brasil: uma constituição com, apenas, trinta anos de idade, composta de 250 artigos + 114 artigos que compõem os Atos das Disposições Constitucionais Transitórias + 106 Emendas à Constituição, sendo a última datada de 07.05.2020.

Bem, basta você olhar para este cenário para logo, logo, perceber que um povo que não prima pela convivência ética, precisa caminhar “sob vara”, como diria certo Ministro do STF. E, no caso, a “vara”, aqui, é todo um compêndio de leis, a começar pela própria Constituição.

Quer uma prova disto? A chamada Lei da Ficha Limpa. Esta lei existe para impedir que os caras-de-pau, mesmo depois de condenados pela justiça, se apresentem como representantes do povo. E mesmo assim, tem muito sujeito cara-de-pau recorrendo contra os efeitos e o alcance desta lei.

Você, certamente, já compreendeu que a convivência, seja ela social, familiar, religiosa, comunitária ou mesmo profissional, depende de “acertos” mútuos entre todos os envolvidos no cenário específico e que estes “acertos” precisam ser compartilhados entre todos, da forma mais inteligente possível, para que a convivência seja cada vez mais "aperfeiçoada". Daí a fantástica definição do Professor Clóvis de Barros Filho, tratada nas primeiras linhas deste texto.

Para clarear ainda mais a sua mente, imagine, pois, dois estudantes convivendo em uma república: um, aluno de física, precisa do silêncio para poder se concentrar nos estudos diários. Ou outro, estudante de música, especializando-se em tocar bateria, precisa praticar ostensivamente o manuseio do instrumento, para poder se dar bem. E aí, como é que fica? Quando um quer estudar cálculos, o outro quer tocar bateria, no mesmo ambiente. Você começa a perceber, então, que ambos terão que conversar sobre a questão dos horários em que cada um poderá praticar as teorias aprendidas em sala de aula, de modo que possam, ambos, conviverem harmoniosa e pacificamente, sem prejuízo do progresso escolar de cada um deles.

Eu acredito que você, agora que estamos chegando ao final da nossa caminhada no bosque, já tenha compreendido perfeitamente o que é ética. Porém, caso ainda paire alguma dúvida na sua cabecinha, vou citar um último exemplo de convivência ética: há muitos anos, quando ainda era estudante de Direito, eu tive um professor que contava com orgulho, sem esconder uma ponta de decepção, uma viagem que fez à Zurique, na Suíça. Dizia ele que, lá chegando, durante um inverno bastante rigoroso, com todas as ruas absolutamente vazias, saiu para dar uma volta naquele ambiente gélido e totalmente coberto pela neve. Ele e mais três amigos. Ao precisarem atravessar uma avenida, no centro de Zurique, uma via por onde não trafegava qualquer veículo naquele momento, meu professor, brasileiro, logo arvorou-se em atravessá-la o mais rápido que pode e, quando já estava no meio dela, percebeu que seus amigos estavam parados, lá atrás, como que aguardando alguma ordem para seguirem em frente. Sem entender o que se passava, e vendo a pista totalmente vazia, ele retornou até os amigos e questionou sobre o que estavam esperando: “o semáforo está verde para o trânsito e vermelho para nós, pedestres”, disse um deles, no que foi acompanhado pelos outros dois.

Meu professor disse que, por estar no meio de amigos de longa data, caiu na gargalhada mas, sem conseguir demovê-los da ideia de aguardar o momento adequado para a travessia, acabou ficando meio sem graça, justificando sua intrepidez com o hábito de muitos anos no Brasil.

Percebe o que é uma sociedade ética? Uma sociedade ética, uma instituição ética, uma pessoa ética, não dependem de leis, de câmeras, de multas ou de fiscalizações. Todos sabem muito bem o que deve e o que não deve ser feito, e compartilham isso uns com os outros.

Ah, diz você, acho que entendi: ética, então, é o respeito que eu tenho por tudo o que é do outro, inclusive, por ele, e pelo que o outro tem por tudo o que é meu, inclusive, por mim? Sim. É exatamente isso. Você é o seu vigia, o seu fiscal, a sua câmera embutida, aquele que te multa e que te cobra. Deste modo, estando absolutamente sozinho(a) ou cercado(a) por cem pessoas, o seu modo de agir é sempre o mesmo: todas as suas atitudes estarão moldadas no absoluto respeito aos valores e aos princípios já conhecidos. Lembra dos homens atravessando a avenida em Zurique?

Portanto, agora que você já sabe o que é ética e o que significa ser ético, procure participar ativamente das decisões em todos os ambientes por onde transita, a fim de que a convivência seja, realmente, e cada vez mais, aperfeiçoada. Talvez, um dia, quem sabe, você saberá de cor todos os artigos de uma Constituição destinada a um povo verdadeiramente ético.

Este texto, se você gostou, e se serviu para tirar alguma dúvida sua, pode ser compartilhado. Afinal, o valor aqui, é contribuir para melhorar todas as formas de convivência. Seja feliz e, boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

jun 08

EDITORIAL DA SEMANA: I CAN’T BREATHE TOO

GEORGE FLOYD

I CAN’T BREATHE –

*Por L. A. de Moura –

Talvez você esteja estranhando o fato de, pela primeira vez, eu utilizar um titulo em inglês para um dos meus tantos textos. Mas é que, esta expressão I can’t breathe – não consigo respirar – tem sido repetida em todos os Estados Unidos da América, durante todos os últimos doze ou treze dias, de forma sucessiva,  desde a manhã até o anoitecer. Você deve saber sobre o que estou falando. Porém se, eventualmente, não sabe, vem comigo. Vou te colocar a par de tudo.

No dia 25 de maio de 2020, um afro-americano chamado George Floyd foi cruelmente assassinado por um policial de Mineapolis (EUA), cujo nome propositalmente deixo de revelar aqui, por não ser digno, sequer, de ser chamado pelo nome que um dia um pai ou uma mãe deu a ele.

Pois bem, este sujeito inominável, mesmo percebendo que estava sendo filmado, além de rodeado por muitos curiosos, agiu de forma extremamente desumana e impiedosa ao abordar, imobilizar e colocar todo o seu peso físico, por meio do joelho esquerdo, sobre o pescoço de George Floyd, deitado de bruços no asfalto, feito um animal, asfixiando-o até a morte, embora, de quando em quando, em um curto espaço de oito minutos e meio, George tenha deixado escapar algumas vezes, por entre os dentes, e de modo ofegante: I can’t breathe – não consigo respirar. Nem assim o impiedoso e covarde policial teve misericórdia daquele homem que, apesar da compleição física elevada, estava total e absolutamente fora de combate, sem oferecer resistência, risco ou ameaça para quem quer que fosse. Um homem desarmado, indefeso e subjugado. Só mesmo um covarde é capaz de fazer mal a qualquer ser humano em tais condições.

O monstruoso e desonrado policial, com os óculos escuros sobre a maldita cabeça e com a mão no bolso, talvez forçando a perna com maior intensidade ainda sobre a vítima, fazia pose, como se estivesse ensaiando cenas de um filme macabro. O mundo todo, estarrecido, viu aquela cena chocante e pavorosa nas telas das TV’s, filmada pela adolescente, também afro-americana, Darnella Frazier, de 17 anos. Estarrecido e apavorado, o mundo todo viu, também, que ninguém, nem os demais policiais e, muito menos, qualquer pessoa do povo, teve coragem suficiente para impedir o terrível e bárbaro crime.

Qual o crime cometido por George Floyd? Ser negro! Esse foi o seu crime. Ter nascido negro e escolhido viver em uma nação que, tal qual a nossa, é vergonhosamente racista. Penso que, se as pessoas no entorno do assassino não tiveram coragem para impedir o crime, certamente, não terão coragem, também, para assumirem a, também criminosa, omissão e assim, outros Georges vão sendo vítimas, diariamente, mundo afora.

Não quero falar, aqui, sobre a biografia do George Floyd pai e trabalhador porque, certamente, será objeto de livros e, possivelmente, de filmes muito mais completos do que qualquer coisa que eu possa escrever nestas linhas. Quero, apenas, e, tão somente, deixar registrados o repúdio, o pavor, o assombro e a repugnância por este crime horrendo transmitido ao vivo e em cores para o mundo todo, quase em tempo real.

Quando a humanidade olha para o pesadelo que está vivendo atualmente, sob todos os aspectos, costuma atribuir a Deus a origem do “castigo”. No entanto, esquece-se de que, castigo divino não existe! O que existe é o preço naturalmente cobrado por todas as ações malignas praticadas, direta ou indiretamente, por todos nós seres humanos, de forma individual ou coletiva. O que existe, de fato, são as consequências das nossas omissões; das nossas covardias; dos nossos medos. Somos capazes de condenar os atos praticados, depois que são noticiados. No entanto, no momento em que estão sendo praticados diante de nós, nas praças, nas ruas ou em qualquer outro lugar, ou mesmo transmitidos para o mundo todo, fazemo-nos de desentendidos e, querendo parecer politicamente corretos, viramos o rosto para não sermos apontados como testemunhas.

A morte de George Floyd, lamentavelmente, não é única. O racismo americano, vergonhosamente, não é único. E a conivência de muitos seres humanos, de todas as raças, também, não é única. Até quando? Precisamos nos questionar, até quando, teremos que assistir tanta barbaridade diante dos nossos olhos, sem tomarmos as decisões cabíveis? E digo com bastante segurança: estas decisões não são manifestadas, apenas, nas ruas, com placas e cartazes levantados, mas, e, principalmente, nas URNAS. Enquanto não aprendermos a votar em pessoas comprometidas com a liberdade, com a democracia, com a lisura, com a honestidade, com a igualdade de todos perante todos e com o caráter, estaremos aceitando que outros canalhas asfixiem outros Georges Floyd todos os dias.

Eis que é chegado o momento de exigirmos que os Parlamentos alterem as Constituições Nacionais, exigindo de Presidentes, Governadores, Prefeitos e Administradores públicos que, antes de estenderem suas mãos, em juramento, sobre a Bíblia ou sobre a Constituição, jurem perante a Nação, admitindo serem  afastados dos cargos para os quais foram eleitos, por simples iniciativa daqueles que os elegeram, ou seja, do povo, sempre que forem tolerantes, coniventes, promotores ou instigadores do racismo, da desigualdade, de qualquer forma de discriminação ou de exclusão de pessoas em razão da raça, do sexo, da opção sexual, da ideologia de gênero ou mesmo política, da profissão ou por qualquer outra razão que seja. Tudo, por meio do voto – o mesmo povo que elege, deve ter o poder para destituir o sujeito impróprio e inadequado para o cargo  temporário de governante.

Não podemos mais admitir que seres humanos como nós, em nome do Estado, e só porque foram eleitos por uma parcela da sociedade, chamada convenientemente de maioria, façam politicagens para se manterem, e até se reelegerem, nos cargos que um dia ambicionaram. Ao povo deve ser concedido o direito de eleger e de destituir o sujeito que, uma vez empossado, adota ou tolera práticas que importem ou que impliquem em desrespeito à liberdade, individual ou coletiva, em desrespeito à igualdade humana de todos perante todos, em desrespeito o uso igualitário por todos, de todos os ambientes sociais, sem qualquer forma de exclusão ou de discriminação.

Precisamos compreender o mundo tal qual ele está se apresentando diante de nós. E, assim, decidirmos como é que vamos querer participar ativamente de uma sociedade cada vez mais elitizada e blindada pelo poder econômico. Elegendo sim, nos momentos próprios, mas, também, destituindo de forma absolutamente legal e constitucional, quando o indivíduo não cumprir o juramento feito perante o seu povo. Que os Parlamentos promovam as destituições cabíveis, quando o juramento à Constituição for desrespeitado. Mas que ao povo seja reservado o mesmo direito porque, afinal de contas, é ele quem elege e quem paga para o sujeito ficar lá, em muitos casos, tramando contra a própria sociedade e seus indefesos cidadãos.

Se fatos, como a morte de George Floyd, nos EUA, ou como as de João Pedro e a de Miguel, no Rio de Janeiro, adicionados à pandemia do corona vírus, não forem capazes de nos mobilizar e de nos colocar ativamente na sociedade, então, a espécie humana, de forma darwiniana, será dizimada assustadoramente. Não porque a maioria seja fraca, impotente ou incompetente, mas, justamente pelo contrário: a maioria é séria, honesta, simples, boa e cheia de virtudes. No entanto, estas qualidades, em muitas circunstâncias, estão ofuscando o nosso raciocínio e impedindo que busquemos o aperfeiçoamento da vida e da própria convivência em sociedade. O nome disto é ética social! Precisamos agir; repudiar publicamente; manifestar nossos sentimentos; exigir providências urgentes e concretas, impedindo a ação de baderneiros contratados para radicalizarem e para promoverem os já conhecidos e repudiados ataques ao patrimônio alheio, o que só serve para desacreditar a insurgência e o apelo populares.

Somente desta forma, penso eu, veremos diminuir as distâncias, as desigualdades, as perseguições, as discriminações e todas as formas de violação dos direitos mais comezinhos dos cidadãos e das cidadãs, sejam eles do Butão, do Afeganistão, dos EUA ou do Brasil. O mundo está clamando por mudanças, não aguenta mais!

PUNHO ERGUIDO

Este texto ecoa o meu grito de protesto, de repúdio e de repulsa pelas mortes de George Floyd, de João Pedro, de Marielle e de Anderson, de Miguel, de Trayvon Martin, de Eric Garner, de Michael Brown, de Walter Scott, de Jenifer Cilene, de Kauan Peixoto, de Kauan Rozário, de Ágatha Vitória e de outras tantas centenas de pessoas simples, humildes e, invariavelmente, afrodescendentes. Pessoas que só queriam viver, como nós, também, queremos e que tinham esse direito, como nós, também, temos.

Leia, reflita e decida sobre como você pode contribuir para que este estado de coisas seja profundamente alterado. Ainda temos tempo, apesar de tudo, para evitar outras violências, mortes, manifestações racistas e tantas outras formas de discriminação e de exclusão de irmãos e de irmãs espalhados por todo o Planeta. Mesmo assim, se for possível, seja feliz e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

jun 01

JESUS ENSINA PERDOAR, E NÓS, O QUE FAZEMOS?

A MULHER ADÚLTERA - 3

NA LIÇÃO DE JESUS: PERDOAR É SEMPRE UM ENORME DESAFIO –

*Por L. A. de Moura –

Quem pode curar sem conhecer, em profundidade, a doença? E quem a conhece tão bem senão aquele que, de algum modo, foi por ela afligido? Qualquer especialista, em qualquer área da ciência médica, só adquire plena capacidade de clinicar com sucesso se, antes, passar por grandes e profundas experiências, ainda que somente a nível laboratorial, com os males aos quais dispõe-se a enfrentar. Daí que, para ofertar a cura, deve-se conhecer bem o mal a ser curado.

Em sua Primeira Carta o Apóstolo Pedro chama a nossa atenção para o fato de que, “pelas chagas do Pastor, as ovelhas foram curadas”, referindo-se às chagas de Cristo, por meio das quais obtivemos a cura para todos os males das nossas almas. Assim diz o Apóstolo, na referida Carta: “ele levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; “por suas chagas fostes sarados” (1Pd 2,24).

Na verdade, a tradição petrina nada mais faz do que reproduzir exatamente as palavras do segundo Isaías, quando afirma: “Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas, ele mesmo carregou com as nossas dores; nós o reputamos como um leproso, como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa das nossas iniquidades, foi despedaçado por causa dos nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas pisaduras” (Is 53, 4-5).

Diante disto, é notável a necessidade de estarmos intimamente ligados aos sofrimentos passados por todos os nossos semelhantes, a fim de que consigamos compreender de forma plena e satisfatória, o que realmente aflige o outro.  Fora daí, torna-se muito fácil a defesa do castigo para qualquer errante; a busca pela justiça a qualquer preço para delinquentes de menor expressão; a exclusão daqueles que não rezam pela mesma cartilha que nós. Torna-se extremamente fácil julgar o outro por tudo o que faz ou deixa de fazer.

É preciso ter a exata noção do sofrimento para, diante do que se passa com o alheio, podermos compreendê-lo, atendê-lo, socorrê-lo e guiá-lo diante de tudo o que sofre na carne ou no espírito. Não é exatamente isto o que temos visto ultimamente no mundo, especialmente no Brasil, onde a sede por vingança e por ajuste de contas parece não ter fim. Qualquer evento negativo que ocorre, pessoas e instituições logo, logo, bradam por justiça acima de qualquer coisa e, com frequência assustadora, por reparação financeira que, entre nós, recebe o sugestivo título de “dano moral”.

Apesar de já estarmos no curso da terceira década do século XXI, parece que a Lei de Talião, a cada dia, ganha mais e mais força no embate milenar com a lei de Cristo, que ensina o perdão das ofensas, assim como somos perdoados por nossas ofensas, pelo Pai que está nos Céus. Ou, pelo perdão que vivemos a Ele implorando!

A luta pela sobrevivência é árdua e implacável, e muitas pessoas, sequer, têm o tempo necessário e suficiente para uma reflexão acerca do que é certo e do que é errado e, por vezes, acabam praticando determinados atos que não são ilegais, mas, que, por fim, acabam magoando, ofendendo ou causando desgostos e aborrecimentos às demais pessoas. Pois até por causa destes atos, a justiça é implacavelmente clamada, mesmo que apenas uma justiça de natureza econômico-financeira, com os evidentes objetivos de fustigar o errante e de promover ganho para o bolso da suposta vítima. Em muitas situações, o crime advém da palavra mal colocada, da fala impensada ou, por vezes, maliciosamente interpretada.

O mundo está do jeito que está porque nós, seres humanos, temo-lo feito assim. Somos nós que, de um modo geral, encaminhamos as petições ao poder público e incitamo-lo a buscar nos calhamaços das milhares de leis pátrias um dispositivo apropriado para punir exemplarmente, no nosso linguajar, o faltante clamando pelo castigo que entendemos ser merecido.

No entanto, se somos realmente cristãos e se professamos com fidelidade a fé em Cristo e nos seus ensinamentos, precisamos rever os nossos procedimentos em relação aos nossos semelhantes. É por demais conhecida a passagem do Novo Testamento, na qual a Jesus é apresentada uma mulher acusada de adultério. Seus acusadores, assim como os de hoje, amparam-se na Lei de Moisés para buscar em Jesus a sentença de morte para aquela pecadora.

Jesus conhecia muito bem a lei e sabia que, de fato,  a prescrição legal era o apedrejamento em praça pública. No entanto Ele quer deixar claro para todos que, acima da lei escrita está a lei da misericórdia e do perdão, sem a qual não seremos, jamais, imagem e semelhança do Criador. Mas Jesus, também, não poderia incitar o descumprimento da lei que Ele mesmo já havia declarado ter vindo para cumprir. Olha para aqueles acusadores sedentos e, simplesmente, sugere que, aquele que estivesse sem faltas, atirasse a primeira pedra (Jo 8, 3-11).

Como sabemos, foi o suficiente para que, um a um daqueles implacáveis acusadores, fossem embora sem conseguirem impor à mulher a pena prescrita na lei. Jesus, como bom, fiel e honesto Juiz, concede o perdão àquela que, na forma da lei, já deveria estar morta em pleno solo arenoso.

Na visão de Jesus, perdoar é sempre um enorme desafio para o ser humano porque, acima de tudo, importa em abandonar a hipócrita retórica do “necessário cumprimento à lei”, para abraçar a lógica do Reino de Deus, no qual, somente os misericordiosos alcançarão misericórdia e, apenas, receberão o perdão os que, verdadeiramente souberam, em vida, perdoar seus semelhantes.

É isto que muitos e muitos pseudocristãos não conseguem compreender e, tampouco, colocar em prática no dia-a-dia das suas vidas. Lutam desesperadamente por uma reparação financeira ou pelo lançamento do infrator nas profundezas sujas da masmorra, sob o argumento de que, assim, o delinquente, não molestará outras vítimas. Nada tem mais poder de trazer o arrependimento do que o perdão expresso para o errante. Pessoas que, diante de um júri popular, em outros países é claro, perdoaram seus algozes, conseguiram o que nenhuma lei é capaz de conseguir: o profundo arrependimento do infrator, levando-o, em muitos casos, às lágrimas sinceras e restauradoras, bem como a um novo modo de vida.

Infelizmente, em nosso meio, ganha força a cada dia a retórica de que é preciso punir severamente para, “de forma didática”, coibir novos malfeitos.

É claro e evidente que, quando sofremos alguma agressão, seja por atos ou por palavras, no momento do sofrimento manifestamos o desejo de ver a punição mais dura possível para o infrator. No entanto, quem está de fora, se for verdadeiramente cristão ou cristã, deve trazer para nós, nas referidas oportunidades, o conforto, o consolo e a Palavra de Jesus para que, serenados os ânimos, retornemos à razão e saibamos decidir o que fazer buscando, em Cristo, e não na lei dos homens, a orientação apta ao momento.

Esta deve ser a posição do verdadeiro cristão, da verdadeira cristã. Não, o que temos visto por aí: pessoas incitando a vingança legal ou a justiça pelas próprias mãos, a imposição do severo e mais contundente castigo, como se isso fosse capaz de restaurar o status quo ante. Se queremos um mundo melhor, temos de ser melhores. Se queremos um mundo mais justo, temos de ser mais justos. Se queremos o perdão para os nossos atos e palavras que, muitas vezes, consideramos sem potencial maligno ou maléfico, temos de saber, também, perdoar os nossos ofensores.

Muitos dirão: falar é fácil. Mas, para Jesus, falar também foi fácil. Tão fácil, que surtiu grande efeito. Precisamos rever os nossos procedimentos, se realmente queremos um mundo melhor porque, se ele está do jeito que está, vale repetir, é porque nós colaboramos para que seja assim. Tudo o que é plantado, é colhido no devido tempo. Não se sinta ofendido ou magoado com este texto. Trata-se, apenas, de um convite à reflexão. Se considerá-lo errado ou contrário ao seu entendimento, já antecipo o pedido de perdão. Apenas reflita, tire suas próprias conclusões e, se for o caso, reveja seus conceitos e procedimentos. Não se esqueça de que, assim como esperamos muito do mundo, o mundo, também, espera muito de nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

jun 01

EDITORIAL DA SEMANA: O QUE SABEM OS SÁBIOS DE HOJE?

SABER E SABEDORIA

O QUE OS SÁBIOS SABIAM, QUE HOJE POUCOS SABEM –

*Por L. A de Moura – 

Pode ser que você, preocupado(a) ou mesmo desanimado(a), questione-se sobre o porquê de vivermos em meio a tão pouca sabedoria, quando o século presente, talvez, seja o mais prodigioso de toda a história da humanidade, principalmente, se for levado em conta a extrema rapidez com que os seres humanos resolvem seus dilemas, os mais complexos possíveis, envolvendo, quase sempre, uma extraordinária tecnologia de ponta.

Eu penso que você deve estar se esquecendo de que, nem sempre, a sabedoria é expressada em forma de bens materialmente produzidos, ou em algo visivelmente presente diante dos olhos de qualquer analista. Não dá para chamar, necessariamente, de “sábio” aquele ou aquela que resolve “dilemas”, equações ou problemas complexos. O sábio, com certeza, é muito mais do que isto. O sábio, a bem da verdade, não resolve problema algum, ele, simplesmente, tem o poder de impedi-lo de se fazer presente em dado momento da vida.

Sábia, na verdade, é a criatura humana que, ao lançar o seu olhar, compreende rápida e instintivamente o exato ponto para onde deve direcioná-lo, de modo a antecipar-se, em muitos casos, em décadas ou mesmo em séculos, àquilo que poderia, um dia, tornar-se um verdadeiro problema ou mesmo um dilema.

Quando lançamos um olhar para todo o nosso entorno, nos dias atuais, sentimos um verdadeiro pavor, mais ou menos semelhante ao que, por certo, sentirão os passageiros de um voo, ao descobrirem que o combustível do avião chegou ao fim, ou coisa do gênero. Não se trata, evidentemente, de superdimensionar a questão. De fato, os dias que correm causam verdadeiro pânico quando, facilmente, podemos perceber, que a nave na qual bilhões de seres humanos estão à bordo, está sem comando, ou pior: está sendo comandada por quem é altamente preparado para a guerra, para o conflito, para o combate e para a morte, ou seja, para infringir danos irreparáveis aos seus semelhantes. Tudo, menos o preparo para a condução segura, sábia e responsável de uma aeronave repleta de vidas que necessitam chegar sãs e salvas ao final da viagem.

Bem, você poderia, então, admirar-se da ideia de que o sábio é aquele que, apesar de não resolver problema algum, antecipa-lhe de modo tal que, simplesmente, impede que ele venha a ocorrer. Mas, como assim? Quem poderia ter tamanha capacidade, visão ou instinto? Eu posso responder: o sábio!

O sábio, porque somente ele é capaz de compreender a necessidade de direcionar o seu olhar, não, para o futuro nem, tampouco, para o presente, mas, somente para o passado. Isto pode te parecer estranho, para dizer o mínimo. Mas, com pouca reflexão entenderá o mecanismo da coisa. É no passado mais remoto, mais distante da espécie humana, que é possível de serem encontradas as verdadeiras origens de tudo o que existe, seja em que campo for. E é lá, nas profundezas deste passado, que poderemos encontrar, não apenas os problemas e os desafios enfrentados, mas, também, e, principalmente, as fórmulas adotadas para a solução de tudo, simplesmente porque, lá, os seres humanos sabiam fazer o que os de hoje não sabem: raciocinar, refletir.

Ora, você ficará intrigado: como podemos retornar ao passado para solucionar problemas absolutamente diferentes? É claro que tudo é infinitamente diferente. Você tem razão, mas, esquece-se de pequeno detalhe: os seres humanos daqueles tempos foram criando métodos e mecanismos suficientemente capazes de solucionar, não apenas aqueles problemas e desafios, mas, capazes, inclusive, de evitar a repetição ou o agravamento e, no futuro, todas as vezes que algo parecido se aproximava da humanidade, aquelas soluções primitivas eram reestudadas e, por óbvio, formuladas em bases atualizadas, de modo que tudo ia sendo resolvido a seu tempo, porque existia enorme sabedoria.

Aqueles seres humanos, não olhavam para o smartfone nem consultavam o Mr. Google. Sabiam, portanto, fazer o que os homens de hoje, simplesmente, não sabem, ou, abriram mão de fazer: refletir sobre tudo e sobre todas as coisas. Conheciam um princípio fundamental para a aquisição da sabedoria: o raciocínio. Exerciam o direito de raciocinar. Coisa que os seres humanos deste século XXI, simplesmente, deixam de lado, para seguir os "formadores de opinião" que, no fundo, no fundo, só possuem mesmo ela, a opinião. Não raciocinam mais. Preferem dar ouvidos às notícias veiculadas em abundância em toda a mídia. Preferem seguir as pesquisas de opinião e, mansamente, aderir ao pensamento de uma maioria, em tudo, duvidosa. Os seres humanos antigos, não. Eles raciocinavam; eles refletiam; eles eram capazes de criar métodos e sistemas muito sofisticados e extremamente eficazes. Tão sofisticados e tão eficazes que, até os dias de hoje, muitos deles ainda não foram totalmente compreendidos e, portanto, ainda são objetos de profundos estudos.

Os exemplos estão aí às dezenas, para você pesquisar. Pode, para início de conversa, fazer pequena pesquisa sobre as normas que regiam a sociedade antiga. Posso antecipar para você, a título de exemplo, que, na década de 1864, um historiador francês chamado Numa Denis Fustel de Coulanges escreveu “A Cidade Antiga”, focada nas cidades de Atenas, de Esparta e de Roma. É ali, naquele pequeno livrinho, de 413 páginas, que ele conta, por exemplo, a origem, a força e a influência da religião. Não de qualquer religião, mas, da religião do lar. Antes de você torcer o nariz, deixa eu te contar mais uma coisa: esta antiga religião foi o nascedouro, por exemplo, da formação e da organização da família, com toda uma compreensão sobre a composição e a legitimidade do parentesco, do direito de propriedade, do direito de adoção e do direito de sucessão, além de traçar os limites da autoridade no interior de cada família. Era nestas sociedades antigas, com esta baliza religiosa, que os seres humanos que viviam nas cidades mais evoluídas e mais prósperas do mundo de então, conviviam, sobreviviam e mantinham suas relações sociais, cultuais e negociais, sem maiores entreveros e com absoluto respeito às normas vigentes.

Você pode não se dar por satisfeito(a) e desejar mais. Então, sugiro a leitura dos artífices das cidades-estados da Grécia, com os filósofos e tudo, com Sócrates, Platão e Aristóteles e tudo, com a República e seu fabuloso mito da caverna e tudo o mais. E, se quiser ir mais longe um pouco, estude a genial mitologia, onde humanos e deuses conviviam de tal forma que, um estudo mais aprofundado, permitirá compreender que retratavam, justamente, a vida e as relações sociais de uma Esparta ou de uma Roma, em um tempo em que não eram permitidas e nem toleradas críticas abertas aos seus respectivos sistemas administrativos e governamentais. A mitologia não foi inventada para entreter o povo, nem para enriquecer dramaturgos sem oportunidades de trabalho na TV. Ela teve um propósito e uma finalidade muito importantes na vida dos povos antigos, especialmente, na dos gregos e na dos romanos.

E, se mesmo assim, ainda não te convenci, então, sugiro a leitura da Bíblia que, também, traz narrativas de tempos muito antigos. Histórias, todas, fundamentadas na religiosidade, no culto, e em um fantástico arcabouço jurídico e social (basta ler, não concordar ou aceitar, mas, ler, os Livros do Levítico e do Deuteronômio).

O grande problema enfrentado nos dias atuais é, em primeiro lugar, a prepotência de um ser humano que, não entendo bem em que bases ou fundamentos, acredita ser mais sábio do que aqueles grandes homens do passado. E, conjugada com a prepotência, a ausência de humildade, revelada pela convicção de ser o único ser capaz de compreender, de forma perfeita, os dilemas, os transtornos e os desafios da atualidade. Parece meio evidente a necessidade de retornar às origens para uma boa compreensão, principalmente, sobre as razões que nos permitiram chegar até aqui. O conhecimento sobre o que, de fato, sabiam e conheciam os antigos acerca do ser antropológico tão estudado em épocas passadas. Sobre as culturas da terra, sem a praga do agrotóxico, sem o envenenado uso dos transgênicos. Quanto mal tudo isto tem trazido para a humanidade. Quantas doenças e quantas mortes!

Por não estudarem sobre o passado, não ouvindo o que os sábios antigos diziam, os seres humanos de hoje esqueceram os valores da República (res publica), da democracia, da liberdade, do Espirito das Leis, dos Poderes inerentes ao Estado, e por aí vai. Os homens de hoje, não encontrando nada de mais sábio e de mais inteligente para fazerem, decidiram questionar a necessidade de a roda ser redonda, por que não quadrada? Perguntam os imbecis da hora! Outros, acéfalos, quiçá, vítimas do Zica vírus, discutem a necessidade e a urgência de cuidar com zelo do ambiente natural no qual estamos, todos, inseridos. Por que, questionam, precisamos cuidar dos rios, dos mares, das florestas, dos parques, dos lagos, das baleias, dos índios, do solo? Eles simplesmente não conseguem compreender. Tem horas que a gente até chega a pensar que alienígenas vieram procurar vida por aqui e, ao descobrirem esta forma de vida acéfala, retornaram para os seus mundos de origem, sem deixar rastros.

E, para piorar ainda mais o cenário atual, vez por outra temos ouvido por aí, o questionamento acerca da esfericidade da Terra. Alguns apostam que ela é plana! Com estes “sábios” que temos, como é que ainda temos coragem de falar sobre sabedoria? Parece justa, e verídica, a afirmação daquele homem simples do campo, que dizia para quem lhe perguntava: onde estão os sábios de hoje? E ele respondia, sem pestanejar: “no cemitério”. Talvez tenha razão, pelo menos, penso eu, quem está nos cemitérios não abre mais a boca. Não fala mais nenhuma asneira.

Você, então, talvez compreenda que os sábios antigos consultavam os antepassados, liam as famosas tabuinhas de cerâmica, depois, os pergaminhos. Perscrutavam o universo, a natureza, os corações, os sentimentos e, por fim, os deuses. Mas, no fim, sempre acabavam acertando e sobrevivendo. Nós, infelizmente, estamos quase destruindo tudo, inclusive, a nossa própria espécie, porque nem investigar o passado sabemos. No entanto, queremos prever e antecipar o futuro. Infelizmente, não dá para imprimir risadas. O papel ainda não aceita este tipo de imposição. Senão, seria o caso de colocar, aqui, muitas gargalhadas, que é o que estamos, todos, a merecer.

Reflita sobre este texto e não acredite em nada do que está escrito nele. Apenas exerça o seu direito de raciocinar e, depois, investigue um pouco sobre os grandes sábios do passado. Eles e tudo o que deixaram para nós que, graças à “educação” que recebemos, estamos dando conta de destruir peça por peça. Após exercer o seu inalienável direito de raciocinar, descubra onde estão as portas para a sabedoria de que tanto necessitamos. E, por fim, compartilhe tudo o que nascer da sua reflexão, com outros seres humanos. De boca em boca, talvez, consigamos melhorar este nosso fatídico destino. Seja feliz e, mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio

mai 25

EDITORIAL DA SEMANA: PROCURA PELA FELICIDADE?

ONDE ESTÁ AFELICIDADE

SE A FELICIDADE EXISTE, DE QUE LADO ELA ESTÁ?

*Por L. A. de Moura – 

Você, que fala vários idiomas, conhece a língua dos anjos, fala com Deus, ouve os espíritos, é assíduo leitor e, vez por outra, escreve algumas poesias, talvez traga no peito e na alma uma simples indagação, acreditando que eu seja capaz de te fornecer uma resposta satisfatória: se a felicidade existe, de que lado ela está? Você, certamente, não é o primeiro a carregar este questionamento na alma. Muitos séculos antes de você esta pergunta já era feita aos sábios de cada época.

Bem, obviamente que eu não possuo as qualidades intelectuais, nem as capacidades técnicas que você possui. Também, não me enquadro na categoria “sábio”, desta era em que vivemos. Portanto, em tese, eu seria a última pessoa a me atrever a responder à sua pergunta. Entretanto, valendo-me do muito pouco que aprendi na e com a vida, e diante do silêncio geral ao seu questionamento, vou me atrever a responder, do meu jeito, é claro, à sua pertinente indagação.

Existem boas teorias acerca da felicidade. Cada qual mais engenhosa, mais atraente, mais sedutora mas, por fim, com pouco ou nenhum efeito prático. Para os mais sábios deste nosso tempo, duas fontes aptas para a formação e para a própria identificação da felicidade, seriam o amor e o poder. O amor, que para Pausânias, significava Eros, um amor livre, ainda que perseguido e condenado, mas que, com aguerrida luta, deveria conseguir o seu espaço próprio no seio da sociedade. Este mesmo amor é visto de outra forma por Aristófanes, para quem o amor, em rápidas palavras, é a busca constante por nossa cara metade, por nossa alma gêmea, enfim, pelo nosso “outo lado”.

Na lógica destes dois nobres senhores, cujas vozes são trazidas à tona por Platão, na obra “O Banquete”, o amor, ou o Eros, é o elã que, em dado momento, encaixa-se como uma luva e aí, sim, sobrevém a felicidade. Dá pra perceber que esta busca constante por viver um “amor de verdade”, seja pelo reconhecimento social, ou mesmo por meio do encontro com a “alma gêmea” ou pela localização da “cara metade”, é a meta de muitos seres humanos ao longo de todos os séculos que nos separam dos nossos amigos gregos.

Na outra ponta, vamos encontrar os sábios de hoje, deste pleno século XXI, para os quais – que dispensam a citação nominal em razão da impossibilidade prática de tal trabalho – a felicidade advém da realização pessoal que, nada obstante, tem no status social a sua grande e segura alça. Status social, aqui, é aquela condição de vida que te permite ser reconhecido(a) como alguém que, seja lá quais foram os meios utilizados, chegou lá. Chegar lá, significa alcançar tudo o que mais desejou na vida. Ou, alcançar tudo o que todos, normalmente, desejam. E aí você vai ao infinito, tamanha a quantidade de possibilidades de coisas e de degraus a serem trazidos para junto de você.

Bem, profissionalmente, a gente sabe que a coisa não caminha de forma tão fácil. Quando terminamos a quarta série do ensino médio, a diretora da escola, tia Margarida, chega em sala e diz: “meninos e meninas, preparem-se, pois, a partir do ano que vem, vocês serão muito mais felizes. Terão várias disciplinas, cada uma com o seu próprio professor e vocês irão, de fato, levantar voo”. A expectativa é grande e, no ano seguinte, a impressão que você tem é que pouco, ou nada, mudou: matérias em quantidade assustadora, exercícios, trabalhos, provas, notas, aprovação, reprovação, broncas etc.

No nono ano, porém, o diretor da escola, Professor Durval entra em sala e diz: “rapazes e moças, preparem-se. Ano que vem a vida de vocês vai, finalmente, decolar, vocês entrarão na órbita acadêmica e, daí pra frente, ninguém mais lhes impedirá de serem muito felizes”. O ensino médio traz poucas diferenças. Nada parecido com “felicidade”. Mas, no último ano, o diretor, Professor Sinval aparece em sala e diz: “prezados jovens, preparem-se: as portas da felicidade está para ser aberta para vocês. Estamos no ano do ENEM e isso significa que, no próximo ano, vocês, finalmente, serão muito felizes, pois, a vida universitária é o máximo que um jovem pode almejar em seus primeiros anos de marcha rumo à uma carreira brilhante e feliz”. Você, nesta fase, recorda já ter ouvido esta lenga-lenga algumas outras vezes, mas, otimista, vai em frente, ainda, acreditando que a felicidade, agora, já deve estar próxima, talvez, na esquina seguinte, onde fica localizada a Universidade.

Ao adentrar no ambiente universitário, tudo parece, realmente novo e promissor. Mas, dias e meses vão se sucedendo e, lá pelo final do segundo ano, um professor mais realista chega em sala e diz: “pessoal, a Universidade faz todo o possível para que alcancem a felicidade, mas, o bom mesmo, o caminho ideal para vocês, é conseguirem um estágio profissional e, já a partir do próximo ano, esta realidade estará batendo às suas portas. Portanto, preparem-se para, finalmente, serem felizes”.

Você, a muito custo, com muita luta e com a ajuda de todos os santos, amigos, parentes, vizinhos, conhecidos etc., consegue o tal estágio. Ufa! Agora, sim, a felicidade começará a sorrir para mim. Finalmente, chegou a minha vez! Só que não. Já no primeiro dia no estágio profissional, alguém, que é escalado para te conduzir nos primeiros passos da profissão, diz pra você: “olha só, estágio aqui não vale quase nada. Pra você ser top mesmo, precisa conseguir ser efetivado. Aí sim, você tem tudo para ser feliz. A empresa te joga nas alturas e a felicidade te carrega nos braços”.

Depois de muita luta, muito sofrimento e muitas desilusões, e depois de já ter colado grau na universidade, você, finalmente, consegue ser efetivado naquela empresa que promete a felicidade para todos os seus colaboradores. Primeiro dia no emprego, muita alegria, pura emoção. Agora você é direcionado(a) para trabalhar no quarto andar, próximo à diretoria. Lugar onde você nunca tinha podido estar antes. Que sonho, que benção! Apresentado ao chefe, ele diz para você: “olha só, aqui você vai ralar muito até conseguir um lugarzinho ao sol. Começa como ADM XV e, quando chegar no I, aí sim, você será o top do top. Até lá, meu caro, prepare-se para lutar bravamente”.

Não é preciso dizer mais nada. Você já compreendeu, ou recordou, que a tal da felicidade está, sempre, muito além do tempo, lugar que ninguém sabe precisamente aonde fica. E, para resumir a sua feliz história, quarenta anos depois, quando já estava no ADM IV, avisam a você que, dali pra frente, precisam de gente mais jovem, com mais vigor e mais disposição. Você, então, não encontrando solução mais aprazível, decide pela aposentadoria, numa última cartada em busca da tão sonhada e perseguida felicidade: “agora, sim, você pensa, sou livre. Posso comer churrasco todos os dias, beber cerveja gelada a toda hora no verão. Caçar, pescar, ler, meditar, dar aulas, escrever etc.”. Só que não! Rapidamente o médico trata de burilar sua dieta e traçar limites muito rigorosos para o dia-a-dia da sua vida, se quiser continuar vivo. Um dia, finalmente, lá pelos oitenta e tantos anos você, já no leito final (omitimos a palavra morte para não te assustar), recebe a visita do Padre Francelino que, num português arrastado diz: “não fiquemos tristes, nada termina com esta vida. O melhor  de tudo, a felicidade real, ainda está por vir”. E você já não fala mais nada, porque a voz nem sai.

Para uns outros sábios, a felicidade está tremendamente vinculada à satisfação de desejos. Ah, aí você se esbalda, pois, o que não te falta são desejos. Mas logo, logo, você se dá conta de que qualquer desejo é ardentemente perseguido até ser concretizado. Depois, já não é assim. Sócrates dizia que o sofrimento causado pela dor, traz a felicidade no alívio desta mesma dor. Ou seja, o que você sofre para acessar o objeto do seu desejo, é recompensado pelo alívio da consecução e do alcance deste mesmo desejo. Passado este alívio inicial, novos sofrimentos vão surgindo e você, como no mito de Sísifo, vai chegando com a sua pedra no topo da montanha para, em seguida, vê-la despencar, novamente, para o ponto inicial. E assim, sucessivamente, você vai caminhando, sempre acreditando que, da próxima vez, a pedra ficará estacionada no topo da montanha. Cada desejo satisfeito, zera a sensação de felicidade e outros desejos vão surgindo, num indo e vindo sem fim.

Existem, ainda, os que afirmam que por meio do consumismo, que não te impõe qualquer limite, a não ser o financeiro, você será, finalmente feliz. Ledo engano! Por mais dinheiro que possa acumular ao longo da vida, ou mesmo herdar, haverão coisas que afastarão de você a tal da felicidade. Vejam-se os exemplos de grandes astros do cinema, do esporte e da música, hiper milionários, possuidores dos bens materiais mais valiosos do mundo que, em determinado momento, decidiram colocar um fim à própria vida, seja de forma direta ou indireta, por meio de vícios devastadores.

Quando eu era menino meu pai costumava me levar para passear em um bosque na cidade onde morávamos. Era um bosque muito grande, ainda é, com lagos naturais e cheio de peixes multicoloridos, muitas aves e pássaros, flores de mil espécies e, principalmente, as orquídeas, as minhas favoritas. Aquele ambiente me transmitia uma inefável sensação de felicidade. Eu me sentia absolutamente feliz naquele ambiente. Os anos foram passando e, todas as vezes em que estava chateado, aborrecido ou decepcionado com alguma coisa, eu recorria ao passeio naquele bosque, onde a felicidade estava sempre presente e eu saía bastante renovado.

O tempo passou, a idade chegou, mudei-me da tal cidade, mas, ainda hoje, conservo o hábito de visitar parques, jardins públicos e/ou bosques, nos quais encontro basicamente as mesmas coisas que encontrava lá, no meu tempo de menino. A felicidade é a mesma, saio daquele ambiente, sempre, fascinado pela beleza da Criação. Sempre agradecido a Deus por ter criado espécies tão distintas, tão ricas, tão belas e tão capazes de proporcionar uma felicidade indizível à minha alma.

De tudo o que pude deduzir, por tudo o que vi e vivi,  a resposta a ser dada à sua pergunta: “a felicidade existe?”, é “sim” e “não”. Sim, se você buscá-la na dimensão espiritual. Não, se a busca for no ambiente material e materialista no qual vive.

No primeiro caso, assim como no exemplo do bosque, a felicidade sempre estará lá, para ser curtida e vivida durante todo o tempo desejado. Já no segundo caso, ela é efêmera, passageira, decepcionante. Digo decepcionante porque a fórmula nem sempre se repete. Nem sempre você é feliz quando alcança o bem desejado; nem sempre você é feliz quando adquire o objeto do seu desejo. No entanto, novamente, no caso do bosque, a felicidade que já é sua conhecida, sempre estará lá, basta a sua chegada para que ela invada e domine todo o seu ser.

Daí a importância fundamental em saber como você se prepara para buscar a felicidade: como ser humano ou como ser espiritual? Desta resposta depende toda a felicidade que você procura. De um lado, as inconstâncias, inconsistências e incoerências de um mundo que te deseja avidamente, mas que nada tem para te oferecer de duradouro, de permanente. Do outro lado, a consistência, a coerência, a constância, o equilíbrio, a permanência de um sentir que te atrai pela própria natureza e para a satisfação da sua alma e não, como no primeiro caso, do seu ego. Porque o que satisfaz à sua alma, satisfaz a toda e a qualquer alma que se aproxima – observe como toda a criação se revela feliz diante da beleza e da completude da natureza – mas, o que satisfaz apenas o seu ego, nem sempre encontra ressonância nos demais seres.

Como disse desde o início desta nossa conversa, não sou a pessoa indicada para responder à sua indagação. Apenas trouxe até você um pouco do que aprendi pelas estradas de uma vida que, tal qual a felicidade deste mundo, é efêmera, transitória e, portanto, passageira. Se te fizer bem, reflita e tire algumas conclusões. Talvez estas pobres palavras possam ter alguma valia para a sua vida. Caso contrário, é só deletar! Seja feliz, e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é estudante de teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

mai 18

EDITORIAL DA SEMANA: OS CRISTÃOS ESTÃO CONFUSOS

A PARTILHA DO PÃO

NÓS TAMBÉM NÃO RECONHECEMOS JESUS –

*Por L. A. de Moura –

É o Evangelista Lucas quem vai nos trazer a história de dois discípulos que, no dia da Ressurreição de Jesus, voltavam para a aldeia de Emaús, distante de Jerusalém uns onze quilômetros. À pé, esses dois discípulos retornavam para casa e, no caminho iam comentando tudo o que sucedera naquele final de semana em Jerusalém. Possivelmente tratava-se do casal Cléofas e Maria, já que estavam indo para a casa comum. Lucas identifica apenas Cléofas. No entanto, ao narrar tudo o que se passa com eles ao chegarem em casa, dá para perceber que se trata, realmente, do referido casal, uma vez que no Evangelho de João está dito que, junto à cruz, estavam a mãe de Jesus e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, além de Maria Madalena (Jo 19, 25).

Bem, iam os dois conversando quando, de repente, percebem a presença de mais um companheiro para a caminhada que, embora desconhecido, manifesta interesse em saber sobre o que estavam conversando aqueles dois. Ora, qual assunto era o mais comentado naqueles dias em Jerusalém? Ambos ficam espantados, entreolham-se meio descrentes e perguntam ao acompanhante: “Tu és, por acaso, um estrangeiro, um forasteiro que está de passagem por estas bandas? Então ignoras tudo o que se passou em Jerusalém por estes dias?”

O homem faz-se de desentendido e diz: “não sei não, o que se passou por aqui de tão importante?” “Então não sabes, mesmo”, disseram eles, “o que se passou com Jesus, o Nazareno, que foi profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e diante de todo o povo?” Pelo visto tu não tens conhecimento da infeliz decisão tomada pelos nossos príncipes dos sacerdotes e pelos nossos magistrados, que entregaram o profeta para ser condenado à morte e que, por fim, foi mesmo crucificado e morto.

O homem que os acompanhava ouvia tudo atentamente, demonstrando bastante curiosidade. Eles prosseguiram dizendo:. “Nós esperávamos que ele tivesse vindo para redimir todo o povo de Israel. Achávamos que o Nazareno tinha vindo, realmente, para nos libertar do jugo estrangeiro e nos resgatar de modo glorioso e majestoso, talvez como o fizera Moisés há tanto tempo. Mas não, nada disso aconteceu e hoje faz três dias que o nosso tão festejado profeta morreu. Três dias que tudo isso se passou por aqui. É verdade que hoje, mais cedo, algumas mulheres que pertencem ao nosso grupo, disseram ter ido diante do túmulo em que haviam colocado o corpo de Jesus e, chegando lá, perceberam o vazio do túmulo. Disseram, também, que, quando retornavam para casa, encontraram uns anjos que afirmaram que o profeta está vivo. Outros dentre os nossos foram ao túmulo e verificaram que, realmente, estava vazio, porém, não encontraram nenhum vestígio de Jesus. Ninguém sabe o que pode ter acontecido”.

O homem, embora demonstrasse desconhecer totalmente o ocorrido com Jesus, chama-lhes a atenção para tudo o que já havia sido anunciado pelos profetas: “Não era preciso” questiona ele, “que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse na sua glória?” e, começando por Moisés, vai passando por todos os Profetas, interpretando cada um deles, a partir de tudo o que, nas Escrituras, falavam sobre o Cristo. Tudo o que cada um dos Profetas havia anunciado acerca da vida e da trajetória de Jesus aquele homem, até então desconhecido, falava com aqueles dois angustiados discípulos.

Durante a caminhada, onze quilômetros à pé, eles ouviram muitas coisas e logo, logo, perceberam que, se aquele estranho demonstrava nada saber sobre os fatos recentes ocorridos em Jerusalém, conhecia as Escrituras em profundidade, pois, ia dando verdadeira aula para eles. Estavam gostando da conversa quando, de repente, já estavam às portas da sua aldeia. O estranho ameaça a despedida, mas eles, no entanto, insistem para que ele fique por ali, pois já era final de tarde e o dia já estava a terminar. O homem aceita o convite e entra na casa com eles.

Mesa colocada, todos sentados em volta dela, eis que o estranho toma o pão em suas mãos, abençoa-o, parte-o e entrega a cada um deles o seu bocado. Neste momento, os dois discípulos têm os olhos abertos e percebem que o estranho, na verdade, é o próprio Jesus. O mesmo Jesus sobre o qual eles haviam lamentado tanto a morte e a ausência. Sim, era de fato Jesus! Naquele instante eles percebem que o companheiro tão versado nas Escrituras, como que por encanto, desaparece da presença deles. Olham-se mutuamente e dizem: “Não é verdade que o nosso coração ardia quando, durante a caminhada, ele nos falava sobre as Escrituras?” (Lc 24, 13-32).

Lucas afirma que os dois discípulos, na mesma hora, levantaram-se de seus bancos e retornaram para Jerusalém para, junto aos demais discípulos, darem o testemunho de tudo o que presenciaram. Da boca dos discípulos, que estavam reunidos, ouviram: “É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!”

O que Lucas não conta, mas podemos deduzir facilmente e sem risco de erro, é que, naquele momento de reunião de todos eles, todos aqueles corações ardiam de felicidade porque, tudo o que mais temiam ter acontecido, mostrava-se absolutamente equivocado: Jesus não havia sido uma desilusão; não havia morrido para sempre; estava vivo. Estava de volta à vida!

A leitura desta parte do Evangelho de Lucas faz-nos questionar sobre quantas vezes nós, também, não nos mostramos desiludidos, acreditando e lamentando que Aquele em quem havíamos depositado tantas esperanças, partiu em definitivo para bem longe de nós. Não nos ouve mais. Não está mais presente ao nosso lado, para contar-nos sobre as Escrituras e para demonstrar seu poder em obras e em palavras.

Por quantas e quantas vezes, no curso desta longa caminhada para a nossa Emaús pessoal e particular, não temos a companhia de um “forasteiro”, um desconhecido, que tanto revela conhecer sobre as Escrituras e as palavras dos Profetas, e nem assim, somos capazes de perceber que, aquele que nos fala, pode ser o próprio Cristo? Afinal, não foi Ele mesmo que disse que quem acolher a um destes mais pequeninos irmãos, é a Ele próprio que acolhe? Precisamos ver a partilha do Pão para percebermos a presença Daquele de quem afirmamos ser fieis seguidores?

O mundo está passando, nestes turbulentos anos 2020, dias e meses de muita aflição, de muitos medos, muitas incertezas, muitas suspeitas, muitas intrigas de todas as formas e, infelizmente, nossa angústia não decorre da ausência de Jesus, pois, Dele, sequer fazemos menção. Dele, apenas, e, tão somente, esperávamos que viesse para nos “libertar do jugo do mal”, já que não veio até agora, precisamos nos unir em torno de um ideal comum, precisamos reformular nossos projetos e nossos objetivos. Precisamos, enfim, traçar novas estratégias para o pós-qualquer coisa. Tudo, menos “precisamos caminhar com este estranho que fala conosco sobre as Escrituras e sobre os Profetas”, quem sabe, não se trata do próprio Jesus que está caminhando do nosso lado, enquanto planejamos a abertura de novos túmulos, sem nos darmos conta de que o verdadeiro túmulo já está vazio há muito tempo?

Este é apenas um convite à reflexão. Os discípulos de Emaús tinham muitas dúvidas, muitas incertezas também, mas, por causa da hospitalidade e da receptividade em sua casa, convidando e acolhendo Aquele estranho bem falante, tiveram a graça de terem à mesa a companhia do Salvador.

Nossos corações estão precisando arder também, diante das palavras que o Senhor profere todos os dias nas proximidades dos nossos ouvidos e diante dos nossos olhos. Pena que, além de não reconhecermos o Jesus que caminha conosco, sequer, conseguimos enxergá-lo, além de não ouvirmos nada do Ele nos fala!

Peçamos ao Senhor para que traga a cura, não apenas do “novo” coronavírus, mas, e, principalmente, para as nossas profundas deficiências sensitivas, auditivas e visuais. Porque, caso contrário, ficaremos livres do vírus incômodo, porém, libertos do isolamento, caminharemos livres para o abismo logo ali na frente.

Deixemos que o Senhor parta, diante de nós, o verdadeiro Pão da Vida. Assim teremos, também, abertos os nossos olhos e ouvidos e, como aqueles dois discípulos de Emaús, poderemos sair alegres e felizes para darmos o verdadeiro testemunho da vida, de uma vida que jamais se extingue. Faça as suas reflexões. Seja feliz, e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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