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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: MEMÓRIA DO BLOG

jan 13

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE ESTÃO OS VERDADEIROS LÍDERES

O MUNDO EM EBULIÇÃO

UM MUNDO EM EBULIÇÃO: O QUE É POSSÍVEL ESPERAR PARA O FUTURO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Passadas as duas primeiras décadas deste tão desejado século XXI, algumas estacas já estão solidamente fincadas em nossas mentes e corações, de modo a nos inculcar a convicção de que nem tudo o que queríamos, nos será dado ou permitido usufruir. Isso porque aquele mundo pós-guerra fria, promissor de dias melhores e mais iluminados, teleguiado por sábios, competentes e experientes líderes revelou-se, nos últimos vinte anos, carente de tudo o que seria necessário para uma vida, realmente, melhor.

Primeiro é bom buscar nas profundezas do cérebro a imagem de algum líder, verdadeiramente influente e capaz de conduzir o conjunto das nações, graças à sabedoria e ao carisma herdados de antepassados da mesma linhagem. Quem é capaz de, hoje, apontar um líder que seja ouvido com atenção, respeito e seguimento nos diversos foros internacionais? Excetuando a figura ímpar do Papa Francisco, líder supremo da Igreja Católica, que não tem assento ou palavra na ONU, na OTAN ou em DAVOS, qual liderança exerce o papel de fiel da balança civilizatória?

Certamente não é preciso, aqui, ficar perdendo tempo escrevendo os nomes de um por um dos governantes mundiais que, com o pouco que têm, gostam de se apresentar como chefes de Estados e de governos e que, só por este fato, acreditam-se, e querem se fazer acreditar, como líderes políticos. Na verdade, são pessoas que, se olhassem para trás e examinassem as biografias de todos os seus antecessores, teriam que renunciar aos seus postos, ante a imensurável discrepância no tocante ao caráter, à postura, aos princípios, à força, à ética, à coragem, à sabedoria e ao carisma.

Não se trata de saudosismos não. Trata-se de verificar que, na realidade atual, estamos à mercê e sob o comando de pessoas absolutamente desprovidas do espírito de liderança e do carisma necessários para a condução de um povo rumo ao seu destino. Que leiam as biografias dos grandes homens e mulheres do passado. E não precisam ir muito longe não, basta um pouco de atenção sobre os grandes do século passado, homens e mulheres.

Entretanto, faltam aos pretensos líderes de hoje a humildade para, em primeiro lugar, reconhecerem suas visíveis carências de tudo para poderem pretender ser reconhecidos como verdadeiros líderes; em segundo lugar, falta-lhes a sabedoria para buscarem no passado de suas Nações o conhecimento acerca de todos os atributos de que eram dotadas as verdadeiras lideranças, cada uma em sua época. E, por fim, falta-lhes inteligência mesmo para, ainda que desistam de perquirir o passado de suas Nações, conseguirem comandar seus povos rumo ao futuro desafiador que os afronta no dia-a-dia.

Diante deste cenário de pós-guerra, no qual vemos destroços para todos os lados, onde cães, gatos, ratos e hienas andam de mãos dadas, cada qual preparando um golpe maior contra o outro, caminha uma estupenda massa popular, desprovida de saúde, de alimentos saudáveis, de educação apropriada e alinhada com os tempos modernos e vítima de toda a insanidade despejada em cada esquina pelos mamíferos já citados. Mamíferos no exato significado da palavra, porque vivem à caça das tetas públicas por onde ainda jorram leite e mel, produtos da espremeção de toda a coletividade.

Verdadeiramente, estamos em um mundo em ebulição, sem sabermos exatamente o que esperar do futuro. Um futuro que, com o avançar da tecnologia, poderia ser muito melhor e muito mais saudável para toda a Criação, com tudo o que o termo significa, mas, que, infelizmente, desponta como grande ameaça à sobrevivência de todas as espécies.

No entanto, ainda existem portas abertas. Portas que podem conduzir a humanidade para cenários muito mais promissores do que a este ao qual chegamos pelas mãos de falsos líderes. Uma destas portas está conectada com a possibilidade de a juventude, numa verdadeira guinada de 360º, preparar-se para substituir, em alto nível, os atuais condutores cegos. E isso pode ser feito por meio do estudo, da pesquisa, da investigação e do aperfeiçoamento de tudo o que os grandes do passado foram capazes de fazer. Basta invadir uma Biblioteca, real ou virtual, e escarafunchar os anais da História, para descobrir com estupefação tudo o que os verdadeiros líderes fizeram para legar para todos nós o mundo que temos diante dos olhos.

O segredo para sair desta encruzilhada histórica está, justamente, no estudo da História!

Outra porta aberta diante de todos nós é a que dá acesso à política. Também aqui, é necessário examinar os arquivos do passado, para descobrir o modo pelo qual os grandes e verdadeiros políticos souberam transformar a pequena e inexpressiva cidade-estado em verdadeiro e potente Estado Nacional com expressão mundial, graças à coragem, à sabedoria, à inteligência e à diplomacia, virtudes escassas no dias que correm.

Por fim, porém, sem esgotar a exploração de outras portas, temos a porta de conexão com o divino e com o sagrado que, atualmente, estão relegados a segundo e terceiro planos. É preciso investigar o passado para constatar que reis, rainhas, sábios, profetas, doutores da lei, sacerdotes e governantes sempre estiveram intimamente conectados com a divindade, por meio do culto, da oração e da oferenda, individual ou coletiva, de graças e de sacrifícios. Enquanto vigorou a crença de que “sem Deus nada podemos” a civilização caminhou mais ou menos ajustada. Porém, a partir do momento em que ganhou força a ideia de que “Tudo podemos, mesmo sem Deus”, o desastre passou a ser o pão nosso de cada dia.

É preciso, acima de tudo, ter coragem, sabedoria e humildade para passar por estas portas. Entretanto, elas representam, ainda, possibilidades reais e palpáveis para que consigamos sair deste torvelinho histórico no qual estamos todos, sem exceção, envolvidos.

Que cada leitor e cada leitora saiba fazer uma avaliação sobre este texto e que, dentro das possibilidades, atue para que os cães, os gatos, os ratos e as hienas possam seguir seus próprios caminhos, deixando de representar, da forma sórdida, irresponsável e inconsequente como agem, verdadeiras ameaças para a sobrevivência de toda a espécie humana. Ainda existe tempo para uma mudança de direção. Seja feliz e, boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

dez 31

EDITORIAL DA SEMANA: “O SENHOR ESTEJA CONVOSCO”

O SENHOR ESTEJA CONVOSCO

 O QUE DESEJAR PARA O ANO NOVO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Ao final de todos os anos, nas proximidades do dia 31 de dezembro, temos o hábito de desejar “Feliz Ano Novo” para amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos e, dependendo do que bebemos, até para os cães da rua! É um verdadeiro festival de “Feliz Ano Novo” pra lá e pra cá, o tempo todo, o que dura alguns dias e, em muitos casos, pelo menos umas duas semanas.

Pois bem, ao fim e ao cabo de tudo isso, de toda esta “cultura” festiva, o que realmente fica gravado em nossas mentes e corações é o simples fato de que, de uma hora para outra, saímos de um ano determinado pelo calendário e entramos em outro, sempre com a fantástica expectativa de que, no embalo da passagem da meia-noite de um dia para o outro, tudo poderá ser muito melhor. Dessa forma, além do já falado “Feliz Ano Novo”, desejamos um coquetel de outras boas coisas, como saúde, paz, harmonia, dinheiro, amor, realizações, sucesso nos negócios e empreendimentos e tudo o mais que nos vem à memória em cada encontro durante os tais dias.

Entretanto, o que deveríamos desejar para nós mesmos e para cada um dos nossos semelhantes, próximos ou distantes, é uma maior e mais promissora vida com Deus, Senhor da vida e fonte de todas as benesses que, do fundo dos nossos corações, realmente, necessitamos e sabemos serem necessitados todos os seres vivos, sem exceção. Na liturgia católica ouvimos o sacerdote pronunciar o famoso “O Senhor esteja convosco”, e todos respondem a uma só voz, “Ele está no meio de nós”. É justamente este desejo e este voto que deveríamos destacar, não apenas na passagem do dia 31 de dezembro para o 1º de janeiro, mas, no raiar de todos os Sóis e na virada de todas as noites. Porque, desejar a presença do Senhor no meio de nós é, acima de tudo, desejar o bem maior para nós e para os nossos semelhantes.

Porém, se pararmos para uma análise fria dos acontecimentos, vamos perceber que poucos são os que, em verdade, valem-se da virada do ano para saldar e prestar culto à divindade, independentemente da profissão da fé expressada. Datas como, por exemplo, a Páscoa, o Natal e o Ano Novo há muito perderam o seu real significado e tornaram-se um dado estatístico relevante para que o capitalismo possa avaliar o seu desempenho, com a queda vertiginosa ou com a fantástica ascensão das vendas e dos lucros. Nas citadas épocas, efetivamente, o que desponta são os presentes, os assados, as bebidas, as reuniões em torno da mesa, do bar ou de casa, ou da churrasqueira sem que, sequer, o nome de Deus seja pronunciado.

Não posso deixar passar despercebido o seguinte fato: assistindo ao telejornal da tarde, do dia 30 de dezembro, a âncora da TV chama ao ar uma repórter para, ao vivo, entrevistar passageiros na Rodoviária Novo Rio (Rio de Janeiro), para investigar os preparativos de viagens de algumas famílias por ali acomodadas, aguardando a hora de seus embarques. Ao falar com uma família numerosa, logo, logo descobre que estão a caminho de cidade do interior de Minas Gerais; outra família, com seis ou sete membros, está aguardando a saída do ônibus para uma cidade situada em um estado nordestino. Depois de falar com mais uns dois ou três grupos de viajantes, a repórter dirige-se a uma senhora e pergunta para onde está indo: “para a cidade de Raposo, no interior do Rio de Janeiro”, diz a senhora. “Ah, que bom!” exclama a repórter que, não satisfeita, pergunta: “a senhora está indo com quem?”, e a senhora, humildemente responde: “Eu e Deus”. A repórter, achando a maior graça do mundo, admira-se da resposta e encaixa: “Ah, vai sozinha?”. Ou seja, ir com Deus é o mesmo que estar sozinha. Num primeiro momento, a gente até acha graça da estupidez. Mas, depois de certo tempo, é de se perceber que não se trata de estupidez não. Trata-se, na verdade, de culto à ignorância. Uma ignorância que impera no seio de muitas sociedades para as quais, Deus é uma questão íntima e pessoal, que não tem nada a ver com a coletividade.

Está distante de muitos de nós o conhecimento, e até mesmo a aceitação, de que não existe um Deus de Israel, dos palestinos, dos católicos ou dos evangélicos, mas, que, existe apenas um Deus da vida, que é o Deus de todos nós, a quem devemos estar sempre unidos e por quem devemos sempre clamar pela presença e pela ação, individual e coletiva.

Desta forma, se nos derradeiros dias de um ano, de qualquer ano, passássemos a dizer para cada um dos nossos amigos, parentes, colegas, vizinhos, ou até mesmo para os cães da rua, “O Senhor esteja contigo”, certamente estaríamos fazendo votos muito mais profundos, verdadeiros e eficazes porque não existe um bem maior do que Deus e, desejá-Lo, tanto para nós mesmos como para a vida dos nossos semelhantes é, mais do que qualquer outra expressão de felicidade, desejar todo o bem, de forma absoluta e plena, de onde decorre tudo o mais que, por convenção, repetidamente desejamos a cada final de ano.

É verdade que, nos dias de hoje, falar o nome de Deus significa pedir para ser rotulado e, por este razão, muitas pessoas preferem deixar Deus, vamos dizer, meio de lado, para não serem rotuladas disso ou daquilo. Mas, não devemos ter medo de rótulos e, se realmente amamos os nossos amigos, familiares, vizinhos, colegas e outros menos próximos, nada de melhor podemos lhes desejar que não seja a vivência com Deus e em Deus. Não existe melhor voto, ou melhor desejo para quem amamos do que este: “O Senhor esteja contigo” porque, de fato, Ele está no meio de nós.  E está no meio de nós, sem se importar com quem nós somos de verdade, com o que fazemos, pensamos ou falamos. Sem se importar se cremos Nele ou não, se temos religião ou não. Ele está no meio de nós porque, mais do que a tudo Ele nos ama de verdade.

Por tais razões, convido o leitor e a leitora para, se realmente ama seus amigos, familiares e pessoas mais próximas, mudar o discurso deste final de ano, deixando de ficar repetindo as mesmas palavras dos anos anteriores para, finalmente, fazer um grande e estupendo voto: “O Senhor esteja contigo!”

Eis o que desejo para ti no Ano Novo que se aproxima: “Que o Senhor esteja contigo” e que, assim, todas as dádivas e bençãos dos céus caiam sobre a tua cabeça e penetrem no fundo do teu ser, para que possas conhecer, em verdade e em realidade, a plena e abundante felicidade, de modo a que, talvez pela primeira vez na vida, possas perceber e usufruir a chegada de um verdadeiro Ano Novo, o Ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

dez 28

ESPECIAL DE NATAL: NASCEU MAIS UM FRANCISCO

UM NOVO FRANCISCO

CADA ÉPOCA TEM O SEU PRÓPRIO FRANCISCO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Eu não sei dizer de onde vem o nome “Francisco”, qual é a raiz etimológica nem qual o verdadeiro significado do nome, mas, para nós, católicos, o nome “Francisco” sempre nos remete ao Pobre de Assis que, com seu jeito simples e humilde, extraordinariamente apaixonado por Jesus, deixou-nos o carisma preservado por seus seguidores, espalhados pelo mundo todo, nas diversas ordens franciscanas que existem.

Coincidência ou não, nossas experiências com pessoas com esse nome são bastante positivas. Quem não conhece um Francisco? Um seu Francisco? Ou, como no meu caso, até uma Francisca? São pessoas que, impreterivelmente, não apenas remetem-nos ao Francisco de Assis, mas que, quase sempre, vivem de forma bastante semelhante ao filho mais famoso da histórica cidade de Assis, na Itália.

Nestes últimos anos temos vivido, de forma global, a experiência bastante positiva com o Papa Francisco, que chegou entre nós em meio a discórdias, dúvidas, erros e porque não dizer, até mesmo uma certa tristeza em decorrência direta de tudo o que passava no interior da Igreja de Roma naqueles dias difíceis. Pois o Papa Francisco, que adotou este nome com o propósito de fazer-se pobre com os pobres e humilde com os humildes, tem sido para o mundo civilizado uma das pouquíssimas vozes sensatas e coerentes com a mensagem do Evangelho de Cristo. De fato, o Papa Francisco, onde reinava a discórdia, procurou levar a união; onde pairavam sérias e consistentes dúvidas, levou a fé; onde dominava o erro, procurou lançar luzes sobre a verdade e, em meio à tristeza, lutou, e tem lutado, pela prevalência da alegria.

Pois bem, nestes últimos dias de dezembro de 2019, eis que chega ao mundo um novo Francisco, filho do casal Robson e Carolina que, atualmente, residem em Juiz de Fora-MG. Por tudo o que foi dito acima acerca das particularidades e singularidades que envolvem todos os “Franciscos”, é de se supor, e dispensa maiores comentários, que os pais de Francisco são o fruto bom do qual brota mais uma semente que, certamente, florirá diante de um mundo tão caótico quanto sempre foi, mas que sempre acolhe todos os enviados pelo Altíssimo, sempre com a redobrada esperança de que, com quem chega, tudo será muito melhor.

Este “novo” Francisco, porém, chega trazendo não apenas a força genética humana, mas, e, sobretudo, a força genética de uma espiritualidade cuja origem remonta ao nascimento de Francisco de Assis. De Francisco, deste mesmo que está chegando ao mundo, espera-se que viva no amor, no perdão, na união, na fé, na verdade, na esperança, na alegria e na luz, consolando seus pais e irmãos, em sentido amplo; compreendendo mais do que sendo compreendido; amando mais do que será amado; dando mais do que receberá e perdoando mais do que poderá ser perdoado, de modo que, para ele, a vida seja sempre eterna, independentemente do plano em que esteja inserido.

Deste novo Francisco espera-se, ainda com mais pujança, uma vida repleta de civilidade, de respeito, de amor, de tolerância, de humildade, de seriedade, de responsabilidade, todos, atributos dos quais o mundo está altamente carente. Principalmente, este mundo das primeiras décadas do século XXI. Que o Francisco que está chegando entre nós, quase mil anos depois do Francisco de Assis, e, independentemente do mundo que encontrará, carregue na alma o carisma, a força e o vigor daquele que, um dia, despiu-se de todas as mazelas do mundo para viver o Evangelho de Cristo em toda a sua radicalidade.

Sabendo de todas as virtudes que certamente coroarão a vida deste nosso “novo” Francisco, só me resta recordar aos pais a imensurável graça de terem sido escolhidos como guardiões, assim como Maria e José, do menino que vem para se destacar entre seus contemporâneos. Um menino que, a exemplo daquele cujo nascimento acabamos de celebrar no Natal, viva em função de toda a herança genética e espiritual da qual é digno herdeiro.

Que o pequeno Francisco, ao abrir os olhos pela primeira vez, lance muita luz ao seu redor e que, em seu primeiro sorriso, consiga atingir todas as mentes e todos os corações que o circundarem, de modo a que, dele, emanem todas as virtudes que somente Deus, em toda a sua glória, pode dispensar a nós, pobres mortais.

Seja bem-vindo Francisco e que, quando for um sexagenário como eu, você abra as portas para os novos Franciscos que por aqui chegarão, também, porque, consoante o título deste texto, “cada época tem o seu próprio Francisco”. Que seja sussurrada para Francisco esta linda e profética oração:

“Onde houver ódio, que você leve o amor. Onde houver ofensa, que você leve o perdão. Onde houver discórdia, que você leve a união. Onde houver dúvidas, que você leve a fé. Onde houver erro, que você leve a verdade. Onde houver desespero, que você leve a esperança. Onde houver tristeza, que você leve a alegria. Onde houver trevas, que você leve a luz.

Ó Mestre, fazei que este nosso Francisco procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo, que se vive para a vida eterna.”

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

dez 23

EDITORIAL DA SEMANA: DECLARAR-SE COMO FILHO DE DEUS, SIGNIFICA SER DESPREZADO E ESQUECIDO NA FILA

FILHOS E FILHAS DE DEUS

SER FILHO DE DEUS, NUNCA FOI SINAL DE PRESTÍGIO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Jesus veio ao mundo, em primeiro lugar, como o Deus encarnado, dada a sua natureza eminentemente divina. Em segundo lugar, como o Filho do Deus vivo, na condição de segunda pessoa da Trindade e, por último, como verdadeiro homem, em razão da sua natureza, também, eminentemente humana. Aqui, porém, entre nós, Jesus nunca fez questão de dar qualquer relevo à natureza divina, mas, sim, e, acima de tudo, à condição de Filho de Deus ou, como preferia em muitas situações, a de Filho do Homem.

Entretanto, a leitura dos Evangelhos não deixa qualquer dúvida sobre o fato de que Jesus, na condição de filho de Deus, antes de angariar para si qualquer prestígio, fama ou glória, atraiu, sim, o ódio, a inveja, o despeito, a perseguição e, por último, a prisão, a condenação e a infame morte na cruz. Em uma sociedade judaica, que presava pelo zelo à Torá e ao culto exclusivo ao Deus de Israel, parece incrível, mas, é preciso admitir que, mesmo diante do Filho de Deus e de todas as obras que Ele operou, preferiu prendê-lo, condená-lo e matá-lo, antes de a Ele acolher com extremo amor, carinho e, por que não dizer, gratidão, ante o prêmio divino aos homens de todos os tempos e, especialmente, àqueles aos quais foi permitido ver, ouvir, falar e tocar no Mestre divino.

Ou seja, apresentar-se como filho do Altíssimo não tem significado algum perante os homens. Ora, se alguém pensa que hoje seria diferente, está redondamente enganado, porque, assim como nos dias de Pôncio Pilatos e de Caifás, respectivamente, governador da Judeia e sumo sacerdote, ainda hoje, apresentar-se como filho ou filha de Deus não tem qualquer relevância. Se, no caso de Jesus, ser filho de Deus levou-O à cruz, nos dias atuais, costuma levar à total indiferença, ao absoluto desprezo ou mesmo ao manicômio, porque, se a pessoa insistir muito na afirmação de que é, sim, filha de Deus, acabará passando por fanática religiosa, extremista, alienada e, por fim, por louca mesmo.

Não se cometa a insanidade de acreditar que as referidas exclusões denunciadas acima, são cometidas pelo povo em geral. Aquele povo que, no fundo, no fundo, desconhece até mesmo as Sagradas Escrituras. Não, não é assim! As exclusões a que nos referimos, direcionadas aos assim autoproclamados “filhos de Deus”, partem, da mesma forma como ocorrida no tempo de Jesus, de autoridades civis, eclesiásticas e pastorais. Da mesma forma como Caifás sentiu-se desprestigiado diante de um Jesus que afirmava ser o Filho do Altíssimo, inúmeros pregadores de hoje, ficam arrepiados ao ouvirem da boca do interlocutor a mesma afirmação feita por Jesus. Não se deverá aqui, declinar nomes, até porque, apesar da crucifixão já ter sido abolida entre nós, existem meios para punir severamente os que ousam apontar o dedo para os Pilatos e para os Caifás de hoje. Mas o fato é que eu, pessoalmente, conheço, por experiência própria, alguns destes Pilatos e Caifás.

Ora, se levarmos em consideração os preparativos regiamente organizados todos os anos, para celebrar o nascimento de Jesus, como o “Filho de Deus, que veio habitar no meio de nós”, entrando em casas, mentes e corações, assim como todas as pregações para que nós, de forma fraternal e solidária, nos aproximemos Daquele que veio trazer-nos a face do próprio Deus, com a afirmação de que somos irmãos do Menino Jesus, então, temos, todos, o mesmo privilégio e, como tais, deveríamos ser tratados com o maior respeito.

Não é, porém, o que acontece! Jesus mesmo, sobre os que matam a fome, a sede, a doença, vestem e visitam qualquer um dos necessitados,  declarou que “todas as vezes em que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), deixando evidenciado que, se somos seus irmãos, é porque somos, também, filhos do mesmo Pai, embora, por adoção. Mas nem assim! Hoje em dia, ao menos no Brasil, o instituto da adoção é rigidamente respeitado até para o caso dos animais! Porém, os filhos adotivos de Deus, não têm qualquer reconhecimento. São, mesmo, considerados loucos, fanáticos, alienados e desprezíveis, dentre outros adjetivos.

Bem, se é assim, somente a uma conclusão somos levados: os discursos do Natal, nada mais são do que palavras vazias e desprovidas de sentido! Porque, se no dia 26 de dezembro, alguém precisar de socorro, material ou mesmo espiritual, apresentando-se à autoridade civil ou religiosa como filho ou filha de Deus e, portanto, irmão do Jesus que acabara de nascer, será impreterivelmente ignorado ou ignorada.

O prezado leitor e a prezada leitora não precisam levar este texto a sério, nele acreditando no primeiro momento. É fundamental que, a título de experiência, observe todos os ambientes e todas as situações que passarão diante de si, no curso do Ano Novo que está chegando. Apresente-se para uma audiência com uma alta autoridade eclesiástica, por exemplo, e faça constar sua condição de filho ou de filha de Deus, para ver se a referida autoridade te concederá qualquer preferência ou maior atenção do que concederia a um grande capitalista desejoso de fazer uma significativa doação financeira. Posso te assegurar que o capitalista passará a sua frente e que você, muito provavelmente, ficará durante meses aguardando para ser chamado(a) para a tal audiência. Isto só não ocorrerá, se você for amigo ou amiga da referida autoridade, ou mesmo se se valer da intervenção de pessoa altamente conceituada pela mesma. Caso contrário, meu amigo, minha amiga, você terá a triste confirmação de que apresentar-se como filho ou filha do Altíssimo, será motivo de desprezo ainda maior, e sabe por que?

Porque Caifás pensava que ele, na condição de Sumo Sacerdote, era o interlocutor por excelência do Deus de Israel. E o mesmo acontece nos dias de hoje: muitas autoridades, civis e, principalmente, religiosas e eclesiásticas, muitos pregadores dominicais, assim como inúmeros líderes de movimentos igrejeiros, acreditam piamente que, em razão da sua proeminência mundana, serão preferidos por Deus, em detrimento daqueles a quem Jesus chama de “meus irmãos mais pequeninos”.

Entretanto, e apesar de tudo o que está dito acima, é bom manter acesa no coração a certeza de que, se somos chamados de “irmãos” por Jesus, é porque somos, realmente, filhos e filhas de Deus que, como Pai bondoso e misericordioso que é, jamais deixará de nos receber, de nos ouvir e de nos atender em todas as nossas aflições, porque, para Deus, não importa quem somos, mas, sim, o que somos: seus filhos e filhas muito amados. Se, para os homens, o fato de sermos filhos e filhas de Deus não tem qualquer importância, relevância ou significado, para o Altíssimo não é assim. Tanto que, na completude do tempo, enviou ao mundo o seu Unigênito para que, todo o que Nele crer seja salvo.

Acredite nisto, meu irmão, minha irmã no Cristo Jesus. Acredite nisto e saiba que, todos nós que cremos, independentemente de quem quer que possamos ser, fazemos ou pensamos, somos, acima de tudo, filhos e filhas do mesmo Pai que, como tal, está sempre atento e pronto para nos acolher, nos perdoar e para nos possibilitar uma vida sempre renovada e muito melhor.

Que neste Natal, mais do que qualquer outra coisa, consigamos voltar nosso coração e nosso espírito para a manjedoura, olhando aquele pequenino ser, como nosso grande irmão. O irmão que nos salva e nos dá coragem. O irmão que, sendo o Unigênito, sempre nos leva à presença do Pai, que olha para cada um de nós com extrema afeição, carinho e amor. Pense sobre isto, reflita e, diante do seu presépio, real ou imaginário, converse com o seu, o meu, o nosso Pai. Que o seu Natal seja grandioso e repleto de consolos e de felicidades, porque o Menino que acaba de nascer é nosso irmão, e veio para nos levar direto ao Pai, ao nosso Pai! Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

dez 16

EDITORIAL DA SEMANA: FIM DA ESCRAVIDÃO, ALVÍSSARAS À LIBERDADE!

DJANGO LIVRE

O ESCRAVO SE DESPEDE DO SENHOR: VIVA A LIBERDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A data entraria para a história quando, poucos dias depois de assinada a Lei Áurea, um escravo recebe a notícia da liberdade que se aproxima. Primeiro, como era de se esperar, chora copiosamente, emocionado que fica ao saber que, doravante, estará livre dos grilhões e do açoite. Livre das ordens descabidas e mal engendradas e dos sacrifícios insanos aos quais fora submetido durante tantas décadas. Enfim, algo grita dentro dele: é a tal da liberdade sobre a qual tantos falam e pregam!

Tudo confirmado, o pobre escravo decide atender ao último comando vindo do interior da Casa Grande: participar de uma grande solenidade para a despedida entre os demais sofredores e os senhores aos quais estiveram submetidos, desde o menor até o maior e mais graduado. Mas o velho escravo é renitente e resistente à ideia da tal solenidade. Ele não faz questão destas coisinhas de gente branca e metida. O que ele mais quer, agora, é sair do cativeiro e ir em busca daquilo que nunca pode ter: sonhos. Alguém poderá argumentar que, sempre, é possível sonhar. Mas, como sonhar com o que, sem a perspectiva da liberdade, jamais se poderá realizar?

Aquele homem jamais pudera, sequer, alimentar qualquer espécie de sonho, porque tudo o que, eventualmente, pudesse querer para si e para a própria vida, passava, necessariamente, por uma, até então impensável, liberdade. Agora, pensava ele lá com os seus botões, tudo será diferente. Sem correntes, sem ordens tresloucadas, sem açoites e sem perseguições injustas, sem mentiras e sem inventação de moda, seria capaz de fazer a única coisa que jamais pode: viver.

O senhor maior da Casa Grande, com toda a pompa que lhe era peculiar, chama o velho escravo e pede para que pense com calma sobre a saída tão rapidamente decidida, tentando mostrar a ele os riscos, os perigos e os inconvenientes a que estaria sujeito fora dos grilhões. “Dinheiro”, diz o esnobado senhor, “é pura ilusão”. “Nunca dá pra nada. E, sem dinheiro, você vai precisar voltar e, se isso acontecer, só te aceito de volta se for para o trabalho forçado. Porém, querendo permanecer, posso te arrumar um trabalho mais manso e mais suave. Um bom prato de comida, um café com broa de fubá, um banho diário e uma cama com colchão de capim. Você terá uma vida de rei, se decidir permanecer na Casa”.

Enquanto o imponente senhor discursa, na tentativa de manter junto de si aquele, agora, ex-escravo, o velho negro medita e pesa cada uma das palavras pronunciadas porque, coisa que aprendera desce muito cedo, foi ouvir em silêncio todas as ordens e os insultos regularmente recebidos. Nada do que estava sendo dito era fixado na sua mente, na qual apenas a sensação de liberdade e de total desprendimento tinha lugar de excelência.

O poderoso senhor olhando para o retirante, e vendo-o de cabeça baixa e em silêncio como outrora, por um instante, sente verdadeiro ódio dele. Queria vê-lo falar à vontade, como se estivesse, realmente, encarnado a nova condição assegurada pela Princesa Isabel. Queria vê-lo arrogante como qualquer dos brancos com quem mantinha laços de amizade. Não suportava ver o velho negro submetido à sua pessoa, como se ainda estivesse sob o seu domínio absoluto.  Então, depois de uma pequena fração de segundos, ele alteia a voz e exclama: “você pensa que eu não tenho mais a importância de antes? Pensa que eu não mereço ouvir a sua voz de homem livre? Acha que daqui por diante só falará com quem quiser?” O silêncio do ex-escravo era por demais constrangedor. Ele, na verdade, estava tremendo, sem saber o que dizer, pois, até então, suas únicas e poucas palavras tinham sido: “Sim senhor! ou Não senhor!”

O poderoso senhor não era capaz de compreender que aquele pobre coitado, a partir de então, estava sendo parido para um mundo absolutamente desconhecido por ele. Não tinha a capacidade de avaliar o quão confusa estavam a mente e o coração daquele que jamais soubera o real significado da palavra liberdade. No seu íntimo, o velho liberto só sabia de uma coisa: era chegada hora de se despedir. Nada do que o senhor lhe havia dito tivera qualquer importância para ele. Não pensava em dinheiro, até porque, desconhecia o potencial daquilo que chamavam de “moeda”. Muitas vezes, ouvira falar sobre o ouro, mas, sabia que ouro era a única coisa que jamais receberia das mãos de qualquer um para quem viesse a trabalhar. Morada? Qualquer uma estaria de bom tamanho. Poderia dormir até mesmo ao relento, olhando para o céu cravejado de estrelas e habitado por uma lua que, agora, olhava para ele de modo diferente. No coração, sinais e sentimentos de gratidão eterna por aquela a quem jamais poderia agradecer pessoalmente. Aquela que, por vezes, parecia-lhe ter ouvido todas as suas sofridas preces, clamando para que o Senhor do Céu e da Terra o deixasse partir para a eternidade. No peito daquele homem batia um coração agradecido a tudo e a todos. Por esta razão, nada do que o antigo senhor acabara de dizer tinha qualquer importância ou significado para ele.

Mas, o antigo dominador quer uma resposta e insiste na pergunta: “E então, negro, você fica comigo ou vai atrás das ilusões?” E chega a gritar:  “Você está me ouvindo?”

Sim meu senhor, disse o pobre liberto. Sim, estou ouvindo e sou agradecido por tudo o que vossa majestade fez por mim, mas, preciso partir. “Para onde?” Grita o exaltado senhor. “Para onde você pensa em partir? Você não tem nada: casa, dinheiro, emprego, comida, roupas, calçados. Nada, ouviu? Você não tem nada. E ainda assim, acha que pode partir daqui desse jeito?”

Peço ao meu senhor, diz o retirante, que me deixe partir em paz. Nada do que o meu senhor acaba de dizer tem importância para mim. Como um homem livre, posso comer capim com os cavalos; posso tomar banho nos riachos; posso dormir nas cavernas que existem no alto das montanhas; posso vestir e calçar peles de animais; posso dividir com as aves do céu os frutos das florestas. E, se algum outro homem, seja ele quem for, levantar a mão contra mim, posso me defender da forma mais prática que estiver ao meu alcance.

Peço ao meu senhor que me compreenda: nada deste mundo poderá substituir a liberdade que nossa Princesa assegurou para nós. Sou um humilde negro. Não sei escrever muito e minha leitura é bem fraca, mas, no meu peito bate um coração igual ao do meu senhor. E, dentro deste coração, existe amor, gratidão e, devo confessar, muita alegria por poder ter chegado até este dia. Quero me despedir do meu senhor repetindo o gesto que os brancos mais costumam fazer. E, naquele momento, estende a mão direita para o senhor que, olhando-o com terrível desdém, aponta para a porta e grita: “Saia já daqui. Saia e nunca mais volte, porque, se voltar, encontrará a sepultura aqui, neste lugar. Saia!”

O pobre negro, e agora ex-escravo, vestido e calçado de forma bastante humilde, como o fora durante toda a sua vida, com um velho e surrado chapéu de couro curtido entre as mãos, abaixa a cabeça pela última vez diante daquele imponente senhor e, lentamente, vai saindo em direção ao terreirão. Vai andando calma e lentamente, esboçando um leve, mas, consistente sorriso. A senhora, os filhos maiores, assim como os menores, ficam olhando aquela partida, enquanto os demais ex-escravos, sem a mesma coragem, decidem permanecer na Casa Grande, para darem continuidade aos trabalhos de antes.

O velho e ainda forte negro, ao ultrapassar os limites da porteira, coloca o surrado chapéu sobre a cabeça e vai aumentando a velocidade dos passos, murmurando e, por fim, gritando: sou livre; sou livre! Eu sou livre! E começa a correr por aquela empoeirada estrada de terra batida onde, logo, logo encontra outros libertos, iniciando ali uma nova etapa em suas vidas. Uma jornada durante a qual não estariam isentos das lutas, dos trabalhos e dos sofrimentos, mas, estariam libertos para sempre dos grilhões, dos açoites e dos castigos sofridos, simplesmente pelo fato de serem negros e de serem vistos como propriedades de alguém.

Na despedida do ex-escravo todas as palavras foram inúteis, porque, o que realmente interessava, era a liberdade conquistada. A liberdade que não tem preço. A liberdade inegociável. Por ela, e em nome dela, todo e qualquer sacrifício é pequeno, porque, diante dela, quanto mais se tem, mais escravo se é. Ser livre, estar livre de todos os grilhões, reais ou imaginários; de todos os açoites físicos, psicológicos e devastadores é, depois da vida, o bem maior a ser resgatado e resguardado para sempre.

Este texto é escrito no momento em que estou prestes a me aposentar e, de uma certa forma, identifico-me com o velho negro e ex-escravo e, doravante, assim como ele, pretendo estar liberto de todos os grilhões e de todos os açoites aos quais me submeti durante mais de quatro décadas de trabalho. Sou livre, sou livre! Eu sou livre! Repito com o velho homem novo que atravessa a porteira para, por ela, nunca mais entrar! Leia, reflita e busque a sua liberdade, onde quer que ela esteja. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

dez 09

EDITORIAL DA SEMANA: APESAR DE TUDO, CAMINHAR É PRECISO

ARREPENDIMENTO

AMORES, ALEGRIAS E ARREPENDIMENTOS: CONSEQUÊNCIAS DA VIDA – 

*Por Luiz Antonio de Moura –

A vida é mesmo, como dizem muitos, bastante engraçada. Durante o seu curso, acontecem inúmeras coisas que, no momento em que ocorrem, não prestamos a devida atenção, mas, depois, com o passar dos anos, e repassando o filme do tempo, conseguimos enxergar minuciosamente muitos detalhes do que se passou.

Não falo sobre mim, propriamente, mas, sobre um amigo de longa data que, recentemente, convidou-me para uma conversa de bar, durante a qual decidiu desabafar dramas e angústias familiares. Logo percebi que o desabafo não decorria da bebida lentamente saboreada, mas, do esvaziamento de uma alma atordoada por uma lementável realidade, por imagens, recordações e arrependimentos, destes que levamos conosco para o túmulo, por estarem relacionados a fatos absolutamente cobertos pela densa poeira do tempo.

Casado, talvez, com a primeira namorada que teve, ele começa a conversa narrando a paixão que sentia por aquela pessoa, no início de tudo. Fala com brilho nos olhos sobre a beleza que ela exibia de forma bastante natural, fato que mexeu profundamente com a estrutura dele que, então, era apenas um acadêmico universitário, ainda, encantado com a vida e cheio de sonhos. Daquela paixão inicial, ele insiste em destacar que só existia do lado dele, deixando claro que ela, se sentia alguma coisa, era coisa de pequena monta, nada parecido com paixão e, sequer, com amor. Era, no dizer dele, um leve interesse por alguém que tinha planos, sonhos, vontade e disposição para lutar e, certamente, para vencer na vida. Ele diz que dela não queria abrir mão e que, depois de muitas idas e vindas, conseguiu firmar um namoro que, contra a sua vontade, levou anos para ser transformado no atual casamento.

Bem, conversa que envolve amores e dissabores conjugais, se a gente deixar, não acaba nunca. Pergunto como estão as coisas atualmente, e ele responde com um palavrão. Dá pra perceber que a coisa é feia, muito feia. Mas, e aquela paixão inicial? Eu questiono. Ele diz: aquilo (sic!) cresceu, engordou, morreu, apodreceu e hoje exala um odor tóxico. Fico admirado, porque eu os conheço bem, e ela parece ser uma pessoa maravilhosa: sempre solícita, de bom humor, de bem com a vida, pronta para ajudar a qualquer um que precise de alguma coisa. Enfim, aparências, penso comigo. Dele não ouso falar porque, amigo, sei o quão trabalhador, dedicado e honesto é. Sei, também, que, dele, parte todo o conforto do qual desfruta a família.

Bem, diante do amigo cabisbaixo e lastimoso, tento falar algo que possa reanimar e relembro a condição de pai que, até onde sei, sempre exerceu com muito orgulho, alegria e satisfação. Mas, parece que até aí as coisas estão terrivelmente abaladas. Começa recordando as ações e os gestos carinhosos e amorosos que, como pai, sempre se dispôs a demonstrar. Conta tudo o que, como pai zeloso e até fanático, fez ano após ano brincando, presenteando, ensinando, dando exemplos de vida e mostrando as ciladas e as armadilhas da vida. Fala com orgulho e com brilho nos olhos sobre os anos de ouro de convivência e de amizade, nos quais ser pai era simplesmente o máximo. No entanto, conta ele, com o passar dos anos, obviamente chegam as idades e com elas, tudo escorre pelos dedos, restando, apenas, mãos secas e palavras ásperas. Reclama da falta do respeito, da consideração, da atenção, da gratidão, do  amor e do carinho e do saudoso companheirismo e, o pior momento: começa a desvelar um rosário de arrependimentos.

Mas, pergunto eu, arrepender-se de ter sido tão bom? Arrepender-se de ter feito tudo, aparentemente, certo? E aí vem a lição: o amigo entende que ao contrário do que eu penso, ele fez tudo de forma errada e o que eu chamo de “tão bom” foi, no fundo, no fundo, muito ruim. Deixo-o falar porque, primeiro, fico curioso para conhecer seus argumentos, depois, é ele quem precisa desabafar. Começa a contar o quão errado é agir de forma a assegurar aos filhos uma vida, digamos, “diferente” daquela que tivemos. Demonstrando bastante convicção, ele afirma que, quando dizemos a frase “meu filho não passará pelo que eu passei”, na verdade, estamos reduzindo, ou até mesmo destruindo, todas as possibilidades de crescimento, de desenvolvimento e de aprimoramento dos nossos rebentos. Com estes argumentos, ele diz que os pais só chegam ao ponto aonde chegaram, só alcançam o sucesso profissional, financeiro e social que alcançaram, justamente porque penaram bastante, passaram por diversas e sofridas experiências e, assim, aprenderam, passo a passo, o quão difícil e dura é a vida. Aprenderam a valorizar cada centavo ganho com o trabalho; aprenderam que, sem trabalho e sem estudo, o fracasso está garantido e, desta forma, partiram para a luta sem medir esforços e maiores sacrifícios.

Ele diz que, quando o pai pensa que os filhos não devem seguir a mesma trilha que ele percorreu, com todos os percalços enfrentados, ele os está colocando no paraíso dos contos de fadas, onde tudo é fácil, bonito e rápido, bastando o estalar de dedos! Assim, completa ele, os filhos acreditam em contos mirabolantes e em narrativas de livros de autoajuda e planejam vencer na vida da forma mais inteligente possível o que, normalmente, rechaça a ideia do trabalho árduo das primeiras décadas da vida profissional, com todas as experiências daí decorrentes, bem como do necessário e desgastante período universitário, de onde, se quiserem, os iniciantes podem sair com alguma bagagem para, não apenas minorar os traumas laborais, mas, e, sobretudo, assegurar-lhes boas possibilidades de um futuro muito melhor e muito mais promissor. 

Na opinião deste cansado e desgastado amigo, este foi um dos seus grandes erros e, consequentemente, razão de um dos seus maiores arrependimentos. Na sequência, continua ele, errei ao proporcionar todo tipo de conforto e de bem estar, em uma casa na qual jamais deixei faltar quaisquer das coisas capazes de causarem alegria, sensação de completude e satisfação a todos, desde o mobiliário, até a sofisticada e rica alimentação. Tudo a tempo e na hora!

Ouvindo aquele longo desabafo, no qual foram contadas muitas outras coisas e muitas outras particularidades familiares, senti pena daquele homem. E, sentindo pena dele, acabei por sentir pena de mim mesmo, haja vista que, sob muitos aspectos, eu também vivenciei, e ainda vivencio, muitos dos seus dissabores. Mas, o que me causou maior perplexidade, espanto e tristeza, foi perceber o infortúnio do arrependimento. Não de um arrependimento qualquer, mas, de um arrependimento por tudo o que, aparentemente, fez de bom e para o bem. Pensei comigo: quando alguém chega a se arrepender do bem que pratica, deve mesmo estar em situação emocional e espiritual bastante dramática. A conversa, para o meu espanto, guardava coisas piores para serem reveladas: às vezes, me disse ele, tenho muita vontade de morrer! Peço a Deus com muita frequência, para que inclua o meu nome da próxima lista. Mas, diz com um leve sorriso nos lábios, Deus parece não querer me dar ouvidos.

Para qualquer pessoa que tomar conhecimento desta narrativa, poderá parecer estar diante de um ser humano fraco, doente e carente de tratamento psiquiátrico ou psicológico. No entanto, nada do que aqui está escrito, principalmente da forma como está escrito, é capaz de revelar a realidade e a dramaticidade do sofrimento deste meu amigo. Somente quando a gente ouve um relato destes, pessoalmente, como foi o caso, é que conseguimos alcançar a verdadeira dimensão da vida de cada um de nós que, no geral, não difere muito da deste meu caro amigo. Cada um de nós, certamente, tem contabilizados as alegrias, os amores e os arrependimentos que traz na alma. Faz parte da vida, do pulsar da vida. São, na verdade, consequências da própria vida. Entretanto, em alguns de nós, um ou outro destes fatores aflora com maior intensidade em relação aos demais.

Com a alma perturbada diante daquele intenso e longo desabafo, confesso que tive preocupação acerca da possibilidade, momentaneamente passada por minha cabeça, sobre o amigo procurar meios para encurtar a própria vida. Depois de contar uma piada adequada ao momento, para distensionar os ânimos, e de algumas risadas, fiz a pergunta de sempre: e o resto, no mais, está tudo bem? Ele, ainda, meio sem graça afirmou que sim e, imediatamente, como se estivesse se recompondo, começou a falar sobre projetos de trabalho e de estudo, viagens que está pretendendo fazer a fim de se reencontrar espiritualmente e, por fim, terminamos a conversa debatendo um pouco sobre a política nacional e sobre as expectativas para o futuro da Nação.

Eu, semanalmente, procuro apresentar um texto apto para a reflexão pessoal de cada leitor e de cada leitora. Desta feita, no entanto, decidi retratar um pouco da história de uma vida que, não posso afirmar ser igual a de todas ou a de algumas pessoas apenas, podendo, sim, afirmar com segurança, tratar-se de história típica de seres humanos que, com seus problemas, suas alegrias, seus amores e dissabores, passam por esta vida e que, em dado momento, precisam de um canal para compartilhar e para desabafar suas mágoas, seus dramas, sofrimentos, alegrias e, porque não dizer, seus arrependimentos.

Que cada leitor e cada leitora possa compreender que nem só de palavras sábias e bonitas vivemos nós, mas, da realidade dura, nua e crua a que, de um modo geral, somos submetidos no dia-a-dia da nossa existência, e que os mais fortes possam compartilhar conforto, força, consolo e esperança com o semelhante que, nem sempre dispõe de todos estes atributos juntos. De qualquer forma, leia e reflita, talvez, a experiência do amigo possa auxiliar no planejamento da vida de cada um, de modo a evitar futuros dissabores e arrependimentos nefastos para a alma e perversos para o espírito. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 25

EDITORIAL DA SEMANA: A VIRTUDE DA TOLERÂNCIA

SOMOS TODOS IGUAIS

TOLERÂNCIA: A VIRTUDE QUE ESTÁ FALTANDO NO MUNDO DE HOJE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Pequena consulta ao dicionário eletrônico Houaiss, revela que o termo “virtude” significa, dentre outras, a “qualidade do que se conforma com o considerado correto e desejável”, seja do ponto de vista da moral, da religião ou do comportamento social. Para os cristãos existem as assim denominadas virtudes teologais, a saber: a fé, a esperança e a caridade. Virtudes estas que possuem a capacidade de conduzirem o ser humano aos domínios celestiais. Independentemente da profissão de fé de onde partem, estamos falando de virtudes necessárias a todos nós, seres humanos, haja vista o cenário no qual estamos inseridos, com todos os seus aspectos, circunstâncias e consequências.

Entretanto, parece estarmos deixando de lado uma virtude que se adequa, à perfeição, com a descrição dicionária daquilo que pode, e que deve, ser “considerado correto e desejável”, principalmente, na seara do comportamento humano: a tolerância, cuja ausência está destruindo famílias, relações profissionais e religiosas e, inclusive, diversas Nações mundo afora, além de estar produzindo séria ameaça à convivência pacífica de um povo tão alegre e tão amigo, como é o brasileiro.

A falta da tolerância, ou melhor dizendo, a intolerância, está corroendo por dentro tudo o que o ser humano tem de melhor em sua alma, porque está inviabilizando o convívio entre iguais que, de alguma forma, estão sendo induzidos e se verem de maneira absolutamente diferente. E, o pior, existe uma forte indução nos meios sociais, políticos, religiosos e midiáticos para que nós, seres absoluta e incontestavelmente humanos, passemos a olhar para o outro como sendo um potencial adversário. Tudo, em decorrência da raça, da religião, do sexo ou da opção sexual, da ideologia política e, também, da condição social.

Ora, basta um simples olhar de cima para baixo, como se estivéssemos sentados nas nuvens, para visualizarmos milhares, milhões de pontinhos pretos significando todas as cabeças humanas que se movimentam por ruas e praças, num frenético vai e vem, a demonstrar que, independentemente de quaisquer outros critérios, estamos observando seres humanos caminhando entre si, cada qual com seus próprios universos, problemas e soluções sem que, além das cores das roupas e dos acessórios e da estética física, possam ser observadas quaisquer outras diferenças essenciais à espécie.

A cor da pele ou dos cabelos, a nacionalidade, o formato do nariz ou a cor dos olhos, o tamanho ou a coloração das unhas, o sexo definido pela natureza ou pela opção sexual de cada um, a barba longa ou raspada, o uso ou não do bigode, a calvície ou a longa cabeleira, a religião professada, o time do coração ou a simpatia por esta ou por aquela agremiação política de cada cidadão ou de cada cidadã, deve ser objeto de profundo e ostensivo respeito.

Quando falamos em democracia, precisamos incluir entre todos os seus atributos o respeito e a consideração devidos a cada pessoa humana, independentemente das suas pessoais e íntimas características. Aceitar o outro exatamente como ele é e com o que possui ou representa, é dever de todos nós, sem qualquer exceção. Deste dever absoluto não estão, e jamais devem estar, excluídas autoridades ou personalidades de relevo no contexto social, eclesial ou político, sob pena de estar-se, assim, compactuando com a hipocrisia que, de tão presente entre nós, consagrou-se como o reverso do que entendemos por virtude.

Não podemos mais aceitar, como normais, as cenas diariamente mostradas nas telinhas das TVs, que dispensam maiores detalhamentos aqui, porque são deprimentes, não apenas para nós brasileiros, mas, para nós, seres humanos!

Alguns governantes temem rebeliões em presídios, temem manifestações populares nas ruas e nas praças do país, temem perder as eleições, mas, não temem ser coniventes com todo tipo de intolerância, muitas das quais até incentivam, com seus atos e discursos excludentes, sem se darem conta de que, no ápice das consequências, serão levados de roldão.

No entanto, não nascemos pela Graça dos governos, não viemos deles e não retornaremos para eles, razão pela qual precisamos, de forma individual ou coletiva, lutar para sermos cada dia mais tolerantes uns com os outros, e com os governos também, sob pena de, muito em breve, entrarmos em uma guerra universal induzida, unicamente, pela intolerância, que alcançará um nível absolutamente inaceitável entre todos os homens e mulheres deste nosso Planeta, já tão sofrido e tão combalido.

Ser tolerante, e cultuar esta virtude com toda a sacralidade que merece, talvez, não nos leve para o reino celestial, mas, certamente, permitirá que vivamos aqui na terra, em paz e em perfeita harmonia, a fim de que possamos enfrentar os incontáveis desafios aos quais somos expostos e submetidos diuturnamente. Unidos por um vínculo “terrivelmente fraterno”, seremos capazes de legar às futuras gerações exemplos e riquezas imensuráveis.

Reflita sobre este texto e sobre tudo o que você conhece acerca da “intolerância”, seja a que nível for e, se possível, faça algo de positivo para, ao menos tentar, modificar o ambiente à sua volta. Daí, para modificar o resto do mundo será apenas uma questão de tempo. E, ainda temos algum tempo para isso. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

nov 18

EDITORIAL DA SEMANA: ITINERÁRIO PARA ENTRAR NO CÉU

ESPÍRITOS DE LUZ

DEGRAUS QUE CONDUZEM AO REINO DOS CÉUS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A Igreja Católica defende a existência de um “purgatório”, para onde as almas, quando saem do corpo, após a morte, são direcionadas para serem submetidas a um processo de “purificação”, caminho preliminar à entrada no Reino dos Céus. Embora o local descrito possa mesmo ser objeto de questionamentos e de, até mesmo, rejeição por parte de alguns fiéis, o fato é que não é razoável acreditar, chegando mesmo a ser ilógico, que a alma de um inveterado pecador, saindo do corpo, seja imediatamente conduzida ao Céu, só porque a criatura, em vida, usou a boca para, além dos inúmeros impropérios, enganos, fraudes, mentiras e falsos testemunhos proferidos, andar dizendo que “Jesus Cristo é o Senhor” ou “Eu aceito Jesus como meu Salvador”, e coisas do gênero, sem qualquer vestígio real de seguimento dos passos do Mestre de Nazaré.

Fosse assim, o céu estaria assegurado para toda e qualquer criatura que, mesmo sem convicção, proferisse os mantras acima descritos e muitos outros semelhantes. Deve ficar bem claro, antes de qualquer outra coisa que, quando Jesus declara que “todo aquele que crer será salvo” Ele está se referindo àquele(a) que cumpre os seus ensinamentos, porque Ele sempre soube que “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto; as doutrinas que ensinam são preceitos humanos” (Mt 15, 8-9).

Bem, o Novo Testamento está repleto de palavras de Jesus que, examinadas com atenção, revelam que não basta, apenas, ficar bradando o nome do Senhor em público, para alcançar a salvação, conforme pensam muitos cristãos que andam por aí com o Livro Sagrado embaixo do braço. Também não basta exercer função ou “missão” eclesial, nesta ou naquela religião, conforme acreditam piamente muitos que assumem tais compromissos, mas, deixam de lado o amor a Deus SOBRE TODAS AS COISAS e AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO. Amam-se acima e mais do que a todas as coisas, de forma narcisista, e o próximo serve apenas como instrumento para exploração em diversos sentidos e oportunidades.

De toda sorte, até para os fiéis mais zelosos com a fé, a conduta pecaminosa (do simples pensar até o agir) faz parte da vida de cada um e, ao final da estrada, a alma já carrega uma carga bastante acentuada, apesar da fé e da esperança na misericórdia final do Criador e do Salvador. O que não parece significar a entrada automática no Reino dos Céus.

É possível acreditar, sim, na existência, não de um espaço físico denominado  “purgatório”, mas, em algumas etapas a serem percorridas pela alma para, então, e somente então, poder se aconchegar nas Terras do Rei, do seu Filho e de todos os eleitos.

Podemos imaginar, por exemplo, que, em um primeiro momento, a alma é conduzida para um lugar no qual ouve a voz do Anjo de Deus declamando todos os mandamentos e todos os preceitos divinos que, durante a vida, ela não seguiu ou para os quais, simplesmente, virou as costas por não acreditar em nada, ou, ainda, por ter preferido dar ouvidos aos pregadores de plantão, com seus ensinamentos meramente humanos. Ali, sem direito a réplicas ou a tréplicas, pedirá que alguém fale em seu nome e em sua defesa, o que, certamente, será concedido. Chegará, então, o próprio Jesus que, na condição de Supremo Advogado, confirmará àquela alma a lista dos seus “deslizes” e, digamos, “malfeitos”, dando à ela duas opções: aceitar, humildemente suas culpas e, com extrema sinceridade, arrepender-se e submeter-se à purificação, ou, na pior das hipóteses, rebelar-se contra tudo o que está sendo dito, alegando aquele montão de desculpas que nós, humanos, já conhecemos muito bem.

A alma que aceitar seus erros e culpas e demonstrar verdadeiro arrependimento e desejo de submeter-se à purificação, o que será verificado pelo próprio Jesus, será encaminhada para uma segunda etapa (ou degrau), no qual ela, juntamente com outras incontáveis almas, terá contabilizadas suas possíveis boas obras praticadas ainda em vida e clamará pelo perdão divino por período compatível com a multidão dos pecados cometidos e assumidos de forma humilde e serena. Caso em vida ela jamais tenha se preocupado com arrependimentos nem em fazer penitência, jejum ou quaisquer outras boas ações, ficará ali, clamando sem cessar e sem qualquer noção de tempo. Receberá, constante e periodicamente, as visitas de Jesus, de sua santa Mãe, dos Anjos e dos santos, que lhe darão imenso consolo e esperança do perdão final que, por fim, chegará.

Vencida esta etapa, ela é encaminhada para um terceiro patamar, no qual deverá conviver de forma harmônica, serena e santa com a comunidade das almas que, com ela, passaram do segundo para o terceiro degrau. Nesta etapa, a alma vai demonstrar a compreensão e a assimilação de forma perfeita, do que realmente significa estar em plena e profunda comunhão com os filhos de Deus, na magnitude dos verdadeiros amor e fraternidade.

Por fim, todas aquelas almas absolutamente purificadas, e em perfeitíssima comunhão entre si, e que agora estão no terceiro patamar vão sendo, lenta e progressivamente, encaminhadas para o Reino dos Céus onde, finalmente, terão a oportunidade de serem integradas, para sempre, com todos os eleitos e com os verdadeiramente salvos. Ali, não terá importância a religião humana que cada uma seguiu; não terão importância as filosofias apreendidas ou disseminadas, os conhecimentos adquiridos durante a vida terrena. De nada valerão as palavras bonitas ou messiânicas que proferiram. De nada valerão os cargos ocupados, os títulos recebidos ou o patrimônio adquirido e acumulado durante a estada terrena. Tudo passou, tudo acabou para sempre! O que realmente terá valor naquele ambiente de paz, de luz, de santidade e de eterna comunhão será a pureza adquirida após a santificação porque, conforme ensinado por Jesus: “Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 8-9).

Pureza de coração é olhar para o outro e nele enxergar o próprio Cristo, independentemente de quem ele seja ou de tudo o que tenha praticado, ou ainda pratique porque Deus, o Pai, olha para cada um de nós como filhos e filhas muito amados, apesar de sermos quem somos e de praticarmos tudo o que praticamos.

Penso que muitas pessoas, ao lerem este texto dele discordarão de forma veemente, porque trazem consigo suas próprias crenças e convicções (limitadas e limitantes), às quais caminharão agarradas até o momento final. Entretanto, a partir do momento final, será possível compreender que nada é da forma que imaginaram porque, primeiro, quem entra no Céu quer ver Deus e, para poder vê-Lo é preciso estar e ser puro de coração; segundo, porque muitos dos nossos atos, palavras e pensamentos não são tidos ou reconhecidos por nós como pecaminosos. Afinal, temos justificativas para tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. Ao mesmo tempo, temos argumentos fortíssimos para condenar as ações, as palavras e as omissões dos nossos semelhantes.

Assim, será preciso passar por uma espécie de “pente-fino”, quando a autoridade divina mostrará diante de nós todo o mal que praticamos enquanto viventes. Coisas que, muitos de nós, sequer imagina serem tidas como pecado mas que, por contrariarem principalmente o mandamento do “ama o teu próximo como a ti mesmo”; ou o mandamento do perdão das injúrias recebidas; ou, ainda, da misericórdia para com absolutamente todos os homens e mulheres, independentemente de quem possam ser ou do que possam ter praticado. Tudo isso será lançado diante de todos e de cada um de nós, inclusive, dos que acreditam que basta invocar o nome de Jesus, para já estarem com vagas asseguradas no Reino dos Céus.

Para quem afirma crer, é importante não esquecer do que o próprio Jesus disse: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7, 22-23). Mas, este julgamento, só Ele pode fazer. Estas palavras só poderão ser ditas por Ele. Não, como vemos por aí, muitos irmãos julgando e selecionando quem é bom e quem não é; quem já estaria salvo e quem  está irremediavelmente “perdido”, como se fossem prepostos do Pai ou do Filho.

É bom que, concordando ou não com os degraus para alcançar o Reino dos Céus, cada um de nós faça rigoroso exame de consciência à luz da Palavra de Deus e das inspirações vindas do Espírito Santo, a fim de podermos, ainda aqui neste mundo, tratarmos de buscar a correção, a penitência e a prática permanente das boas ações, inclusive, em favor daqueles que, vítimas dos diversos padrões humanos, estão à margem da sociedade e de tudo de bom que o Criador disponibilizou para, absolutamente, TODAS as suas criaturas.

Infelizmente, muitos cristãos acreditam estarem cumprindo os mandamentos de Deus, quando fazem o bem a um pobre e necessitado, deixando de fora aqueles que eles consideram extremamente pecadores, julgando-os não merecedores de ajuda, de piedade ou de misericórdia. Isso vale para a prostituta, para o viciado, para o alcoólatra e para uma infinidade de pessoas combatidas no meio da sociedade, sob fundamentos morais e religiosos e, até, em nome de Deus.

Antes de mais nada lembre-se: é apenas um texto, fruto de inspiração literária. Nada mais! Um texto que, independentemente de poder ser plausível ou não, pretende convidar o leitor e a leitora para uma profunda reflexão sobre o que ainda está por vir ao final da nossa vida, sabendo-se, de antemão que, duas verdades são incontestáveis: todos nós, um dia, partiremos desta vida rumo às Terras do Grande Rei e, também, seremos submetidos ao ajuste de contas. Daí por diante, só o próprio Deus conhece os mistérios que envolverão a possível, graças a Jesus, Salvação de todos e de cada um de nós. Vale, ao menos, refletir. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

nov 11

EDITORIAL DA SEMANA: A LIBERDADE COMO O BEM MAIOR

ATRÁS DAS GRADES

ENTRE O CONDE DE MONTE CRISTO E FIÓDOR DOSTOIÉVSKI –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Existe um paralelo que pode ser traçado entre as histórias de Edmond Dantès (O Conde de Monte Cristo) e a de Fiódor M. Dostoiévski, sabendo-se que a do primeiro é obra de ficção, fruto da genialidade de Alexandre Dumas, enquanto a segunda é parte da vida real do fabuloso escritor russo do século XIX.

Edmond Dantès, na trama do autor francês, é vítima de uma armadilha engendrada por “amigos” invejosos e, com o respaldo do procurador do rei, Gérard de Villefort, é acusado de ser bonapartista, crime de alta traição à Pátria, na França dos anos iniciais do séc. XIX. A questão principal da trama contra Dantès deve ser vista e analisada como um chicote de duas pontas afiadas: a primeira, formada por quem deseja ardentemente o lugar de comando da embarcação de cargas (Pharaon), de propriedade do velho e experiente sr. Morrel, que confia no trabalho, no caráter e na lealdade do jovem Edmond, então com dezenove anos de idade. Na outra ponta, o substituto do procurador do rei que, aos vinte e sete anos de idade, e agindo em nome e escudado pela lei, visava proteger, além dos interesses pessoais, o próprio pai, e pavimentar o caminho para a fama, o topo do poder na magistratura e a glória naquela sociedade “renovada”, pós-Napoleão. É justamente este “guardião” da lei e da moral, que aceita como verdadeiras as falsas acusações lançadas contra o jovem Edmond Dantès, cujo desejo maior era, de forma simples e humilde, prestar um bom trabalho ao velho armador, casar-se com a bela Mercedes e cuidar do pai, já idoso e adoentado. O sórdido Villefort, não apenas acolhe a denúncia que lhe chega às mãos como, também, manobra para que o pobre e humilde trabalhador seja eficientemente afastado do convívio da comunidade e da família, onde era tão querido e cortejado como exemplo de cidadão e de trabalhador.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, nascido no ano de 1821, é objeto de uma extensa biografia (5 longos volumes), escrita por Joseph Frank que, por mais de vinte anos, estudou e pesquisou sobre a vida do maior de todos os escritores russos. A referida biografia, editada pela EDUSP, a partir de 2008, é obra de peso literário e de grande utilidade para quem queira conhecer, na verdade dos fatos, quem foi o escritor tão citado por teólogos, psicólogos, sociólogos, humanistas e por personalidades marcantes e influentes ao longo de todo o século XX.

Pois bem, Dostoiévski, em dado momento da vida (1847), quando já era bastante conhecido e famoso por seus escritos, e tendo sido convidado para participar de reuniões literárias, cujo fundo era eminentemente político, é acusado de “conspirar” e de tramar contra o Czar, justamente por integrar um grupo denominado “Círculo de Petrachévski”, nome do ideólogo dos encontros.

Mikhail Petrachévski, na época, um jovem de 26 anos de idade, apenas seis meses mais velho que Fiódor Dostoiévski, mas, que tinha formação em economia política e tendências socialistas bastante acentuadas para o período, é descrito pelos amigos como sendo um sujeito excêntrico e cheio de “esquisitices”. Dostoiévski, no entanto, longe das tendências revolucionárias de Petrachévski, tinha grande interesse e preocupação com tudo o que se passava na Rússia de então e com os gravíssimos problemas vividos naquela sociedade czarista, notadamente, com as inúmeras injustiças sociais e com a acentuada pobreza advindas, principalmente, da servidão institucionalizada, equivalente à escravidão no Ocidente.

Enfim, denunciado o grupo do “Circulo de Petrachévski”, como foco de conspiração e de rebelião contra o Czar Fiódor, juntamente com outros companheiros, é preso e, incialmente, condenado ao fuzilamento, pena comutada no último instante pelo próprio imperador, para prisão na Sibéria, onde fica trancafiado durante seis anos sendo, depois, transferido para uma unidade militar onde é obrigado a seguir carreira, mesmo contra a vontade. Ao fim e ao cabo, e já adoentado, Dostoiévski só retornará à plena liberdade a exatos dez anos após a prisão ocorrida em 1849, quando pede aposentadoria no serviço militar, por motivo de grave enfermidade.

Edmond Dantès, diante de um procurador escolado, capaz de extrair dele toda a verdade dos fatos ocorridos durante a última viagem no comando emergencial do Pharaon, tem a nítida sensação de que será plenamente inocentado e absolvido das terríveis acusações lançadas contra ele. Acusações que, para a época, eram gravíssimas porque iam de encontro a tudo o que a “nova ordem política” representava, ou pretendia representar, para o período pós-napoleônico.

Entretanto, o sr. de Villefort, ao ouvir acusadores e acusado, logo percebe a real inocência de Dantès, mas, percebe, também, a existência de um documento, uma carta, na verdade, capaz de incriminar o próprio pai, razão pela qual decide, no recanto da sua consciência suja, determinar o encaminhamento de Edmond para a masmorra em que fora transformado o Castelo de If, lugar inexpugnável. Levado para aquele lugar sombrio, sem poder, sequer, avisar ou se despedir da noiva ou do pai que, com o passar do tempo, têm-no por completamente desaparecido, Dantès ficará ali, entre a depressão, a ameaça de loucura, a extrema solidão e a sensação de nunca mais poder ver e sentir a luz e os raios do sol.

Entretanto, graças à morte do Abade Faria, vizinho de cela no infortúnio, homem sábio e detentor de riqueza imensurável, Edmond Dantès consegue fazer-se passar pelo defunto e, camuflado no saco mortuário, é atirado nas profundezas do oceano, de onde consegue escapar e voltar à liberdade, na figura do enigmático, riquíssimo e vingador Conde de Monte de Cristo que, no entanto, jamais conseguirá mudar o passado no qual foi vítima escolhida a dedo.

Eu sou absolutamente suspeito para falar sobre Fiódor M. Dostoiévski e sobre o Conde de Monte Cristo, porque li com paixão a história de ambos, sendo que a do Conde, por ser um pouco menor (2 volumes apenas), já li duas vezes e, certamente, lerei mais uma ou duas ainda.

O que chamou a minha atenção, e eis aqui a razão deste texto, é que ambos, embora um seja personagem real e o outro fictício, foram vítimas de tramas, de mentiras, de falsas acusações, de calúnias, de condenações impostas por quem detinha o poder de julgar, do cumprimento de penas odiosas e, por fim, da reconquista da liberdade.

Ora, a liberdade para quem sai de uma prisão, principalmente, quando tem plena consciência da própria inocência, é algo de significado inominável e que, ao mesmo tempo, desperta sentimentos diversos. Se, para Fiódor Dostoiévski, ficar livre da cela, significou a possibilidade de cuidar da família e de retomar, com toda a força, a carreira de escritor e de pensador, para Edmond Dantès, agora na pele do Conde de Monte Cristo, significou impor derrota implacável a todos aqueles que, no passado, levaram-no para os fundos insalubres da masmorra.

A lição que fica de ambas as histórias é que, por mais que alguém possa dizer o contrário, e sejam lá quais forem os argumentos utilizados, jamais devemos nos alinhar com aqueles que se valem da mentira, da cilada, da calúnia e, por fim, da injustiça, para afastar da sociedade pessoas "incômodas". Devemos sempre ter em mente que, quando alguém alardeia estar combatendo crime e criminosos, denunciando, julgando e condenando de forma implacável, levantando bandeiras legalistas, moralistas e moralizantes, deve passar por séria análise psicológica e psiquiátrica porque, das duas uma, ou está acobertando interesses e pessoas muito próximas, ou preparando o terreno para perseguições, vinganças ou promoções pessoais de sorte que, de acordo com as conveniências, o truque é tirar de cena pessoas que podem servir como pedras no caminho, conforme ocorreu, tanto com Edmond Dantès, quanto com Fiódor Dostoiévski.

No caso dos personagens citados, tanto um quanto o outro, por fim, terminaram bem suas carreiras e seus algozes foram devidamente sepultados pela história. No drama do Conde de Monte Cristo, o sr. de Villefort, falso, mentiroso e promíscuo procurador, acabou relegado ao chiqueiro da trama e dele ninguém se recorda, a não ser quando relê a história. No caso de Dostoiévski, nenhum dos seus julgadores é, sequer, conhecido, ao passo que o escritor, entrou para a história e dela, certamente, jamais sairá porque, a história é, abaixo de Deus, a única e verdadeira Magistrada, sob cuja toga ficam ocultos para sempre os falsários, os mentirosos, os hipócritas e os traidores, lançando fachos de luz sobre todos os injustiçados e vítimas da mentira, da calúnia e da sordidez contra eles praticadas.

Caso seja do interesse do leitor ou da leitora, sugiro ler tanto o Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, pela Editora Zahar, quanto a biografia de Dostoiévski, pela Edusp. Leituras que, certamente, são bastante empolgantes e indutoras para a análise de inúmeros episódios vividos e conhecidos por homens e por mulheres de todos os tempos. Se for o caso, desejo uma excelente leitura. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 04

EDITORIAL DA SEMANA : POSSUIR TANTO, SEM POSSUIR A SI PRÓPRIO

RIQUEZAS

QUEM TANTO POSSUI, POSSUI A SI MESMO?

*Por Luiz Antonio de Moura – 

Não constitui mais qualquer novidade a luta incansável de muitas pessoas, com o foco absoluto voltado para a aquisição de bens de todos os níveis e valores. Dentre as frases mais ouvidas nas ruas e nos meios sociais, em geral, figuram estas: “este carro é meu”; “aquela casa é minha”; “tenho conta no banco tal”; estou adquirindo mais isso ou mais aquilo”. As pessoas não se dão conta, mas, falam abertamente: “este é o meu marido”; “aquela é a minha mulher”; “veja, são os meus filhos”, e por aí vai, numa sucessão de pronomes possessivos que não tem fim ou limite.

Os seres humanos gostam de serem tratados como detentores de posses, não importa sobre o que, mas, precisam sentirem-se “donos”, “possuidores”. Diante de tantas posses e de tantos bens, muitos chegam a afirmar, categoricamente, que, “é meu, eu decido o que fazer com isso”, demonstrando que, além da posse, “possui” total domínio sobre tudo o que ousa chamar de “seu”, inclusive, sobre o próprio corpo.

No entanto, surge uma questão interessante: quem possui tantos bens e tantas coisas, possui a si mesmo? Tem domínio sobre si próprio(a)? É capaz de acrescentar um dia a mais na sua existência? Tem capacidade para controlar o seu estado de nervos, quase sempre alterado? É capaz de modificar atitudes que perturbam a paz das pessoas ao seu redor? Quem possui tanta coisa, e com autoridade, tem autoridade sobre seus próprios atos, adequando-os à civilidade, à fraternidade, à solidariedade e a todas as demais virtudes que prega?

Parece que estas respostas, na imensa maioria das vezes, são negativas. Se o meu veículo apresenta qualquer defeito, logo, logo eu trato de enviá-lo ao mecânico, aciono o seguro e busco resolver o problema o mais breve possível. Entretanto, se sinto uma fisgadinha no fígado, por mais que alguém recomende, eu não encontro tempo para, de forma imediata, rápida e eficaz, buscar a resolução do problema. Se, em casa ou em família, alguém passa por dificuldades, eu vou me esquivando o máximo que posso, postergando qualquer auxílio. Mas, se a porta da minha garagem apresenta um pequeno defeito, por mínimo que seja, desde que dificulte a abertura, chego mais tarde no trabalho, ou saio mais cedo dele, para ir em busca de um técnico para fazer o imediato conserto.

Todas estas são realidades que parecem envolver todos nós, seres humanos. Quem, nunca passou por algo parecido? Porém, o que deve chamar nossa atenção é a rapidez com a qual nos dedicamos a cuidar das nossas posses e a lerdeza com a qual cuidamos de nós mesmos. O carro, a casa, o barco, a bicicleta ou a moto são bens passageiros, sim, sabemos disso. Mas, a eles dedicamos nossa atenção especial, enquanto a nós mesmos, ao nosso espírito e a tudo o mais, que não é efêmero, dedicamos tão pouca atenção.

Pare e pense, quando foi a última vez que admirou o seu carro novo, ou qualquer um dos seus bens? Quando foi a última vez que agradeceu a Deus por todos os bens que já conseguiu amealhar? Tenho certeza de que tudo isso ocorre com bastante frequência na sua vida.

Entretanto, quando foi a última vez que ligou para um dos “seus” amigos, simplesmente, para saber como está vivendo, como tem passado ou como está se sentindo no dia-a-dia da vida? Quando foi a última vez que procurou saber, de forma absolutamente desinteressada, como tem passado aquele amigo ou aquela amiga que se aposentou há tanto tempo? Quando foi a última vez que você se lembrou de dobrar os joelhos e, orando, pedir saúde, paz e bem para “seus” vizinhos, “seus” colegas de trabalho; “seus” devedores e “seus” credores”? Tudo é seu, sem dúvida, mas você só se lembra dos “seus” bens, da “sua conta bancária”, do “seu” cargo, dos “seus” compromissos corporativos.

Se você possui um carro que comporta apenas cinco passageiros, dificilmente, permitirá a presença de um sexto passageiro, para não expor o veículo ao peso excessivo. Se alguém pedir para transportar um peso mais elevado no seu automóvel de luxo, certamente, você se recusará. No entanto, quantas vezes você aumenta, sem dó nem piedade, a carga de trabalho que despeja sobre quem trabalha para você? Quantas vezes você acha que o peso carregado pelo outro não é tanto assim? Quantas vezes você não incentiva o outro a ter coragem e a caminhar mais um pouco, quando já está claro que ele não aguenta mais? Assim, mesmo que possua tantos bens materiais, talvez não possua nenhum dos verdadeiros bens essenciais para a vida do espírito.

São estas, dentre outras, coisas que chamam a nossa atenção e que nos levam a pensar como somos contraditórios, incoerentes, hipócritas e falsos, quando queremos possuir o mundo todo, mas, não conseguimos ter a simples posse de nós mesmos. Não conseguimos dar uma direção sensata, justa e coerente com tudo o que pregamos, à vida que levamos e, diante de pessoas que conosco convivem, fazemos até mesmo papel de bobos, acreditando que ninguém está observando o caminhar da nossa carruagem. Não se deixe enganar jamais: sempre estamos sendo observados por alguém. Não passamos despercebidos. Alguém sempre nos observa, de muito perto, ou mesmo à distância.

Já não somos mais convocados a mudar o mundo, como pensávamos outrora, nos tempos da nossa juventude, mas, a mudarmos a nós mesmos e isso importa demonstrar posse e domínio sobre o próprio ser, o próprio espírito e a própria vida. Afinal, de que vale dominar bens e valores materiais, se não conseguimos dominar o bem maior, que é a nossa própria vida?

Reflita sobre isso, no cantinho da sua alma e veja se realmente está na posse e no domínio de si mesmo(a), ou se está assim apenas em relação aos bens amealhados à custa do dinheiro, “seu bem maior”, aquele pelo qual você lutou a vida toda. Apenas reflita. Não se culpe porque, no final de todas as contas, o ser humano tem dessas coisas mesmo e nós, eu e você, não somos muito diferentes. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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