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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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out 11

REFLEXÕES DE UM SEXAGENÁRIO

FIM DA ESTRADA

ENFIM, A TERCEIRA IDADE –

*por Luiz Antonio de Moura –

Alguém, talvez sem nada melhor para fazer na vida, decidiu cunhar o termo “terceira idade”, tendo por objeto as pessoas que chegam à casa dos sessenta anos de idade. Deste modo, ao soar o sinal da meia-noite, chega-se ao dia do início da terceira, e última, fase da vida. A coisa tem cara de melancólica, mas, na verdade, depende do ângulo pela qual é observada.

N’outro dia mesmo eu tinha vinte anos de idade e olhava para frente como quem observa uma estrada a ser percorrida. Nunca, realmente, me preocupei muito em saber o que poderia haver depois da próxima curva. Imaginava que, como tudo indicava, depois da curva, a estrada continuava o seu rumo natural. Com esta crença que, na juventude, toma ares de convicção, não via porque dar ouvidos aos mais experientes, quando alertavam para as armadilhas e para os perigos camuflados depois de cada uma das próximas curvas. É engraçado! A gente acredita mesmo que sabe de tudo e que os outros estão fora da época. Mas não, eles têm sempre razão. Maldita razão! Logo após a primeira curva, lá está escondida alguma armadilhazinha, pronta para nos pregar as primeiras peças.

Assim, de peça em peça; de armadilha em armadilha, a gente vai aprendendo que nada na vida é constante, apesar do nosso querer. Esta lógica torna-se tão contumaz na nossa caminhada, que tem gente que passa a sentir falta da próxima curva, porque não consegue viver de forma constante. Necessita da vida sob alerta, sob o risco e sob o perigo. Gente que, depois de algum tempo, a gente identifica como doente de verdade. Sim, porque, apesar de tudo o que a vida nos propõe, imagino ser normal esperar, e até desejar, que depois da próxima curva, sempre exista uma continuidade de tudo o que é bom e, é claro, o fim de tudo o que é ruim, incomoda e traz sofrimentos.

Bem, deixando de lado os doentes e amantes da dor e do sofrimento, o certo é que n’outro dia mesmo, eu tinha meros vinte anos de idade e olhava para frente imaginando, com o tempo, alcançar a velocidade de cruzeiro, a partir de quando, seriam retas, descidas e curvas suaves e mais retas a serem percorridas, até, então, chegar na fase da tal “terceira idade”, com força, experiência, certeza e ares de sabedoria para, enfim, destruir todo aquele cenário pintado por quem já havia concluído aquele percurso e que, sem maiores cuidados, alertava para os buracos e fossos após cada uma das curvas seguintes.

Dos vinte aos trinta anos, a velocidade é boa. A gente sente que o carro está sob controle e imagina poder acelerar um pouco mais, sem medo das tais curvas. Aliás, as curvas costumam ser emocionantes e a gente, é claro, não sente medo delas. Vai que vai! A estrada alterna trechos muito bons com outros meio esburacados, mas, olhando para fora do veículo do tempo, percebe-se que alguém está fazendo os reparos necessários e, então, imagina-se que, aconteça o que acontecer, haja o que houver durante o percurso, sempre haverá alguém fazendo aqueles reparos. Temos segurança e já pensamos em esboçar pequeno sorriso, como quem diz: “não disse que conheço o caminho?”.

Dos quarenta aos cinquenta, um bom trecho já foi percorrido e, conforme previsto, já vimos muita coisa estranha na estrada percorrida. Depois de algumas curvas, pudemos perceber que o carro já não apresenta a mesma estabilidade; já descobrimos que, vez por outra, fomos realmente surpreendidos por situações desagradáveis depois de certas curvas; pudemos experimentar alguns trechos esburacados e cheios de crateras, nos quais nenhum reparo foi ou está sendo feito. Aquele meio sorriso convencido começa a sair dos nossos lábios e passamos a afirmar que, sob certos aspectos, alguns dos alertas recebidos lá atrás, no início da jornada, tinham alguma veracidade e começamos a nos tornar mais espertos, com os olhos mais atentos na estrada. Até porque, nesta fase da vida, muitos de nós já está usando os indesejáveis óculos. “É só para perto”, a gente afirma. Mas, na verdade, muitas coisas, para serem realizadas, dependem dos benditos óculos!.

Dos cinquenta aos sessenta longo trecho já foi percorrido e algumas experiências foram adquiridas. Umas, bem amargas; outras, menos um pouco, mas, no cômputo geral, é possível verificar as marcas deixadas por umas e por outras. Agora já temos consciência de que, depois de cada curva, sempre existe a possibilidade de surgirem pedras pontiagudas, abismos, armadilhas naturais e outras preparadas gentilmente pelos adversários. Já sabemos “por experiência”, que a estrada é perigosa e traiçoeira; que não podemos confiar em ninguém e, então, passamos a pronunciar o nome de Deus com maior frequência: Deus me livre; se Deus quiser; graças a Deus; tenho fé em Deus, e por aí vai. Já aqui estamos plenamente convencidos do quão enganados estávamos lá atrás, quando dos queridos e saudosos vinte anos!

A partir dos sessenta anos, nossa velocidade tende a ser bastante reduzida. Não, por deterioração ou cansaço da máquina, mas, por precaução. Já estamos cansados dos solavancos que antecedem a frenagem antes de cada curva que, agora, sabemos esconderem perigos. Já estamos prevenidos, por experiência própria, dos enormes riscos da entrada em alta velocidade nas curvas e da (in)consequente aceleração após cada uma delas, acreditando, ou mantendo a ilusão de que, após cada curva, as retas são decorrência natural do grande tracejado percurso.

Nesta fase, normalmente, ao olharmos para frente e para trás, sabemos avaliar com bastante probabilidade de acerto, muito do que ainda pode acontecer, caso insistamos em permanecer com a máquina acionada naqueles níveis de outrora. É preciso ir freando lentamente muito antes de cada curva. É preciso sair de cada curva com velocidade próxima do “zero” para, lenta e sabiamente, ir acelerando muito de acordo com as condições apresentadas diante de nós.

Na marca dos sessenta anos, passamos a compreender que o perigo não está escondido depois de cada curva, mas, incrivelmente, nas grandes retas, nas quais levamos o veículo a velocidades verdadeiramente impraticáveis, posto que, em alta velocidade, a brusca frenagem antes de curvas que vão surgindo do nada, causa impactos bastante negativos no corpo e na alma. Então, e somente então, começamos a compreender que, o ideal é percorrer as grandes retas com velocidade média, aumentando esporádica e cautelosamente, entrando nas curvas com boa estabilidade e saindo delas com segurança redobrada. Ah, aprendi os segredos! No entanto, alguém sussurra nos fones que trazemos colados aos ouvidos: “falta pouco para a chegada. Você já percorreu mais da metade do caminho útil. Prepare-se para entrar na reta final”. Agora, como consolo, só resta aos mais sábios e mais conscientes, tirar o pé do acelerador, colocá-lo no freio para, lenta e progressivamente, ir parando o carro porque, logo ali na frente está faixa de chegada!

Finalmente, tomamos consciência de que ainda podemos ser muito úteis, caminhando, agora, como instrutores de pista, alertando os novatos para os grandes perigos da estrada. Eles, porém, assim como nós outrora, não acreditam no que dizemos. Ligam seus veículos e, como loucos, saem em altíssimas velocidades! Lá se vão eles passar por tudo o que passamos, repetir os mesmos erros, ou outros ainda maiores para, no final, aos sessenta, entrarem na fase final da caminhada, na tal da “terceira idade” e, fatalmente, pretenderem ser o que agora queremos ser: instrutores de pista.

Hoje – 11 de outubro de 2019 – chego na marca dos sessenta anos! Entro nesta que chamam de “terceira idade”. Enfim, a terceira idade! Olho para frente e percebo com muita facilidade os riscos, para a saúde e para a vida, de continuar numa velocidade, ainda, ditada por quem está confortavelmente à margem da pista. Para quem não está, de fato e concretamente, na chuva, o guarda-chuva sempre será  uma peça feia, incômoda e inútil.

Chego aos sessenta anos de idade com conhecimento suficiente para saber que, daqui por diante, a estrada começa a ficar cada dia em condições mais desafiadoras, mais perigosas e mais propensas a transformar meu veículo em peça de museu deixando-me, em qualquer próxima curva, à pé. O melhor e mais sábio, para mim, é entrar na próxima à direita, trocar os pneus por uns mais macios e suaves, próprios para a grama, e ir curtir os belos e magníficos jardins que permeiam toda a grande pista da vida, deixando para os mais afoitos, os ainda despreparados e para os novatos, a possibilidade de engalfinharem-se na incrível “corrida maluca” da vida, na qual, além de competirem insaciavelmente uns com os outros, contarão sempre com a presença de certos fantasmas que, apesar do tempo, insistem em permanecer na pista, criando tumultos e fazendo papel de bobos, porque desrespeitam e desconsideram o poder e a força implacável do tempo, sob os mais diversos pretextos.

Posso até vir a ser instrutor de pista, porém, sabendo, de antemão, que, os que estão para iniciar o percurso, só vão, verdadeiramente, compreendê-lo quando puderem, assim como faço hoje, olhar para trás e dizerem o que digo: Enfim, a terceira idade!

Não sou merecedor de grandes congratulações, afinal, segui as regras. Joguei o jogo. Agora, estou arrumando as malas para entrar na verdadeira fase boa da vida. Aquela reservada aos verdadeiramente sábios. A fase a partir da qual, farei longas caminhadas. Não, naquela estrada estonteante, mas, na estrada que conduz aos vestiários, onde trocarei toda indumentária por roupas mais adequadas ao descanso, ao repouso, à leitura, às orações, à meditação e, enfim, aos passos na grande reta, ao fim da qual, espero, receberei de Deus o grande troféu da vida.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 03

DE DEUS PARA DEUS, SEM ABDICAR DA LIBERDADE PARA PENSAR

DEUS COMO PONTO DE PARTIDA

DEUS COMO PONTO DE PARTIDA E DE CHEGADA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Por mais que devamos prestigiar, e até mesmo fazer valer, a liberdade que temos e o livre arbítrio com o qual somos premiados, não podemos esquecer que estas pérolas, para os crentes, não excluem, de forma alguma, a existência,  a presença e a ação de Deus, na origem e na extensão da nossa caminhada, após esta peregrinação, chamada vida.

Obviamente que este entendimento, conforme destacado, pertence somente aos crentes, não, aos defensores do ateísmo, para os quais a vida começa por acaso e termina com o ocaso, sem maiores consequências, bastando viver intensamente o tempo propiciado, sendo bom ou mal, conforme a aptidão natural de cada um e de acordo com as inclinações adquiridas por meio do contato com o mundo. Depois? Depois, é o fim absoluto. Nada mais.

Entretanto, não é assim que os crentes, professores das mais diversas crenças e tendências espirituais e espiritualistas, pensam e vivem. Cada um a seu modo, crê na existência, tanto de uma origem, como de um destino final, totalmente vinculados à divindade que, de acordo com a crença e com a tradição, recebe nomes distintos.

A crença em uma divindade, seja Deus, Allah, Brahma, Krishna, ou tenha o nome que tiver, não pode servir como agente inibidor para o exercício do livre pensar e do livre agir. A crença, na melhor das hipóteses, deve funcionar, apenas, e tão somente, como instrumento regulador dos atos praticados por nós, seres humanos, na relação de uns para com os outros e, de todos, para com a natureza, mãe acolhedora e mantenedora de todos os seres vivos.

É absolutamente imprescindível, e esta parece ser a vontade de Deus, para a permanente evolução de toda a Criação, que o ser humano não abra mão do direito de pensar, de raciocinar, de questionar, de contestar e, principalmente, de criar e de apresentar sempre, sempre, novos caminhos, novas propostas e novas possibilidades para a vida e para a sobrevivência de todas as espécies. Pensar, contestar e discordar, jamais deve ser tomado como ato de rebeldia, mas, e, sobretudo, como fórmula divina para o aperfeiçoamento da espécie humana, que detém este monopólio sobre todas as demais espécies.

Desta forma, precisamos envidar todos os esforços para não abandonarmos a prática do pensar e do repensar, do criticar e do contestar, em favor da crença cega em discursos cujas origens são, por demais, duvidosas e do seguimento a certos líderes que, de volta e meia, aparecem por aí, com indumentárias e adereços, até mentais, dizendo-se enviados “de cima” para conduzir a humanidade. Para os crentes, é preciso recordar, inclusive, ser esta a forma prevista para o surgimento de todos os anticristos, tanto os que já passaram por aqui, como os que ainda estão e os que ainda virão. Sempre surgem como salvadores de uma pátria na qual, em muitos casos, nem eles mesmos querem viver (estamos cheios destes exemplos). Chegam com as soluções prontas e com palavras muito bem medidas, antes de serem pronunciadas. Tudo, para o arrebatamento de multidões que, infelizmente, creditam a eles todas as possibilidades de vitória.

Ainda que citando Escrituras e Livros Sagrados, estes “líderes” – do menor ao maior – devem ser ouvidos com muito cuidado e tudo o que eles dizem deve ser objeto de pesquisa e de investigação por parte de todos nós, seres humanos, dotados de razão, de inteligência e do tão alardeado livre arbítrio.

Entretanto, é preciso ter em mente, os que creem, evidentemente, que Deus é o nosso porto de partida e o porto para o qual estamos destinados na finitude da matéria humana. Dele viemos e para ele voltaremos, nem que seja para o certeiro ajuste de contas sem, no entanto, termos que abrir mão da nossa liberdade e do livre arbítrio com o qual Ele próprio dotou cada um de nós.

Estudar, pesquisar, contestar e investigar sobre tudo o que ouvimos, de modo algum, ofende o Criador. Pelo contrário, é Seu desejo que o ser humano alcance a plenitude do conhecimento. Não, porém, por intermédio de quem não sabe verdadeiramente o que diz. Mas, por meio do trabalho conjunto voltado para o livre pensar, expressar e agir, a partir de onde e de quando, recebemos dados sempre atualizados para a formação daquilo que podemos denominar como patrimônio intelectual que, acredite, não nos pertence, mas, a todos os seres vivos, inclusive, à ameba!

É bem verdade, que no nosso meio existem homens e mulheres talhados na longa experiência laboratorial da vida. Pessoas nas quais, já nas primeiras palavras, é possível identificar a sabedoria com que são dotadas. Porém, nem por isto, afastam, automaticamente, a nossa reflexão e o nosso procedimento investigativo, até para irmos um pouco mais além do que elas próprias. O desejo de um autêntico e verdadeiro mestre é ver seus discípulos irem além de tudo o que ele ensina. Não, evidentemente, do jeito que vemos por aí. Pessoas estéreis e, ao mesmo tempo, reprodutoras de palavras e de conhecimentos alheios, muitos dos quais absolutamente vazios de conteúdo e de fundamentos.

A propósito, nunca é demais lembrar o Mestre Jesus: “o que crê em mim, fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Crendo, orando, pensando, investigando e agindo, somos muito mais do que simples descendentes do macaco, ou mera decorrência da evolução da ameba.

Para o que creem, é bom sempre repetir, Deus, quando da Criação, deixou para o ser humano a tarefa de levá-la adiante, expandindo-a e aperfeiçoando-a de forma ilimitada. E Ele espera que façamos a nossa parte! Não, que fiquemos dando razão uns aos outros, ou tirando-a uns dos outros, em nome de “pensadores” arcaicos e aproveitadores. Deus espera que lutemos, sempre em prol da vida. Não, como muitos têm lutado, em favor da morte, das mais diversas formas, com as mais diversificadas armas e com as mais primitivas justificativas.

Lendo este texto, não deposite nele nenhuma crença ou confiança, até que a sua própria inteligência te mostre algum indício de luz. E se, com a sua inteligência, reflexão, investigação e pesquisa, você detectar algum indício de luz, transforme-o em uma verdadeira central elétrica, com energia e potência capazes de energizar e de iluminar, pelo menos, o seu caminho de volta para Deus. Já terá sido muito. Lembre-se sempre do dito popular que diz que, “Para aquele que sabe, de um simples limão sai uma boa limonada”. Seja feliz, e boa sorte.

NAMASTÊ - NOVO _____________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

set 24

EDITORIAL DO MÊS: AO IMITAR JESUS, O PAPA FRANCISCO É EXEMPLO PARA TODOS OS CRISTÃOS

O PAPA NA ÁFRICA

OS CRISTÃOS E O PAPA FRANCISCO: RELAÇÃO A SER APRIMORADA, EXEMPLOS A SEREM SEGUIDOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Lemos, nos dias atuais, toda a batalha que o Papa Francisco tem enfrentado, e muito do que ainda está para enfrentar, simplesmente, porque decidiu fazer o que a Igreja, como um todo, parece desconhecer profundamente: ser imitador de Jesus Cristo. Um Papa que se nivela aos mais pobres, aos doentes, aos humildes e humilhados, aos excluídos e discriminados, aos imigrantes, rechaçados em todas as praças do mundo, aos famintos, aos indígenas e a toda uma casta de pessoas que não se enquadram no perfil desejado pelas cabeças mais coroadas, com o ouro da exploração, de todo o Planeta.

Um Papa que, a exemplo de Jesus, a quem diz representar, quer acolher com todas as prerrogativas concedidas aos mais “santinhos” dos cristãos, todos os filhos de Deus, sem qualquer exceção, mas, que encontra em determinados grupos que se dizem “defensores da Igreja e da Tradição” forte resistência e até mesmo grande rejeição.

No tempo de Jesus, era natural que o povo agisse da forma como agiu, vendo o Mestre nazareno sendo condenado à morte, sem nada fazer, haja vista o baixíssimo grau de instrução reinante. No entanto hoje, em pleno século XXI, apesar de todas as dificuldades relacionadas com o ensino e com a educação, de um modo geral, não se pode comparar este, com aquele povo. Hoje, não dá mais para admitir que os cristãos, como um todo, e os católicos, em particular, possam ficar à distância observando a execração de um homem que, acima de tudo, repete as falas, os gestos e os comportamentos de Jesus, em defesa dos mais pobres, humildes, necessitados, excluídos e perseguidos em razão da condição de vida que têm, voluntária ou involuntariamente.

Pois é o que está acontecendo. O Papa Francisco tem promovido verdadeira devassa nas entranhas da Igreja, o que tem gerado enorme insatisfação interna e externamente. E esta insatisfação, cujas reais causas não veem a público, tem sua razão de ser na visão chamada “progressista” do Pontífice que, olhando para o Cristo, quer defender o meio ambiente e o Planeta Terra, como nave mãe de toda a Criação; quer acolher os excluídos de todas as espécies; quer receber com um caloroso abraço e com um prato de alimento, os imigrantes que, desesperados, partem de suas pátrias para não serem dizimados pela guerra, pelo terrorismo, pela doença e pela fome e procuram abrigo em diversas partes do mundo, sendo acolhidos por uns, presos, maltratados, condenados aos campos de refugiados e rechaçados por outros, como se a Terra pertencesse a uma casta específica. 

O PAPA E O POVO DE DEUS

Papa lamenta que resgatar bancos seja mais importante que salvar refugiados - FONTE: http://relances.blogspot.com/2016/11/papa-lamenta-que-resgatar-bancos-seja.html 

Este Papa, é de se perguntar, é comunista, progressista, esquerdista, terrorista ou, simplesmente, cumpre à risca o exemplo do bom samaritano, tão espetacularmente contado por Jesus? Seria o Papa o errado, ou seriam os seus detratores, que preferem acobertar todas as mazelas do mundo, colocando fogo no paiol com a singela desculpa de estarem queimando o joio para preservarem o trigo?

Quem são os cristãos? São os que dividem, excluem, matam, destroem, perseguem, ideologizam e demonizam, ou são os que deveriam imitar Jesus Cristo em tudo o que fez e ensinou?

Parece ter chegado a hora dos verdadeiros cristãos, daqueles que seguem, não apenas as pegadas, mas, e, sobretudo, as palavras, os gestos e as ações de Jesus, formarem fileiras ao lado do Papa Francisco para, ombro a ombro, postularem mais justiça, mais direitos para os humanos, mais compreensão, mais perdão, mais reconciliação, mais aceitação e tolerância, mais união e mais defesa do ambiente no qual todos estamos inseridos, em resumo: mais amor e mais misericórdia. Não é possível deixar que, mais uma vez, um justo pague por todo o mal praticado por tantos, durante tanto tempo.

Os católicos, de modo especial, precisam tomar consciência de que a Igreja não é apenas o fabuloso conjunto arquitetônico situado na Praça São Pedro, em Roma. Não! A Igreja é o fabuloso conjunto humano que prima pelos mandamentos de Deus, dentre os quais o segundo maior e mais importante é o amor ao próximo como a si mesmo.

Portanto, é dever de todo cristão, e, especialmente, dos católicos, fazer ecoar por toda a Terra as mensagens de paz, de amor, de compaixão e de misericórdia vindas do Papa Francisco para todo o mundo, sem qualquer exceção, dando ele próprio o exemplo nas praças, ruas e avenidas percorridas em todas as Nações por onde tem passado.

Mais do que rezar pelo Papa, os católicos devem replicar tudo o que ele defende, porque, acolher com amor e carinho; receber de braços abertos; sentar-se à mesa e tomar alimentos com os pecadores, com as prostitutas, com os publicanos e com toda espécie de excluídos é repetir Jesus e, se alguém repete o Mestre de Nazaré, não pode ser tachado de inimigo da Igreja, mas, verdadeiramente, um dos seus mais importantes representantes.

Neste momento nebuloso e escurecido por palavras e por ações contra o Sumo Pontífice Católico, que cada homem e cada mulher, jovens ou idosos, façam brilhar a Luz que têm dentro de si, para que seja lançado o máximo de claridade sobre o obscurantismo que, por trás de mantos, capuzes e armas, tenta lançar o Papa Francisco na fogueira ardente da omissão, do silêncio e da conivência. Que se façam ouvir as vozes dos verdadeiros seguidores de Jesus e que o Sol volte a brilhar sobre a Igreja de Cristo e sobre seus fiéis seguidores, em todos os quadrantes do Planeta.

O Papa sozinho não tem condições de modificar as estruturas injustas e carcomidas do mundo. Mas, se todos os homens e mulheres de boa vontade tomarem-no como exemplo e replicarem, principalmente, por meio das tão badaladas redes sociais, seus atos e palavras de fé, de amor, de perdão, de acolhimento, de tolerância, de compaixão e de misericórdia, certamente, ocorrerão mudanças visíveis e sensíveis em todas as partes do mundo.

Apesar de certas ordens, doutrinas e ideologias impostas ao mundo, o conjunto de todos os homens e de todas as mulheres será sempre muito maior e muito mais potente e, portanto, totalmente capaz de fazer o pêndulo da balança inclinar-se para o lado da justiça, do direito, da tolerância, do perdão, da compaixão e da misericórdia, virtudes cunhadas a fogo por Deus ao longo de toda a História e, particularmente, descritas e ensinadas à exaustão, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

É preciso que as pessoas se liguem em tudo o que está se passando ao seu redor, e parem de fazer coro com as vaquinhas do Presépio, acreditando que ir ao templo ou à igreja nos dias e horas designados é o bastante para justificar o título de CRISTÃO e o suficiente para assegurar-lhes uma vida eterna cheia de gozo e de felicidade. Antes, é necessário sentar-se com os pobres, com os desvalidos, com os excluídos e perseguidos de todas as espécies, com os imigrantes famintos e abandonados à própria sorte, com os trabalhadores explorados mundo afora, com os pecadores, com as prostitutas, com os homossexuais, com os indígenas, com os aprisionados sem lei e sem justiça, com os divorciados, com os recasados, com os que não são casados na Igreja, ou seja, com os leprosos do nosso tempo. Mirem-se no exemplo de Jesus e tenham coragem para, assim como Ele, afirmarem que são Filhos do Altíssimo, pouco se importando com as reações do Sinédrio moderno.

Nada disso significa afronta, enfrentamento ou desrespeito à Igreja ou à Tradição mas, e acima de tudo, significa agir como Jesus agiu e, certamente, como agiria, ainda, nos dias de hoje. Não viver desta forma e, ao contrário, ficar em cima do muro jogando pedras e criticando, importa no não seguimento a Jesus e a tudo o que Ele fez, ensinou e praticou. O Papa Francisco é exemplo a ser seguido por todos nós, que nos autoproclamamos cristãos. É bom refletir, repetir e replicar. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.                  

 

set 12

MARIA MARTINS: MULHER INIGUALÁVEL DA NOSSA HISTÓRIA RECENTE

MARIA MARTINS

MARIA MARTINS – UMA MULHER QUE SOUBE SUPERAR OS OBSTÁCULOS DO SEU TEMPO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

É muito provável que, à primeira vista, o nome seja absolutamente desconhecido da grande maioria das pessoas glamourosas, destas que dizem conhecer o andar de cima e que adoram demonstrar seus dotes intelectuais. Mas, merecem a devida escusa, porque Maria Martins é, por demais, um nome bastante comum e sem qualquer charme aparente. Entretanto, sobre ela tomei conhecimento e fiquei muito empolgado com sua excepcional trajetória como brasileira, como artista e, principalmente, como mulher absolutamente singular. Mulher que, nascida em fins do século XIX, saboreia a fase adulta e madura de sua vida lá pelas décadas de 1920/1930, quando era absolutamente impensável tanta liberdade e tanta liberalidade para uma pessoa do sexo feminino.

Da minha parte, tudo começou quando, fazendo alguns estudos e pesquisas sobre a sabedoria chinesa e seus principais expoentes, me deparei com o livro velho e amarelado de Maria Martins, sob o título “Ásia Maior – O Planeta China”. Trata-se de um livro editado em 1958, com Prefácio de Oswaldo Aranha, com 330 páginas, por meio do qual a autora discorre sobre seu périplo pelo continente asiático, visitando, principalmente, a China de Mao Tse Tung, por quem é recebida com a máxima elegância, atenção e honra e com quem consegue fazer longa entrevista, devidamente registrada na obra.

No livro, Maria conta um pouco da história mais recente (para a época) da China feudal e do período pré-revolucionário, realçando suas impressões sobre o que lhe parecia ser a medida certa do líder Chinês que protagonizou o que ela denomina como a “Epopeia da Grande Marcha”, donde “afirmaram-se as qualidades de político e de chefe de Mao Tse Tung”[1].

Pois bem, sobre o livro, apesar do conteúdo, não interessa falar porque, para mim, e até então, retrata período histórico bastante controverso, cujos resultados todos conhecemos muito bem.

Porém, em dado momento, como sempre faço, decidi pesquisar um pouco sobre a autora, apesar da antiguidade da obra, já sabendo, de antemão, tratar-se de embaixatriz, casada com o Embaixador Carlos Martins Pereira e Souza.

De início fiquei maravilhado ao tomar conhecimento de que Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza foi, além de escritora, escultora, desenhista, gravurista, pintora e musicista. Atividades que exerceu com igual maestria, principalmente, no exterior, onde angariou fama e amores.

Pesquisando mais um pouco sobre ela, descobri que a Jornalista Ana Arruda Callado por ela encantou-se ao visitar uma mostra sobre surrealismo, no CCBB do Rio de Janeiro, em 2001, na qual estavam expostas dezoito esculturas de Maria Martins. Do encanto de Ana, nasce “Maria Martins – Uma Biografia”[2], editado em 2004, pela Gryphus. Obra que, imediatamente, tratei de adquirir, até para poder melhor escrever sobre esta mulher verdadeiramente fantástica. E digo fantástica, nem tanto pelos dotes artísticos, mas, e, sobretudo, pela capacidade de se impor como mulher num mundo, absolutamente machista e extremamente diferente do que hoje alguns têm prazer em alegar. O século XXI não sabe nada sobre machismo!.

Não dá para descrever, aqui, os detalhes sobre Maria que, desde o nascimento, fruto do segundo casamento de pai enviuvado, conta já com a honra, para muitos de nós, de ter como testemunha de seu nascimento, registrado em cartório, ninguém menos do que Euclides da Cunha, amigo de longa data do Pai de Maria, cujo nome, João Luiz Alves, é nome de Avenida no bairro carioca da Urca.

Maria seria a primeira de três outras filhas, tendo por primeiro o nome de Maria – Maria de Lourdes, Maria Victória e Maria Evangelina. Nascida no Município de Campanha – Estado das Minas Gerais – vem, depois com a família, para o Rio de Janeiro, de onde é encaminhada, com as outras irmãs, para o Colégio Notre Dame de Sion, em Petrópolis, onde até na hora do recreio o idioma falado é o francês!

Em abril de 1915, quando o pai já é Senador da República, casa-se pela primeira vez, com Octávio Tarquínio de Souza, então administrador dos Correios. Mas, este casamento não limitará os passos de Maria de Lourdes que, mais tarde decide se separar do marido enquanto estava com as duas filhas na Europa onde, na França, é obrigada a sepultar a caçula, Maise que, consumida pela meningite, acaba falecendo, longe do pai e dos avós.

Se a ideia da separação, em si, já se revela um tremendo escândalo para a família, imagine-se o que não terá sido tomarem conhecimento de que Maria já estava envolvida, ao menos sentimentalmente, com Carlos Martins, então Diplomata brasileiro bastante renomado, interna e externamente.

Em 1924 Maria viaja com o marido Octávio para Roma, quando é selada a separação. Na Capital italiana Benito Mussolini, então Primeiro Ministro e prestes a se tornar o ditador absoluto, “encanta-se com a bela e irrequieta brasileira e um caso amoroso se inicia entre os dois”[3].

Apenas para registro, João Luiz Alves, em janeiro de 1925 é nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, vindo a falecer em novembro daquele mesmo ano.

Segundo a biógrafa, Maria e Carlos Martins casaram-se em Paris, em 1926 e, muito tempo depois, em fevereiro de 1960, casam-se, também, no Brasil, após o falecimento do primeiro marido.

Maria tornou-se amiga muito próxima de Getúlio Vargas, de Pablo Picasso, de Max Ernst, de Gustavo Capanema, de Gilberto Chateaubriand, de Piet Mondrian,  renomado pintor holandês, de Juscelino Kubitschek, de Ivo Pitanguy e de Clarice Lispector, dentre outros tantos. Encantou-se com o Dalai Lama e com o Primeiro-Ministro da Índia Jawardal Nehru. Esteve face a face com Mao Tse Tung, entrevistando-o sobre assuntos de Estado, da política internacional e da nova China que se esboçava naquele momento histórico. A visita à República Popular da China se dá em atenção ao convite que recebera do Ministro e recente amigo Chou En-Lai. Maria viajou e conheceu o mundo todo. Encantou-se com a China de então, mas, também, revoltou-se com a pobreza na Índia onde, na Província de Massour, homens e mulheres viviam nus e chegavam a disputar alimentos com feras, também, famintas.

Fez de Nova York o palco privilegiado para suas inúmeras obras de arte onde, na primavera de 1943 participa de uma exposição dupla “Maria: New Sculptures e Mondrian: New Paintings”, onde conhece e inicia longa amizade com Piet Mondrian, o pintor holandês acima referido.

Sobre Marcel Duchamp, um de seus ardorosos amores, Maria viria a dizer mais tarde que “Marcel era um belo normando; parecia um cruzado. Toda mulher, em Paris, queria dormir com ele”[4].

Infelizmente, aqui, neste espaço contido, não dá para detalhar a vida bastante intensa de Maria Martins, como mulher, como brasileira, como artista, como escritora (publicou alguns livros), como cidadã do mundo, como mãe e como quem soube de forma inacreditável para a época, percorrer caminhos até então impensáveis para qualquer representante do sexo feminino, ainda que figurante do topo da elite.

De tudo o que li sobre Maria, intensamente Maria, fiquei encantadíssimo com a narrativa de Ana Callado (a biógrafa) sobre o cenário do velório de Maria Martins, em março de 1973, aos 78 anos de idade:

“Seu corpo foi velado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – uma inovação memorável. Esculturas suas rodeavam o caixão, criando um ambiente de beleza e mistério. Ela estava vestida com uma roupa de gala, descalça, com um véu sobre o rosto, e aos muitos amigos que compareceram ao original velório foi servido uísque. Exigência prévia dela, que também havia escolhido o vestido, puxado para o dourado, assim como a nudez dos pés e o véu, e recomendado que o uísque fosse “do bom”. Maria Martins, nascida Maria de Lourdes Faria Alves, havia vivido intensamente a vida. E, como em toda a sua trajetória estivera sempre no comando, dera ordens para depois de sua morte”[5].  

Relativamente a toda organização e ornamentação do velório, Juscelino Kubitschek teria pedido a Heloísa Lustosa, filha de Pedro Aleixo, ex-vice-Presidente da República, que lhe organizasse algo semelhante, dizendo: “Isto aqui está tão correto! Quero lhe pedir para fazer meu velório também aqui”[6]    

Sobre o falecimento de Maria, Ana Callado destaca, ainda, os dizeres noticiados pelo que denomina como o “mais tradicional jornal do país”, o Estado de São Paulo, no dia 28 de março de 1973:

“Foi sepultada ontem, às 17 horas, a escultora e embaixatriz Maria Martins, viúva do embaixador Carlos Martins Pereira e Souza. Ligada por laços de amizade a personalidades internacionalmente destacadas como o rei Leopoldo, da Bélgica, o presidente Franklin Roosevelt, Harry Truman, De Gaulle e Mao Tse Tung, ela sempre dedicou grande parte do seu tempo ao convívio com as artes plásticas. Existem esculturas de Maria Martins em coleções particulares de diversas cidades da América do Norte e da Europa, assim como no Egito e na Austrália” (Além de esquecer as obras de Maria nos museus, a frase “ela sempre dedicou grande parte do seu tempo ao convívio com as artes plásticas” faz da obra da escultora menos que um hobby)”[7].       

Maria Martins soube abrir todos os caminhos que desejou, e soube caminhar por todos eles com a maior desenvoltura possível sendo, em tudo, senhora do seu destino. Liberal e liberta de todas as amarras que, com certeza, impediram outras mulheres de seguirem caminhos semelhantes, tendo como escusa um machismo que, em maior ou em menor grau, sempre existiu. Maria Martins passou batida, sem se preocupar e sem dar bolas para o seu entorno. Foi o que foi, como foi e do jeito que foi. Grande Maria! Inigualável. Inimitável.

Lendo a biografia proposta por Ana Arruda Callado, a gente tem uma visão muito mais ampla de tudo o que se passa nas altas esferas de Estado. Relações de amizades e de amores; de compadrio e de revanchismo; de poder, de gasto, de exibicionismo, onde nem sempre o nome do País é exposto e enaltecido, como o foi na época de Maria Martins, nascida Maria de Lourdes Faria Alves. Sugiro que, a quem se interessar, adquirir o exemplar da referida biografia (imagem abaixo) pela internet e faça uma boa leitura. Em todo o caso, acabará por conhecer a vida e a obra de uma mulher, acima de tudo, fascinante e encantadora por sua arte, sua coragem, sua formação intelectual e sua capacidade para deixar o que poucos deixam, HISTÓRIA.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] MARTINS, Maria. Ásia Maior – O Planeta China. Rio de Janeiro. Ed. Civilização Brasileira. 1958. Pág. 134. [2] CALLADO, Ana Arruda. Maria Martins – Uma biografia. Rio de Janeiro. Gryphus: 2004. 189 páginas. [3] Op. Cit. pág. 79 [4] Idem. pág. 53 [5] Idem. pág. 2. [6] Idem. pág. 93 [7] Idem. pág. 94.

set 06

UMA SIMPLES REFLEXÃO: BRILHAR E LEVAR BRILHO

ALIANÇA

O QUE BRILHA E O QUE O FAZ BRILHAR –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Existe um produto leitoso – branco como leite mesmo – que é muito utilizado para a limpeza e para o aperfeiçoamento do brilho de metais finos como o ouro e a prata, denominado “SILVO”. Basta algumas poucas aplicações, seguidas por um polimento caprichado, para que a peça, de ouro ou de prata, por exemplo, brilhe de forma bastante intensa, parecendo saída da vitrine naquele instante. Para quem não conhece, o SILVO pode ser encontrado nas prateleiras dos melhores supermercados.

Pois bem, por que me lembrei deste produto? Porque na vida, também, existem pessoas que não ostentam muito brilho, são até mesmo meio opacas mas, que, uma vez ativadas, são capazes de levar outras pessoas a brilharem de forma intensa, nas mais diversas atividades. Não precisa pensar muito para, logo, logo, descobrir algum exemplo. O diretor de um filme ou de um documentário vem à mente como paradigma mais que apropriado para o caso. Trata-se de pessoa que normalmente, não aparece na trama ou no desenrolar da filmagem, mas, que leva atores e atrizes, já propensos ao brilho, a brilharem de forma ainda mais reluzente.

Assim, quantas coisas que fazemos que, num primeiro momento podem parecer insignificantes, mas, que, mais à frente, podem contribuir para o brilho de alguém. Todas as nossas ações exalam consequências, umas muito boas, outras, nem tanto. Outras, ainda, muito más. Por esta razão, é preciso estar sempre atentos para que, do nosso proceder, luzes sejam acesas e pessoas possam brilhar.

Nunca me esqueço de episódio vivido há muitos anos quando, ainda jovem, fui convidado para trabalhar com um grupo de teatro. Eu, apesar de gostar da arte da representação, nunca demonstrei aptidão para a tarefa. E, já com este entendimento, perguntei a quem me convidou: “o que vou fazer lá, não tenho jeito para ser ator?”. A pessoa, então, me disse de forma clara e simples: “você pode trabalhar abrindo e fechando as cortinas. Do lado direito ou do esquerdo, é só escolher”. Pensei um pouco e, em seguida, aceitei o convite. A peça era encenada nos finais de semana, durante o período da quaresma. Depois da terceira apresentação, eu descobri o quanto o meu trabalho era importante para que todos aqueles atores brilhassem diante do público. Bastava eu abrir ou fechar as cortinas no momento errado, para que tudo ficasse seriamente ofuscado. Descobri, ali, que meu trabalho, também, levava brilho ao trabalho dos demais.

Hoje, de forma absolutamente anônima para muita gente, eu escrevo textos e publico no site e, como parece óbvio, procuro acompanhar as estatísticas para ver quantas pessoas acessaram e leram os textos e, em muitos casos, percebo que um número bem grande de pessoas leu. N’outras oportunidades, recebo comentários no próprio site, agradecendo o texto, afirmando ter sido útil desta ou daquela forma. Enfim, ainda que absolutamente desconhecido da maioria dos leitores consigo, através da escrita, levar um pouco de brilho para pessoas que, certamente, eu jamais conhecerei pessoalmente. Não sou colunista do jornal mais famoso ou da revista da hora. Não sou o âncora do jornal da noite da TV mais assistida. Sou apenas um anônimo.

Tenho convicção de que, quem inventou o SILVO, no primeiro momento, não imaginou a incalculável quantidade de metais finos que, uma vez submetidos ao produto, ganhariam o brilho excepcional que ganham depois da aplicação, aumentando de forma exponencial a beleza natural de tais peças.

Desta forma, o trabalho realizado com dedicação e com amor, ainda que não apareça nos relatórios mensais ou anuais da empresa, nas primeiras páginas dos jornais, nas capas das revistas mais renomadas ou nas telas das TVs mais assistidas, tem o poder de levar muito brilho para a vida e para a atuação de muitas pessoas. Os exemplos pululam em nossas mentes!

Quem nunca se deu ao trabalho de parar diante de um jardim para admirar o planificado aparo da grama, os contornos dos canteiros de flores e a poda das árvores? Trabalho realizado com carinho, dedicação e sutileza por alguém que, em muitos casos, nem conseguimos ver porque, quando chegamos, o trabalho já estava pronto desde ontem! Olha o brilho que um simples e competente jardineiro é capaz de proporcionar em poucos metros quadrados de terra plantada!

Precisamos ter consciência disto, para que executemos todas as tarefas colocadas sob nossos cuidados, com extrema dedicação, carinho e amor porque, certamente, assim, estaremos levando muito brilho para a vida de pessoas, de animais, de lugares e, enfim, de toda a Criação.

Tudo isto é benção de Deus. São graças recebidas e muitas vezes rejeitadas ou mal administradas, simplesmente porque o anonimato parece ofuscar a obra realizada. Ledo engano! Tudo o que produzimos com dedicação, carinho, atenção e amor, contribui para o crescimento e para o brilho de outros seres. Ninguém é capaz de executar tão bem a tarefa que nós executamos movidos por estes nobres sentimentos e, também, ninguém é capaz de levar tanto brilho a todos os que estão a depender daquilo que nós executamos.

Reflita sobre isto. Reflita sobre tudo o que você faz e veja se faz para brilhar ou para proporcionar o brilho. Que papel você exerce: o do ouro opaco ou o do SILVO que o faz brilhar intensamente depois de aplicado? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

ago 22

REFLEXÃO SOBRE O WHATSAPP: VULGARIZADO E MAL UTILIZADO

WHATSAPP

O WHATSAPP É O NOVO POINT: POR QUE NÃO UTILIZÁ-LO SÓ PARA O BEM? –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas de que, atualmente, o WhatsApp é o point preferido da grande maioria das pessoas para toda forma de troca de informações. Muitas pessoas estão integradas em grupos de bate-papo; outras tantas, e de forma individual, mantêm-se ligadas a diversos amigos e contatos, com os quais dialogam diariamente, se não, várias vezes ao dia. É bonito ver que as pessoas, nos dias atuais, adotam a comunicação como forma de integração social, superando antigas cartinhas, bilhetinhos, ligações telefônicas ou até mesmo os e-mails.

Entretanto, é preciso reconhecer, as redes sociais, dentre as quais o WhatsApp se destaca, não têm sido usadas como lugares-comuns apenas aos bate-papos, por meio dos quais as pessoas tenderiam a crescer e a promoverem o crescimento dos seus amigos, com conversas úteis e interessantes, além da divulgação de notícias importantes (e verdadeiras), objetivando suprir vazios causados pela absurda correria do cotidiano.

Seria mais ou menos semelhante ao encontro diário de diversas pessoas, em torno de uma mesa de bar onde, sem nenhum aperitivo ou bebida de entrada ou de saída, falassem asneiras o tempo todo, além de transmitirem, umas para as outras, notícias falsas ou meias verdades, sem qualquer função ou objetivo nobre. Certamente que, em muito pouco tempo, tais reuniões deixariam de acontecer, porque as pessoas, logo, logo, chegariam à conclusão da absoluta perda de tempo e da inutilidade de tais encontros.

No entanto, no WhatsApp, por exemplo, isso não acontece porque tudo é gratuito, não custando tempo nem dinheiro. Retransmitir uma mensagem qualquer, ou reencaminhar fotos e vídeos em abundância é ato praticado em pouquíssimos segundos, bastando meros dois ou três cliques, e pronto! Já foi.

Com esta lógica, as pessoas, sem terem a menor consciência, e sem saberem valorizar a tecnologia de que dispõem, passam o dia todo enviando “abobrinhas” e “repolhos” e recebendo, em troca, iguais contribuições. Ora, vamos combinar que “abobrinhas” e “repolhos” são muito bons e até fazem falta na dieta diária de qualquer ser humano. Mas, todos os dias, em todas as refeições do dia, enchem o saco de qualquer um. E o pior: a pessoa acaba de enviar uma “abobrinha” e, imediatamente, recebe um “repolho”, ficando absolutamente claro que a “abobrinha”, sequer foi vista com a mínima atenção e/ou consideração.

Estamos vivendo momento histórico, tanto no nosso País quanto no mundo todo, do qual brotam, a todo instante, notícias importantíssimas de todos os lados. Notícias capazes de alterarem nossas vidas, no presente ou no futuro imediato, e que precisam, e devem, ser repassadas, muitas vezes até com certa urgência. D’outro lado, existem pensamentos, fatos, orações, milagres, realizações comunitárias e institucionais, além de toda uma gama de acontecimentos saudáveis e positivos que uns tomam conhecimento, e outros, não, e que, portanto, carecem de repasse entre amigos e contatos.

Voltemos à mesma mesa do bar, agora com outro enfoque, e observemos o quanto cada amigo tem para contar para os demais. Quantas coisas boas aconteceram e quantas estão para acontecer nas vidas de cada um deles, e que, paulatinamente, vão sendo contadas e mostradas, de modo a estarem, verdadeiramente, contribuindo para a alegria e o para o crescimento recíprocos. Tais reuniões, com esses objetivos, certamente serão mantidas e celebradas como algo bastante positivo, haja vista que ao final de cada uma delas, torna-se perceptível grande e real satisfação.

Parece estar na hora de as pessoas considerarem que a euforia inicial com o WhatsApp, e de resto com todas as redes sociais, já está superada, e que todos devemos utilizá-lo para as conversas realmente frutíferas, próprias de uma grande e valiosa amizade. Não se pode esquecer que existem pessoas no meu, e no seu, WhatsApp que, sequer, nos reconhece na rua. Há pouco tempo passei por uma dessas pessoas. E existem inúmeras! Porque o ambiente está absolutamente vulgarizado.

Podemos, e devemos, fazer do WhatsApp um ponto de encontro, diário ou não, propício para o convívio sadio com os nossos contatos, repassando e recebendo informações úteis e valiosas para as nossas vidas, seja por meio de palavras, de fotografias ou de vídeos capazes de cumprirem o duplo papel da informação e da transmissão de alegria. Fechar as portas às fofocas e, principalmente, às mentiras, fará com que saibamos aproveitar da melhor forma possível este maravilhoso canal de interação social, por meio do qual podemos levar aos amigos e contatos permanentes, conhecimentos e experiências extremamente valiosas para o crescimento pessoal e espiritual. Nada, porém, em excesso!

Como é bom receber informações novas e confiáveis; vídeos pedagógicos e transmissores de alegria, de emoção, de prazer e de grandes ensinamentos; textos e orações profundos e sugestivos; fotos de seres, pessoas e lugares por nós desconhecidos; palavras de incentivo, de gratidão, de carinho e de amizade. Enfim, quanta coisa boa, útil e valiosa pode ser transferida, encaminhada e reencaminhada por meio do WhatsApp, uma rede social que, por enquanto, tem servido a muitos apenas para a propagação de notícias falsas, de fofocas descabidas, de incentivo e de disseminação do sectarismo ideológico, religioso ou político, bem como de sentimentos de ódio e de vingança que, infelizmente, têm contaminado a sociedade humana.

Talvez você receba este texto, também, pelo WhatsApp, mas, a ideia é justamente esta: incentivar e estimular a reflexão para que então, e somente então, possamos nos valer dele de forma mais sábia, transformando-o em um verdadeiro point de encontro entre amigos e de contatos, consubstanciados em pessoas que olham e que conseguem enxergar  a sociedade como célula apta à expansão e, em perfeita harmonia com a natureza, capaz de canalizar desejos e objetivos humanos mais substanciais e mais condizentes com a própria espécie. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

ago 11

CÍCERO: O ETERNO ORADOR ROMANO

MARCO TÚLIO CÍCERO

MARCO TÚLIO CÍCERO: UM PERSONAGEM ETERNIZADO PELA HISTÓRIA –

 *Por Luiz Antonio de Moura –

A maioria absoluta dos homens nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. Esta é a lógica da vida para a quase totalidade dos seres humanos. Entretanto, alguns homens, além desta lógica, são eternizados pela história e deles se pode dizer que, apesar do seu desaparecimento físico, seus feitos circulam entre nós todos os dias das nossas vidas, no meio intelectual, artístico ou mesmo espiritual.

O personagem de hoje, a figurar em qualquer galeria da história que se preze é ninguém menos que Marco Túlio Cícero, nascido em Arpino – alpestre burgo da Campânia – que teve uma infância até certo ponto nostálgica, tamanha a tranquilidade daqueles montes pátrios por onde corria ao lado de outros meninos, sem deixar transparecer o gigante que se tornaria mais tarde, quando da sua pena, da sua boca e do seu intelecto brotariam discursos inflamados e riachos de retórica, de filosofia, de religião, de ética, de gramática, de jurisprudência e de política, a inundar o Senado romano e a incomodar aqueles que exerciam o poder em proveito próprio.

Cicero viveu em uma Roma que dependia essencialmente da palavra e ele, como ninguém, dela se valia tanto para construir pontes, quanto para destruir montanhas de malfeitores. Versado nas ciências jurídicas, o advogado Cícero bem cedo tornou-se um homem de bem e um homem da lei, não pactuando com o crime e nem tendo conluio com os criminosos. Idealista, pensava que para os Romanos, como para si próprio, a liberdade importava em condição essencial da vida, levando-o a enfrentar o intrépido Marco Antonio por acreditar piamente que a instauração da República seria o fim de todos os males sintetizados pela ditadura, ficando registrado para posteridade o belo discurso de exortação: “Volta os teus olhos para a República – exorta ele a Marco António – congraça-te com ela e faze de mim o que te aprouver... Moço a defendi: na velhice não desertarei a sua causa. Afrontei os punhais de Catilina, não recuarei diante dos teus. De bom grado me sacrificarei, se a minha morte apressar a restauração da liberdade... Depois de tantas lutas e de tantas honras, padres conscritos, uma só coisa devo desejar: é que, à hora do meu último alento, desfrute o povo romano de sua plena liberdade; e será a maior mercê que me possam conceder os deuses imortais[1]”. 

Defendendo a ascensão de Octávio, em quem deposita todas as suas esperanças, por confiar absolutamente nos propósitos e nas afirmativas do sobrinho e sucessor de César, Cícero se faz fiador de sua conduta perante o Senado, assim se pronunciando: “Octávio – adjura ele – fez à pátria o sacrifício de todas as suas inimizades. Ela é o árbitro único de seus interesses, a conselheira de todas as suas ações. Se ele tomou nas mãos o timão do governo foi para sustenta-la e nunca para subvertê-la. Tenho conhecimento pessoal dos pensamentos desse moço, para quem nada há mais caro do que a república; mais respeitável do que a vossa autoridade; mais precioso do que a estima dos homens de bem; mais agradável do que a verdadeira glória; mais imperioso do que a salvação de Roma. Nisso empenho a minha palavra, padres conscritos, a vós, ao povo romano, à República. Prometo, protesto e garanto, Senadores, que Octávio será de futuro tão bom cidadão quanto o é hoje, quanto todos desejamos e esperamos que ele seja amanhã e sempre[2]”.

A inimizade construída com Marco António, vai custar a vida do orador inigualável, perseguido e afinal assassinado, nas cercanias de Fórnia, aos 64 anos de idade, emudecendo para sempre a grande voz do patriotismo vigilante. A cabeça e as mãos decepadas do tronco, assim como a língua traspassada por um grampo dos cabelos de Fúlvia, a bela e vingativa esposa de Marco António, foram conduzidas para Roma, para terror dos vencidos e escarmento dos recalcitrantes. Sobre a vida frutuosa de Cícero nunca se esgotam os dados e os arquivos construídos e protegidos pelo manto da história o que, como é óbvio, jamais poderíamos pretender.

Entretanto, e para o saboreio do leitor ávido por ouvir os ecos da história, exporemos aqui nesse limitado espaço, uma das orações mais famosas escrita e proferida por Marco Túlio Cícero, contra Lúcio Sérgio Catilina, descendente de família patrícia de Roma, que foi pretor e governador da província da África. De Catilina se pode dizer que pretendeu várias vezes o cargo de cônsul, sendo-lhe sempre negado, em razão dos insultos cometidos contra a República, rebelando-se contra Roma em várias oportunidades, insurgindo-se diretamente contra Cícero, que era cônsul naquele ano.

Chegando ao Senado Romano, para manifestar sua repulsa contra seus membros e, diretamente, contra o cônsul, foi enfrentado por Cícero que, de público, proferiu a seguinte oração:

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? Onde vai dar consigo tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as noturnas do Palatino, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bons, nem este seguríssimo lugar do Senado, nem a presença e o semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? Não vês a todos estes inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste? Oh tempos! Oh costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cônsul as vê, e ainda assim vive semelhante homem! (...) Portanto, Catilina, que podes mais esperar, se nem a noite com suas trevas pode encobrir teus iníquos congressos, nem a casa mais retirada conter com suas paredes a voz da tua conjuração? Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a público? Crê-me o que te digo: muda de projeto, esquece-te de mortandades e incêndios; por qualquer parte te haveremos às mãos. Todos os teus desígnios são para nós mais claros que a luz, o que bem é reconheças comigo. Não te lembras do que eu disse no Senado em vinte e um de outubro, que Mânlio, ministro e sócio das tuas maldades, havia estar armado em certo dia, cujo dia havia ser o vinte e seis do mês? Escapou-me pois, Catilina, não só uma coisa tão atroz e incrível, mas nem ainda o dia? Eu mesmo disse que tu deputaras o dia vinte e seis de outubro para a mortandade dos nobres; e então foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poderás porventura negar-me que naquele próprio dia, por estares rodeado de minhas guardas e das minhas diligências, te não pudeste mover contra a República, quando, retirando-se os mais, disseste que te contentavas com a minha morte? E quando esperavas tomar a Preneste por assalto de noite, no primeiro de Novembro, não achaste aquela colônia municionada com minhas ordens, e com meus presídios, guardas e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu não só ouça, mas veja e penetre claramente. (...) Sendo tudo isto assim, Catilina, prossegue o que principiaste, vai-te enfim da cidade, abertas estão as portas, anda; muito há te desejam por general aqueles teus arraiais de Mânlio; leva contigo todos os teus, ou ao menos muitos deles, alimpa-nos esta corte; de grande temor me livrarás, quando entre mim e ti estiver o muro da cidade; já não podemos mais viver contigo, nem eu posso sofrer, tolerar, consentir. Infinitas graças devo dar aos deuses imortais, e a este mesmo Júpiter Stator, antiquíssimo protetor desta cidade, de ter tantas vezes escapado a esta tão horrível, torpe e prejudicial peste da República. Não convém que por causa de um homem perigue muitas vezes a República. Enquanto me armas traições, Catilina, sendo eu cônsul destinado, não me defendi com guardas públicas, mas com diligências particulares; quando nos próximos comícios consulares me quiseste matar, reprimi teus perversos intentos com o socorro dos amigos e soldadesca, sem tumulto algum; enfim todas as vezes que me acometeste, pessoalmente te resisti, posto que visse andar a minha ruína emparelhada com grande calamidade da República; agora já acometes abertamente toda a República, os templos dos deuses eternos, as casas de Roma, as vidas dos cidadãos, e em uma palavra, tocas a arruinar e destruir toda a Itália.(...) E que vida é ao presente essa tua? Falarei agora contigo, não como agastado com a ira que devo, mas movido da compaixão que não mereces. Há pouco chegaste ao Senado; em um tão grande Congresso, qual de teus amigos ou parentes te saldou? (...) Com estes prognósticos e sumo proveito da República parte já, Catilina, em essa tua pestilencial quadrilha de protervos, que se te agregaram com todo o gênero de maldades e parricídios para essa ímpia e execranda guerra. Então, Júpiter Stator, que aqui foste colocado por Rómulo com os mesmos auspícios com que fundou esta cidade, e a quem com verdade chamamos Stator desta corte e Império, o apartarás e a seus sócios de teus altares e templos, dos edifícios da cidade e seus muros, das vidas e bens dos cidadãos, e a todos os inimigos dos bons, a todos os adversários da pátria, a todos os ladrões da Itália, juntos entre si com o vínculo de seus delitos e abominável sociedade, vivos e mortos os castigarás com eternos suplícios[3].”

Em outro tempo, e num momento mais propício, destacaremos outras partes da oração dirigida a Catilina, que é composta por cinco partes. Por ora é o que basta para incitar no leitor o desejo de entrar na biblioteca mais próxima e buscar por mais orações e discursos escritos e proferidos por Marco Túlio Cícero.

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 *Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] ORAÇÕES – Clássicos Jackson – Volume II – Rio de Janeiro – 1948, pág. XVI [2] Ob. Cit. pág. XVI. [3] Ob. Cit. págs. 215-226.

ago 11

CAMINHOS DA PATRÍSTICA: O CONCÍLIO DE NICEIA – PARTE I

CONCÍLIO DE NICEIA

O CONCÍLIO DE NICEIA - 

PARTE I – PRIMEIRAS HERESIAS –

 *Por Luiz Antonio de Moura –

             Deonísio da Silva – Doutor em Letras pela USP – no seu “De onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, ensina que a palavra concílio, ou concelho, deriva do latim Concilium, que designa reunião, assembleia ou, ainda, como nos dias de hoje, divisão política e administrativa em Portugal. Ensina que “Ali eram feitos conciliábulos, conciliações e reconciliações, tal como hoje nos parlamentos. Nossa Senhora de Fátima tem este nome porque apareceu na vila de Fátima, no Concelho de Ourém, num lugarzinho muito pobre, conhecido como Cova de Iria[1]”.

            A celebração de grandes assembleias conciliares constitui uma marca em toda a história cristã, ao longo dos séculos não raro, de forma ecumênica. A ecumenicidade  do concílio indica a extensão universal da representatividade de uma assembleia e, consequentemente, a extensão da normatividade canônica das suas decisões[2].

            Hoje, e sem esgotar o tema, vamos tratar do primeiro concílio ecumênico da história da Igreja: o Concilio de Niceia, realizado no ano de 325, na cidade que lhe dá o nome. Esse concílio foi marcado por algumas especificidades interessantes: convocado por um imperador romano – Constantino, depois do fracasso de dois Sínodos; teve como missão debelar o incêndio doutrinário aceso com o surgimento de diversas heresias, cujo ápice foi a heresia defendida por Ário; causou enormes divisões no seio da Igreja, com excomunhão e exílios de bispos, inclusive de Eusébio de Cesareia, que, inicialmente, acolheu e apoiou as teses de Ário; formulou o credo niceno (Cremos num só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis).

              Não obstante, foi a primeira experiência de um grande debate teológico e doutrinário a partir do qual a Igreja perdeu o medo de enfrentar os desafios interna corporis, fazendo o que hoje conhecemos como “cortar na própria carne”. O período imediatamente anterior ao Concílio de Niceia foi pródigo na disseminação de teorias heréticas, na grande maioria, de natureza judaizante que não aceitava a divindade de Jesus e que queria a todo custo preservar a Shemá: “Ouve, ó Israel, O Senhor nosso Deus é o único Senhor(...)” (Dt 6, 4).

               A essência de todo o Antigo Testamento está fundamentada no monoteísmo – o Deus único e verdadeiro, criador de todas as coisas. Assim, o nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus Revelado; o Verbo de Deus encarnado trouxe ao mundo pós-ressurreição um intenso debate teológico, embora ainda sem esta conotação, com o objetivo de mostrar que Deus é um só e que Jesus, sob diversos enfoques, não é Deus.

               Com essa obsessão, diversas heresias foram tomando corpo, ou, em alguns casos, foram nascendo umas das outras.

              Não conseguiremos, aqui, enumerá-las todas, porém, vamos expor algumas das mais importantes verificadas no período pré-niceno, até chegarmos à teoria de Ário que, inevitavelmente, vai, então, desaguar em Niceia, com todo o aparato império-eclesial.

            A primeira heresia a ser enumerada é o docetismo: seus defensores afirmavam que Jesus tinha apenas a aparência humana, mas que, na verdade, era como se fosse um fantasma, não existia. Tudo não passava de uma aparência, ou seja, negavam a corporeidade de Jesus.

            O docetismo era uma corrente de pensamento bastante influenciada pelo gnosticismo para quem “a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação. Mais ainda: a matéria é radicalmente oposta ao espírito. São realidades contraditórias. Por isso, Deus, o espírito perfeitíssimo, transcendente, imutável e impassível, não pode, por nenhuma razão, assumir qualquer parcela de matéria. Em outras palavras, é impossível conceber a encarnação de Deus na matéria[3]”. Os gnósticos acreditavam ter atingido um elevado grau de conhecimento, acima do comum, que fazia com seus adeptos fossem tidos como avançados no conhecimento da divindade.

       Consideravam-se tão portadores de sublime conhecimento, que desprezavam a fé dos mais simples e humildes. Segundo os gnósticos, que, como dissemos influenciaram os docetistas, a salvação podia ser alcançada sem a fé no homem Jesus que, se era Deus, seu corpo real era o de um ser astral, celeste. Ou seja, seu corpo humano só podia ser aparente: Jesus, nada mais era do que um homem celeste, um fantasma.

           Em seguida, teremos os ebionismo:  Para estes, Jesus não era Deus, mas, sim, uma pessoa comum. Os ebionitas negavam a divindade de Jesus, porém, reconheciam-No como o Messias anunciado pela Lei e pelos profetas. Irineu de Lião torna-se o primeiro a enquadrar os ebionitas como heréticos, na obra Contra as Heresias, incluindo-os entre os gnósticos, devido às ligações deles (ebionitas), com Cerinto e Carpócrates, utilizando somente o Evangelho de Mateus e rejeitando o apóstolo Paulo, a quem acusavam de apostasia a respeito da Lei.  “Mesmo aqueles entre eles que aceitavam tivesse Jesus nascido de uma Virgem por obra do Espírito Santo, negavam sua preexistência como Verbo de Deus. Jesus seria homem predestinado por Deus que, no batismo, recebera o Filho de Deus, o Verbo-Sabedoria de Deus Pai[4]”.  

        Depois, vamos encontrar o adocionismo: Teódoto de Bizâncio, conhecido como “O Curtidor”, foi o primeiro a sistematizar e a defender o adocionismo, que assim estava fundamentado: Jesus era apenas um homem, puramente humano, nascido de uma Virgem e que, no momento do batismo, recebera uma força especial. O Papa Vitor excomungou Teódoto, mas ele continuou arregimentando adeptos, principalmente, dentre os judeus convertidos, haja vista a dificuldade que estes tinham para reconhecer e aceitar a divindade de Jesus. Para os adocionistas, Jesus era um homem dotado de extraordinária virtude e de quem Deus se servia para a implantação do seu Reino. Para eles, então, Jesus era um “homem de Deus” profundamente inspirado, possuído e conduzido pelo Espírito Santo.

              Não nos parece conveniente prolongar muito este texto, o que seria cansativo para os leitores. Assim, em breve, voltaremos e daremos continuidade às questões envolvendo o Concílio de Niceia que, de tão importante e significativo, ainda hoje, tantos séculos depois, exerce forte influência sobre o caminhar da Igreja. Por ora, é bom que os leitores atentem para que está sendo exposto.

                  Em breve estaremos retomando a marcha.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] SILVA, Deonísio da, De onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa - 17ª edição revista e atualizada, da Lexikon – Rio de Janeiro – 2014, pág. 116. [2] ALBERIGO, Giuseppe – História dos Concílios Ecumênicos – Paulus – São Paulo – 2012 – pág. 8. [3] FRANGIOTTI, Roque – História das Heresias – Conflitos Ideológicos Dentro do Cristianismo – São Paulo – 6ª reimpressão – 2013 pág. 27. [4] Idem, pág. 20.

mar 04

LEITURAS SUGERIDAS PARA O DIA

BÍBLIA - 2017

8ª SEMANA DO TEMPO COMUM – SEGUNDA-FEIRA – 04/03/2019 –

“Na Liturgia da Palavra vamos encontrar a força e o reforço necessários para a jornada que se apresenta diante de nós a cada manhã. Antes de iniciar as atividades do dia, leia atentamente as leituras sugeridas e reflita sobre a Palavra que aperfeiçoa individual e espiritualmente” –

PRIMEIRA LEITURA

LEITURA DO LIVRO DO ECLESIÁSTICO – (Eclo  17,20-28) – 20Aos arrependidos Deus concede o caminho de regresso, e conforta aqueles que perderam a esperança, e lhes dá a alegria da verdade. 21Volta ao Senhor e deixa os teus pecados, 22suplica em sua presença e diminui as tuas ofensas. 23Volta ao Altíssimo, desvia-te da injustiça e detesta firmemente a iniquidade. 24Conhece a justiça e os juízos de Deus, e permanece constante no estado em que ele te colocou e na oração ao Deus altíssimo. 25Anda na companhia do povo santo, com aqueles que vivem e proclamam a glória de Deus. 26Não te demores no erro dos ímpios, louva a Deus antes da morte; o morto, como quem não existe, já não louva. 27Louva a Deus enquanto vives; glorifica-o enquanto tens vida e saúde, louva a Deus e glorifica-o nas suas misericórdias. 28Quão grande é a misericórdia do Senhor e o seu perdão para com todos aqueles que a ele se convertem!

 – Palavra do Senhor.     

– Graças a Deus.

EVANGELHO: Marcos 10,17-27

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo † segundo São Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 17quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” 18Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. 19Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!” 20Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. 21Jesus olhou para ele com amor e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” 22Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 23Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus!” 24Os discípulos se admiravam com essas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.

– Palavra da salvação!

– Glória a vós, Senhor.

  FONTE:   https://www.paulus.com.br/portal/liturgia-diaria/    

mar 03

LEITURAS SUGERIDAS PARA O DIA

Closeup of wooden Christian cross on bible

8º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 03/03/2019 –

“Na Liturgia da Palavra vamos encontrar a força e o reforço necessários para a jornada que se apresenta diante de nós a cada manhã. Antes de iniciar as atividades do dia, leia atentamente as leituras sugeridas e reflita sobre a Palavra que aperfeiçoa individual e espiritualmente” –

PRIMEIRA LEITURA:

LEITURA DO LIVRO DO ECLESIÁSTICO – (Eclo27,5-8) –

5Quando a gente sacode a peneira, ficam nela só os refugos; assim os defeitos de um homem aparecem no seu falar. 6Como o forno prova os vasos do oleiro, assim o homem é provado em sua conversa. 7O fruto revela como foi cultivada a árvore; assim, a palavra mostra o coração do homem. 8Não elogies a ninguém antes de ouvi-lo falar, pois é no falar que o homem se revela.

– Palavra do Senhor! – Graças a Deus.

SALMO RESPONSORIAL: 102(103)

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

1. Como é bom agradecermos ao Senhor / e cantar salmos de louvor ao Deus altíssimo! / Anunciar pela manhã vossa bondade, / e o vosso amor fiel, a noite inteira.

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

2. O justo crescerá como a palmeira, / florirá igual ao cedro que há no Líbano; / na casa do Senhor estão plantados, / nos átrios de meu Deus florescerão.

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

3. Mesmo no tempo da velhice darão frutos, / cheios de seiva e de folhas verdejantes; / e dirão: “É justo mesmo o Senhor Deus: / meu rochedo, não existe nele o mal!”

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

SEGUNDA LEITURA:

LEITURA DA PRIMEIRA CARTA DE SÃO PAULO AOS CORÍNTIOS (ICor 15,54-58)

Irmãos, 54quando este ser corruptível estiver vestido de incorruptibilidade e este ser mortal estiver vestido de imortalidade, então estará cumprida a palavra da Escritura: “A morte foi tragada pela vitória. 55Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?” 56O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. 57Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória pelo Senhor nosso, Jesus Cristo. 58Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, empenhando-vos cada vez mais na obra do Senhor, certos de que vossas fadigas não são em vão, no Senhor.

– Palavra do Senhor!

– Graças a Deus.

EVANGELHO: Lucas 6,39-45

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo † segundo São Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 39Jesus contou uma parábola aos discípulos: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? 40Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre. 41Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no teu próprio olho? 42Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. 43Não existe árvore boa que dê frutos ruins nem árvore ruim que dê frutos bons. 44Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros nem uvas de plantas espinhosas. 45O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”.

– Palavra da salvação!

– Glória a vós, Senhor.

    FONTE: https://www.paulus.com.br/portal/liturgia-diaria/    

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