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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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set 21

EDITORIAL DA SEMANA: A LAUDATO SI’, OS POBRES E OS HUMILDES DO EVANGELHO

LAUDATO SI - 2020

MEIO AMBIENTE: FARISEUS E ET’s ESTÃO NO MEIO DE NÓS –

*Por L. A. de Moura –

Você, certamente, já ouviu falar, tanto sobre fariseus, quanto sobre extraterrestres, mais conhecidos como ET’s, não já? Claro que sim. Porém, caso não tenha ouvido falar sobre, ou não compreenda muito bem, o termo “fariseu”, vou te dar uma ajudinha. Sempre que utilizamos este termo para fazer referência a alguém, estamos, na verdade, fazendo menção àqueles homens, do tempo de Jesus que, ligados fortemente ao judaísmo, exigiam a observação rigorosa da lei escrita por Moisés, compilada nos cinco primeiros Livros do Antigo Testamento ou Rolos da Lei – para nós, o Pentateuco – porém, não observavam nada do que exigiam dos outros. Tanto assim que, a respeito deles, Jesus dizia: “Observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem; mas não imiteis as suas ações. Atam cargas pesadas e impossíveis de levar, e as põem sobre os ombros dos homens, mas nem com um dedo as querem mover.” (Mt 23, 3-4). Pois é, os tais fariseus eram assim, falavam, falavam, falavam mas, fazer, que é bom, nada! E Jesus, sábio que era, já tinha manjado os caras.

Sobre ET’s acho desnecessário falar qualquer coisa, você já sabe o suficiente. Bem, apesar de estarmos, aparentemente, distantes, tanto daqueles fariseus, quanto dos tais ET’s, a verdade é que, de fato, eles estão mais próximos de nós do que nunca. E, normalmente, poderíamos afirmar, são ET’s fariseus, ou fariseus ET’s, porque, além de um assombroso farisaísmo, demonstram ser originários de outros planetas, em razão das ideias que propõem para nós viventes. Só para nós!

É óbvio que eu, e você perceberá isso de cara, não vou ficar, aqui, dando nomes aos bois, porque senão eles me agarram na próxima esquina, porque, acima de qualquer outra coisa, são ágeis para fazer o mal, principalmente, contra quem os critica.

No entanto, vou convidar você, e quantos mais quiserem, a virem comigo para uma suave e proveitosa caminhada. Vamos falar sobre um tema que não sai da pauta dos grandes homens do nosso tempo: o meio ambiente e tudo o que o envolve, inclusive, a alarmante crise socioambiental, da qual o Papa Francisco fala na Carta Encíclica LAUDATO SI' e em diversas outras oportunidades.

É claro que você, não apenas já ouviu falar sobre este tema, como, também, tem ouvido falar sempre, e de forma repetitiva, sobre ele. O que eu não posso afirmar, com segurança, é que você esteja, realmente, familiarizado com a coisa. E por que digo isto? Porque, e é aí que começam a aparecer os primeiros fariseus nesta história, você ouve falar sempre sobre o tema do meio ambiente, das agressões impostas a ele, do mal sofrido pela natureza e de todas as consequências daí resultantes sem que, no entanto, alguém apareça na sua casa, na sua igreja ou na sua comunidade, para fazer demonstrações concretas, capazes de, não apenas comprovar tudo o que dizem, que, de fato, é verdade, mas, e sobretudo, de te convencer a abraçar a luta pela preservação do meio ambiente e mais: te auxiliar na luta diária por esta necessária regeneração.

Ora, venha comigo: se técnicos, cientistas e pesquisadores marcassem um encontro coletivo com a sua comunidade de bairro, para apresentar depoimentos e vídeos demonstrativos de todo o mal que causa à natureza e à própria Mãe-Terra, o simples fato de não saber separar corretamente, por exemplo, o lixo caseiro, já prestariam um serviço muito grande à causa, não é verdade? Se estes senhores e estas senhoras saíssem dos seus gabinetes, levando seus inúmeros assistentes, pastas, vídeos e colaboradores, e se apresentassem nos sindicatos de trabalhadores e/ou de empregadores, para a demonstração de quanto mal é causado aos peixes e aos micro-organismos, o despejo do esgoto in natura nos rios, nos córregos e nos mares; se apresentassem o resultado das suas pesquisas de campo e de laboratório, a comprovarem todas as estatísticas apresentadas em todos os foros nacionais e internacionais, certamente, ampliariam em muito a participação dos trabalhadores e, quiçá, de alguns empregadores também, na incansável batalha pela reversão de todo o mal causado à vida e à natureza.

E mais: se técnicos, pesquisadores, cientistas e desenvolvedores de projetos ambientais, ensinassem às comunidades, na prática, como construírem e fazerem a manutenção de fossas assépticas com, inclusive, o tratamento final e o reaproveitamento de parte considerável da água que por ali circula, sem sombra de dúvida, trariam uma grande parte da população mais pobre e mais humilde para a frente de batalha pela preservação do meio ambiente. Eu mesmo fiz esta experiência na minha casa: desenvolvi um projeto neste sentido. Fiz o desenho, construí e faço periódica manutenção do esgoto caseiro sem, no entanto, conseguir levar avante a divulgação do projeto, por não encontrar ninguém interessado em, ao menos, conhecê-lo. É assim que acontece: se a coisa não representa prestígio para os “sábios”, eles simplesmente fingem desconhecer. Você sabe como funciona: eles sempre alegam falta de tempo e de pessoal. Agora, é a pandemia, claro!

Ora, você haverá de concordar que, sem a participação intensa e ostensiva dos seres humanos, a guerra contra a destruição do meio ambiente está longe de ser vencida, se é que será algum dia. Veja, por exemplo, o que está ocorrendo nos supermercados, em relação às tais “sacolas plásticas”: você não tem mais direito de usá-las, porque contaminam de forma bastante agressiva o meio ambiente. Até aí, tudo bem. Isto é verdade! Entretanto, as “sacolinhas” recomendadas, são vendidas, gerando um lucro absurdo. Imagine por exemplo que, se, em apenas UM simples final de semana, em todo o país, 120 milhões de brasileiros forem aos incontáveis supermercados, e se cada um pagar R$ 0,05 (em alguns lugares é mais caro ainda) por cada sacolinha, teremos a espantosa cifra de R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) circulando naquele weekend. E você sabe que minha conta está subestimada. Em um final de semana o número de brasileiros que vão às compras em supermercados e assemelhados supera, em muito, os tais 120 milhões! Se não superar em número de pessoas, supera seguramente em número de sacolas vendidas. Pois bem, você adquire a tal sacolinha, para “colaborar com a preservação do meio ambiente”. No entanto, no interior do supermercado, em cada setor, existem rolos e mais rolos de embalagens plásticas tradicionais, dispostas, de graça, para você separar os itens a serem comprados. Embalagens que contaminam enormemente o ecossistema como um todo, e ninguém, ninguém fala ou faz absolutamente nada!!!

Muitos populares até questionam tudo isto, eu já presenciei, e já questionei também. Mas, quem lhes dá ouvidos? Quem nos dá ouvidos? Entretanto, campanhas realizadas abertamente nas praças, escolas, igrejas, quadras de esportes, salões paroquiais etc., promovidas e patrocinadas pelo meio acadêmico, por institutos de pesquisas com seus técnicos e cientistas, pelas igrejas e por outros setores da sociedade seriamente comprometidos, é óbvio que produziriam excelentes outros resultados. E estas campanhas não deveriam acontecer em um ou outro dos lugares acima descritos não. Deveriam ocorrer sempre, e em cada um deles a seu tempo.

Mas, você sabe que não é assim. O padre, às vezes comenta sobre o cuidado com a “casa comum”; O pastor, sempre que pode, fala alguma coisa também. Os políticos, principalmente, nas épocas próprias, também, não fogem do assunto. No mais, o que dizer?

Recentemente, só para te dar um exemplo bem quente, participei de um evento comemorativo do aniversário de um documento publicado pelo Papa Francisco, em contundente defesa do meio ambiente. Um evento muito bem organizado, envolvendo setores acadêmicos e religiosos. Pessoas altamente qualificadas foram convidadas a darem seus testemunhos e suas contribuições científicas, analíticas e críticas. Muito bom mesmo! Coisa de altíssimo nível. No entanto, não ouvi a voz de nenhum índio; de nenhum líder comunitário; de nenhuma professora do ensino fundamental de qualquer escola dos países envolvidos no evento; não ouvi a voz de nenhuma dona de casa. O “seu João”, a “dona Maria”, o “seu Pedro”, a “dona Joana” ou o “seu Zé”, nem mesmo o famoso “Hernandez”, foram convidados a se pronunciarem. Parece que ninguém da parte de baixo da pirâmide social foi convidado para falar, sequer, sobre suas dúvidas em relação ao meio ambiente e, principalmente, sobre a forma como poderiam contribuir, mais e melhor, para reverter aquilo que, inclusive, foi destacado como “ecocídio”. Isto não é uma crítica, é uma constatação. Quase sempre é assim: o povo, o pobre, o desvalido, o prejudicado, o sofrido, o esquecido, quase nunca é chamado para falar o que sabe, o que pensa ou o que sugere. É como se nós, cá de baixo, nada soubéssemos. Apenas eles sabem de tudo; apenas eles são capazes de entabular caminhos e soluções para os problemas da humanidade, sem conseguirem perceber que o problema envolve absolutamente todos os seres humanos, de forma unitária, unida e unificada.

Existe um documentário produzido por Marianne Thieme, deputada nos Países Baixos, pelo Partido dos Animais, cujo título é “Meat The Truth – Uma verdade mais do que inconveniente” (legendado), no qual ela expõe as mazelas relacionadas com o meio ambiente, demonstrando o quanto, percentualmente falando, a pecuária, o consumo de carne e a produção mercadológica de animais para o abate representam na contagem da quantidade de CO2 lançada na atmosfera. Neste documentário, que sugiro que você assista no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=u7LBPHtOBnk&t=12s), ela conversa com autoridades, com cientistas, com fazendeiros e com populares, nas ruas, questionando-os e ouvido suas opiniões e sugestões. Tudo muito diferente do que se faz nas bandas de cá, onde o povo só aparece em fotos e em cartazes pregados nas paredes das escolas e das aldeias indígenas.

Mas, do lado de cá, se você escalar a pirâmide social e cultural um pouco mais acima, verá que a conversa é outra: é uma rasgação de seda só. Gente importante abraçando gente importante; doutores confraternizado com outros doutores. Todos muito simpáticos uns com os outros, colhendo impressões e opiniões; promovendo lançamentos de livros de muitos dos amigos presentes. Gente defendendo ideias do outro mundo. Discutindo sobre a possibilidade de existência de vida nesta galáxia ou na próxima mais próxima, ou coisas do gênero. Coisas de ET's mesmo!

Bem, você então chegará à conclusão: são, mesmo, muito parecidos com os fariseus, também! Mas, eu ainda não te contei tudo. Sabe aquela conversa do meio ambiente, de economizar água para que todos possam tê-la na medida das suas necessidades? É uma conversa muito útil, muito bacana e atual. No entanto, enquanto você é compelido a economizar o máximo de água, os senhores da razão e da verdade lavam seus carrões com água em abundância; lavam, ou mandam lavar, suas calçadas, além de promoverem a troca da água da piscina sempre que desejam. E, para se eximirem de qualquer culpa, haverá sempre aquele(a) que alegará estar comprando água própria, para economizar a da região! Enquanto eles orientam você a usar o mínimo de lâmpadas possíveis, na sua casa, eles colocam lâmpadas até no interior do canil, para o pobre cãozinho não andar no escuro durante a noite. E não pense que estou exagerando não. Não estou não! Prova disto é que tem ator famoso fazendo publicidade na TV, perguntando abertamente: “se todo mundo concorda, por que não fazemos?”, e arrematando: “quem concorda faz!”. Você já deve ter visto, não viu? Só que este recado foca em mim, em você, em quem, de fato, tem consciência.

Ora, se a gente quisesse, e você sabe disto muito bem, poderíamos escrever muito mais, não é verdade? Mas, vamos encerrando por aqui.

Acho que já deu para você perceber que fariseus e ET’s estão no meio de nós. E, como ensinou o Mestre de Nazaré, façamos o que eles dizem, mas, não imitemos as suas práticas.

E te digo mais: façamos mais do que eles dizem. Façamos o que eles não fazem. Unamo-nos em torno do meio ambiente e cuidemos para que o nosso mundo seja um lugar melhor e mais promissor.

Em primeiro lugar, quero sugerir que você compre imediatamente (não custa caro não), um exemplar da Carta Encíclica chamada LAUDATO SI’, escrita pelo Papa Francisco, no ano de 2015, para alertar o mundo todo sobre os danos que estão sendo impostos à nossa casa comum, como ele chama o Planeta Terra. Será que você já ouviu falar sobre esta Carta? Em qualquer caso, compre-a e leia. A leitura, na linguagem utilizada pelo Papa, é muito simples, qualquer pessoa alfabetizada é capaz de ler e de entender plenamente tudo o que o Papa quer transmitir. Depois que você fizer isto, compartilha a ideia com seus amigos, contatos no WhatsApp, vizinhos, irmãos e irmãs na fé, colegas de trabalho e, se conhecer algum ET, compartilha com ele também, vai que ele decide ficar morando por aqui.

Mais adiante, sem deixar a ideia morrer, chama todo mundo para reuniões ambientais, convocando algum mais falante para esclarecer melhor as dúvidas e, todos, juntos, proponham iniciativas úteis e fáceis de executar na própria comunidade. Um exemplo simples: distribuindo panfletos explicativos entre os moradores, pedindo para que evitem jogar lixo nas ruas ou nos riachos, separando-os de forma seletiva; solicitando aos fumantes para que apaguem totalmente suas guimbas de cigarros, antes de descartá-las nas lixeiras mais próximas, de modo a evitarem incêndios desastrosos. E por aí vai. Você perceberá que a maioria da comunidade aceitará participar destas iniciativas, com boa vontade, porque todos reconhecerão que tudo será revertido em benefício comum.

Você e seus amigos, parentes, vizinhos, irmãos e irmãs na fé, perceberão que o Papa chama de “casa comum” a Terra onde eu, você e todos nós temos a nossa morada. Faça esta experiência no seu bairro; no seu condomínio, no seu trabalho, na sua igreja, e se sentirá verdadeiramente útil. Deixa os fariseus cuidarem dos seus iguais. Não se preocupe com eles não. Eles nunca souberam o que é tocar a terra com a mão desnuda ou com os pés descalços, como os índios e os absolutamente pobres fazem, às vezes por necessidade sim, mas, sempre, por amor à Terra também.

Escrevi este texto para que, ao lê-lo sinta-se acolhido(a) por um igual a você. Para que você saiba que esta seria a atitude de Jesus em relação a você e a todos os seus entes queridos e unidos na mesma sorte. Jesus falava com os fariseus, mas, não andava com eles, não comia nem bebia com eles, porque sabia quem eram, o que faziam e o que pensavam. Espero que você valorize minhas sugestões e, comprando a Laudato Si’, possa iniciar o melhor e o maior projeto socioambiental da sua vida. Se precisar de mim, é só falar. Mas tenho certeza de que será capaz de reunir outras pessoas tão fortes, inteligentes, poderosas e importantes como você. Faça isto! Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura, é estudante de Filosofia, é estudioso de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

set 20

COMENTANDO O EVANGELHO: POR MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – PATRÃO GENEROSO!

*Por Mons. José Maria Pereira –

Aqui encontramo-nos, de imediato, frente a frente com Deus que nos fala em primeira pessoa: “Pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos”, diz o Senhor (Is 55,8). No Salmo 144 (145): Grande é o Senhor e muito digno de louvores, e ninguém pode medir sua grandeza.

Grande, justo, bom, santo: Assim também Jesus rezava e louvava o Pai.

O homem não pode reduzir Deus à medida dos seus pensamentos, nem condicionar o comportamento do Altíssimo às suas categorias de justiça e de bondade. Deus está muito acima do homem, muito mais do que está o céu acima da terra (Is 55,9); por isso, muitas vezes os projetos da sua providência são incompreensíveis à inteligência humana, que os deve aceitar com humildade, sem pretender advinha-los ou julgá-los. Quantas vezes ficamos aquém das maravilhas que Deus nos preparou! Quantas vezes os nossos planos se revelam tão estreitos!

É este o ensinamento profundo contido na parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16). Jesus narra precisamente a parábola do senhor da vinha que em diversas horas do dia chama trabalhadores para a sua vinha. E à tarde dá a todos o mesmo salário, uma moeda, suscitando o protesto daqueles da primeira hora. É claro que aquela moeda representa a vida eterna, dádiva que Deus reserva a todos. Aliás, precisamente aqueles que são considerados os “últimos”, se O aceitarem, serão os “primeiros”, enquanto os “primeiros” podem correr o risco de ser os “últimos”. Uma primeira mensagem desta parábola está no próprio fato de que o Senhor não tolera, por assim dizer, o desemprego: quer que todos estejam ocupados na sua vinha. E na realidade ser chamado é já a primeira recompensa: poder trabalhar na vinha do Senhor, pôr-se ao seu serviço, colaborar para a sua obra, constitui por si mesmo um prêmio inestimável, que recompensa todo o esforço. Mas só o compreende quem ama o Senhor e o seu Reino; pelo contrário, quem trabalha unicamente pelo salário nunca se dará conta do valor deste tesouro inestimável.

Trata-se de um patrão que saiu de manhã cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combina com eles uma moeda de prata por dia. Torna a sair pelas nove, pelo meio dia, pelas três da tarde e pelas cindo da tarde. Chegado o fim do dia, manda pagar a todos o mesmo salário, a começar pelos últimos. Os primeiros murmuraram, pensando que haviam de receber mais. O patrão mostra que não é injusto para com os primeiros, e defende o direito de fazer o bem. Por que o patrão age assim? A resposta está no fim: “Porque eu sou bom!” Jesus quer dizer que o modo de agir dele é cópia do modo de agir de Deus; Ele é bom e por isso eu também o sou. O dono se compadece de sua pobreza e por isso manda pagar uma diária inteira. A parábola não descreve um ato arbitrário, mas um gesto de uma pessoa cheia de bondade, generosa e de fina sensibilidade para com os pobres. Deus é assim! – quis dizer Jesus; é tão bom que faz participar de seu Reino também os publicanos e pecadores.

Mas eis que logo aparecem os pensamentos do homem. Eles se manifestam murmurando contra os primeiros contratados.

Esses homens têm inveja da bondade de Deus; gostariam que fosse prerrogativa só sua e se escandalizam de que Deus (e Jesus Cristo) se mostre tão generoso com quem, segundo eles, não o merece. A parábola evangélica de hoje nasceu desta situação que se criou ao redor de Jesus de Nazaré: justificar a Boa-Nova do Reino das contínuas acusações dos adversários. Agindo assim, quanta luz de revelação irradiou a parábola: luz de como é Deus, luz para saber quem é Jesus Cristo, luz sobre como são feitos os homens.

Esta parábola pode aplicar-se ao povo judeu, que passou para o último lugar porque não reconheceu o dom de Deus. Depois chamou também os gentios. Todos são chamados com o mesmo direito a fazer parte do novo Povo de Deus, que é a Igreja. Para todos o convite é gratuito. Por isso, os Judeus, que foram chamados primeiro, não teriam razão ao murmurar contra Deus pela escolha dos últimos, que têm o mesmo prêmio: fazer parte do Seu Povo. À primeira vista, o protesto dos trabalhadores da primeira hora parece justo. E parece-o, porque não compreendeu que poder trabalhar na vinha do Senhor é um dom divino. Jesus deixa claro com a parábola que são diversos os caminhos pelos quais chama, mas que o prêmio é sempre o mesmo: o Céu!

Com esta parábola o Senhor não deseja dar-nos uma lição de moral salarial ou profissional, mas sublinhar que, no mundo da Graça, tudo é um puro dom, mesmo o que parece ser um direito que nos assiste pelas nossas boas obras. 

Os que fomos chamados a diferentes horas para trabalhar na vinha do Senhor, só temos motivos de agradecimento. A chamada, em si mesma, já é uma honra. “Não há ninguém, afirma São Bernardo, que, por pouco que reflita, não encontre em si mesmo poderosos motivos que o obriguem a mostrar-se agradecido a Deus. E especialmente nós, porque o Senhor nos escolheu para si e nos guardou para o servirmos somente a Ele”. É imenso o trabalho na vinha do Senhor! O patrão insiste com mais energia no seu convite: “Ide vós também para a minha vinha”.

Podemos ficar indiferentes diante de tantos que não conhecem a figura de Cristo? No campo do Senhor há trabalho para todos! Deus não chega nem demasiado cedo nem demasiado tarde às nossas vidas. O que Ele quer é que, a partir do momento em que nos visitou na sua misericórdia, nos sintamos verdadeiramente comprometidos a trabalhar na sua vinha, com todas as forças e com todo o entusiasmo, sem nos esquivarmos com promessas futuras, nem desanimarmos com o tempo perdido.

Não são gratas ao Senhor as queixas estéreis, que revelam falta de fé, ou mesmo um sentido negativo e cético do ambiente que nos rodeia. Esta é a vinha e este é o campo em que o Senhor quer que estejamos inseridos nessa sociedade que apresenta os seus valores e deficiências. É na nossa própria família, e não em outra, que devemos santificar-nos, e é essa família que devemos levar a Deus; e o trabalho que nos espera hoje, na Universidade ou no escritório, e não outro, que devemos converter em trabalho de Deus…Esta é a vinha do Senhor, onde Ele quer que trabalhemos sem falsas desculpas, sem saudosismos, sem exagerar as dificuldades, sem esperar oportunidades melhores.

Para levarmos a cabo este apostolado, temos todas as graças necessárias. É nisto que se fundamenta todo o nosso otimismo. Deus chama-me e envia-me como trabalhador para a sua vinha; chama-me e envia-me a trabalhar para o advento do seu Reino na história: esta vocação e missão pessoal define a dignidade e a responsabilidade de cada fiel leigo e constitui o ponto forte de toda a ação formativa.

O Senhor quer nos mostrar que no mundo da Graça não se podem fazer valer quaisquer direitos. É certo que o homem deve colaborar na sua salvação eterna, mas esta é um bem tão sublime que jamais deixa de ser um dom, até mesmo para as almas mais santas.

Deus pode chamar a qualquer hora e o homem deve estar sempre pronto para responder ao Seu chamamento. “Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto Ele está perto” (Is 55,6). Continuemos o trabalho na vinha do Senhor! Rejeitemos o pessimismo e a tristeza, se alguma vez não obtemos o resultado que esperávamos.

“Não admitas o desalento no teu apostolado. Não fracassaste, como Jesus também não fracassou na Cruz.  Ânimo!  Continua contra a corrente, protegido pelo Coração Materno e Puríssimo de Nossa Senhora! Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza.

“Tranquilo. Sereno... Deus tem muito poucos amigos na terra. Não te esquives ao peso dos dias, ainda que às vezes se nos tornem muito longos” (São Josemaria Escrivá, Via Sacra, Xlll estação).

Na Eucaristia que é celebrada, nos reunimos ao redor de Jesus agradecidos e humildes como aqueles últimos chegados da parábola que foram receber seu dinheiro e voltaram para casa cheios de alegria por causa da generosidade do dono. Aquele dinheiro é o Reino de Deus que Jesus traz consigo como presente: aliás, é Jesus em pessoa!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

       

set 14

EDITORIAL DA SEMANA: JESUS E SUA GENTE POBRE E HUMILDE

JESUS E SUA GENTE

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: NO CAMINHO DE CRISTO E DO EVANGELHO –

*Por L. A. de Moura –

Hoje eu vou abordar um tema sobre o qual, talvez, você possa se surpreender ou, quem sabe, achá-lo, simplesmente, fora da moda. Respeito qualquer que seja a sua postura. Mas, acredito ser preciso, como sempre o foi, falar sobre a Teologia e, mais especificamente, sobre a Teologia da Libertação. Você poderia até mesmo objetar que, nos tempos atuais, das redes sociais, da globalização, do imediatismo dos fatos e das notícias em ritmo full time, nunca se passou por período de tamanha liberdade e, consequentemente, libertação.

Bem, não sei se você está compreendendo sobre o que eu quero falar hoje. Mas, tudo bem, vou procurar informá-lo sobre tudo. Não vamos, aqui, neste espaço limitado, ficar discutindo a estupenda evolução tecnológica pela qual tem passado toda a humanidade. Não é esta a meta. O que pretendo trazer para você é uma ínfima parte daquilo que convencionou-se denominar como “Teologia da Libertação” a partir de Jesus Cristo e do seu Evangelho. É disto que se trata.

Para iniciar a conversa, e sempre evitando me alongar em demasia, devo destacar nomes de teólogos como o do peruano Gustavo Gutierrez, do suíço Huns Küng e do brasileiro Leonardo Boff, que estão entre os pioneiros de uma visão teológica que, entre os fins da década de 1960 até meados da de 1980, do século passado, abalaram grandes estruturas da Igreja de Roma, resultando em severas punições para, inclusive, o brasileiro.

Os mais antigos devem se recordar de tais episódios. Os mais jovens, por óbvio, não vivenciaram aqueles tempos bastante difíceis. Por esta razão, é recomendável que pesquisem acerca do tema e da história, caso tenham algum interesse.

Deixando conceituações e formulações teológico-filosóficas de lado, vamos direto ao assunto: a Teologia da Libertação, além de significar um grito de permanente alerta à Igreja Cristã trata, também, e em síntese, de aplicar no chão da terra os ensinamentos e os exemplos de Jesus, por muitos denominados como “o Jesus histórico”, ou seja, aquele Jesus sobre o qual o cristianismo se encarregou de acumular dados e fatos que envolveram a sua rápida passagem por este mundo.

É importante destacar que Jesus pode ser visto, e assim o é por muitos cristãos e muitas cristãs, apenas como o da fé, ou seja, aquele homem absolutamente santo, Filho do Altíssimo, alto, bonito, com vestes limpas e bem alinhadas, Mestre judeu das Sagradas Escrituras, que ensinava a verdade, elencava os pecados a que estão sujeitos todos os mortais, condenava os ricos e mostrava o inevitável caminho do Hades, o fogo da geena, para os pecadores não redimidos. Este mesmo Jesus não hesitava em passar noites inteiras em profundos diálogos com o Pai; praticava o jejum, curava cegos, surdos, mudos e enfermos, ressuscitava mortos, perdoava os pecados, mas, alertava os pecadores para não mais pecarem e, por fim, vítima exemplarmente obediente, caminhou sob chibatas até o calvário, onde encontrou a morte na cruz. Um Jesus, enfim, fatídico!

Um outro Jesus, tão amado quanto o primeiro, é aquele que alguns julgam ter passado a juventude entre os Essênios, estudando as Sagradas Escrituras e as estruturas do judaísmo. Um Jesus absolutamente pobre. Mal vestido, mal calçado, morando mal e comendo mal, junto com todos os pobres do seu tempo. Este Jesus, sob este prisma, é complacente com a gente pobre e sofrida que o cerca. Senta-se em meio a todos eles, sem se preocupar se são, ou não, pecadores, cobradores de impostos ou prostitutas. A Ele não interessa saber se aquela gente simples e humilde tem, ou não, uma religião: apenas ensina o respeito à casa do Pai e o caminho do Reino. Para Ele não importa se o homem deve comer carne ou peixe, se deve beber água ou vinho. Ele procura estar sempre com o seu povo, com a sua gente. E, vivendo e convivendo desta forma, Ele vê diante dos olhos a pobreza absoluta, a falta de tudo, a doença, a injustiça, a privação dos órgãos essenciais aos sentidos. Ele sente na própria pele, como se fosse com ele mesmo, a exploração do povo, a perseguição à qual estavam sujeitos, a exclusão social dos leprosos. Ele sofre. Ele chora com os amigos e familiares do amigo Lázaro, que jaz no túmulo.

Este mesmo Jesus, não suportando assistir calado a tantos horrores pelos quais seus amigos, irmãos, vizinhos e conterrâneos estavam sendo massacrados, sobe ao monte e clama as bem-aventuranças; não se conformando com o egoísmo, Ele leva a multidão a repartir pães e peixes; com piedade de Pedro e de seus amigos, Ele possibilita a pesca milagrosa. Para mostrar o poder e a necessidade da transformação dos seres humanos, Ele faz a água se transformar em vinho de primeira qualidade, demonstrando que o último estágio pode ser muito superior ao primeiro. Querendo revelar que nós podemos fazer muito mais do que aparentamos ou acreditamos, Ele afirma, e comprova por meio de Pedro que, quem tiver fé, caminhará sobre as águas; se observar seus ensinamentos, fará as mesmas obras que Ele, e outras ainda maiores, sem qualquer forma ou resquício de exclusivismo. Ele ensina que o Pai ama todos os seus filhos e filhas e que, ao final, quer mesmo é justiça para todos.

Enfim, um Jesus popular, um homem nascido, crescido, vivido e experimentado em meio ao seu sofrido povo, dos quais nunca se afastou.

Jesus era um leigo que, conhecedor da vontade de Deus, declara-se como sendo o próprio caminho, a verdade e a vida. Não satisfeito, chama a si todos os cansados, aflitos e oprimidos, prometendo que a todos aliviará dos seus fardos e pesos. Um pregador que não tinha igreja, frequentava a Sinagoga (casa de oração) e, com a mesma desenvoltura, foi ao Templo de Jerusalém.

Admirado com a fé de Pedro, Ele afirma ser sobre aquela fé, forte como uma rocha, que pretende ver construída a sua Igreja – uma verdadeira assembleia de filhos e filhas de Deus, vivendo e convivendo em absoluta comunhão. Neste sentido Ele, de antemão, assegura que, onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ali, também, estará Ele. Na proximidade da sua condenação, Ele declara: “não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18).

É este Jesus que, preferindo não desafiar Roma, manda pagar o imposto devido a César, não, sem antes, deixar claro que o que pertence a Deus, deve ser dado a Deus. Um Jesus que olha para o sábado, dia sagrado para os religiosos da época, e afirma que este dia foi feito para o homem, e não, o contrário. Um Jesus, enfim, intrigante!

Pois foi justamente olhando para este Jesus, que os chamados teólogos da libertação, ao confrontarem épocas e contextos, além de fazerem certas comparações entre o judaísmo do tempo de Jesus e certos setores do cristianismo contemporâneo, compreenderam ter chegado o tempo de, realmente, conclamar toda a Igreja Cristã a se comprometer de fato e com coragem com a causa do pobre, do oprimido e do injustiçado e a promover a verdadeira imitação de Cristo, postando-se ao lado da gente pobre, sofrida, perseguida, injustiçada, humilhada, explorada, combatida e excluída. Gente da mesma estirpe daquela que convivia com o Mestre de Nazaré. Mesmo estando muitos séculos distantes de Jesus, os teólogos da libertação viveram seus momentos de calvário. Alguns foram crucificados pelas canetas que assinaram suas sentenças de condenação. Outros, de fato, perderam suas vidas ao defenderem sua gente e seus povos, sem se importarem se eram índios, brancos, negros, mulheres, homossexuais,  prostitutas, camponeses ou operários da urbe. Era imperioso viver, na prática do chão da terra e da fábrica, o Evangelho libertador trazido por Jesus sem, jamais, esquecer ou desconsiderar a plenitude da vida eterna, da vida em abundância prometida pelo Jesus da fé.

Muitos homens e mulheres nascidos e criados no seio da Igreja, obcecados com a ideia de entrarem no Reino de Deus por seus próprios méritos, criticando e condenando irmãos e irmãs que adotam outras posturas, condenaram, e ainda condenam, a Teologia da Libertação enxergando nela um simulacro do marxismo ou do comunismo trotskiano. Com esta visão, e pintados na cor branca por fora, muitos cristãos católicos, inclusive, apontaram o dedo contra a Teologia da Libertação e dos seus defensores, tachando-os, simplesmente, de revolucionários comunistas, desobedientes da Igreja, maus exemplos e coisas do gênero, preferindo o silêncio complacente à fala indignada em defesa da gente pobre, sofrida, injustiçada e humilhada de todas as formas.

Talvez, estes cristãos e cristãs, de tão obcecados, tenham esquecido de algumas das palavras mais importantes ditas por Jesus como, por exemplo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então, eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais e iniquidade” (Mt 7, 22-23). Talvez, ainda, estes cristãos e cristãs terão mesmo necessidade de ouvir esta sentença a ser proferida pela boca do próprio Jesus, para poderem compreender que a vontade do Pai e do Filho é que todos os homens sejam tratados com justiça, nem mais e nem menos. Deus não combate a riqueza. Os Patriarcas, no Velho Testamento, eram todos muito ricos e abençoados por Deus, porque eram fiéis e, também, comprometidos com a justiça. No entanto, com a chegada da monarquia, com seus luxos, com suas trapaças, mentiras, idolatrias, corrupções, luxúrias, explorações, humilhações, perseguições, políticas belicistas e mortes, Deus envia profetas altamente indignados como Isaías e Amós, por exemplo, para gritarem contra esta afronta feita ao povo e ao Criador e para clamarem por justiça ao órfão e à viúva.

Quem olha para o mundo de hoje, para o Brasil, inclusive, e acha que está tudo bem, tudo do jeito que só poderia estar; que o pobre nasceu assim, e que assim viverá até morrer; quem acredita que o capitalismo, selvagem como é, é o sistema abençoado e abençoante dos ricos, e que os pobres devem lutar para superar suas dificuldades do dia-a-dia, comendo quando for possível, sem que nada seja feito, não pode se autointitular seguidor de Jesus. Simplesmente porque Jesus não era, não vivia e não agia assim. Quem poderá imitar alguém que não era do jeito que está sendo imitado? Jesus bradou em alto e bom som contra a opressão do seu tempo; Jesus teve coragem para enfrentar, não o império romano propriamente, mas, e, sobretudo, o judaísmo farisaico daquele tempo. Um sistema religioso estruturado, hierarquizado, convicto de que era o senhor absoluto e o guardião da verdade e das bençãos de Deus. Um sistema conivente com o Império, em troca de bem-estar, de conforto, de manutenção dos seus feudos religiosos e, quem sabe, de isenção de impostos.

Quem olha para o Brasil de hoje, e percebe que os povos indígenas estão sendo massacrados, largados à própria sorte; percebe que o campo está inflamado pela política armamentista; que os cárceres estão apinhados de seres humanos que, a cada dia, ganham formas mais e mais monstruosas; que vê direitos trabalhistas, como o simples pagamento do salário, serem aviltados; quem a tudo isto vê, e acredita que está tudo normal, carrega dentro si algum espírito absolutamente desumano, animalesco mesmo. Quem vê o que está sendo feito com as nossas matas e florestas, com os nossos rios e nascentes, com grandes companhias faturando bilhões em cima do fornecimento de uma água de qualidade altamente duvidosa; um saneamento básico que, de básico, não tem nada. Quem a tudo isto vê e mantém-se inerte e em silêncio, não pode acreditar que entrará no Reino de Deus, preparado apenas e tão somente para os pobres e para os justos.

Quem assiste um ministro preocupado, descabelado com a disparada do dólar, com a situação da bolsa de valores e da economia, sem qualquer preocupação com os trabalhadores e com as trabalhadoras do país que, de fato e de direito, são os verdadeiros produtores de toda a riqueza; quem vê este sujeito agindo desta forma, sem demonstrar qualquer preocupação ou mesmo sem propor qualquer política voltada para o emprego, para uma correção justa dos salários, para uma efetiva justiça social, para a saúde ou para a educação das massas, não pode acreditar, sinceramente, ser esta a vontade de Jesus. Neste cenário, deveriam sentir-se envergonhados de se autoproclamarem cristãos, seguidores de Jesus. Seguidores de um Jesus que, simplesmente, desconhecem totalmente, apenas, ouviram falar.

Cinco anos após a publicação, pelo Papa Francisco, da Carta Encíclica Laudato Sí' e trinta dias após o falecimento de Dom Pedro Casaldáliga, a Teologia da Libertação, assim como seus árduos defensores, não pode perder a sua pujança. Pelo contrário, precisamos alimentá-la cada vez mais, como o cozinheiro alimenta o fogão com a lenha seca, a fim de que o fogo do Espírito permaneça sempre aceso em nossos corações. Não podemos assistir calados, omissos e coniventes a tudo o que se passa ao nosso redor, simplesmente, indo à igreja ou ao templo nos dias determinados, depositando um dinheirinho da sacolinha do padre ou do pastor, sob pena de, naquele dia, ouvirmos um sonoro: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim todos vós que praticais a iniquidade.

Esta é apenas uma pequena parte acerca da Teologia da Libertação, suas preocupações, seus olhares e seus objetivos. Acredito que você, se ainda não refletiu profundamente, deverá fazê-lo a partir de agora. Se ainda não compreendeu que o Papa Francisco está aí para abraçar o Evangelho e o modo de viver ensinado, e de conviver adotado, por Jesus, procure se enquadrar enquanto é tempo, pois, a vida é fluida e, quando menos esperamos, eis que é chegada a hora da última travessia. Você poderá até fazer a travessia em um vagão forrado com ouro, porém, nunca se sabe de que forma chegará do outro lado, até porque o seu vagão fica aqui, encaixado numa estreita vaga de concreto. Pense sobre tudo isto e avalie se está imitando o Jesus verdadeiro ou aquele que pintaram para você ou que você mesmo(a) decidiu pintar para si. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

set 13

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018 XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – A “TERAPIA DO PERDÃO” –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Hoje a Palavra de Deus nos propõe o grande tema do perdão. Diz o Senhor no livro do Eclesiástico: “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Senão tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (Eclo 28, 1-4.)

Quem não perdoa o irmão, não poderá exigir o perdão de Deus. O pensamento da morte nos faz pensar diferente: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte e persevera nos mandamentos” (Eclo 28, 6-7).

A felicidade do homem não está em cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas sim em cultivar sentimentos de perdão e misericórdia.

No Evangelho (Mt 18, 21-35) Jesus revela um caminho de Reconciliação.

Pedro consulta Jesus sobre os limites do perdão: “Quantas vezes devemos perdoar”? Jesus responde: “70 × 7”, isto é, SEMPRE e todos, um perdão sem limites, inclusive aos inimigos que os judeus não incluíam.

O perdão não deve ficar na quantidade, mas na qualidade, de coração. Jesus conta a parábola de um empregado que devia uma fortuna imensa e, por compaixão, foi perdoado. Em seguida, ele, sem compaixão, se recusa a perdoar um companheiro que lhe devia uma quantia irrisória: “Paga-me o que me deves”. O Rei indignado o castiga severamente…

E Jesus conclui dizendo: “Assim agirá meu Pai com quem não perdoar seu irmão de todo o coração…”

A parábola é um exame de consciência para nós; convida-nos a analisar as nossas atitudes para com os irmãos que erram.

Jesus nos ensina que o mal, os ressentimentos, o rancor, o desejo de vingança, devem ser vencidos por uma caridade ilimitada que se há de manifestar no perdão incansável das ofensas alheias.

Para perdoar de coração, com absoluto esquecimento da injúria recebida, é necessária por vezes uma grande fé, alimentada pela caridade.

Perdoar, portanto, porque Deus nos perdoou e para que Deus nos perdoe! Mas esta não é a única motivação. O próprio Jesus deu outra motivação mais íntima e desinteressada: a misericórdia, um sentimento feito de compreensão, de identificação com o irmão, de solidariedade e de humildade.

São Paulo, seguindo o Mestre, exortava os Cristãos de Tessalônica: “Vede que ninguém pague a outro mal por mal. Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com todos” (1Ts 5,15). Ainda São Paulo, aplicou esta mensagem evangélica do perdão às situações concretas de sua vida, especialmente da vida doméstica: “Revesti-vos – escrevia – de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, sempre que tiverdes motivo de queixa contra alguém. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também” (Col. 3,12ss). É preciso insistir muito sobre a importância do perdão na vida de uma família. É indispensável expelir dos próprios pulmões o ar oxidado para manter o organismo sadio, assim como inspirar novo ar oxigenado. Perdoar-se é indispensável para manter vivo e sadio um matrimônio, tão importante como amar-se. O perdão, quando é sincero, renova, torna-se ele mesmo fator de crescimento do próprio amor. O fez notar o próprio Jesus na casa de Simão: Quem amará mais? “Aquele a quem foi perdoado mais”. Julgaste bem! (Lc 7,42ss). E concluiu com uma frase que vale um tratado de psicologia: Aquele a quem se perdoa pouco, ama pouco.

Perdoar é, portanto, de verdade, um gesto cheio de nobreza, digno do homem e indispensável para viver juntos e em paz.

Viveríamos mal o nosso caminho de discípulos de Cristo se, ao menor atrito – no lar, no escritório, no trânsito… –, a nossa caridade se esfriasse e nos sentíssemos ofendidos e desprezados. Às vezes – em matérias mais graves, em que a desculpa se torna mais difícil --, faremos nossa a oração de Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Em outros casos, bastará um sorriso, retribuir o cumprimento, ter um pormenor amável para restabelecer a amizade ou a paz perdida. As ninharias diárias não podem ser motivo para perdemos a alegria, que deve ser profunda e habitual na nossa vida.

O Senhor, depois de responder a Pedro sobre a capacidade ilimitada de perdão que devemos ter, expôs a parábola dos dois devedores para nos mostrar o fundamento desta manifestação da caridade. Devemos perdoar sempre e tudo porque é muito – sem medida – o que Deus nos perdoou e nos perdoa. E diante dessa prova da misericórdia do Senhor, tudo o que devemos perdoar aos outros é simplesmente insignificante.

Ensina São Josemaria Escrivá: “Esforça- te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti”(Caminho, nº 452).

O perdão é a expressão maior do amor. É aceitar e querer bem ao próximo assim como ele é; é agir como Deus; é agir a exemplo de Cristo. Perdoando, é para o Senhor que vivemos e para o Senhor que morremos (cf. Rm 14, 7-9).

Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária.

Deus nos perdoa, na mesma medida com que nós perdoamos… O amor é o distintivo do cristão.

A falta de perdão leva a muitos outros sofrimentos, doenças, provoca uma vida azeda e estressante. Só o perdão alivia e restitui a alegria… É a chamada “terapia do perdão”. Senhor, ensina-nos a perdoar!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

set 07

EDITORIAL SEMANAL: A ÉTICA COMO VIRTUDE

SÓCRATES -2020

SOMOS ÉTICOS POR CONVICÇÃO OU POR CAUSA DA COERÇÃO LEGAL OU SOCIAL –

*Por L. A. de Moura –

O tema que hoje apresentas para o nosso costumeiro debate, é por demais instigante, haja vista estar entranhado no cotidiano de todas as pessoas, diríamos, de bem: a ética. E, como sempre, mantendo o teu estilo provocativo, questionas se pretendemos elevar a ética em decorrência de uma convicção própria, ou se, por outro lado, fazemo-lo em razão de certa “coerção” advinda da sociedade, de forma contratual ou mesmo legal. Eu me assusto com este teu estilo. Falo assim, porque, certamente, não encontraremos muito eco diante daqueles que, porventura, venham tomar conhecimento deste nosso diálogo.

No entanto, confiando na nossa capacidade para deslizar por entre as linhas e as entrelinhas, sem causar maiores incidentes, vamos em frente. Na tua opinião, da qual não ouso discordar, é razoável comparar o que é ético com o que é, também, justo, uma vez que uma coisa não sobrevive dissociada da outra. Partindo desta hipótese, pensas que tal como ocorre com a justiça, a prática da ética decorre muito mais de uma imposição vinda do exterior, do que, propriamente, do interior dos seres humanos. Em outras palavras: a teu juízo, o indivíduo só procura ser ético diante do público quando, em segredo, no silêncio da sua alma e, caso eventualmente consultado por si mesmo, manifestaria outro desejo de ser, de viver e de agir.

Destas tuas conclusões, penso ser coerente a dúvida inicial: o indivíduo é ético por convicção ou por coerção? Haveria, por assim dizer, um caminho do meio, no qual um intrépido qualquer pudesse esconder suas verdadeiras características, sem cair diante de um lado ou de outro do abismo? Penso que não!

É claro que não podemos, aqui, neste espaço bastante limitado, pretender efetuar uma exploração sobre a conduta humana no decorrer de toda a história da civilização, sob pena de descermos às profundezas das origens, sem fôlego para o imediato retorno. Desta forma, buscando amparo na análise sobre o humano do nosso tempo que, certamente, é o mesmo de sempre, poderemos encontrar evidentes semelhanças entre os mais diversos exemplares, haja vista pertencermos, todos, à mesma espécie.

Bem, no tempo atual, parece não existirem dúvidas quanto ao fato de que a força dos atos e das opiniões que praticamos ou que externamos, encontra forte balizamento no que a chamada “maioria” pratica ou declara pensar. Assim, praticamos as ações que, segundo a “maioria” dos nossos congêneres, são as mais corretas, as mais justas, as mais equilibradas, as mais coerentes e as mais virtuosas. Na mesma direção, as opiniões que externamos. Devem, para não serem cruelmente apedrejadas, estar em absoluta conformidade com a opinião dos que, inclusive, são denominados “formadores de opinião”. Com um pouco de reflexão, parece não haver muita dúvida quanto a isto.

Ora, se pudermos assumir como verdadeiras as proposições acima, então chegaremos facilmente à conclusão de que os seres humanos contemporâneos agem muito mais, movidos pelo que lhes é imposto pela sociedade, que se fecha em copas, do que propriamente pela sua genuína natureza. Donde podermos afirmar, então, que os indivíduos falam sobre a ética, defendendo-a com unhas e dentes, apenas, e, tão somente, diante das câmeras ou dos inúmeros olhares que lhes são dirigidos por uma plateia ávida por ouvir, justamente, aquilo que se espera que seja dito, até porque, é o reflexo de determinado pensamento dominante. Fora destas circunstâncias e destes contextos, tais indivíduos tendem a conflitar com seus próprios pendores internos.

Seria o caso, e até bastante oportuno, de recordar o famoso exemplo do pastor de ovelhas chamado Giges, usado por Platão, na sua “A República”. Para quem não conhece o caso, aqui vai uma palhinha bem resumida, a partir do diálogo entre Gláucon e Sócrates, quando o primeiro apresenta Giges como um sujeito cumpridor dos seus deveres, mas que, em razão de circunstâncias climáticas, encontra, no corpo de um cadáver, um anel de ouro. Dada a localização do cadáver (é bom ler no original), Giges apodera-se do anel e, em pouco tempo, descobre que ao movimentar a parte superior do anel na direção da palma da sua mão, torna-se invisível para as demais pessoas. Voltando o anel à posição inicial, volta a ser visto por qualquer um. Ora, Giges rapidamente torna-se um sujeito perigoso, uma vez que, possuidor de tais poderes, é capaz de, na invisibilidade agora possível, praticar os atos mais absurdos que se possa imaginar. Sugiro que os leitores leiam a história na íntegra (Segundo Livro de A República – Platão). Para o leitor atento da historinha de Giges, o próprio fato de apoderar-se do anel, em um ambiente fora da vista das pessoas, já soa como algo bastante sugestivo acerca da real personalidade do pastor de ovelhas que, naquele justo momento, encontrava-se a sós com o cadáver, longe de olhares outros.

Imaginem os leitores e as leitoras, por exemplo, o caso de dois estudantes que decidam efetuar matrícula em mesma instituição universitária, sendo que, em dado momento, um deles, sejam lá quais forem as suas razões, decide não mais caminhar junto com o outro, desistindo do ingresso no campus universitário. Obviamente, cada um segue o caminho que se lhe afigura como o melhor. No entanto, o que desistiu de seguir a caminhada universitária, pede ao outro para, na medida em que o curso for evoluindo, vá passando para ele todas as apostilas que recebe da instituição, pelo simples fato de estar regularmente matriculado. Assume, diante do amigo, o interesse em aprender tudo o que puder sobre aquela cadeira, apenas, e, tão somente, não querendo assumir compromissos com o estudo regular nem com as regras impostas pela instituição.

O caso pode parecer estranho ao tema aqui desenvolvido. No entanto, é preciso olhar com um pouco mais de atenção para podermos enxergar a quebra da ética, principalmente, por parte do estudante regularmente matriculado, caso resolva atender o pedido feito pelo amigo. É que, parece bastante claro que, no caso, só tem direito de receber as tais apostilas, aquele que está inscrito naquela instituição para cursar aquela disciplina específica. Para tanto, a instituição cobra um determinado valor mensal, e o estudante paga com a devida regularidade. Enquanto o outro, por ter desistido de frequentar o mesmo curso, ficou isento de efetuar qualquer pagamento àquela instituição ficando, também, sem direito de receber dela, de forma direta ou indireta, qualquer material didático.

Ora, para os que ainda possam guardar alguma insegurança relativamente ao fato, basta perguntar-se a si próprio se, no caso, o estudante que resolvesse atender aos clamores do amigo, seria bem avaliado, e até mesmo aplaudido pela direção da Universidade se, em dado momento, toda a trama viesse a público. Será que o gesto de amizade, passando por cima dos autores do projeto de estudo dirigido, desconsiderando todo o trabalho de pesquisa, além do custo do material utilizado e da força de trabalho despendida, seria visto com bons olhos pelo Reitor da Universidade ou pelo Diretor daquela disciplina? Pode ser que não!

Trata-se de um exemplo muito simples. Bastante simples, mas, que, ocorre com muita frequência no mundo acadêmico. Ora, mas isto não é nada grave, poderiam objetar os leitores e as leitoras. Parece não ser grave mesmo. No entanto, quem é capaz de praticar um ato minimamente antiético, de posse de uma justificativa até plausível, será capaz de praticar muitos outros, para os quais, certamente, encontrará as justificativas cabíveis e, possivelmente, admissíveis, desde que – e isto é importante – não sejam atingidos interesses maiores, caso venha a ser descoberto.

Portanto, exemplos não faltam no dia-a-dia das nossas vidas. É preciso, e até certo ponto útil, que cada um de nós faça uma avaliação rigorosa diante de cada ato a ser praticado, para saber se está agindo por força da coerção ou de uma sólida convicção própria. Agiria desta forma, independentemente da publicidade do ato, ou, por outro lado, diante da plateia, tomaria outro rumo?

Há a alguns anos eu adquiri, pela internet, um programa nutricional, seguido de um livro de receitas de culinária, elaborados por uma equipe cujo chefe era um médico gastroenterologista, com foco em pessoas portadoras de diabetes. Adquirir, aqui, significa, comprar mesmo. Comprar e pagar. Bem, seria natural que, comprando e pagando, eu me entendesse como “dono” daquele material, podendo repassá-lo para qualquer outra pessoa das minhas relações. Até mesmo para ajudar alguém a se alimentar de forma mais adequada. Muito justo, diriam alguns. No entanto, no ato da compra, tive que declarar estar ciente de que, qualquer forma de transferência daquele material, no qual vinham estampados o meu nome e o número do meu CPF, constituiria fraude, em razão do direito da autoria, do qual o médico assinante é detentor. Não bastasse a referida adesão ao compromisso, assim como a minha identificação para fins fiscais, verifiquei, posteriormente que, qualquer simples cópia, exibia, também, o endereço eletrônico do médico, na forma de marca d’água, significando que, mesmo que eu quisesse burlar o compromisso assumido, estaria muito claro para qualquer pessoa, que aquele era um material cujo autor deve ser respeitado. Valendo dizer: quem quiser adquiri-lo, deve comprá-lo!

Quer um outro exemplo prático? A Folha de São Paulo até permite que sejam feitas cópias das matérias que publica. No entanto, o copiador, ao teclar o Ctrl+v, recebe apenas o endereço eletrônico da referida página do jornal que, por sua vez, só pode ser acessado por assinantes. O que isto significa? Significa que, se eu, que sou assinante, enviar cópia do endereço eletrônico para uma pessoa que não o seja, ela não conseguirá o acesso desejado. E por quê? Seria de se perguntar: por se tratar de material de cunho comercial, que possui valor econômico para quem o produz. Desta forma, se qualquer pessoa pudesse obter acesso àquele material, a empresa iria à falência.

Observem que, em ambos os exemplos, a "ética", aqui, ocorre em função das precauções tomadas pelas respectivas instituições, o que parece não ocorrer no caso do estudante cujo amigo pediu cópia do material disponibilizado somente para os regularmente matriculados naquela disciplina específica. Portanto, neste último caso, é possível que o nosso prezado estudante mandaria a ética às favas e, para agradar ao amigo, cederia facilmente todo o material solicitado. Tiraria, também, se fossem pedidas, fotos das professoras mais sensuais, assim como das estudantes mais bonitas etc., sem qualquer constrangimento. Tudo isto porque, para ele, ética tem a ver com a liberdade de agir, e esta, não encontra limites a não ser na lei e na punição.

O grande problema, é que o ser humano não se esmera em ser honesto, em respeitar o direito alheio. Pelo contrário, procura sempre esmerar-se em superar quaisquer obstáculos relativos à ética, de modo que, da forma mais discreta, e secreta, possível, possa invadir o espaço do outro sem ser descoberto e sem, evidentemente, perder a auréola de “pessoa ética”.

Finalizando este nosso colóquio, julgo ser necessário dizer que precisamos inverter esta lógica, porque ela tem destruído uma das coisas mais importantes da vida de todos nós: a confiança mútua. Precisamos acreditar que nossas relações, sejam comerciais ou não, carecem do sentimento, e da própria convicção, da justeza, do equilíbrio e da equidade. É, pois, possível, uma melhor convivência. Só depende de todos e de cada um de nós.

Em razão do meu atual momento acadêmico, penso ser importante discriminar aqui o Óctuplo do Nobre Caminho, extraído do Dhammapada, que traz as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda, para a superação e a libertação da dor e do sofrimento: a) a reta compreensão; b) o reto pensamento; c) a reta palavra; d) a reta ação; e) o reto modo de vida; f) o reto esforço; g) a reta atenção; h) a reta concentração.

O sentido de “reto”, aqui, é o daquilo que é “justo”. Portanto, precisamos conhecer e, ao mesmo tempo, praticar, estas virtudes, para podermos disseminar o caminho do bem que tanto almejamos para as nossas vidas, assim como para as de todos os nossos semelhantes. A pergunta não é: É possível ter um mundo melhor? Mas, sim: Eu consigo ser melhor do que sou para encontrar um lugar no mundo que almejo como melhor? Porque, se a resposta a esta segunda pergunta for afirmativa, a primeira questão estará, igualmente, resolvida.

Espero que tenhas ficado satisfeito com estas minhas ponderações e que os nossos leitores e leitoras possam, também, tirar algum proveito de tudo isto, apesar de, como sempre, reafirmar que tudo não passa de opiniões e de convicções de natureza pessoal, frutos da vivência e da própria experiência de vida. Que cada um faça as suas íntimas e saudáveis reflexões e que, a partir daí, possa tirar as conclusões capazes de mudar caminhos e caminhadas, oferecendo exemplos e opções para outros caminhantes. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

set 06

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – COMO CORRIGIR O IRMÃO?

*Por Mons. José Maria Pereira –

A Palavra de Deus, neste Domingo, pode ser desenvolvida, como meditação, refletindo sobre dois aspectos importantes da vida cristã: a correção fraterna e a oração em família.

Diz Jesus: “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo” (Mt 18,15). Este primeiro momento demonstra o respeito e o amor para com o próximo. Muitas vezes acontece que se espalha o erro da pessoa aos quatro ventos… Esta atitude não é cristã! É necessário rezar, pedindo as luzes do Espírito Santo para saber quando se deve calar… quando se deve falar… e como falar…

Caso o irmão não queira ouvir, Jesus ensina que se deve pedir a ajuda de outras pessoas, que tenham sensibilidade cristã e sabedoria…

Não se trata de condenar, mas de fazer a correção fraterna para que se restabeleça o amor (cf. Mt. 18,15-20). O grande critério é o amor mútuo (Rm 13,8-10) para que a comunhão se restabeleça.

Se essa tentativa também falhar, levar o assunto à Igreja (Comunidade) para recordar à pessoa que errou as exigências do caminho cristão. Como se percebe, recomenda-se que fique tudo em casa…

O importante é colocar-se de acordo no bem. Deve sobressair o amor fraterno, o ágape, pois, “não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (Rm 13,8). Isto vale também para a correção individual entre irmãos… Santo Agostinho aplicou exatamente à correção fraterna as palavras de São Paulo sobre a caridade: “Ama e faze o que queres. Seja que cales, cala por amor, seja que fales, fala por amor; seja que corrijas, corrige por amor; seja que perdoes, perdoa por amor. Esteja em ti a raiz do amor, porque desta raiz não pode nascer outra coisa a não ser o bem”.

A correção, quando é evangélica, é talvez a manifestação mais genuína do amor fraterno. Ela exclui qualquer desejo de vingança ou ostentação pessoal e é movida unicamente pelo desejo do bem do outro. “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!” Esta primeira palavra se refere ao âmbito privado, à correção como deve acontecer nas relações interpessoais. A regra de Jesus vale, por isso, também na vida familiar, entre amigos, no ambiente onde passamos nossa vida cotidiana. Se teu irmão pecar contra ti [...] pode significar também: se teu marido, se teu filho, se teu cunhado e se teu patrão erram. Dir-se-ia que finalmente nos deparamos com um mandamento do Evangelho fácil e agradável. O que existe de mais natural do que perceber as culpas dos outros? Ao invés, se trata de uma das coisas mais difíceis e isto explica por que seja tão rara nos relacionamentos humanos a verdadeira correção fraterna. Jesus não encoraja a caça aos defeitos alheios, a maledicência ou aquela propensão tão frequente de tornar públicos os defeitos do próximo, embora fingindo estar talvez hipocritamente tristes pelo mal que produzem contra a virtude.

É importante observar o valor da oração em comunidade, em família.

“Se dois estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos Céus. Pois, onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” (Mt. 18,19-20).

A Igreja viveu desde sempre a prática da oração em comum (cf. At. 12,5). De modo particular, é muito agradável ao Senhor a oração que a família faz em comum!

“A oração familiar, ensina São João Paulo II, tem como conteúdo original a própria vida de família: alegrias e dores, esperanças e tristezas, nascimento e festas de anos, aniversário de casamento dos pais, partidas, ausências e regressos, escolhas importantes e decisivas, a morte de pessoas queridas, etc., assinalam a intervenção do amor de Deus na história da família, assim como devem marcar o momento favorável para a ação de graças, para a súplica, para o abandono confiante da família ao Pai comum que está nos Céus. A dignidade e a responsabilidade da família cristã, como Igreja doméstica, só podem ser vividas com a ajuda incessante de Deus, que será concedida, sem falta, a todos os que a implorarem com humildade e confiança na oração.” (Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 59).

A oração em comum comunica uma particular fortaleza a toda a família, pois fomenta o sentido sobrenatural, que permite compreender o que acontece ao nosso redor e no seio do lar, e nos ensina a ver que nada é alheio aos planos de Deus: Ele se mostra sempre como um Pai que nos diz que a família é mais sua do que nossa!

“Onde há caridade e amor, ali está Deus”. Quando nós, cristãos, nos reunimos para orar, Cristo encontra-se entre nós. Ele escuta com prazer essa oração alicerçada na unidade. Assim faziam também os Apóstolos: “Perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At 1,14). Era a nova família de Cristo.

Em família, no mês da Bíblia e sempre, intensificar a leitura orante da Bíblia.

Outra fórmula de oração, que é um belo ato de piedade e de oração familiar, por excelência, é o terço. Ensina São João Paulo II: “A família cristã encontra-se e consolida a sua identidade na oração. Esforçai-vos por dispor todos os dias de um tempo para dedicá-lo juntos a falar com o Senhor e a escutar a sua voz. Que bonito quando numa família se reza, ao anoitecer, nem que seja uma só parte do Rosário! Uma família que reza unida permanece unida, uma família que ora é uma família que se salva”.

A Igreja quis conceder inúmeras graças e indulgências aos que rezam o terço em família. Esforcemo-nos por fomentar esta oração tão grata ao Senhor e à sua Santíssima Mãe, e que é, no dizer de São João XXlll, “uma grande oração pública e universal em face das necessidades ordinárias da Igreja santa, das nações e do mundo inteiro”.  É um bom ponto de apoio para a unidade familiar e a melhor ajuda para enfrentar as necessidades de toda a família.

Comportai-vos de tal maneira que as vossas casas sejam lugares de fé cristã e de virtude, mediante a oração em comum”.

“Estarei no meio deles”, diz Jesus. Tratando-se da correção fraterna através dos meios indicados por Jesus, quando a mesma não for possível, ainda poderá ser possível pela Oração, feita em comum, em nome de Jesus.

Peçamos a Deus para que nos ensine esta difícil forma de amor, que sabe corrigir sem desencorajar e lutar sem ofender.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

ago 24

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM É VOCÊ DE VERDADE?

QUEM SOU EU

O QUE DIZER, QUANDO ALGUÉM DESEJA SABER QUEM SOU EU –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente algumas questões bastante interessantes têm percorrido o nosso diálogo semanal. São questões que, na maioria das vezes, você traz para que eu possa, após ouvir as suas ponderações, emitir algumas opiniões, independentemente de estarem, ou não, em conformidade com o seu pensamento. De fato, você tem me instigado, diria mesmo, provocado, a refletir sobre temas do nosso cotidiano. Temas que, realmente, estão na pauta das nossas relações diárias e pelos quais passamos, muitas vezes, sem nos darmos conta da importância que possuem para o nosso progresso, enquanto seres humanos. Desde o início, gostei da sugestão e aprovei os critérios para que, a partir destas trocas de experiências, pudéssemos levar aos leitores e às leitoras alguns subsídios favoráveis, e até mesmo incentivadores, para regulares reflexões.

Hoje você apresenta algo inusitado para refletirmos durante a nossa já costumeira caminhada. Trata-se da forma como eu, você e cada um de nós, devemos nos apresentar para as pessoas que, de algum modo, demonstram interesse em conhecer quem, de fato, nós somos. Inicialmente, você afirma que seria lógico que, ao me apresentar para a outra pessoa, eu expusesse minhas características físicas. Ora, estas características, isso me parece óbvio demais, não interessam a ninguém. Até porque, basta olhar para mim para, imediatamente, saberem quem eu sou sob esta perspectiva.

Você, no entanto, acredita que, ao descrever todas as minhas características físicas, eu estaria demonstrando, e até certo ponto aceitando, certas, digamos, disparidades em relação a outros corpos mais perfeitos e/ou ajustados aos padrões de beleza aceitos ou impostos pela sociedade. Assim, se ostento certa deficiência facial, por exemplo, e deixo de descrevê-la abertamente seria, na sua opinião, uma forma de fugir de uma realidade que, no fundo, estaria a me incomodar. Se, ainda, sou de estatura menos elevada, ostento uma calvície e revelo uma barriguinha um pouco saliente, o fato de deixar de mencioná-las seria, no seu entender, um modo que eu adotaria para acreditar que, ficando em silêncio quanto a tais fatos, faria com que o outro deixasse de dar tanta atenção. Não penso exatamente deste modo. Porém, respeito todas as suas colocações neste sentido. Afinal de contas, você, na minha opinião, tem alguma razão quanto à necessidade que tenho de enfrentar todos os meus, digamos, dilemas estéticos. De fato, existem pessoas, e eu conheço algumas, que não se aceitam como são ou como estão. E, por esta razão, vivem em função de alterar todas as suas incômodas características, por acreditarem padecerem de certas “deficiências” físicas. Não concordo, porém, respeito!

Na minha opinião, quando alguém deseja saber quem, de fato, eu sou, está interessado em conhecer justamente tudo aquilo que o corpo não revela. Vale dizer: quer conhecer o máximo possível a respeito da minha formação espiritual, ética, moral e, porque não dizer, da minha personalidade. É isto que interessa às outras pessoas e ao mundo que me cerca.

Conte-me mais sobre você, costumam pedir as pessoas quando se relacionam conosco pela primeira vez. E aí está a chave de tudo. Porque, na medida em que expomos o que somos, o que pensamos e, principalmente, a forma como estamos acostumados a agir, é que o nosso interlocutor terá elementos suficientes para, dali por diante, testar a veracidade de tudo o que dissemos. Afinal, é preciso responder a estas perguntas: o que me faz bem, o que me traz alegria, como vejo o outro, sob diversos aspectos, que princípios e valores eu cultivo? Todas estas questões estão ali, diante de nós, fervilhando no mar da curiosidade alheia

Não preciso te lembrar que, quanto mais interesse a outra pessoa demonstra em ouvir sobre mim, mais vontade de falar eu tenho. Assim, não é raro que, nestas circunstâncias, a gente fale coisas mirabolantes. Coisas que, na verdade, são mais lendas do que realidades. E será, no dia-a-dia daquele relacionamento que se inicia, que vou ser chamado a comprovar tudo o que falei sobre mim. E com o tempo a pessoa saberá perfeitamente, quem eu sou de verdade.

Se me apresento, por exemplo, como uma pessoa de trato fácil, de temperamento sereno, tranquilo e compreensivo, passo para o meu interlocutor a imagem de uma pessoa bacana, amiga, simpática. Pessoa com a qual, jamais, se tem qualquer problema de convivência. No entanto, se na primeira situação adversa em que estivermos juntos, eu perder a serenidade, a tranquilidade e a compreensão, ainda que eu caia em mim, imediatamente, e me lembre dos detalhes da minha apresentação e peça mil desculpas, a pessoa certamente ficará com a “pulga atrás da orelha”, pois, perceberá que aquela pessoa é diferente da que se apresentou a ela. Mas, em nome da tolerância e da compreensão, meu interlocutor passará uma borracha sobre o acontecido e, vida que segue.

Mesmo sendo tolerante, paciente e compreensivo, aquela(a) a quem me apresentei, sempre estará a observar a minha conduta diante das outras pessoas e/ou de situações adversas. E, com toda certeza, terá ocasião para comprovar quem, realmente, eu sou em termos de temperamento.

Bem, cada um de nós tem o seu próprio temperamento e, por mais que queira parecer agradável, em certos momentos e circunstâncias, é inclinado a agir de forma bastante severa, ou até mesmo ríspida. Coisas do ser humano! Com um pouco de jeito a gente até compreende bem.

Se a outra pessoa fosse você, por exemplo, que é inteligente e dotado de boas intenções, compreenderia tudo o que eu disse acerca do temperamento, e procuraria me observar sob outros prismas. Haveria de se interessar, talvez, por comprovar o respeito que eu tenho pelos valores e princípios que sustentei, lá na primeira conversa, como sendo fundamentais para a minha vida. E aí, também, pode acontecer de sofrer algumas decepções, pois verá que eu, diante de certas circunstâncias, e dependendo do contexto, prefiro auferir todas as vantagens possíveis em uma relação, sem demonstrar qualquer forma de amizade, de solidariedade, de compaixão ou mesmo de fraternidade para com outras pessoas. Aquele sujeito que se apresentou a você, como amigo, humanista, fraterno e solidário, agora, na prática, revela-se absolutamente outro. E isto te assusta!

Bem, você poderá questionar: o que mais esperar de um sujeito destes? Um sujeito que se apresentou de um jeito, mas que na prática, tem se revelado outro. Pois eu te digo que pode esperar muitas outras novidades... negativas, porque uma pessoa destas trai a confiança de todos e de qualquer um que dela se aproxima.

Por esta razão, é que eu sustento que, quando alguém vai se apresentar a outra pessoa, deve falar sobre seus valores, princípios, conceitos, personalidade e outras virtudes espirituais. E deve, é óbvio, ser coerente com tudo aquilo que está dizendo sobre si. E, ainda, caso não se sinta celeiro de algumas virtudes, deve assumir isto de imediato, sem se preocupar com a reação do outro, porque trata-se de revelar, quem ela é de verdade. Não deve mentir ou omitir nada, na tentativa de passar uma imagem, digamos, agradável e adequada ao pensamento dominante. Pois, efetivamente, será cobrada por isto em futuro próximo.

Eu, por exemplo, defendo a ideia de que não preciso me preocupar em ser agradável a ninguém. O que, de fato, deve ser objeto das minhas preocupações, é se tenho sido coerente com a minha personalidade, com o meu caráter, com os meus princípios e valores, morais e éticos. Desta forma, ser sincero diante dos outros é uma das minhas grandes virtudes. Quando eu elogio alguém, a pessoa pode ter certeza de que não a estou bajulando; quando a critico, da mesma forma, não a estou ofendendo. Em quaisquer circunstâncias, estou sendo honesto para com o outro. Coisa que muita gente se recusa a fazer, sob a desculpa de não querer ou poder ser desagradável. É melhor passar por desagradável do que por mentiroso, falso, hipócrita e fraudador da própria personalidade, como conheço e conheci muitos durante a minha caminhada.

Na realidade, os outros sempre esperam que sejamos coerentes com aquilo que dizemos ser. Não podemos afirmar que somos uma coisa, se agimos de forma absolutamente oposta, sob pena de perdermos um prêmio fantástico, que é a credibilidade. Uma das melhores coisas que podemos perder é, justamente, a credibilidade, a confiança alheia. Esta perda é de difícil recuperação. E eu conheço muita gente, e você deve conhecer também, que vive se apresentando de um modo e agindo de outro, diametralmente, oposto. Estas pessoas não se tocam, porém, já são mais do que conhecidas e, podemos dizer, manjadas. Ninguém mais, que com elas convivem, nelas depositam confiança ou crédito. Em muitos casos, as pessoas convivem com este tipo de gente por absoluta necessidade, não, por sentirem estima, confiança e/ou amizade verdadeiras.

Penso ser muito triste e, de certo modo, decepcionante, saber que alguém convive comigo por obrigação, necessidade ou imposição das circunstâncias, simplesmente porque me apresento de um jeito e me comporto de outro completamente diferente, incoerente, falso, mesquinho etc. Muitas são as oportunidades em que as pessoas são aceitas, apenas, em razão do cargo ou da função que ocupam. Não fosse por isto, poucos seriam próximos de verdade e em verdade.

Espero que você, particularmente, não se sinta triste comigo, ante meus argumentos. São apenas os meus argumentos. No fundo, no fundo, podem não ser coincidentes com os seus. Mas, pelo menos, estamos sendo absolutamente sinceros um com o outro.

E que os nossos leitores e leitoras possam aproveitar nossas formulações para refletirem sobre suas próprias vidas e possam, também, promover um sério exame de consciência, a fim de verificarem como estão se comportando diante dos seus semelhantes. De que forma estão se apresentando a quem os deseja conhecer e se estão, de fato, sendo coerentes com a figura humana que usam para descreverem-se a si mesmos. Tomara, ajam desta forma. Assim, o mundo poderá ser um pouco melhor para todos nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso de teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 17

EDITORIAL DA SEMANA: SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO

UMA NOVA ESPIRITUALIDADE

REFLETINDO SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO CONTEMPORÂNEO–

*Por L. A. de Moura –

Após algumas reflexões, você declara com surpresa a conclusão de que os seres humanos deste tempo atual conseguiram ficar – nas suas palavras – “estagnados”, relativamente à atividade espiritual. Traz a questão para mim, afirmando que, nos dias que correm, as pessoas estão muito mais preocupadas com o “ter”, do que com o “ser” e que isto, no seu entendimento, explica alguns dos fracassos que a humanidade, como um todo, tem experimentado de forma um tanto assustadora.

Embora eu concorde com o resultado das suas reflexões, você faz questão de conhecer minha opinião pessoal acerca do tema, acreditando que eu, mesmo concordando com as suas colocações, tenho condições de acrescentar algo a mais. Algo que, no seu entender, possa, digamos, lançar mais luzes sobre uma questão tão vital para a própria existência do ser humano. Aliás, você é de opinião de que, acerca do tema, muita coisa ainda precisa ser dita.

Conforme já fiz questão de destacar, concordo com você quando utiliza o termo “estagnação espiritual”, para se referir à humanidade no atual estágio da sua existência. De fato, se compararmos com o que conhecemos acerca dos tempos antigos, os seres humanos deste nosso tempo estão muito aquém daquilo que um dia já pode ser denominado como “espiritualidade”. E nem precisamos ir tão longe na linha do tempo. Se levarmos em consideração, por exemplo, alguns espiritualistas que estiveram entre nós, agorinha mesmo, no século XX, vamos perceber que o fenômeno por você sublinhado é coisa bastante recente. Coisa de, digamos, poucas décadas para cá.

Você, é claro, quer saber justamente as causas desta estagnação. As razões que fizeram com que os seres humanos chegassem a tal ponto. Na ânsia por uma resposta, você antecipa algumas perguntas, pretendendo empurrar-me para as respostas fáceis. Por exemplo, indaga: “os seres humanos perderam a fé nas coisas relacionadas com o espírito?”, ou, “o mundo tornou-se tão atrativo a ponto de abduzir todos os seres pensantes?”, ou, ainda, “não se acredita mais na perenidade da vida e na eternidade do espírito?”. Suas perguntas são, deveras, sagazes. Eu, no entanto, evitarei cair na sua estratégia e, portanto, não oferecerei respostas imediatas mas, apenas, e tão somente, algumas das minhas convicções, deixando que, ao final, você tente de per se, encontrar o que procura.

Uma das grandes janelas do tempo – o pensamento – está fechada para a maioria dos seres humanos. Esta janela esteve, durante séculos, aberta para uma significativa quantidade de homens e mulheres que jamais abriram mão do direito de pensar, de raciocinar, de buscar respostas para tudo o que se passava no seu entorno, especificamente, no que dizia respeito à espiritualidade como forma de vida, apesar de todas as circunstâncias do contexto em que viveram. A comprovação disto, e sem citar nomes específicos, está na fabulosa literatura filosófica, teológica, antropológica, teosófica etc., produzida e compilada durante séculos.

Por outros tantos séculos a mesma literatura continuou sendo objeto de estudos e de pesquisas por aqueles e aquelas que, já apresentando sinais de conformismo com o que fora pensado e concluído até então, já não sentiam mais o mesmo estímulo dos mais antigos e, portanto, evitavam pensar muito, preferindo, ao contrário, dedicar-se à leitura e ao estudo aprofundado sobre tudo o que já tinha sido objeto da atenção de outros.

Obviamente, e você haverá de concordar comigo, vamos encontrar já na fase pura e simples do estudo e da leitura, um pequeno declínio na arte de pensar e de procurar respostas espirituais e espiritualistas. Porém, ainda não se pode afirmar que isto representou o caos. O pior, certamente, e como sempre acontece, ainda estava por vir.

Chegou o tempo em que uma grande massa de seres humanos pendeu para o lado da prática religiosa institucionalizada. Vale dizer: as pessoas queriam estar vinculadas a uma religião sólida e consolidada. A partir deste evento, e por não estar dando aula de história deixo com você a tarefa de promover uma adequação cronológica, tudo passou a ser muito diferente. As perguntas que antes eram feitas pelos grandes espiritualistas a si mesmos, cujas respostas eles próprios encontravam depois de muitas reflexões, orações e oblações passaram a encontrar forte resistência por parte das religiões que, simultaneamente, ofereciam, e ainda oferecem, um cardápio de respostas prontas, quentinhas, saídas do forno da indução.

Bem, acredito que você esteja começando a compreender que as perguntas que tais pensadores faziam a si mesmos, acerca da existência do ser humano, bem como do seu destino final e dos caminhos espirituais a serem percorridos, levavam-nos a profundas reflexões e, consequentemente, a enormes modificações no seu modus vivendi. Donde, então, um modelo de espiritualidade tomou forma e ganhou espaço considerável entre os seres humanos. Passou-se, então, à compreensão da existência de uma vida sobrenatural já a partir desta vida terrena. Ou seja: a forma de vida adotada neste plano terreno está intimamente ligada com o destino final de cada criatura. Assim, os que voltavam seus olhos para a vida espiritual, privilegiando o ser ao invés do ter, construíam e pavimentavam uma larga estrada rumo à eternidade. Uma estrada que valia à pena ser percorrida!

Foi um trabalho árduo, no qual muitos e muitas perderam a própria vida, tornando-se verdadeiros mártires, em nome do amor e da fidelidade a Deus, à Verdade e ao próximo. Era um período de muita espiritualidade! Os seres humanos direcionando os olhos do espírito para muito além desta pobre existência terrena. Um mundo realmente promissor, compreendido como uma espécie de porta para a eternidade da alma.

Entretanto, a forte indução religiosa, marcou os seres humanos com o estigma da “salvação”, pela simples adesão a um líder espiritual ou ao que poderíamos denominar de “messias”. Aceitando de bom grado o seguimento ao líder ou ao messias indicado pela religião, os fiéis estariam, e ainda estão, salvos de qualquer perdição espiritual, dispensando maiores indagações ou projeções de natureza espiritualista. A partir de então, basta aderir a todo um conjunto de doutrinas, liturgias e dogmas para ter assegurada a (re)entrada no paraíso. Em resumo: basta abraçar as normas eclesiais e seguir – sem necessariamente ter de imitar – o Messias ou o Profeta. Algumas religiões afirmam sem cerimônia que, aquele(a) que “aceitar Jesus” no seu coração, já está salvo! Nada mais importa.

Não é mais necessário refletir. Não é mais importante raciocinar. Não importa mais estudar e/ou pesquisar sobre os compêndios deixados pelos grandes espiritualistas, sábios e sábias de todos os tempos. A religião tornou-se uma verdadeira “caverna”, ao estilo platônico, a qual, uma vez acessada, e cumpridas as regras impostas por outros seres humanos que, diga-se de passagem, agem em nome de Deus, praticamente assegura a “salvação” tão desejada, sem maiores esforços intelectuais, com tudo o que o termo possa significar. Todos os sinais são neste sentido e nesta direção. Para quê, então, refletir sobre o fim último do ser humano, se alguém já antecipa tudo, em nome de uma fé que todos devem possuir? Aos que não a possuem, não é recomendada apenas uma reflexão pura e simples, mas, mera petição dirigida a Deus que, gratuitamente, distribui o dom àqueles aos quais Ele julga merecedores.

Veja, os desdobramentos desta linha de raciocínio são muito extensos. Não cabem aqui, neste espaço limitado. Porém, é fácil extrair rapidamente algumas conclusões satisfatórias para o atingimento do seu objetivo. Uma delas é que, ao perderem o interesse pela prática da reflexão, da contemplação do sagrado e pela busca incessante de respostas espiritualistas, aos seres humanos restou apenas, e, tão somente, a ida para o gueto religioso com uma sujeição que, muitas vezes, beira ao fanatismo. E aí, muitos e muitos, com o passar dos tempos, e, notadamente, nas últimas décadas, enxergaram que a prática religiosa institucionalizada nada mais fazia do que colocar todos e todas em uma mesma caixa hermética, com o selo “salvos”. Mas, isto, para o ser humano é deprimente. Ele carece de pensar, de debater, de apresentar suas convicções e suas questões mais perturbadoras. Ele necessita da liberdade para se apresentar diante da divindade, e dela ouvir muitas das repostas buscadas. A criatura quer estar, e necessita estar, em permanente diálogo com o Criador, sem intermediários e, obviamente, sem ser tachada de “louca” ou colocada sob suspeita de esquizofrenia. A criatura quer falar com o seu Deus e quer acreditar que ouve a voz Dele no seu íntimo. Isto é fruto da mais completa reflexão e entrega espiritual. Porém, as religiões cuidam de cercear esta liberdade, fazendo crer que, muito do que se diz é fruto de ilusões ou mesmo de perturbações espirituais e/ou mentais desqualificando, deste modo, qualquer forma de interação do vivente com a espiritualidade, já a partir do diálogo direto com o próprio Deus, como se Ele fosse apenas ouvinte, e não, falante também.

Desta forma, sem interesse e sem o costume do estudo, da pesquisa e dos profundos questionamentos advindos de uma continuada reflexão, mas, também, sem aceitar as imposições normativas da religião, grande parte da humanidade optou pelo afastamento e pela consequente, e assustadora, adesão ao mundo materialista. Um mundo, diga-se de passagem, que não oferece qualquer forma de salvação. Porém, oferece na prática, e na realidade, uma grande possibilidade de realização individual, prometendo, e em muitos casos até mesmo assegurando, a tão sonhada felicidade, tudo o que o ser humano quer para aqui e agora. É claro que o mundo, com seus sistemas perversos, não aceita, sequer, ouvir falar na efemeridade e na transitoriedade da vida. Isto, para o mundo, é sinal de fracasso sistêmico e que, portanto, deve ser abominado!

Bem, diante deste cenário que estou apresentando, e que você pode facilmente comprovar, parece que consigo expor a opinião que me foi pedida. E, antão, você tem diante de si o “algo a mais” de que necessita para aprimorar as conclusões às quais já havia chegado acerca da estagnação espiritual dos seres humanos contemporâneos.

É fácil perceber o enorme mal que a entrega de conclusões prontas causa aos seres humanos, haja vista que, privados da prática da reflexão e mesmo do contato diário com a necessária espiritualidade, estes descambam para o seguimento cego às diversas doutrinas religiosas ou, o que é ainda pior, entregam-se aos prazeres do mundo, e daí só conseguem sair quando, no final da vida, já não encontram mais portas abertas diante de si, tendo como única e indefectível possibilidade, a aceitação do fim de uma existência que poderia ter sido muito mais sadia, rica e capaz de prepará-lo, definitivamente, para uma eternidade que ele desconhece, apenas ouviu falar, porém, sobre ela, sequer, possui qualquer certeza ou convicção.

Talvez você não compreenda, em todos os aspectos, a inteireza de tudo o que acabo de afirmar. No entanto, a partir de tudo o que afirmo, você poderá caminhar para uma reflexão mais aprofundada, mediante a qual poderá encontrar respostas que, no final, servirão para desnudar diante de si o exato perfil do ser humano com o qual temos sido obrigados a conviver.

Sem pretender agir a exemplo das religiões – que já trazem todas as verdades na bandeja da vida, e que não permitem qualquer questionamento – devo reforçar a ideia de que os nossos congêneres contemporâneos não querem mais saber da busca espiritual, ou mesmo da busca por respostas mais fundamentadas, acerca da sua existência e do seu destino final, bem como dos caminhos a serem percorridos para tanto, deixando de lado o interesse, não apenas pelos conceitos puros e simples, da ética e das virtudes necessárias para a transição entre a vida efêmera e a eterna, decidindo optar pela conveniente adesão e pela total vinculação a tudo o que lhes é pregado e constantemente relembrado.

E, fato evidente, tudo o que é pregado e periodicamente relembrado, nada mais faz do que impor limites doutrinários à liberdade intelectual e espiritual. Pensar o quê, sobre o quê e para quê, se tudo já foi pensado, refletido e interpretado como “verdades absolutas”? Assim, nossos pobres semelhantes permanecem algemados no interior da “caverna” e, quando alguns de nós tenta mostrar-lhes que a realidade é bem outra, querem a todo custo a nossa desqualificação intelectual e, se possível, a nossa própria eliminação. Refletir, questionar e procurar por respostas outras, tornou-se coisa essencialmente diabólica. Eis aí tudo o que eu pretendia trazer para você, acerca do tema hoje proposto. Espero ter atendido, de alguma forma, às suas expectativas.

Nunca é demais sublinhar que o resultado destas nossas reflexões não carrega a pretensão de servir como itinerário para a vida de ninguém, senão, e apenas isto, como um ponto de partida para que os leitores possam aprofundar os questionamentos sugeridos ampliando, quem sabe, todo um leque de possibilidades que, ao fim e ao cabo, estão intimamente relacionados com a nossa existência e com o nosso destino final. Portanto, leia, reflita, tire suas próprias conclusões e, se julgar conveniente, compartilhe com outros seres humanos. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 03

EDITORIAL DA SEMANA: O MAL COMO DECORRÊNCIA DE SI MESMO

A FORÇA DO MAL

DE ONDE VEM O MAL, QUAL É A SUA ORIGEM?

*Por L. A. de Moura –

Muitas e muitas pessoas querem saber a razão pela qual o mal está sempre presente no mundo. É difícil, para muita gente, compreender os motivos que levam o mal a duelar com o bem, apesar de Deus, das religiões, das crenças, devoções e seguimentos cultuais. Assim, você tem toda razão de, também, questionar sobre tudo isto. Preocupa-me, no entanto, e muito, o fato de você dirigir tais questionamentos a mim, como se eu tivesse a capacidade para explicar o que teólogos, filósofos e religiosos do mundo todo cansaram de fazê-lo, fornecendo suas versões sem, no entanto, e jamais, terem conseguido de modo satisfatório, dizimar as dúvidas que ainda pairam a respeito do tema.

Entretanto, eu, que não sou nada disso, não passando de um simples  pensador, estudioso e pesquisador, cujo espírito é voltado muito mais para a reflexão, poderei tentar te fornecer, apenas, e, tão somente, um ponto de vista que, por fim, poderá te confundir ainda mais ou, quem sabe, servir como uma faísca capaz de acender uma verdadeira tocha no íntimo da sua alma. Só isso, nada mais do que isso. Vem comigo, então, vamos tentar caminhar um pouco por esta estrada sinuosa e cheia de armadilhas.

Talvez, e na minha opinião, seja fundamental deixar claro, desde o início desta conversa, que não é Deus a origem do mal. Não foi Ele quem criou o mal e, muito menos, quem o introduziu no mundo dos viventes. O mal existe como consequência, como efeito. Vejamos, por primeiro, o que está escrito na narrativa do Livro do Gênesis. Então, disse o Senhor ao homem: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Na mesma narrativa bíblica, vamos encontrar uma personagem cuja atuação foi decisiva para que os seres humanos desobedecessem a ordem divina e, finalmente, tirassem a rolha da lâmpada na qual estava guardado o gênio do mal: a serpente. Figura mítica, mas, que, teve a perspicácia de dizer ao ser humano: “Vós de nenhum modo morrereis. Mas Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele (do fruto da árvore da ciência do bem e do mal), vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3, 4-5).

Veja, o ser humano teve interesse, curiosidade, ambição, ilusão ou dê-se lá o nome que quiser, de conhecer “o bem e o mal”. Desta forma, ao destampar a lâmpada mágica da desobediência, viu sair para fora os dois gêmeos – o bem e o mal – e, com eles, a morte, como consequência maior de um ato que não deveria ter sido praticado.

Ora, se bem refletido, a morte é o fechamento de todos os males que afligem o ser humano neste mundo. É, por assim dizer, a decorrência final.

O bem, certamente, seduz a muitos e a muitos leva a uma vida a ele dedicada. E traz, é claro, as devidas consequências. O mal, de igual modo, também, seduz a muitos, graças à satisfação ilusória dos sonhos, das ambições, dos apetites, dos planos e dos projetos de muitos viventes que, ainda hoje, acreditam piamente que, apesar de tudo, a felicidade neste plano terreno existe, está ao alcance de todos e que, portanto, deve ser perseguida e conseguida a qualquer preço. Eis aí a palavra-chave do nosso tema: “a qualquer preço”. De fato, tudo, absolutamente tudo, tem e cobra um preço. Costumo dizer, abrindo um pequeno parêntesis, que a vida é semelhante a um grande restaurante: você chega, entra, senta, pede o prato mais caro do cardápio; pede a bebida mais exótica que desejar; bebe até perder o controle dos seus atos; quebra pratos, garrafas, taças e copos. Briga, quebra mesas e cadeiras, ofende as pessoas. Faz tudo o que estiver ao seu alcance. Atende a todos os seus instintos. Porém, todos os prejuízos causados serão pagos, centavo por centavo. Quem pagará? Ora, o que importa é o pagamento.

Então, e fechando o parêntesis, a busca pela felicidade, e não raro pelos  desjos e prazeres da vida, cobra o devido preço. Quem sai em busca de tudo o que o mundo tem a oferecer, “a qualquer preço”, sem pensar sobre quem terá de pagá-lo, certamente vai realizar tudo o que planejou. Nada ou ninguém poderá detê-lo. Entretanto, as consequências virão e, certamente, cairão sobre muitos que, nem sempre, têm algo a ver com os atos praticados. Isto, porque, quem pode, e enquanto pode, se defende da imediatidade das consequências advindas dos atos erráticos que praticou. No fim, porém, muitas vezes já sem recursos e sem forças acaba, também, sucumbindo à voracidade do mal.

Você poderia, então, questionar: Mas, como é possível que um justo pague pelos atos do injusto e do ímpio? Veja, o mal não escolhe a quem vai atingir. Ele vem como a fúria de uma tempestade que assola e, muitas vezes, destrói tudo e todos os que estão na sua direção. Lembra da historinha do restaurante? Tudo deverá ser ressarcido. Para o dono do estabelecimento não importa quem pagará a conta. Ele quer receber por tudo o que foi consumido e destruído. Imagine, por exemplo, o caso de uma criança sozinha em casa. A mãe, para encontrar-se com o namorado na rua, esquece uma panela de  pressão no fogão, com o queimador aceso. Se ela fica com o namorado por um tempo prolongado, suficiente para que a panela exploda, certamente, a criança será fortemente atingida, sem ter culpa de absolutamente nada. As consequências só deixam de ocorrer, se o ato for interrompido a tempo.

Quem pesquisou e descobriu a fusão do átomo, e daí concluiu que poderia construir uma bomba atômica, para subjugar e dominar povos e nações, por arrogância, ambição ou vingança, levou o mal e a destruição a milhares de inocentes porque a bomba, depois de acionada, tem como consequência única realizar o que dela é esperado: a explosão radioativa de altíssima potência e magnitude. Aquele que cria uma bactéria em laboratório e que, eventualmente, perde o controle da sua criação, leva dor, sofrimento e morte a centenas, milhares de pessoas, absolutamente inocentes. O que eu quero dizer é que o mal é decorrente de atos praticados por alguém, de algum modo, em algum lugar e com alguma pretensão ou finalidade. Daí ser fácil concluir que, todas as vezes que praticamos o bem, as consequências, também, são inevitáveis e, assim, contribuímos para a felicidade de muitos e muitos, os quais não nos são conhecidos, mas que, indiretamente, recebem os frutos do bem que praticamos.

A partir daí, você pode refletir melhor, e verificar quanto mal é praticado no mundo, todos os dias, em todos os setores da vida, a começar pelas agressões à própria natureza. E quais são as consequências? São as piores possíveis. E quem as sofre, direta ou indiretamente? Toda a humanidade. As feridas causadas à natureza trazem como consequências os desastres naturais, a doença do ar, do solo e do subsolo, a infecção dos rios e dos mares, afetando milhões de pessoas e de outros seres vivos em todo o mundo. Com o ar, a terra, os rios, os mares e o subsolo fortemente atingidos, vêm as doenças, graves ou gravíssimas, a fome, a desnutrição e... mais doenças e mortes, numa escalada sucessiva de males que vão se multiplicando ao infinito. Tudo, porque alguém, em algum momento e lugar, decidiu que pode agredir a natureza, que nada acontece. Ora, os males e os sofrimentos daí decorrentes são, ou serão, suportados por quem? Justamente por todos aqueles que, ao contrário, vivem defendendo o respeito para com a natureza. No entanto, as consequências pelos erros cometidos já estão fora de controle. Lembra da figura mítica da serpente? “Vós de nenhum modo morrereis”.

É justo atribuir o mal a Deus? É justo afirmar que Deus deveria livrar o ser humano de tantos males, quando é o próprio ser humano o provocador e causador de tudo isto? O próprio Deus (encarnado) sofreu as consequências da maldade humana. Desta forma, acho que você concordará que o ser humano é o único responsável por todo o mal que existe no mundo, haja vista partir dele a prática de todos os atos capazes de gerar consequências absolutamente desastrosas para todos os demais seres vivos, sem qualquer distinção ou exceção.

Alguns cientistas humanistas já conseguiram demonstrar o quanto de bem decorre da prática do bem. Sobre o mal pode-se firmar o mesmo raciocínio!

Portanto, o que estamos enfrentando, atualmente, todos os males que estão despencando sobre as nossas cabeças, certamente, decorrem de atos malignos, maldosos, mal planejados, maliciosos ou mal executados por algum ou alguns dos nossos congêneres. Pessoas que, em algum momento das suas vidas, desejaram “ser como deuses, dominando o bem e o mal”.

Como antecipei para você, desde o início desta nossa conversa, não tenho a pretensão de explicar o que muitos sábios já tentaram sem sucesso. Porém, deixo para você, apenas, a minha opinião sobre o assunto. Daí para a frente, fica com você a missão de tentar encontrar alguma outra resposta que possa ser mais satisfatória.

Por fim, peço que observe que, se a humanidade quisesse extinguir o mal, bastaria fazer quase tudo de forma muito diferente do que tem feito. Fazendo e ensinando às futuras gerações. Caso contrário estaremos, simplesmente, experimentando a primeira de muitas outras pandemias com características iguais ou muito piores do que esta. E que ninguém se atreva a colocar a culpa em Deus, como tem ocorrido vez por outra, acreditando e disseminando a crença de que o Criador envia o castigo para redimir os pecados da humanidade, ou coisas do gênero. Não é castigo, não são castigos. São consequências decorrentes de tantos males praticados ao longo do tempo. Pratique-se o bem, e as consequências também haverão de ser derramadas sobre nossas vidas. Dizia São João de Deus, ao pedir que os ricos cuidassem dos doentes e inválidos: "Fazei o bem a vós mesmos, socorrendo os que jazem pelas ruas, maltratados por tantas e tantas enfermidades".

Espero que você obtenha sucesso na busca por explicações mais “científicas” acerca da presença do mal. Apesar da ciência e das tantas explicações que ela promove, o mal está aí, cada dia mais presente, mais forte e mais expansivo. Se este texto te aproveita para alguma coisa, faça bom proveito. Caso contrário, a tecla DEL do seu dispositivo pode resolver o problema, sem qualquer consequência previsível. De qualquer forma, seja feliz, e boa sorte!

NAMASTÊ - NOVO ___________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 29

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – PARTE III (VD4)

PARAÍSO TERRESTRE - 2020ASSISTA O VÍDEO DESTE CONTEÚDO NO NOSSO CANAL NO YOUTUBE, CLICANDO EM: https://youtu.be/FCklto8ovV0

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – GÊNESIS 1, 3 –

PARTE III –

*Por L. A. de Moura – 

O tema de hoje envolve o Capítulo 3, do Livro do Gênesis. Mas, antes, vamos nos reportar ao Capítulo anterior (2) quando é narrado que, Deus “tinha plantado, desde o princípio, um paraíso de delícias, no qual pôs o homem que tinha formado” (Gn 2, 8). Neste jardim, conforme a narrativa, “Deus tinha produzido da terra toda a casta de árvores formosas à vista, e de frutos doces para comer”.

No centro deste jardim, no meio dele, a árvore da vida, e a árvore da ciência do bem e do mal, da qual o homem é proibido pelo Senhor, de comer do fruto, sob o aviso de que “no dia em que dela comeres certamente morrerás”.

Bem, conforme já havíamos falado desde o início, nosso intento não é fazer uma interpretação sistemática da Bíblia, mas, apenas, e, tão somente, abrir algumas brechas para facilitarem a sua compreensão acerca dos três tópicos que viemos falando desde o nosso primeiro contato, com ênfase, aqui, para a MENSAGEM a ser extraída do Capítulo sob comento.

Rapidamente, é preciso chamar a atenção do leitor e da leitora para o zelo de Deus, o cuidado, para com o ser humano que acabara de ser criado. A Palavra afirma que Deus “desde o princípio”, plantou um jardim de delícias, onde são colocados os nossos primeiros pais. Um Deus Criador e zeloso. Mas, também, exigente: proíbe que seja comido o fruto da árvore da ciência do bem e do mal.

O Capítulo 3 inicia traçando um “perfil” da serpente, onde é descrita como “o mais astuto de todos os animais” criados por Deus. Aqui merece destaque a simbologia e a mítica que a serpente representava no contexto dos povos pagãos, especialmente, da Mesopotâmia, da Pérsia e do Egito, como sendo uma figura “demoníaca”. No contexto do Gênesis, ela é apresentada como hostil, adversa a Deus e, por fim, revela-se altamente inimiga do ser humano.

Deus cria o ser humano, coloca-o em um “paraíso de delícias”, concede-lhe o domínio sobre todas as demais criaturas, permite-lhe que coma de todos os frutos ali produzidos, menos daquele da árvore do conhecimento do bem e do mal. Vemos, então, que, desde o princípio, o ser humano recebe do Criador todas as condições necessárias para uma existência plena, saudável e duradoura. No entanto, existem limites.

É justamente o limite imposto por Deus, que leva a serpente a mostrar ao ser humano, que não precisa ser respeitado. Aliás, que deve ser mesmo ultrapassado, a fim de que se torne como Deus, conhecedor do bem e do mal, capaz de decidir por si próprio os caminhos que quer tomar, escolhendo entre o bom e o mau.

Relativamente ao fruto daquela árvore, Deus afirma: “No dia em que dele comeres certamente morrerás”. A serpente declara justamente o oposto: “Certamente que não morrereis”. E, então, ela esclarece à mulher o motivo da proibição: “Deus sabe que, no dia em que dele (o fruto) comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Gn 3, 5).

Aqui nós podemos identificar um contraponto entre a ordem divina, que revela a consequência para a transgressão, e uma justificativa dada por quem se opõe frontalmente ao Criador. Como é fácil verificar, nossos primeiros pais cedem às palavras da serpente e desobedecem a ordem divina. Bem, este ato entrou para a história como “o pecado original” que, indubitavelmente, manchou toda a raça humana.

Deus, no entanto, e apesar de ter expulsado o ser humano do paraíso, o homem e a mulher, cuida de tecer túnicas de pele para vesti-los, não permitindo que saíssem absolutamente nus, rumo ao mundo exterior totalmente desconhecido por Adão e Eva. Este mundo exterior, no qual a mulher encontrará as dores do parto, os sofrimentos e a submissão ao marido, e o homem terá que trabalhar pesado para sustentar-se a si e aos seus, é, também, um mundo cheio de armadilhas, de perigos e, como se verá, de violência, de ambição, de ódio, de guerras e, fatalmente, de morte.

A desobediência a Deus, coisa que o mundo contemporâneo tanto relativiza, tem consequências gravíssimas. Assim como não foi no paraíso, não o é nos dias de hoje, caso de castigo divino, mas, simples consequência pelos atos praticados pelos seres humanos.

Apesar de tudo, Deus pune, sim, a serpente, pondo inimizade entre a linhagem dela (o descaminho, a mentira e a morte) e a linhagem da mulher, de onde, um dia, virá o Salvador (o caminho, a verdade e a vida). Hoje sabemos e temos consciência de que, só com o fato da Ressurreição de Jesus é que o ser humano retoma possibilidade de retorno ao paraíso. E aqui, aproveito para sugerir a leitura do Livro “Paraíso Terrestre – Saudade ou esperança?” do Frei Carlos Mesters, cuja leitura é ardentemente repleta de excelentes explicações.

Você, no entanto, pode estar se perguntando: Por que a proibição de Deus é restrita à árvore da ciência do bem e do mal, e não, à árvore da vida e, no final, Deus os expulsa do paraíso justamente para não comerem dela também?

Porque antes da transgressão da ordem divina o ser humano não conhecia a morte. Não estava condenado a ela. No entanto, após colocar-se, com o seu ato, passível de morte, poderia ser tentado, também, a comer do fruto da outra árvore. Por esta razão o Senhor, em aparente conversa com a Corte Celeste, declara: “Eis que o ser humano já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre” (Gn 3, 22).

De tudo o que pudemos ver neste Capítulo terceiro, parece ter ficado bastante claro que, em meio a toda uma simbologia descrita pelas figuras míticas  utilizadas, a MENSAGEM transmitida pelo autor sagrado é, acima de tudo, a do cuidado do Criador para com a sua Criatura, a do incentivo à obediência, a da evidência das consequências da transgressão aos mandamentos e ensinamentos de Deus, a da presença constante de Deus na nossa vida, apesar das nossas continuadas transgressões, sempre a nos consolar e nos “vestir” e revestir com tudo o que nos é essencial para a vida e, por fim, sempre a esperança. Uma esperança que caminha conosco até o última dia da nossa existência. Leia com atenção, se ainda não leu, o Capítulo 3 do Livro do Gênesis, reflita e prossiga no estudo da Palavra de Deus. Não é tão difícil quanto você imaginava. Em breve daremos prosseguimento, com a litura do Capítulo 4. Sugiro que leia atentamente. Seja feliz, e mantenha a fé!

PARAÍSO TERRESTRE __________________________________________________________

*L. A. de Moura é Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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