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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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ago 22

REFLEXÃO SOBRE O WHATSAPP: VULGARIZADO E MAL UTILIZADO

WHATSAPP

O WHATSAPP É O NOVO POINT: POR QUE NÃO UTILIZÁ-LO SÓ PARA O BEM? –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece inexistirem dúvidas de que, atualmente, o WhatsApp é o point preferido da grande maioria das pessoas para toda forma de troca de informações. Muitas pessoas estão integradas em grupos de bate-papo; outras tantas, e de forma individual, mantêm-se ligadas a diversos amigos e contatos, com os quais dialogam diariamente, se não, várias vezes ao dia. É bonito ver que as pessoas, nos dias atuais, adotam a comunicação como forma de integração social, superando antigas cartinhas, bilhetinhos, ligações telefônicas ou até mesmo os e-mails.

Entretanto, é preciso reconhecer, as redes sociais, dentre as quais o WhatsApp se destaca, não têm sido usadas como lugares-comuns apenas aos bate-papos, por meio dos quais as pessoas tenderiam a crescer e a promoverem o crescimento dos seus amigos, com conversas úteis e interessantes, além da divulgação de notícias importantes (e verdadeiras), objetivando suprir vazios causados pela absurda correria do cotidiano.

Seria mais ou menos semelhante ao encontro diário de diversas pessoas, em torno de uma mesa de bar onde, sem nenhum aperitivo ou bebida de entrada ou de saída, falassem asneiras o tempo todo, além de transmitirem, umas para as outras, notícias falsas ou meias verdades, sem qualquer função ou objetivo nobre. Certamente que, em muito pouco tempo, tais reuniões deixariam de acontecer, porque as pessoas, logo, logo, chegariam à conclusão da absoluta perda de tempo e da inutilidade de tais encontros.

No entanto, no WhatsApp, por exemplo, isso não acontece porque tudo é gratuito, não custando tempo nem dinheiro. Retransmitir uma mensagem qualquer, ou reencaminhar fotos e vídeos em abundância é ato praticado em pouquíssimos segundos, bastando meros dois ou três cliques, e pronto! Já foi.

Com esta lógica, as pessoas, sem terem a menor consciência, e sem saberem valorizar a tecnologia de que dispõem, passam o dia todo enviando “abobrinhas” e “repolhos” e recebendo, em troca, iguais contribuições. Ora, vamos combinar que “abobrinhas” e “repolhos” são muito bons e até fazem falta na dieta diária de qualquer ser humano. Mas, todos os dias, em todas as refeições do dia, enchem o saco de qualquer um. E o pior: a pessoa acaba de enviar uma “abobrinha” e, imediatamente, recebe um “repolho”, ficando absolutamente claro que a “abobrinha”, sequer foi vista com a mínima atenção e/ou consideração.

Estamos vivendo momento histórico, tanto no nosso País quanto no mundo todo, do qual brotam, a todo instante, notícias importantíssimas de todos os lados. Notícias capazes de alterarem nossas vidas, no presente ou no futuro imediato, e que precisam, e devem, ser repassadas, muitas vezes até com certa urgência. D’outro lado, existem pensamentos, fatos, orações, milagres, realizações comunitárias e institucionais, além de toda uma gama de acontecimentos saudáveis e positivos que uns tomam conhecimento, e outros, não, e que, portanto, carecem de repasse entre amigos e contatos.

Voltemos à mesma mesa do bar, agora com outro enfoque, e observemos o quanto cada amigo tem para contar para os demais. Quantas coisas boas aconteceram e quantas estão para acontecer nas vidas de cada um deles, e que, paulatinamente, vão sendo contadas e mostradas, de modo a estarem, verdadeiramente, contribuindo para a alegria e o para o crescimento recíprocos. Tais reuniões, com esses objetivos, certamente serão mantidas e celebradas como algo bastante positivo, haja vista que ao final de cada uma delas, torna-se perceptível grande e real satisfação.

Parece estar na hora de as pessoas considerarem que a euforia inicial com o WhatsApp, e de resto com todas as redes sociais, já está superada, e que todos devemos utilizá-lo para as conversas realmente frutíferas, próprias de uma grande e valiosa amizade. Não se pode esquecer que existem pessoas no meu, e no seu, WhatsApp que, sequer, nos reconhece na rua. Há pouco tempo passei por uma dessas pessoas. E existem inúmeras! Porque o ambiente está absolutamente vulgarizado.

Podemos, e devemos, fazer do WhatsApp um ponto de encontro, diário ou não, propício para o convívio sadio com os nossos contatos, repassando e recebendo informações úteis e valiosas para as nossas vidas, seja por meio de palavras, de fotografias ou de vídeos capazes de cumprirem o duplo papel da informação e da transmissão de alegria. Fechar as portas às fofocas e, principalmente, às mentiras, fará com que saibamos aproveitar da melhor forma possível este maravilhoso canal de interação social, por meio do qual podemos levar aos amigos e contatos permanentes, conhecimentos e experiências extremamente valiosas para o crescimento pessoal e espiritual. Nada, porém, em excesso!

Como é bom receber informações novas e confiáveis; vídeos pedagógicos e transmissores de alegria, de emoção, de prazer e de grandes ensinamentos; textos e orações profundos e sugestivos; fotos de seres, pessoas e lugares por nós desconhecidos; palavras de incentivo, de gratidão, de carinho e de amizade. Enfim, quanta coisa boa, útil e valiosa pode ser transferida, encaminhada e reencaminhada por meio do WhatsApp, uma rede social que, por enquanto, tem servido a muitos apenas para a propagação de notícias falsas, de fofocas descabidas, de incentivo e de disseminação do sectarismo ideológico, religioso ou político, bem como de sentimentos de ódio e de vingança que, infelizmente, têm contaminado a sociedade humana.

Talvez você receba este texto, também, pelo WhatsApp, mas, a ideia é justamente esta: incentivar e estimular a reflexão para que então, e somente então, possamos nos valer dele de forma mais sábia, transformando-o em um verdadeiro point de encontro entre amigos e de contatos, consubstanciados em pessoas que olham e que conseguem enxergar  a sociedade como célula apta à expansão e, em perfeita harmonia com a natureza, capaz de canalizar desejos e objetivos humanos mais substanciais e mais condizentes com a própria espécie. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

ago 11

CÍCERO: O ETERNO ORADOR ROMANO

MARCO TÚLIO CÍCERO

MARCO TÚLIO CÍCERO: UM PERSONAGEM ETERNIZADO PELA HISTÓRIA –

 *Por Luiz Antonio de Moura –

A maioria absoluta dos homens nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. Esta é a lógica da vida para a quase totalidade dos seres humanos. Entretanto, alguns homens, além desta lógica, são eternizados pela história e deles se pode dizer que, apesar do seu desaparecimento físico, seus feitos circulam entre nós todos os dias das nossas vidas, no meio intelectual, artístico ou mesmo espiritual.

O personagem de hoje, a figurar em qualquer galeria da história que se preze é ninguém menos que Marco Túlio Cícero, nascido em Arpino – alpestre burgo da Campânia – que teve uma infância até certo ponto nostálgica, tamanha a tranquilidade daqueles montes pátrios por onde corria ao lado de outros meninos, sem deixar transparecer o gigante que se tornaria mais tarde, quando da sua pena, da sua boca e do seu intelecto brotariam discursos inflamados e riachos de retórica, de filosofia, de religião, de ética, de gramática, de jurisprudência e de política, a inundar o Senado romano e a incomodar aqueles que exerciam o poder em proveito próprio.

Cicero viveu em uma Roma que dependia essencialmente da palavra e ele, como ninguém, dela se valia tanto para construir pontes, quanto para destruir montanhas de malfeitores. Versado nas ciências jurídicas, o advogado Cícero bem cedo tornou-se um homem de bem e um homem da lei, não pactuando com o crime e nem tendo conluio com os criminosos. Idealista, pensava que para os Romanos, como para si próprio, a liberdade importava em condição essencial da vida, levando-o a enfrentar o intrépido Marco Antonio por acreditar piamente que a instauração da República seria o fim de todos os males sintetizados pela ditadura, ficando registrado para posteridade o belo discurso de exortação: “Volta os teus olhos para a República – exorta ele a Marco António – congraça-te com ela e faze de mim o que te aprouver... Moço a defendi: na velhice não desertarei a sua causa. Afrontei os punhais de Catilina, não recuarei diante dos teus. De bom grado me sacrificarei, se a minha morte apressar a restauração da liberdade... Depois de tantas lutas e de tantas honras, padres conscritos, uma só coisa devo desejar: é que, à hora do meu último alento, desfrute o povo romano de sua plena liberdade; e será a maior mercê que me possam conceder os deuses imortais[1]”. 

Defendendo a ascensão de Octávio, em quem deposita todas as suas esperanças, por confiar absolutamente nos propósitos e nas afirmativas do sobrinho e sucessor de César, Cícero se faz fiador de sua conduta perante o Senado, assim se pronunciando: “Octávio – adjura ele – fez à pátria o sacrifício de todas as suas inimizades. Ela é o árbitro único de seus interesses, a conselheira de todas as suas ações. Se ele tomou nas mãos o timão do governo foi para sustenta-la e nunca para subvertê-la. Tenho conhecimento pessoal dos pensamentos desse moço, para quem nada há mais caro do que a república; mais respeitável do que a vossa autoridade; mais precioso do que a estima dos homens de bem; mais agradável do que a verdadeira glória; mais imperioso do que a salvação de Roma. Nisso empenho a minha palavra, padres conscritos, a vós, ao povo romano, à República. Prometo, protesto e garanto, Senadores, que Octávio será de futuro tão bom cidadão quanto o é hoje, quanto todos desejamos e esperamos que ele seja amanhã e sempre[2]”.

A inimizade construída com Marco António, vai custar a vida do orador inigualável, perseguido e afinal assassinado, nas cercanias de Fórnia, aos 64 anos de idade, emudecendo para sempre a grande voz do patriotismo vigilante. A cabeça e as mãos decepadas do tronco, assim como a língua traspassada por um grampo dos cabelos de Fúlvia, a bela e vingativa esposa de Marco António, foram conduzidas para Roma, para terror dos vencidos e escarmento dos recalcitrantes. Sobre a vida frutuosa de Cícero nunca se esgotam os dados e os arquivos construídos e protegidos pelo manto da história o que, como é óbvio, jamais poderíamos pretender.

Entretanto, e para o saboreio do leitor ávido por ouvir os ecos da história, exporemos aqui nesse limitado espaço, uma das orações mais famosas escrita e proferida por Marco Túlio Cícero, contra Lúcio Sérgio Catilina, descendente de família patrícia de Roma, que foi pretor e governador da província da África. De Catilina se pode dizer que pretendeu várias vezes o cargo de cônsul, sendo-lhe sempre negado, em razão dos insultos cometidos contra a República, rebelando-se contra Roma em várias oportunidades, insurgindo-se diretamente contra Cícero, que era cônsul naquele ano.

Chegando ao Senado Romano, para manifestar sua repulsa contra seus membros e, diretamente, contra o cônsul, foi enfrentado por Cícero que, de público, proferiu a seguinte oração:

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? Onde vai dar consigo tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as noturnas do Palatino, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bons, nem este seguríssimo lugar do Senado, nem a presença e o semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? Não vês a todos estes inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste? Oh tempos! Oh costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cônsul as vê, e ainda assim vive semelhante homem! (...) Portanto, Catilina, que podes mais esperar, se nem a noite com suas trevas pode encobrir teus iníquos congressos, nem a casa mais retirada conter com suas paredes a voz da tua conjuração? Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a público? Crê-me o que te digo: muda de projeto, esquece-te de mortandades e incêndios; por qualquer parte te haveremos às mãos. Todos os teus desígnios são para nós mais claros que a luz, o que bem é reconheças comigo. Não te lembras do que eu disse no Senado em vinte e um de outubro, que Mânlio, ministro e sócio das tuas maldades, havia estar armado em certo dia, cujo dia havia ser o vinte e seis do mês? Escapou-me pois, Catilina, não só uma coisa tão atroz e incrível, mas nem ainda o dia? Eu mesmo disse que tu deputaras o dia vinte e seis de outubro para a mortandade dos nobres; e então foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poderás porventura negar-me que naquele próprio dia, por estares rodeado de minhas guardas e das minhas diligências, te não pudeste mover contra a República, quando, retirando-se os mais, disseste que te contentavas com a minha morte? E quando esperavas tomar a Preneste por assalto de noite, no primeiro de Novembro, não achaste aquela colônia municionada com minhas ordens, e com meus presídios, guardas e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu não só ouça, mas veja e penetre claramente. (...) Sendo tudo isto assim, Catilina, prossegue o que principiaste, vai-te enfim da cidade, abertas estão as portas, anda; muito há te desejam por general aqueles teus arraiais de Mânlio; leva contigo todos os teus, ou ao menos muitos deles, alimpa-nos esta corte; de grande temor me livrarás, quando entre mim e ti estiver o muro da cidade; já não podemos mais viver contigo, nem eu posso sofrer, tolerar, consentir. Infinitas graças devo dar aos deuses imortais, e a este mesmo Júpiter Stator, antiquíssimo protetor desta cidade, de ter tantas vezes escapado a esta tão horrível, torpe e prejudicial peste da República. Não convém que por causa de um homem perigue muitas vezes a República. Enquanto me armas traições, Catilina, sendo eu cônsul destinado, não me defendi com guardas públicas, mas com diligências particulares; quando nos próximos comícios consulares me quiseste matar, reprimi teus perversos intentos com o socorro dos amigos e soldadesca, sem tumulto algum; enfim todas as vezes que me acometeste, pessoalmente te resisti, posto que visse andar a minha ruína emparelhada com grande calamidade da República; agora já acometes abertamente toda a República, os templos dos deuses eternos, as casas de Roma, as vidas dos cidadãos, e em uma palavra, tocas a arruinar e destruir toda a Itália.(...) E que vida é ao presente essa tua? Falarei agora contigo, não como agastado com a ira que devo, mas movido da compaixão que não mereces. Há pouco chegaste ao Senado; em um tão grande Congresso, qual de teus amigos ou parentes te saldou? (...) Com estes prognósticos e sumo proveito da República parte já, Catilina, em essa tua pestilencial quadrilha de protervos, que se te agregaram com todo o gênero de maldades e parricídios para essa ímpia e execranda guerra. Então, Júpiter Stator, que aqui foste colocado por Rómulo com os mesmos auspícios com que fundou esta cidade, e a quem com verdade chamamos Stator desta corte e Império, o apartarás e a seus sócios de teus altares e templos, dos edifícios da cidade e seus muros, das vidas e bens dos cidadãos, e a todos os inimigos dos bons, a todos os adversários da pátria, a todos os ladrões da Itália, juntos entre si com o vínculo de seus delitos e abominável sociedade, vivos e mortos os castigarás com eternos suplícios[3].”

Em outro tempo, e num momento mais propício, destacaremos outras partes da oração dirigida a Catilina, que é composta por cinco partes. Por ora é o que basta para incitar no leitor o desejo de entrar na biblioteca mais próxima e buscar por mais orações e discursos escritos e proferidos por Marco Túlio Cícero.

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 *Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] ORAÇÕES – Clássicos Jackson – Volume II – Rio de Janeiro – 1948, pág. XVI [2] Ob. Cit. pág. XVI. [3] Ob. Cit. págs. 215-226.

ago 11

CAMINHOS DA PATRÍSTICA: O CONCÍLIO DE NICEIA – PARTE I

CONCÍLIO DE NICEIA

O CONCÍLIO DE NICEIA - 

PARTE I – PRIMEIRAS HERESIAS –

 *Por Luiz Antonio de Moura –

             Deonísio da Silva – Doutor em Letras pela USP – no seu “De onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, ensina que a palavra concílio, ou concelho, deriva do latim Concilium, que designa reunião, assembleia ou, ainda, como nos dias de hoje, divisão política e administrativa em Portugal. Ensina que “Ali eram feitos conciliábulos, conciliações e reconciliações, tal como hoje nos parlamentos. Nossa Senhora de Fátima tem este nome porque apareceu na vila de Fátima, no Concelho de Ourém, num lugarzinho muito pobre, conhecido como Cova de Iria[1]”.

            A celebração de grandes assembleias conciliares constitui uma marca em toda a história cristã, ao longo dos séculos não raro, de forma ecumênica. A ecumenicidade  do concílio indica a extensão universal da representatividade de uma assembleia e, consequentemente, a extensão da normatividade canônica das suas decisões[2].

            Hoje, e sem esgotar o tema, vamos tratar do primeiro concílio ecumênico da história da Igreja: o Concilio de Niceia, realizado no ano de 325, na cidade que lhe dá o nome. Esse concílio foi marcado por algumas especificidades interessantes: convocado por um imperador romano – Constantino, depois do fracasso de dois Sínodos; teve como missão debelar o incêndio doutrinário aceso com o surgimento de diversas heresias, cujo ápice foi a heresia defendida por Ário; causou enormes divisões no seio da Igreja, com excomunhão e exílios de bispos, inclusive de Eusébio de Cesareia, que, inicialmente, acolheu e apoiou as teses de Ário; formulou o credo niceno (Cremos num só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis).

              Não obstante, foi a primeira experiência de um grande debate teológico e doutrinário a partir do qual a Igreja perdeu o medo de enfrentar os desafios interna corporis, fazendo o que hoje conhecemos como “cortar na própria carne”. O período imediatamente anterior ao Concílio de Niceia foi pródigo na disseminação de teorias heréticas, na grande maioria, de natureza judaizante que não aceitava a divindade de Jesus e que queria a todo custo preservar a Shemá: “Ouve, ó Israel, O Senhor nosso Deus é o único Senhor(...)” (Dt 6, 4).

               A essência de todo o Antigo Testamento está fundamentada no monoteísmo – o Deus único e verdadeiro, criador de todas as coisas. Assim, o nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus Revelado; o Verbo de Deus encarnado trouxe ao mundo pós-ressurreição um intenso debate teológico, embora ainda sem esta conotação, com o objetivo de mostrar que Deus é um só e que Jesus, sob diversos enfoques, não é Deus.

               Com essa obsessão, diversas heresias foram tomando corpo, ou, em alguns casos, foram nascendo umas das outras.

              Não conseguiremos, aqui, enumerá-las todas, porém, vamos expor algumas das mais importantes verificadas no período pré-niceno, até chegarmos à teoria de Ário que, inevitavelmente, vai, então, desaguar em Niceia, com todo o aparato império-eclesial.

            A primeira heresia a ser enumerada é o docetismo: seus defensores afirmavam que Jesus tinha apenas a aparência humana, mas que, na verdade, era como se fosse um fantasma, não existia. Tudo não passava de uma aparência, ou seja, negavam a corporeidade de Jesus.

            O docetismo era uma corrente de pensamento bastante influenciada pelo gnosticismo para quem “a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação. Mais ainda: a matéria é radicalmente oposta ao espírito. São realidades contraditórias. Por isso, Deus, o espírito perfeitíssimo, transcendente, imutável e impassível, não pode, por nenhuma razão, assumir qualquer parcela de matéria. Em outras palavras, é impossível conceber a encarnação de Deus na matéria[3]”. Os gnósticos acreditavam ter atingido um elevado grau de conhecimento, acima do comum, que fazia com seus adeptos fossem tidos como avançados no conhecimento da divindade.

       Consideravam-se tão portadores de sublime conhecimento, que desprezavam a fé dos mais simples e humildes. Segundo os gnósticos, que, como dissemos influenciaram os docetistas, a salvação podia ser alcançada sem a fé no homem Jesus que, se era Deus, seu corpo real era o de um ser astral, celeste. Ou seja, seu corpo humano só podia ser aparente: Jesus, nada mais era do que um homem celeste, um fantasma.

           Em seguida, teremos os ebionismo:  Para estes, Jesus não era Deus, mas, sim, uma pessoa comum. Os ebionitas negavam a divindade de Jesus, porém, reconheciam-No como o Messias anunciado pela Lei e pelos profetas. Irineu de Lião torna-se o primeiro a enquadrar os ebionitas como heréticos, na obra Contra as Heresias, incluindo-os entre os gnósticos, devido às ligações deles (ebionitas), com Cerinto e Carpócrates, utilizando somente o Evangelho de Mateus e rejeitando o apóstolo Paulo, a quem acusavam de apostasia a respeito da Lei.  “Mesmo aqueles entre eles que aceitavam tivesse Jesus nascido de uma Virgem por obra do Espírito Santo, negavam sua preexistência como Verbo de Deus. Jesus seria homem predestinado por Deus que, no batismo, recebera o Filho de Deus, o Verbo-Sabedoria de Deus Pai[4]”.  

        Depois, vamos encontrar o adocionismo: Teódoto de Bizâncio, conhecido como “O Curtidor”, foi o primeiro a sistematizar e a defender o adocionismo, que assim estava fundamentado: Jesus era apenas um homem, puramente humano, nascido de uma Virgem e que, no momento do batismo, recebera uma força especial. O Papa Vitor excomungou Teódoto, mas ele continuou arregimentando adeptos, principalmente, dentre os judeus convertidos, haja vista a dificuldade que estes tinham para reconhecer e aceitar a divindade de Jesus. Para os adocionistas, Jesus era um homem dotado de extraordinária virtude e de quem Deus se servia para a implantação do seu Reino. Para eles, então, Jesus era um “homem de Deus” profundamente inspirado, possuído e conduzido pelo Espírito Santo.

              Não nos parece conveniente prolongar muito este texto, o que seria cansativo para os leitores. Assim, em breve, voltaremos e daremos continuidade às questões envolvendo o Concílio de Niceia que, de tão importante e significativo, ainda hoje, tantos séculos depois, exerce forte influência sobre o caminhar da Igreja. Por ora, é bom que os leitores atentem para que está sendo exposto.

                  Em breve estaremos retomando a marcha.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

[1] SILVA, Deonísio da, De onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa - 17ª edição revista e atualizada, da Lexikon – Rio de Janeiro – 2014, pág. 116. [2] ALBERIGO, Giuseppe – História dos Concílios Ecumênicos – Paulus – São Paulo – 2012 – pág. 8. [3] FRANGIOTTI, Roque – História das Heresias – Conflitos Ideológicos Dentro do Cristianismo – São Paulo – 6ª reimpressão – 2013 pág. 27. [4] Idem, pág. 20.

jul 03

“SALVE CHEIA DE GRAÇA; O SENHOR É CONTIGO”

MARIA E O ANJO

MARIA, VERDADEIRAMENTE CHEIA DE GRAÇA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Algumas pessoas, talvez até conduzidas e induzidas por maus orientadores, costumam afirmar que Maria, mãe de Jesus, deve ser tratada como uma mulher absolutamente comum, igual a todos os demais seres humanos. Afirmam que ela apenas cumpriu uma vontade de Deus e que, nada de mais fenomenal teria acontecido na vida daquela pequena, simples e pobre menina do interior da Galileia.

Esta questão, na verdade, é um divisor de águas entre muitos cristãos que, em razão das diversas denominações reinantes, insistem em olhar para Maria de Nazaré como uma simples mulher, pecadora como qualquer outro ser humano, sem perceber nada de especial. Como se Deus fosse capaz de conceder uma graça tão especial – dar à luz o seu Filho Unigênito – a uma mulher qualquer, como se Ele agisse feito um Ditador que, olhando para os seus súditos, escolhe à esmo aquele ou aquela a quem encaminhar para o sacrifício.

A leitura da Bíblia não parece dar razão a tais pessoas. Em primeiro lugar, a salvação dos homens é projeto eterno e, desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso terrestre, Deus tratou de deixar bem claro para a serpente que haveria inimizade entre a posteridade dela e a da mulher que, por fim “te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar” (Gn 3, 15).

A posteridade da serpente é a que bem conhecemos, ou seja, é a do pecado, da morte e da perdição. A posteridade da mulher, ao contrário, é a da santificação e a da salvação para a vida eterna, atributos que só chegam ao mundo e aos seres humanos por meio do Verbo encarnado, a respeito do qual falaram os profetas ao longo de todo o Antigo Testamento, com maior ênfase para Isaías que, melhor do que ninguém, soube retratar a figura do Ungido de Deus.

Entretanto, ninguém pode, jamais, conceber a ideia de que o Filho de Deus teria encarnado no ventre de uma mulher pecadora, como qualquer outra do seu tempo. Aquela da qual nasceria a posteridade adversária da serpente teria que, necessariamente, ser e estar isenta de todo pecado; seu ventre, tal qual templo sagrado e purificado, teria de estar assim preparado para receber, aconchegar e gestar o Verbo de Deus, para a aquisição da perfeita natureza humana que, como sabemos, deriva de Maria.

Não é em vão ou sem propósito que o Anjo Gabriel, ao se aproximar de Maria, saúda-a efusivamente: “Deus te salve cheia de graça; o Senhor é contigo” (Lc 1, 28). Ora, o anjo enviado por Deus tinha pleno conhecimento de estar diante de uma pessoa absolutamente especial, porque a missão a ele atribuída era a de comunicar a Maria sobre a escolha de Deus. Ele não precisava chamá-la de “cheia de graça”, ou dizer que “o Senhor é contigo”. Bastava-lhe, apenas transmitir a mensagem divina.

Mas, não. O anjo faz questão de saudar Maria como serva especialíssima, “cheia de graça”, em quem o Senhor está e em quem o Espírito Santo agirá como jamais agiu sobre qualquer outro ser humano: “O Espírito Santo” diz o anjo, “descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”. Mas, a fala do anjo é mais profunda ainda, ao afirmar que “o Santo que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus”.

A esse respeito, Réginald Garrigou-Lagrange (1909 – 1964), considerado, ao lado do protestante Karl Barth, um dos maiores Teólogos do século XX, afirma que: “Enquanto que os anjos não manifestam sua reverência aos homens, porque eles lhes são superiores como espíritos puros e porque vivem sobrenaturalmente na santa familiaridade de Deus, o arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, se mostra cheio de respeito e de veneração, pois compreendia que ela o ultrapassava pela plenitude de graça, pela intimidade com o Altíssimo e por uma perfeita pureza”[1].

Ora, os filhos dos homens são filhos do pecado, do qual só conseguem se livrar por meio do Batismo e da confissão de que Jesus Cristo é o Salvador. Jesus, ao contrário, é Santo, nasce Santo porque é Filho de Deus e porque, sua encarnação humana é concretizada em corpo absolutamente Santo. Deus jamais permitiria que o seu Verbo encarnasse em um corpo maculado pela mancha do pecado. Maria, desde antes da concepção, é isenta de toda a mancha do pecado, justamente por ser ela, exatamente como reconhecido pelo anjo, “cheia de graça”. Nela, a graça de Deus abundou mais do que em qualquer anjo ou santo, porque ela é a verdadeira Arca da Nova Aliança. Não uma arca qualquer, mas, a exemplo da Arca da primeira Aliança, ela é de ouro finíssimo, especialmente preparada desde toda a eternidade para trazer à luz o Filho de Deus, verdadeira luz das nações e salvação para todos os homens.

A natureza humana de Jesus é formada por um corpo absolutamente incorruptível, puro e limpo de qualquer mácula. Um corpo santo que, só possui estas características, a partir do corpo da própria mãe. O Verbo é divino, mas o corpo é humano e, como tal, formado e gestado a partir da vida e do sangue de Maria, de quem adquire a natureza verdadeiramente humana. Jesus, mais tarde, vai afirmar que “cada árvore se conhece pelo seu fruto; pois nem se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas de um abrolho” (Lc 6, 44).

Portanto, a santidade e a pureza humanas de Jesus decorrem da descendência de Maria, sua Imaculada Mãe. Não sem propósito nós, católicos, não cessamos de saudá-la “cheia de graça, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”.

Maria tem lugar privilegiado na economia da salvação e, justamente por estar, e por ser, “cheia de graça” e, consequentemente, cheia do Espírito Santo, ela mesma declara: “de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. Maria não participa da Santíssima Trindade, mas, evidentemente, relaciona-se com ela como ninguém jamais se relacionou. Em Maria, Deus age diretamente, concedendo-lhe graça especial e abundante; de Maria nasce o Salvador e, em Maria o Espírito Santo desce e cobre-a com a virtude do Altíssimo. Nela se concretiza a relação intima e perfeita entre a “serva do Senhor” e o Deus Uno e Trino.

Querer comparar Maria com uma pessoa qualquer, sem nela reconhecer a graça que o próprio anjo reconhece; sem querer chamá-la “bem-aventurada”, conforme descrito pelo evangelista Lucas, enxergando nela a figura de uma simples pecadora, como qualquer outro mortal, é, no mínimo, demonstrar desrespeito para com o próprio Deus, que jamais deixaria que seu Verbo se encarnasse em ambiente contaminado pelo pecado. Contaminado com o sangue pecaminoso que corre nas veias de todos os filhos de Adão, ainda que se queira acreditar que a descendência de Abraão é mais santa, ou menos pecadora.

Agir assim, é demonstrar, também, absoluta falta de raciocínio e de conhecimento teológico, desprezando, inclusive, as narrativas do Evangelho de Lucas, que narra o encontro de Maria com Isabel, sua prima, quando o futuro precursor – João Batista – ainda em gestação, salta de alegria no ventre da mãe, ao ouvir e identificar a voz de Maria.

Muito e muito ainda pode ser falado sobre Maria, cuja santidade ultrapassa a de todos os santos, porque não precisou chegar ao final da vida terrena para receber as graças que os santos normalmente recebem. Ela, desde sempre, é cheia de graça. Observe-se que o anjo Gabriel não afirma: “serás cheia de graça”, mas, “Salve, cheia de graça”. Ou seja, ela não receberá a graça, mas, já é cheia de graça, antes mesmo de receber a virtude do Espírito Santo. Deus cumulou-a com dignidade e com graça especialíssimas, que a nenhum outro ser vivente foram dadas. A graça a ela concedida só não é maior do que a do próprio Filho, porque é Deus.

Portanto, seria bom que os cristãos, de qualquer denominação ou profissão de fé, refletissem um pouco mais, e melhor, antes de tratar a mãe de Deus como uma simples mulher pecadora, igual a todos e a cada um de nós, verdadeiros pecadores, pobres mortais e carentes da graça do Altíssimo. Nós que somos exortados pelo Apóstolo Paulo a zelar pela santidade do nosso próprio corpo, verdadeiro templo do Espírito Santo, e a demonstrar que somos carentes da graça propiciadora da presença do Divino Espírito Santo, o que, evidentemente, e em conformidade com o Evangelho, não aconteceu com Maria que, no tempo apropriado recebeu diretamente em si a presença e a ação do Espírito Santo, pois já era, abundantemente, agraciada pelo Altíssimo.

Com tamanha graça e digna da intimidade e da familiaridade com o Altíssimo, podemos e devemos, tal qual fez o anjo, respeitar e reverenciar Maria, enxergando nela a voz que, ao lado do Filho Jesus, assim como nas bodas de Caná, clama por todos nós, pecadores e, certamente que, de Jesus obtém tudo o que pede porque Ele, mais do que qualquer outro filho, soube amar a mãe até na hora da morte, deixando-a aos cuidados do discípulo amado sem, com isso, e de forma alguma, interromper a graça com a qual Deus a premiou desde antes da própria concepção (eternamente). Portanto, reflita um pouco mais, sobre o que pensa e anda dizendo a respeito da mãe Daquele que você afirma ser o seu Salvador. O desprezo, a falta de respeito e de reverência para com ela podem ter um preço desconhecido.

____________________________________________________ [1] GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald – A Mãe do Salvador e Nossa Vida Interior. Campinas-SP. Ecclesiae: 2017. P. 58.

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

     

mar 04

LEITURAS SUGERIDAS PARA O DIA

BÍBLIA - 2017

8ª SEMANA DO TEMPO COMUM – SEGUNDA-FEIRA – 04/03/2019 –

“Na Liturgia da Palavra vamos encontrar a força e o reforço necessários para a jornada que se apresenta diante de nós a cada manhã. Antes de iniciar as atividades do dia, leia atentamente as leituras sugeridas e reflita sobre a Palavra que aperfeiçoa individual e espiritualmente” –

PRIMEIRA LEITURA

LEITURA DO LIVRO DO ECLESIÁSTICO – (Eclo  17,20-28) – 20Aos arrependidos Deus concede o caminho de regresso, e conforta aqueles que perderam a esperança, e lhes dá a alegria da verdade. 21Volta ao Senhor e deixa os teus pecados, 22suplica em sua presença e diminui as tuas ofensas. 23Volta ao Altíssimo, desvia-te da injustiça e detesta firmemente a iniquidade. 24Conhece a justiça e os juízos de Deus, e permanece constante no estado em que ele te colocou e na oração ao Deus altíssimo. 25Anda na companhia do povo santo, com aqueles que vivem e proclamam a glória de Deus. 26Não te demores no erro dos ímpios, louva a Deus antes da morte; o morto, como quem não existe, já não louva. 27Louva a Deus enquanto vives; glorifica-o enquanto tens vida e saúde, louva a Deus e glorifica-o nas suas misericórdias. 28Quão grande é a misericórdia do Senhor e o seu perdão para com todos aqueles que a ele se convertem!

 – Palavra do Senhor.     

– Graças a Deus.

EVANGELHO: Marcos 10,17-27

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo † segundo São Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 17quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” 18Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. 19Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!” 20Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. 21Jesus olhou para ele com amor e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” 22Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 23Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus!” 24Os discípulos se admiravam com essas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.

– Palavra da salvação!

– Glória a vós, Senhor.

  FONTE:   https://www.paulus.com.br/portal/liturgia-diaria/    

mar 03

LEITURAS SUGERIDAS PARA O DIA

Closeup of wooden Christian cross on bible

8º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 03/03/2019 –

“Na Liturgia da Palavra vamos encontrar a força e o reforço necessários para a jornada que se apresenta diante de nós a cada manhã. Antes de iniciar as atividades do dia, leia atentamente as leituras sugeridas e reflita sobre a Palavra que aperfeiçoa individual e espiritualmente” –

PRIMEIRA LEITURA:

LEITURA DO LIVRO DO ECLESIÁSTICO – (Eclo27,5-8) –

5Quando a gente sacode a peneira, ficam nela só os refugos; assim os defeitos de um homem aparecem no seu falar. 6Como o forno prova os vasos do oleiro, assim o homem é provado em sua conversa. 7O fruto revela como foi cultivada a árvore; assim, a palavra mostra o coração do homem. 8Não elogies a ninguém antes de ouvi-lo falar, pois é no falar que o homem se revela.

– Palavra do Senhor! – Graças a Deus.

SALMO RESPONSORIAL: 102(103)

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

1. Como é bom agradecermos ao Senhor / e cantar salmos de louvor ao Deus altíssimo! / Anunciar pela manhã vossa bondade, / e o vosso amor fiel, a noite inteira.

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

2. O justo crescerá como a palmeira, / florirá igual ao cedro que há no Líbano; / na casa do Senhor estão plantados, / nos átrios de meu Deus florescerão.

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

3. Mesmo no tempo da velhice darão frutos, / cheios de seiva e de folhas verdejantes; / e dirão: “É justo mesmo o Senhor Deus: / meu rochedo, não existe nele o mal!”

R. Como é bom agradecermos ao Senhor.

SEGUNDA LEITURA:

LEITURA DA PRIMEIRA CARTA DE SÃO PAULO AOS CORÍNTIOS (ICor 15,54-58)

Irmãos, 54quando este ser corruptível estiver vestido de incorruptibilidade e este ser mortal estiver vestido de imortalidade, então estará cumprida a palavra da Escritura: “A morte foi tragada pela vitória. 55Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?” 56O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. 57Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória pelo Senhor nosso, Jesus Cristo. 58Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, empenhando-vos cada vez mais na obra do Senhor, certos de que vossas fadigas não são em vão, no Senhor.

– Palavra do Senhor!

– Graças a Deus.

EVANGELHO: Lucas 6,39-45

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo † segundo São Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 39Jesus contou uma parábola aos discípulos: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? 40Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre. 41Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no teu próprio olho? 42Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. 43Não existe árvore boa que dê frutos ruins nem árvore ruim que dê frutos bons. 44Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros nem uvas de plantas espinhosas. 45O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”.

– Palavra da salvação!

– Glória a vós, Senhor.

    FONTE: https://www.paulus.com.br/portal/liturgia-diaria/    

fev 25

EDITORIAL DA SEMANA: TODA MISSÃO TEM UM FIM!

FRUTOS DA VIDA - 2

MISSÃO CUMPRIDA, É HORA DE OBSERVAR OS RESULTADOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Muitos de nós acreditamos ser portadores de missões que, atribuídas por Deus, pela Lei, pela Cultura ou pela Moral, devem ser cumpridas à risca, fazendo desta, em muitos casos, a razão de ser da nossa existência. Não é pequeno o número de pessoas que só conseguem enxergar a vida sob a ótica da tal “missão” que, não raro, e para estas pessoas, dura por toda a vida.

Da minha parte, não enxergo a coisa exatamente desta forma. Penso que cada um de nós tem diversas missões para serem cumpridas no curso da vida e que, como tais, vão se sucedendo umas às outras, em uma saga contínua e permanente, cujo fim coincide com o término desta existência. Algumas missões são mais prolongadas do que outras; mais espinhosas; mais dolorosas; mais aguerridas; mais cansativas, mas, a todas é reservado um limite, um termo final. Um momento no qual dão-se por esgotadas e, portanto, encerradas, independentemente do resultado produzido. Daí por diante, parte-se para outra missão.

Exemplo que me parece bastante oportuno, principalmente, sob a ótica do momento atual da minha trajetória, é o relacionado com a missão a ser desempenhada com o foco totalmente voltado para os filhos. Trata-se de missão difícil, espinhosa e complicada, sim, mas, que tem tempo para findar. Não é missão de toda uma vida, porque, cumpre a cada pai e a cada mãe, acolher aquele serzinho que chega ao mundo para integrar a família, com todo o amor e com toda a dedicação possível e inimaginável. Chega da forma como todos nós sabemos e conhecemos muito bem: indefeso, inocente e carente de todo tipo de cuidado. Sem nada, completamente nu e absolutamente sozinho. De tudo e em tudo dependente de alguém! É a sina de todos nós, seres humanos: ao nascermos e ao morrermos, dependemos de alguém para nos levar de um lado para o outro!

Àquele pequeno ser que chega ao mundo, a mãe ensina por primeiro o caminho do bico do seio, levando-o à boca, para a primeira alimentação, seiva de continuidade de uma vida gestada em um ambiente propício, no qual nada faltava e tudo chegava da forma mais natural possível. Agora não! Agora ele depende da mãe para iniciar o processo da alimentação, com todos os suplementos e complementos necessários para que aquela vidinha ganhe mais tônus a cada dia, e  em todos os sentidos. Ele ou ela depende de alguém, normalmente, da mãe, para colher-lhe as primeiras (e muitas outras) fezes, trocando-lhe as fraudas e zelando pela manutenção e higiene daquele frágil corpo.

Depois, pouco mais tarde, vem o ensino de inúmeras outras atividades necessárias para o progresso daquele ser que, agora, já sabe pedir o famoso “papá”; já chora, quando não quer alguma coisa; já dá de mãos, com certa irritação, quando se sente objeto de abuso dos adultos corujões. Mas, ainda falta aprender a engatinhar para, em seguida, dar o primeiro grande avanço para a liberdade: os primeiros passos! Todos, na família, aguardam o momento deste pequeno astronauta fazer sua primeira caminhada que, para nós, serão apenas alguns passos, mas, para ele ou para ela, será uma grande caminhada rumo à independência. Daí por diante, ele/ela vai de vento em popa, mas, a missão do pai e da mãe ainda está longe de ser completada.

Vem o momento dramático da escola, dos primeiros contatos sociais com outros pequenos seres tão simples e inocentes quanto o nosso rebento. Mas, novamente estamos lá, ao lado dele ou dela, torcendo, dando força, incentivando e, não raro, também chorando pela insegurança de deixar aquela mudinha de árvore aos cuidados de jardineiros estranhos. Jardineiros e jardineiras que são, obviamente, bem preparados e muito bem treinados, mas, não somos nós! E acreditamos, sinceramente, que ninguém é capaz de fazer por ele ou por ela nada do que somente nós sabemos fazer.

A fase estudantil é uma das mais longas, mais complexas e mais delicadas porque pega nossos filhinhos com dois ou três anos de idade e acompanha-os até a entrada na Universidade. E nós, destemidos que somos, estamos ali firmes, fortes e resistentes. Resistentes às dificuldades por eles encontradas nos primeiros anos; resistentes em relação ao convívio com outros seres iguais que, vindos de outras raízes, possuem perfis, às vezes, bastante diferentes e complexos, assim como os modos de proceder em relação a tudo e a todos à volta. Resistentes às rebeldias da adolescência; resistentes ao ímpeto da juventude e, por fim, e já cansados, resistentes aos enfrentamentos abertos, resultantes do normalíssimo conflito de gerações.

Aqui, neste estágio, e na minha opinião, a missão paterna e materna caminha para o encerramento, porque, a partir do conflito gerado pela visão e consequente compreensão do mundo, quando o filho ou a filha enxerga o mundo e suas dependências com olhar próprio, muitas das vezes, bastante diferente do nosso olhar já treinado, experimentado e, porque não assumir, já viciado, acreditam já serem senhores absolutos dos próprios destinos, dispensando maiores comentários, evitando os diálogos mais aprofundados ou mesmo a necessária e saudável troca de experiências, para a verdadeira transmissão da vida e das suas vicissitudes. O que nós sabemos, ou achamos que sabemos, já não lhes interessa mais. Para eles, passamos a ser seres estranhos e já a caminho da obsolescência, seres de um outro mundo, de uma outra época, com outros valores e portadores de um “conhecimento” que a modernidade, sob muitos aspectos, já não reconhece mais como válido. É, quando acredito, a missão do pai e da mãe está encerrada”. Tudo foi feito, dito e ensinado. Experiências mil foram transmitidas. O que normalmente denominamos por "conselhos", foram distribuídos aos montões. Centenas de exemplos foram tomados como referências e indicativos para o bom e para o mau caminho. Enfim, aquele filho ou filha está preparado para a ação! E, de tão preparados, eles acreditam poder deixar de lado tudo o que receberam, e partir para suas aventuras e experiências próprias.

Dali por diante, é verdade, sempre estaremos prontos para o filho ou para a filha, mas, apenas para o acolhimento, o consolo e, não raro, para o socorro! E, quase sempre, o trunfo vitorioso é o da concordância ou o do silêncio.

É com esta visão e com este sentimento que vejo meu filho chegar aos vinte e um anos de idade! É preciso reconhecer, também, ser esta a primeira experiência pela qual estou passando. Mas ainda sou um menino, um menino que carrega no peito dúvidas, medos e inseguranças. Um menino que, infelizmente, não encontra outro menino para trocar ideias e experiências válidas para ambos, um mais velho, o outro, mais jovem. Tão jovem que, em razão da idade que chega e faz desabrochar toda a impetuosidade da vida, não percebe o valor absoluto, e a importância, do diálogo constante e permanente com este menino que ele já considera velho demais e fora de moda. Ambos são meninos, porém, cada qual refletindo o seu próprio tempo.

Um dia eu também tive vinte e um anos de idade, e como eu sonhei poder ser tratado pelo meu pai como um adulto, um adulto capaz de ter ideias e opiniões próprias e interessantes; um adulto capaz de principiar e de prolongar um diálogo forte, saudável e frutuoso para ambos quando eu, certamente, teria a vantagem de aprender muito mais. No entanto, meu pai, vindo de uma realidade na qual não conheceu o carinho, o acolhimento, o amor, o consolo ou mesmo o socorro de um pai ou de uma mãe, rechaçava, como evita até hoje, o diálogo aberto, franco e sincero com os filhos, por se achar, ele próprio, o senhor absoluto de todas as razões e de todas as verdades.

Do alto destes meus quase sessenta anos olho para os vinte e um anos passados como um raio, e percebo ter cumprido minha missão o que, para mim, é motivo de orgulho, satisfação e consolo pessoal e espiritual muito grande. Cumpri, sim, a missão que me competia como pai. Agora, resta-me apenas sentar na varanda e, tal qual o ancião que tem os olhos perdidos no horizonte, aguardar para apreciar os resultados do extenso plantio que fiz no decorrer destes últimos vinte e um anos esperando, ainda, para ver o que revelarão os anos vindouros.

Aos pais e mães mais jovens, não sirvo de modelo, porque ousei agir bem adiante no tempo, acreditando estar construindo pontes e viadutos pelos quais muitas cargas positivas seriam transportadas de forma permanente, espontânea e inteiramente gratuita. Entretanto, qual não tem sido minha surpresa, quando vejo que, tudo construído e desobstruído para gerar integração plena, assim como a produção de esplêndidos resultados, existe um pedágio a ser pago, instalado pelas artimanhas da vida. Um pedágio que dificulta o fluxo natural do transporte de projetos, planos e experiências, criando obstáculos onde não existem e obscurecendo a visão, impedindo a percepção e, evidentemente, afastando a possibilidade de se preparar, em larga escala, para as armadilhas que o futuro guarda para a totalidade dos seres humanos.

Não importa o quanto está sendo, ou o quanto ainda será, cobrado para a travessia das tais pontes e viadutos. O que realmente importa, para mim, e, talvez, até de forma egoísta, é a convicção de ter cumprido com o papel que me foi designado: o papel de pai! Cumpri-o com altivez e com determinação; cumpri-o com satisfação e com orgulho e, na condição daquele que planta uma árvore frutífera em terras alheias, ou mesmo nas próprias, espero que alguém recolha os frutos que, mais dia, menos dia, não tenho dúvidas, aparecerão. Afinal, o que é a vida, senão um plantar e um colher permanentes? Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

   

fev 24

SEMANÁRIO DOMINICAL

PAULO DAHER - 2018

7ª. DOMINGO ANO C DA  7ª. SEMANA  TEMPO  COMUM

*Por Monsenhor Paulo Daher -           

1 SAMUEL 26, 2-7.9-12-13.22-23Davi com suas tropas chegou ao acampamento de Saul, enquanto todos estavam dormindo.  Entrou na tenda do rei Saul sem que o percebessem e não feriu o rei, pegou só o cantil e a lança dele. Depois de voltar para outro lado da colina gritou para Saul dizendo o que fez e mostrando o que trouxe sem ofender o rei. Este reconheceu a fidelidade de Davi e o elogiou diante de Deus.

Davi o escolhido de Deus mostra mais uma vez a Saul que invejava seus grandes feitos nas batalhas, sua fidelidade ao rei, em nome do Senhor.

É exemplo para nós. Devemos conhecer o que o Senhor pede de nós e orientados por sua vontade mesmo diante de “inimigos” que nos fazem mal, saibamos entender que não somos juízes de ninguém. Sigamos o que conhecemos por nossa consciência e deixemo-nos guiar pelo que o Senhor espera de nós. 

Ainda estejamos atentos a que devemos respeitar as autoridades ou os de quem dependemos em nossos trabalhos. Mas jamais aprovar seus abusos contra nossa consciência.

Às vezes por não seguir os maus exemplos de pessoas a quem

prestamos serviço ou de quem dependemos para o que devemos realizar, além do sofrimento talvez devamos renunciar a este trabalho se quiserem forçar-nos como condição para continuar aí. Podemos até perder bens mas é melhor estar de bem com nossa consciência do que pactuar com a desonestidade.

1ª. CORÍNTIOS 15, 45-49, o apóstolo leva-nos a pensar em nossa condição de seres humanos, do que somos e herdamos dos que nos precederam. Somos criados por Deus, mas infelizmente trazemos conosco a fragilidade que herdamos de nossos pais. Mas somos também herdeiros da riqueza de Cristo que nos assumiu com irmãos e por nós agiu e age diante do Pai.

Mais visíveis são nossas maneiras que agem como herança de nossos pais. Tantos suas qualidades como também características que poderíamos chamar de deficiências ou fraquezas.

Depende de nós, ajudados pela presença e ação de Cristo, conduzir nossa vida como tantas pessoas santas fizeram, movidos pela graça de sermos filhos de Deus resgatados pelo grande amor que o Senhor tem por nós e manifestou de maneira maravilhosa com a presença de seu Filho que veio viver conosco nossa vida.

Na vida todos conhecemos crianças que quase abandonadas por sua família foram assumidas por pessoas que a aceitaram como filhos e lhes deram condição de sobreviver e de se preparar melhor para seu futuro.

Muitas pessoas santas também tiveram oportunidade pela graça de Deus e amor de pessoas de fé de serem educadas na vida humana melhor e vida religiosa que as transformou.

Jovens que moravam no interior sem às vezes a mínima condição de sobrevivência humana, foram acolhidas por religiosas que as educaram e lhes deram condição de até um dia serem superioras desta mesma congregação que as recebeu.

A riqueza que qualquer pessoa traz consigo é uma realidade que precisa ser entendida e aceita quando participamos de um trabalho pastoral numa paróquia ou num movimento.

EM   LUCAS 6, 27-38, Jesus apresenta algo novo quebrando a maneira radical dos judeus. Amem seus inimigos. Orem pelos que o ofendem. Aceitem as ofensas e agressões. É a maneira nova de voltar a aceitar qualquer “irmão” que nos faça sofrer. Não revidar. Não julgar. Não condenar. Perdoar sempre.

Talvez para que não se contaminassem com a vida que muitos tinham como natural na sociedade antiga do tempo dos judeus, para se preservar dos costumes pagãos, se seguia à risca: Olho por olho, dente por dente. Recebeu, deve dar em troca com a mesma moeda.

Jesus insiste na regra de ouro: somos capazes até de mudar a agressividade do outro pela mansidão.

Hoje por causa das injustiças sociais gritantes em relação à discriminação das pessoas por sua cor, condição social, estamos quase voltando ao que havia antigamente. Como dizia um modesto trabalhador:  ataque que eu me defendo. Ou o que alguns pais diziam e ainda dizem a seus filhos: não tragam nenhuma agressão para a casa. Reajam como gente! Não sejam bobos.

Mas Jesus disse que ele era caminho, a verdade e a vida. E continua mantendo seus princípios: perdoem a quem os ofende!

Um dia um padre na missa pediu que tirassem de lá um cão que estava incomodando as pessoas. O dono não gostou e depois na sacristia agrediu o padre com um bofetão. Quando a família soube fiou consternada. Vivia dizendo que ele fosse pedir perdão ao padre que não tinha reagido nem dissera nada a ninguém. Por fim o senhor pediu perdão e depois foi um grande colaborador do padre em seus trabalhos.

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* Monsenhor Paulo Daher é Vigário Geral da Diocese de Petrópolis, colabora enviando gentilmente seus comentários aos textos litúrgicos da semana.

fev 24

A PALAVRA DO SACERDOTE

ZÉ MARIA-2

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – NÃO JULGAR... PERDOAR –

 *Por Mons. José Maria Pereira –

O Evangelho (Lc 6, 27 – 38) nos convida a ser magnânimos, a ter um coração grande, como o de Cristo. Manda-nos a bendizer aqueles que nos amaldiçoam, orar pelos que nos injuriam..., praticar o bem sem esperar nada em troca, ser compassivos como Deus é compassivo, perdoar a todos, ser generosos sem calculismos. E termina com estas palavras do Senhor: Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo. E alerta-nos: Com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos  (Lc 6, 38).

A virtude da magnanimidade, muito relacionada com a virtude da fortaleza, consiste na disposição de realizar coisas grandes, e São Tomás chama-a “ornato de todas as virtudes”. É uma disposição que acompanha sempre uma vida santa.

O magnânimo (tem alma grande) propõe-se ideais altos e não se encolhe perante os obstáculos, as críticas ou os desprezos, quando é necessário enfrentá-los por uma causa elevada. Não se deixa intimidar de forma alguma pelos respeitos humanos e pelas murmurações; importa-lhe muito mais a verdade do que as opiniões, frequentemente falsas e parciais.

A grandeza de alma demonstra-se também pela disposição de perdoar o que quer que seja das pessoas próximas ou afastadas. Não é próprio do cristão ir pelo mundo afora com uma lista de agravos no coração, com rancores e recordações que lhe amesquinham o ânimo e o incapacitam para os ideais humanos e divinos a que o Senhor nos chama.

Assim como Deus está disposto a perdoar tudo de todos, a nossa capacidade de perdoar não pode ter limites, nem pelo número de vezes, nem pela magnitude da ofensa, nem pelas pessoas das quais nos advém a suposta injúria: “Nada nos assemelha tanto a Deus como estarmos sempre dispostos a perdoar. Na Cruz, Jesus cumpria o que havia ensinado: Pai, perdoa-lhes. E imediatamente a desculpa: porque não sabem o que fazem (Lc 23, 34). São palavras que mostram a grandeza de alma da sua Humanidade Santíssima. E ainda lemos no trecho do Evangelho (Lc 6, 27-28): Amai os vossos inimigos..., orai pelos que vos caluniam.

Vamos nos concentrar num ponto importante do discurso de Jesus: “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados” (Lc 6, 37). O sentido não é: não julgueis os homens e assim os homens não vos julgarão; mas antes: não julgueis e não condeneis o irmão e assim Deus não vos condenará.

Quem és tu para julgar um irmão? Somente Deus pode julgar porque Ele conhece os segredos do coração, os “porquês”, as intenções e os objetivos de uma ação. Mas nós o que sabemos daquilo que se passa no coração da pessoa quando faz uma determinada ação? O que sabemos sobre os condicionamentos que influem nessa ação, sobre os meandros de suas intenções? Querer julgar, para nós, é realmente uma operação assaz arriscada, é como lançar uma pedra de olhos fechados sem saber a quem irá atingir: nós nos expomos a ser injustos, impiedosos, unilaterais. Basta olhar para nós: como é difícil julgar a nós mesmos e quantas trevas envolvem nosso pensamento, para entender que é totalmente impossível descer nas profundidades de outra existência, em seu passado, em seu presente, na dor que experimentou...

Diz São Paulo: “Ó homem, tu que julgas os que praticam tais coisas e, no entanto, as fazes também tu, pensas que escaparás ao julgamento de Deus?” (Rm 2, 3). O motivo aduzido por São Paulo é: Tu que julgas fazes as mesmas coisas! É um traço característico da psicologia humana julgar e condenar nos outros, sobretudo, o que nos desagrada em nós mesmos, mas que não ousamos enfrentar. O avarento condena a avareza; o sensual vê, em tudo, pecados de luxúria; o orgulhoso só vê nos outros pecados de soberba. Projeta-se o próprio mal e a própria intenção deturpada nos outros, iludindo-nos, assim, de nos libertar de modo indolor. Mas isto é uma mentira e uma hipocrisia; é uma forma de alienação (alienação de nosso “eu” doentio): Hipócrita –diz Jesus quando assim me comporto -, tira primeiro a trave do teu olho e depois o cisco do olho de teu irmão! (Mt 7, 5). Há pessoas que se assemelham a juízes em sessão permanente: de manhã levantam e sentam no tribunal, permanecendo aí o dia todo emitindo sentenças. Ouvem uma notícia e já têm um julgamento; chega uma pessoa e, apenas sai, lhe jogam nas costas um julgamento.

Mais perto de nós, nos relacionamentos cotidianos, na família e no ambiente de trabalho: não julgar, não condenar! O melhor é falar, expressar com clareza o próprio desacordo, uma desaprovação. Jesus condena o juízo, não a correção; quando você corrige o irmão lhe faz dois favores: mostra que ele é capaz de aceitar a correção e lhe dá uma possibilidade de defesa. Isto não humilha a pessoa, mas lhe dá a certeza de que é valorizada, considerada capaz de aceitar uma crítica e de melhorar.

Em tudo é importante que cultivemos a virtude da magnanimidade, muito próxima da virtude da fortaleza! Ser magnânimo! Ter alma grande!

Jesus sempre pediu esta grandeza de alma aos seus. O primeiro mártir, Santo Estêvão, morrerá pedindo perdão para aqueles que o matam (At 7, 60). E nós não saberemos perdoar as pequenezes de cada dia? E se alguma vez chega a difamação ou a calúnia, não saberemos aproveitar a ocasião para oferecer a Deus algo tão valioso? Melhor ainda seria se, à imitação dos santos, nem sequer chegássemos a ter que perdoar – por nunca nos sentirmos ofendidos.

Santa Teresa dizia: “Não deixeis que a vossa alma e o vosso ânimo se encolham, porque poderão perder-se muitos bens... Não deixeis que a vossa alma se esconda num canto, porque, ao invés de caminhar para a santidade, terá muitas outras imperfeições mais” (Caminho de Perfeição, 72, 1)

A magnanimidade dilata o coração e torna-o mais jovem, com maior capacidade de amar. É virtude que é fruto de um íntimo relacionamento com Jesus Cristo. Uma vida interior rica e exigente, repleta de amor, sempre se faz acompanhar de uma disposição de empreender grandes tarefas por Deus. É uma atitude habitual que se baseia na humildade e que traz consigo “uma esperança forte e inquebrantável, uma confiança quase provocativa e a calma perfeita de um coração sem medo”, que “não se escraviza perante ninguém: é servo unicamente de Deus” (J. Pieper, As Virtudes Fundamentais).

O magnânimo (é generoso) atreve-se ao que é grande porque sabe que o dom da Graça eleva o homem a tarefas que estão acima da sua natureza, e as suas ações ganham então uma eficácia divina: esse homem apoia-se em Deus, que é poderoso para fazer nascer das pedras filhos de Abraão (Mt 3, 9); e é audaz nas suas iniciativas apostólicas, porque é consciente de que o Espírito Santo se serve da palavra do homem como instrumento, mas que é Ele quem aperfeiçoa a obra (Cf. São Tomás, Suma Teológica, 2 – 2, q. 171, a. 2). Caminha e trabalha com a segurança de quem sabe que toda a eficácia procede de Deus, pois, é Ele quem dá o crescimento (1 Cor 3, 7).

A Virgem Maria nos conceda a grandeza de alma que Ela teve nas suas relações com Deus e com os irmãos. Dai e vos será dado... Não nos apouquemos, não nos encolhamos. Jesus presencia a nossa vida!

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.

           

fev 18

EDITORIAL DA SEMANA: TRABALHADORES DO BRASIL

TEMPOS MODERNOS - 2019

TEMPOS MODERNOS – O SÉCULO QUE VIVE NO PASSADO –

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador.”

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quando falamos em “tempos modernos”, quase sempre vem à mente a lembrança do jovem Chaplin mergulhado no interior de uma fábrica de montagem de peças, apertando parafusos, em uma atividade tão frenética que,  já no intervalo para o almoço, mostrava as mãos trêmulas e vacilantes, repetindo o mesmo gesto, ainda que sem a chave na mão. Coisa de louco, diriam os jovens de hoje.

Diriam isto porque, muitos dos nossos jovens ainda não mergulharam no famigerado ambiente da produção em série de qualquer um dos objetos que consomem ou compram diariamente, pela internet ou mesmo nas lojas físicas. O trabalho de natureza repetitiva, manual ou intelectual que seja, ao invés de uma saudável prática e uma bem-vinda experiência, traz doenças físicas, mentais e espirituais, muitas das quais perseguem as pessoas pelo resto de suas vidas.

Parece incrível que tais ambientes ainda existam e que, por outra, ainda sejam comandados por pessoas que se revelam dotadas com a mesma mentalidade que vigorava no interior das fábricas das décadas de 1920/1930 do século passado. Porém, existem e estão cada vez mais presentes, tanto nos setores públicos, quanto nos privados. Tanto na produção em série, massificada, quanto no trabalho meramente burocrático e intelectual, dependente de relatórios e de decisões previamente elaboradas (os famigerados modelos), com a simples escusa de acelerar o trabalho, produzir mais e preservar pesquisas e coletas de dados já realizadas.

Tanto o trabalho manual e repetitivo, ao longo do tempo, quanto o “intelectual”, dependente do preenchimento de formulários e de tomada de decisões previamente estabelecidas (os tais modelos), abrem o caminho mais certeiro para o emburrecimento do trabalhador. Num primeiro momento, a simples e ingênua repetição de atos e de formas parece coisa simples, racional e saudável. Entretanto, o tempo se encarrega de mostrar que  chega a hora em que o trabalhador ou a trabalhadora passam a sofrer do vício do trabalho repetitivo, e ficam de tal modo vinculados ao sistema que, se for modificado o conteúdo central do trabalho, ele/ela passará batido e, olhando apenas para a peça e o instrumento ou para o título e para as primeiras linhas, dará o mesmo resultado para a questão posta diante de si, tamanha a lesão cognitiva que já tomou conta do seu precioso cérebro.

Aqui, volta a lembrança do trabalhador Chaplin embrenhado, e indefeso, em meio à multiplicidade de engrenagens, simbolizando muito bem tentáculos de um sistema que devora o ser humano de tal forma que, em pouco tempo, se sente como um verdadeiro dente da engrenagem. E mais: muitos, se veem como um dente muito importante na dinâmica que faz tudo girar ao seu redor. Tão importante que são capazes de tudo para se manterem atrelados ao sistema que, paradoxalmente, devora-os com prazer e satisfação e que, quando os consome totalmente, já tem outro, engrenado, para representar o mesmo papel, em um verdadeiro ciclo vicioso e ceifador de  saúdes e de vidas.

Ainda assim, desconhecendo ou fingindo desconhecer as severas consequências das regras impostas e alimentando todo o sistema, chefes intelectualizados, sindicalistas, trabalhadores e outros que se dizem do ramo, estão verdadeiramente assombrados com tudo o que vem sendo proposto (alguma coisa já foi, inclusive, implantada) no campo dos direitos trabalhistas sem, no entanto, mexerem um dedo sequer para questionar seriamente o condenável sistema produtivo, manual ou mesmo intelectual, no qual estão imersos até o pescoço milhões de trabalhadores, exigindo de subordinados, associados e comandados, apenas, e sempre, mais agilidade no processo produtivo, como que a bloquear ainda mais a capacidade intelectiva do cidadão ou da cidadã que, no dia-a-dia, produzem, de verdade, as grandes riquezas e mantêm, impreterivelmente, os ótimos bônus financeiros e os excelentes salários daqueles que, em posição de comando, estão no topo da cadeia produtiva.

O filme que relata a aflição e a descoloração pessoal daquele operário representado, de forma magistral, pelo jovem Charles Chaplin, não raro, é passado em palestras e em congressos, mundo afora, como modelo de produção a ser fortemente criticado e, de fato rejeitado pelos administradores modernos, haja vista o indizível mal que causa aos trabalhadores. Entretanto, ainda contaminados e, de certa forma embotados, pelo pensamento dominante naquelas já citadas décadas do século passado, todos eles  (líderes, chefes e administradores), com raríssimas exceções, mantêm o mesmo sistema de cobrança e de exigência de agilidade na produção de resultados em seus ambientes de trabalho, caçoando daqueles que afirmam estarem sofrendo e alegando não aguentarem mais o sistema viciante e viciado, ou, o que mais acontece, preparando a substituição do que denominam "maçãs podres".

Atualmente, em certas áreas do serviço público, adota-se o teletrabalho, como a joia da coroa. Diferentemente dos procedimentos similares adotados na iniciativa privada, nacional e estrangeira, líderes que representam estes setores públicos, além de não fornecerem equipamentos adequados e aptos à qualidade do trabalho, de não se responsabilizarem pelos efetivos custos operacionais e de não oferecerem um centavo a mais de incentivo para os trabalhadores, diferentemente do que ocorre no setor privado, ainda se acham no direito de exigir aumento expressivo da produtividade, no que contam, infelizmente, com a concordância dos trabalhadores e das trabalhadoras que, já embotados e incapazes de perceber o quanto estão sendo explorados, lutam para assegurar o que ainda acreditam ser um “privilégio”.

O teletrabalho, na forma em que foi pensado, planejado e executado com relativo sucesso por grandes grupos corporativos, grupos que, querendo ganhar cada vez mais, sabem o quanto é importante o bem estar dos seus empregados, tem por finalidade proporcionar aos trabalhadores e às trabalhadoras a possibilidade de executarem suas tarefas diárias no ambiente que lhes parece mais íntimo: a residência. E, justamente por respeitarem este ambiente íntimo, as grandes corporações fazem questão de encher estes trabalhadores de mimos, como jornada de trabalho inalterada, com respeito aos necessários intervalos regulares para a recomposição física, o fornecimento de equipamentos modernos, sofisticados e altamente eficientes, a manutenção periódica nos referidos equipamentos, serviço de help-desk funcionando de forma efetiva e eficaz, durante 24 horas por dia, além de um bônus salarial visando cobrir ou minimizar os custos de operacionalidade o que, incentiva e estimula tal modalidade de trabalho.

Isto sim, é respeitar o trabalhador e o seu íntimo ambiente residencial. Este sim, é o método que busca acrescentar ganhos pessoais, materiais e espirituais àqueles que asseguram os polpudos bônus financeiros aos sócios e acionistas ou os magníficos salários dos líderes, chefes e administradores. Aqui, sim, justifica que cada trabalhador ou trabalhadora lute com afinco para conseguir este que é um verdadeiro privilégio, totalmente oposto ao que tem sido oferecido aos trabalhadores brasileiros, principalmente, os de alguns setores públicos, cujos chefes e administradores acreditam, ou fingem acreditar, estarem na vanguarda do processo evolutivo do trabalho.

Penso ser chegado o momento de, mais do que direitos codificados, os trabalhadores buscarem formas de trabalho mais humanas e mais humanizadas, de modo que passem a ganhar algo que vale muito mais do que o dinheiro: o verdadeiro bem estar para a vida, com valorização e resguardo aos principais direitos da pessoa, onde quem comanda saiba respeitar o ambiente íntimo e pessoal daquele que lhe assegura os enormes ganhos e, por fim, a própria riqueza.

Caso contrário, o filme do velho-jovem Chaplin continuará a representar uma realidade que teima em não sair de cena. Uma realidade que tem transformado os nossos trabalhadores, ao longo do tempo, em bonecos robotizados, viciados na repetição de atos, de gestos e de comandos, que permanecem ativados e atuantes, mesmo fora do ambiente do trabalho, nas conversas de finais de semana com amigos e familiares, naquele papo que ninguém aguenta mais, mas que todos ouvem até por piedade daquele que se sente um importante dente da engrenagem produtiva na qual está inserido, pois todos percebem o prejuízo mental de que são portadores tais indivíduos. Reflita e, ainda que não concorde, veja se conhece realidade diferente e melhor. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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