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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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abr 05

COMENTÁRIO AO EVANGELHO: PADR JOSEÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

DOMINGO DE RAMOS – HOSANA AO FILHO DE DAVI –

*Mons. José Maria Pereira –

Com a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a Igreja abre a Semana Santa.

No Evangelho (Mt 27, 11 – 54) vemos que o cortejo organizou-se rapidamente. Jesus faz a sua entrada em Jerusalém, como Messias, montado num burrinho, conforme havia sido profetizado muitos séculos antes (Zac. 9,9). Jesus aceita a homenagem, e quando os fariseus, que também conheciam as profecias, tentaram sufocar aquelas manifestações de fé e alegria, o Senhor disse-lhes: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19, 40).

Assim, a nossa procissão de hoje quer ser imagem de algo mais profundo, imagem do fato que nos encaminhamos em peregrinação, juntamente com Jesus, pelo caminho alto que leva ao Deus vivo. É desta subida que se trata: tal é o caminho, a que Jesus nos convida. Mas, nesta subida, como podemos andar no mesmo passo que Ele? Porventura não ultrapassa as nossas forças? Sim, está acima das nossas próprias possibilidades. Desde sempre – e hoje ainda mais – os homens nutriram o desejo de “ser como Deus”; de alcançar, eles mesmos, a altura de Deus. Em todas as invenções do espírito humano, em última análise, procura-se conseguir asas para poder elevar-se à altura do Ser divino, para se tornar independentes, totalmente livres, como o é Deus. A humanidade pôde realizar tantas coisas: somos capazes de voar; podemos ver-nos uns aos outros, ouvir e falar entre nós dum extremo do mundo para o outro. E, todavia, a força de gravidade que nos puxa para baixo é poderosa. A par das nossas capacidades, não cresceu apenas o bem; cresceram também as possibilidades do mal, que se levantam como tempestades ameaçadoras sobre a História. E perduram também os nossos limites: basta pensar nas catástrofes, pandemia que, nestes meses, afligiram e continuam a afligir a humanidade.

Os Padres disseram que o homem está colocado no ponto de interseção de dois campos de gravidade. Temos, por um lado, a força de gravidade que puxa para baixo: para o egoísmo, para a mentira e para o mal; a gravidade que nos rebaixa e afasta da altura de Deus. Por outro lado, há a força de gravidade do amor de Deus: sabermo-nos amados por Deus e a resposta do nosso amor puxam-nos para o alto. O homem encontra-se no meio desta dupla força de gravidade, e tudo depende de conseguir livrar-se do campo de gravidade do mal e ficar livre para se deixar atrair totalmente pela força de gravidade de Deus, que nos torna verdadeiros, nos eleva, nos dá a verdadeira liberdade.

Nossa celebração inicia-se com o Hosana! E culmina no crucifica-o! Mas este não é um contrassenso; é, antes, o coração do mistério. O mistério que se quer proclamar é este: Jesus se entregou voluntariamente a sua Paixão; não se sentiu esmagado por forças maiores do que Ele (Ninguém me tira a vida, mas eu a dou livremente: Jo 10,18); foi Ele que, perscrutando a vontade do Pai, compreendeu que havia chegado a hora e a acolheu com a obediência livre do filho e com infinito amor para os homens: “… sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Hoje Jesus quer também entrar triunfante na vida dos homens, sobre uma montaria humilde: quer que demos testemunho d’Ele com a simplicidade do nosso trabalho bem feito, com a nossa alegria, com a nossa serenidade, com a nossa sincera preocupação pelos outros. Quer fazer-se presente em nós através das circunstâncias do viver humano.

Naquele cortejo triunfal, quando Jesus vê a cidade de Jerusalém, chora! Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como estes, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos depois a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo.

O Concílio Vaticano II, GS, nº 22, diz: De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem, fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós em tudo menos no pecado. Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida derramando livremente o seu sangue, e n’Ele o próprio Deus nos reconciliou consigo e entre nós mesmos e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado, e assim cada um de nós pode dizer com o Apóstolo: “Ele me amou e se entregou por mim (Gal. 2, 20)”.

A história de cada homem é a história da contínua solicitude de Deus para com ele. Cada homem é objeto da predileção do Senhor. Jesus tentou tudo com Jerusalém, e a cidade não quis abrir as portas à misericórdia. É o profundo mistério da liberdade humana, que tem a triste possibilidade de rejeitar a graça divina.

Como é que estamos correspondendo às inúmeras instâncias do Espírito Santo para que sejamos santos no meio das nossas tarefas, no nosso ambiente? Quantas vezes em cada dia dizemos sim a Deus e não ao egoísmo à preguiça, a tudo o que significa falta de amor, mesmo em pormenores insignificantes?

A entrada triunfal de Jesus foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, cinco dias mais tarde, num grito furioso: Crucifica-o! Por que foi tão brusca a mudança, por que tanta inconsistência?

São Bernardo comenta: “Como eram diferentes umas vozes e outras! Fora, fora, crucifica-o e bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas! Como são diferentes as vozes que agora o aclamam Rei de Israel e dentro de poucos dias dirão: Não temos outro rei além de César! Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobres elas.”

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém pede-nos coerência e perseverança, aprofundamento da nossa fidelidade, para que os nossos propósitos não sejam luz que brilha momentaneamente e logo se apaga. Muito dentro do nosso coração, há profundos contrastes: somos capazes do melhor e do pior. Se queremos ter em nós a vida divina, triunfar com Cristo, temos de ser constantes e matar pela penitência o que nos afasta de Deus e nos impede de acompanhar o Senhor até a Cruz.

A Igreja nos lembra que a entrada triunfal vai perpassar todos os passos da Paixão de Cristo. Terminada a procissão mergulha-se no mistério da Paixão de Jesus Cristo: Em Is 50 4-7 descreve o Servo sofredor, na esperança da vitória final. Vemos nele a própria pessoa de Jesus Cristo. Em Fl 2,6-11 temos a chave principal de todo o mistério deste Domingo de Ramos: Jesus humilhou-se e por isso Deus o exaltou!

No texto de Mt 27, 11 – 54, somos chamados a contemplar a PAIXÃO e a MORTE de Jesus. Que durante a Semana Santa possamos tirar muitos frutos da meditação da Paixão de Cristo. Que em primeiro lugar tenhamos aversão ao pecado; possamos avivar o nosso amor e afastar a tibieza!

Judas, Pedro, os discípulos negaram o Mestre! Porém, o Senhor não desiste de nós! Em tudo Deus é mais forte! Deus nos convida a nos unir a Ele neste caminho rumo a Jerusalém, ainda que parte nossa contenha um pouco de Judas, um pouco de Pedro e muito das sonolências dos discípulos. Cristo nos leva assim mesmo a Jerusalém, na certeza de que Ele é fiel, constante e “não dorme nem cochila”.

Estejamos dispostos a seguir com o Senhor a Jerusalém e morrer cada dia com Ele para que seu amor seja tudo em todos!

Toda nossa vida é, em certo sentido, uma “semana santa” se a vivemos com coragem e fé, na espera do “oitavo dia” que é o grande Domingo do repouso e da glória eterna.

Neste tempo, Jesus nos repete o convite que dirigiu a seus discípulos no Horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).

Aproveitemos esta Semana Santa para meditarmos nos exemplos preciosos deixados por Jesus e levemos seus vários ensinamentos para a nossa vida.

Maria também está em Jerusalém, perto do seu Filho, para celebrar a Páscoa: a última Páscoa judaica e a primeira Páscoa em que o seu Filho é o Sacerdote e a Vítima. Não nos separemos dEla. Nossa Senhora ensinar-nos-á a ser constantes, a lutar até o pormenor, a crescer continuamente no amor por Jesus. Permaneçamos a seu lado para contemplar com Ela a Paixão, a Morte e a Ressurreição do seu Filho. Não encontraremos lugar mais privilegiado!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

abr 05

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DE RAMOS – ELE ERA MESMO FILHO DE DEUS –

*Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar como ele em sua glória”.

1. LEITURA: Is 50,4-7

Não desviei o meu rosto das bofetadas e cusparadas.

Sei que não serei humilhado.

O texto de hoje traz as palavras do 3º Cântico do Servo Sofredor. É uma figura profética que está entre os judeus exilados na Babilônia. Ele está convencido de ter recebido uma missão da parte de Deus para levar uma mensagem de conforto para os exilados desanimados. O Servo apresenta-se como um discípulo obediente, atento a cada manhã para receber a mensagem divina que deverá transmitir. Mas, para cumprir esta missão enfrentará o desprezo e o sofrimento.

Embora ameaçado de morte pelos adversários, Jesus entra resolutamente em Jerusalém para cumprir sua missão até o fim. Confiando no auxílio divino, Jesus não se deixou abater, mas foi fiel até a morte de cruz; por isso foi glorificado por Deus, que o tornou “Senhor” (2ª leitura).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 21

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

2. SEGUNDA LEITURA: Fl 2,8-9

Humilhou-se a si mesmo;

por isso, Deus o exaltou acima de tudo.

Jesus, Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder, mas esvaziou-se de si mesmo e assumiu a condição de servo. Apresentando-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), procurou socorrer os mais necessitados (Mt 27,42). Não se identificou-se com a classe dominante, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. O exemplo de Cristo tornou-se o caminho do cristão.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Salve, ó Cristo obediente! / Salve, amor onipotente,

que te entregou à cruz/ e te recebeu na luz!

3. EVANGELHO: Mt 26,14–27,66

“Ele era mesmo Filho de Deus”.

Jesus não é entregue à morte contra a sua vontade. Ele se entrega nos sinais do pão e do vinho, na doação livre de sua vida, de seu corpo e de seu sangue. Se quisesse pedir, o Pai lhe enviaria em socorro 12 legiões de anjos. Renuncia ao poder e à violência e se entrega humildemente nas mãos do Pai, para que se cumpram as Escrituras (26,53). É traído por Judas e negado por Pedro, que se arrepende. É condenado à morte pelo Sinédrio porque se apresenta como o Cristo e Filho de Deus. Judas entra em desespero e se enforca. Os sumos sacerdotes entregam Jesus a Pilatos, porque só ele podia condenar alguém à morte.

A acusação diante do governador romano é de caráter político, como se vê na pergunta de Pilatos: “Tu és o rei dos judeus”? Sob pressão da multidão, “sabendo que haviam entregue Jesus por inveja”, Pilatos propõe a escolha entre Barrabás e Jesus que chamam de Messias. O povo, instigado pelos sumos sacerdotes, escolhe Barrabás, preso por suas aspirações messiânicas de caráter político, e rejeita o próprio Messias, Servo do Senhor (27,21-22). – Destacam-se algumas afirmações próprias de Mateus: o sonho da mulher de Pilatos (27,19); Pilatos que lava as mãos, responsabilizando a multidão (27,24-25); o terremoto, a cortina do templo que se rasga, e a ressurreição dos mortos na hora da morte de Jesus (27,51b-53). Os judeus zombam de Jesus como Messias (26,68) e os soldados romanos como rei (27,27-31). Nas zombarias, dirigidas a Jesus na cruz aparece o motivo da destruição do Templo (26,60-62), usado como acusação contra Jesus no processo do Sinédrio; os chefes religiosos lembram a ação salvadora de Jesus, mas agora incapaz de salvar-se a si mesmo; a confiança de Jesus em Deus, que agora abandona seu Filho; a confissão do centurião romano que diz: “Ele era mesmo Filho de Deus”. Por fim, os guardas que os sumos sacerdotes colocam como vigias junto ao túmulo, para que o corpo de Jesus não fosse roubado pelosa discípulos.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 31

A PALAVRA DO PSICÓLOGO

DANIEL FRANÇA - 2

ISOLAMENTO SOCIAL NÃO É ISOLAMENTO EMOCIONAL

*Por Daniel C. França –

Em tempos de Coronavírus precisamos desenvolver a inteligência emocional, pois o tempo todo somos bombardeados por muitas informações e muitas delas fake news, então, informe-se nem que seja duas vezes por dia; seja seletivo e busque por sites e emissoras confiáveis. Precisamos gerenciar o que recebemos de informação e o que reforçamos de pensamentos.

A recomendação dos órgãos de saúde é que higienizemos bem as mãos e não as levemos aos olhos, boca e nariz e que participemos do isolamento social proposto pelas autoridades sanitárias. Isso não significa isolamento emocional. Usemos as redes sociais para nos comunicar com os nossos familiares e amigos. Não deixemos que o isolamento social crie o isolamento emocional.

Aproveitemos este tempo para fazer uma leitura, um curso, arrumar as suas coisas, assistir um filme ou série, executar atividades relaxantes ou alguma outra atividade que você não tinha tempo de fazer pela correria da vida. Desacelere!

Neste momento de pandemia, medo, ansiedade, não negligencie a sua saúde emocional. Pois ela tornará mais forte o seu sistema imunológico. A sua emoção saudável é essencial para vencermos está guerra. Faça psicoterapia!

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* Daniel C. de França é Psicólogo Clínico (CRP 05/57727),  palestrante e Pós-graduando em Neuropsicologia. Administra o site https://psicologodanielfra.wixsite.com/website/post/isolamento-social-não-é-isolamento-emocional. Disponibiliza contatos por meio de chat, no próprio site, pelo Whatsapp (21) 97310-3380 ou pelo email psicologodanielfranca@gmail.com

mar 29

DO ISOLAMENTO SOCIAL AO CONVÍVIO FAMILIAR: UM DESAFIO A SER VENCIDO

VIDA EM FAMÍLIA

MOMENTO DE GRANDES DESAFIOS –

*Por L. A. de Moura –

Hoje seria um dia como outro qualquer, não fosse o drama que está sendo vivido por toda a humanidade, envolvendo uma espécie de “peste” dos tempos pós-modernos, o “novo” coronavírus. Trata-se de uma pandemia, assim declarada pela Organização Mundial de Saúde que, não encontrando outra atitude a ser tomada, escancarou a verdade para todo o Planeta.

Pois bem! Para uns, o momento é de assombro, medo e precaução; para outros, de reflexão e de oração; para outros, ainda, é um momento de oportunismos e discursos que nada contribuem para escorar a fúria da calamidade sanitária.

O fato que parece ser bem real é que, talvez, pela primeira vez em muitas décadas, as pessoas estão sendo obrigadas, por todas as formas e meios, a estarem mais próximas de suas origens – família e lar – para fugirem do risco de morte em decorrência do mal que assola o mundo.

Também esta realidade está cercada de detalhes, dentre os quais, um chama especialmente a nossa atenção: o convívio com a família e com o lar. Conviver com a família, e no lar, tornou-se, para nós, humanos e modernos, um enorme desafio, porque estávamos totalmente desacostumados com esta convivência diuturna. Passamos muitos anos, para não dizer quase a vida toda, envolvidos com a vida social – trabalho, estudo e atividades comunitárias – no meio da qual sempre declaramos estar em família. Isto sem falarmos nos grupos de amigos e mais próximos, selecionados a dedo, entre os quais nosso convívio chega a ser mágico e realizador, tamanho o conforto com que caminhamos ao lado de todos os membros.

Na verdade, esta “família social” é muito mais numerosa do que a nossa família de berço; muito mais extensa e, ao mesmo tempo, muito menos complexa, dada a facilidade com que nos movemos em seu interior, diferentemente da família natal, na qual nossa mobilidade é infinitamente menor e onde os desafios, em diversas ocasiões, impõem-nos limites intransponíveis, graças à ascendência sanguínea de alguns de seus membros em relação a cada um de nós, bem como ao cuidado que devemos dedicar, especialmente, às palavras, gestos e hábitos  por nós manifestados e demonstrados.

Então, o que sobra da nossa vida em tempos ditos normais?  Em tempos absolutamente normais, sem as restrições às quais estamos, por ora, submetidos, sobra muito espaço e muitas emoções (alegrias, dissabores, vitórias, fracassos, parcerias, profundas amizades etc.) no seio da “família social” e, infelizmente, uma convivência cercada de mimos, de cuidados e de melindres no entorno da família de berço, no seio da qual palavras, opiniões e gestos devem ser muito bem pensados, medidos e calculados, para não gerarem conflitos, muitas vezes, insolúveis e divisórios.

Ora, neste momento, no qual fomos, literalmente, mandados pra casa, em total isolamento e em abstinência do convívio com a “família social”, estamos tendo, digamos, a oportunidade de refazer um caminho com o qual muitos de nós nunca esteve, verdadeiramente, familiarizado: o caminho da união com a minoria. Uma minoria qualificada é verdade, no interior da qual nada se assemelha à maioria com a qual estamos acostumados. Uma minoria que, normalmente, não aceita ser abduzida por conversas moles; não aceita ser direcionada por meio de teorias científicas ou doutrinárias, mas que preza pela força da antiguidade de vida. Uma minoria, enfim, na qual os irmãos mais velhos unem-se aos pais e aos avós, ou ao que deles sobrou, para ditar os caminhos diários no entorno do lar,  e para rejeitar todas as ciências, conhecimentos e experiências trazidos por nós, do gigantesco mundo social no qual fomos iniciados ainda nos primeiros anos de vida e no meio do qual transitamos com a desenvoltura de verdadeiros craques da bola.

Muitos, é verdade, poderão recorrer aos meios virtuais, para tentar manter suas saudosas relações sociais. Mas, convenhamos, não é a mesma coisa. Não surte o mesmo efeito que o tilintar de um caneco de chope e um bolinho de bacalhau depois de um dia extenuante de trabalho. Não causa a mesma sensação de uma sinuquinha, só de farra entre amigos, para desanuviar o clima tenso das responsabilidades profissionais, no final de tarde de uma sexta-feira, para fechar a semana com chave de ouro.

Trata-se, a meu ver, de um enorme desafio a ser enfrentado por todos nós que, de repente, fomos obrigados pelas circunstâncias a, como diríamos, voltar pra casa, como que refugiados de um mundo no qual o risco à vida mostra-se mais iminente do que qualquer outra promessa de um futuro alegre, feliz e capaz de satisfazer nossos caprichos.

Um desafio que, uma vez vencido, trará para toda a humanidade, um jeito mais simples de viver, haja vista que, nossos berços são muito mais humildes e jeitosos do que os da sociedade ativa, compulsiva e eletrizante. Vencido este desafio e, obviamente, superada a pandemia, talvez, muitos de nós, quiçá a maioria, conseguirá perceber a necessidade de aninhar-se no meio dos seus consanguíneos, origem de todos nós, deixando a “família social” em segundo plano, vista, apenas, como uma entidade de valor, e de valores, absolutamente mensurável, ao passo que a primeira, a família de berço, possui valores imensuráveis e produz resultados cujos efeitos podem ser sentidos por muitas e muitas gerações.

Não se pretende, aqui, buscar ter ou não ter razão. O que se pretende, neste momento no qual estamos todos, em maior ou em menor grau, propensos a muitas reflexões, é justamente incentivar a mais esta, da qual, talvez, possamos sair verdadeiramente mais eretos, mais sábios e muito mais felizes. Reflita, e tire suas próprias conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e cultor do silêncio.

mar 29

COMENTÁRIO AO EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

V DOMINGO DA QUARESMA – JESUS E A MORTE –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No evangelho (Jo 11, 1-45) Jesus se apresenta como o SENHOR DA VIDA. A doença e a morte do amigo Lázaro constituem ótima oportunidade para uma profissão de fé em Jesus Cristo, que se apresenta como a Ressurreição e a Vida. Entre as ressurreições operadas por Cristo, a de Lázaro tem uma importância fundamental, pois se trata de um morto que está no sepulcro há quatro dias. A resposta dada por Jesus àqueles que Lhe anunciam a doença de Lázaro: “Essa doença não leva à morte; é antes para a glória de Deus” (Jo 11,4): A glória de que fala Cristo, diz Santo Agostinho, “não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte.”

É encantador o diálogo entre Jesus e Marta: “Disse Marta a Jesus: Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas, mesmo assim eu sei que o que pedires a Deus, Ele te concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. Eu sei, disse Marta, que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia! Disse-lhe Jesus: Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais! Crês isto? Disse ela: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (Jo 11, 21-27). Segundo Santo Agostinho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…) Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos.” “Eu sou a Ressurreição e a Vida …” (Jo 11, 25).

Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo! É a Ressurreição porque com a Sua Vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (1 Cor 15,23; Col. 1,18).

Por isso, para quem tem fé a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia dos defuntos: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos Céus, um corpo imperecível.” “ E Jesus chorou” (Jo 11, 35). Podemos contemplar a profundidade e delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal do amigo arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? Disse Santo Agostinho: “ Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo senão para ensinar o homem a chorar?” Choremos nós também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Senhor, que chora por nós, pecadores. Disse São Josemaria Escrivá: “Jesus é teu amigo.   – O Amigo. – Com coração de carne, como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… E, tanto como a Lázaro, te ama a Ti” (Caminho, nº 422).  “Meu Deus, eu Te amo, mas… ensina – me a amar!” (Caminho, 423).

A Jesus que diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá” ( Jo 11, 25-26 ). Eis a verdadeira novidade, que prorrompe e supera qualquer barreira! Cristo abate o muro da morte, n’Ele habita toda a plenitude de Deus, que é Vida, Vida eterna. Por isso, a morte não teve poder sobre Ele; e a ressurreição de Lázaro é sinal do seu domínio pleno sobre a morte física, que diante de Deus é como um sono (Jo 11,11). Mas há outra morte, que custou a Cristo a luta mais dura, inclusive o preço da Cruz: é a morte espiritual, o pecado, que ameaça arruinar a existência de cada homem.

Para vencer esta morte, Cristo morreu, e a sua Ressurreição não é o regresso à vida precedente, mas a abertura de uma Realidade nova, uma “nova Terra”, finalmente reunida com o Céu de Deus. Por isso São Paulo escreve: “ Se o Espírito de Deus, que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos dará a vida também aos vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em vós” ( Rm 8,11 ).

Ao aproximar-se a Páscoa, o relato da ressurreição de Lázaro é uma exortação para que nos libertemos, cada vez mais, do pecado, confiando no poder vivificador de Cristo que quer tornar os homens participantes de Sua própria ressurreição. Santo Agostinho vê na ressurreição de Lázaro uma figura do Sacramento da Penitência (Confissão): como Lázaro do túmulo, “sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária.

E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desligares na terra, será desligado no céu”. Podemos aplicar esse fato à ressurreição espiritual da alma em pecado que recobre a graça. Deus quer a nossa salvação (1 Tm 2,4), portanto, jamais havemos de desanimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta: “Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: já fede, porque há quatro dias que está enterrado (Jo 11, 3-9), diz Marta a Jesus. “Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (Lázaro vem para fora!), voltarás à Vida” (Caminho, nº 719). Pela fé em Jesus Cristo, Vida e Ressurreição, resolve-se a questão mais fundamental do homem: a vida. Jesus nos garante: “ Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá. Que a Quaresma nos ajude na conversão ruma à Páscoa! Como discípulos missionários ajudemos os muitos Lázaros que estão no sepulcro, esperando por quem grite: “Lázaro, vem para fora!”.

Na realidade, esta página do Evangelho mostra Jesus como verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Em primeiro lugar, o evangelista João insiste sobre a sua amizade com Lázaro e com as irmãs Maria e Marta. Ele ressalta o fato de que “Jesus era muito amigo” deles ( Jo11, 5 ), e por isso quis realizar o grande prodígio. “O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou acordá-lo” ( Jo11,11 ) – assim disse aos discípulos, expressando com a metáfora do sono o ponto de vista de Deus sobre a morte física: Deus vê-a precisamente como um sono, do qual nos pode despertar. Jesus demonstrou um poder absoluto em relação a esta morte: vê-se isto, quando restitui a vida ao filho da viúva de Nain ( Lc 7, 11-17 ) e à menina de doze anos ( Mc 5, 35-43 ). Precisamente dela, disse: “A menina não morreu, ela dorme” ( Mc 5, 39 ), atraindo sobre si o escárnio dos presentes. Mas, na verdade é exatamente assim: a morte do corpo é um sono do qual Deus pode acordar-nos em qualquer momento.

Este senhorio sobre a morte não impediu que Jesus sentisse compaixão pela dor da separação. Ao ver Marta e Maria chorando e quantos tinham vindo para as consolar, também Jesus “suspirou profundamente e comoveu-se” ( Jo 11, 33.35 ). O Coração de Cristo é divino-humano: nele, Deus e Homem encontraram-se perfeitamente, sem separação nem confusão. Ele é a imagem, aliás, a Encarnação do Deus que é amor, misericórdia e ternura paterna e materna, do Deus que é Vida. Por isso, declarou solenemente a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá para sempre” Depois, acrescentou: “Crês nisto?” ( Jo11, 25-26 ).

É uma pergunta que Jesus dirige a cada um de nós; uma interrogação que certamente supera, ultrapassa a nossa capacidade de compreender e exige que confiemos n’Ele, como Ele se confiou ao Pai. A resposta de Marta é exemplar: “Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo” (Jo 11, 27). Sim, ó Senhor! Também nós acreditamos, não obstante as nossas dúvidas e as nossas obscuridades; cremos em Ti, porque Tu tens palavras de vida eterna; desejamos acreditar em Ti, que nos infundes uma confiável esperança de vida para além da vida, de vida autêntica e repleta no teu Reino de luz e de paz.

Dirijamo-nos à Virgem Maria, que já participa desta Ressurreição, para que nos ajude a dizer com fé: “Sim, ó Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo11, 27), a descobrir verdadeiramente que Ele é a nossa salvação. Possa a sua intercessão revigorar a nossa fé e a nossa esperança em Jesus, especialmente nos momentos de maior provação e dificuldade.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

       

mar 27

UM TESTEMUNHO E UM LOUVOR

 LOUVOR E ADORAÇÃO

PALAVRA E TESTEMUNHO DE UM CRISTÃO, PARA TODOS NÓS, CRISTÃOS –

*Por Marcos Luz –

Agradeço nesta manhã ao Poderoso Deus porque, antes tarde do que nunca. Já na segunda metade da quaresma deste ano de 2020, caminhando em direção ao final deste tempo litúrgico, e aos 47 anos de vida, sinto que finalmente compreendi, não na mente, mas no coração, o sentido da quaresma.

O principal evento salvífico da humanidade é a cruz, e não a manjedoura, mas muitas vezes nos preparamos mais para o Natal do que para a Páscoa. Evitando cair no engano do sentido penitencial/meritório, comum a muitos católicos romanos e também protestantes, percebo agora o quanto abstinências e jejuns (em quaisquer tempos, mas mais especificamente neste) são auxiliares valiosos para clarificação das ideias, a fim de uma interiorização mais profunda do sentido das Sagradas Escrituras.

Tenho aproveitado bem este jejum social como oportunidade de ler, refletir, meditar e sentir a força da revelação de Nosso Senhor no meu coração. Oro para que todos vocês também saibam perceber e consigam aproveitar essa oportunidade maravilhosa que Deus está nos concedendo de viver o tempo da quaresma de forma especial neste 2020. Nos preparando individualmente para uma Páscoa ricamente abençoada. Maranata. Obrigado, Senhor Jesus. Amém!

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*Marcos Luz é estudante de Teologia, no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis e é membro da Igreja Batista de Itaipava (Petrópolis-RJ).

mar 22

COMENTANDO O EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

 IV DOMINGO DA QUARESMA – A CURA DE UM CEGO –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Celebrando o 4º Domingo da Quaresma, o Evangelho (Jo 9, 1-41) nos apresenta o tema da Luz. Os discípulos, segundo a mentalidade comum do tempo, dão por certo que a sua cegueira seja consequência de um pecado seu e dos seus pais. Ao contrário, Jesus rejeita este preconceito e afirma: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim, para se manifestarem as obras de Deus” (Jo 9, 3). Que conforto nos oferecem estas palavras! Elas fazem-nos ouvir a voz viva de Deus, que é Amor providente e sábio! Perante o homem marcado pelo limite do sofrimento, Jesus não pensa em eventuais culpas, mas na Vontade de Deus que criou o homem para a vida. E por isso declara solenemente: “É necessário que Eu faça as obras daquele que me enviou... Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo” (Jo 9, 4-5). E imediatamente passa à ação: com um pouco de terra e de saliva faz lama e com ela unge os olhos do cego. Este gesto faz alusão à criação do homem, que a Bíblia narra com o símbolo da terra plasmada e animada pelo sopro de Deus (Gn 2, 7). “Adão, de fato, significa “barro”, e o corpo humano é composto de elementos da terra. Curando o homem, Jesus realiza uma nova criação. Mas aquela cura suscita um debate animado, porque Jesus a realiza no sábado, transgredindo, segundo os fariseus, o preceito festivo. Assim, no final da narração, Jesus e o cego são “expulsos” pelos fariseus: um porque violou a lei e o outro porque, apesar da cura, permanece marcado como pecador desde o nascimento.

Jesus unge os olhos do cego de nascença com lama feita a partir da saliva. Jesus como que inicia com um rito. Toca os olhos do cego, concedendo-lhe a visão. E, aos poucos no diálogo com ele, vai- lhe despertando a fé. E o cego acaba vendo, à luz da fé, que Jesus é o Filho do Homem. Acaba dando testemunho dele.

A cura do cego descreve o processo da fé de um homem, que vai passando das trevas da cegueira, para a luz da visão, e desta para a Luz da fé em Cristo. O “Cego” é um símbolo de todos os homens que renascem pela fé, acolhendo Jesus (no Batismo) e deixando-se conduzir pela sua palavra.

A pergunta que o Senhor Jesus dirige àquele que tinha sido cego, constitui o ápice da narração: “Tu crês no Filho do Homem?” (Jo 9, 35). Aquele homem reconhece o sinal realizado por Jesus e passa da luz dos olhos para a luz da fé: “Creio, Senhor” (Jo 9, 38). Deve ser evidenciado como uma pessoa simples e sincera, de modo gradual, realiza um caminho de fé: num primeiro momento encontra Jesus como um “homem” entre os outros, depois considera-o um “profeta”, por fim os seus olhos abrem-se e O proclama “Senhor”. Em oposição à fé do cego curado está o endurecimento do coração dos fariseus que não querem aceitar o milagre, porque se recusam a acolher Jesus como o Messias.

Tudo começa por uma pergunta dos discípulos a Jesus: “Por que esse homem nasceu cego?” ”Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais ?” (Jo 9,2). Jesus responde: “Nem ele, nem seus pais pecaram…” (Jo 9,3). Com essa resposta Jesus lembra o que os profetas já combatiam que era uma crença popular antiga que pensavam que o cego estava pagando pelos seus pecados ou dos seus antepassados. Trata-se de uma crença errada, semelhante ao absurdo da reencarnação. Esta é uma crença espírita, não é cristã. A Palavra de Deus nos diz: “os homens morrem uma só vez, depois vem o juízo” (Hb 9,27). A reencarnação é uma injustiça! É negar a obra redentora de Cristo e afirmar que é o próprio homem que se salva, por etapa, cada vez mais que se reencarna. É a onda do reciclável, como lixo.

“Nem ele, nem seus pais pecaram…”. Com isso Jesus quer nos ensinar que os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no seu amor, se nos abandonarmos nas suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece. “Se Deus é por nós, quem será contra nós ?” Até na dor e no sofrimento Deus está presente.

O mundo hedonista, consumista e superficial não compreende isso! O cego é questionado pelas autoridades sobre a origem de Jesus. E ele mostra-se livre (diz o que pensa…); corajoso (não se intimida); sincero (não renuncia à verdade); suporta a violência ( é expulso da Sinagoga). Antes de se encontrar com Jesus, o cego é um homem prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. “Não sabe quem o curou…” Finalmente, encontrando-se com Jesus, que lhe pergunta: “Acreditas no Filho do Homem”, manifesta a sua adesão total: “Creio, Senhor”. Prostra-se e O adora. O caminho de fé do cego é um itinerário para todo cristão! São Josemaria Escrivá, em Amigos de Deus, nº 193, diz: “Que exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa. É assim que te comportas com as indicações que Deus te faz, quando muitas vezes estás cego, quando a luz se oculta por entre as preocupações da tua alma? Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem umedecidos? Teria sido mais adequado um colírio misterioso, um medicamento precioso preparado no laboratório de um sábio alquimista. Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena, e volta com os olhos cheios de claridade”. Nesta Quaresma, somos convidados a viver a experiência catecumenal, renovando o nosso Batismo, mediante o Sacramento da Penitência (Confissão).

A Quaresma é um tempo que nos convida a fazermos uma boa Confissão dos nossos pecados, pois eles são a causa da nossa cegueira espiritual. O pecado nubla e ofusca a nossa mente, mancha a nossa afetividade, debilita a nossa vontade. E assim adoecemos de cegueira espiritual, como este cego de nascença ( Evangelho ), que estava jogado fora do templo, pedindo esmola. Jesus exige que nos aproximemos dEle com fé que gritemos com confiança e que obedeçamos quando nos manda descer para banhar na piscina de Siloé da Confissão. Quanto mais buscamos Jesus como Luz, mais nossa vida terá sentido! O nosso comportamento de cristão deve ser testemunho do Batismo recebido; devemos testemunhar com as obras que Cristo é para nós, não apenas luz da mente, mas também luz da vida. Não são as obras das trevas – o pecado – as que correspondem a um batizado, mas sim as obras da luz.

Como o cego, após o encontro com Jesus, iluminado, manifestemos a alegria de sermos cristãos! “A alegria do discípulo não é um sentimento de bem estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é a nossa alegria” (DA, 29).

Finalmente, cada um de nós deve se aproximar de Cristo Luz, que quer iluminar a nossa vida, a nossa alma, os nossos projetos, as nossas empresas.

“Ó Deus, luz de todo o ser humano que vem a este mundo, iluminai nossos corações com o esplendor da vossa graça, para pensarmos sempre o que vos agrada e amar-vos de todo o coração.”

Ao cego curado, Jesus revela que veio ao mundo para fazer um juízo, para separar os cegos curáveis dos que não se deixam curar, porque presumem ser sadios. De fato, é forte no homem a tentação de construir para si um sistema de segurança ideológica: também a própria religião pode tornar-se elemento desse sistema, assim como o ateísmo, ou o laicismo, mas fazendo assim permanece-se cego pelo próprio egoísmo. Deixemo-nos curar por Jesus, que pode doar-nos a luz de Deus! Confessemos as nossas cegueiras, as nossas miopias, e, sobretudo, aquelas que a Bíblia chama a “grande falta” (cf. Sl 18,14): o orgulho. Ajude-nos nisto Maria Santíssima, que, gerando Cristo na carne, deu ao mundo a verdadeira Luz.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

mar 22

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DA QUARESMA – O SENHOR É O PASTOR, NÃO ME FALTA COISA ALGUMA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Davi é ungido rei de Israel.

Os relatos bíblicos falam de três unções de Davi como rei: é ungido pelos homens de Judá como rei da casa de Judá; é ungido pelas tribos como rei de Israel, em reconhecimento de suas qualidades de liderança político-militar. A terceira foi uma unção prévia, de caráter carismático, por iniciativa do profeta Samuel e por indicação divina. O critério desta última é a escolha por iniciativa exclusiva de Deus, pois “o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 9). Outro critério é que Deus escolhe alguém que sabia cuidar de ovelhas para ser o pastor e cuidar de seu povo Israel. Depois de Davi ter sido ungido por Samuel, “o espírito do Senhor se apoderou de Davi”, para salvar Israel dos inimigos que ameaçavam, para julgá-lo como juiz e para trazer-lhe segurança e paz. – A unção de Davi nos remete para ao batismo de Jesus por João Batista, quando foi ungido pelo Espírito do Senhor a fim de exercer sua missão de Messias, Servo Sofredor. Lembra também a nossa unção batismal.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz;

não me falta coisa alguma.

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 5,8-14

Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá.

A carta aos Efésios, atribuída a Paulo quando estava na prisão, foi provavelmente escrita por um discípulo na década de 90. Respira a teologia de Paulo, mas também a do Evangelho de João. O símbolo “luz x trevas” estão bem presente em João: “A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam” (Jo 1,5). No diálogo com Nicodemos Jesus diz: “A luz veio ao mundo e as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). Mais adiante (8,12) Jesus se apresenta como a luz do mundo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. A 2ª leitura é um texto batismal, caracterizada pelos símbolos “luz” (5 vezes) e “trevas” (2 vezes). Quem é batizado e segue a sua fé produz os frutos da luz: bondade, justiça, verdade. A luz da fé leva o cristão a “discernir o que agrada ao Senhor” – a prática do bem – e afastar-se das “obras das trevas”

A leitura conclui-se com um hino batismal: “Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”. Iluminado por Cristo pelo batismo, o cristão não pode ficar parado (Evangelho), mas se compromete a seguir a Jesus Cristo, luz do mundo. Como filho da luz (1Ts 5,5). Jesus expressa muito bem o que é ser iluminado por sua luz: “Vós sois a luz do mundo (...). Vossa luz deve brilhar diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,12-16). A maturidade da vida cristã se reflete nos frutos da luz: bondade, justiça, verdade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Louvor e honra a vós, Senhor Jesus.

Pois, eu sou a luz do mundo, quem nos diz é o Senhor;

E vai ter a luz da Vida quem se faz meu seguidor!

3. EVANGELHO: Jo 9,1.6-9.13-17.34-38

O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.

Lemos hoje apenas uma síntese do relato completo da cura do cego de nascença, que se compõe de seis cenas. Na síntese é omitida completamente a cena dos pais que são interpelados pelos fariseus e confirmam que o cego curado é o filho deles e que nasceu cego. Nos interrogatórios os fariseus (cegos) lutam contra as evidências. No texto mais longo, quatro vezes se afirma que se tratava de um cego de nascença; onze vezes é constatada a cura e três vezes se repete a frase descritiva da cura: “Fui, lavei-me e estou vendo”. O cego não só recobrou a vista, mas se lhe abriram os olhos da fé em Jesus, como Salvador e “Luz do mundo” (v. 5). Os olhos do cego vão se abrindo aos poucos para a fé. Primeiro ele diz: “aquele homem que se chama Jesus” (v. 11); depois, que Jesus é um profeta (v. 17); em seguida, que é o Cristo (v. 22), é um homem de Deus (v. 33), é o Filho do homem (v. 35) e, finalmente, que é o Senhor (v. 38). Enquanto o cego se abre cada vez mais à fé em Cristo, os fariseus se fecham sempre mais em sua cegueira. De juízes que se consideram (“Este homem não pode ser de Deus porque não observa o sábado”), acabam sendo julgados pelo cego, que é expulso da sinagoga. Jesus só aparece no início, quando cura o cego, e no fim, quando o cego é expulso da sinagoga. Então, Jesus conversa com ele, e o cego confessa sua fé e diz: “Eu creio, Senhor!” – e o adora. É admitido, portanto, à comunhão com Cristo. – A cura do cego tornou-se no decorrer do tempo uma parábola da iluminação batismal e da admissão na comunidade eclesial. A fé começa com o primeiro encontro com Jesus, cresce com o testemunho do cego e chega à plenitude com o novo encontro com Jesus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 15

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

III DOMINGO DA QUARESMA – JESUS E A MULHER –

*Por Mons. José Maria Pereira –

A Quaresma é para nós um tempo forte de conversão e renovação em preparação à PÁSCOA.

Nos textos bíblicos deste terceiro Domingo da Quaresma, encontram-se úteis motivos de meditação muito indicados para esta renovação espiritual. Através do símbolo da água, que encontramos na primeira leitura (Ex 17, 3-7) e no trecho evangélico  da Samaritana (Jo 4, 5 – 42), a Palavra de Deus transmite-nos uma mensagem sempre viva e atual: Deus tem sede da nossa fé e quer que encontremos n’Ele a fonte da nossa autêntica felicidade. O risco de cada crente é o de praticar uma religiosidade não autêntica, de não procurar em Deus a resposta às expectativas mais íntimas do coração, aliás, de usar Deus como se estivesse ao serviço dos nossos desejos e projetos.

Vemos no trecho bíblico de Ex 17, 3-7 o povo hebreu que sofre no deserto por falta de água e, tomado pelo desencorajamento, como noutras circunstâncias, se lamenta e reage de modo violento. Chega a revoltar-se contra Moisés, chega quase a revoltar-se contra Deus. Narra o autor sagrado: “Provocaram o Senhor, dizendo: ‘O Senhor está ou não no meio de nós’?” (Ex 17, 7). O povo exige que Deus venha ao encontro das próprias expectativas e exigências, em vez de se abandonar confiante nas suas mãos, e na prova perde a confiança n’Ele. Quantas vezes isto acontece também na nossa vida; em quantas circunstâncias, em vez de nos conformarmos docilmente com a Vontade divina, gostaríamos que Deus realizasse os nossos desígnios e satisfizesse todas as nossas expectativas! Em quantas ocasiões a nossa fé se manifesta frágil, a nossa confiança fraca, a nossa religiosidade contaminada por elementos mágicos e meramente terrenos! Neste tempo quaresmal, enquanto a Igreja nos convida a percorrer um itinerário de verdadeira conversão, acolhamos com humilde docilidade a admoestação do Salmo 94(95): ”Não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras”. O Simbolismo da água volta com grande eloquência na célebre página evangélica que narra o encontro de Jesus com a Samaritana em Sicar, junto do poço de Jacó.

Em Rm 5, 1-2. 5-8, São Paulo faz uma releitura significativa: A rocha é Cristo. Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito como rio de água viva. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

No Evangelho (Jo 4, 5-42), Jesus pede e oferece ÁGUA à Samaritana. A sede de Cristo é uma porta de acesso ao Mistério de Deus, que se fez sedento para nos aplacar a sede, assim como se fez pobre para nos enriquecer (cf. 2Cor 8, 9). Sim, Deus tem sede da nossa fé e do nosso amor. Como um pai bom e misericordioso deseja para nós todo o bem possível e esse bem é Ele mesmo. A mulher de Samaria por sua vez representa a insatisfação existencial de quem não encontrou o que procura: teve “cinco maridos” e agora convive com outro homem; o seu ir e voltar do poço para buscar água exprime uma vivência repetitiva e resignada. No entanto, tudo mudou para ela naquele dia, graças ao encontro com o Senhor Jesus, que a deixou abalada a ponto de abandonar o cântaro de água e correr para contar às pessoas da aldeia: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo?” (Jo 28 – 29).

O Evangelho da Samaritana é encantador! A fina psicologia de Jesus manifesta-se a cada passo. Jesus, cansado da caminhada, sentou-se junto ao poço. Quando se aproximava a mulher, Jesus lhe pede: “Dá-me de beber”. E estabelece-se o diálogo. Jesus apresenta-se como água viva. Quem beber dessa água nunca mais terá sede. É a água que jorra para a vida eterna. Quando a mulher lhe pede dessa água, para que não mais precise buscá-la no poço, Jesus penetra mais fundo na alma dessa mulher: “Vai, chama o teu marido e volta aqui”. Ela, por sua vez, responde que não tem marido. A mulher faz um ato de fé: ”Vejo que és profeta”. Aqui está já o começo de sua conversão.

Jesus a valoriza, louvando sua sinceridade, e a partir dessa sua fé incipiente, revela-lhe que é o Messias. E a Samaritana abandona o “Velho balde” e corre para a cidade, para anunciar ao povo a verdade que tinha encontrado.

Essa mulher desprezada, após escutar Jesus como Discípula, torna-se MISSIONÁRIA de Cristo, antes mesmo dos apóstolos…

Jesus veio para salvar o que estava perdido! Não poupará nenhum esforço para o conseguir. Eram proverbiais os ódios entre Judeus e Samaritanos; contudo, Jesus Cristo não exclui ninguém, mas o Seu amor estende-se a todas as almas, e por todas e cada uma vai derramar o Seu sangue.

Jesus inicia o diálogo com essa mulher samaritana mediante um pedido: “Dá-me de beber”: Jesus pede de beber não só pela sede física, mas porque tinha sede da salvação dos homens, por amor a eles. Estando cravado na Cruz voltou a dizer: “Tenho sede” (Jo 19,28).

No poço de Jacó se encontram duas “sedes”: a sede de Jesus e a sede da mulher samaritana. A mulher busca saciar a necessidade básica de água. Já Jesus, como dizia Santa Teresinha, “ao dizer tenho sede, era o amor que o Senhor requisitava, tinha sede de amor .” Esta sede, como o cansaço, tem uma base física. Mas Jesus, como diz Santo Agostinho, “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher”, assim como da fé de todos nós. A sede de Jesus sacia a sede da mulher.  Aos poucos, a samaritana desiste de sua busca imediata e passa a procurar uma água viva. Deus Pai enviou-O para saciar a nossa sede de vida eterna, concedendo-nos o seu amor, mas para nos oferecer esta dádiva, Jesus pede-nos a nossa fé. De fato, a um certo ponto, é a própria mulher que pede água a Jesus (cf. Jo 4, 15), manifestando assim que em cada pessoa há uma necessidade inata de Deus e da salvação que só Ele pode satisfazer. Uma sede de infinito que só pode ser saciada com a água que Jesus oferece, a água viva do Espírito. Ouviremos estas palavras no Prefácio da Missa: Jesus “pediu à mulher da Samaria água para beber, para lhe proporcionar o grande dom da fé, e desta fé teve uma sede tão ardente que acendeu nela a chama do amor de Deus”. Santo Agostinho aprofunda sua reflexão, dizendo: “Deus tem sede da nossa sede d’Ele, isto é, deseja ser desejado! Quanto mais o ser humano se afasta de Deus tanto mais Ele o segue com o seu amor misericordioso. A liturgia estimula-nos, hoje, tendo em consideração também o tempo quaresmal que estamos vivendo, a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.

Ensinava São Josemaria Escrivá: “Sempre que nos cansemos – no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica – sempre que no horizonte haja trevas, então é preciso olhar Cristo: Jesus bom, Jesus cansado, Jesus faminto e sedento. Como te fazes compreender bem, Senhor! Como te fazes amar! Mostras-te igual a nós em tudo, exceto no pecado, para que sintamos que contigo poderemos vencer as nossas más inclinações e as nossas culpas. Efetivamente, não têm importância o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas… Cristo cansou-Se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a luta – uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre ao nosso lado – para cumprir a vontade do Pai que está nos céus”

“Não nos enganemos. Nosso Senhor não depende nunca das nossas construções humanas. Para Ele, os projetos mais ambiciosos não passam de brincadeiras de crianças. Ele quer almas, quer amor. Quer que todos corram a usufruir do seu Reino, por toda a eternidade. Temos que trabalhar muito na terra, e temos que trabalhar bem, porque essas ocupações habituais são a matéria que devemos santificar. Mas nunca nos esqueçamos de as realizar por Deus ”  (Amigos de Deus, 201 e 202).

É profundo o diálogo de Jesus com a Samaritana. “Jesus pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o dom de Deus, diz Ele. O dom de Deus é o Espírito Santo. Que água lhe daria Ele, senão aquela da qual está escrito: em vós está a fonte da vida? (Sl 35, 10). Pois, como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada? (Sl 35, 9)

O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia e disse-Lhe: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Santo Agostinho). Também nós, já batizados, mas sempre a caminho para nos tornarmos verdadeiros cristãos, encontramos neste texto evangélico sobre a Samaritana um estímulo para redescobrir a importância e o sentido da nossa vida cristã, o verdadeiro desejo que vive em nós. Jesus quer levar-nos, como fez com a Samaritana, a professar a nossa fé n’Ele com força para que possamos depois anunciar e testemunhar aos nossos irmãos a alegria do encontro com Ele e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, reconhecido e acolhido como o Revelador definitivo e o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da Samaritana, a sua existência transforma-se e ela vai imediatamente sem hesitações comunicar a boa nova ao seu povo ( cf. Jo 4, 29 ).

A transformação que a graça opera na Samaritana é maravilhosa! O pensamento dessa mulher centra-se agora somente em Jesus e, esquecendo-se do motivo que a tinha levado ao poço, deixa o seu cântaro e dirige-se à aldeia para comunicar a sua descoberta! “Os Apóstolos, quando foram chamados, deixaram as redes, a Samaritana deixa o seu cântaro e anuncia o Evangelho, e não chama somente um, mas põe em alvoroço toda a cidade” (Hom. sobre São João, 33). Toda conversão autêntica projeta-se necessariamente para os outros, num desejo de os tornar participantes da alegria de se ter encontrado com Jesus.

Que a Caminhada quaresmal nos ajude a voltar ao POÇO, lugar de ENCONTRO.

Os homens continuam ainda hoje procurando um Poço, para saciar sua sede profunda de vida. Só Cristo mata definitivamente a sede de vida e felicidade do homem.

Como discípulos e missionários possamos, como a Samaritana, anunciar a todos o Cristo, nossa vida e felicidade…

Façamos nosso o pedido da Samaritana: “Senhor, dá-nos sempre dessa água!”

Cada um de nós pode identificar-se com a mulher samaritana: Jesus espera-nos, especialmente neste tempo de Quaresma, para falar ao nosso, ao meu coração. Permaneçamos um momento em silêncio, no nosso quarto, ou numa Igreja, ou num lugar afastado. Ouçamos a sua voz que nos diz: “Se conhecesses o dom de Deus...”. A Virgem Maria nos ajude a não faltar a este encontro, do qual depende a nossa verdadeira felicidade.

Abramos o coração à escuta confiante da Palavra de Deus para encontrar, como a Samaritana, Jesus que nos revela o seu amor e nos diz: o Messias, o teu Salvador “sou Eu, que falo contigo” ( Jo 4, 26 ). Que nos traga este dom Maria, primeira e perfeita discípula do Verbo feito carne.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

mar 15

UMA LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DA QUARESMA – UMA FONTE DE ÁGUA PARA A VIDA ETERNA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão de nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ex 17,3-7

O Senhor está no meio de nós ou não?

Moisés, em nome de Deus, apresenta o plano de libertação: Deixar de servir ao Faraó com trabalhos forçados, para servir somente ao Senhor, numa terra prometida aos antepassados. A primeira parte do plano foi concluída e o povo já não era mais escravo. Mas entre o Egito e a terra prometida havia um deserto; no Egito era abundante a água do rio Nilo e a terra irrigada era muito fértil. No deserto, só a penúria e escassez de água. Daí a revolta: O povo tenta a Deus, contesta a autoridade de Moisés e quase o apedreja. A reclamação – “Deus está, ou não está no meio de nós?” – mostra uma fé abalada no Deus libertador. Deus intervém e ordena que Moisés reassuma a liderança, tomando o seu bastão, símbolo do poder divino, bastão que estendeu para ferir o Egito (rio Nilo) e abrir um caminho no Mar Vermelho para o povo passar. Acompanhado pelos anciãos devia ir à frente do povo, bater na rocha perto do monte Horeb, na presença do Senhor. Moisés assim o fez e da rocha saiu água para matar a sede de todo o povo. Paulo diz que o povo bebeu uma água espiritual e que a rocha da qual saiu água era Cristo (1Cor 10,3-4). O símbolo da água nos remete para o tema quaresmal e pascal, o batismo. No Evangelho, Jesus se apresenta à Samaritana como a fonte de água viva.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 94

Hoje não fecheis o vosso coração,

mas ouvi a voz do Senhor!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 5,1-2.5-8

O amor foi derramado em nós

pelo Espírito que nos foi dado.

No trecho da Carta de Paulo aos Romanos, hoje lido, o Apóstolo nos fala das assim chamadas virtudes cardeais; elas são as mais importantes entre dons do Espírito: a fé, a esperança e a caridade/amor, dons que recebemos pelo batismo. Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo já exaltava a primazia do amor: “No presente permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor; mas a maior delas é o amor” (1Cor 13,13). Paulo lembra aos romanos que, por meio de Cristo, somos justificados pela graça da fé, confirmados pela esperança da glória e pelo dom do “amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”. Este dom nos foi dado por meio de Jesus Cristo, que “morreu por nós... quando éramos pecadores”, prova máxima do amor de Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Glória e louvor a vós, ó Cristo.

Na verdade, sois Senhor, o Salvador do mundo.

Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede!

3. EVANGELHO: Jo 4,5-42

Uma fonte de água viva que jorra para vida eterna.

O evangelho de hoje é a realização plena do que a primeira leitura prefigura. A água pedida pelos israelitas no deserto prefigura a água viva, dada por Jesus. Os hebreus pediam uma água que conheciam, mas não matava a sede. Jesus pede à Samaritana que lhe dê de beber da água do poço de Jacó (1ª leitura). A mulher estranha que Jesus (um judeu) lhe peça água, sendo ela uma Samaritana. Jesus responde que se o conhecesse ela mesma lhe pediria uma “água viva”, capaz de matar a sede para sempre. “E a água que eu lhe der – diz Jesus – se tornará nela uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana pede, então, a Jesus que lhe dê de beber desta “água viva” e recebe o dom de Deus, isto é, a fé no próprio Cristo Jesus. Torna-se ela mesma “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. De fato, ao final do diálogo, a Samaritana crê em Jesus e transforma-se em missionária do próprio povo: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo”? Jesus, que tinha sede, não bebe a água do poço de Jacó. Sua sede é dar a todos os que nele crêem a “água viva” (o Espírito Santo), a fim de que sejam para outros “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana, que buscava a água do poço de Jacó, recebe de Jesus a água viva que jorra para a vida eterna. Quando os discípulos insistiam que comesse alguma coisa Jesus responde: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (v. 34). – Como você busca saciar a sede de Deus em sua vida? A Samaritana missionária partilhou a “água viva” com seu povo. Você procura ser uma fonte da qual jorra a vida eterna para os outros?

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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