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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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abr 29

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – PARTE III (VD4)

PARAÍSO TERRESTRE - 2020ASSISTA O VÍDEO DESTE CONTEÚDO NO NOSSO CANAL NO YOUTUBE, CLICANDO EM: https://youtu.be/FCklto8ovV0

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – GÊNESIS 1, 3 –

PARTE III –

*Por L. A. de Moura – 

O tema de hoje envolve o Capítulo 3, do Livro do Gênesis. Mas, antes, vamos nos reportar ao Capítulo anterior (2) quando é narrado que, Deus “tinha plantado, desde o princípio, um paraíso de delícias, no qual pôs o homem que tinha formado” (Gn 2, 8). Neste jardim, conforme a narrativa, “Deus tinha produzido da terra toda a casta de árvores formosas à vista, e de frutos doces para comer”.

No centro deste jardim, no meio dele, a árvore da vida, e a árvore da ciência do bem e do mal, da qual o homem é proibido pelo Senhor, de comer do fruto, sob o aviso de que “no dia em que dela comeres certamente morrerás”.

Bem, conforme já havíamos falado desde o início, nosso intento não é fazer uma interpretação sistemática da Bíblia, mas, apenas, e, tão somente, abrir algumas brechas para facilitarem a sua compreensão acerca dos três tópicos que viemos falando desde o nosso primeiro contato, com ênfase, aqui, para a MENSAGEM a ser extraída do Capítulo sob comento.

Rapidamente, é preciso chamar a atenção do leitor e da leitora para o zelo de Deus, o cuidado, para com o ser humano que acabara de ser criado. A Palavra afirma que Deus “desde o princípio”, plantou um jardim de delícias, onde são colocados os nossos primeiros pais. Um Deus Criador e zeloso. Mas, também, exigente: proíbe que seja comido o fruto da árvore da ciência do bem e do mal.

O Capítulo 3 inicia traçando um “perfil” da serpente, onde é descrita como “o mais astuto de todos os animais” criados por Deus. Aqui merece destaque a simbologia e a mítica que a serpente representava no contexto dos povos pagãos, especialmente, da Mesopotâmia, da Pérsia e do Egito, como sendo uma figura “demoníaca”. No contexto do Gênesis, ela é apresentada como hostil, adversa a Deus e, por fim, revela-se altamente inimiga do ser humano.

Deus cria o ser humano, coloca-o em um “paraíso de delícias”, concede-lhe o domínio sobre todas as demais criaturas, permite-lhe que coma de todos os frutos ali produzidos, menos daquele da árvore do conhecimento do bem e do mal. Vemos, então, que, desde o princípio, o ser humano recebe do Criador todas as condições necessárias para uma existência plena, saudável e duradoura. No entanto, existem limites.

É justamente o limite imposto por Deus, que leva a serpente a mostrar ao ser humano, que não precisa ser respeitado. Aliás, que deve ser mesmo ultrapassado, a fim de que se torne como Deus, conhecedor do bem e do mal, capaz de decidir por si próprio os caminhos que quer tomar, escolhendo entre o bom e o mau.

Relativamente ao fruto daquela árvore, Deus afirma: “No dia em que dele comeres certamente morrerás”. A serpente declara justamente o oposto: “Certamente que não morrereis”. E, então, ela esclarece à mulher o motivo da proibição: “Deus sabe que, no dia em que dele (o fruto) comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Gn 3, 5).

Aqui nós podemos identificar um contraponto entre a ordem divina, que revela a consequência para a transgressão, e uma justificativa dada por quem se opõe frontalmente ao Criador. Como é fácil verificar, nossos primeiros pais cedem às palavras da serpente e desobedecem a ordem divina. Bem, este ato entrou para a história como “o pecado original” que, indubitavelmente, manchou toda a raça humana.

Deus, no entanto, e apesar de ter expulsado o ser humano do paraíso, o homem e a mulher, cuida de tecer túnicas de pele para vesti-los, não permitindo que saíssem absolutamente nus, rumo ao mundo exterior totalmente desconhecido por Adão e Eva. Este mundo exterior, no qual a mulher encontrará as dores do parto, os sofrimentos e a submissão ao marido, e o homem terá que trabalhar pesado para sustentar-se a si e aos seus, é, também, um mundo cheio de armadilhas, de perigos e, como se verá, de violência, de ambição, de ódio, de guerras e, fatalmente, de morte.

A desobediência a Deus, coisa que o mundo contemporâneo tanto relativiza, tem consequências gravíssimas. Assim como não foi no paraíso, não o é nos dias de hoje, caso de castigo divino, mas, simples consequência pelos atos praticados pelos seres humanos.

Apesar de tudo, Deus pune, sim, a serpente, pondo inimizade entre a linhagem dela (o descaminho, a mentira e a morte) e a linhagem da mulher, de onde, um dia, virá o Salvador (o caminho, a verdade e a vida). Hoje sabemos e temos consciência de que, só com o fato da Ressurreição de Jesus é que o ser humano retoma possibilidade de retorno ao paraíso. E aqui, aproveito para sugerir a leitura do Livro “Paraíso Terrestre – Saudade ou esperança?” do Frei Carlos Mesters, cuja leitura é ardentemente repleta de excelentes explicações.

Você, no entanto, pode estar se perguntando: Por que a proibição de Deus é restrita à árvore da ciência do bem e do mal, e não, à árvore da vida e, no final, Deus os expulsa do paraíso justamente para não comerem dela também?

Porque antes da transgressão da ordem divina o ser humano não conhecia a morte. Não estava condenado a ela. No entanto, após colocar-se, com o seu ato, passível de morte, poderia ser tentado, também, a comer do fruto da outra árvore. Por esta razão o Senhor, em aparente conversa com a Corte Celeste, declara: “Eis que o ser humano já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre” (Gn 3, 22).

De tudo o que pudemos ver neste Capítulo terceiro, parece ter ficado bastante claro que, em meio a toda uma simbologia descrita pelas figuras míticas  utilizadas, a MENSAGEM transmitida pelo autor sagrado é, acima de tudo, a do cuidado do Criador para com a sua Criatura, a do incentivo à obediência, a da evidência das consequências da transgressão aos mandamentos e ensinamentos de Deus, a da presença constante de Deus na nossa vida, apesar das nossas continuadas transgressões, sempre a nos consolar e nos “vestir” e revestir com tudo o que nos é essencial para a vida e, por fim, sempre a esperança. Uma esperança que caminha conosco até o última dia da nossa existência. Leia com atenção, se ainda não leu, o Capítulo 3 do Livro do Gênesis, reflita e prossiga no estudo da Palavra de Deus. Não é tão difícil quanto você imaginava. Em breve daremos prosseguimento, com a litura do Capítulo 4. Sugiro que leia atentamente. Seja feliz, e mantenha a fé!

PARAÍSO TERRESTRE __________________________________________________________

*L. A. de Moura é Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 25

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – PARTE II

A BÍBLIA COMO MENSAGEM

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CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – GÊNESIS 1, 1-2 –

PARTE II –

*Por L. A. de Moura – 

Inicialmente, é importante destacar que a composição de todo o Pentateuco – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – assim como grande parte do AT, decorre da narrativa de Tradições muito diferentes e distantes do tempo umas das outras. Dentre estas tradições, podemos destacar: a Javista, a Eloísta e a Sacerdotal. A primeira e a segunda são assim denominadas, por ser a forma como Deus era conhecido – Javé e/ou Eloim. A sacerdotal é uma tradição proveniente de toda uma linhagem de sacerdotes, normalmente de forma hereditária que, ao longo dos séculos, foi se consolidando na narrativa, por meio da escrituração, de fatos mais antigos.

Daí decorrem narrativas diferentes sobre um mesmo fato; vamos encontrar narrativas de um mesmo fato em Livros distintos e assim sucessivamente. Não devemos nos impressionar com estas diferenças, pois, conforme já destacamos, existe uma mensagem fundamental a ser transmitida. E é esta mensagem que interessa ao leitor médio da Bíblia. Leitor médio é aquele que lê para adquirir algum conhecimento e para fortalecer a fé, individual ou comunitária. Existem, é claro, os leitores estudiosos e pesquisadores da Bíblia que, necessariamente, vão aprofundando seus estudos da forma mais científica possível, até o ponto de debater o significado das palavras tanto na escrita original – hebraico ou aramaico – como no grego ou no latim.

O caso, porém, aqui, é apenas de aquisição de um conhecimento mediano, de modo a facilitar a familiarização com os textos e suas mais explícitas mensagens.

Dito isto, pensemos em Gn 1 e 2: Ao ler o capítulo 2, você certamente percebe que ele relata novamente, e com outros argumentos, toda a Criação dando, no entanto, maiores detalhes sobre a criação do homem e da mulher.

Bem, não se surpreenda ao saber que a primeira versão da Criação – Gn 1 – é posterior à segunda versão, descrita no Cap. 2. Pois aí mesmo vamos encontrar narrativas de duas Tradições diferentes: a primeira, é Sacerdotal. Esta tradição já detém alguns conhecimentos gregos sobre os astros e sobre o cosmos. Fala-se sobre uma divisão cósmica: céu e terra; fala-se sobre um abismo; sobre o firmamento; sobre o dia e a noite; sobre luzeiros e estrelas no firmamento; sobre os mares, com água em abundância. Depois, são criados animais, peixes, aves e, por fim, o primeiro casal: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”; “E criou-os varão e fêmea”.

Esta narrativa decorre da visão que os autores tinham acerca de toda a estrutura do mundo então conhecido já pelos gregos que, da terra, olhavam para o céu – firmamento – e observavam as estrelas e os dois grandes luzeiros – o Sol e a Lua. Além de observarem, também, a vida de todas as espécies sobre a terra. O contexto desta narrativa é o cenário no qual parte da humanidade, então conhecida, tinha os olhos voltados para o paganismo da Mesopotâmia, onde eram cultuados diversos deuses: prestavam culto ao deus Sol; à deusa Lua; ao deus dos mares; aos deuses e deusas da fertilidade etc. Os autores da Tradição Sacerdotal, portanto, inspirados por Deus, narram dentro de uma certa ordem e de uma lógica, a Criação de todas as coisas. Para estes autores, não se tratava de um deus Sol. O Sol é criação do Deus único; não existia deus da fertilidade: o Deus único criou o homem e a mulher e deu-lhes o poder de procriar etc. Todos os demais seres, independentemente de deuses próprios, foram criados por um único e mesmo Deus, Senhor da vida.

Percebem? A narrativa é escrita em um contexto no qual são combatidos os cultos aos deuses mesopotâmicos e, futuramente, babilônicos. É dirigida a um povo que ainda oscilava entre o Deus único e os deuses pagãos, em razão das reverenciadas maravilhas que realizavam. A mensagem é clara: revelar que tudo o que existe foi criado por um único e verdadeiro Deus. Então, de posse dos conhecimentos que detinham, os autores sagrados elaboram a narrativa do Gênesis, Cap. 1.

O texto do Gênesis, capítulo 2, é uma narrativa, cujos versículos de 1-4a, ou, como em alguma Bíblias, de 1-3, pode ser compreendida, também, como procedente da tradição sacerdotal. Residindo aí, talvez, a razão de o capítulo iniciar falando que “Assim foram acabados o céu e a terra, e todos os seus ornatos”, permitindo concluir que se trata de uma continuidade do capítulo 1. Parece haver aqui, neste inicio, uma mescla de tradições. O que, no momento, não é relevante para nós.

A partir do versículo 4b, ou simplesmente 4, a narrativa é mais antiga e provém da Tradição Javista. É uma tradição que, provavelmente, não se debruça sobre conhecimentos de outros povos, mas, atribui tudo a Javé, o Deus que conhecem e sobre o qual já ouviram muitas histórias.

Observe-se que, enquanto em Gn 1 existe verdadeira abundância de água, aqui, em Gn 2, não existe água. Apenas uma fonte que saía da terra. Toda a água necessária para dar vida às ervas e às árvores, provinha da chuva, da água caída do céu. Assim, afirma o autor do Gn 2: “o Senhor Deus não tinha (ainda) feito chover sobre a terra”.

Observe-se que, se em Gn 1 a narrativa afirma ter dito Deus “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, criando-os macho e fêmea, aqui, em Gn 2 o autor sagrado trata de esboçar um modelo de criação para o homem: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente”.

É narrada a criação de “um paraíso de delícias”, com todas as árvores frutíferas imagináveis, sendo duas especialmente identificadas pelo autor sagrado: a árvore da ciência do bem e do mal e a árvore da vida.

Esclarece, também, o autor sagrado que Deus formou da terra “todos os animais terrestres”, para apresentá-los ao primeiro homem, para ver se ele identificava algum que lhe pudesse servir de companhia.

Por último, então, não encontrado o homem nenhum animal que lhe pudesse servir de companhia, é narrado todo um procedimento para explicar como teria acontecido a criação da mulher. Vejam: em Gn 1, um autor sagrado portador de maiores conhecimentos, afirma, simplesmente, que Deus criou-os “varão e fêmea”, enquanto o autor mais antigo, mais primitivo, elabora todo um processo para tentar explicar a mensagem que queria transmitir.

No versículo 19, do cap. 2, o autor sagrado vai nos contar que Deus tira da terra, também, e não apenas o ser humano, mas os animais terrestres e todas as aves do céu para apresentá-los ao homem.

Ora, vejamos bem: Deus cria o homem e todos os animais e todas as aves. No entanto, apenas ao homem ele permite que escolha a sua companheira dentre todos os animais. Aqui, podemos verificar que Deus põe à prova a razão, o raciocínio com que dotara o homem. É óbvio que dentre todos os animais e dentre todas as aves, não havia qualquer um que se ajustasse ao homem, enquanto espécie. Mas, Deus queria ouvir isto da boca do próprio homem. E, então, ele afirma não ter encontrado nenhum animal que a ele se ajustasse. Deus, então, cria a mulher. Um ser da mesma espécie do homem: ambos são humanos.

Após estes pequenos comentários, o que podemos afirmar com segurança, é que Deus é o autor da vida. Tirar do barro da terra, pode ser uma imagem que nos diga que a matéria está aí, em todos os cantos, inclusive, na terra, e por excelência, mas, a vida não. A vida provém de Deus. Único que pode doá-la. E assim foi feito, desde o princípio.

Bem, como pode ser visto, tanto o capítulo 1, quanto o capítulo 2, são narrativas sobre um mesmo evento: a Criação de todas as coisas e de todos os seres por Deus.

Você verificou, pois, tratarem-se de narrativas diferentes, dirigidas ao povo de Deus, um povo mais antigo e outro bem mais moderno. Em contextos absolutamente distintos tendo, no entanto, uma única mensagem a ser transmitida: Deus é o autor da Criação. Todas as coisas, a partir do ponto comum VIDA, foram criadas por Deus.

Nada de deuses A, B, C ou D. Nada de cultos a deuses estranhos ou mesmo oferta de sacrifícios, porque, Deus é único.

Acredito que você, a partir desta pequena e humilde análise, tenha percebido o que ocorre em toda a Bíblia. Por trás de um enorme pano de fundo, existe uma MENSAGEM DIVINA. E é esta mensagem que os autores sagrados, sempre, querem passar para os seus leitores, da época e, por fim, de todas as épocas.

Ao ler a Bíblia você poderá compreender rapidamente as palavras sem, no entanto, compreender, com exatidão a mensagem transmitida. Aí é que entra a leitura permanente, o estudo sob a orientação de um Padre, de um Pastor bem formado, de um Teólogo ou de um biblista. Pessoas habilitadas a ajudarem você a uma melhor compreensão. Mas, no fundo, no fundo, é só o Espírito de Deus quem pode plantar no seu espírito e na sua alma a verdadeira compreensão de tudo o que está escrito. Reflita sobre tudo isto e, nunca se esqueça: sozinho(a) nesta tarefa, você não conseguirá vencer todos os desafios, porque são muito grandes e complexos. Porém, com persistência, paciência, boa vontade, constância e auxílio, você conseguirá. Seja feliz, e mantenha a fé!

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*L. A. de Moura é Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

abr 21

CONVERSANDO SOBRE A BÍBLIA – PARTE I

A BÍBLIA COMO MENSAGEM

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https://www.youtube.com/watch?v=ttGt7kLDsmw&t=1s

ESTRUTURA DA BÍBLIA E SEU ESTUDO INICIAL

PRIMEIRA PARTE - 

*Por L. A. de Moura –

 Recentemente postamos no nosso canal do YouTube um vídeo (que você pode assistir clicando no link ao lado (https://www.youtube.com/watch?v=ov0rftPUL14&t=40s), no qual convidamos nossos leitores, leitoras, amigos e, de um modo geral, os cristãos, para alguns encontros, onde pretendemos apresentar algumas particularidades importantes de serem conhecidas, e dominadas, para um feliz estudo bíblico. No referido vídeo indicamos, inclusive, algumas edições da Bíblia, cuja tradução revela-se um pouco mais próxima da linguagem conhecida e dominada pela maioria das pessoas. Comprometemo-nos a retornar com o que denominamos de “ciclos”, para o prosseguimento do trabalho. Aqui estamos!

Para iniciarmos o nosso estudo, vamos explicar que o termo AT, significa Antigo Testamento e, NT, Novo Testamento. Nosso trabalho está divididoo em dois blocos: 1) vamos tratar da composição da Bíblia, Católica e Protestante (esclarecendo algumas pequenas questões sobre as diferenças principais); falaremos sobre as línguas em que a Bíblia foi, originalmente, escrita; mostraremos o agrupamento dos Livros do AT e vamos explicar a forma como devem ser entendidas as abreviaturas e as indicações de capítulos e de versículos. 2) vamos tratar do conteúdo, propriamente dito, da Bíblia. A partir de quando, vamos estabelecer dois pontos fundamentais: A Bíblia, enquanto palavra escrita (como foi escrita, para quem foi escrita e por quem foi escrita) e a Bíblia, enquanto Mensagem divina para o seu povo. Este primeiro encontro será marcado por estes dois pontos primordiais.

 COMPOSIÇÃO DA BÍBLIA CATÓLICA:

AT = 46 Livros

NT = 27 Livros

TOTAL: 73 Livros

COMPOSIÇÃO DA BÍBLIA PROTESTANTE: TRADUÇÃO DE JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA

AT = 39 Livros Ou seja: Igual a Bíblia Católica, menos os Livros de: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, 1 e 2 Macabeus, Daniel (Capítulo 3, 31-90 e os Capítulos 13 e 14 inteiros) e Ester (Capítulos 10, 4 a 16, 24). Estes Livros não são considerados canônicos, em razão da versão original e da época da tradução. Portanto, estes livros são chamados de “Deutero-canônicos” e não são considerados, portanto, inspirados

NT = 27 Livros

TOTAL = 66 Livros

O AGRUPAMENTO DOS LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO:

Os livros do AT estão agrupados da seguinte forma:

1º) Pentateuco ou os cinco primeiros Livros;

2º) Livros históricos;

3º) Livros didáticos ou poéticos;

4º) Livros proféticos

Obs: Todas as Bíblias costumam apresentar este agrupamento de forma detalhada, com a indicação de todos os Livros que compõem cada um dos grupos. Nas páginas iniciais, você vai encontrar tudo isto. Basta ler!

IDIOMA EM QUE A BÍBLIA FOI ESCRITA:

Alguns poucos livros do AT foram escritos em Aramaico. A quase totalidade, foi escrita em hebraico. Todo o NT foi escrito em grego, com exceção do Evangelho de Mateus, que teve uma primeira redação em aramaico. Posteriormente, tudo foi traduzido para o grego e, por último, para o latim, a partir de quando a Bíblia foi disseminada por todo o Ocidente e, a partir daí, cada país, fez a tradução para o seu próprio idioma. Em decorrência disto, vamos encontrar os SALMOS, em muitos casos, expressos desta forma 23(22). Fora do parêntesis está o número segundo a versão hebraica. Dentro do parêntesis, o número de acordo com a versão latina ou grega.

COMPREENDENDO AS ABREVIATURAS:

A vírgula separa o Capítulo do versículo: Gn 2, 4

O ponto e vírgula separa Capítulos e Livros: Gn 2,4; 3,5; Ex 5,2

O ponto separa versículo de outro versículo não seguido: Ex 5,2.8.15

O hífen indica a sequência de versículos: Gn 2,4-9; Ex 1, 5-15

O travessão indica sequência de Capítulos: Gn 2, 4-9 – 3, 1-6 OU a sequência de Capítulos: Mt 5-7

Bem, até aqui nós trabalhamos sobre a composição da Bíblia, sua formação e o modo de ler e de compreender as abreviaturas e as indicações dos Livros, Capítulos e Versículos.

A partir de agora, vamos falar sobre o conteúdo propriamente dito da Bíblia. Inicialmente, é bom frisar que a Bíblia é constituída, basicamente, de palavras e de mensagens. As palavras são escritas em uma língua original, depois traduzidas para o grego, como vimos, traduzidas para o latim e, por fim, traduzida no idioma de cada país, cada Nação. Daí que, por mais perfeitas que sejam as traduções, nem sempre as palavras estarão, literalmente, iguais. Não se podendo, por causa disto, entender que esta ou aquela Bíblia é verdadeira ou falsa. O importante é mensagem.

Siga comigo: quando eu falo com você sobre uma maçã, logo vem à sua mente a figura de uma maçã. Você conhece bem uma maçã e, portanto, a imagem que surge na sua memória é a de uma maçã. Bem, a primeira imagem que deve surgir em nossa mente a respeito da Palavra de Deus, é a da MENSAGEM. Deus está transmitindo uma mensagem para o seu povo. Daí ser importante atentar para o seguinte: a qual povo a mensagem está direcionada; em que contexto foi escrita e, por fim, qual o sentido, a mensagem, que o autor sagrado está querendo transmitir. Esta compreensão, tal como a maçã, cada um de nós tem a sua. Saber qual é a verdadeira, entretanto, depende do estudo permanente e continuado da Palavra, e de ouvir as explicações dadas por um Pastor, um Sacerdote, um Teólogo ou alguém que, realmente, detenha profundos conhecimentos acerca da interpretação bíblica, segundo os critérios cientificamente reconhecidos.

Um exemplo típico do está sendo dito, pode ser extraído do Livro do Gênesis, capítulo primeiro. Como você lê?: “No princípio Deus criou o céu e a terra”. Bem, se, em algum lugar estiver escrito que “No princípio Deus criou tudo o que existe”, ou que “criou o universo, a terra e o mar”, isto será de pouca relevância, e por que? Porque a mensagem transmitida pelo autor sagrado, independentemente das palavras utilizadas, é que Deus é o Criador de todas as coisas. O mesmo raciocínio vale para a criação do homem. Alguém pode dizer: não, o homem não foi criado por Deus. O homem veio do macaco. Pode parecer uma aberração! Mas, a pergunta mais importante deve ser: Quem criou o macaco? Ou seja, de onde provém a vida? compreende? É a mensagem transmitida, que deve ser, realmente, levada em consideração, quando estamos lendo e refletindo sobre a Bíblia: A quem aquela palavra é destinada? Em que contexto foi escrita? Que mensagem ela quer transmitir? A partir daí, a cortina começa a ser aberta.

Paramos por aqui. Sugiro, inicialmente, uma breve leitura dos capítulos 1 e 2 do primeiro Livro da Bíblia, o Gênesis. Não que faremos interpretação sistemática da Bíblia, mas, vamos começar buscando compreender as mensagens transmitidas. Até o próximo encontro. Seja feliz, e mantenha a fé.

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 19

COMENTANDO O EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

II DOMINGO DE PÁSCOA – DOMINGO DA MISERICÓRDIA –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Estamos no Segundo Domingo da Páscoa, que São João Paulo ll quis intitular Domingo da Divina Misericórdia! Isto aconteceu em coincidência com a canonização de Faustina Kowalska, humilde Irmã polonesa, nascida em 1905 e falecida em 1938, mensageira zelosa de Jesus Misericordioso. Na realidade a Misericórdia é o núcleo da mensagem evangélica, é o próprio nome de Deus, o rosto com o qual Ele se revelou na Antiga Aliança e plenamente em Jesus Cristo, Encarnação do Amor Criador e Redentor. Este amor de misericórdia ilumina também o rosto da Igreja, e manifesta-se quer mediante os Sacramentos, em particular o Sacramento da Reconciliação (Confissão), quer com as obras de caridade, comunitárias e individuais. Tudo o que a Igreja diz e realiza, manifesta a misericórdia que Deus sente pelo homem, portanto, por nós. Da misericórdia divina, que pacifica o coração, brota depois a paz autêntica no mundo, a paz entre os povos, culturas e religiões diversas.

Com a celebração do presente domingo da Misericórdia concluímos a Oitava de Páscoa, ou seja, esta semana que a Igreja nos convidou a considerar como um dia só: ”O dia que o Senhor fez”.

Nestes dias de Páscoa, a Liturgia nos fez assistir ao nascimento da fé pascal. Mediante a narração das aparições do Ressuscitado, vimos renascer nos discípulos de Jesus, desanimados e dispersos, a fé e o amor para com Ele: a Ressurreição gerou a fé.

Cristo ressuscitado é a razão de ser de nossa existência. Celebrar essa história é motivo de grande alegria para os cristãos.

O Evangelho (Jo 20, 19-31) inicia falando do primeiro dia da semana, isto é, o Dia por excelência, pois foi o dia da Ressurreição do Senhor; relata a aparição de Jesus Misericordioso aos seus discípulos no mesmo dia da sua Ressurreição, no qual derramou sobre eles e lhes confiou o tesouro da sua Paz e dos seus Sacramentos, e confirmou a nossa fé e a fé de todos os “Tomés” do mundo, que estão cheios  de dúvidas e com ânsias de ter certezas.

“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana” (Jo 20,19), Jesus veio confortar os amigos mais íntimos: A paz esteja convosco, disse-lhes. Depois mostrou-lhes as mãos e o lado. Nesta ocasião, Tomé não estava com os demais Apóstolos; não pôde, pois, ver o Senhor nem ouvir as suas palavras consoladoras.

Imagino os Apóstolos cheios de júbilo procurando Tomé para contar-lhe que tinham visto o Senhor! Mal o encontraram, disseram-lhe: Vimos o Senhor! Tomé continuava profundamente abalado com a crucifixão e a morte do Mestre; quer ver para crer! Acredito que os Apóstolos devem ter-lhe repetido, de mil maneiras diferentes, a mesma verdade que era agora a sua alegria e a sua certeza: Vimos o Senhor!

Hoje nós temos que fazer o mesmo! Para muitos homens e para muitas mulheres, é como se Cristo estivesse morto, porque pouco significa para eles e quase não conta nas suas vidas. A nossa fé em Cristo ressuscitado anima-nos a ir ao encontro dessas pessoas e a dizer-lhes, de mil maneiras diferentes, que Cristo vive, que estamos unidos a Ele pela fé e permanecemos com Ele todos os dias; que Ele orienta e dá sentido à nossa vida.

Desta maneira, cumprindo essa exigência da fé que é difundi-la com o exemplo e a palavra, contribuímos pessoalmente para a edificação da Igreja, como aqueles primeiros cristãos de que falam os Atos dos Apóstolos: “Cada vez mais aumentava o número dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor” (At. 5,14).

Oito dias depois Jesus apareceu aos Apóstolos novamente e agora Tomé também estava; Jesus disse: “A paz esteja convosco. Depois disse a Tomé: Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos…, não sejas incrédulo, mas fiel (Jo 20,26-27).

A resposta de Tomé é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites: Meu Senhor e meu Deus! A fé do Apóstolo brota não tanto da evidência de Jesus, mas de uma dor imensa. O que o levou a adoração e ao retorno ao apostolado não são tanto as provas como o amor. Diz a Tradição que o Apóstolo Tomé morreu mártir pela fé no seu Senhor; consumiu a vida a seu serviço.

As dúvidas de Tomé viriam a servir para confirmar a fé dos que mais tarde haviam de crer n’Ele. Comenta São Gregório Magno: “Porventura pensais que foi um simples acaso que aquele discípulo escolhido estivesse ausente, e que depois, ao voltar, ouvisse relatar a aparição e, ao ouvir, duvidasse, e, duvidando, apalpasse, e, apalpando acreditasse? Não foi por acaso, mas por disposição divina que isso aconteceu. A divina clemência agiu de modo admirável quando este discípulo que duvidava tocou as feridas das carnes do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da incredulidade… Foi assim, duvidando e tocando, que o discípulo se tornou testemunha da verdadeira ressurreição”.

Peçamos ao Senhor que aumente em nós a fé, pois se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela. A virtude da fé é a que nos dá a verdadeira dimensão dos acontecimentos e a que nos permite julgar retamente todas as coisas. Somente com a luz da fé e a meditação da palavra divina é que é possível reconhecer Deus sempre e por toda a parte, esse Deus em quem vivemos e nos movemos e existimos (At 17,28).

Meu Senhor e meu Deus! Estas palavras têm servido de jaculatória a muitos cristãos, e como ato de fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, quando se passa diante de um Sacrário ou no momento da Consagração na Missa.

A Ressurreição do Senhor é um apelo para que manifestemos com a nossa vida que Ele vive. As obras do cristão devem ser fruto e manifestação de sua fé em Cristo. Hoje também o Senhor quer que o mundo, a rua, o trabalho, as famílias sejam veículo para a transmissão da fé. Pois, a fé na Ressurreição de Cristo é a verdade fundamental da nossa salvação. “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé “ (1Cor 15, 14).

Também o texto de 1Pd 1, 3 – 9, segunda leitura de hoje, nos fala da fé, e é justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual, indicando aos recém-batizados as razões da sua esperança e da sua alegria. Interessante observar que nesta passagem, situada na parte inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo exortativo, mas indicativo. De fato, escreve: “Isto vos enche de alegria”; e acrescenta: “Vós amais Jesus Cristo sem O terdes conhecido, e, como n’Ele acreditais sem O verdes ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas” (1Pd 1, 6.8-9). Está no indicativo, porque existe uma nova realidade, gerada pela Ressurreição de Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. “Esta é uma obra admirável” – diz o Salmo Sl 117 (118), 23 – “que o Senhor realizou aos nossos olhos”, os olhos da fé.

A fé em Cristo era a força que congregava os primitivos cristãos numa coesão perfeita de sentimentos e de vida: “A multidão dos que abraçavam a fé tinha um só coração e uma só alma” (At. 4,32). Era uma fé tão arraigada que os levava a renunciar, voluntariamente, aos próprios bens, para colocá-los à disposição dos mais necessitados, considerados verdadeiramente irmãos em Cristo. É esta fé que hoje é tão escassa; para muitos que dizem ser crente, a fé não exerce influência alguma nos seus costumes nem na sua vida. Um cristianismo assim, não convence nem converte o mundo. É preciso voltar a acomodar a própria fé ao exemplo da Igreja primitiva; é preciso pedir a Deus uma fé profunda, pois que, no poder da fé, está a certeza da vitória dos cristãos. “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé! Quem é que vence o mundo senão Aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?” (1 Jo 5,4-5).

Oito dias depois da Páscoa, os discípulos estavam em casa quando Jesus veio, estando fechadas as portas, parou no meio deles e disse: “A paz esteja convosco!” Também agora, na nossa assembleia, Jesus vem em nosso meio e nos dá sua paz. Nós, como Tomé, O reconhecemos como nosso Senhor e nosso Deus. Rezemos para que Ele faça de nós uma verdadeira comunidade reunida em Seu nome.

Como a Irmã Faustina, São João Paulo ll fez-se por sua vez Apóstolo da Misericórdia Divina. Na noite do inesquecível sábado, 2 de abril de 2005, quando fechou os olhos para este mundo, era precisamente a vigília do segundo Domingo de Páscoa, e muitos notaram a singular coincidência, que unia em si a dimensão mariana o primeiro sábado do mês e a da Misericórdia Divina. De fato, o seu longo pontificado tem, aqui, o seu ápice; toda a sua missão ao serviço da verdade sobre Deus e sobre o homem e da paz no mundo resume-se neste anúncio, como ele mesmo disse em Cracóvia, em 2002: “Fora da misericórdia de Deus não há qualquer outra fonte de esperança para os seres humanos”. A sua mensagem, como a de Santa Faustina, reconduz, portanto, ao rosto de Cristo, Revelação suprema da Misericórdia de Deus. Contemplar constantemente Aquele Rosto: esta é a herança que Ele nos deixou, e que nós, com alegria, acolhemos e fazemos nossa.

Recomendamos cada um de vocês, cada família, à proteção celeste de Maria Santíssima, Mãe de Misericórdia. Confiamos-lhe a grande causa da paz no mundo, para que a Misericórdia Divina realize o que é impossível unicamente às forças humanas, e infunda nos corações a coragem do diálogo e da reconciliação.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

abr 12

COMENTANDO SOBRE O EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

DOMINGO DE PÁSCOA – VENCEDOR DA MORTE!

*Por Mons. José Maria Pereira –

Cristo ressuscitou! A paz esteja convosco! Hoje se celebra o grande Mistério, fundamento da fé e da esperança cristã: Jesus de Nazaré, o Crucificado, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, conforme as Escrituras. O anúncio feito aos Anjos, naquela aurora do primeiro dia, depois do sábado, a Maria Madalena e às mulheres que foram ao sepulcro, o ouvimos, hoje, com renovada emoção: “Por que buscais entre os mortos o Vivente? Não está aqui. Ressuscitou!”   (Lc 24, 5-6).

O Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

A todos formulo cordiais votos de Páscoa com as palavras de Santo Agostinho: “A Ressurreição do Senhor é a nossa esperança”. Com esta afirmação, Santo Agostinho explicava aos   seus fiéis que Jesus ressuscitou para que nós, apesar de destinados à morte, não desesperássemos, pensando que a vida acaba totalmente com a morte; Cristo ressuscitou para nos dar a esperança. Graças à Morte e Ressurreição de Cristo, também nós hoje ressurgimos para uma vida nova e, unindo a nossa voz à d’Ele, proclamamos que queremos ficar para sempre com Deus, nosso Pai, infinitamente bom e misericordioso.

A Ressurreição gloriosa do Senhor é a chave para interpretarmos toda a sua vida e o fundamento da nossa fé. Sem essa vitória sobre a morte, diz S. Paulo, vazia seria a nossa pregação e vã a nossa fé (1 Cor 15,14).

A Ressurreição do Senhor é uma realidade central da nossa fé católica, e como tal foi pregada desde os começos do cristianismo. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da Ressurreição de Jesus. Este é o núcleo de toda pregação, e isto é o que, depois de mais de vinte séculos nós anunciamos ao mundo: Cristo vive!  A Ressurreição é a prova suprema da divindade de Cristo. Jesus ressuscitou, não para que a sua memória permaneça viva no coração dos seus discípulos, mas para que Ele mesmo viva em nós, e, n’Ele, possamos já saborear a alegria da vida eterna. Na manhã de Páscoa, tudo se renovou. “Morte e vida defrontaram – se num prodigioso combate: O Senhor da vida estava morto; mas agora, vivo, triunfa” (Sequência Pascal). Esta é a novidade! Uma novidade que muda a vida de quem a acolhe, como sucedeu com os santos. Assim aconteceu, por exemplo, com São Paulo.

Portanto, a Ressurreição não é uma teoria, mas uma realidade histórica revelada pelo Homem Jesus Cristo por meio da sua “Páscoa”, da sua “passagem”, que abriu um “caminho novo” entre a Terra e o Céu (Heb 10, 20). Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível : Jesus de Nazaré, filho de Maria, que ao pôr do sol de Sexta – feira foi descido da Cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo. De fato, ao alvorecer do primeiro dia, depois do Sábado, Pedro e João encontraram o túmulo vazio. Madalena e as outras mulheres encontraram Jesus ressuscitado; reconheceram – no também os dois discípulos de Emaús ao partir o pão; o Ressuscitado apareceu aos Apóstolos à noite, no Cenáculo e depois a muitos outros discípulos, na Galileia.

A Liturgia Pascal lembra, na primeira leitura, um dos mais comoventes discursos de Pedro sobre a Ressurreição de Jesus: “Deus O ressuscitou no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-se… às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,40-41). Surge nestas palavras a vibrante emoção do chefe dos Apóstolos pelos grandes acontecimentos de que foi testemunha, pela intimidade com Cristo ressuscitado, sentando-se à mesma mesa, comendo e bebendo com Ele.

A Ressurreição é a grande luz para todo o mundo: “Eu sou a luz” (Jo 8,10), dissera Jesus; luz para o mundo, para cada época da história, para cada sociedade, para cada homem.

No Evangelho (Jo 20,1-9) vemos que a Boa Nova da Ressurreição provocou, num primeiro momento, um temor e espanto tão fortes, que as mulheres “saíram e fugiram do túmulo… e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. Entre elas, porém encontrava-se Maria Madalena que viu a pedra retirada do túmulo e correu a dar a notícia a Pedro e João: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde O colocaram” (Jo 20,2). “Os dois saem correndo para o sepulcro e, entrando no túmulo, observaram as faixas que estavam no chão e o lençol…” (Jo 20,6-7). “Ele viu e acreditou” (Jo 20,8).  É o primeiro ato de fé da igreja nascente em Cristo Ressuscitado, originado pela solicitude de uma mulher e pelos sinais do lençol, das faixas de linho, no sepulcro vazio. Se se tratasse de um roubo, quem se teria preocupado em despir o cadáver e colocar o lençol com tanto cuidado? Deus serve-se de coisas bem simples para iluminar os discípulos que “ainda não tinham entendido a Escritura, segunda a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9), nem compreendiam ainda o que o próprio Jesus tinha predito acerca da Sua ressurreição.

Ainda que sob outro aspecto, os “sinais” da Ressurreição veem-se ainda presentes no mundo: a fé heroica, a vida evangélica da tanta gente humilde e escondida; a vitalidade da igreja que as perseguições externas e as lutas internas não chegam a enfraquecer; a Eucaristia, presença viva de Jesus ressuscitado que continua a atrair a Si todos os homens. Pertence a cada um dos homens vislumbrar e aceitar estes sinais, acreditar como acreditam os Apóstolos e tornar cada vez mais firme a sua fé.

A Ressurreição do Senhor é um apelo muito forte: lembra-nos sempre que vivemos neste mundo como peregrinos e que estamos em viagem para a verdadeira pátria, a eterna. Cristo ressuscitou para levar consigo os homens, na Sua Ressurreição, para onde Ele vive eternamente, fazendo-os participantes da Sua glória.

O Senhor Ressuscitado faça – se presente em todo lugar com a sua força de vida, de paz e de liberdade. Hoje, a todos são dirigidas as palavras com as quais, na manhã da Páscoa, o Anjo tranquilizou os corações amedrontados das mulheres: “Não tenhais medo! Não está aqui; ressuscitou” (Mt 28, 5-6). Jesus ressuscitou e concede – nos a paz. Ele mesmo é a paz. Por isso, vigorosamente, a Igreja repete: “Cristo Ressuscitou”. Que a humanidade do Terceiro Milênio não tenha medo de abrir – Lhe o coração! O Seu Evangelho sacia plenamente a sede de paz e de felicidade que habita em todo o coração humano. Agora Cristo está vivo e caminha conosco. Um Mistério imenso de Amor! Aleluia!

Devemos constantemente renovar a nossa adesão a Cristo morto e ressuscitado por nós: a sua Páscoa é também a nossa Páscoa, porque em Cristo ressuscitado é-nos dada a certeza da nossa Ressurreição. A notícia da sua Ressurreição dos mortos não envelhece e Jesus está sempre vivo; e vivo é o seu Evangelho. “A fé dos cristãos, observa Santo Agostinho, é a Ressurreição de Jesus Cristo”. O enfraquecimento da fé na Ressurreição de Jesus, consequentemente torna débil o testemunho dos crentes. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos. Não é porventura a certeza de que Cristo ressuscitou que dá coragem, audácia profética e perseverança aos mártires de todos os tempos? Não é o encontro com Jesus vivo que converte e fascina tantos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e pôr a própria vida ao serviço do Evangelho? “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé” (1Cor 15, 14).

Mas ressuscitou!

Maria, a Mãe de Jesus, que acompanhou o Filho nas mais terríveis e duras horas da paixão; junto da Cruz, emudecida de dor, não soubera o que dizer; agora, com a Ressurreição, emudecida de alegria, não consegue falar. Procuremos estar unidos a essa imensa alegria da nossa Mãe. Toda a esperança na Ressurreição de Jesus que restava sobre a terra tinha-se refugiado no seu coração. Com toda a igreja, neste tempo pascal, saudemos a Virgem Maria: “Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia! Por que Aquele que merecestes trazer em vosso seio ressuscitou como disse, aleluia!…”

Somos chamados a ser testemunhas da Morte e Ressurreição de Cristo; deixemo-nos conquistar pelo fascínio da sua Ressurreição. Não podemos conservar para nós a grande notícia! Devemos levá-la ao mundo inteiro: “Vimos o Senhor” (Jo 20, 25). Ajude-nos a Virgem Maria a sermos mensageiros da luz e da alegria da Páscoa para com tantos irmãos nossos; amparados pela força do Espírito Santo, nos tornemos capazes de a difundir por nossa vez onde quer que vivamos e trabalhemos.

Uma Feliz Páscoa para todos!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

abr 12

LEITURA ORANTE: POR FREI LUDUVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DA PÁSCOA – ESTE É O DIA QUE O SENHOR FEZ PARA NÓS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, por vosso Filho Unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 10,34a.37-43

Comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos.

Lucas traz um exemplo de como poderia ser a pregação inicial dos apóstolos (querigma), testemunhas da ressurreição de Cristo, para os que ouviram falar de Jesus, mas ainda não conheciam a fé cristã. Pedro está na casa de Cornélio, comandante do exército romano, que o convidou para que falasse sobre Jesus de Nazaré algo mais do que ele já conhecia. Por isso, Pedro não perde tempo em falar de coisas já conhecidas: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João”. Invertendo a frase, temos a estrutura dos evangelhos sinóticos: atividade de João Batista, atividade de Jesus na Galileia, paixão e morte de Jesus na Judeia. Pedro afirma que Jesus só andou fazendo o bem por toda a parte, porque “foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” (v. 38). Apesar do bem que fazia na terra dos judeus e em Jerusalém, acabou sendo morto, pregado numa cruz. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e Jesus se manifestou a eles. Os apóstolos foram escolhidos como testemunhas qualificadas, porque “comeram e beberam com Jesus depois que ressuscitou dos mortos”. Jesus foi constituído por Deus como Juiz dos vivos e dos mortos. Quem nele crê recebe o perdão dos pecados.

SALMO RESPONSORIAL

Este é o dia que o Senhor fez para nós:

alegremo-nos e nele exultemos.

2. SEGUNDA LEITURA: Cl 3,1-4

Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo.

O autor do texto que ouvimos convida os cristãos a guiarem sua vida pelos valores celestes e não pelos da terra. O cristão deve morrer para tudo que leva ao pecado, para viver uma vida nova em Cristo. Isso é simbolizado pelo batismo: No símbolo da imersão na água batismal morre o homem velho e, ao emergir, nasce o homem novo, para viver uma vida nova em Cristo. Como Cristo ressuscitou e está com Deus, diz o autor, nossa vida “está escondida, com Cristo, em Deus”. Esta vida se manifestará quando Cristo voltar triunfante em sua glória, no fim dos tempos. É o que diz Paulo ao falar da ressurreição dos mortos: “Cristo ressuscitou dos mortos como o primeiro dos que morreram”. Por isso, “assim, em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: Cristo como primeiro fruto, em seguida os que forem de Cristo por ocasião de sua vinda” (1Cor 15,20-23). Quando isso acontecer, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26). Para Marta, que chorava a morte de seu irmão Lázaro, Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).

SEQUÊNCIA

Cantai, cristãos, afinal: “Salve, ó vítima pascal”!

Cordeiro inocente, ó Cristo abriu-nos do Pai o aprisco.

Por toda ovelha imolado, do mundo lava o pecado.

Duelam forte a mais forte: é a vida que enfrenta a morte.

O rei da vida, cativo, é morto, mas reina vivo!

Responde, pois, ó Maria: no teu caminho o que havia?

“Vi Cristo ressuscitado, o túmulo abandonado.

Os anjos da cor do sol, dobrado ao chão o lençol...

O Cristo, que leva aos céus, caminha à frente dos seus!”

Ressuscitou de verdade. Ó Rei, ó Cristo, piedade!

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Aleluia, Aleluia, Aleluia.

O nosso cordeiro pascal, Jesus Cristo, já foi imolado.

Celebremos, assim, esta festa, na sinceridade e verdade.

3. EVANGELHO: Jo 20,1-9

Ele devia ressuscitar dos mortos.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai de madrugada ao túmulo e encontra a pedra removida. É uma das mulheres que estavam junto à cruz, com a mãe de Jesus e o discípulo que Jesus amava. Não vai ao túmulo para ungir o corpo de Jesus, como as mulheres em Mc 16,1, pois Nicodemos e José de Arimateia já o tinham feito, usando aromas e trinta quilos de mirra e aloés (Jo 19,39-40). Como a mulher do Cântico dos Cânticos (Ct 3,1), bem de madrugada, ainda “no escuro”, ela sai para visitar o sepulcro e chorar o seu amado. Vendo a pedra removida, sai correndo para avisar a Pedro e ao outro discípulo: “Tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram”. Os dois discípulos também correm para verificar o que aconteceu e buscar uma explicação. Com o Senhor morto e o sepulcro fechado, a vida parecia ter parado. Mas a pedra, que parecia selar para sempre o destino do Mestre, foi removida e o sepulcro estava aberto e vazio. Primeiro entra Pedro e encontra apenas as faixas de linho, que envolviam o corpo, e o sudário, que envolvia a cabeça de Jesus. Depois entra o outro discípulo e encontra as mesmas coisas que Pedro; mas, ele “viu e creu”.

Por que Pedro viu apenas viu um sepulcro vazio e panos espalhados pelo chão? Por que o discípulo amado, a testemunha por excelência, “viu e creu”? Pedro pode ter pensado o que Madalena pensou: alguém roubou o corpo de Jesus, boato mencionado por Mateus. O discípulo amado, fiel a Jesus até aos pés da cruz, acreditou nas Escrituras que anunciam sua ressurreição. Porque amava, viu não apenas um sepulcro vazio, mas também os panos esvaziados, afrouxados, testemunhando a vitória de Jesus sobre a morte, porque tinha o poder de dar sua vida e de retomá-la (10,17-18). Por trás do discípulo amado pode estar a figura do Apóstolo João. Representa, também, todo o cristão iniciado na fé, que ama o Senhor, como Maria Madalena e o discípulo amado e é amado pelo Senhor. É, por excelência, a testemunha de Cristo Ressuscitado. Ele representa pessoas como eu e você, que não viram Cristo ressuscitado, mas crêem. Ele não crê apenas porque “viu” o Cristo Ressuscitado como Maria Madalena e os Apóstolos. Crê porque compreende a Escritura (como os iniciados), “segundo a qual Cristo devia ressuscitar dos mortos”.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 05

COMENTÁRIO AO EVANGELHO: PADR JOSEÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

DOMINGO DE RAMOS – HOSANA AO FILHO DE DAVI –

*Mons. José Maria Pereira –

Com a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a Igreja abre a Semana Santa.

No Evangelho (Mt 27, 11 – 54) vemos que o cortejo organizou-se rapidamente. Jesus faz a sua entrada em Jerusalém, como Messias, montado num burrinho, conforme havia sido profetizado muitos séculos antes (Zac. 9,9). Jesus aceita a homenagem, e quando os fariseus, que também conheciam as profecias, tentaram sufocar aquelas manifestações de fé e alegria, o Senhor disse-lhes: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19, 40).

Assim, a nossa procissão de hoje quer ser imagem de algo mais profundo, imagem do fato que nos encaminhamos em peregrinação, juntamente com Jesus, pelo caminho alto que leva ao Deus vivo. É desta subida que se trata: tal é o caminho, a que Jesus nos convida. Mas, nesta subida, como podemos andar no mesmo passo que Ele? Porventura não ultrapassa as nossas forças? Sim, está acima das nossas próprias possibilidades. Desde sempre – e hoje ainda mais – os homens nutriram o desejo de “ser como Deus”; de alcançar, eles mesmos, a altura de Deus. Em todas as invenções do espírito humano, em última análise, procura-se conseguir asas para poder elevar-se à altura do Ser divino, para se tornar independentes, totalmente livres, como o é Deus. A humanidade pôde realizar tantas coisas: somos capazes de voar; podemos ver-nos uns aos outros, ouvir e falar entre nós dum extremo do mundo para o outro. E, todavia, a força de gravidade que nos puxa para baixo é poderosa. A par das nossas capacidades, não cresceu apenas o bem; cresceram também as possibilidades do mal, que se levantam como tempestades ameaçadoras sobre a História. E perduram também os nossos limites: basta pensar nas catástrofes, pandemia que, nestes meses, afligiram e continuam a afligir a humanidade.

Os Padres disseram que o homem está colocado no ponto de interseção de dois campos de gravidade. Temos, por um lado, a força de gravidade que puxa para baixo: para o egoísmo, para a mentira e para o mal; a gravidade que nos rebaixa e afasta da altura de Deus. Por outro lado, há a força de gravidade do amor de Deus: sabermo-nos amados por Deus e a resposta do nosso amor puxam-nos para o alto. O homem encontra-se no meio desta dupla força de gravidade, e tudo depende de conseguir livrar-se do campo de gravidade do mal e ficar livre para se deixar atrair totalmente pela força de gravidade de Deus, que nos torna verdadeiros, nos eleva, nos dá a verdadeira liberdade.

Nossa celebração inicia-se com o Hosana! E culmina no crucifica-o! Mas este não é um contrassenso; é, antes, o coração do mistério. O mistério que se quer proclamar é este: Jesus se entregou voluntariamente a sua Paixão; não se sentiu esmagado por forças maiores do que Ele (Ninguém me tira a vida, mas eu a dou livremente: Jo 10,18); foi Ele que, perscrutando a vontade do Pai, compreendeu que havia chegado a hora e a acolheu com a obediência livre do filho e com infinito amor para os homens: “… sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Hoje Jesus quer também entrar triunfante na vida dos homens, sobre uma montaria humilde: quer que demos testemunho d’Ele com a simplicidade do nosso trabalho bem feito, com a nossa alegria, com a nossa serenidade, com a nossa sincera preocupação pelos outros. Quer fazer-se presente em nós através das circunstâncias do viver humano.

Naquele cortejo triunfal, quando Jesus vê a cidade de Jerusalém, chora! Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como estes, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos depois a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo.

O Concílio Vaticano II, GS, nº 22, diz: De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem, fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós em tudo menos no pecado. Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida derramando livremente o seu sangue, e n’Ele o próprio Deus nos reconciliou consigo e entre nós mesmos e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado, e assim cada um de nós pode dizer com o Apóstolo: “Ele me amou e se entregou por mim (Gal. 2, 20)”.

A história de cada homem é a história da contínua solicitude de Deus para com ele. Cada homem é objeto da predileção do Senhor. Jesus tentou tudo com Jerusalém, e a cidade não quis abrir as portas à misericórdia. É o profundo mistério da liberdade humana, que tem a triste possibilidade de rejeitar a graça divina.

Como é que estamos correspondendo às inúmeras instâncias do Espírito Santo para que sejamos santos no meio das nossas tarefas, no nosso ambiente? Quantas vezes em cada dia dizemos sim a Deus e não ao egoísmo à preguiça, a tudo o que significa falta de amor, mesmo em pormenores insignificantes?

A entrada triunfal de Jesus foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, cinco dias mais tarde, num grito furioso: Crucifica-o! Por que foi tão brusca a mudança, por que tanta inconsistência?

São Bernardo comenta: “Como eram diferentes umas vozes e outras! Fora, fora, crucifica-o e bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas! Como são diferentes as vozes que agora o aclamam Rei de Israel e dentro de poucos dias dirão: Não temos outro rei além de César! Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobres elas.”

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém pede-nos coerência e perseverança, aprofundamento da nossa fidelidade, para que os nossos propósitos não sejam luz que brilha momentaneamente e logo se apaga. Muito dentro do nosso coração, há profundos contrastes: somos capazes do melhor e do pior. Se queremos ter em nós a vida divina, triunfar com Cristo, temos de ser constantes e matar pela penitência o que nos afasta de Deus e nos impede de acompanhar o Senhor até a Cruz.

A Igreja nos lembra que a entrada triunfal vai perpassar todos os passos da Paixão de Cristo. Terminada a procissão mergulha-se no mistério da Paixão de Jesus Cristo: Em Is 50 4-7 descreve o Servo sofredor, na esperança da vitória final. Vemos nele a própria pessoa de Jesus Cristo. Em Fl 2,6-11 temos a chave principal de todo o mistério deste Domingo de Ramos: Jesus humilhou-se e por isso Deus o exaltou!

No texto de Mt 27, 11 – 54, somos chamados a contemplar a PAIXÃO e a MORTE de Jesus. Que durante a Semana Santa possamos tirar muitos frutos da meditação da Paixão de Cristo. Que em primeiro lugar tenhamos aversão ao pecado; possamos avivar o nosso amor e afastar a tibieza!

Judas, Pedro, os discípulos negaram o Mestre! Porém, o Senhor não desiste de nós! Em tudo Deus é mais forte! Deus nos convida a nos unir a Ele neste caminho rumo a Jerusalém, ainda que parte nossa contenha um pouco de Judas, um pouco de Pedro e muito das sonolências dos discípulos. Cristo nos leva assim mesmo a Jerusalém, na certeza de que Ele é fiel, constante e “não dorme nem cochila”.

Estejamos dispostos a seguir com o Senhor a Jerusalém e morrer cada dia com Ele para que seu amor seja tudo em todos!

Toda nossa vida é, em certo sentido, uma “semana santa” se a vivemos com coragem e fé, na espera do “oitavo dia” que é o grande Domingo do repouso e da glória eterna.

Neste tempo, Jesus nos repete o convite que dirigiu a seus discípulos no Horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).

Aproveitemos esta Semana Santa para meditarmos nos exemplos preciosos deixados por Jesus e levemos seus vários ensinamentos para a nossa vida.

Maria também está em Jerusalém, perto do seu Filho, para celebrar a Páscoa: a última Páscoa judaica e a primeira Páscoa em que o seu Filho é o Sacerdote e a Vítima. Não nos separemos dEla. Nossa Senhora ensinar-nos-á a ser constantes, a lutar até o pormenor, a crescer continuamente no amor por Jesus. Permaneçamos a seu lado para contemplar com Ela a Paixão, a Morte e a Ressurreição do seu Filho. Não encontraremos lugar mais privilegiado!

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

abr 05

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DE RAMOS – ELE ERA MESMO FILHO DE DEUS –

*Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar como ele em sua glória”.

1. LEITURA: Is 50,4-7

Não desviei o meu rosto das bofetadas e cusparadas.

Sei que não serei humilhado.

O texto de hoje traz as palavras do 3º Cântico do Servo Sofredor. É uma figura profética que está entre os judeus exilados na Babilônia. Ele está convencido de ter recebido uma missão da parte de Deus para levar uma mensagem de conforto para os exilados desanimados. O Servo apresenta-se como um discípulo obediente, atento a cada manhã para receber a mensagem divina que deverá transmitir. Mas, para cumprir esta missão enfrentará o desprezo e o sofrimento.

Embora ameaçado de morte pelos adversários, Jesus entra resolutamente em Jerusalém para cumprir sua missão até o fim. Confiando no auxílio divino, Jesus não se deixou abater, mas foi fiel até a morte de cruz; por isso foi glorificado por Deus, que o tornou “Senhor” (2ª leitura).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 21

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

2. SEGUNDA LEITURA: Fl 2,8-9

Humilhou-se a si mesmo;

por isso, Deus o exaltou acima de tudo.

Jesus, Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder, mas esvaziou-se de si mesmo e assumiu a condição de servo. Apresentando-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), procurou socorrer os mais necessitados (Mt 27,42). Não se identificou-se com a classe dominante, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. O exemplo de Cristo tornou-se o caminho do cristão.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Salve, ó Cristo obediente! / Salve, amor onipotente,

que te entregou à cruz/ e te recebeu na luz!

3. EVANGELHO: Mt 26,14–27,66

“Ele era mesmo Filho de Deus”.

Jesus não é entregue à morte contra a sua vontade. Ele se entrega nos sinais do pão e do vinho, na doação livre de sua vida, de seu corpo e de seu sangue. Se quisesse pedir, o Pai lhe enviaria em socorro 12 legiões de anjos. Renuncia ao poder e à violência e se entrega humildemente nas mãos do Pai, para que se cumpram as Escrituras (26,53). É traído por Judas e negado por Pedro, que se arrepende. É condenado à morte pelo Sinédrio porque se apresenta como o Cristo e Filho de Deus. Judas entra em desespero e se enforca. Os sumos sacerdotes entregam Jesus a Pilatos, porque só ele podia condenar alguém à morte.

A acusação diante do governador romano é de caráter político, como se vê na pergunta de Pilatos: “Tu és o rei dos judeus”? Sob pressão da multidão, “sabendo que haviam entregue Jesus por inveja”, Pilatos propõe a escolha entre Barrabás e Jesus que chamam de Messias. O povo, instigado pelos sumos sacerdotes, escolhe Barrabás, preso por suas aspirações messiânicas de caráter político, e rejeita o próprio Messias, Servo do Senhor (27,21-22). – Destacam-se algumas afirmações próprias de Mateus: o sonho da mulher de Pilatos (27,19); Pilatos que lava as mãos, responsabilizando a multidão (27,24-25); o terremoto, a cortina do templo que se rasga, e a ressurreição dos mortos na hora da morte de Jesus (27,51b-53). Os judeus zombam de Jesus como Messias (26,68) e os soldados romanos como rei (27,27-31). Nas zombarias, dirigidas a Jesus na cruz aparece o motivo da destruição do Templo (26,60-62), usado como acusação contra Jesus no processo do Sinédrio; os chefes religiosos lembram a ação salvadora de Jesus, mas agora incapaz de salvar-se a si mesmo; a confiança de Jesus em Deus, que agora abandona seu Filho; a confissão do centurião romano que diz: “Ele era mesmo Filho de Deus”. Por fim, os guardas que os sumos sacerdotes colocam como vigias junto ao túmulo, para que o corpo de Jesus não fosse roubado pelosa discípulos.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 31

A PALAVRA DO PSICÓLOGO

DANIEL FRANÇA - 2

ISOLAMENTO SOCIAL NÃO É ISOLAMENTO EMOCIONAL

*Por Daniel C. França –

Em tempos de Coronavírus precisamos desenvolver a inteligência emocional, pois o tempo todo somos bombardeados por muitas informações e muitas delas fake news, então, informe-se nem que seja duas vezes por dia; seja seletivo e busque por sites e emissoras confiáveis. Precisamos gerenciar o que recebemos de informação e o que reforçamos de pensamentos.

A recomendação dos órgãos de saúde é que higienizemos bem as mãos e não as levemos aos olhos, boca e nariz e que participemos do isolamento social proposto pelas autoridades sanitárias. Isso não significa isolamento emocional. Usemos as redes sociais para nos comunicar com os nossos familiares e amigos. Não deixemos que o isolamento social crie o isolamento emocional.

Aproveitemos este tempo para fazer uma leitura, um curso, arrumar as suas coisas, assistir um filme ou série, executar atividades relaxantes ou alguma outra atividade que você não tinha tempo de fazer pela correria da vida. Desacelere!

Neste momento de pandemia, medo, ansiedade, não negligencie a sua saúde emocional. Pois ela tornará mais forte o seu sistema imunológico. A sua emoção saudável é essencial para vencermos está guerra. Faça psicoterapia!

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* Daniel C. de França é Psicólogo Clínico (CRP 05/57727),  palestrante e Pós-graduando em Neuropsicologia. Administra o site https://psicologodanielfra.wixsite.com/website/post/isolamento-social-não-é-isolamento-emocional. Disponibiliza contatos por meio de chat, no próprio site, pelo Whatsapp (21) 97310-3380 ou pelo email psicologodanielfranca@gmail.com

mar 29

COMENTÁRIO AO EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

V DOMINGO DA QUARESMA – JESUS E A MORTE –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No evangelho (Jo 11, 1-45) Jesus se apresenta como o SENHOR DA VIDA. A doença e a morte do amigo Lázaro constituem ótima oportunidade para uma profissão de fé em Jesus Cristo, que se apresenta como a Ressurreição e a Vida. Entre as ressurreições operadas por Cristo, a de Lázaro tem uma importância fundamental, pois se trata de um morto que está no sepulcro há quatro dias. A resposta dada por Jesus àqueles que Lhe anunciam a doença de Lázaro: “Essa doença não leva à morte; é antes para a glória de Deus” (Jo 11,4): A glória de que fala Cristo, diz Santo Agostinho, “não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte.”

É encantador o diálogo entre Jesus e Marta: “Disse Marta a Jesus: Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas, mesmo assim eu sei que o que pedires a Deus, Ele te concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. Eu sei, disse Marta, que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia! Disse-lhe Jesus: Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais! Crês isto? Disse ela: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (Jo 11, 21-27). Segundo Santo Agostinho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…) Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos.” “Eu sou a Ressurreição e a Vida …” (Jo 11, 25).

Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo! É a Ressurreição porque com a Sua Vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (1 Cor 15,23; Col. 1,18).

Por isso, para quem tem fé a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia dos defuntos: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos Céus, um corpo imperecível.” “ E Jesus chorou” (Jo 11, 35). Podemos contemplar a profundidade e delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal do amigo arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? Disse Santo Agostinho: “ Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo senão para ensinar o homem a chorar?” Choremos nós também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Senhor, que chora por nós, pecadores. Disse São Josemaria Escrivá: “Jesus é teu amigo.   – O Amigo. – Com coração de carne, como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… E, tanto como a Lázaro, te ama a Ti” (Caminho, nº 422).  “Meu Deus, eu Te amo, mas… ensina – me a amar!” (Caminho, 423).

A Jesus que diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá” ( Jo 11, 25-26 ). Eis a verdadeira novidade, que prorrompe e supera qualquer barreira! Cristo abate o muro da morte, n’Ele habita toda a plenitude de Deus, que é Vida, Vida eterna. Por isso, a morte não teve poder sobre Ele; e a ressurreição de Lázaro é sinal do seu domínio pleno sobre a morte física, que diante de Deus é como um sono (Jo 11,11). Mas há outra morte, que custou a Cristo a luta mais dura, inclusive o preço da Cruz: é a morte espiritual, o pecado, que ameaça arruinar a existência de cada homem.

Para vencer esta morte, Cristo morreu, e a sua Ressurreição não é o regresso à vida precedente, mas a abertura de uma Realidade nova, uma “nova Terra”, finalmente reunida com o Céu de Deus. Por isso São Paulo escreve: “ Se o Espírito de Deus, que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos dará a vida também aos vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em vós” ( Rm 8,11 ).

Ao aproximar-se a Páscoa, o relato da ressurreição de Lázaro é uma exortação para que nos libertemos, cada vez mais, do pecado, confiando no poder vivificador de Cristo que quer tornar os homens participantes de Sua própria ressurreição. Santo Agostinho vê na ressurreição de Lázaro uma figura do Sacramento da Penitência (Confissão): como Lázaro do túmulo, “sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária.

E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desligares na terra, será desligado no céu”. Podemos aplicar esse fato à ressurreição espiritual da alma em pecado que recobre a graça. Deus quer a nossa salvação (1 Tm 2,4), portanto, jamais havemos de desanimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta: “Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: já fede, porque há quatro dias que está enterrado (Jo 11, 3-9), diz Marta a Jesus. “Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (Lázaro vem para fora!), voltarás à Vida” (Caminho, nº 719). Pela fé em Jesus Cristo, Vida e Ressurreição, resolve-se a questão mais fundamental do homem: a vida. Jesus nos garante: “ Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá. Que a Quaresma nos ajude na conversão ruma à Páscoa! Como discípulos missionários ajudemos os muitos Lázaros que estão no sepulcro, esperando por quem grite: “Lázaro, vem para fora!”.

Na realidade, esta página do Evangelho mostra Jesus como verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Em primeiro lugar, o evangelista João insiste sobre a sua amizade com Lázaro e com as irmãs Maria e Marta. Ele ressalta o fato de que “Jesus era muito amigo” deles ( Jo11, 5 ), e por isso quis realizar o grande prodígio. “O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou acordá-lo” ( Jo11,11 ) – assim disse aos discípulos, expressando com a metáfora do sono o ponto de vista de Deus sobre a morte física: Deus vê-a precisamente como um sono, do qual nos pode despertar. Jesus demonstrou um poder absoluto em relação a esta morte: vê-se isto, quando restitui a vida ao filho da viúva de Nain ( Lc 7, 11-17 ) e à menina de doze anos ( Mc 5, 35-43 ). Precisamente dela, disse: “A menina não morreu, ela dorme” ( Mc 5, 39 ), atraindo sobre si o escárnio dos presentes. Mas, na verdade é exatamente assim: a morte do corpo é um sono do qual Deus pode acordar-nos em qualquer momento.

Este senhorio sobre a morte não impediu que Jesus sentisse compaixão pela dor da separação. Ao ver Marta e Maria chorando e quantos tinham vindo para as consolar, também Jesus “suspirou profundamente e comoveu-se” ( Jo 11, 33.35 ). O Coração de Cristo é divino-humano: nele, Deus e Homem encontraram-se perfeitamente, sem separação nem confusão. Ele é a imagem, aliás, a Encarnação do Deus que é amor, misericórdia e ternura paterna e materna, do Deus que é Vida. Por isso, declarou solenemente a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá para sempre” Depois, acrescentou: “Crês nisto?” ( Jo11, 25-26 ).

É uma pergunta que Jesus dirige a cada um de nós; uma interrogação que certamente supera, ultrapassa a nossa capacidade de compreender e exige que confiemos n’Ele, como Ele se confiou ao Pai. A resposta de Marta é exemplar: “Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo” (Jo 11, 27). Sim, ó Senhor! Também nós acreditamos, não obstante as nossas dúvidas e as nossas obscuridades; cremos em Ti, porque Tu tens palavras de vida eterna; desejamos acreditar em Ti, que nos infundes uma confiável esperança de vida para além da vida, de vida autêntica e repleta no teu Reino de luz e de paz.

Dirijamo-nos à Virgem Maria, que já participa desta Ressurreição, para que nos ajude a dizer com fé: “Sim, ó Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo11, 27), a descobrir verdadeiramente que Ele é a nossa salvação. Possa a sua intercessão revigorar a nossa fé e a nossa esperança em Jesus, especialmente nos momentos de maior provação e dificuldade.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

       

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