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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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mar 31

A PALAVRA DO PSICÓLOGO

DANIEL FRANÇA - 2

ISOLAMENTO SOCIAL NÃO É ISOLAMENTO EMOCIONAL

*Por Daniel C. França –

Em tempos de Coronavírus precisamos desenvolver a inteligência emocional, pois o tempo todo somos bombardeados por muitas informações e muitas delas fake news, então, informe-se nem que seja duas vezes por dia; seja seletivo e busque por sites e emissoras confiáveis. Precisamos gerenciar o que recebemos de informação e o que reforçamos de pensamentos.

A recomendação dos órgãos de saúde é que higienizemos bem as mãos e não as levemos aos olhos, boca e nariz e que participemos do isolamento social proposto pelas autoridades sanitárias. Isso não significa isolamento emocional. Usemos as redes sociais para nos comunicar com os nossos familiares e amigos. Não deixemos que o isolamento social crie o isolamento emocional.

Aproveitemos este tempo para fazer uma leitura, um curso, arrumar as suas coisas, assistir um filme ou série, executar atividades relaxantes ou alguma outra atividade que você não tinha tempo de fazer pela correria da vida. Desacelere!

Neste momento de pandemia, medo, ansiedade, não negligencie a sua saúde emocional. Pois ela tornará mais forte o seu sistema imunológico. A sua emoção saudável é essencial para vencermos está guerra. Faça psicoterapia!

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* Daniel C. de França é Psicólogo Clínico (CRP 05/57727),  palestrante e Pós-graduando em Neuropsicologia. Administra o site https://psicologodanielfra.wixsite.com/website/post/isolamento-social-não-é-isolamento-emocional. Disponibiliza contatos por meio de chat, no próprio site, pelo Whatsapp (21) 97310-3380 ou pelo email psicologodanielfranca@gmail.com

mar 29

COMENTÁRIO AO EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA (MONSENHOR)

ZÉ MARIA - 2018

V DOMINGO DA QUARESMA – JESUS E A MORTE –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No evangelho (Jo 11, 1-45) Jesus se apresenta como o SENHOR DA VIDA. A doença e a morte do amigo Lázaro constituem ótima oportunidade para uma profissão de fé em Jesus Cristo, que se apresenta como a Ressurreição e a Vida. Entre as ressurreições operadas por Cristo, a de Lázaro tem uma importância fundamental, pois se trata de um morto que está no sepulcro há quatro dias. A resposta dada por Jesus àqueles que Lhe anunciam a doença de Lázaro: “Essa doença não leva à morte; é antes para a glória de Deus” (Jo 11,4): A glória de que fala Cristo, diz Santo Agostinho, “não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte.”

É encantador o diálogo entre Jesus e Marta: “Disse Marta a Jesus: Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas, mesmo assim eu sei que o que pedires a Deus, Ele te concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. Eu sei, disse Marta, que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia! Disse-lhe Jesus: Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais! Crês isto? Disse ela: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (Jo 11, 21-27). Segundo Santo Agostinho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…) Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos.” “Eu sou a Ressurreição e a Vida …” (Jo 11, 25).

Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo! É a Ressurreição porque com a Sua Vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (1 Cor 15,23; Col. 1,18).

Por isso, para quem tem fé a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia dos defuntos: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos Céus, um corpo imperecível.” “ E Jesus chorou” (Jo 11, 35). Podemos contemplar a profundidade e delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal do amigo arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? Disse Santo Agostinho: “ Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo senão para ensinar o homem a chorar?” Choremos nós também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Senhor, que chora por nós, pecadores. Disse São Josemaria Escrivá: “Jesus é teu amigo.   – O Amigo. – Com coração de carne, como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… E, tanto como a Lázaro, te ama a Ti” (Caminho, nº 422).  “Meu Deus, eu Te amo, mas… ensina – me a amar!” (Caminho, 423).

A Jesus que diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá” ( Jo 11, 25-26 ). Eis a verdadeira novidade, que prorrompe e supera qualquer barreira! Cristo abate o muro da morte, n’Ele habita toda a plenitude de Deus, que é Vida, Vida eterna. Por isso, a morte não teve poder sobre Ele; e a ressurreição de Lázaro é sinal do seu domínio pleno sobre a morte física, que diante de Deus é como um sono (Jo 11,11). Mas há outra morte, que custou a Cristo a luta mais dura, inclusive o preço da Cruz: é a morte espiritual, o pecado, que ameaça arruinar a existência de cada homem.

Para vencer esta morte, Cristo morreu, e a sua Ressurreição não é o regresso à vida precedente, mas a abertura de uma Realidade nova, uma “nova Terra”, finalmente reunida com o Céu de Deus. Por isso São Paulo escreve: “ Se o Espírito de Deus, que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos dará a vida também aos vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em vós” ( Rm 8,11 ).

Ao aproximar-se a Páscoa, o relato da ressurreição de Lázaro é uma exortação para que nos libertemos, cada vez mais, do pecado, confiando no poder vivificador de Cristo que quer tornar os homens participantes de Sua própria ressurreição. Santo Agostinho vê na ressurreição de Lázaro uma figura do Sacramento da Penitência (Confissão): como Lázaro do túmulo, “sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária.

E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desligares na terra, será desligado no céu”. Podemos aplicar esse fato à ressurreição espiritual da alma em pecado que recobre a graça. Deus quer a nossa salvação (1 Tm 2,4), portanto, jamais havemos de desanimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta: “Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: já fede, porque há quatro dias que está enterrado (Jo 11, 3-9), diz Marta a Jesus. “Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (Lázaro vem para fora!), voltarás à Vida” (Caminho, nº 719). Pela fé em Jesus Cristo, Vida e Ressurreição, resolve-se a questão mais fundamental do homem: a vida. Jesus nos garante: “ Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá. Que a Quaresma nos ajude na conversão ruma à Páscoa! Como discípulos missionários ajudemos os muitos Lázaros que estão no sepulcro, esperando por quem grite: “Lázaro, vem para fora!”.

Na realidade, esta página do Evangelho mostra Jesus como verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Em primeiro lugar, o evangelista João insiste sobre a sua amizade com Lázaro e com as irmãs Maria e Marta. Ele ressalta o fato de que “Jesus era muito amigo” deles ( Jo11, 5 ), e por isso quis realizar o grande prodígio. “O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou acordá-lo” ( Jo11,11 ) – assim disse aos discípulos, expressando com a metáfora do sono o ponto de vista de Deus sobre a morte física: Deus vê-a precisamente como um sono, do qual nos pode despertar. Jesus demonstrou um poder absoluto em relação a esta morte: vê-se isto, quando restitui a vida ao filho da viúva de Nain ( Lc 7, 11-17 ) e à menina de doze anos ( Mc 5, 35-43 ). Precisamente dela, disse: “A menina não morreu, ela dorme” ( Mc 5, 39 ), atraindo sobre si o escárnio dos presentes. Mas, na verdade é exatamente assim: a morte do corpo é um sono do qual Deus pode acordar-nos em qualquer momento.

Este senhorio sobre a morte não impediu que Jesus sentisse compaixão pela dor da separação. Ao ver Marta e Maria chorando e quantos tinham vindo para as consolar, também Jesus “suspirou profundamente e comoveu-se” ( Jo 11, 33.35 ). O Coração de Cristo é divino-humano: nele, Deus e Homem encontraram-se perfeitamente, sem separação nem confusão. Ele é a imagem, aliás, a Encarnação do Deus que é amor, misericórdia e ternura paterna e materna, do Deus que é Vida. Por isso, declarou solenemente a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá para sempre” Depois, acrescentou: “Crês nisto?” ( Jo11, 25-26 ).

É uma pergunta que Jesus dirige a cada um de nós; uma interrogação que certamente supera, ultrapassa a nossa capacidade de compreender e exige que confiemos n’Ele, como Ele se confiou ao Pai. A resposta de Marta é exemplar: “Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo” (Jo 11, 27). Sim, ó Senhor! Também nós acreditamos, não obstante as nossas dúvidas e as nossas obscuridades; cremos em Ti, porque Tu tens palavras de vida eterna; desejamos acreditar em Ti, que nos infundes uma confiável esperança de vida para além da vida, de vida autêntica e repleta no teu Reino de luz e de paz.

Dirijamo-nos à Virgem Maria, que já participa desta Ressurreição, para que nos ajude a dizer com fé: “Sim, ó Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo11, 27), a descobrir verdadeiramente que Ele é a nossa salvação. Possa a sua intercessão revigorar a nossa fé e a nossa esperança em Jesus, especialmente nos momentos de maior provação e dificuldade.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

       

mar 22

COMENTANDO O EVANGELHO: PADRE JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

 IV DOMINGO DA QUARESMA – A CURA DE UM CEGO –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Celebrando o 4º Domingo da Quaresma, o Evangelho (Jo 9, 1-41) nos apresenta o tema da Luz. Os discípulos, segundo a mentalidade comum do tempo, dão por certo que a sua cegueira seja consequência de um pecado seu e dos seus pais. Ao contrário, Jesus rejeita este preconceito e afirma: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim, para se manifestarem as obras de Deus” (Jo 9, 3). Que conforto nos oferecem estas palavras! Elas fazem-nos ouvir a voz viva de Deus, que é Amor providente e sábio! Perante o homem marcado pelo limite do sofrimento, Jesus não pensa em eventuais culpas, mas na Vontade de Deus que criou o homem para a vida. E por isso declara solenemente: “É necessário que Eu faça as obras daquele que me enviou... Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo” (Jo 9, 4-5). E imediatamente passa à ação: com um pouco de terra e de saliva faz lama e com ela unge os olhos do cego. Este gesto faz alusão à criação do homem, que a Bíblia narra com o símbolo da terra plasmada e animada pelo sopro de Deus (Gn 2, 7). “Adão, de fato, significa “barro”, e o corpo humano é composto de elementos da terra. Curando o homem, Jesus realiza uma nova criação. Mas aquela cura suscita um debate animado, porque Jesus a realiza no sábado, transgredindo, segundo os fariseus, o preceito festivo. Assim, no final da narração, Jesus e o cego são “expulsos” pelos fariseus: um porque violou a lei e o outro porque, apesar da cura, permanece marcado como pecador desde o nascimento.

Jesus unge os olhos do cego de nascença com lama feita a partir da saliva. Jesus como que inicia com um rito. Toca os olhos do cego, concedendo-lhe a visão. E, aos poucos no diálogo com ele, vai- lhe despertando a fé. E o cego acaba vendo, à luz da fé, que Jesus é o Filho do Homem. Acaba dando testemunho dele.

A cura do cego descreve o processo da fé de um homem, que vai passando das trevas da cegueira, para a luz da visão, e desta para a Luz da fé em Cristo. O “Cego” é um símbolo de todos os homens que renascem pela fé, acolhendo Jesus (no Batismo) e deixando-se conduzir pela sua palavra.

A pergunta que o Senhor Jesus dirige àquele que tinha sido cego, constitui o ápice da narração: “Tu crês no Filho do Homem?” (Jo 9, 35). Aquele homem reconhece o sinal realizado por Jesus e passa da luz dos olhos para a luz da fé: “Creio, Senhor” (Jo 9, 38). Deve ser evidenciado como uma pessoa simples e sincera, de modo gradual, realiza um caminho de fé: num primeiro momento encontra Jesus como um “homem” entre os outros, depois considera-o um “profeta”, por fim os seus olhos abrem-se e O proclama “Senhor”. Em oposição à fé do cego curado está o endurecimento do coração dos fariseus que não querem aceitar o milagre, porque se recusam a acolher Jesus como o Messias.

Tudo começa por uma pergunta dos discípulos a Jesus: “Por que esse homem nasceu cego?” ”Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais ?” (Jo 9,2). Jesus responde: “Nem ele, nem seus pais pecaram…” (Jo 9,3). Com essa resposta Jesus lembra o que os profetas já combatiam que era uma crença popular antiga que pensavam que o cego estava pagando pelos seus pecados ou dos seus antepassados. Trata-se de uma crença errada, semelhante ao absurdo da reencarnação. Esta é uma crença espírita, não é cristã. A Palavra de Deus nos diz: “os homens morrem uma só vez, depois vem o juízo” (Hb 9,27). A reencarnação é uma injustiça! É negar a obra redentora de Cristo e afirmar que é o próprio homem que se salva, por etapa, cada vez mais que se reencarna. É a onda do reciclável, como lixo.

“Nem ele, nem seus pais pecaram…”. Com isso Jesus quer nos ensinar que os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no seu amor, se nos abandonarmos nas suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece. “Se Deus é por nós, quem será contra nós ?” Até na dor e no sofrimento Deus está presente.

O mundo hedonista, consumista e superficial não compreende isso! O cego é questionado pelas autoridades sobre a origem de Jesus. E ele mostra-se livre (diz o que pensa…); corajoso (não se intimida); sincero (não renuncia à verdade); suporta a violência ( é expulso da Sinagoga). Antes de se encontrar com Jesus, o cego é um homem prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. “Não sabe quem o curou…” Finalmente, encontrando-se com Jesus, que lhe pergunta: “Acreditas no Filho do Homem”, manifesta a sua adesão total: “Creio, Senhor”. Prostra-se e O adora. O caminho de fé do cego é um itinerário para todo cristão! São Josemaria Escrivá, em Amigos de Deus, nº 193, diz: “Que exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa. É assim que te comportas com as indicações que Deus te faz, quando muitas vezes estás cego, quando a luz se oculta por entre as preocupações da tua alma? Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem umedecidos? Teria sido mais adequado um colírio misterioso, um medicamento precioso preparado no laboratório de um sábio alquimista. Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena, e volta com os olhos cheios de claridade”. Nesta Quaresma, somos convidados a viver a experiência catecumenal, renovando o nosso Batismo, mediante o Sacramento da Penitência (Confissão).

A Quaresma é um tempo que nos convida a fazermos uma boa Confissão dos nossos pecados, pois eles são a causa da nossa cegueira espiritual. O pecado nubla e ofusca a nossa mente, mancha a nossa afetividade, debilita a nossa vontade. E assim adoecemos de cegueira espiritual, como este cego de nascença ( Evangelho ), que estava jogado fora do templo, pedindo esmola. Jesus exige que nos aproximemos dEle com fé que gritemos com confiança e que obedeçamos quando nos manda descer para banhar na piscina de Siloé da Confissão. Quanto mais buscamos Jesus como Luz, mais nossa vida terá sentido! O nosso comportamento de cristão deve ser testemunho do Batismo recebido; devemos testemunhar com as obras que Cristo é para nós, não apenas luz da mente, mas também luz da vida. Não são as obras das trevas – o pecado – as que correspondem a um batizado, mas sim as obras da luz.

Como o cego, após o encontro com Jesus, iluminado, manifestemos a alegria de sermos cristãos! “A alegria do discípulo não é um sentimento de bem estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é a nossa alegria” (DA, 29).

Finalmente, cada um de nós deve se aproximar de Cristo Luz, que quer iluminar a nossa vida, a nossa alma, os nossos projetos, as nossas empresas.

“Ó Deus, luz de todo o ser humano que vem a este mundo, iluminai nossos corações com o esplendor da vossa graça, para pensarmos sempre o que vos agrada e amar-vos de todo o coração.”

Ao cego curado, Jesus revela que veio ao mundo para fazer um juízo, para separar os cegos curáveis dos que não se deixam curar, porque presumem ser sadios. De fato, é forte no homem a tentação de construir para si um sistema de segurança ideológica: também a própria religião pode tornar-se elemento desse sistema, assim como o ateísmo, ou o laicismo, mas fazendo assim permanece-se cego pelo próprio egoísmo. Deixemo-nos curar por Jesus, que pode doar-nos a luz de Deus! Confessemos as nossas cegueiras, as nossas miopias, e, sobretudo, aquelas que a Bíblia chama a “grande falta” (cf. Sl 18,14): o orgulho. Ajude-nos nisto Maria Santíssima, que, gerando Cristo na carne, deu ao mundo a verdadeira Luz.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

 

mar 22

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DA QUARESMA – O SENHOR É O PASTOR, NÃO ME FALTA COISA ALGUMA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Davi é ungido rei de Israel.

Os relatos bíblicos falam de três unções de Davi como rei: é ungido pelos homens de Judá como rei da casa de Judá; é ungido pelas tribos como rei de Israel, em reconhecimento de suas qualidades de liderança político-militar. A terceira foi uma unção prévia, de caráter carismático, por iniciativa do profeta Samuel e por indicação divina. O critério desta última é a escolha por iniciativa exclusiva de Deus, pois “o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 9). Outro critério é que Deus escolhe alguém que sabia cuidar de ovelhas para ser o pastor e cuidar de seu povo Israel. Depois de Davi ter sido ungido por Samuel, “o espírito do Senhor se apoderou de Davi”, para salvar Israel dos inimigos que ameaçavam, para julgá-lo como juiz e para trazer-lhe segurança e paz. – A unção de Davi nos remete para ao batismo de Jesus por João Batista, quando foi ungido pelo Espírito do Senhor a fim de exercer sua missão de Messias, Servo Sofredor. Lembra também a nossa unção batismal.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz;

não me falta coisa alguma.

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 5,8-14

Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá.

A carta aos Efésios, atribuída a Paulo quando estava na prisão, foi provavelmente escrita por um discípulo na década de 90. Respira a teologia de Paulo, mas também a do Evangelho de João. O símbolo “luz x trevas” estão bem presente em João: “A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam” (Jo 1,5). No diálogo com Nicodemos Jesus diz: “A luz veio ao mundo e as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). Mais adiante (8,12) Jesus se apresenta como a luz do mundo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. A 2ª leitura é um texto batismal, caracterizada pelos símbolos “luz” (5 vezes) e “trevas” (2 vezes). Quem é batizado e segue a sua fé produz os frutos da luz: bondade, justiça, verdade. A luz da fé leva o cristão a “discernir o que agrada ao Senhor” – a prática do bem – e afastar-se das “obras das trevas”

A leitura conclui-se com um hino batismal: “Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”. Iluminado por Cristo pelo batismo, o cristão não pode ficar parado (Evangelho), mas se compromete a seguir a Jesus Cristo, luz do mundo. Como filho da luz (1Ts 5,5). Jesus expressa muito bem o que é ser iluminado por sua luz: “Vós sois a luz do mundo (...). Vossa luz deve brilhar diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,12-16). A maturidade da vida cristã se reflete nos frutos da luz: bondade, justiça, verdade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Louvor e honra a vós, Senhor Jesus.

Pois, eu sou a luz do mundo, quem nos diz é o Senhor;

E vai ter a luz da Vida quem se faz meu seguidor!

3. EVANGELHO: Jo 9,1.6-9.13-17.34-38

O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.

Lemos hoje apenas uma síntese do relato completo da cura do cego de nascença, que se compõe de seis cenas. Na síntese é omitida completamente a cena dos pais que são interpelados pelos fariseus e confirmam que o cego curado é o filho deles e que nasceu cego. Nos interrogatórios os fariseus (cegos) lutam contra as evidências. No texto mais longo, quatro vezes se afirma que se tratava de um cego de nascença; onze vezes é constatada a cura e três vezes se repete a frase descritiva da cura: “Fui, lavei-me e estou vendo”. O cego não só recobrou a vista, mas se lhe abriram os olhos da fé em Jesus, como Salvador e “Luz do mundo” (v. 5). Os olhos do cego vão se abrindo aos poucos para a fé. Primeiro ele diz: “aquele homem que se chama Jesus” (v. 11); depois, que Jesus é um profeta (v. 17); em seguida, que é o Cristo (v. 22), é um homem de Deus (v. 33), é o Filho do homem (v. 35) e, finalmente, que é o Senhor (v. 38). Enquanto o cego se abre cada vez mais à fé em Cristo, os fariseus se fecham sempre mais em sua cegueira. De juízes que se consideram (“Este homem não pode ser de Deus porque não observa o sábado”), acabam sendo julgados pelo cego, que é expulso da sinagoga. Jesus só aparece no início, quando cura o cego, e no fim, quando o cego é expulso da sinagoga. Então, Jesus conversa com ele, e o cego confessa sua fé e diz: “Eu creio, Senhor!” – e o adora. É admitido, portanto, à comunhão com Cristo. – A cura do cego tornou-se no decorrer do tempo uma parábola da iluminação batismal e da admissão na comunidade eclesial. A fé começa com o primeiro encontro com Jesus, cresce com o testemunho do cego e chega à plenitude com o novo encontro com Jesus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 15

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

III DOMINGO DA QUARESMA – JESUS E A MULHER –

*Por Mons. José Maria Pereira –

A Quaresma é para nós um tempo forte de conversão e renovação em preparação à PÁSCOA.

Nos textos bíblicos deste terceiro Domingo da Quaresma, encontram-se úteis motivos de meditação muito indicados para esta renovação espiritual. Através do símbolo da água, que encontramos na primeira leitura (Ex 17, 3-7) e no trecho evangélico  da Samaritana (Jo 4, 5 – 42), a Palavra de Deus transmite-nos uma mensagem sempre viva e atual: Deus tem sede da nossa fé e quer que encontremos n’Ele a fonte da nossa autêntica felicidade. O risco de cada crente é o de praticar uma religiosidade não autêntica, de não procurar em Deus a resposta às expectativas mais íntimas do coração, aliás, de usar Deus como se estivesse ao serviço dos nossos desejos e projetos.

Vemos no trecho bíblico de Ex 17, 3-7 o povo hebreu que sofre no deserto por falta de água e, tomado pelo desencorajamento, como noutras circunstâncias, se lamenta e reage de modo violento. Chega a revoltar-se contra Moisés, chega quase a revoltar-se contra Deus. Narra o autor sagrado: “Provocaram o Senhor, dizendo: ‘O Senhor está ou não no meio de nós’?” (Ex 17, 7). O povo exige que Deus venha ao encontro das próprias expectativas e exigências, em vez de se abandonar confiante nas suas mãos, e na prova perde a confiança n’Ele. Quantas vezes isto acontece também na nossa vida; em quantas circunstâncias, em vez de nos conformarmos docilmente com a Vontade divina, gostaríamos que Deus realizasse os nossos desígnios e satisfizesse todas as nossas expectativas! Em quantas ocasiões a nossa fé se manifesta frágil, a nossa confiança fraca, a nossa religiosidade contaminada por elementos mágicos e meramente terrenos! Neste tempo quaresmal, enquanto a Igreja nos convida a percorrer um itinerário de verdadeira conversão, acolhamos com humilde docilidade a admoestação do Salmo 94(95): ”Não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras”. O Simbolismo da água volta com grande eloquência na célebre página evangélica que narra o encontro de Jesus com a Samaritana em Sicar, junto do poço de Jacó.

Em Rm 5, 1-2. 5-8, São Paulo faz uma releitura significativa: A rocha é Cristo. Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito como rio de água viva. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

No Evangelho (Jo 4, 5-42), Jesus pede e oferece ÁGUA à Samaritana. A sede de Cristo é uma porta de acesso ao Mistério de Deus, que se fez sedento para nos aplacar a sede, assim como se fez pobre para nos enriquecer (cf. 2Cor 8, 9). Sim, Deus tem sede da nossa fé e do nosso amor. Como um pai bom e misericordioso deseja para nós todo o bem possível e esse bem é Ele mesmo. A mulher de Samaria por sua vez representa a insatisfação existencial de quem não encontrou o que procura: teve “cinco maridos” e agora convive com outro homem; o seu ir e voltar do poço para buscar água exprime uma vivência repetitiva e resignada. No entanto, tudo mudou para ela naquele dia, graças ao encontro com o Senhor Jesus, que a deixou abalada a ponto de abandonar o cântaro de água e correr para contar às pessoas da aldeia: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo?” (Jo 28 – 29).

O Evangelho da Samaritana é encantador! A fina psicologia de Jesus manifesta-se a cada passo. Jesus, cansado da caminhada, sentou-se junto ao poço. Quando se aproximava a mulher, Jesus lhe pede: “Dá-me de beber”. E estabelece-se o diálogo. Jesus apresenta-se como água viva. Quem beber dessa água nunca mais terá sede. É a água que jorra para a vida eterna. Quando a mulher lhe pede dessa água, para que não mais precise buscá-la no poço, Jesus penetra mais fundo na alma dessa mulher: “Vai, chama o teu marido e volta aqui”. Ela, por sua vez, responde que não tem marido. A mulher faz um ato de fé: ”Vejo que és profeta”. Aqui está já o começo de sua conversão.

Jesus a valoriza, louvando sua sinceridade, e a partir dessa sua fé incipiente, revela-lhe que é o Messias. E a Samaritana abandona o “Velho balde” e corre para a cidade, para anunciar ao povo a verdade que tinha encontrado.

Essa mulher desprezada, após escutar Jesus como Discípula, torna-se MISSIONÁRIA de Cristo, antes mesmo dos apóstolos…

Jesus veio para salvar o que estava perdido! Não poupará nenhum esforço para o conseguir. Eram proverbiais os ódios entre Judeus e Samaritanos; contudo, Jesus Cristo não exclui ninguém, mas o Seu amor estende-se a todas as almas, e por todas e cada uma vai derramar o Seu sangue.

Jesus inicia o diálogo com essa mulher samaritana mediante um pedido: “Dá-me de beber”: Jesus pede de beber não só pela sede física, mas porque tinha sede da salvação dos homens, por amor a eles. Estando cravado na Cruz voltou a dizer: “Tenho sede” (Jo 19,28).

No poço de Jacó se encontram duas “sedes”: a sede de Jesus e a sede da mulher samaritana. A mulher busca saciar a necessidade básica de água. Já Jesus, como dizia Santa Teresinha, “ao dizer tenho sede, era o amor que o Senhor requisitava, tinha sede de amor .” Esta sede, como o cansaço, tem uma base física. Mas Jesus, como diz Santo Agostinho, “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher”, assim como da fé de todos nós. A sede de Jesus sacia a sede da mulher.  Aos poucos, a samaritana desiste de sua busca imediata e passa a procurar uma água viva. Deus Pai enviou-O para saciar a nossa sede de vida eterna, concedendo-nos o seu amor, mas para nos oferecer esta dádiva, Jesus pede-nos a nossa fé. De fato, a um certo ponto, é a própria mulher que pede água a Jesus (cf. Jo 4, 15), manifestando assim que em cada pessoa há uma necessidade inata de Deus e da salvação que só Ele pode satisfazer. Uma sede de infinito que só pode ser saciada com a água que Jesus oferece, a água viva do Espírito. Ouviremos estas palavras no Prefácio da Missa: Jesus “pediu à mulher da Samaria água para beber, para lhe proporcionar o grande dom da fé, e desta fé teve uma sede tão ardente que acendeu nela a chama do amor de Deus”. Santo Agostinho aprofunda sua reflexão, dizendo: “Deus tem sede da nossa sede d’Ele, isto é, deseja ser desejado! Quanto mais o ser humano se afasta de Deus tanto mais Ele o segue com o seu amor misericordioso. A liturgia estimula-nos, hoje, tendo em consideração também o tempo quaresmal que estamos vivendo, a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.

Ensinava São Josemaria Escrivá: “Sempre que nos cansemos – no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica – sempre que no horizonte haja trevas, então é preciso olhar Cristo: Jesus bom, Jesus cansado, Jesus faminto e sedento. Como te fazes compreender bem, Senhor! Como te fazes amar! Mostras-te igual a nós em tudo, exceto no pecado, para que sintamos que contigo poderemos vencer as nossas más inclinações e as nossas culpas. Efetivamente, não têm importância o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas… Cristo cansou-Se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a luta – uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre ao nosso lado – para cumprir a vontade do Pai que está nos céus”

“Não nos enganemos. Nosso Senhor não depende nunca das nossas construções humanas. Para Ele, os projetos mais ambiciosos não passam de brincadeiras de crianças. Ele quer almas, quer amor. Quer que todos corram a usufruir do seu Reino, por toda a eternidade. Temos que trabalhar muito na terra, e temos que trabalhar bem, porque essas ocupações habituais são a matéria que devemos santificar. Mas nunca nos esqueçamos de as realizar por Deus ”  (Amigos de Deus, 201 e 202).

É profundo o diálogo de Jesus com a Samaritana. “Jesus pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o dom de Deus, diz Ele. O dom de Deus é o Espírito Santo. Que água lhe daria Ele, senão aquela da qual está escrito: em vós está a fonte da vida? (Sl 35, 10). Pois, como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada? (Sl 35, 9)

O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia e disse-Lhe: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Santo Agostinho). Também nós, já batizados, mas sempre a caminho para nos tornarmos verdadeiros cristãos, encontramos neste texto evangélico sobre a Samaritana um estímulo para redescobrir a importância e o sentido da nossa vida cristã, o verdadeiro desejo que vive em nós. Jesus quer levar-nos, como fez com a Samaritana, a professar a nossa fé n’Ele com força para que possamos depois anunciar e testemunhar aos nossos irmãos a alegria do encontro com Ele e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, reconhecido e acolhido como o Revelador definitivo e o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da Samaritana, a sua existência transforma-se e ela vai imediatamente sem hesitações comunicar a boa nova ao seu povo ( cf. Jo 4, 29 ).

A transformação que a graça opera na Samaritana é maravilhosa! O pensamento dessa mulher centra-se agora somente em Jesus e, esquecendo-se do motivo que a tinha levado ao poço, deixa o seu cântaro e dirige-se à aldeia para comunicar a sua descoberta! “Os Apóstolos, quando foram chamados, deixaram as redes, a Samaritana deixa o seu cântaro e anuncia o Evangelho, e não chama somente um, mas põe em alvoroço toda a cidade” (Hom. sobre São João, 33). Toda conversão autêntica projeta-se necessariamente para os outros, num desejo de os tornar participantes da alegria de se ter encontrado com Jesus.

Que a Caminhada quaresmal nos ajude a voltar ao POÇO, lugar de ENCONTRO.

Os homens continuam ainda hoje procurando um Poço, para saciar sua sede profunda de vida. Só Cristo mata definitivamente a sede de vida e felicidade do homem.

Como discípulos e missionários possamos, como a Samaritana, anunciar a todos o Cristo, nossa vida e felicidade…

Façamos nosso o pedido da Samaritana: “Senhor, dá-nos sempre dessa água!”

Cada um de nós pode identificar-se com a mulher samaritana: Jesus espera-nos, especialmente neste tempo de Quaresma, para falar ao nosso, ao meu coração. Permaneçamos um momento em silêncio, no nosso quarto, ou numa Igreja, ou num lugar afastado. Ouçamos a sua voz que nos diz: “Se conhecesses o dom de Deus...”. A Virgem Maria nos ajude a não faltar a este encontro, do qual depende a nossa verdadeira felicidade.

Abramos o coração à escuta confiante da Palavra de Deus para encontrar, como a Samaritana, Jesus que nos revela o seu amor e nos diz: o Messias, o teu Salvador “sou Eu, que falo contigo” ( Jo 4, 26 ). Que nos traga este dom Maria, primeira e perfeita discípula do Verbo feito carne.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

mar 15

UMA LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DA QUARESMA – UMA FONTE DE ÁGUA PARA A VIDA ETERNA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão de nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ex 17,3-7

O Senhor está no meio de nós ou não?

Moisés, em nome de Deus, apresenta o plano de libertação: Deixar de servir ao Faraó com trabalhos forçados, para servir somente ao Senhor, numa terra prometida aos antepassados. A primeira parte do plano foi concluída e o povo já não era mais escravo. Mas entre o Egito e a terra prometida havia um deserto; no Egito era abundante a água do rio Nilo e a terra irrigada era muito fértil. No deserto, só a penúria e escassez de água. Daí a revolta: O povo tenta a Deus, contesta a autoridade de Moisés e quase o apedreja. A reclamação – “Deus está, ou não está no meio de nós?” – mostra uma fé abalada no Deus libertador. Deus intervém e ordena que Moisés reassuma a liderança, tomando o seu bastão, símbolo do poder divino, bastão que estendeu para ferir o Egito (rio Nilo) e abrir um caminho no Mar Vermelho para o povo passar. Acompanhado pelos anciãos devia ir à frente do povo, bater na rocha perto do monte Horeb, na presença do Senhor. Moisés assim o fez e da rocha saiu água para matar a sede de todo o povo. Paulo diz que o povo bebeu uma água espiritual e que a rocha da qual saiu água era Cristo (1Cor 10,3-4). O símbolo da água nos remete para o tema quaresmal e pascal, o batismo. No Evangelho, Jesus se apresenta à Samaritana como a fonte de água viva.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 94

Hoje não fecheis o vosso coração,

mas ouvi a voz do Senhor!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 5,1-2.5-8

O amor foi derramado em nós

pelo Espírito que nos foi dado.

No trecho da Carta de Paulo aos Romanos, hoje lido, o Apóstolo nos fala das assim chamadas virtudes cardeais; elas são as mais importantes entre dons do Espírito: a fé, a esperança e a caridade/amor, dons que recebemos pelo batismo. Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo já exaltava a primazia do amor: “No presente permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor; mas a maior delas é o amor” (1Cor 13,13). Paulo lembra aos romanos que, por meio de Cristo, somos justificados pela graça da fé, confirmados pela esperança da glória e pelo dom do “amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”. Este dom nos foi dado por meio de Jesus Cristo, que “morreu por nós... quando éramos pecadores”, prova máxima do amor de Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Glória e louvor a vós, ó Cristo.

Na verdade, sois Senhor, o Salvador do mundo.

Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede!

3. EVANGELHO: Jo 4,5-42

Uma fonte de água viva que jorra para vida eterna.

O evangelho de hoje é a realização plena do que a primeira leitura prefigura. A água pedida pelos israelitas no deserto prefigura a água viva, dada por Jesus. Os hebreus pediam uma água que conheciam, mas não matava a sede. Jesus pede à Samaritana que lhe dê de beber da água do poço de Jacó (1ª leitura). A mulher estranha que Jesus (um judeu) lhe peça água, sendo ela uma Samaritana. Jesus responde que se o conhecesse ela mesma lhe pediria uma “água viva”, capaz de matar a sede para sempre. “E a água que eu lhe der – diz Jesus – se tornará nela uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana pede, então, a Jesus que lhe dê de beber desta “água viva” e recebe o dom de Deus, isto é, a fé no próprio Cristo Jesus. Torna-se ela mesma “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. De fato, ao final do diálogo, a Samaritana crê em Jesus e transforma-se em missionária do próprio povo: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo”? Jesus, que tinha sede, não bebe a água do poço de Jacó. Sua sede é dar a todos os que nele crêem a “água viva” (o Espírito Santo), a fim de que sejam para outros “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana, que buscava a água do poço de Jacó, recebe de Jesus a água viva que jorra para a vida eterna. Quando os discípulos insistiam que comesse alguma coisa Jesus responde: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (v. 34). – Como você busca saciar a sede de Deus em sua vida? A Samaritana missionária partilhou a “água viva” com seu povo. Você procura ser uma fonte da qual jorra a vida eterna para os outros?

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 08

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

II DOMINGO DA QUARESMA –  TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Hoje, segundo domingo da Quaresma, prosseguindo o caminho penitencial, a liturgia, depois de nos ter apresentado, no domingo passado, o Evangelho das tentações de Jesus no deserto, convida-nos a refletir sobre o acontecimento extraordinário da Transfiguração na montanha. Considerados juntos, os dois episódios antecipam o Mistério Pascal: a luta de Jesus com o tentador introduz o grande duelo final da Paixão, enquanto a luz do seu Corpo transfigurado antecipa a glória da Ressurreição. Por um lado vemos Jesus plenamente homem, que partilha conosco até a tentação, por outro, contemplamo-lo como Filho de Deus, que diviniza a nossa humanidade. Deste modo, poderíamos dizer que estes dois domingos servem de pilares sobre os quais se baseia todo o edifício da Quaresma até a Páscoa, e aliás, toda a estrutura da vida cristã, que consiste essencialmente no dinamismo pascal: da morte à vida (cf. Mt 17, 1-9).

A caminho de Jerusalém, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão. Disse que iria sofrer e padecer em Jerusalém, e que morreria às mãos dos príncipes dos sacerdotes, dos anciãos e dos escribas. Os apóstolos tinham ficado aflitos e tristes com a notícia. O caminho da salvação esperado pelos discípulos é bem diferente! Para fortalecer o ânimo profundamente abalado dos discípulos, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e leva-os a um lugar à parte para orar. Aí, no Monte Tabor, revela-lhes a glória da divindade. “Enquanto orava, o seu rosto transformou-se e as suas vestes tornaram-se resplandecentes” (Lc 9, 29). Foi então que Pedro, extasiado, exclamou: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (Mt 17, 4). Mas Santo Agostinho comenta, dizendo que nós dispomos de uma única morada: Cristo; Ele “é a Palavra de Deus, Palavra de Deus na Lei, Palavra de Deus nos Profetas”. Com efeito, o próprio Pai proclama: “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus todo o meu enlevo; escutai-O!” (Mt17, 5). A Transfiguração não é uma transformação de Jesus, mas sim a revelação da sua divindade, “a íntima compenetração do seu ser com Deus, que se torna pura luz. No seu ser um só com o Pai, o próprio Jesus é Luz da Luz”.  

São Leão Magno diz que “a finalidade principal da Transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz.”

Pela Transfiguração, Deus demonstra que uma existência feita dom não é fracassada, mesmo quando termina na Cruz. Também nos revela que Jesus é “o Filho amado do Pai” e nos convida a escutar o que Ele diz.

A Transfiguração do Senhor antecipa a Ressurreição e anuncia a divinização do homem. Conduz-nos a um alto Monte para acolher de novo, em Cristo, como filhos do Filho, o dom da Graça de Deus: “Este é o meu Filho amado: Escutai-O.” É um acontecimento de oração: rezando, Jesus imerge-se em Deus, une-se intimamente a Ele, adere com a própria vontade humana à Vontade de amor do Pai, e assim a luz invade-O e torna-se visível a verdade do seu Ser: Ele é Deus, Luz da Luz. Também a veste de Jesus se torna branca e resplandecente. Contemplando a divindade do Senhor, Pedro, Tiago e João são preparados para enfrentar o escândalo da cruz, como se entoa num hino antigo: “Sobre o mundo te transfiguraste, e os teus discípulos, na medida que lhes era possível, contemplaram a tua Glória a fim de que, vendo-te crucificado, compreendessem que a tua Paixão era voluntária e anunciassem ao mundo que Tu és verdadeiramente o esplendor do Pai”.

A Transfiguração foi uma centelha de glória divina que inundou os apóstolos de uma felicidade tão grande que fez Pedro exclamar: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas…” (Mt 17, 4). Pedro quer prolongar aquele momento. Mas, Pedro não sabia o que dizia; pois o que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte, e vê-lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos. Se estamos com Ele, tanto faz que estejamos rodeados dos maiores consolos do mundo ou prostrados no leito de um hospital, padecendo dores terríveis. O que importa é somente isto: vê-lo e viver sempre com Ele! Esta é a única coisa verdadeiramente boa e importante na vida presente e na outra. Desejo ver-te, Senhor, e procurarei o teu rosto nas circunstâncias habituais da minha vida!

São Beda diz que o Senhor, “numa piedosa autorização, permitiu que Pedro, Tiago e João fruíssem durante um tempo muito curto da contemplação da felicidade que dura para sempre, a fim de fortalecê-los perante a adversidade”. A lembrança desses momentos ao lado do Senhor, no Tabor, foi sem dúvida uma grande ajuda nas várias situações difíceis em que estes três Apóstolos viriam a passar.

A Transfiguração leva-nos a pensar no Céu, que é a nossa morada. O Senhor quer confortar-nos com a esperança do Céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa condição: “à hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (Caminho, 139).

O pensamento da glória que nos espera deve animar-nos na nossa luta diária. Nada vale tanto como ganhar o Céu. Ensina Santa Teresa: “E se fordes sempre avante com essa determinação de antes morrer do que desistir de chegar ao termo da jornada, o Senhor, mesmo que vos mantenha com alguma sede nesta vida, na outra, que durará para sempre, vos dará de beber com toda abundância e sem perigo de que vos venha a faltar.”

“Este é o meu Filho amado: ouvi-O”. Deus Pai fala através de Jesus Cristo a todos os homens, de todos os tempos. Ensina São João Paulo II: “procura continuamente as vias para tornar próximo do gênero humano o mistério do seu Mestre e Senhor: próximo dos povos, das nações, das gerações que se sucedem e de cada um dos homens em particular” (Encíclica Redemptor Hominis, 7). A sua voz faz-se ouvir em todas as épocas, sobretudo através dos ensinamentos da Igreja.

Nós devemos encontrar Jesus na nossa vida corrente, no meio do trabalho, na rua, nos que nos rodeiam, na oração, quando nos perdoa no Sacramento da Penitência (Confissão), e sobretudo na Eucaristia, onde se encontra verdadeira, real e substancialmente presente. Devemos aprender a descobri-Lo nas coisas ordinárias, correntes, fugindo da tentação de desejar o extraordinário.

Também nós participamos desta visão e desta dádiva sobrenatural, reservando espaço à oração e à escuta da Palavra de Deus. Além disso, especialmente neste período da Quaresma exorto, como escreve São Paulo Vl, “a responder ao preceito divino da penitência, com algumas obras voluntárias, para além das renúncias impostas pelo peso da vida quotidiana” (Constituição Apostólica, Paenitemini, 17 fevereiro de 1966). Invoquemos a Virgem Maria, a fim de que nos ajude a ouvir e seguir sempre o Senhor Jesus, até à Paixão e à Cruz, para participar também da sua Glória.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

mar 08

LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – EIS MEU FILHO MUITO AMADO, ESCUTAI-O, TODOS VÓS –

*Por Frei Ludovico Garmus –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai o nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão de vossa glória”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Gn 12,1-4a

Vocação de Abraão, pai do povo de Deus.

A vocação e missão de Abraão estão ligadas à promessa divina de uma terra e de uma grande descendência. Será uma bênção o simples fato de alguém ser descendente de Abraão. A promessa inclui também uma grande bênção: “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (v. 3); isto é, a salvação para todos os povos. Movido pela fé (cf. Rm 4), Abraão larga o conforto e a segurança da terra natal e parte para o desconhecido, confiando nas promessas divinas. A fé do patriarca Abraão torna-se modelo (Hb 10) para todos os seus descendentes e para os cristãos em geral: “A fé é o fundamento do que se espera e a prova das realidades que não se veem” (Hb 11,1). Em Abraão, Deus começa e revelar o plano de sua graça – a nossa salvação –, plano mantido em segredo desde toda a eternidade. Este desígnio de salvação “foi revelado agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo” (2ª leitura).

Nós também, cheios de confiança, pelas palavras do Salmo responsorial, rezamos com a Igreja: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça! Venha a vossa salvação”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 32

Sobre nós, Senhor, venha a vossa graça!

Venha a vossa salvação.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Tm 1,8b-10

Deus nos chama e ilumina.

Paulo está na prisão e nesta Carta convida seu bispo Timóteo a sofrer com ele pelo Evangelho que os dois estão anunciando, movidos pela força que vem de Deus. Participar do anúncio do Evangelho é um chamado de Deus para a salvação, “por uma vocação santa”. A salvação a qual Deus nos chama não se deve a nossas boas obras, mas é fruto da graça divina. Esta graça, escondida, mas garantida, desde toda a eternidade, foi revelada somente agora, pela manifestação de Jesus Cristo. Apenas agora Deus fez brilhar a vida e a imortalidade, através do Evangelho. – A manifestação de Jesus Cristo se dá pela sua vida terrena, pela sua morte e ressurreição, como vemos na Transfiguração (Evangelho). O caminho para a ressurreição passa pela cruz.

Jesus tinha um objetivo em sua vida: Trazer o Reino de Deus, que Ele anunciou e viveu. Ao término de sua viagem a Jerusalém, quis livremente doar sua vida pela nossa salvação. Ressuscitando dos mortos, abriu o caminho da imortalidade para toda a humanidade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória.

Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai:

Eis meu Filho muito amado, escutai-o, todos vós.

3. EVANGELHO: Mt 17,1-9

O seu rosto brilhou como o sol.

Quando Mateus escreve seu Evangelho, seguindo o evangelho de Marcos, coloca a cena da transfiguração na grande viagem de Jesus da Galileia a Jerusalém (Mt 16–20). Os ensinamentos de Jesus e os acontecimentos ao longo desta viagem constituem uma catequese para a vida cristã. Chamam a nossa atenção os três anúncios da paixão e ressurreição de Jesus (Mt 17,21-23; 17,22-23; 20,17-19). Para nós, que vivemos após os acontecimentos, parece tudo claro: Jesus é Messias (Cristo), o Filho de Deus enviado pelo Pai a este mundo, que pregou e viveu o Reino de Deus, morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia. Mas nada era claro para os apóstolos e o povo que seguia Jesus. Quando Pedro confessou Jesus como o Cristo, pensava que o Mestre acabaria sendo proclamado rei em Jerusalém. Achou-se no direito de repreender o próprio Mestre, quando este falava de sua morte em Jerusalém; por isso Jesus o chamou de “satanás”, isto é, alguém que se opõe ao plano divino. Depois disso é que vem a presente cena da Transfiguração. E ainda no mesmo cap. 17 Jesus anuncia, pela segunda vez, sua morte e ressurreição. É neste contexto que devemos ler a Transfiguração. Era noite e, enquanto Pedro Tiago e João dormem envolvidos pelo sono, Jesus está em profunda oração junto ao Pai. De repente, os discípulos acordam e veem Jesus com o rosto brilhante e suas vestes resplandecentes de luz, tendo a seu lado Moisés e Elias. Pedro, então, exclama: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”... Parece ter esquecido que estavam a caminho de Jerusalém e pouco antes da visão gloriosa Jesus lhes falava de sua próxima morte. Por isso, a voz do céu insiste: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o”.

Sim, o fato de o Pai ter permitido a morte violenta de seu Filho amado é a manifestação máxima de seu amor por nós. Ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida por seus amigos – diz Jesus. Muitos anos depois, Pedro, na Segunda Epístola, recorda a cena da Transfiguração: (Jesus) “Recebeu de Deus Pai a honra e a glória, quando da glória magnífica se fez ouvir a voz que dizia: ‘Este é o meu filho amado, de quem eu me agrado’. E esta voz, que veio do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2Pd 1,17-18).

O Evangelho que hoje meditamos nos ensina a não pararmos em nossa vida no monte da transfiguração (“Senhor, é bom ficarmos aqui...”). Como discípulos e discípulas de Jesus, somos convidados a seguir Jesus até o Calvário, aguardando sua gloriosa ressurreição, ao terceiro dia.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 01

COMENTANDO O EVANGELHO: MONS. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

I DOMINGO DA QUARESMA – AS TENTAÇÕES DE JESUS!

*Por Mons. José Maria Pereira –

Na Quarta-feira passada, com o jejum e com o rito das Cinzas, entramos na Quarema. Mas o que significa “entrar na Quaresma”? Significa começar um tempo de compromisso particular no combate espiritual que nos opõe ao mal presente no mundo, em cada um de nós e à nossa volta. Significa enfrentar o mal e dispor-se a lutar contra os seus efeitos, sobretudo contra as suas causas, até à causa última, que é Satanás. Significa não descarregar o problema do mal sobre os outros, sobre a sociedade ou sobre Deus, mas reconhecer as próprias responsabilidades e ocupar-se delas conscientemente. A este propósito ressoa muito urgente, para nós cristãos, o convite de Jesus a assumir cada um a sua “cruz” e a segui-Lo com humildade e confiança (Mt 16, 24). A “cruz”, por mais pesada que seja, não é sinônimo de infelicidade, de desgraça a ser evitada o mais possível, mas oportunidade para se pôr no seguimento de Jesus e assim adquirir força na luta contra o pecado e o mal. Portanto, entrar na Quaresma significa renovar a decisão pessoal e comunitária de enfrentar o mal junto com Cristo. O caminho da Cruz é, de fato, o único que leva à vitória do amor sobre o ódio, da partilha sobre o egoísmo, da paz sobre a violência. Vista assim, a Quaresma é verdadeiramente uma ocasião de grande empenho ascético e espiritual fundado na Graça de Cristo. Em síntese, trata-se de seguir Jesus que se dirige decididamente rumo à Cruz, auge da sua missão de salvação.

O primeiro Domingo da Quaresma nos apresenta, todos os anos, o mistério do jejum de Jesus no deserto, seguido das tentações (Mt 4, 1-11).

Quaresma é para nós um tempo forte de conversão e renovação em preparação à Páscoa. É tempo de rasgar o coração e voltar ao Senhor. Tempo de retomar o caminho e de se abrir à graça do Senhor, que nos ama e nos socorre. É um tempo sagrado para aprofundar o Plano de Deus e rever a nossa vida cristã. E nós somos convidados pelo Espírito ao DESERTO da Quaresma para nos fortalecer nas TENTAÇÕES, que frequentemente tentam nos afastar dos planos de Deus.

A Quaresma comemora os quarenta dias que Jesus passou no deserto, como preparação para esses anos de pregação que culminam na CRUZ e na glória da Páscoa. Quarenta dias de oração e de penitência que, ao findarem, desembocam na cena que Mateus narra no cap. 4, 1-11. É uma cena cheia de mistério, que o homem em vão pretende entender – Deus que se submete à tentação, que deixa agir o Maligno –, mas que pode ser meditada se pedirmos ao Senhor que nos faça compreender a lição que encerra.

É a primeira vez que o demônio intervém na vida de Jesus, e faz isto abertamente. Põe à prova Nosso Senhor; talvez queira averiguar se chegou a hora do Messias. Jesus deixa-o agir para nos dar exemplo de humildade e para nos ensinar – diz São João Crisóstomo –, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo de inesperado. Se não contássemos com as tentações que temos de sofrer, abriríamos a porta a um grande inimigo: o desalento e a tristeza.

A narrativa das tentações que Jesus sofreu mostra que Jesus “foi experimentado em tudo” (Hb 4, 15), comprovando também a veracidade da Encarnação do Verbo de Deus.

Diz Santo Agostinho que, na sua passagem por este mundo nossa vida não pode escapar à prova da tentação, dado que nosso progresso se realiza pela prova. De fato, ninguém se conhece a si mesmo sem ser experimentado, e não pode ser coroado sem ter vencido, e não pode vencer, se não tiver combatido e não pode lutar se não encontrou o inimigo e as tentações.

Por isso, a existência do ser humano nesta terra é uma batalha contínua contra o mal. É esta luta contra o pecado, a exemplo de Cristo, que devemos intensificar nesta Quaresma; luta que constitui uma tarefa para a vida toda.

O demônio promete sempre mais do que pode dar. A felicidade está muito longe das suas mãos. Toda a tentação é sempre um engano miserável! Mas, para nos experimentar, o demônio conta com as nossas ambições. E a pior delas é desejar a todo o custo a glória pessoal; a ânsia de nos procurarmos sistematicamente a nós mesmos nas coisas que fazemos e projetamos. Muitas vezes, o pior dos ídolos é o nosso próprio eu. Temos que vigiar, em luta constante, porque dentro de nós permanece a tendência de desejar a glória humana, apesar de termos dito ao Senhor que não queremos outra glória que não a dEle. Jesus também se dirige a nós quando diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”. E é isto o que nós desejamos e pedimos: servir a Deus alicerçados na vocação a que Ele nos chamou.

O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: “Confiai: Eu venci o mundo” (Jo16, 33). E com o salmista podemos dizer: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?”  (Sl 26, 1).

“Procuremos fugir das ocasiões de pecado, por pequenas que sejam, pois aquele que ama o perigo nele perecerá” (Eclo 3, 27). Como Jesus nos ensinou na oração do Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”; é necessário repetir muitas vezes e com confiança essa oração!

Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. Usemos as armas para vencermos na batalha espiritual, que são: a oração contínua, a sinceridade com o diretor espiritual, a Eucaristia, o sacramento da Confissão (Penitência), um generoso espírito de mortificação cristã, a humildade de coração e uma devoção terna e filial a Nossa Senhora.

Na Quaresma somos todos chamados ao deserto, para um confronto conosco mesmos, com Deus e com o próximo e os bens materiais. Somos chamados a despojar-nos de nós mesmos para nos revestir de Deus. Somos chamados a acolher a palavra do Profeta Joel: “… rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus…” (Joel 2, 13).

No caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos apresenta a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e Vida: dom e compromisso” e como lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, texto escolhido da parábola do bom samaritano (Lc 10, 33-34).

O lema desse ano “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” é um apelo existencial contra a ‘globalização da indiferença’, como afirmou Papa Francisco, na Ilha de Lampedusa, em 2013. Diz o Texto Base da Campanha: “Se já não somos mais capazes de perceber a desumana dor ao nosso lado, também nós nos tornamos desumanos” ( pág. 8 ), e lança um grande apelo para que possa ser “fortalecida a revolução do cuidado, do zelo, da preocupação mútua e, portanto, da fraternidade” ( pág. 9 ). Diante da grandeza dos problemas que afligem o Brasil, vem em socorro a frágil imagem da Irmã Dulce, a Santa Dulce dos Pobres. Na apresentação do Texto Base, a presidência da CNBB escreve: “mulher frágil no corpo, mas fortaleza peregrinante pelas terras de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Dulce, presença inquestionável do amor de Deus pelos pobres e sofredores. Dulce, incansável peregrina da caridade e da fraternidade. Dulce, testemunho irrefutável de que a vida é dom e compromisso. Dulce que via, se compadecia e cuidava. Dulce que intercede por nós no céu” (pág. 9).

Invoquemos a ajuda maternal de Maria Santíssima para o caminho quaresmal que há pouco teve início, a fim de que seja rico de frutos de conversão.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

   

fev 23

COMENTANDO O EVANGELHO: MON S. JOSÉ MARIA PEREIRA

ZÉ MARIA - 2018

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – AMAR OS INIMIGOS?

*Por  Mons. José Maria Pereira –

A Palavra de Jesus (Mt 5, 38-48) nos convida a amar a todos, sem nenhuma discriminação, pois assim seremos perfeitos como o Pai Celeste é perfeito. O Senhor nos convida a sermos santos como Ele é santo! A santidade a que somos chamados consiste em fazer a vontade de Deus nosso Pai, que ama a todos, sem distinção. Diz-nos São Paulo: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4, 3). Jesus nos convida a viver a caridade para além dos critérios humanos.

“Aquele que te fere na face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5, 39). Diante da lei do talião Jesus Cristo estabelece novas bases – o amor, o perdão das ofensas, a superação do orgulho – sobre os quais os homens hão de atender a uma defesa razoável dos seus direitos. Ele não nos ensina a sermos trouxas. A pessoa pode defender-se e exigir-se que se faça justiça. Mas em todo esse processo ela é chamada a praticar a mansidão, a não usar de violência e a buscar o bem da pessoa que a prejudicou. Consiste em perdão e reconciliação, que responde à inimizade e perseguição com amor e oração.

Diz São João Crisóstomo: “O homem não tem nada de tão divino – tão de Cristo – como a mansidão e a paciência na prática do bem”. Acrescenta São Josemaria Escrivá: “Um discípulo de Cristo jamais tratará mal pessoa alguma; ao erro chama erro, mas, a quem está errado, deve corrigi-lo com afeto; senão, não poderá ajudá-lo, não poderá santificá-lo” (Amigos de Deus, 9), e essa é a maior prova de caridade.

Ensina Jesus: “Amai os vossos inimigos, rezai por aqueles que vos perseguem e caluniam” (Mt 5, 44). Devemos também viver a caridade com aqueles que nos tratam mal, que nos difamam e roubam a honra, que procuram positivamente prejudicar-nos. O Senhor deu-nos exemplo disso na Cruz, e os discípulos seguiram o mesmo caminho do Mestre. Ele nos ensinou a não ter inimigos pessoais – como o testemunharam heroicamente os santos de todas as épocas – e a considerar o pecado como o único mal verdadeiro.

“Sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A expressão não é um paradoxo, pois rigorosamente falando, é impossível que a criatura alcance a perfeição de Deus. Mas esta é a meta para que deve tender todo o discípulo de Cristo. A chamada universal à santidade não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: “Tens obrigação de te santificar. – Tu, também. – Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes, e religiosos? A todos, sem exceção, disse o Senhor: “Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito” (São Josemaria Escrivá, nº 291, Caminho).

De fato, o Senhor diz: “Sede, pois, perfeitos, como é perfeito o Pai Celeste”. Mas quem poderia tornar-se perfeito? A nossa perfeição é viver como filhos de Deus, cumprindo concretamente a sua Vontade. São Cipriano escrevia que “à paternidade de Deus deve corresponder um comportamento de filhos de Deus, para que Deus seja glorificado e louvado pela boa conduta do homem”.

De que modo podemos imitar Jesus? Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos de vosso Pai que está nos céus” ( Mt 5, 44 – 45 ). Quem acolhe o Senhor na própria vida e O ama com todo o coração é capaz de um novo início. Consegue cumprir a Vontade de Deus: realizar uma nova forma de existência animada pelo amor e destinada à eternidade. O apóstolo Paulo acrescenta: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (1Cor 3, 16). Se estivermos verdadeiramente conscientes desta realidade, e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro, eloquente e eficaz. Escreveu São João Clímaco: “Quando, por assim dizer, todo o ser do homem se misturou com o amor de Deus, então o esplendor da sua alma reflete-se também no aspecto exterior”. Lemos na Imitação de Cristo: ”É grandioso o amor, um bem que torna leve tudo o que é pesado e suporta tranquilamente tudo o que é difícil. O amor aspira a elevar-se, sem ser aprisionado seja pelo que for na Terra. Nasce de Deus e só em Deus pode encontrar repouso” ( lll,V,3 ).

A santidade é a vocação de todo o batizado. São João Paulo II propôs como objetivo para o caminho da Igreja no Terceiro Milênio a santidade de vida para todos: “Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco, vendo nele um caminho extraordinário, capaz de ser percorrido apenas por algum gênio da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um. Agradeço ao Senhor por ter me concedido, nestes anos, beatificar e canonizar muitos cristãos, entre os quais numerosos leigos que se santificaram nas condições ordinárias da vida. É hora de propor de novo a todos, com convicção, esta medida alta da vida cristão ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direção. Mas é claro também que os percursos da santidade são pessoais e exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja”.

Diz o Papa Francisco na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (G e E), (sobre a chamada à santidade no mundo atual): “Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo. Assim nos ensinaram os Bispos da África ocidental: “Somos chamados, no espírito da nova evangelização, a ser evangelizados e a evangelizar através da promoção de todos os batizados para que assumam as suas tarefas como sal da terra e luz do mundo, onde quer que se encontrem”. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da Graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida “existe apenas uma tristeza: a de não ser santo” ( n. 33 – 34 ).”Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra sem a conceber como um caminho de santidade, porque “a vontade de Deus é que sejais santos” (1Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, em um momento determinado da história, um aspecto do Evangelho. Esta missão tem o seu sentido pleno em Cristo e só se compreende a partir dele. No fundo, a santidade é viver em união com Ele os mistérios da sua vida...” (G e E,  19 e 20).

“Mesmo que pareça óbvio, lembremos que a santidade é feita de abertura à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de comunicar-se com Deus. Não acredito na santidade sem oração, embora não se trate necessariamente de longos períodos ou de sentimentos intensos” ( G e E, 147 ).

A espiritualidade que deve nos alimentar é a do seguimento à pessoa de Jesus Cristo. Por espiritualidade, entende-se uma vida animada pelo Espírito. O encontro com Jesus é definitivo: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo” (Bento XVl, Deus Caritas Est, n. 1). “Nota essencial da espiritualidade missionária é a comunhão íntima com Cristo: não é possível compreender e viver a missão, se não na referência a Cristo como aquele que foi enviado para evangelizar” (RMi, n. 88). O verdadeiro encontro conduz ao discipulado, à configuração com Cristo e ao envio. Portanto, missão é viver a vida de Jesus Cristo, testemunhando-a e difundindo-a por palavras e ações.

Peçamos ao Senhor um coração missionário! “O missionário, se não é contemplativo, não pode anunciar Cristo de modo credível. Ele é uma testemunha da experiência de Deus” ( RMi, n. 91 ). O Papa Francisco tem falado da dimensão existencial da missão: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” ( E e G, n. 273 ). A vida se torna uma missão. Ser discípulo missionário está além de cumprir tarefas ou fazer coisas. Está na ordem do ser. É existencial, identidade, essência e não se reduz a algumas horas do dia: “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou ornamento que posso pôr de lado, não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir” (E e G, n. 273).

Que o Senhor nos conceda a graça de acolhermos a essência de seu ensinamento: o AMOR. Só assim poderemos rezar o Pai Nosso: “Perdoai, assim como perdoamos…” Assim nos tornamos verdadeiros filhos de Deus…

Invoquemos a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, para que nos ensine a amar-nos uns aos outros e a acolher-nos como irmãos, filhos do Pai Celeste. Maria continua a nos dizer as mesmas palavras pronunciadas em Caná da Galileia: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”. O discípulo missionário vive de um profundo amor e devoção a Maria.

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*Monsenhor José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário da Paróquia de São José do ItamaratI, enviando para o site, semanalmente, a homilia do domingo.

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