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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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dez 25

REFLETINDO SOBRE O NATAL: FREI LUDOVICO GARMUS

NATAL DO SENHOR

NATAL DO SENHOR – A PALAVRA SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 52,7-10

Os confins da terra contemplaram

a salvação que vem do nosso Deus.

Os reis de Israel e de Judá não conseguiram trazer a salvação ao povo. Em consequência, o reino de Israel foi destruído pelos assírios e boa parte de sua população, levada para o exílio, ao norte da Assíria (772 a.C.). O mesmo aconteceu entre 597 e 585 a.C., com o reino de Judá, cuja população foi levada ao exílio pelo novo dominador, o rei de Babilônia. Os profetas Jeremias, Ezequiel e os autores deuteronomistas interpretam o dramático fim dos reinos de Israel e de Judá, como punição divina pelas infidelidades e crimes cometidos pelos governantes dos dois reinos. Passada uma geração no exílio, os discípulos do profeta Isaías, à luz da fé em Javé, Deus de Israel e de Judá, lêem os novos acontecimentos políticos de seu tempo: O domínio dos babilônios agonizava e um novo domínio surgia, o do Império persa. Estes profetas erguem então sua voz, em meio ao desânimo dos exilados, e levantam a bandeira da esperança. Agora, nosso Deus vai por um fim à dominação de Babilônia. Ciro, rei dos persas, será o instrumento nas mãos de Deus para punir os cruéis babilônios e executar o seu plano de salvação. Deus mesmo vai consolar o seu povo sofredor. Vai trazer seu povo de volta à sua terra e as ruínas de Jerusalém serão reconstruídas. Então, todas as nações saberão que “a salvação vem do nosso Deus”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 97

Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 1,1-6

Deus falou-nos por meio de seu Filho.

Na revelação cristã, Deus não é um ser solitário. Deus é comunhão de três pessoas: Pai, filho e Espírito santo. Deus é Amor. É Amor que se comunica “dentro de si” mesmo. Deus é Amor que se expande para “fora” de si mesmo, enquanto cria o universo, cria todos os seres vivos de nosso planeta Terra. Cria o ser humano à sua imagem e semelhança, comunica-se com ele e o convida a entrar na comunhão de seu amor. No passado – diz o autor da Carta aos Hebreus – Deus se comunicava com seu povo por meio dos profetas. Por meio deles exortava o povo à fidelidade, à conversão e lhe anunciava a salvação. Agora, Deus se comunica conosco por meio de seu Filho, o herdeiro de todas as coisas, o criador do universo e o esplendor de sua glória. Pelo poder de sua palavra sustenta o universo e nos purifica dos pecados. Como filho de Deus, o cristão deve ser o reflexo de Cristo, que é “o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser” (v. 3). Em Jesus Cristo cumpre-se a promessa feita a Davi: “Eu serei para ele um pai, e ele será para mim um filho” (2Sm 7,14). O Filho de Deus, ao assumir no seio da Virgem Maria a “carne” humana, tornou-se nosso irmão. O autor de Hebreus afirma isso muito bem: “Por isso, Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos” (2,11). Que maravilha! Deus que nos criou se fez nosso irmão! Vinde, adoremos!

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Despontou o santo dia para nós: Ó nações, vinde adorar o Senhor Deus, porque hoje grande luz brilhou na terra!

3. EVANGELHO: Jo 1,1-18

A Palavra se fez carne e habitou entre nós.

Deus é Amor, é comunicação. No passado Deus se comunicava com seu povo pelos profetas. Agora se comunica conosco pelo seu próprio Filho, a Palavra feita carne. A Palavra, no princípio, estava junto de Deus (v. 1-2), era o próprio Deus, que é amor-comunicação. Deus, que é amor-comunicação, se expande para “fora” de si mesmo como criador do universo. Por Jesus, a Palavra feita carne, tudo foi feito (v. 3) e agora são dadas a graça e a verdade (v. 17). Na Palavra estava a vida e a vida era a luz dos homens, luz que brilha em meio às trevas (v. 4-5).

Ela é a Luz que veio a este mundo. Há os que rejeitaram esta Luz (v. 5.9-11). Mas a nós que cremos e a recebemos, nos é dada a plenitude da graça (v. 16), nos é dado o poder de nos tornarmos filhos de Deus (v. 12). Tudo aconteceu porque a Palavra, o Filho de Deus, “se fez carne e habitou entre nós” (v. 14). Louvemos a nosso Deus que assumiu a fragilidade de nossa carne, para fazer em nós a sua morada!

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

dez 22

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS, OFM

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DO ADVENTO – EIS QUE UMA VIRGEM CONCEBERÁ –

*Por Frei Ludovico Garmus, 0fm –

ORAÇÃO: Derramai, ó Deus, a vossa graça em nossos corações para que, conhecendo pela mensagem do Anjo a encarnação do vosso Filho, cheguemos, por sua paixão e cruz, à glória da ressurreição.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 7,10-14

Eis que uma virgem conceberá.

Acaz, rei de Judá, preparava-se para pedir socorro ao grande rei da Assíria, a fim de proteger-se contra os pequenos reinos vizinhos. O motivo era que o rei dos arameus e de Israel queriam forçar Acaz a entrar numa aliança contra o rei da Assíria, sob pena de o destituir do trono, colocando em perigo a promessa da estabilidade da dinastia de Davi (2Sm 7,16). Isaías desaconselha Acaz de buscar auxílio da Assíria. Pede apenas que o rei confie em Deus e peça um sinal do céu. Mas o rei prefere seguir a opinião de seus conselheiros militares a escutar a voz do Profeta. É neste contexto que é dado o sinal da virgem – assim era chamada a jovem esposa do rei –, que conceberá e dará a luz um filho. Sinal que Deus não abandonava seu povo seria o nome Emanuel (Deus conosco) a ser dado ao menino. O nascimento do menino, herdeiro do trono de Acaz, seria o sinal do socorro divino no qual o rei deveria confiar. Os evangelhos e a Igreja veem em Jesus, nascido da virgem Maria, pelo poder do Espírito Santo, a realização plena do sinal do Emanuel, Deus conosco (Evangelho).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 23 (24)

O rei da glória é o Senhor onipotente;

abri as portas para que ele possa entrar!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 1,1-7

Jesus Cristo, descendente de Davi, Filho de Deus.

Ao escrever aos romanos, Paulo segue o costumeiro cabeçalho de endereçamento duma carta, composto por três elementos essenciais: quem escreve (“Eu Paulo”, v. 1), a quem escreve (“a vós todos que morais em Roma”, v. 7a) e a fórmula de saudação (“graça e paz da parte de Deus, nosso Pai...”). Paulo, porém, entusiasmado pelo anúncio do Evangelho, faz acréscimos importantes em cada um dos itens. O início da Carta aos Romanos é tão denso que pode ser considerado como um resumo do Evangelho: Cristo é o Filho de Deus, “segundo o Espírito”, e Filho de Davi, “segundo a carne”; é o Senhor glorioso e ressuscitado, presente na comunidade; nele se cumprem as promessas feitas pelos profetas. Por graça de Cristo, Paulo se considera “apóstolo por vocação, para o Evangelho de Deus”, o mesmo Evangelho de Deus que Jesus começou a pregar (cf. Mc 1,14). Este Evangelho não é restrito apenas aos judeus, mas se destina também a “trazer à obediência da fé todos os povos pagãos”. Entre estes povos estão os cristãos de Roma, que acolheram a mensagem de Paulo. Com estas palavras de Paulo define-se a missão universal do Salvador que esperamos: Jesus veio para salvar toda a humanidade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho.

Chamar-se-á Emanuel que significa: Deus conosco.

3. EVANGELHO: Mt 1,18-24

Jesus nascerá de Maria, prometida em casamento a José, filho de Davi.

As histórias da infância de Lucas e Mateus apresentam narrativas bastante distintas. Mesmo assim contém dados comuns: o nome de Jesus, os nomes de Maria, sua mãe, e de José, seu “pai adotivo”; José como descente de Davi; que Maria já estava legalmente prometida a José; o nascimento em Belém, e Nazaré, como residência de Maria e José e de Jesus. Principalmente a convicção de fé acerca da concepção virginal do menino Messias e sua “filiação divina”, por obra do Espírito Santo.

Mateus apresenta a genealogia de Jesus Cristo desde Abraão até Jacó, pai de José, seguindo o esquema “fulano foi pai de sicrano” (Mt 5 1,1-17). Mas ao chegar a José diz: “Jacó foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo”. O evangelho de hoje quer explicar por que Maria e não José está na origem da geração de Cristo, porque foi “concebido pela ação do Espírito Santo”. Este é um dado que Mateus recebeu da tradição cristã. José é apresentado legalmente como esposo de Maria. Por isso, prometida em casamento a José. Seria o que chamaríamos hoje de noivado, que naqueles tempos não significava ainda convivência do casal. -Vendo sua noiva grávida, José, um homem justo e temente a Deus, pensava em separar-se de Maria, sem denunciá-la publicamente por infidelidade. Em sonho, porém, o anjo lhe explica o mistério. José, então, acolhe Maria em sua casa, torna-se o pai legal de Jesus e assegura sua descendência davídica. Assim fica esclarecida a verdadeira identidade de Jesus: Jesus é descendente de Davi, através do pai adotivo e legal José; é filho da virgem Maria, esposa legal de José, mas concebido pelo poder do Espírito Santo. Por isso, é o Filho de Deus, o Emanuel, o Deus conosco, para sempre: “Eis que estou convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

O tema central da liturgia de hoje é o encontro do divino e do humano em Jesus Cristo, o Emanuel, Deus conosco. Paulo, na 2ª leitura, resume este mistério lembrando que Cristo, “segundo a carne”, é descendente de Davi, mas foi “autenticado como Filho de Deus segundo o Espírito de Santidade que o ressuscitou dos mortos”. Neste mistério do encontro do divino com o humano, Maria ocupa um lugar central. Nos Evangelhos, José não pronuncia nenhuma palavra. É o homem justo e silencioso, que contempla o mistério da Encarnação. Um convite para assim nos prepararmos para o Natal.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 17

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM – É FELIZ QUEM A DEUS SE CONFIA! –

“As bem-aventuranças constituem o núcleo central da mensagem do Evangelho. Jesus levanta os olhos e se dirige a cada pessoa da multidão de ouvintes, usando o plural “vós”. Na multidão Jesus vê gente pobre e faminta, gente que chora. Olha para o futuro e vê cristãos odiados e sendo expulsos das sinagogas”

*Por Frei Ludovico Garmus, OFM

ORAÇÃO: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 17,5-8

Maldito o homem que confia no homem;

feliz o homem que confia no Senhor.

O texto da primeira leitura é uma crítica a Sedecias, o último rei de Judá (597-587 a.C.). Jerusalém já tinha sido conquistada por Nabucodonosor, rei de Babilônia. Conquistada a cidade, Nabucodonosor depôs o rei Joaquin (Jeconias) e o exilou com a classe dirigente para Babilônia. Em seu lugar colocou Sedecias como rei. Passados alguns anos, Sedecias, seguindo a voz de seus conselheiros, tramava uma revolta contra Babilônia, contando com a promessa de apoio do Egito. O profeta Jeremias, em nome de Deus, dizia que trair o rei da Babilônia era assinar a sentença de morte contra Judá e Jerusalém. Mas, submeter-se aos babilônios era a única saída para salvar da ruína a nação e seu povo (Jr 27,1-8). Neste contexto situam-se as palavras de Jeremias. O profeta critica o rei, ameaçando-o com as maldições do livro do Deuteronômio. Sedecias deixou de confiar em Deus, para confiar nos conselhos dos homens; com isso atraiu sobre a nação as maldições previstas na Lei. Colocar a confiança nos homens era apostar no deserto, sem água e sem vida: “Eles me abandonaram, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas rachadas, que não podem conter água. A bênção, porém, está com quem confia no Senhor. Este é comparado a uma árvore plantada junto às águas: ela sempre terá as folhas verdes e produzirá frutos (Salmo responsorial). Em quem depositamos nossa confiança? Qual é a minha fonte de água viva?

SALMO RESPONSORIAL: Sl 1

É feliz quem a Deus se confia!

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15,12.16-20

Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã.

No cap. 15, Paulo procura responder à pergunta da comunidade de Corinto: Que relação tem a ressurreição de Cristo com a nossa ressurreição? No judaísmo do tempo de Jesus, os fariseus acreditavam na ressurreição, mas os saduceus não. Quando, em Atenas, Paulo tentava anunciar como grande novidade que Jesus de Nazaré morreu crucificado, mas ao terceiro dia ressuscitou e que nós também vamos ressuscitar, alguns começaram a zombar dele e disseram: “A este respeito te ouviremos noutra ocasião” (At 17,32-34). Para os ouvintes pagãos era, portanto, mais difícil acreditar na ressurreição após a morte. Que o fundador de uma nova religião tivesse ressuscitado era até aceitável; seria parte de um mito... Decepcionado com Atenas que recebeu mal o Evangelho, Paulo chega a Corinto e muda o tom de sua pregação e insiste mais na humanidade de Cristo: “Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos...” (1Cor 1,22-23). A âncora da fé na ressurreição se fixa na humanidade do Filho de Deus encarnado e no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. Assumindo a nossa carne, Deus se fez solidário conosco. Partindo da dúvida dos coríntios, assim argumenta o Apóstolo:

• Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou.

• Se Cristo não ressuscitou, nossa fé não vale nada e ainda não recebemos o perdão dos pecados.

• Se Cristo não ressuscitou, os que morreram em Cristo não foram salvos.

• Por que cremos na ressurreição? – Se colocamos nossa esperança em Cristo só para esta vida, entre todos os homens, somos os mais dignos de compaixão.

• Realidade da fé: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Ficai muito alegre, saltai de alegria,

pois, tendes um prêmio bem grande nos céus.

Ficai muito alegres, saltai de alegria. Amém, aleluia, aleluia.

3. EVANGELHO: Lc 6,17.20-26

Bem-aventurados os obres. Ai de vós, ricos.

Na cena anterior (v.12-16), Jesus tinha subido com os discípulos a uma montanha, onde passou a noite em oração. De manhã Jesus chamou-os e escolheu doze dentre eles e os chamou de apóstolos. Para Lucas, a montanha é o lugar do encontro com Deus e das decisões mais importantes. O evangelho de hoje quer mostrar que, dentre os muitos discípulos que o seguiam, Jesus escolhe doze para acompanhá-lo sempre na missão. Jesus desce com os companheiros até a planície, porque é lá que a missão acontece. Eles serão enviados em missão (Lc 9,1-6), junto com outros 72 discípulos (Lc 10,1-20). A esses apóstolos e discípulos/discípulas Jesus se dirige no seu sermão, bem como a uma multidão de pessoas, vindas da Judeia, de Tiro e Sidônia. É o “sermão da planície”, correspondente ao “sermão da montanha” de Mateus. Mateus dedica três capítulos ao “sermão da montanha” (cap. 5 a 7) enquanto Lucas se um (cap. 6). Isso porque, em Lucas, Jesus ensina na viagem da Galileia para Jerusalém (Lc 9,51–19,28) e no caminho para Emaús (24,13-35; cf. At 8,26-40).

As bem-aventuranças constituem o núcleo central da mensagem do Evangelho. Jesus levanta os olhos e se dirige a cada pessoa da multidão de ouvintes, usando o plural “vós”. Na multidão Jesus vê gente pobre e faminta, gente que chora. Olha para o futuro e vê cristãos odiados e sendo expulsos das sinagogas, insultados e amaldiçoados “por causa do Filho do Homem”. Os pobres são chamados felizes, os famintos serão saciados, os que choram haverão de rir, os que são odiados e perseguidos por causa do nome de Jesus são convidados a alegrar-se porque deram testemunho de sua fé e serão recompensados no céu. Em Lucas são quatro bem-aventuranças – em Mateus são oito. Em Lucas, às quatro bem-aventuranças correspondem quatro maldições: pobres X ricos; os famintos x e os que tem fartura; os que choram X e os que estão sempre em festa; os que são difamados X e os que são elogiados. O Evangelho nos coloca diante de dois caminhos: o do seguimento de Jesus Cristo ou o da sua rejeição. Não se pode permanecer indiferente diante de Jesus Cristo (Lc 2,34; 10,10-16; 12,49-53). Ou se é a favor ou se é contra: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lc 16,13).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 10

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

“O Evangelho de hoje fala da vocação dos primeiros discípulos. Depois de ter pregado nas sinagogas da região, Jesus chega a Cafarnaum já famoso. Na margem do lago, o povo se apinhava ao redor de Jesus, “para ouvir a palavra de Deus”. Jesus viu duas barcas na margem e pescadores que lavavam as redes.”

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – AQUI ESTOU, ENVIA-ME –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 6,12a.3-8

Aqui estou, envia-me.

Na primeira leitura ouvimos a narrativa da vocação do profeta Isaías. Isaías morava em Jerusalém, bem próximo das elites, e conhecia os abusos praticados contra o povo. Sua vocação acontece no Templo, durante a celebração do culto. Ele mesmo conta a visão divina que teve, as palavras que Deus lhe falava, estabelecendo um diálogo com ele. Enquanto a corte estava ainda abalada pela morte do rei Ozias e sua sucessão, o profeta sente-se transportado para a corte divina. Ele vê o Senhor sentado num trono sublime, vestido de um enorme manto que enchia o Templo, pronto para ouvir a corte celeste e tomar uma decisão. A corte era formada por serafins. Estes aclamavam o Senhor como três vezes “Santo”, porque sua glória enchia toda a terra. O profeta percebe que está sendo chamado para ser mensageiro de Deus. Diante do Senhor “Santo”, sente-se pecador; percebe-se como indigno e despreparado para missão de porta-voz de Deus. Então um dos serafins vem em seu socorro; com uma brasa tirada do altar do incenso purifica os lábios do profeta e comunica-lhe que seu pecado já está perdoado. Isaías ouve, então, a voz do Senhor, dizendo: “Quem enviarei? Quem irá por nós”? E Isaías responde prontamente: “Aqui estou! Envia-me”. A resposta de Isaías revela sua prontidão. Sabia, porém, que haveria de enfrentar dificuldades na missão; por isso, pergunta: “Até quando, Senhor? (Is 6,8-13; cf. 1,2-9).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 137

Vou cantar-vos, ante os anjos, ó Senhor.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15, 1-11

É isso o que temos pregado, e é isso o que crestes.

Em todas as Cartas que Paulo escreve (menos Romanos), dirige-se a comunidades por ele fundadas. Por isso suas Cartas têm um caráter mais pastoral que doutrinário. O texto que hoje ouvimos é, ao mesmo tempo, doutrinário e pastoral. Havia entre os cristãos de Corinto perguntas a serem respondidas e dúvidas de fé a serem esclarecidas. Havia quem negasse a ressurreição dos mortos (15,12). Outros se perguntavam como os mortos ressuscitam e com que corpo (15,35). Para reforçar a fé na Ressurreição, Paulo não dá uma resposta científica, mas parte da fé, do evangelho por ele transmitido. O que Paulo recebeu da tradição constitui o núcleo mais antigo do Credo da Igreja: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, segundo as Escrituras. Depois cita uma lista de testemunhas da fé no Cristo Ressuscitado. A lista é encabeçada por Cefas (Pedro ou Simão Pedro) e pelos Doze, seguida de centenas de testemunhas, algumas ainda vivas. Menciona, também, a aparição a Tiago e aos apóstolos, por fim, inclui-se a ele mesmo na lista das testemunhas. Considera-se apóstolo de Cristo, embora o menor e mais indigno de todos, porque perseguiu os cristãos. O encontro com o Cristo Ressuscitado marca a conversão e vocação de Paulo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

“Vinde após mim”! O Senhor lhes falou,

“e vos farei pescadores de homens”.

3. EVANGELHO: Lc 5,1-11

Deixaram tudo e o seguiram.

Marcos e Mateus falam da visita de Jesus a Nazaré, após narrar parte de sua atividade no entorno do lago da Galileia (Mc 6,1-6; Mt 13,54-58). Jesus já havia escolhido seus discípulos quando entra na sinagoga de sua terra natal. Lucas, depois de falar do batismo de Jesus por João e de seu jejum e tentação no deserto, menciona de passagem a atividade em torno do Lago. Em seguida Jesus vai a Nazaré, sozinho, sem os discípulos, que ainda não tinham sido escolhidos. Somente em Lc 5,1-11 o evangelista narra a escolha dos primeiros discípulos. Eles serão a nova família de Jesus. A visita à sinagoga de Nazaré marca, assim, a ruptura de Jesus com seus familiares e patrícios, prenúncio da ruptura entre o cristianismo e o judaísmo, que acontecia quando Lucas escreve seu evangelho.

O Evangelho de hoje fala da vocação dos primeiros discípulos. Depois de ter pregado nas sinagogas da região, Jesus chega a Cafarnaum já famoso. Na margem do lago, o povo se apinhava ao redor de Jesus, “para ouvir a palavra de Deus”. Jesus viu duas barcas na margem e pescadores que lavavam as redes. Entrou numa das barcas, que era de Simão, e, sentado, continuou ensinando. Ao terminar o discurso, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. Simão deve ter pensado “De pesca Jesus não entende nada”, pois passaram a noite inteira sem nada pescar. Mesmo assim acolhe a sugestão e o resultado foi maravilhoso. As redes se rompiam de tanto peixe, de modo que tiveram de chamar a outra barca. Diante do mistério da pessoa de Jesus, Simão reage, como o profeta Isaías (1ª leitura). Movido pela inesperada experiência da presença de Deus, Simão sente-se pecador, prostra-se aos pés de Jesus e diz: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador”. Os irmãos Tiago e João, sócios de Simão, reagiram da mesma forma. Jesus apenas lhe diz: “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens”. Imediatamente, Simão, Tiago e João largaram tudo e seguiram a Jesus. Os cristãos, e Lucas com eles, entenderam que as palavras de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lançai vossas redes para pesca”, indicava, sobretudo, a missão entre os pagãos (cf. Atos). E as palavras “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens”, soava como um convite a abraçar o programa de Jesus na vivência e anúncio do Evangelho. Como reagimos às palavras de Jesus e ao convite do Papa Francisco a sermos uma “Igreja em saída”, sem medo de levar a boa-nova aos pobres de nossos dias?

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 03

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – PERMANECE A CARIDADE –

"Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu" –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Concedei-nos, Senhor Deus, adorar-vos de todo o coração, e amar todas as pessoas com verdadeira caridade”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 1,4-5.17-19

Eu te consagrei e te fiz profeta das nações.

O texto que ouvimos faz parte da narrativa da vocação do profeta Jeremias (cf. Jr 1,4-19). É um texto autobiográfico, no qual o próprio Jeremias conta, em 1ª pessoa, sua vocação para ser profeta. Ser profeta não é decisão de uma pessoa, mas um chamado especial que Deus lhe faz. Estava no plano de Deus chamar Jeremias para ser profeta: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes que nascesses eu te consagrei”. O chamado divino não é uma imposição que tira a liberdade da pessoa, mas um convite de Deus para uma missão especial: ser “profeta das nações”. A liberdade de acolher ou rejeitar o convite fica evidente pela forma de diálogo da narrativa de vocação: é o Eu divino que se dirige ao tu humano. Jeremias, num primeiro momento, quer “tirar o corpo fora”, porque imagina a oposição que deverá enfrentar por parte do palácio (reis e príncipes), da classe sacerdotal e do “povo da terra”, que detinham, respectivamente, o poder político, religioso e econômico. As palavras que Jeremias deverá falar não serão dele mesmo: “comunica-lhes tudo o que eu te mandar dizer”. Serão palavras de denúncia, apelos de conversão e ameaças de castigo que Deus colocará em sua boca (v. 9). Deus, porém, convida o profeta a não se intimidar, diante da oposição e das ameaças. Vai transformá-lo numa cidade fortificada. Promete estar sempre ao lado de seu profeta para defendê-lo.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 70

Minha boca anunciará todos os dias,

vossas graças incontáveis, ó Senhor.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 12,31–13,13

Permanecem a fé, a esperança e a caridade.

Mas a maior delas é a caridade.

Nos últimos dois domingos ouvimos Paulo falar dos diversos dons ou carismas, existentes na comunidade de Corinto. Explicava que os dons procedem do mesmo Espírito, mais do que um diadema que embeleza uma pessoa são um avental para melhor “lavar os pés”, servindo a comunidade. Assim, judeus e gregos, escravos e livres, unidos pelo mesmo pelo Espírito Santo, formam um só corpo de Cristo. Na leitura de hoje, Paulo esclarece que existe uma hierarquia entre os diversos dons e serviços. Certamente, havia concorrência entre os cristãos a respeito dos dons. Havia quem considerasse seu carisma o mais importante. Paulo explica que nenhum carisma/dom vale alguma coisa sem a caridade, sem o amor. Todos têm seu valor, enquanto acompanhados pelo amor. No presente, os dons mais importantes são a fé, a esperança e a caridade. No futuro existirá apenas a Caridade, o Amor (o Espírito Santo) que nos une como comunidade a Jesus Cristo e a Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 4,18

Foi o Senhor que me mandou boas notícias anunciar;

Ao pobre, a quem está no cativeiro, libertação eu vou proclamar!

3. EVANGELHO: Lc 4,21-30

Jesus, assim como Elias e Eliseu, não é enviado só aos judeus.

Simeão, ao tomar o menino Jesus em seus braços, louvou a Deus e falou, em tom profético, para Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição” (Lc 2,35). Diante da pessoa de Jesus e de sua mensagem não podemos permanecer indiferentes. Ou se é contra, ou a favor. Ficou claro isso na visita de Jesus a Nazaré (3º Domingo) e hoje se repete na fala de Jesus aos conterrâneos. Acolhido por uns, rejeitado por outros, Jesus prossegue corajosamente seu “caminho” (4,30), que o levará à morte na cruz. No início de sua atividade na Galileia é elogiado por todos pela qualidade de seu ensino (4,15): “Eles ficavam admirados de sua doutrina porque sua palavra tinha autoridade” (4,15.32). Mas aos poucos – como o mostra Lucas em seu evangelho – o ensino cheio de sabedoria, as críticas aos sacerdotes, escribas e fariseus, os gestos de misericórdia para com pobres e pecadores, provocam oposição ferrenha contra Jesus, por parte dos adversários. Assim acontecia também nos anos 70, quando Lucas escreve seus dois livros: Evangelho e Atos dos Apóstolos. Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu. Ambos, rejeitados pelo próprio povo e perseguidos em sua terra, são enviados a estrangeiros. Por ocasião de uma grande seca e carestia, Elias foi enviado a Sarepta, na Sidônia, para socorrer uma viúva e seu filho órfão. Eliseu, apesar de haver muitos leprosos em Israel, cura a Naamã, que era da Síria. Ao citar estes dois exemplos, Lucas, por um lado lembra o programa de Jesus anunciado na sinagoga de Nazaré (2º Domingo), por outro lado sinaliza o anúncio da boa-nova aos pagãos, que acontecia em seu tempo. Ao ouvirem as palavras de Jesus, “todos na sinagoga ficaram furiosos” e o expulsaram da cidade ameaçando-o de morte. Jesus, porém, passou no meio deles e “continuou o seu caminho”. Qual é a minha reação diante da boa-nova que Jesus hoje anuncia? Adesão? Rejeição? Ou simples indiferença? Por quê? Há tantos anos me com sidero cristão católico: O que mudou em minha vida? Ao celebrarmos agora a Eucaristia, vamos pedir que Jesus abra nossos ouvidos e nossos olhos para prosseguirmos no seu “caminho” de amor, servindo a todas as pessoas que sofrem.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

dez 23

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DO ADVENTO – NO NATAL, DEUS SE NOS DÁ COMO PRESENTE –

*Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Derramai, ó Deus, a vossa graça em nossos corações para que, conhecendo pela mensagem do Anjo a encarnação do vosso Filho, cheguemos por sua paixão e cruz, à glória da ressurreição”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Mq 5,1-4a

De ti há de sair aquele que dominará em Israel.

Miqueias atuou como profeta no tempo de Isaías, na segunda metade do séc. VIII a.C. Era um tempo difícil, marcado pelas invasões dos reis assírios. O reino do Norte e sua capital Samaria foram destruídos em 722 a.C., e Jerusalém chegou a ser cercada pelo exército inimigo (701 a.C.). O texto hoje lido está também presente no livro de Isaías (Is 2,2-5). Quando os magos do Oriente vieram a Jerusalém perguntavam onde estaria o rei recém-nascido dos judeus. E os sumos sacerdotes e escribas responderam, “em Belém”, citando a profecia que acabamos de ouvir (Mt 2,1-6). Em tempos de crise são relidas e se renovam as antigas promessas. Os reis de Israel e de Judá não souberam salvar seu povo por não terem obedecido a Lei da aliança com o Senhor. Por isso o profeta anuncia o nascimento de um novo rei, não em Jerusalém, mas na pequena vila de Belém. Relembra, assim, as origens da monarquia de Israel, na humilde figura de um pastor, Davi filho de Jessé (1Sm 16,1-13; 2Sm 7,8). Antes, porém, “Deus deixará seu povo ao abandono, até ao tempo em que uma mãe der à luz”. O texto apresenta algumas características do menino que vai nascer em Belém: Ele será um rei que dominará em Israel; apascentará seu povo “com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus”. Então, os homens viverão em paz. Com o domínio e com a força de Deus, o novo rei protegerá seu povo. Não será, porém, um rei dominador: “Meu reino não é deste mundo... meu reino não é daqui” (Jo 18,33-37; Mt 26,51-54). Jesus escolhe ser um pastor, capaz de dar sua vida por aqueles que ama (Jo 10,1-11). O salmo responsorial esclarece que tipo de rei será o Messias: Um rei que protege seu povo e lhe traz a salvação. O desejo do rei-pastor é que seu reino de justiça, de amor e de paz se estenda “até aos confins da terra”. Este deveria ser também o desejo e o compromisso dos filhos e filhas de seu reino.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 79

Iluminai a vossa face sobre nós,

Convertei-nos para que sejamos salvos!

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 10,5-10

Eis que eu venho para fazer a tua vontade.

No Advento esperamos o Salvador que vem nos salvar. No 4º domingo do Advento ou vinda do Senhor, a 2ª leitura, tirada da Carta ao Hebreus, explica-nos quem é a pessoa esperada. A mensagem se concentra no mistério da Encarnação do Filho de Deus. Ele assume um corpo humano, gerado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria. No texto hoje li, Cristo nos dá a reposta, dialogando em 1ª pessoa com Deus: “Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo”. Deus não se agrada de oferendas ou holocaustos pelo pecado quando não representam um coração que lhe é fiel. Por isso Cristo diz: “Eis que eu venho... Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (v. 7 e 8). O Filho de Deus, assume um corpo humano e apresenta-se para fazer a vontade do Pai. Graças à obediência total à vontade do Pai, Jesus Cristo tornou-se causa de santificação e salvação para todos os que lhe obedecem (Hb 5,7-9). – Nossa sociedade busca um corpo perfeito, saudável e belo. Fazem-se tatuagens e até cirurgias de risco para embelezá-lo. Na contramão, o texto nos ensina que todos recebemos de Deus um corpo animado pelo seu espírito de vida para fazermos a sua vontade. A vontade de Deus é esta: Amar a Deu sobre todas as coisas e ao próximo sobre todas as coisas. Fazer a vontade de Deus é obedecê-lo. Cristo é o exemplo desta obediência. Por nosso amor, Ele se fez obediente até à morte na cruz (Fl 2,5-11).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 1,38

Eis a serva do Senhor; cumpra-se em mim a tua palavra!

3. EVANGELHO: Lc 1,39-45

Como posso merecer

que a mãe do meu Senhor me venha visitar?

O Evangelho de Lucas começa com um prólogo ou prefácio (Lc 1,1-4) e com a história da infância de Jesus. Nesta história coloca em paralelo as narrativas da origem, nascimento e infância de João Batista, o precursor, e de Jesus Cristo, o salvador (Lc 1,5–2,52). Após falar da gravidez de Isabel e de Maria, introduz a cena da visita de Maria à sua prima Isabel. Maria soube que Isabel estava no sexto mês de gravidez quando o anjo Gabriel lhe anunciou que foi escolhida por Deus para ser a mãe do Messias Jesus, o Filho de Deus (Lc 1,26-38). Como sinal de que ela será a mãe do Filho de Deus, o Anjo lhe dá um sinal: Tua prima Isabel, idosa e considerada estéril, já está no sexto mês de gravidez. Maria acredita nas palavras do Anjo e diz: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra”. Maria, guardando o segredo em seu coração, apressa-se a visitar Isabel para servi-la nos meses finais de sua gravidez. A visita é marcada pela alegria do encontro das duas mães, grávidas de seus filhos. As mães já se conheciam, os filhos ainda não. Quando Isabel ouve a saudação de Maria, a criança se agita em seu ventre e, cheia do Espírito Santo, exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”! E reconhece em Maria a presença da mãe de Deus, da “mãe do meu Senhor”. Como seria bom e desejável que os pais e, especialmente as mães, contassem a seus filhos o verdadeiro sentido da alegria do Natal. Não é o papai Noel que esperamos com seus presentes, mas o nascimento de Jesus, Filho de Deus que nos ama e é nosso irmão. Deus se nos dá como presente. Por isso as crianças recebem presentes.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

dez 16

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DO ADVENTO – “ELE VOS BATIZARÁ NO ESPÍRITO SANTO E NO FOGO” –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm - 

ORAÇÃO: “Ó Deus de bondade, que vedes vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Sf 3,14-18a

O Senhor, teu Deus, exultará por ti, entre louvores.

A primeira leitura é tirada do profeta Sofonias, que profetizou durante o início do reinado de Josias (640-609 a.C.). Durante seu reinado, Judá consegue livrar-se do domínio da Assíria, enfraquecida por problemas internos. O profeta convoca Jerusalém, símbolo do povo, a alegrar-se pela salvação que Deus lhe trouxe, libertando Israel do jugo assírio. Logo no primeiro verso percebe-se o tom alegre, dominante do texto: canta de alegria, rejubila, alegra-te e exulta. O motivo desta alegria é duplo. Por um lado, “o Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos”. O rei da Assíria deixou de oprimir o povo de Israel; o povo não precisa mais temê-lo. Por outro lado, pode confiar sempre no Senhor, o rei de Israel. Deus não é um rei distante, que domina com exércitos, mas é um rei salvador, que traz segurança porque está presente “no meio de ti” (v. 15.17). Ele não só causa alegria a Jerusalém e a seu povo. O mesmo Senhor se alegra com Jerusalém, como um noivo movido por amor a Israel, sua noiva. E ela lhe responde jubilosa, com cantos de louvor e gratidão.

SALMO RESPONSORIAL: Is 12

Exultai contando alegres, habitantes de Sião,

porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!

2. SEGUNDA LEITURA: Fl 4,4-7

O Senhor está próximo.

Em Filipos, Paulo fundou a primeira comunidade cristã na Europa. Ali, num lugar fora dos muros da cidade, reunia-se em oração um grupo de mulheres de religião judaica (At 16,6-15). Junto com Paulo e Silas, Paulo foi bem acolhido por essa comunidade, que recebeu com grande alegria o anúncio da boa-nova de Jesus Cristo. Esta mesma alegria torna-se visível na exortação que Paul dirige aos cristãos de Filipos. É uma alegria que brota da fé na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Não foram apenas as palavras dos apóstolos que contagiaram os filipenses, mas, sobretudo, o testemunho de amor e de alegria dado por eles. Por isso, Paulo escreve: “Alegrai-vos sempre no Senhor”! E convida os cristãos a testemunharem o amor e a bondade do Senhor diante de todas as pessoas, porque “o Senhor está próximo” (v. 5). Paulo pensava que a segunda vinda do Senhor era iminente (2Ts 2,2). No entanto, os cristãos não deveriam inquietar-se com isso e, sim, apresentar suas necessidades a Deus nas orações, nas súplicas e na ação de graças. – Quem coloca o foco de sua vida em Deus estará preparado para o encontro com o Senhor que vem.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

O Espírito do Senhor sobre mim fez a sua unção;

enviou-me aos empobrecidos a fazer feliz proclamação.

3. EVANGELHO: Lc 3,10-18

O que devemos fazer?

Na liturgia, o 3º Domingo do Advento é conhecido na liturgia como o domingo da alegria (em latim, Gaudete), por causa da proximidade do Nascimento de Jesus Cristo. Nesse domingo acende-se a terceira vela da coroa, cor rosa. Duas festas marianas já anteciparam o domingo da alegria do Natal: A festa da Imaculada Conceição de Maria (08 de dezembro) – a mulher que esmaga a cabeça da serpente (Gn 3,15) com seu Filho Jesus, o Salvador – e a festa de Nossa Senhora de Guadalupe (12 de dezembro), vestida como mulher indígena grávida. Nesse contesto de preparação para o Natal, a liturgia nos apresente agora a figura de João Batista, o precursor de Jesus na vida pública. Ele aponta a futura vida pública de Jesus e nos conclama no presente: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas estradas” (Lc 3,4). Preparar o caminho do Senhor não é apenas vestir-se bem para acolher uma visita importante. Na língua hebraica e aramaica, caminho do Senhor indica a conduta correta que leva a observar os mandamentos de Deus, no relacionamento em família e na sociedade. João anunciava o perdão dos pecados, condicionando-o à conversão das pessoas. Significa abandonar os caminhos injustos e perversos no relacionamento humano e adotar o caminho da justiça e da solidariedade com os mais pobres. É mudar de vida e adotar uma nova conduta. As pessoas que vinham escutar João Batista e batizar-se por ele, sem dúvida, entendiam sua mensagem. As multidões lhe perguntavam: “Que devemos fazer”? E João apontava o caminho do amor solidário com os pobres: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo”! São recomendações válidas para todos nós. Também grupos que detinham certo poder diante do povo se questionam diante de João. Os cobradores de impostos lhe perguntavam: “Mestre, que devemos fazer”? E João recomendava que não cobrassem mais do que o estabelecido (Zaqueu: Lc 19,1-10). Aos soldados que perguntavam “o que devemos fazer”? João recomendava não usar a força para cobrar propina ou fazer acusações falsas, mas contentar-se com seu salário. Muitos se perguntavam se João não seria o Messias esperado. E João deixa claro que não era o Messias. Ele batizava apenas com água, em sinal do perdão dos pecados. Depois deve viria alguém mais forte do que ele, isto é, Jesus de Nazaré (Lc 3,21-22). Esse, sim, purificará de verdade o povo de todos os pecados: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (v. 16). A pergunta dos ouvintes de João “que devemos fazer” e as respostas que lhes dá nos indicam como devemos nos preparar para acolher de coração aberto a Jesus Salvador.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

dez 09

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

2º DOMINGO DO ADVENTO – PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR –

*Por Frei Ludovico Garmus –

ORAÇÃO: Ó Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia, nós vos pedimos que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude de sua vida”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Br 5,1-9

Deus mostrará o seu esplendor.

O texto que ouvimos foi escrito no II século a.C., mas seu autor o atribui a Baruc, secretário do profeta Jeremias (sec. VI). Os destinatários do texto são judeus da diáspora, que, depois do exílio, estavam dispersos entre várias nações e esperavam a restauração de Judá. Para esses judeus dispersos Jerusalém continuava sendo o ponto de referência, o símbolo que unia a fé de todos os judeus no Deus salvador. O texto hoje lido traz palavras que respiram alegria e esperança. Nelas se manifesta a glória de Deus e seu amor fiel ao povo escolhido. A presença salvadora de Deus ilumina todo o texto. Em nove versículos aparece dez vezes o nome de Deus, e mais duas em que é chamado, “o Eterno”, “o Santo”. O autor retoma as palavras do Segundo Isaías (Is 40–55), dirigidas aos exilados da Babilônia e as atualiza para os inícios da revolta dos Macabeus contra o domínio sírio. Jerusalém cobria-se, então, de vestes de luto e aflição, como a esposa abandonada e esquecida pelo marido (cf. Is 49,14: ‘O Senhor me abandonou, meu Deus me esqueceu’). Como sinal de perdão e reconciliação, o profeta convida Jerusalém a despir as roupas de luto e vestir-se com luxuosas vestes, trazidas por Deus, seu noivo. O Eterno coroa Jerusalém como rainha com um brilhante diadema e cobre-a com um manto da justiça para apresentá-la como esplêndida noiva, portadora da salvação para todas as nações. Para celebrar a nova relação com Jerusalém renovada, Deus lhe dará um novo nome: “Paz da justiça e glória da piedade”. Domingo passado, Jeremias também anunciava um novo nome de Jerusalém restaurada: “O Senhor é a nossa justiça”. A troca de nome significa uma nova etapa do relacionamento com Deus, uma missão que Deus confia à pessoa escolhida. Assim, Abrão passa a ser chamado Abraão quando Deus lhe promete que será pai de muitas nações (Gn 17,5); João Batista recebe um novo nome para indicar sua missão de precursor do Messias (Lc 1,57-66); Saulo, ao iniciar a missão entre os pagãos, passa a ser chamado “Paulo” (At 13). – Quando acontecer a salvação de Israel, o próprio Deus preparará o caminho do retorno de seu povo, a natureza se transformará, “manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 125

Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!

2. SEGUNDA LEITURA: Fl 1,4-6.8-11

Ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo.

Paulo se dirige à comunidade de Filipos, expressando toda a sua alegria e afeto. É a primeira comunidade fundada por Paulo e Silas na Europa. Era um grupo de judeus e simpatizantes do judaísmo, liderados por uma mulher chamada Lídia, que se reunia aos sábados num “lugar de oração”, fora dos muros da cidade (At 16,6-15). Eles acolheram de coração aberto e com alegria a Boa-Nova Jesus Cristo. Paulo anunciava com alegria o Evangelho, alegria que contagiou a comunidade, formada, sobretudo, por mulheres. Paulo agradece a Deus o apoio que os filipenses sempre lhe deram na divulgação do Evangelho. Reza para que, enquanto esperam a vinda de Cristo Jesus, cresçam no amor e levem à perfeição a “boa obra” neles iniciada por Deus. Produzam “o fruto da justiça”, que Jesus Cristo plantou em seu coração. A comunidade acolhedora de Filipos é um exemplo vivo da “Alegria do Evangelho” que deve brilhar em nossa vida cristã, como fala o Papa Francisco. É pela prática do bem que Deus por nós é louvado e glorificado.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 3,4.6

Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.

Toda a carne há de ver, a salvação do nosso Deus.

3. EVANGELHO: Lc 3,1-6

Todas as pessoas verão a salvação de Deus.

Lucas situa o início da atividade de João Batista no contexto histórico universal e local, para marcar a importância de seu ministério. Tibério César era então o imperador romano; Pilatos era o governador da Judeia; Herodes Antipas governava a Galileia; Herodes Filipe, a Itureia e Traconítide, e Lisânias, a Abilene; Anás e Caifás eram os sumos sacerdotes. João Batista é apresentado como um profeta do Antigo Testamento, a quem “a palavra de Deus foi dirigida” no deserto. O deserto para Israel é o lugar em que Deus se encontra com seu povo, libertado da escravidão; faz com ele uma aliança e põe à prova sua fidelidade. João Batista percorre a região do deserto de Judá ao longo do rio Jordão, prega “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. Seu lema é tirado do Profeta Isaías: “preparai o caminho do Senhor”, do Senhor que vem salvar seu povo. O batismo de conversão exige eliminar os obstáculos que colocamos para a salvação que Deus vem nos trazer. As veredas e caminhos tortuosos a serem endireitados (1ª leitura) são frutos do pecado que nos desviam e afastam do Senhor. Com Jeremias podemos clamar: “Faze-me voltar e eu voltarei [a ti], porque tu és o Senhor meu Deus” (Jr 31,18b). Endireitar os caminhos tortuosos é abrir o coração para Deus que vem nos trazer a salvação: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20b). A salvação que Deus vem nos trazer é para todos os que por ele são amados (Lc 2,14) e se deixam reconciliar com ele. A salvação está aberta para todos: “Todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Cabe a nós preparar nosso coração para acolher o Senhor que vem nos trazer a Salvação. Preparar-se é buscá-lo de todo o coração. É pedir que nos mostre o caminho para encontrá-lo, como diz Santo Anselmo: “Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar”.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

nov 18

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – IMPORTA É ESTAR ATENTO AOS SINAIS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor nosso Deus, fazei que nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Dn 12,1-3

Nesse tempo teu povo será salvo.

A leitura que ouvimos foi tirada do último capítulo do texto hebraico do livro de Daniel. O livro foi escrito durante o domínio selêucida da Síria, no contexto da revolta dos Macabeus. Os judeus eram, então, oprimidos por pesados tributos do rei sírio Antíoco IV, proibidos de praticar sua religião e obrigados a práticas religiosas pagãs. Era um tempo eram de muito sofrimento. Entre os judeus havia os que procuravam ser fiéis à fé dos antepassados; outros, porém, colaboravam com os dominadores e traíam sua fé. O autor projeta o drama de seu tempo (domínio selêucida) para o tempo dos babilônios e persas. Ao descrever suas visões, o autor usa uma linguagem codificada, na qual os governantes são representados como animais ferozes. A intenção é animar a esperança dos fiéis perseguidos. No passado, o profeta Ezequiel animava a esperança dos exilados em Babilônia com a fé na ressurreição da nação (Ez 37,1-14). Em Daniel se afirma não só a salvação do povo judeu, mas também, a ressurreição individual dos justos e pecadores: “Muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno”. O caminho sábio para a salvação é a fiel observância da Lei de Deus. Sábios são os que ensinarem os caminhos da virtude (observância da Lei, porque “brilharão como estrelas por toda a eternidade”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 15

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 10,11-14.18

Com uma única oferenda,

levou à perfeição definitiva os que ele santifica.

O autor continua afirmando a superioridade do sacerdócio e do sacrifício único de Cristo sobre o sacerdócio e os sacrifícios do antigo Templo. Os sacrifícios da antiga Aliança eram oferecidos muitas vezes pelos sacerdotes, sem conseguir apagar os pecados do povo. Pelo sacrifício, oferecido uma única vez pelos nossos pecados, Cristo alcançou um lugar de honra “à direita do Pai”, isto é, como juiz: “donde virá a julgar os vivos e os mortos” (Credo). Pela sua morte e ressurreição garantiu, para todos os que o seguem, o perdão dos pecados e “levou à perfeição definitiva os que ele santifica”. ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 21,36

É preciso vigiar e ficar de prontidão;

em que dia o Senhor há de vir, não sabeis não!

3. EVANGELHO: Mc 13,24-32

Ele reunirá os eleitos de Deus,

de uma extremidade à outra da terra.

O último ensinamento de Jesus, antes da paixão, trata da destruição de Jerusalém e seu Templo, e da segunda vinda do Senhor, no fim dos tempos. Mateus e Lucas têm uma descrição mais ampla destes eventos. Marcos fala que, ao sair do Templo, os discípulos chamaram a atenção de Jesus à majestosa construção do Templo. E Jesus lhes responde: “Estais vendo tudo isso? ... Não ficará pedra sobre pedra; tudo será destruído”. Ao chegarem ao monte das Oliveiras, Pedro, Tiago, João e André lhe perguntam, em particular, quando isso haveria de acontecer e qual seria o sinal. Antes do texto hoje proclamado, Jesus fala dos sinais precederão o quando (Mc 13,5-13). Haverá guerras, terremotos e fome. Antes que chegue o fim, o Evangelho deve ser anunciado a todas as nações e os cristãos serão perseguidos. Quando o inimigo se instalar em Jerusalém, é hora de os cristãos – os eleitos – fugirem para os montes e não confiarem em falsos cristos e profetas (v. 14-23). Todos esses sinais estão relacionados à destruição de Jerusalém e à vida dos cristãos no Império Romano.

O texto que hoje ouvimos refere-se à segunda vinda do Senhor no fim dos tempos, como Juiz. Marcos escreveu seu evangelho, provavelmente, antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., nos inícios da Guerra Judaica. Sinais, como boatos de guerra, terremotos e fome, sempre existiram e existirão. Jesus, porém, não responde sobre quando acontecerá a segunda vinda do Filho do Homem: “Quanto a esse dia e à hora, ninguém sabe nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai”. Importa é estar atento aos sinais (exemplo da figueira) e vigiar. As obras humanas, impérios e potências mundiais, tendem a desaparecer: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (cf. Is 40,6-8; 1Pd 1,24-25). Em vez de nos apavorar diante da perspectiva de um fim imaginado como próximo, melhor seria vigiar, reavivar a fé na presença de Cristo no meio de nós e reforçar a confiança na Palavra de Deus: “Eis que estou convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

nov 11

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

32º DOMINGO DO TEMPO COMUM –A VIÚVA DEU MAIS DO QUE TODOS OS OUTROS –

Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus de poder e misericórdia, afastai de nós todo obstáculo para que, inteiramente disponíveis, nos dediquemos ao vosso serviço”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 1Rs 17,10-16

A viúva, do seu punhado de farinha,

fez um pãozinho e o levou a Elias.

Acab, rei de Israel, tinha casado com Jezabel, filha do rei pagão de Tiro e Sidônia, no atual Líbano. Jezabel promovia a religião do deus Baal, considerado o deus da fertilidade, em prejuízo da fé no Deus de Israel. Como punição pelo pecado de idolatria, Elias então anunciou uma seca, que duraria até que o Deus de Israel mandasse chuva. Jurado de morte, Elias teve que fugir. Por ordem de Deus, foi hospedar-se na casa de uma viúva em Sarepta, região donde viera a rainha. Lá Deus providenciou para o profeta uma hospedagem: “Eu ordenei a uma viúva de lá que te sustentasse” (v. 9). Chegando a Sarepta, o profeta pediu à viúva que lhe trouxesse água e pão. Ela jurou em nome do Deus de Israel que não tinha pão; na verdade, estava catando alguns gravetos para preparar o último pão para si e seu filho órfão, e depois esperaria a morte. Mesmo assim, Elias pediu-lhe que, primeiro, preparasse um pão para ele e só depois, para si e seu filho. E prometeu em nome do Senhor: Não faltará farinha nem azeite até Deus mandar chuva sobre a terra. Ela acreditou na palavra de Deus anunciada por Elias. E o pão partilhado com generosidade se multiplicou: “E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo” (veja o Evangelho e Mt 14,13-21; Jo 6,9). A historieta no ensina que o Deus de Israel é o protetor dos pobres, representados pela viúva e o órfão, e não Baal. – Os pobres confiam em Deus e partilham com mais facilidade o pouco que têm do que os ricos, que confiam nas riquezas.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 145

Bendize, minh’alma, bendize ao Senhor!

No Salmo, os nove verbos da ação divina em defesa dos oprimidos nos convidam a fazer o mesmo. É a Deus, defensor dos pobres, que louvamos?

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 9,24-28

Cristo foi oferecido uma vez, para tirar os pecados da multidão.

Cada ano, na Festa da Expiação, o sumo sacerdote entrava no Santuário para oferecer um sacrifício cruento em expiação de seus pecados e dos pecados do povo. Jesus ofereceu uma única vez o sacrifício da própria vida em expiação dos pecados da humanidade toda, abolindo assim todos os sacrifícios do antigo Templo. Jesus ressuscitou e entrou definitivamente no santuário do céu, onde está junto de Deus como nosso intercessor. “O destino de todo homem é morrer uma só vez, e depois vem o julgamento” (v. 27). Cristo voltará uma segunda vez (juízo final), para nos salvar. Nele podemos confiar, porque já agora intercede por nós junto do Pai.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Felizes os pobres em espírito,

porque deles é o Reino dos Céus.

3. EVANGELHO: Mc 12,38-44

Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros.

Os ensinamentos de Jesus aos discípulos e ao povo, durante a viagem, terminam com sua entrada triunfal em Jerusalém (cap. 11). No cap. 12 temos ensinamentos resultantes do confronto de Jesus com seus adversários e conclui-se com o Evangelho que hoje ouvimos. O texto se divide em duas cenas, ligadas pelo tema da viúva. Na primeira cena Jesus está ensinando o povo na área do Templo e tece críticas aos escribas ou doutores da Lei de Moisés. Os escribas e fariseus acusavam Jesus de não observar o sábado e outras prescrições da Lei. Jesus os critica porque não fazem o que ensinam: Usam roupas vistosas, exibem-se nas praças e sinagogas, mas, a pretexto de longas orações, “devoravam as casas das viúvas”. A mesma crítica vale, hoje, aos que ensinam o povo cristão, mas não praticam a mensagem.

Na segunda cena o evangelista mostra Jesus no Templo, sentado junto ao cofre das esmolas. Enquanto observava os mais ricos depositando punhados de moedas no cofre, Jesus viu uma pobre viúva que do fundo da sua bolsa tirou duas moedinhas e colocou-as no cofre. Era o cofre das esmolas que serviam para socorrer também os pobres de Jerusalém. Com os olhos de Deus, Jesus viu a cena e disse aos discípulos: “Esta viúva deu mais do que todos os outros”. De fato, ela ofereceu tudo o que tinha para vive; entregou sua vida nas mãos de Deus (1ª leitura!), enquanto outros, apenas o que lhes sobrava.

Jesus deve ter ficado muito feliz com o gesto generoso da viúva. Ela entregou sua vida nas mãos de Deus. Em breve Jesus também iria entregar sua vida para salvar a humanidade do pecado do egoísmo. Na esmola daquela pobre viúva Jesus viu o Reino de Deus que anunciava sendo vivido na prática. Cumpria-se o caminho das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Festa de Todos os Santos). A viúva, entregando sua vida nas mãos de Deus, mostrava que o caminho do Reino de Deus era viável para os discípulos: “Quem perder a sua vida por amor de mim e pela causa do Evangelho, há de salvá-la”.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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