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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

abr 26

LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS, OFM

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA – RECONHECERAM-NO AO PARTIR O PÃO –

Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que o vosso pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com plena confiança o dia da ressurreição”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 2,14.22-33

Não era possível que a morte o dominasse.

No dia de Pentecostes os judeus comemoravam em Jerusalém a doação da Lei de Moisés. Na mesma ocasião estavam reunidos em Jerusalém, também, os apóstolos com dezenas de discípulos e discípulas, no monte Sião. A comunidade estava reunida em oração, com portas e janelas fechadas, por medo dos judeus. De repente, houve um forte ruído do céu, acompanhado de um vento impetuoso e línguas de fogo, enchendo toda a casa onde os discípulos estavam reunidos. Era a manifestação do Espírito Santo prometida por Jesus, antes de sua ascensão ao céu (Lc 24,48). Muitos judeus peregrinos acorreram ao lugar para ver o que estava acontecendo. Em meio a uma imensa alegria, abrem-se as portas e janelas e os discípulos saem da casa. Pedro, então, toma a palavra para explicar ao povo o sentido de tudo o que estava acontecendo. Em seu discurso, Pedro dirige-se aos ouvintes judeus (v. 22-24) e anuncia o “querigma”, isto é, a proclamação da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que visa levar os ouvintes à conversão e à fé em Jesus. Os acontecimentos do “querigma” pascal são pura iniciativa de Deus, nome repetido quatro vezes. A ação divina por meio de Jesus é pública: “tudo isso vós mesmos o sabeis”, porque as coisas aconteceram “entre vós”. Mas, a ressurreição de Jesus é presenciada e vivida apenas pelas testemunhas qualificadas (v. 32), os apóstolos e as 120 pessoas reunidas no cenáculo com eles. Pedro cita o salmo 15, argumentando que Davi fala profeticamente da ressurreição de Jesus, “que vós o matastes, pregando-o numa cruz” (v. 25-33). Deus Pai ressuscitou Jesus dentre os mortos (cf. Lc 9,21-22.43-45; 18,31-34) e o exaltou à sua direita na glória do céu. O Pai concedeu a Jesus o Espírito Santo que havia prometido, e Jesus o derramou sobre as testemunhas de sua ressurreição. Os ouvintes estavam presenciando a ação do Espírito Santo derramado sobre as testemunhas.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 15 (16)

Vós me ensinais vosso caminho para a vida;

junto de vós felicidade sem limites!

2. SEGUNDA LEITURA: 1Pd 1,17-21

Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo,

Cordeiro sem mancha!

Desde antes da criação do mundo Deus nos amou e no fim dos tempos enviou seu próprio Filho para nos salvar. Não foi com ouro ou prata que Cristo nos resgatou do pecado e da morte, mas com seu próprio sangue, entregando sua vida como máxima prova de amor. Mas Deus o ressuscitou dos mortos – diz Pedro – e por isso alcançamos a fé em Deus. Pela fé estamos firmemente ancorados em Deus, porque nossa fé e esperança estão guardadas no coração de nosso Deus. É o que cantamos no Salmo responsorial: “Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura;

Fazei o nosso coração arder, quando falardes.

3. EVANGELHO: Lc 24,13-35

Reconheceram-no ao partir o pão.

Lucas coloca três narrativas relacionadas com a ressurreição de Jesus, todas, no primeiro dia da semana, dia especial em que os cristãos celebravam a ressurreição do Senhor (cf. At 20,7). Na primeira, conta como as mulheres, discípulas de Jesus que o acompanhavam desde a Galileia (Lc 8,1-3), e estavam presentes junto à cruz (23,55), dirigem-se ao túmulo levando perfumes, mas não encontram o corpo de Jesus. Dois anjos lhes explicam que o túmulo está vazio porque Jesus ressuscitou, como havia dito. Elas levam a notícia aos discípulos. Mas eles não acreditam na explicação dada pelos anjos. Pedro, no entanto, vai conferir o túmulo vazio e fica apenas admirado. Segue, então, a narrativa sobre os discípulos de Emaús, que hoje escutamos. Após a manifestação do Ressuscitado os dois discípulos voltam imediatamente a Jerusalém para contar sua experiência aos apóstolos, e eles lhes dizem: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão”. Segue, então, na noite do mesmo dia semana a aparição de Jesus a todos os que estavam reunidos. – As experiências de Jesus ressuscitado acontecem quando as pessoas estão reunidas e falam dele; recordam e contam o que Ele fez e falou. Os anjos recordam que Jesus ressuscitou conforme havia dito na Galileia. Jesus leva a boa notícia de sua ressurreição aos discípulos tristes e desanimados, recorda as Escrituras e se manifesta a eles ao partir do pão. Partir o pão lembra a multiplicação/divisão dos pães. O coração dos discípulos começa a arder enquanto escutam o Mestre no caminho (mesa da palavra), mas o reconhecem quando parte o pão, gesto típico de Jesus (mesa da eucaristia).

Tudo aponta para a liturgia eucarística que estamos celebrando. A celebração da Eucaristia na comunidade reunida no Domingo, o Dia do Senhor, é o lugar privilegiado para a experiência da presença viva do Cristo Ressuscitado, que nos alimenta com sua palavra e com seu corpo e sangue.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 12

LEITURA ORANTE: POR FREI LUDUVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DA PÁSCOA – ESTE É O DIA QUE O SENHOR FEZ PARA NÓS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, por vosso Filho Unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 10,34a.37-43

Comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos.

Lucas traz um exemplo de como poderia ser a pregação inicial dos apóstolos (querigma), testemunhas da ressurreição de Cristo, para os que ouviram falar de Jesus, mas ainda não conheciam a fé cristã. Pedro está na casa de Cornélio, comandante do exército romano, que o convidou para que falasse sobre Jesus de Nazaré algo mais do que ele já conhecia. Por isso, Pedro não perde tempo em falar de coisas já conhecidas: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João”. Invertendo a frase, temos a estrutura dos evangelhos sinóticos: atividade de João Batista, atividade de Jesus na Galileia, paixão e morte de Jesus na Judeia. Pedro afirma que Jesus só andou fazendo o bem por toda a parte, porque “foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” (v. 38). Apesar do bem que fazia na terra dos judeus e em Jerusalém, acabou sendo morto, pregado numa cruz. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e Jesus se manifestou a eles. Os apóstolos foram escolhidos como testemunhas qualificadas, porque “comeram e beberam com Jesus depois que ressuscitou dos mortos”. Jesus foi constituído por Deus como Juiz dos vivos e dos mortos. Quem nele crê recebe o perdão dos pecados.

SALMO RESPONSORIAL

Este é o dia que o Senhor fez para nós:

alegremo-nos e nele exultemos.

2. SEGUNDA LEITURA: Cl 3,1-4

Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo.

O autor do texto que ouvimos convida os cristãos a guiarem sua vida pelos valores celestes e não pelos da terra. O cristão deve morrer para tudo que leva ao pecado, para viver uma vida nova em Cristo. Isso é simbolizado pelo batismo: No símbolo da imersão na água batismal morre o homem velho e, ao emergir, nasce o homem novo, para viver uma vida nova em Cristo. Como Cristo ressuscitou e está com Deus, diz o autor, nossa vida “está escondida, com Cristo, em Deus”. Esta vida se manifestará quando Cristo voltar triunfante em sua glória, no fim dos tempos. É o que diz Paulo ao falar da ressurreição dos mortos: “Cristo ressuscitou dos mortos como o primeiro dos que morreram”. Por isso, “assim, em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: Cristo como primeiro fruto, em seguida os que forem de Cristo por ocasião de sua vinda” (1Cor 15,20-23). Quando isso acontecer, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26). Para Marta, que chorava a morte de seu irmão Lázaro, Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).

SEQUÊNCIA

Cantai, cristãos, afinal: “Salve, ó vítima pascal”!

Cordeiro inocente, ó Cristo abriu-nos do Pai o aprisco.

Por toda ovelha imolado, do mundo lava o pecado.

Duelam forte a mais forte: é a vida que enfrenta a morte.

O rei da vida, cativo, é morto, mas reina vivo!

Responde, pois, ó Maria: no teu caminho o que havia?

“Vi Cristo ressuscitado, o túmulo abandonado.

Os anjos da cor do sol, dobrado ao chão o lençol...

O Cristo, que leva aos céus, caminha à frente dos seus!”

Ressuscitou de verdade. Ó Rei, ó Cristo, piedade!

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Aleluia, Aleluia, Aleluia.

O nosso cordeiro pascal, Jesus Cristo, já foi imolado.

Celebremos, assim, esta festa, na sinceridade e verdade.

3. EVANGELHO: Jo 20,1-9

Ele devia ressuscitar dos mortos.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai de madrugada ao túmulo e encontra a pedra removida. É uma das mulheres que estavam junto à cruz, com a mãe de Jesus e o discípulo que Jesus amava. Não vai ao túmulo para ungir o corpo de Jesus, como as mulheres em Mc 16,1, pois Nicodemos e José de Arimateia já o tinham feito, usando aromas e trinta quilos de mirra e aloés (Jo 19,39-40). Como a mulher do Cântico dos Cânticos (Ct 3,1), bem de madrugada, ainda “no escuro”, ela sai para visitar o sepulcro e chorar o seu amado. Vendo a pedra removida, sai correndo para avisar a Pedro e ao outro discípulo: “Tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram”. Os dois discípulos também correm para verificar o que aconteceu e buscar uma explicação. Com o Senhor morto e o sepulcro fechado, a vida parecia ter parado. Mas a pedra, que parecia selar para sempre o destino do Mestre, foi removida e o sepulcro estava aberto e vazio. Primeiro entra Pedro e encontra apenas as faixas de linho, que envolviam o corpo, e o sudário, que envolvia a cabeça de Jesus. Depois entra o outro discípulo e encontra as mesmas coisas que Pedro; mas, ele “viu e creu”.

Por que Pedro viu apenas viu um sepulcro vazio e panos espalhados pelo chão? Por que o discípulo amado, a testemunha por excelência, “viu e creu”? Pedro pode ter pensado o que Madalena pensou: alguém roubou o corpo de Jesus, boato mencionado por Mateus. O discípulo amado, fiel a Jesus até aos pés da cruz, acreditou nas Escrituras que anunciam sua ressurreição. Porque amava, viu não apenas um sepulcro vazio, mas também os panos esvaziados, afrouxados, testemunhando a vitória de Jesus sobre a morte, porque tinha o poder de dar sua vida e de retomá-la (10,17-18). Por trás do discípulo amado pode estar a figura do Apóstolo João. Representa, também, todo o cristão iniciado na fé, que ama o Senhor, como Maria Madalena e o discípulo amado e é amado pelo Senhor. É, por excelência, a testemunha de Cristo Ressuscitado. Ele representa pessoas como eu e você, que não viram Cristo ressuscitado, mas crêem. Ele não crê apenas porque “viu” o Cristo Ressuscitado como Maria Madalena e os Apóstolos. Crê porque compreende a Escritura (como os iniciados), “segundo a qual Cristo devia ressuscitar dos mortos”.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 05

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DE RAMOS – ELE ERA MESMO FILHO DE DEUS –

*Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar como ele em sua glória”.

1. LEITURA: Is 50,4-7

Não desviei o meu rosto das bofetadas e cusparadas.

Sei que não serei humilhado.

O texto de hoje traz as palavras do 3º Cântico do Servo Sofredor. É uma figura profética que está entre os judeus exilados na Babilônia. Ele está convencido de ter recebido uma missão da parte de Deus para levar uma mensagem de conforto para os exilados desanimados. O Servo apresenta-se como um discípulo obediente, atento a cada manhã para receber a mensagem divina que deverá transmitir. Mas, para cumprir esta missão enfrentará o desprezo e o sofrimento.

Embora ameaçado de morte pelos adversários, Jesus entra resolutamente em Jerusalém para cumprir sua missão até o fim. Confiando no auxílio divino, Jesus não se deixou abater, mas foi fiel até a morte de cruz; por isso foi glorificado por Deus, que o tornou “Senhor” (2ª leitura).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 21

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

2. SEGUNDA LEITURA: Fl 2,8-9

Humilhou-se a si mesmo;

por isso, Deus o exaltou acima de tudo.

Jesus, Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder, mas esvaziou-se de si mesmo e assumiu a condição de servo. Apresentando-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), procurou socorrer os mais necessitados (Mt 27,42). Não se identificou-se com a classe dominante, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. O exemplo de Cristo tornou-se o caminho do cristão.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Salve, ó Cristo obediente! / Salve, amor onipotente,

que te entregou à cruz/ e te recebeu na luz!

3. EVANGELHO: Mt 26,14–27,66

“Ele era mesmo Filho de Deus”.

Jesus não é entregue à morte contra a sua vontade. Ele se entrega nos sinais do pão e do vinho, na doação livre de sua vida, de seu corpo e de seu sangue. Se quisesse pedir, o Pai lhe enviaria em socorro 12 legiões de anjos. Renuncia ao poder e à violência e se entrega humildemente nas mãos do Pai, para que se cumpram as Escrituras (26,53). É traído por Judas e negado por Pedro, que se arrepende. É condenado à morte pelo Sinédrio porque se apresenta como o Cristo e Filho de Deus. Judas entra em desespero e se enforca. Os sumos sacerdotes entregam Jesus a Pilatos, porque só ele podia condenar alguém à morte.

A acusação diante do governador romano é de caráter político, como se vê na pergunta de Pilatos: “Tu és o rei dos judeus”? Sob pressão da multidão, “sabendo que haviam entregue Jesus por inveja”, Pilatos propõe a escolha entre Barrabás e Jesus que chamam de Messias. O povo, instigado pelos sumos sacerdotes, escolhe Barrabás, preso por suas aspirações messiânicas de caráter político, e rejeita o próprio Messias, Servo do Senhor (27,21-22). – Destacam-se algumas afirmações próprias de Mateus: o sonho da mulher de Pilatos (27,19); Pilatos que lava as mãos, responsabilizando a multidão (27,24-25); o terremoto, a cortina do templo que se rasga, e a ressurreição dos mortos na hora da morte de Jesus (27,51b-53). Os judeus zombam de Jesus como Messias (26,68) e os soldados romanos como rei (27,27-31). Nas zombarias, dirigidas a Jesus na cruz aparece o motivo da destruição do Templo (26,60-62), usado como acusação contra Jesus no processo do Sinédrio; os chefes religiosos lembram a ação salvadora de Jesus, mas agora incapaz de salvar-se a si mesmo; a confiança de Jesus em Deus, que agora abandona seu Filho; a confissão do centurião romano que diz: “Ele era mesmo Filho de Deus”. Por fim, os guardas que os sumos sacerdotes colocam como vigias junto ao túmulo, para que o corpo de Jesus não fosse roubado pelosa discípulos.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 22

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DA QUARESMA – O SENHOR É O PASTOR, NÃO ME FALTA COISA ALGUMA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Davi é ungido rei de Israel.

Os relatos bíblicos falam de três unções de Davi como rei: é ungido pelos homens de Judá como rei da casa de Judá; é ungido pelas tribos como rei de Israel, em reconhecimento de suas qualidades de liderança político-militar. A terceira foi uma unção prévia, de caráter carismático, por iniciativa do profeta Samuel e por indicação divina. O critério desta última é a escolha por iniciativa exclusiva de Deus, pois “o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (v. 9). Outro critério é que Deus escolhe alguém que sabia cuidar de ovelhas para ser o pastor e cuidar de seu povo Israel. Depois de Davi ter sido ungido por Samuel, “o espírito do Senhor se apoderou de Davi”, para salvar Israel dos inimigos que ameaçavam, para julgá-lo como juiz e para trazer-lhe segurança e paz. – A unção de Davi nos remete para ao batismo de Jesus por João Batista, quando foi ungido pelo Espírito do Senhor a fim de exercer sua missão de Messias, Servo Sofredor. Lembra também a nossa unção batismal.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz;

não me falta coisa alguma.

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 5,8-14

Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá.

A carta aos Efésios, atribuída a Paulo quando estava na prisão, foi provavelmente escrita por um discípulo na década de 90. Respira a teologia de Paulo, mas também a do Evangelho de João. O símbolo “luz x trevas” estão bem presente em João: “A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam” (Jo 1,5). No diálogo com Nicodemos Jesus diz: “A luz veio ao mundo e as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). Mais adiante (8,12) Jesus se apresenta como a luz do mundo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. A 2ª leitura é um texto batismal, caracterizada pelos símbolos “luz” (5 vezes) e “trevas” (2 vezes). Quem é batizado e segue a sua fé produz os frutos da luz: bondade, justiça, verdade. A luz da fé leva o cristão a “discernir o que agrada ao Senhor” – a prática do bem – e afastar-se das “obras das trevas”

A leitura conclui-se com um hino batismal: “Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”. Iluminado por Cristo pelo batismo, o cristão não pode ficar parado (Evangelho), mas se compromete a seguir a Jesus Cristo, luz do mundo. Como filho da luz (1Ts 5,5). Jesus expressa muito bem o que é ser iluminado por sua luz: “Vós sois a luz do mundo (...). Vossa luz deve brilhar diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,12-16). A maturidade da vida cristã se reflete nos frutos da luz: bondade, justiça, verdade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Louvor e honra a vós, Senhor Jesus.

Pois, eu sou a luz do mundo, quem nos diz é o Senhor;

E vai ter a luz da Vida quem se faz meu seguidor!

3. EVANGELHO: Jo 9,1.6-9.13-17.34-38

O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.

Lemos hoje apenas uma síntese do relato completo da cura do cego de nascença, que se compõe de seis cenas. Na síntese é omitida completamente a cena dos pais que são interpelados pelos fariseus e confirmam que o cego curado é o filho deles e que nasceu cego. Nos interrogatórios os fariseus (cegos) lutam contra as evidências. No texto mais longo, quatro vezes se afirma que se tratava de um cego de nascença; onze vezes é constatada a cura e três vezes se repete a frase descritiva da cura: “Fui, lavei-me e estou vendo”. O cego não só recobrou a vista, mas se lhe abriram os olhos da fé em Jesus, como Salvador e “Luz do mundo” (v. 5). Os olhos do cego vão se abrindo aos poucos para a fé. Primeiro ele diz: “aquele homem que se chama Jesus” (v. 11); depois, que Jesus é um profeta (v. 17); em seguida, que é o Cristo (v. 22), é um homem de Deus (v. 33), é o Filho do homem (v. 35) e, finalmente, que é o Senhor (v. 38). Enquanto o cego se abre cada vez mais à fé em Cristo, os fariseus se fecham sempre mais em sua cegueira. De juízes que se consideram (“Este homem não pode ser de Deus porque não observa o sábado”), acabam sendo julgados pelo cego, que é expulso da sinagoga. Jesus só aparece no início, quando cura o cego, e no fim, quando o cego é expulso da sinagoga. Então, Jesus conversa com ele, e o cego confessa sua fé e diz: “Eu creio, Senhor!” – e o adora. É admitido, portanto, à comunhão com Cristo. – A cura do cego tornou-se no decorrer do tempo uma parábola da iluminação batismal e da admissão na comunidade eclesial. A fé começa com o primeiro encontro com Jesus, cresce com o testemunho do cego e chega à plenitude com o novo encontro com Jesus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 15

UMA LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DA QUARESMA – UMA FONTE DE ÁGUA PARA A VIDA ETERNA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão de nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ex 17,3-7

O Senhor está no meio de nós ou não?

Moisés, em nome de Deus, apresenta o plano de libertação: Deixar de servir ao Faraó com trabalhos forçados, para servir somente ao Senhor, numa terra prometida aos antepassados. A primeira parte do plano foi concluída e o povo já não era mais escravo. Mas entre o Egito e a terra prometida havia um deserto; no Egito era abundante a água do rio Nilo e a terra irrigada era muito fértil. No deserto, só a penúria e escassez de água. Daí a revolta: O povo tenta a Deus, contesta a autoridade de Moisés e quase o apedreja. A reclamação – “Deus está, ou não está no meio de nós?” – mostra uma fé abalada no Deus libertador. Deus intervém e ordena que Moisés reassuma a liderança, tomando o seu bastão, símbolo do poder divino, bastão que estendeu para ferir o Egito (rio Nilo) e abrir um caminho no Mar Vermelho para o povo passar. Acompanhado pelos anciãos devia ir à frente do povo, bater na rocha perto do monte Horeb, na presença do Senhor. Moisés assim o fez e da rocha saiu água para matar a sede de todo o povo. Paulo diz que o povo bebeu uma água espiritual e que a rocha da qual saiu água era Cristo (1Cor 10,3-4). O símbolo da água nos remete para o tema quaresmal e pascal, o batismo. No Evangelho, Jesus se apresenta à Samaritana como a fonte de água viva.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 94

Hoje não fecheis o vosso coração,

mas ouvi a voz do Senhor!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 5,1-2.5-8

O amor foi derramado em nós

pelo Espírito que nos foi dado.

No trecho da Carta de Paulo aos Romanos, hoje lido, o Apóstolo nos fala das assim chamadas virtudes cardeais; elas são as mais importantes entre dons do Espírito: a fé, a esperança e a caridade/amor, dons que recebemos pelo batismo. Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo já exaltava a primazia do amor: “No presente permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor; mas a maior delas é o amor” (1Cor 13,13). Paulo lembra aos romanos que, por meio de Cristo, somos justificados pela graça da fé, confirmados pela esperança da glória e pelo dom do “amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”. Este dom nos foi dado por meio de Jesus Cristo, que “morreu por nós... quando éramos pecadores”, prova máxima do amor de Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Glória e louvor a vós, ó Cristo.

Na verdade, sois Senhor, o Salvador do mundo.

Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede!

3. EVANGELHO: Jo 4,5-42

Uma fonte de água viva que jorra para vida eterna.

O evangelho de hoje é a realização plena do que a primeira leitura prefigura. A água pedida pelos israelitas no deserto prefigura a água viva, dada por Jesus. Os hebreus pediam uma água que conheciam, mas não matava a sede. Jesus pede à Samaritana que lhe dê de beber da água do poço de Jacó (1ª leitura). A mulher estranha que Jesus (um judeu) lhe peça água, sendo ela uma Samaritana. Jesus responde que se o conhecesse ela mesma lhe pediria uma “água viva”, capaz de matar a sede para sempre. “E a água que eu lhe der – diz Jesus – se tornará nela uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana pede, então, a Jesus que lhe dê de beber desta “água viva” e recebe o dom de Deus, isto é, a fé no próprio Cristo Jesus. Torna-se ela mesma “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. De fato, ao final do diálogo, a Samaritana crê em Jesus e transforma-se em missionária do próprio povo: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo”? Jesus, que tinha sede, não bebe a água do poço de Jacó. Sua sede é dar a todos os que nele crêem a “água viva” (o Espírito Santo), a fim de que sejam para outros “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana, que buscava a água do poço de Jacó, recebe de Jesus a água viva que jorra para a vida eterna. Quando os discípulos insistiam que comesse alguma coisa Jesus responde: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (v. 34). – Como você busca saciar a sede de Deus em sua vida? A Samaritana missionária partilhou a “água viva” com seu povo. Você procura ser uma fonte da qual jorra a vida eterna para os outros?

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 08

LEITURA ORANTE: POR FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – EIS MEU FILHO MUITO AMADO, ESCUTAI-O, TODOS VÓS –

*Por Frei Ludovico Garmus –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai o nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão de vossa glória”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Gn 12,1-4a

Vocação de Abraão, pai do povo de Deus.

A vocação e missão de Abraão estão ligadas à promessa divina de uma terra e de uma grande descendência. Será uma bênção o simples fato de alguém ser descendente de Abraão. A promessa inclui também uma grande bênção: “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (v. 3); isto é, a salvação para todos os povos. Movido pela fé (cf. Rm 4), Abraão larga o conforto e a segurança da terra natal e parte para o desconhecido, confiando nas promessas divinas. A fé do patriarca Abraão torna-se modelo (Hb 10) para todos os seus descendentes e para os cristãos em geral: “A fé é o fundamento do que se espera e a prova das realidades que não se veem” (Hb 11,1). Em Abraão, Deus começa e revelar o plano de sua graça – a nossa salvação –, plano mantido em segredo desde toda a eternidade. Este desígnio de salvação “foi revelado agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo” (2ª leitura).

Nós também, cheios de confiança, pelas palavras do Salmo responsorial, rezamos com a Igreja: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça! Venha a vossa salvação”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 32

Sobre nós, Senhor, venha a vossa graça!

Venha a vossa salvação.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Tm 1,8b-10

Deus nos chama e ilumina.

Paulo está na prisão e nesta Carta convida seu bispo Timóteo a sofrer com ele pelo Evangelho que os dois estão anunciando, movidos pela força que vem de Deus. Participar do anúncio do Evangelho é um chamado de Deus para a salvação, “por uma vocação santa”. A salvação a qual Deus nos chama não se deve a nossas boas obras, mas é fruto da graça divina. Esta graça, escondida, mas garantida, desde toda a eternidade, foi revelada somente agora, pela manifestação de Jesus Cristo. Apenas agora Deus fez brilhar a vida e a imortalidade, através do Evangelho. – A manifestação de Jesus Cristo se dá pela sua vida terrena, pela sua morte e ressurreição, como vemos na Transfiguração (Evangelho). O caminho para a ressurreição passa pela cruz.

Jesus tinha um objetivo em sua vida: Trazer o Reino de Deus, que Ele anunciou e viveu. Ao término de sua viagem a Jerusalém, quis livremente doar sua vida pela nossa salvação. Ressuscitando dos mortos, abriu o caminho da imortalidade para toda a humanidade.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória.

Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai:

Eis meu Filho muito amado, escutai-o, todos vós.

3. EVANGELHO: Mt 17,1-9

O seu rosto brilhou como o sol.

Quando Mateus escreve seu Evangelho, seguindo o evangelho de Marcos, coloca a cena da transfiguração na grande viagem de Jesus da Galileia a Jerusalém (Mt 16–20). Os ensinamentos de Jesus e os acontecimentos ao longo desta viagem constituem uma catequese para a vida cristã. Chamam a nossa atenção os três anúncios da paixão e ressurreição de Jesus (Mt 17,21-23; 17,22-23; 20,17-19). Para nós, que vivemos após os acontecimentos, parece tudo claro: Jesus é Messias (Cristo), o Filho de Deus enviado pelo Pai a este mundo, que pregou e viveu o Reino de Deus, morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia. Mas nada era claro para os apóstolos e o povo que seguia Jesus. Quando Pedro confessou Jesus como o Cristo, pensava que o Mestre acabaria sendo proclamado rei em Jerusalém. Achou-se no direito de repreender o próprio Mestre, quando este falava de sua morte em Jerusalém; por isso Jesus o chamou de “satanás”, isto é, alguém que se opõe ao plano divino. Depois disso é que vem a presente cena da Transfiguração. E ainda no mesmo cap. 17 Jesus anuncia, pela segunda vez, sua morte e ressurreição. É neste contexto que devemos ler a Transfiguração. Era noite e, enquanto Pedro Tiago e João dormem envolvidos pelo sono, Jesus está em profunda oração junto ao Pai. De repente, os discípulos acordam e veem Jesus com o rosto brilhante e suas vestes resplandecentes de luz, tendo a seu lado Moisés e Elias. Pedro, então, exclama: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”... Parece ter esquecido que estavam a caminho de Jerusalém e pouco antes da visão gloriosa Jesus lhes falava de sua próxima morte. Por isso, a voz do céu insiste: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o”.

Sim, o fato de o Pai ter permitido a morte violenta de seu Filho amado é a manifestação máxima de seu amor por nós. Ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida por seus amigos – diz Jesus. Muitos anos depois, Pedro, na Segunda Epístola, recorda a cena da Transfiguração: (Jesus) “Recebeu de Deus Pai a honra e a glória, quando da glória magnífica se fez ouvir a voz que dizia: ‘Este é o meu filho amado, de quem eu me agrado’. E esta voz, que veio do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2Pd 1,17-18).

O Evangelho que hoje meditamos nos ensina a não pararmos em nossa vida no monte da transfiguração (“Senhor, é bom ficarmos aqui...”). Como discípulos e discípulas de Jesus, somos convidados a seguir Jesus até o Calvário, aguardando sua gloriosa ressurreição, ao terceiro dia.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 16

LEITURA ORANTE: FREI LUDOVICO GARMUS

LUDOVICO GARMUS

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A SABEDORIA DO EVANGELHO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos viver de tal modo, que possais habitar em nós”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Eclo 15,16-21

A ninguém mandou agir como ímpio.

O livro do Eclesiástico ou Sirácida é um dos últimos livros di Antigo Testamento a serem escritos (200 a.C.). É um livro sapiencial, que recolhe a sabedoria ou experiência vivida por Israel no relacionamento com Deus e com as pessoas. Sabedoria que é sintetizada na observância da lei de Deus (cf. Dt 4,1-8; 30,15-20). O texto que ouvimos convida a escolhermos o caminho dos justos, que temem a Deus e observam os seus mandamentos. Ao mesmo tempo critica os ímpios, que não temem a Deus e pensam que Ele “não vê” as maldades que praticam (cf. Sl 10,4.6.11; 64,6; 73,21). Deus nos deu a liberdade de escolhermos o caminho dos justos ou seguir o caminho dos ímpios. A palavra de Deus nos transmite a Sabedoria para escolhermos bem e sermos felizes. Estabelece, porém, alguns princípios: Quem observa ou guarda os mandamentos, é guardado por eles; guardar os mandamentos divinos é confiar em Deus, que nos dá a Vida. Deus, nosso criador, num gesto de confiança, concede-nos a liberdade de escolher entre o fogo ou a água, a vida ou a morte, o bem ou o mal. Deus vela sobre aqueles que o temem e buscam a Vida. O autor critica as seguintes afirmações: 1) o pecado é inevitável; 2) Deus não se preocupa conosco e com nossos pecados. Afirma, ao contrário: 1) somos livres para escolher o bem ou o mal; 2) Deus quer nossa salvação e que escolhamos o seu caminho para alcançá-la.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 118

Feliz o homem sem pecado em seu caminho,

Que na lei do Senhor Deus vai progredindo.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 2,6-10

Deus destinou, desde a eternidade,

uma sabedoria para nossa glória.

Nos dois últimos domingos, Paulo nos falava da sabedoria de Deus, contrapondo-a à sabedoria deste mundo. Paulo não veio à cidade de Corinto como um filósofo para ensinar uma nova sabedoria humana. Aliás, saiu-se mal em Atenas ao falar aos filósofos sobre Jesus Cristo, morto numa cruz e ressuscitado (cf. At 17,16-34). Em Corinto também havia os que gostavam de ouvir Paulo falando do Cristo ressuscitado, mas não do Cristo morto numa cruz. Na leitura de hoje, Paulo nos fala da “misteriosa sabedoria Deus, sabedoria escondida”, mas agora revelada na cruz de Cristo. Desde toda a eternidade, antes de criar o mundo, Deus quis que seu Filho Unigênito assumisse a nossa carne humana, se tornasse nosso irmão, morresse por nós na cruz e ressuscitasse dos mortos. Tudo isso, diz Paulo, “em vista da nossa glória”, isto é, nossa salvação. É o amor de Deus que assim planejou tudo isso e “preparou para os que o amam”. Nenhum ser humano poderia ter imaginado que da morte de Cristo, e da nossa morte corporal, pudesse brotar a nova Vida com Deus para a eternidade, quando ressuscitaremos no último dia. Esse plano maravilhoso foi-nos revelado pelo Espírito de Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Mt 11,15

Eu te louvo, ó Pai santo, Deus do céu, Senhor da terra:

Os mistérios do teu Reino aos pequenos, Pai, revelas.

3. EVANGELHO: Mt 5,17-37

Assim foi dito aos antigos. Eu, porém, vos digo.

Jesus ensina a sabedoria do Evangelho, que supera a sabedoria contida nos mandamentos da Lei. O judeu podia encontrar o caminho para a vida na observância dos mandamentos. O próprio Jesus aponta o caminho dos mandamentos para o jovem que lhe perguntava: “Que devo fazer para ganhar a vida eterna” (Lc 18,18-25)? Jesus não veio para abolir a Lei e os Profetas, mas “para dar-lhes pleno cumprimento”. O evangelho de hoje aprofunda o sentido dos mandamentos. Segundo Jesus eles apontam para a dimensão mais profunda da vontade de Deus, da qual são uma pálida expressão. Jesus exige mais do que a simples observância material da Lei. Exige uma justiça maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus. Reinterpreta o mandamento “não matarás”, ao mostrar que o cristão deve evitar as mínimas ofensas (“tolo”), capazes de se agravar a ponto de levar a tirar a vida do irmão. Agrada mais a Deus a reconciliação com o irmão do que as ofertas que lhe são oferecidas no culto. O simples desejar a mulher do próximo já é adultério. Jesus pede uma atitude radical, uma sensibilidade que revele o mistério escondido em cada pessoa, que é o próprio Deus. Revela a graça divina, o caminho da vida eterna, que é um dom de Deus. Para o cristão Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele revela a verdadeira sabedoria do Evangelho, que nos leva a vivermos felizes o Reino dos Céus (de Deus) já aqui na terra.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 17

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM – É FELIZ QUEM A DEUS SE CONFIA! –

“As bem-aventuranças constituem o núcleo central da mensagem do Evangelho. Jesus levanta os olhos e se dirige a cada pessoa da multidão de ouvintes, usando o plural “vós”. Na multidão Jesus vê gente pobre e faminta, gente que chora. Olha para o futuro e vê cristãos odiados e sendo expulsos das sinagogas”

*Por Frei Ludovico Garmus, OFM

ORAÇÃO: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 17,5-8

Maldito o homem que confia no homem;

feliz o homem que confia no Senhor.

O texto da primeira leitura é uma crítica a Sedecias, o último rei de Judá (597-587 a.C.). Jerusalém já tinha sido conquistada por Nabucodonosor, rei de Babilônia. Conquistada a cidade, Nabucodonosor depôs o rei Joaquin (Jeconias) e o exilou com a classe dirigente para Babilônia. Em seu lugar colocou Sedecias como rei. Passados alguns anos, Sedecias, seguindo a voz de seus conselheiros, tramava uma revolta contra Babilônia, contando com a promessa de apoio do Egito. O profeta Jeremias, em nome de Deus, dizia que trair o rei da Babilônia era assinar a sentença de morte contra Judá e Jerusalém. Mas, submeter-se aos babilônios era a única saída para salvar da ruína a nação e seu povo (Jr 27,1-8). Neste contexto situam-se as palavras de Jeremias. O profeta critica o rei, ameaçando-o com as maldições do livro do Deuteronômio. Sedecias deixou de confiar em Deus, para confiar nos conselhos dos homens; com isso atraiu sobre a nação as maldições previstas na Lei. Colocar a confiança nos homens era apostar no deserto, sem água e sem vida: “Eles me abandonaram, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas rachadas, que não podem conter água. A bênção, porém, está com quem confia no Senhor. Este é comparado a uma árvore plantada junto às águas: ela sempre terá as folhas verdes e produzirá frutos (Salmo responsorial). Em quem depositamos nossa confiança? Qual é a minha fonte de água viva?

SALMO RESPONSORIAL: Sl 1

É feliz quem a Deus se confia!

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15,12.16-20

Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã.

No cap. 15, Paulo procura responder à pergunta da comunidade de Corinto: Que relação tem a ressurreição de Cristo com a nossa ressurreição? No judaísmo do tempo de Jesus, os fariseus acreditavam na ressurreição, mas os saduceus não. Quando, em Atenas, Paulo tentava anunciar como grande novidade que Jesus de Nazaré morreu crucificado, mas ao terceiro dia ressuscitou e que nós também vamos ressuscitar, alguns começaram a zombar dele e disseram: “A este respeito te ouviremos noutra ocasião” (At 17,32-34). Para os ouvintes pagãos era, portanto, mais difícil acreditar na ressurreição após a morte. Que o fundador de uma nova religião tivesse ressuscitado era até aceitável; seria parte de um mito... Decepcionado com Atenas que recebeu mal o Evangelho, Paulo chega a Corinto e muda o tom de sua pregação e insiste mais na humanidade de Cristo: “Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos...” (1Cor 1,22-23). A âncora da fé na ressurreição se fixa na humanidade do Filho de Deus encarnado e no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. Assumindo a nossa carne, Deus se fez solidário conosco. Partindo da dúvida dos coríntios, assim argumenta o Apóstolo:

• Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou.

• Se Cristo não ressuscitou, nossa fé não vale nada e ainda não recebemos o perdão dos pecados.

• Se Cristo não ressuscitou, os que morreram em Cristo não foram salvos.

• Por que cremos na ressurreição? – Se colocamos nossa esperança em Cristo só para esta vida, entre todos os homens, somos os mais dignos de compaixão.

• Realidade da fé: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Ficai muito alegre, saltai de alegria,

pois, tendes um prêmio bem grande nos céus.

Ficai muito alegres, saltai de alegria. Amém, aleluia, aleluia.

3. EVANGELHO: Lc 6,17.20-26

Bem-aventurados os obres. Ai de vós, ricos.

Na cena anterior (v.12-16), Jesus tinha subido com os discípulos a uma montanha, onde passou a noite em oração. De manhã Jesus chamou-os e escolheu doze dentre eles e os chamou de apóstolos. Para Lucas, a montanha é o lugar do encontro com Deus e das decisões mais importantes. O evangelho de hoje quer mostrar que, dentre os muitos discípulos que o seguiam, Jesus escolhe doze para acompanhá-lo sempre na missão. Jesus desce com os companheiros até a planície, porque é lá que a missão acontece. Eles serão enviados em missão (Lc 9,1-6), junto com outros 72 discípulos (Lc 10,1-20). A esses apóstolos e discípulos/discípulas Jesus se dirige no seu sermão, bem como a uma multidão de pessoas, vindas da Judeia, de Tiro e Sidônia. É o “sermão da planície”, correspondente ao “sermão da montanha” de Mateus. Mateus dedica três capítulos ao “sermão da montanha” (cap. 5 a 7) enquanto Lucas se um (cap. 6). Isso porque, em Lucas, Jesus ensina na viagem da Galileia para Jerusalém (Lc 9,51–19,28) e no caminho para Emaús (24,13-35; cf. At 8,26-40).

As bem-aventuranças constituem o núcleo central da mensagem do Evangelho. Jesus levanta os olhos e se dirige a cada pessoa da multidão de ouvintes, usando o plural “vós”. Na multidão Jesus vê gente pobre e faminta, gente que chora. Olha para o futuro e vê cristãos odiados e sendo expulsos das sinagogas, insultados e amaldiçoados “por causa do Filho do Homem”. Os pobres são chamados felizes, os famintos serão saciados, os que choram haverão de rir, os que são odiados e perseguidos por causa do nome de Jesus são convidados a alegrar-se porque deram testemunho de sua fé e serão recompensados no céu. Em Lucas são quatro bem-aventuranças – em Mateus são oito. Em Lucas, às quatro bem-aventuranças correspondem quatro maldições: pobres X ricos; os famintos x e os que tem fartura; os que choram X e os que estão sempre em festa; os que são difamados X e os que são elogiados. O Evangelho nos coloca diante de dois caminhos: o do seguimento de Jesus Cristo ou o da sua rejeição. Não se pode permanecer indiferente diante de Jesus Cristo (Lc 2,34; 10,10-16; 12,49-53). Ou se é a favor ou se é contra: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lc 16,13).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 10

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

“O Evangelho de hoje fala da vocação dos primeiros discípulos. Depois de ter pregado nas sinagogas da região, Jesus chega a Cafarnaum já famoso. Na margem do lago, o povo se apinhava ao redor de Jesus, “para ouvir a palavra de Deus”. Jesus viu duas barcas na margem e pescadores que lavavam as redes.”

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – AQUI ESTOU, ENVIA-ME –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 6,12a.3-8

Aqui estou, envia-me.

Na primeira leitura ouvimos a narrativa da vocação do profeta Isaías. Isaías morava em Jerusalém, bem próximo das elites, e conhecia os abusos praticados contra o povo. Sua vocação acontece no Templo, durante a celebração do culto. Ele mesmo conta a visão divina que teve, as palavras que Deus lhe falava, estabelecendo um diálogo com ele. Enquanto a corte estava ainda abalada pela morte do rei Ozias e sua sucessão, o profeta sente-se transportado para a corte divina. Ele vê o Senhor sentado num trono sublime, vestido de um enorme manto que enchia o Templo, pronto para ouvir a corte celeste e tomar uma decisão. A corte era formada por serafins. Estes aclamavam o Senhor como três vezes “Santo”, porque sua glória enchia toda a terra. O profeta percebe que está sendo chamado para ser mensageiro de Deus. Diante do Senhor “Santo”, sente-se pecador; percebe-se como indigno e despreparado para missão de porta-voz de Deus. Então um dos serafins vem em seu socorro; com uma brasa tirada do altar do incenso purifica os lábios do profeta e comunica-lhe que seu pecado já está perdoado. Isaías ouve, então, a voz do Senhor, dizendo: “Quem enviarei? Quem irá por nós”? E Isaías responde prontamente: “Aqui estou! Envia-me”. A resposta de Isaías revela sua prontidão. Sabia, porém, que haveria de enfrentar dificuldades na missão; por isso, pergunta: “Até quando, Senhor? (Is 6,8-13; cf. 1,2-9).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 137

Vou cantar-vos, ante os anjos, ó Senhor.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15, 1-11

É isso o que temos pregado, e é isso o que crestes.

Em todas as Cartas que Paulo escreve (menos Romanos), dirige-se a comunidades por ele fundadas. Por isso suas Cartas têm um caráter mais pastoral que doutrinário. O texto que hoje ouvimos é, ao mesmo tempo, doutrinário e pastoral. Havia entre os cristãos de Corinto perguntas a serem respondidas e dúvidas de fé a serem esclarecidas. Havia quem negasse a ressurreição dos mortos (15,12). Outros se perguntavam como os mortos ressuscitam e com que corpo (15,35). Para reforçar a fé na Ressurreição, Paulo não dá uma resposta científica, mas parte da fé, do evangelho por ele transmitido. O que Paulo recebeu da tradição constitui o núcleo mais antigo do Credo da Igreja: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, segundo as Escrituras. Depois cita uma lista de testemunhas da fé no Cristo Ressuscitado. A lista é encabeçada por Cefas (Pedro ou Simão Pedro) e pelos Doze, seguida de centenas de testemunhas, algumas ainda vivas. Menciona, também, a aparição a Tiago e aos apóstolos, por fim, inclui-se a ele mesmo na lista das testemunhas. Considera-se apóstolo de Cristo, embora o menor e mais indigno de todos, porque perseguiu os cristãos. O encontro com o Cristo Ressuscitado marca a conversão e vocação de Paulo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

“Vinde após mim”! O Senhor lhes falou,

“e vos farei pescadores de homens”.

3. EVANGELHO: Lc 5,1-11

Deixaram tudo e o seguiram.

Marcos e Mateus falam da visita de Jesus a Nazaré, após narrar parte de sua atividade no entorno do lago da Galileia (Mc 6,1-6; Mt 13,54-58). Jesus já havia escolhido seus discípulos quando entra na sinagoga de sua terra natal. Lucas, depois de falar do batismo de Jesus por João e de seu jejum e tentação no deserto, menciona de passagem a atividade em torno do Lago. Em seguida Jesus vai a Nazaré, sozinho, sem os discípulos, que ainda não tinham sido escolhidos. Somente em Lc 5,1-11 o evangelista narra a escolha dos primeiros discípulos. Eles serão a nova família de Jesus. A visita à sinagoga de Nazaré marca, assim, a ruptura de Jesus com seus familiares e patrícios, prenúncio da ruptura entre o cristianismo e o judaísmo, que acontecia quando Lucas escreve seu evangelho.

O Evangelho de hoje fala da vocação dos primeiros discípulos. Depois de ter pregado nas sinagogas da região, Jesus chega a Cafarnaum já famoso. Na margem do lago, o povo se apinhava ao redor de Jesus, “para ouvir a palavra de Deus”. Jesus viu duas barcas na margem e pescadores que lavavam as redes. Entrou numa das barcas, que era de Simão, e, sentado, continuou ensinando. Ao terminar o discurso, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. Simão deve ter pensado “De pesca Jesus não entende nada”, pois passaram a noite inteira sem nada pescar. Mesmo assim acolhe a sugestão e o resultado foi maravilhoso. As redes se rompiam de tanto peixe, de modo que tiveram de chamar a outra barca. Diante do mistério da pessoa de Jesus, Simão reage, como o profeta Isaías (1ª leitura). Movido pela inesperada experiência da presença de Deus, Simão sente-se pecador, prostra-se aos pés de Jesus e diz: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador”. Os irmãos Tiago e João, sócios de Simão, reagiram da mesma forma. Jesus apenas lhe diz: “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens”. Imediatamente, Simão, Tiago e João largaram tudo e seguiram a Jesus. Os cristãos, e Lucas com eles, entenderam que as palavras de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lançai vossas redes para pesca”, indicava, sobretudo, a missão entre os pagãos (cf. Atos). E as palavras “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens”, soava como um convite a abraçar o programa de Jesus na vivência e anúncio do Evangelho. Como reagimos às palavras de Jesus e ao convite do Papa Francisco a sermos uma “Igreja em saída”, sem medo de levar a boa-nova aos pobres de nossos dias?

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

fev 03

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – PERMANECE A CARIDADE –

"Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu" –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Concedei-nos, Senhor Deus, adorar-vos de todo o coração, e amar todas as pessoas com verdadeira caridade”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 1,4-5.17-19

Eu te consagrei e te fiz profeta das nações.

O texto que ouvimos faz parte da narrativa da vocação do profeta Jeremias (cf. Jr 1,4-19). É um texto autobiográfico, no qual o próprio Jeremias conta, em 1ª pessoa, sua vocação para ser profeta. Ser profeta não é decisão de uma pessoa, mas um chamado especial que Deus lhe faz. Estava no plano de Deus chamar Jeremias para ser profeta: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes que nascesses eu te consagrei”. O chamado divino não é uma imposição que tira a liberdade da pessoa, mas um convite de Deus para uma missão especial: ser “profeta das nações”. A liberdade de acolher ou rejeitar o convite fica evidente pela forma de diálogo da narrativa de vocação: é o Eu divino que se dirige ao tu humano. Jeremias, num primeiro momento, quer “tirar o corpo fora”, porque imagina a oposição que deverá enfrentar por parte do palácio (reis e príncipes), da classe sacerdotal e do “povo da terra”, que detinham, respectivamente, o poder político, religioso e econômico. As palavras que Jeremias deverá falar não serão dele mesmo: “comunica-lhes tudo o que eu te mandar dizer”. Serão palavras de denúncia, apelos de conversão e ameaças de castigo que Deus colocará em sua boca (v. 9). Deus, porém, convida o profeta a não se intimidar, diante da oposição e das ameaças. Vai transformá-lo numa cidade fortificada. Promete estar sempre ao lado de seu profeta para defendê-lo.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 70

Minha boca anunciará todos os dias,

vossas graças incontáveis, ó Senhor.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 12,31–13,13

Permanecem a fé, a esperança e a caridade.

Mas a maior delas é a caridade.

Nos últimos dois domingos ouvimos Paulo falar dos diversos dons ou carismas, existentes na comunidade de Corinto. Explicava que os dons procedem do mesmo Espírito, mais do que um diadema que embeleza uma pessoa são um avental para melhor “lavar os pés”, servindo a comunidade. Assim, judeus e gregos, escravos e livres, unidos pelo mesmo pelo Espírito Santo, formam um só corpo de Cristo. Na leitura de hoje, Paulo esclarece que existe uma hierarquia entre os diversos dons e serviços. Certamente, havia concorrência entre os cristãos a respeito dos dons. Havia quem considerasse seu carisma o mais importante. Paulo explica que nenhum carisma/dom vale alguma coisa sem a caridade, sem o amor. Todos têm seu valor, enquanto acompanhados pelo amor. No presente, os dons mais importantes são a fé, a esperança e a caridade. No futuro existirá apenas a Caridade, o Amor (o Espírito Santo) que nos une como comunidade a Jesus Cristo e a Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 4,18

Foi o Senhor que me mandou boas notícias anunciar;

Ao pobre, a quem está no cativeiro, libertação eu vou proclamar!

3. EVANGELHO: Lc 4,21-30

Jesus, assim como Elias e Eliseu, não é enviado só aos judeus.

Simeão, ao tomar o menino Jesus em seus braços, louvou a Deus e falou, em tom profético, para Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição” (Lc 2,35). Diante da pessoa de Jesus e de sua mensagem não podemos permanecer indiferentes. Ou se é contra, ou a favor. Ficou claro isso na visita de Jesus a Nazaré (3º Domingo) e hoje se repete na fala de Jesus aos conterrâneos. Acolhido por uns, rejeitado por outros, Jesus prossegue corajosamente seu “caminho” (4,30), que o levará à morte na cruz. No início de sua atividade na Galileia é elogiado por todos pela qualidade de seu ensino (4,15): “Eles ficavam admirados de sua doutrina porque sua palavra tinha autoridade” (4,15.32). Mas aos poucos – como o mostra Lucas em seu evangelho – o ensino cheio de sabedoria, as críticas aos sacerdotes, escribas e fariseus, os gestos de misericórdia para com pobres e pecadores, provocam oposição ferrenha contra Jesus, por parte dos adversários. Assim acontecia também nos anos 70, quando Lucas escreve seus dois livros: Evangelho e Atos dos Apóstolos. Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu. Ambos, rejeitados pelo próprio povo e perseguidos em sua terra, são enviados a estrangeiros. Por ocasião de uma grande seca e carestia, Elias foi enviado a Sarepta, na Sidônia, para socorrer uma viúva e seu filho órfão. Eliseu, apesar de haver muitos leprosos em Israel, cura a Naamã, que era da Síria. Ao citar estes dois exemplos, Lucas, por um lado lembra o programa de Jesus anunciado na sinagoga de Nazaré (2º Domingo), por outro lado sinaliza o anúncio da boa-nova aos pagãos, que acontecia em seu tempo. Ao ouvirem as palavras de Jesus, “todos na sinagoga ficaram furiosos” e o expulsaram da cidade ameaçando-o de morte. Jesus, porém, passou no meio deles e “continuou o seu caminho”. Qual é a minha reação diante da boa-nova que Jesus hoje anuncia? Adesão? Rejeição? Ou simples indiferença? Por quê? Há tantos anos me com sidero cristão católico: O que mudou em minha vida? Ao celebrarmos agora a Eucaristia, vamos pedir que Jesus abra nossos ouvidos e nossos olhos para prosseguirmos no seu “caminho” de amor, servindo a todas as pessoas que sofrem.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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